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História Água Viva - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Quinhentos milhões de anos atrás


 

Talvez eu devesse ter sido rude.

Talvez eu devesse ter sido um pouco mais intransigente.

Um pouco mais agressivo.

Grosseiro.

Um pouco mais... fora de mim.

—... quinhentos milhões de anos atrás, apareceu a água-viva. Provavelmente um dos primeiros predadores multicelulares da Terra. A maior parte dos milhares de espécies tem a forma de um pires. Um grupo, porém, tem a forma de um cubo com tentáculos saindo de cada um dos quatro cantos. Trata-se da vespa-do-mar. A maioria das águas-vivas…

Talvez eu devesse ter aberto mão da minha máscara fria e colocado uma mais efervescente. Talvez eu devesse ter sido um pouco mais incisivo ou usado do meu sarcasmo com pouca prudência, o suficiente para que eu fosse compreendido.

Deveria ter escondido menos a forma como eu senti raiva e impaciência. Deveria escondido bem menos o quanto eu quis dizer o que eu realmente quis dizer.

Estou sempre engolindo todas as minhas palavras e depois fico sem saber como podia ter sido se tudo fosse diferente. Se por um instante eu tivesse sido algo que eu não sou normalmente. Se eu tivesse dito a resposta que veio primeiro em vez de ter pensado duas vezes e apagado o que escrevi. Talvez eu não estivesse aqui pensando, mais uma vez, se eu fiz algo de errado.

—... acompanha a corrente sem destino, sem rumo e sem causar mal. Mas a vespa-do-mar é totalmente diferente. Ela não acompanha a corrente. Ela nada tão rápido quanto você e pode matar.

Eu aumento o volume da televisão para que o documentário possa sobrepujar minha ansiedade com suas informações, mas me sinto irrequieto demais mesmo tentando com muito afinco prestar atenção no que o narrador descreve.

Finalmente me canso. Resignado, me ergo e caminho até a cozinha, meus passos sendo abafados pelas meias que continuo usando apesar de saber que precisavam estar de molho no tanque de lavar.

Na cozinha, encho um copo com água e depois molho a mão sob o jato que sai da torneira para em seguida esfregá-la sobre o rosto quente e oleoso. Bebo a água e fico parado no meio do ambiente, escutando a voz do repórter.

—... você entra em agonia. O veneno dispara em direção do sistema nervoso central e coração. Uma picada fatal pode…

Eu alcanço o pano de prato sobre o micro-ondas e me seco. Me apoio na bancada e respiro fundo.

—... com uma dor inexplicável no corpo inteiro sem apresentar uma marca sequer. É o disfarce perfeito para o crime perfeito. Jamie suspeita que…

Por que escolho o silêncio em vez de palavras quando tudo o que eu mais quero é interromper esta calmaria, esta quietude que não me traz paz? Por que escolho me esconder quando quero aparecer? Por que ficar desse jeito quando eu quero me expressar e me perder em minhas emoções mais afloradas?

Ter dito ou não ter dito; o meu problema está sempre naquilo que escolho não dizer para não magoar alguém. Para não causar desconforto. Para não me passar por uma pessoa que precisa aprender a segurar a boca. Para não ser alguém impulsivo e não atingir ninguém ao meu redor.

No final das contas, eu acabo me machucando e, arrisco dizer, no lugar da pessoa que deveria sair ferida.

Eu escuto o celular vibrar e tocar a notificação tão familiar para mim. Tinha selecionado até um som especial para que eu soubesse que era ele do outro lado me mandando uma mensagem. Assim eu saberia com muito mais rapidez se eu precisava me dar o trabalho de verificar o aparelho. Mas desta vez eu hesito antes de alcançá-lo, como venho fazendo nos últimos dias, e espero um longo período para responder porque estou emaranhado neste diz-e-não-diz que não se interrompe em meus pensamentos.

Quando finalmente decido olhar, está tarde.

