História Al Fine - Capítulo 3


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Bangtan Boys, High School, Jimin, Lemon, Suga, Sugamin, Yaoi, Yoongi, Yoonmin
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Palavras 3.665
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Slash, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


bom, não tenho nada para falar aqui, então bora

Capítulo 3 - Um



1.
 
É 9 de março, onze e vinte da manhã. Há exatos dezessete anos atrás eu estava sendo arrancado das entranhas de minha omma depois de uma cirurgia que durou doze horas. Os médicos disseram que eu estava encaixado para nascer de parto normal e que omma tinha a dilatação ideal, mas o cordão umbilical dera voltas em meu pescoço, ancorando-me no útero. Se os médicos tentassem me puxar para fora, ele apertaria e eu morreria sufocado.
 
Ainda bem que ninguém teve a ideia de filmar o parto. As pessoas tentam fazer com que uma cesariana seja um evento delicado, cheio de fofura e adoração, mas a verdade é que há todo aquele sangue viscoso e fluidos escorrendo, e uma forma flácida e roxa se debatendo nas mãos enluvadas do cirurgião, uma forma que sequer se parece com alguma coisa.
 
Embora o verão esteja chegando ao fim, ainda faz calor. Meu quarto está abafado, é pequeno e entediante e não há nada mais interessante para se fazer a esta hora da manhã a não ser brincar de acender um velho isqueiro. Embaixo dele está escrito made in china. Mas o fogo é o fogo em qualquer lugar do mundo, imutável. E, na verdade, quase todas as merdas hoje em dia vêm do outro lado do oceano, como eu.
 
Mas este isqueiro é legítimo. Ele sempre será um isqueiro made in china. Eu não sou porra nenhuma, não sou coreano, nem brasileiro, nem adulto, nem criança, não gosto de vento nem de calor.  
 
Aperto o pistão do isqueiro. Vrum. O fogo sobre. O fogo tem vida própria. Ele nasce e explode e estala e consome como algo vivo, como uma fome voraz.
 
Vrum.
 
Como eram os olhos dela? Todo mundo dizia que os meus são iguais. Já não tenho certeza, eu mudei. Aquelas bochechas rechonchudas que pressionavam meus olhos para cima estão mais magras, sofisticadas. Não encontro mais o rosto de minha omma quando olho para mim mesmo.
 
Vrum.
 
Não existe mais vestígios do garoto que omma ensinava a tocar no piano de cauda. O que ela teria dito no dia em que cheguei em casa, com ambas as orelhas perfuradas por piercings?
 
Vrum.
 
Como podemos esquecer o rosto de nossa própria mãe? O cheiro dela, de manteiga e trigo, era mesmo só isso? Não tinha um traço de rosas-de-saron, ou minha memória está acrescentando detalhes à minha revelia? Como o cabelo dela ficava quando ela inclinava a cabeça para o lado quando estava com raiva?
 
Vrum.
 
As unhas dela. Eram quadradas, rosadas nas extremidades. Mãos bonitas, como as minhas?
 
Vrum.
 
Ela era mais alta que eu. Mas e agora? Se eu a abraçasse agora, sua cabeça se aninharia em meu pescoço, ou em meu peito? Ela era mais baixa que harabeoji e harabeoji bate em meu ombro.
 
Vrum.
 
Eu a estou esquecendo.
 
É sábado. Harabeoji acordou cedo para ir à loja. Nossa pequena casa está quieta e árida, como minha respiração. As janelas do quarto estão fechadas e, como ficam exatamente na frente da minha cama, onde passo a maior parte do tempo sentado e fumando quando estou em casa, olho meu reflexo pelo vidro.
 
A chama alaranjada do isqueiro dança diante do meu rosto, até que eu assopre, extinguindo-a. O ar cheira a fumaça. Eu a inalo, de olhos fechados e, quando os abro, encaro o Min Yoongi de 17 anos, os cabelos pintados de loiro quase branco são fartos, lisos como fios de seda. Seu queixo forma um V sutil com as mandíbulas. Ele é um contraste indiscreto, roupas escuras contra pele branca, alguém que luta para não se desintegrar. Seus olhos são apertados, mas são tão expressivos que parecem tomar seu rosto inteiro como uma marca de nascença. Dois traços curvados e negros sobre as bochechas pálidas. Ele parece dormir, embora esteja dolorosamente acordado.
 
