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História Agnosthesia - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo dois: I'm throwing caution


Eu acordei no domingo com aquele frio na barriga que não sentia há muito tempo. Na verdade, acho que me senti assim poucas vezes na vida: na véspera de Natal quando era criança, prestes a ganhar presentes; nos segundos antes de dar meu primeiro beijo; e no momento em que fechei os olhos e respirei fundo antes de olhar meu nome na lista de aprovados do vestibular (eu passei, primeiro lugar — ainda sim, a alegria da realização não foi melhor do que a expectativa que eu senti naqueles breves segundos, por mais irônico que seja). É algo estranho, sabe? Eu sinto tão pouco e ao mesmo tempo em uma intensidade esmagadora: é como a correnteza do fundo de um rio, sempre voraz, mas que raramente afeta a superfície para lembrar a todos de sua magnitude.

Liguei o notebook para ver os números do sorteio, sem saber o que esperava de verdade: será que eu queria mesmo ganhar? Será que eu iria passar perto ou longe? O que mudaria se eu ganhasse mesmo na loteria? Eram muitas perguntas e eu não tinha respostas para nenhuma delas, enquanto isso, me distraía tamborilando os dedos ao ritmo de uma música que andava na minha cabeça nos últimos dias; era “Caution”, do The Killers, e nada me deixava mais inquieta agora do que pensar na letra.

“I'm throwing caution, what's it gonna be? Tonight the winds of change are coming over me”

Era isso que eu queria: uma aventura. Jogar tudo para o alto e viver o agora, da maneira mais intensa possível, mas eu estava sempre tão preocupada com o futuro — como estava agora, antecipando o resultado o sorteio — que me esquecia disso. A página finalmente parecia estar carregando e eu fiz como antes, no resultado do vestibular: fechei os olhos e respirei fundo, sentindo aquele frio na barriga, a ansiedade tão gostosa, até me sentir pronta para abri-los de novo.

06. 13. 23. 37. 42. 54.

Por um momento, eu duvidei dos meus olhos e procurei na escrivaninha o maldito bilhete, tentando ter certeza de que eram mesmo os números que eu havia apostado, e realmente eram: meus olhos subitamente estavam embaçados e eu percebi que estava chorando, rindo e gritando ao mesmo tempo, como se eu tivesse perdido o juízo de vez. Talvez realmente tivesse, não sei: ainda era domingo, e eu teria que aproveitar o período livre na segunda de manhã para ir ao banco e reivindicar meu prêmio, mas por enquanto, teria que esperar, a espera mais dolorida de todas. Hanabi entrou no quarto, preocupada com o que estava acontecendo: — Ei, o que é isso?

— Eu ganhei na loteria, Hanabi. Ganhei, sozinha: dez milhões, dá para acreditar? — nem mesmo o som da minha gargalhada maníaca me fez abaixar o tom — Não conta para ninguém ainda, ‘tá? Eu vou no banco amanhã e resolver isso, até lá, é um segredo só nosso.

(...)

Há algum tempo a Sakura fez uma leitura de tarot para mim que me deixou meio mexida. Eu ainda lembro exatamente das palavras que ela disse, e que às vezes me assombram de madrugada, quando não consigo dormir:

— Essa daqui é você no passado, o Sol: é a carta da positividade, da alegria, da jovialidade, é o otimismo em forma de pessoa. Mas hoje, você é o Enforcado: você está em pausa, seu crescimento está parado enquanto você está presa no que te afunda; para sair desse estado e ir para o próximo, você precisa deixar ir. Só assim você vai conseguir chegar a ser a pessoa que está destinada a ser, a Estrela: uma pessoa que tem esperança e confiança, alguém que tem propósito e vê a vida com olhos renovados. Mas você precisa deixar ir, Hinata.

Eu sou uma pessoa rancorosa, admito. Eu não sou do tipo que perdoa ou que esquece, eu guardo tudo, engarrafo como um vinho caríssimo e deixo maturar nas profundezas do meu coração; mas ao invés de essa fermentação resultar em algo saboroso, o produto final é amargo e não vale nada, nem mesmo minha frustração. Não sei por que faço isso, mas eu faço.

Eu guardo rancor dos meus pais. Guardo rancor dos colegas que praticaram bullying com o Naruto — mesmo ele tendo perdoado-os e seguido em frente com a própria vida, eu os odeio por ele. Guardo rancor do caixa de supermercado que tentou me tapear escaneando propositalmente o preço errado de um produto. Parece insignificante, e realmente é, mas eu sempre guardo tudo isso dentro de mim… É por isso que eu pedi para a Hanabi para não contar para ninguém sobre o prêmio, mesmo eu tendo contado para a Sakura logo depois de ver o bilhete: porque eu sei que meus pais vão querer parte do dinheiro, é claro, e eu não sei se eu quero ceder; parte de mim quer ser a pessoa maior e compartilhar nem que seja um pouquinho dos meus dez milhões (quanto dinheiro, meu Deus!), mas outra parte não quer dar um centavo que seja para eles, e eu sei que essa outra parte é um pouco maior.

Eu me revirei na cama, de um lado para o outro, sem conseguir dormir, olhando vez ou outra para o caderno que eu comprei, e pensando na mensagem que quem o obteve primeiro me deixou. Se eu já não morasse em uma cidade litorânea, eu iria pedir para que, quando acordasse de manhã, estivéssemos do ladinho do mar, e dane-se a geografia, quero ser egoísta também e sê-lo por completo. Era disso que eu precisava: do mar. Saí escondida de casa (eu sou maior de idade, eu sei, mas nunca tenho liberdade nenhuma por aqui) e fui correndo até a praia, que ficava bem longe da minha casa, mas que eu tanto precisava. Eu nadei e nadei loucamente, até deitar na areia e continuar sentindo meu corpo flutuar como se estivesse sendo carregada pelas ondas do mar, o movimento mais reconfortante do mundo.


Notas Finais


A música mencionada no trecho, "Caution", do The Killers, é essa aqui, que também dá título a esse capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=WrpBgN_iUnA

Eu na verdade considerei chamar essa história de "Caution" justamente por causa da música... Quem não conhece, dê uma olhadinha na letra, tenho que dizer que me inspirou tanto na escrita quanto em um sentido mais amplo, para a vida mesmo.


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