—... finalmente, detetive e assassino se encontram. Esse pontinho branco e furtivo é a irukandji. Pela primeira vez, a irukandji é filmada na natureza. Depois, mais um avanço: a irukandji digere um peixe. Até que enfim uma forma de sua presa e talvez a razão para seu potente veneno…

Eu espio através da barra de notificações e sinto o coração bater contra a minha caixa torácica. Meu rosto esquenta sem qualquer razão e sinto um frio percorrer meus braços.

Estou sempre reagindo assim por antecipação. E eu sequer tinha conseguido olhar o que havia recebido.


Johnny [18:58]:
Aconteceu alguma coisa?

 

O fluxo dos meus pensamentos, assim como uma corrente que leva cardumes, muda de direção e espirala para emoções mais tristes e confusas. Estou me criticando. Estou me cobrando. E estou me perguntando por que eu sou assim.

Por quê?

As mensagens anteriores a esta datam quatro dias atrás. E eram mensagens dele, visualizadas e não respondidas por mim.

Por quê?

Eu clico na mensagem e a leio, releio e a decoro. Eu saio e volto no aplicativo tantas vezes que chega a ser ridículo e completamente desnecessário.


Johnny [19:13]:
Faz tempo que não tenho notícias suas
Estou começando a achar que está me evitando


Johnny [19:14]:
Só queria saber se está tudo bem


Johnny [19:18]:
Mas vou entender se não quiser conversar

 

Eu decido que é melhor deixar o celular de lado e mudo de canal na televisão. Tomo um banho, troco as roupas por limpas e preparo um café com leite. A mensagem visualizada pende na minha cabeça como um grande post-it brilhante e eu fico pensando nela como um obcecado.

— É melhor eu responder logo — eu decido por fim para solucionar minha ansiedade.

E então eu perco a coragem e não respondo. Porque de repente fico sentindo outras coisas confusas e diferentes que nunca querem me dizer nada, embora me façam ter esses embaraços difíceis de me livrar. Será que eu devia incomodá-lo com minhas conversas tediosas? O que direi após falar sobre meu dia? O que direi sobre estar me sentindo mal? E por que isso deveria ser tão difícil?

Você já não tinha superado essas coisas?

A minha resposta fica para o dia seguinte.

E também não fica porque ainda não consigo responder à mensagem que está suspensa.

Eu escrevo e reescrevo no bloco de notas, mas percebo que é inútil. Por que eu deveria ter tanto empenho? Por que deveria inventar tantas desculpas? Por que deveria estar me justificando?

E se ele está chateado de qualquer forma? E se eu apenas incomodá-lo? E se ele me considerar um perfeito idiota por simplesmente achar que vou e volto quando simplesmente entendo, sem qualquer explicação? E se ele pensar que não estou sendo razoável ao me silenciar, desaparecer e me achar no direito de reaparecer como se nada tivesse acontecido?

Encontro-me sem assunto e sem a devida coragem.

E a resposta novamente fica para o outro dia.

Talvez fosse melhor que ele não tivesse uma presença como a minha na vida dele. Talvez fosse melhor mesmo que nos afastássemos. Ele merece uma pessoa melhor. Alguém que possa dar atenção a ele sem qualquer receio, sem se preocupar a todo momento como estou fazendo exatamente agora. Sem ter que ficar dando pausas antes de escrever uma maldita mensagem.

Talvez ele se sinta melhor quando não estou por perto porque eu estou sempre com essas minhas aflições e não tenho mais nada que possa mantê-lo interessado.

Talvez seja melhor assim.

 

E pode ser que ele esteja apenas esperando que eu dê sinal de vida. Pode ser que ele esteja pensando “não vou atrás. Se ele realmente quisesse falar comigo, ele já teria vindo” como qualquer outra pessoa em sã consciência faria. Claro, se eu realmente estivesse interessado era isso o que eu faria.

Certo?