Respiro o ar amargo por entre os lábios entreabertos, tragando a solidão do meu quarto.
 
É quase hora do almoço quando o carteiro grita lá embaixo. A família que aluga o sobrado para nós não gosta que nossa correspondência se misture com a deles, então desço descalço para apanhá-la.  Contas. Panfletos. Uma carta de amor. Subo com tudo de volta para meu colchão duro e me encosto outra vez na parede. Apanho o isqueiro. Começo a queimar a carta de amor. As contas são de harabeoji, então vou poupá-las, evidentemente. 
 
Com a proximidade do fim desde ano e, finalmente, o encerramento de uma tortuosa vida estudantil, as cartas de amor estão na moda. Elas voltaram, como casacos vintage e pin ups e são uma espécie de febre, como pop coreano, suicídio e tumblr. Todas as garotas que esperaram uma vida inteira para se declarar estão criando coragem e abrindo seus corações. Quando recebi a primeira carta, na segunda semana de aula do terceiro ano, só conseguia pensar, com raiva indiscriminada: como essa garota descobriu meu endereço?
 
As cartas chegavam com selos. Eram perfumadas, cheiros fortes que me davam dor-de-cabeça, mas eu reconhecia cada um deles. O cheiro do perfume importando da Mariana, a garota que sentava na minha fileira, três carteiras para frente. O cheiro de baunilha do hidratante labial da Amanda, uma garota do oitavo ano que tendia a rir alto e tropeçar em meus joelhos nos intervalos entre as aulas. E o cheiro da Alice, que eu não sabia o que era, mas flutuava para fora de sua mochila quando ela a abria para pegar o material. Ela senta do meu lado.
 
Foi a única carta que abri. Acho que o motivo é que Alice não é como as outras garotas, em nenhum sentido. Ela tem a pele cor de caramelo escuro e prende o cabelo crespo no alto da cabeça. As pontas são pintadas de loiro queimado. Ela tem sardas no nariz pequeno e uma boca carnuda. Ela usa coturnos e blusas folgadas, tem cílios muito compridos de boneca e anda com garotos.
 
No ano passado, na viagem que a escola promoveu durante as férias, ela conversou comigo durante uma hora inteira sobre filmes franceses e Sacha Sperling. Eu fui ao banheiro e, quando voltei, ela me empurrou contra uma parede e disse que queria me beijar. Ela me beijou e tentou abrir minha calça. Tinha gente demais ao redor e ela desistiu. Depois disso, pensei nela durante o banho, mas o que me vinha na cabeça não era o gosto de vodka com uva de sua língua ou a forma como sua pele parecia macia contra a minha boca, eram os coturnos.
 
Nenhuma delas era de Jimin, e eu já tinha desistido de esperar que ele voltasse a falar comigo. Mais ou menos um mês depois que minha omma morreu, o pai de Jimin o matriculou numa escola militar no interior do estado. Pelo que Jimin me contou, era uma ótima escola e ele precisava de disciplina. Eu ri o tempo todo em que ele falava, tão de saco cheio de ouvir as palavras do pai dele através de sua voz. Nós não nos despedimos direito, não nos abraçamos ou choramos ou trocamos xingamentos de garoto. Jimin guardou o material na mochila enquanto dizia:
 
“Até sei lá quando.”
 
E eu respondi:
 
“Dane-se.”
 
As coisas nunca mais seriam as mesmas depois do incêndio. Depois do dia do velório de omma, quando algo enfim acabou ou começou em mim. Depois que olhei para Jimin após a briga com Julian, Dimitri e Biel e vi nos olhos dele o que não imaginei encontrar ali. Não em Jimin.
 
Pena. Medo. Compaixão.
 
Então, eu segui sozinho. Achei que seria difícil agora que não haveria mais Jimin para ser espancado em meu lugar, mas, depois de meia dúzia de brigas em que Julian simplesmente me batia e eu apanhava em silêncio, ele perdeu o interesse. E então, tínhamos treze anos, e quatorze, e quinze, e o mundo estava girando tão depressa debaixo de nossos tênis que não havia tempo para se gastar com uma única coisa a vida inteira. E Julian já não me perseguia e eu não me importava quando ele entrava na sala e me encontrava dormindo nos intervalos. No oitavo ano, Julian fez um trabalho de biologia em dupla comigo. Eu fui à casa dele e a mãe dele pediu pizza para o almoço e, na hora de voltar para casa, ele andou comigo até a entrada do metrô.
 
