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História Agnosthesia - Capítulo 34


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Capítulo 34 - Capítulo trinta e quatro: sing me to sleep


Almoçamos em um restaurante de beira de estrada vagamente suspeito, e eu esperava que meu sistema imune estivesse em ordem e pudesse combater o que quer que aquele ovo cozido pudesse conter… Eu sou terminantemente contra a ideia de que a ignorância é uma bênção, mas acho que era melhor eu não saber o que tinha ali. Depois da história de carne humana em coxinhas, eu não duvido de mais nada, e acho que ficaria mais satisfeita em não saber o que tinha naquele ovo, ou de que animal ele vinha — pelo menos humano não é, como o Naruto fez questão de dizer, subestimando nossos conhecimentos biológicos e me fazendo engasgar com a Coca-Cola.

Depois disso, o Sasuke assumiu o volante para eu tirar um cochilo. Chegaríamos em São Paulo no fim da tarde, e eu estava um pouco cansada depois de dirigir a manhã toda. E, apesar de tudo, eu tinha que admitir que ele era um motorista muito melhor e mais confiante que eu; impossível não ficar nervosa atrás do volante, para mim, mas a confiança que ele tinha em guiar o carro era inspiradora. Quando eu acordei, já era fim de tarde, e o sol estava se pondo no horizonte, os últimos raios alaranjados dando lugar à lua que já estava presente no céu: era isso que eu mais amava sobre o inverno, ver a lua durante o dia, que por mais que parecesse algo banal, para mim era mágico. A lua nunca seria ordinária para mim.

Como ele estava dirigindo, eu o deixei no comando da playlist, e agora estava tocando “Asleep” do The Smiths, bem baixinho. Eu o observei com cuidado, enquanto ele dirigia e murmurava as palavras da letra sem pensar muito sobre isso, e eu percebi o quanto aquele momento era perfeito, melhor que qualquer coisa que a ficção pudesse bolar, e eu não precisei desejar para que simplesmente acontecesse: as melhores coisas da vida, como eu vinha aprendendo nos últimos tempos, eram espontâneas. Esse pequeno instante, que eu sabia que iria doer imensamente quando acabasse de tanta saudade, me fazia sorrir.

— O que foi? — Sasuke perguntou, me despertando para a realidade.

Eu ri, meio sem jeito. Ultimamente eu ria tanto que nem me reconhecia, uma pessoa que geralmente era tão séria e quieta, de repente voltava a rir facilmente… — Nada, nada não.

Ficamos em silêncio por algum tempo, aproveitando o momento. Quando passávamos por trechos rurais, que eram quase que exclusivamente plantações e fazendas, eu me perguntava o que tinha ali, fora do planeta Terra, sabe? O que existia em outros planetas, outras galáxias… O universo era tão vasto que é difícil pensar que estamos sozinhos, seria como as pessoas que moram aqui, longe das cidades grandes, achando que isso é tudo que existe no mundo, como costumava ser antigamente, sem jamais conhecerem outras culturas, outras pessoas, tão distintas…! Minha mente divagava cada vez mais longe nessa ideia tosca, comparando o campo com o universo tão longínquo…

— Você recebeu alguns bilhetes esses tempos, não é? — ele perguntou, me tirando dos meus pensamentos de súbito.

Como ele sabia disso, não sei, na verdade, até imaginava que soubesse se fosse ele o responsável, mas na hora não cheguei a ligar uma coisa com a outra, e só fiquei surpresa. — S-sim, uh… Andei recebendo sim. Como você sabe?

— Porque fui eu quem escrevi.

E eu, como sou terminalmente estúpida, não sabia nem o que dizer e só o encarei com os olhos mais arregalados do mundo e o rosto que passou por todos os tons de vermelho existentes no planeta Terra e mais alguns que acabei inventando, até dizer aquilo que pode ser considerado o ápice da comunicação humana: — Ah…

O Sasuke não aguentou e riu, e dessa vez eu não fazia a mínima ideia do que ele estava pensando de verdade. — É por isso que eu gosto de você, sabia? Porque você não tem filtro nenhum, e fala a primeira coisa que te dá na telha. Você é tão absurdamente honesta, Hinata, que eu nem consigo me sentir ofendido.

— E como você sabia? Quer dizer, como sabia que eu gosto de Smashing Pumpkins? Argh, bem, isso é óbvio, mas Stand Inside Your Love…

— É simplesmente a melhor música romântica de todos os tempos, e eu imaginei que você fosse concordar. Porque não é só sobre o amor, mas sobre fazer de tudo por ele, até às últimas consequências, sabe? Eu sou esse tipo de pessoa.

Eu sabia bem que ele era. Admirava essa ousadia, a audácia em fazer o que ninguém faz, porque eu não sou assim naturalmente, e só depois de muito esforço e trabalho interno consegui ter coragem para me manifestar, para impor minhas opiniões e vontades sem deixar que pisem em mim. O Sasuke não é um capacho por natureza, não: nós somos essencialmente diferentes nesse aspecto e entendo que, embora eu seja feita de ouro e extremamente maleável, ele é feito de ferro e prefere quebrar a se curvar; ambos têm suas vantagens e desvantagens, mas se complementam bem. É por isso que quando se usa tanto o ferro quanto o ouro, se faz ligas, para que consigam se complementar melhor, em harmonia. Mais que isso, eu gostava de como ele se interessava por me conhecer e conseguia me entender, mesmo eu sendo tão críptica às vezes quanto um rabisco na margem de um livro antigo. O Sasuke tomava cuidado em ler o que estava escrito ali e interpretar, e guardar no fundo do seu coração com bastante carinho.


Notas Finais


Saber que essa história está acabando é realmente agridoce...

Playlist Agnosthesia: https://www.youtube.com/playlist?list=PLR0s4_KFNkXpY91Ip3-psF-d7gGCUr4Qt


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