 

Talvez ele que não queira me incomodar porque estou em meu pior humor. E ele já sabe como eu sou. Provavelmente ele quer que eu diga quando estou bem para conversar. Ele ainda está esperando a resposta para poder voltar a falar comigo. Está esperando que eu lhe dê o sinal para que ele possa retornar.

Talvez.

 

São oito horas da noite e eu sinto meu estômago doer. Já vaguei pelos cômodos vazios da casa e não encontro mais prazer em nada do que eu costumo gostar de fazer. O celular está sobre a bancada e ele parece sussurrar na minha nuca o quanto ele quer que eu faça o que precisa ser feito.

Mande logo uma mensagem para ele. Procure algo que te faça se lembrar dele e apenas envie. Você não precisa complicar demais as coisas.

E eu procuro. Procuro. E perco horas procurando.

No entanto, não consigo encontrar a coragem que me falta.

A resposta é escrita e reescrita e eu fico sem saber como eu deveria ser.

Será que eu deveria pedir desculpas?

Eu escuto a campainha e vou buscar uma camiseta para vestir antes de atender à porta. E no caminho de volta para a sala, no súbito de ânimo que me acomete, envio uma mensagem.


Jaehyun [22:03]:
Oi, desculpe ter sumido
Andei ocupado
Mas estou bem agora
Não estou te evitando

 

Eu deixo o celular no sofá. Quando abro a porta, sou surpreendido por Johnny e por sua cara emburrada e iluminada pela luz da tela do celular. A julgar por seus trajes, ele acabou de sair da aula e pegou o primeiro metrô para vir até a minha casa. Está vestindo um grosso casaco e cachecol, a ponta do nariz ligeiramente vermelha por causa do frio. Os cabelos escuros estão escondidos debaixo do boné com a aba virada para trás e me pergunto como como ele pode fazer tanto comigo não fazendo absolutamente nada.

Sua expressão fechada é substituída por uma mais suave enquanto ergue um par de sacolas que só podem significar uma coisa: comida.

— Eu trouxe nosso jantar.

— Oi — eu digo timidamente e o deixo entrar.

Ele provavelmente está com sono e cansado, mas ele decidiu aparecer à minha porta. Para ver como é que eu estava. Porque eu não respondi sua simples mensagem.

Diante deste último pensamento, quase cedo à tentação de me sentir mal de novo, mas eu me repreendo. Johnny está ali, no final das contas. Por que eu deveria complicar isso também?

— Estava com fome e sua casa estava mais perto que a minha — ele dizia enquanto colocava as sacolas na bancada para poder se desvencilhar da mochila, do casaco que o cobria até os joelhos e do cachecol.

Eu servi a mesa enquanto ele ia ao banheiro e abaixei o volume da televisão que ainda estava ligada para seu único propósito: não me deixar enlouquecer com a quietude do meu apartamento.

— Você deve estar cansado — comentei quando ele se sentou e começou a se servir sem me olhar demoradamente uma única vez. Eu mereço, pensei enquanto absorvia cada detalhe do rosto dele sob a luz da cozinha.

— Estou mesmo — respirou fundo e empurrou os óculos para cima de sua cabeça a fim de conseguir comer sem que o vapor da comida embaçasse as lentes. — Hoje foi minha última prova, pelo menos. Vou ter algum descanso esse final de semana.

— Isso é bom.

E tranquilamente voltamos a conversar amigavelmente, como se eu sequer tivesse sofrido uma crise por uma coisa tão boba como uma troca de mensagens. Johnny estava ali e eu também, sem precisar pensar demais a respeito. Era natural e era leve, como se eu jamais tivesse hesitado.

Quando terminamos o jantar, eu sugeri que ele ficasse para ver um filme comigo, mas ele disse que já estava tarde e precisava chegar à estação no horário para conseguir pegar o metrô de volta para casa.

— Você pode passar a noite aqui, se quiser — eu ofereço.

— Amanhã cedo eu preciso trabalhar. Fica para outro dia.