E Jimin, assim como minha omma e as oito melhores escolas de música do mundo, ficou em outra vida.  
 
O fogo lambeu os ângulos do envelope, formando flores negras nas extremidades do papel. As cinzas se espalharam pelo meu colo. Peguei os panfletos. A pizzaria da esquina, a lavanderia no outro quarteirão e o restaurante mexicano que estava oferecendo almoço com 50% de desconto desfizeram-se em pó em cima das minhas coxas. Então, peguei um cujas palavras estavam em inglês.  E não era um panfleto. Era uma página impressa de internet, dobrada ao meio.
 
Meu inglês era bom, desde que o Liceu oferecia ensino bilíngue a partir do Ensino Fundamental. Li as palavras, meu coração queimando, o fogo sussurrando embaixo do papel. Desliguei o isqueiro depressa.
 
No topo da folha, havia um nome. Royal Academy of Music. Abaixo dele, o brasão da escola sob uma coroa de plumas, abraçado por um leão e um unicórnio. Eu conhecia aquele brasão desde criança. Porque a Royal Academy of Music ficava em Londres e estava na lista de minha omma, era uma das oito melhores escolas de música do mundo.
 
O texto era, na verdade, um informativo. Vagas para alunos estrangeiros. As inscrições seriam abertas em junho para ingresso em setembro. Fora retirado do próprio site do conservatório.
 
Eu o reli duas vezes, as mãos tremendo. Não tinha a menor ideia de como aquele papel fora parar na nossa caixa de correspondência. Ergui o isqueiro e o acendi outra vez, aproximando a chama do informativo. Minha boca estava completamente seca, com gosto de carvão. Desliguei o isqueiro e bati com a cabeça na parede.
 
“Caralho.”
 
Amassei o papel e o atirei num canto do quarto, onde, eu esperava, ele se perdesse junto com os pares solitários de meias que iam para a máquina de lavar e nunca mais voltavam.
 
De noite, harabeoji chega em casa e comemos juntos na cozinha, coisa que só me dou ao trabalho de fazer em dias comemorativos, como o Natal ou um de nossos aniversários ou no aniversário de omma. Todo ano, jantamos juntos no dia do aniversário dela.
 
Hoje, harabeoji se dispôs a cozinhar. Sua catarata está tão avançada que temo comer macarrão doce ou encontrar sua dentadura no molho, mas tudo que acontece é que ele exagera nos condimentos, e desconfio que é de propósito. Algo que harabeoji jamais vai entender é porque não sou um coreano legítimo, apesar de ter pais coreanos. Sua maior frustação é eu falar português e não ser tão rígido com nossos costumes quanto ele gostaria que eu fosse. Então, só para não decepcioná-lo ainda mais, como sua comida condimentada, mesmo odiando. E, então, depois do jantar, enquanto estou lavando a louça, ele me chama até meu quarto. Há uma caixa de sapato em cima da cama, e vejo a clara tentativa infrutífera que ele fez de embrulhá-la em papel de presente. A coisa toda parece ter sido esmaga debaixo de um traseiro gordo.
 
Ele fala, em seu coreano rouco, que guardou para mim, para meu aniversário de dezessete anos. Abro a embalagem, abro a tampa da caixa e ficamos tanto tempo em silêncio que harabeoji começa a arrastar devagar a ponta da bengala no chão.
 
“Min”, ele diz, batendo os lábios engelhados.
 
É o metrônomo. O que omma colocava em cima do piano. Sinto meus olhos arderem e minhas mãos suando. Harabeoji explica que foi uma das poucas coisas de omma que o fogo não levou. Não consigo olhar para ele. Toda a comida do jantar forma um bolo em meu estômago e começa e subir pela minha garganta. Eu engulo várias vezes, me perguntando se enfim chegou o dia. O dia em que vou chorar por minha omma. Quando a dor vai irromper seu casulo de anos e me implodir em pedaços.
 
Parece que sim.
 
Harabeoji se aproxima, cauteloso, e passa um braço ao meu redor. É estranho, não só porque sou muito mais alto e ele parece uma criança tentando alcançar um adulto, mas porque não lembro a última vez que fui tocado com afeto.
 
