História Agorafobia - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Agorafobia, Autodestruição, Drama, Recomeço, Romance, Superação
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Palavras 865
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 5 - Capítulo 4 - Pães Caseiros


No dia seguinte ao acidente de Júlia eu estou desesperada. Caminho de um lado pro outra da casa sem saber o que fazer, minha mãe não me ligou, assim como Ellen e Beatriz, minha cunhada, mãe e irmã permanecem em um silêncio assustador. Balanço o celular na mão e o encaro repetidas vezes, cogito ir visitá-la, mas fico em pânico apenas com a possibilidade de sair de casa.

A campanhinha toca às 9 em ponto, imagino que seja a sra. Ranger chegando mais cedo então corro para atender a porta. Meus olhos se arregalam e penso que só pode ser uma grande piada do destino.

- Olá - digo.

- Oi - ele responde, o sotaque é carregado e ele se enrola em algumas palavras. Fico parada segurando a porta aguardando que ele fale algo, mas ele continua em silêncio.

- Então - começo -, o que faz aqui?

Ele me observa, um brilho divertido nos olhos que me incomoda.

- Vim te trazer isso - ele me estende uma tigela de vidro com um pano de prato por cima.

- O que é?

- Pães caseiros - ele dá de ombros -, de onde venho presenteamos os novos vizinhos com pães.

Arqueio a sobrancelha.

- É como se fosse um sinal de boa fé - Ele dá de ombros. - Como se disséssemos “viemos em paz”.

- Pela minha experiência quando dizem “viemos em paz”, quer dizer qualquer coisa menos que têm boas intenções.

- Acho que você anda assistindo muitos filmes sobre alienígenas.

Eu sorrio. Um sorriso verdadeiro, um que não dou a tempos.

- Quer é entrar? - Me pego dizendo.

Eu dou licença do caminho para que ele possa entrar, ele me encara por alguns instantes, passa por mim e entra na minha sala de estar.

Eu permaneço parada à porta, o observando. Faz muito tempo desde que um desconhecido esteve nesse lugar, nem sei ao certo porque o convidei.

- Então… você mora sozinha? - Ele pergunta depois de um longo silêncio, seu olhar dança entre as poltronas coloridas.

- Moro - respondo caminhando até o sofá marrom ao lado da poltrona onde ele está. - E você?

- Eu também.

- Não é casado? - pergunto.

- Não. Nunca fui - ele dá de ombros - E você?

- Não - Me forço a dizer, a frase que vem a seguir quase me faz engasgar: - Eu não sou casada.

Seus olhos recaem sobre minha mão, acompanho seu olhar e percebo que ele encara a aliança de ouro puro adornada com diamantes em meu dedo. Escondo minha mão atrás de meu corpo e por um longo momento permanecemos em silêncio.

- Eu fui casada - digo finalmente.

- E o que ouve?

Abro a boca para responder mas paro, o que realmente houve? Eles morreram em um acidente de carro, mas por quê? Nunca descobri se realmente foi um acidente, nunca descobri o que ele estava indo fazer, jamais soube por que ele tinha levado Nicolas. Eu não sei o que aconteceu.

- A vida aconteceu - Me limito a dizer.

Um silêncio se instala na sala, não o tipo de silêncio incômodo que não sabemos como quebrar, mas um silêncio confortável, até mesmo bem-vindo.

- A vida sempre acontece - Ele diz após alguns minutos - Antes não acontecesse.

- Então, de onde você é? - pergunto.

- De uma pequena cidade do sul da Espanha - ele responde - E você?

- Daqui mesmo. Nascida e criada.

- Nunca saiu do Brasil?

- Na verdade já, fiz um mochilão pelo mundo há alguns anos. 1 ano e meio, 6 continentes, 103 países.

- Uau. É preciso muito coragem. Foi sozinha? - ele pergunta sorrindo.

- Não, fui com meu melhor amigo. Na verdade estava morrendo de medo, se não fosse por ele nunca teria ido.

Encaro a foto da Lucas pendurada na parede enquanto sorrio, lembranças de outra época inundam minha mente. Uma época em que tudo era muito fácil e simples, uma época em que dor, tristeza e desespero só existiam nas histórias que inventava.

O olhar de Bernardo acompanha o meu, e ele também encara a foto por alguns segundos.

- O que aconteceu com ele?

Fico tentada a encerrar aquela conversa, uma conversa cheia de perguntas dolorosas e silêncios constrangedores. Mas algo no olhar que Bernardo me lança me faz respondê-lo.

- Ele morreu, há 5 anos.

- Sinto muito - Ele diz - Ele era seu marido?

- Era.

Penso que ele dirá mais uma frase genérica sobre como sente muito, mas em vez disso ele me olha nos olhos e diz:

- Minha noiva morreu há pouco mais de um ano. Num atentado em Paris. E o seu marido?

- Acidente de carro.

Eu o encaro - ultimamente ando encarando muito as pessoas -, sem saber ao certo o que dizer, mal conheço o homem à minha frente e mesmo assim aqui estamos nós, compartilhando lembranças dolorosas.

Então eu sorrio, porque a muito não tenho uma conversa profunda com desconhecido. Desisto de mandá-lo embora, em vez disso ofereço a ele meu melhor sorriso e digo:

- Gosta de chocolate quente?

- Eu amo.

Meu coração se enche com um mix de sentimentos que há muito tempo não sentia.

- Com marshmellow ou creme doce?

- Os dois por favor - Ele pede.

Então, pela primeira vez em 5 anos, faço dois chocolates com marshmallow e creme.



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