Ele se despede e fico com uma sensação de peso no peito. Um desconforto que demora um pouco para ir embora.

No dia seguinte, eu decido mandar a mensagem que rompe com meu comportamento dos últimos dias.


Jaehyun [07:02]:
Bom dia
Podemos marcar algo para este final de semana?


Johnny [07:35]:
Sim
Podemos sair ou ficar na sua casa para ver o filme que você queria ver ontem

 

E como se as coisas entre nós nunca tivessem sido enroladas em vários nós, como eu tinha feito sozinho em minha própria cabeça, caí de volta à rotina de mandar mensagens para Johnny. Várias vezes por dia. Com vários assuntos porque de repente eu me lembrava de todas as coisas que eu queria contar a ele. Falei até mesmo sobre o documentário de águas-vivas que eu tinha visto.

— É incrível como algo tão pequenino possa ser tão venenoso e mortal — comentei enquanto estávamos num pequeno restaurante, jantando, na noite de sábado.

— Por que esse interesse por águas-vivas de repente? — Johnny quis saber.

— Não sei. Estava passando o documentário e eu resolvi assistir.

— E foi só isso?

Eu parei e voltei a mexer no prato com um pouco menos de energia.

— O que quer dizer com isso?

— Não sei — ele balançou os ombros e tomou uma colherada generosa de sua sopa. — Você de repente começou a se identificar com a água-viva?

— Em que sentido?

— Como se você fosse ferir alguém. Existe um jeito certo de conseguir pegar uma água-viva para não ser ferido por uma.

— Está querendo dizer que fico machucando os outros quando não sabem lidar comigo? — argumentei, sem muita coragem de olhar para Johnny naquele momento.

— Estou querendo dizer que você próprio tem medo de parecer uma água-viva. Medo de machucar quando alguém fica sabendo onde é que te dói. Como se as outras pessoas não pudessem aguentar isso.

Eu fico em silêncio e coço a nuca, completamente sem jeito. Quando Johnny chama novamente, eu o olho finalmente e ele está sério, porém não exprime qualquer sinal de julgamento. Sinceramente, eu acho que o preferia me desaprovando do que sendo compreensivo. Doeria menos. Pesaria menos.

— É só que… — eu começo, mas não sei como continuar. E levo um bom tempo até prosseguir da maneira como me vinham as palavras. — É só que parece muito ruim quando tenho meus momentos difíceis porque não sei lidar de um jeito muito bom com eles. Eu escolho ficar quieto, sozinho, porque é o que eu acho melhor a ser feito. Vai passar e tudo mais.

— Mas você se isola demais quando faz isso — observou.

— Porque eu tenho medo de que as pessoas escolham ir embora e não faço ideia de como consertar isso — admito num só fôlego. Percebo minha mão se fechar em punho e largo o talher de lado, pressentindo que aquele seria um péssimo diálogo a ser continuado. Por mais que fosse ótimo falar sobre esse problema, eu sempre me sentia andando em círculos. Porque eu sentia que estava dando mais um fardo para a outra pessoa que decidia conviver comigo. E isso não era justo. — E eu estou sendo egoísta, sabe? Estou sendo um completo egoísta por dizer que preciso desse momento sozinho e então voltar ao normal como se nada tivesse acontecido. Estou só dizendo pra você aceitar como eu sou e isso é estúpido.

— Não é estúpido…

— É sim — contra-ataquei, visivelmente alterado. — Não percebe? Eu faço isso o tempo todo e ainda quero parecer bom quando, na verdade, estou sendo um egoísta.

— Quem disse isso a você, hein?

— Johnny, admita honestamente.

— Tudo bem — ele afastou o prato e fez um gesto de rendição. — É chato quando você se isola, não decide falar com ninguém e insiste em ser um cabeça-dura, mas eu também tenho meus momentos ruins e sei que também preciso do meu momento sozinho.