“Ficar bem”, ele diz num português truncado, batendo em minhas costas. Sua mão é surpreendentemente frágil, sem peso. “Tudo ficar bem.”
 
Ele me abraça. Não consigo parar de engolir, porque uma queimação ameaça aflorar para fora da minha boca, pelos meus olhos, ouvidos, por todos os meus poros. Se eu abrir a boca, estará tudo acabado. Então, fico mudo. Imóvel. Até que harabeoji se afasta e vai embora e, pelo resto da noite, não consigo dormir.
 
 
2.
 
São Paulo é cinza e branca quando chove. Hoje, o ar está tão úmido que sinto meus pulmões encharcando enquanto pedalo pela cidade. Paro no parque perto de casa e fico sentado no banco, o rosto virado para a chuva, pensando nas manhãs em que eu acordava mais cedo e pegava omma sentada na cozinha, sozinha, olhando a chuva, com uma xícara de café fumegante aninhada entre suas mãos pequenas. Ela dizia que gostava da chuva porque tinha o meu cheiro. Naquele tempo, seus olhos estavam sempre úmidos e eu me preocupava que ela estivesse triste. Depois, entendi que isso era uma particularidade de omma, como era uma particularidade de Jimin tapar os olhos quando achava algo muito engraçado, ou uma particularidade de harabeoji bater com a bengala no chão quando está nervoso.
 
A chuva é fria, e em pouco tempo estou tremendo. Minhas roupas pesam o dobro do que pesavam quando eu as vesti, secas, e eu as sinto me puxando para baixo, para a terra. Meus músculos ficam rapidamente dormentes. A chuva forma uma cortina de água sobre os prédios, e eles se transformam em esboços, como os que Jimin costumava fazer quando ficava entediado nas aulas. Esboços de cidades. Depois, ele os jogava fora, porque seu pai não podia saber que ele andara desenhando durante as aulas, e seu pai revistava seus cadernos e sua mochila todos os dias. O pai de Jimin tinha certeza de que a razão pela qual o filho tirava notas baixas na escola era porque começara a fumar maconha.
 
Para ciência: ele estava errado. Jimin infelizmente sempre foi puro demais para esse mundo.
 
Já é quase noite quando pedalo de volta para casa. Não está mais chovendo, e desvio o caminho para passar diante do nosso velho apartamento. A fachada do prédio foi restaurada. Não há mais o menor sinal de que um dia houve ali no último andar um incêndio. As luzes do interior estão acesas, e as pessoas que agora moram lá são fantasmas para mim. O sereno escorre pelas janelas, e é dessa forma que percebo que o verão finalmente acabou.
 
 
3.
 
Jimin tem um sono pesado. Descobri isso na terceira vez que dormimos juntos, na minha cama. Eu dormia numa posição e acordava em outra – às vezes, do lado errado da cama, com a camiseta do pijama repuxada até as axilas. Eu pedia desculpas a ele por ter um sono tão inquieto, e ele respondia que não tinha percebido nada.
 
Naquela época, eu sonhava com céus em chamas numa explosão de cores, anil, vermelho, verde néon. Omma dizia que a Coréia do Sul era colorida. Se você morasse lá, ela frizava, comeria doces de cores estranhas e provaria sabores e ficaria alucinado com as luzes da cidade. Você gostaria de lá também, Jiminie.
 
Como os Min, os Park também haviam saído da Coréia para tentar uma vida diferente em São Paulo, uma nova promessa. Nós dois éramos iguais nisso, crescemos ouvindo histórias de um lugar que deveria ser nosso, mas nunca foi. Vivendo sonhos alheios, alimentados com esperanças vazias.
 
De madrugada, levanto da cama para olhar as luzes da cidade. Não é muito interessante da janela do meu quarto, porque a sujeira do vidro embaça os contornos. Eu costumava sonhar mais quando era criança, quando a espinha de Jimin aquecia a minha. Eu costumava saber dormir. 
 
4.
 
 
Se você girar um cata-vento, todas as cores se fundem em branco. Sempre achei que essa era a melhor definição para Min Yoongi. Se você o conhece, sabe o caos que há dentro dele, a profusão de tons e subtons e escalas; se não, ele é apenas branco. Só branco.