— Não se trata apenas disso. Se trata de que eu não pareço realmente gostar das pessoas. Não pareço fazer nada em troca por elas. Parece que nunca estou oferecendo o certo, o que elas realmente precisam. Eu sempre sinto que faço demais, mas esse “demais” não é o essencial. Não é o mais importante. E eu não sei o que é o mais importante. E eu sou um completo egoísta porque eu simplesmente acho que sei o que estou fazendo, mas eu não sei! — suspirei. — E eu sei que as pessoas vão me abandonar por causa disso. Porque as pessoas têm amor-próprio. Elas vão saber que eu sou péssimo nesse tipo de coisa e vão se cansar eventualmente. A gente já pode ir pra casa? — me levantei.

Johnny ficou sentado e parado, os cotovelos sobre a mesa. Respirou fundo antes de desistir e também sair da mesa, provavelmente entendendo que eu não estava mais com vontade de permanecer naquele espaço.

Não falamos muito no caminho da volta até à estação. Quando estávamos no metrô, Johnny se esgueirou mais para o meu lado e senti quando ele apoiou o corpo no meu. Eu desviei minha atenção da janela para olhar para o perfil bonito de seu rosto. Não conseguia encontrar as palavras para dizer a ele e que fariam fazê-lo entender a angústia que eu sentia.

Deixei o assunto para lá. E Johnny deve ter pensado o mesmo porque não retornou a falar sobre isso. Quando eu senti uma leve pressão e suaves batidinhas em meu pulso, vi que ele estava querendo segurar a minha mão e eu ainda estava a mantendo fechada sobre a minha perna. Quietamente, eu permiti que ele a segurasse e entrelaçasse os dedos aos meus.

Ele não foi para o apartamento dele e em vez disso seguiu para o meu junto comigo, sem me dar qualquer explicação. Estava cansado demais para impedi-lo e só o deixei à vontade para fazer o que bem entendesse.

— Você quer ver o filme? — perguntei depois, vendo-o mexer no celular enquanto estava deitado no sofá.

— Pode ser.

Coloquei o filme e Johnny já estava dormindo quinze minutos depois porque ele era assim: não aguentava assistir filmes à noite e muito menos qualquer um que fosse longo demais. Seus filmes preferidos sempre foram os infantis porque eram coloridos e engraçados, que conseguiam prender sua atenção por mais do que dez minutos. Me pergunto como ele conseguiu se aproximar de alguém como eu, que não tem nada de colorido nem de muito engraçado, que oscila de humor tanto quanto as estações do ano.

Eu desliguei a televisão quando o filme terminou e fui até o quarto para buscar um cobertor e um travesseiro. Não estava com coragem para acordar Johnny, mas não precisei fazer qualquer esforço: antes que eu pudesse sair do quarto, lá estava ele à porta, coçando os olhos e andando grogue na direção da minha cama.

— Eu não vou dormir na sua sala — resmungou enquanto se enfiava debaixo do edredom e se arrastava até estar deitado no lado colado à parede.

E lá ele ficou, me deixando sem qualquer escolha a não ser ocupar o outro lado da cama.

— Estou com frio — continuou a resmungar.

— Você acabou de se enfiar aí, fique um pouco quieto — sussurrei e puxei o celular para olhar as redes sociais um pouco.

— Jaehyun?

— O que foi?

Deixei o celular na cômoda e me virei para olhá-lo e entender o que ele queria, mas Johnny estava com as pálpebras fechadas. Seus braços vieram cegamente ao meu encontro e eu o abracei da maneira que dava para que ficasse confortável para ambos.

— Eu estou com frio — ele repetiu numa voz ainda mais baixa.

— Você sempre está com frio — murmurei contra seus cabelos.

— Para uma pessoa que se considera fria, você é bem quentinho.

Eu rolei os olhos e ri de seu comentário completamente absurdo.

— Eu gosto de abraçar você, já te disse isso alguma vez?

— Não — respondi com um nó na garganta, o rosto quente devido ao constrangimento.

— Você não precisa ter medo de mostrar o que sente para mim, ok?

— Johnny…

— Eu entendo que é difícil e assustador, mas se eu escolho ficar, isso é problema meu, certo?

— O problema é que você não sabe se vai escolher ficar.

— Você não é como uma água-viva. Não vai matar nem machucar ninguém. Você é bom. É cuidadoso. Você se importa, sim, mesmo você achando que não. Você não quer me mostrar suas emoções ruins porque ainda não sabe pedir desculpas. Mas você vai conseguir aprender. Você precisa aprender a confiar em mim.

Eu respiro fundo. Acho que já tinha escutado isso antes umas mil vezes.

— Eu só queria te dizer isso… — ele murmurou e eu não consegui respondê-lo, incerto sobre o que eu deveria fazer.

Não queria concordar nem queria discordar. Admitia que ele estava certo, mas ao mesmo tempo não conseguia me permitir ser dominado de imediato por aquelas palavras. É como se estivesse lendo um manual de instruções em outra língua e conhecesse muito pouco do idioma estrangeiro. É como se toda a coisa fosse fácil, mas eu ainda não conseguisse enxergar o verdadeiro como fazer.

Sempre gostei de como Johnny conseguia ser tão espontâneo. Como ele podia dizer livremente os seus pensamentos e sentimentos, além de saber como fazer com que o que saía de sua boca pudesse ser congruente com tudo aquilo que vivia dentro dele. Eu tinha certa inveja dessa sua capacidade, pois ele fazia tudo ser tão descomplicado e eu gostaria de ter tal habilidade. Mas eu não tinha. E eu não sabia como aprender, pois era como se eu precisasse aprender a andar novamente. Refazer todos os passos do meu crescimento. Nascer de novo.

— Você está pensando demais de novo, não é? — Johnny murmurou e eu podia adivinhar que ele estava sorrindo presunçosamente.

— Não sei como fazer isso parar sem que eu esteja morto.

Johnny então se içou na cama e me arrastou para baixo de seu corpo quente. Senti sua boca colar ao meu pescoço e respirei fundo, fechando os olhos.

— Será que um dia essas sensações passam ou é graças a elas que somos o que somos? — eu sussurro, incerto sobre estar sendo ouvido porque Johnny facilmente pegava no sono quando estava confortável o suficiente para isso.

Minha resposta veio através do resmungo dele e do seu aperto nas minhas costas. Eu arfei de leve, sempre despreparado diante de sua força quando ele decidia me prender entre seus braços. Eu sabia perfeitamente como os bichos de pelúcia de Johnny se sentiam cada vez que ele decidia dormir na minha casa.

— Você se lembra de quando você… — ele começou, sua voz abafada. — Ficou à frente de oitenta pessoas para explicar sobre como o estresse impacta a saúde física e psicológica?

— Lembro.

— Naquele momento, você estava sentindo alguma dessas sensações?

— Não.

— Estava tendo algum pensamento louco que te faz querer morrer?

Eu ri.

— Não.

— Então essas sensações passam, sim. Eventualmente. A vida é uma sequência de dias tristes e felizes, que duram exatamente vinte e quatro horas. Melhor se acostumar com a ideia. Alguns dias você pensa nessa merda e em outros você simplesmente guarda isso numa caixa e deixa pra lá. Não vai desaparecer, pois faz parte, sim, de você. A diferença é que vai ter um dia em que você só vai conseguir ter uma vaga lembrança de como isso costumava te afetar e vai ter nas mãos um jeito melhor de atravessar seus conflitos internos. E, é claro, que estou me referindo a não ficar sozinho e pedir ajuda.

Eu aquiesci e fechei os olhos, finalmente me sentindo menos absurdo dentro da minha própria existência.

— Gosto quando você entra na minha vibe e começa a falar assim comigo.

Johnny riu e depositou um beijo suave na minha bochecha.

— Anytime, baby.

 



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