Ele entra na sala de aula sem olhar para ninguém. Anda como se estivesse se lixando para o mundo, mas, fora a atitude, tudo nele mudou. Seu cabelo está descolorido, num tom de loiro opaco, e cai sobre seu rosto como algodão. Ele usa roupas pesadas. Calças escuras com buracos e rasgos que deixam entrever seus joelhos pálidos, que já não são mais tão ossudos, e uma blusa branca por baixo da camisa verde escura de botão. Min Yoongi nunca gostou de mostrar a pele, não importa quão quente esteja, e sei que seu humor está péssimo hoje porque ele está suando. Suar o tira do sério. Está com fones de ouvido, o volume no máximo. Escuto de longe a voz arranhada de Chester Bennington gritando o refrão de Crawling. Rastejando dentro da minha pele/ Estas feridas, eles não curarão.

Ninguém se incomoda, ninguém nem ao menos o vê.
 
Assim como ele não vê ninguém, nem mesmo seu amigo de infância, Park Jimin; eu mesmo.
 
Ele cresceu. Cresceu como todo mundo aqui, tornando a sala de aula menor, praticamente sufocante. Não consigo respirar. Enquanto o olho, algo em meu peito encolhe até doer.
 
Eu me estico em minha carteira, porque posso apostar meus dois testículos que Min Yoongi vai se jogar em sua mesa e dormir, sem falar com ninguém, sem sorrir, apenas vagando neste mundo até que algo aconteça. Mas ele é bolsista e, se ainda está aqui, é porque é capaz de dar conta.
 
Se ele ainda está aqui, neste mundo, é porque anda dando conta de muita coisa.
 
De repente, me arrependo por ter deixado me levarem embora. Havia uma vida lá fora, e eu a vivi, achando que ela se tornaria importante. Mas ela nunca foi importante. O que é importante está aqui, nesta sala, nesta vida.
 
Ainda é cedo para o professor aparecer, mas quase todas as carteiras já estão ocupadas. Alguns alunos estão ao meu redor, me enchendo de perguntas sobre a escola militar, porque voltei, porque eu fui, e não me importo em responder cada uma delas. É interessante. Relaxante. Enquanto eles falam, minha mente está desconectada.
 
A aula passa. Quando termina, todo mundo levanta para a próxima – educação física. Nunca foi minha aula preferida, mas agora é. Passou a ser, depois que grande parte das minhas tardes na escola militar eram ocupadas com atividades físicas. Não sobrava muito tempo para fazer merda. Quando o dia enfim terminava, todos estavam tão exaustos que apenas dormiam. Este é o grande segredo da disciplina.
 
Passo por Min Yoongi. Ele está dormindo, o moletom embolado debaixo da cabeça. Os fones ainda nos ouvidos chiando com a gritaria da música, e isso, mais do que tudo nesse novo Min Yoongi, é sinistro. Antigamente, ele ficava com dor-de-cabeça se ouvisse qualquer coisa diferente de música clássica. Ele não andava neste mundo. Agora, ele está aqui, entre nós. Sendo igual a qualquer um. 
 
Isso é triste.
 
Paro ao lado dele, mãos esticadas no fundo dos bolsos da calça. Seus ombros estão maiores. Os braços tomam praticamente todo o espaço da carteira. A parte de seu pescoço que está exposta é coberta por pele translúcida e noto o que não tinha me dado conta antes – a região posterior de seu crânio e as laterais são raspadas e as orelhas são perfuradas com piercings.
 
Uma garota de cabelos crespos presos em cima da cabeça para perto de mim e esfrega o cabelo de Yoongi, deixando os dedos deslizarem pela nuca dele.
 
“Venha, Yoon. Você já levou três faltas esse mês.”
 
Yoongi abana a mão dela para longe de sua cabeça e diz, a voz abafada no moletom:
 
“Vai se foder.”
 
Todo mundo ri mas são risadas diferentes das de deboche de quando éramos crianças – parece que Min Yoongi se tornou alguém admirável, afinal. Eles o adoram agora. Não sei como isso aconteceu, é chocante. A única coisa que continua igual é o fato de que ele não dá uma foda para isso.
 
Saímos da sala, enquanto Min Yoongi fica para trás e leva sua quarta falta do mês em educação física. Olho para os corredores de azulejos portugueses encardidos e penso que eu não deveria me culpar por ter me permitido deixar Yoongi para trás. Não é como se o Jimin de doze anos tivesse o poder de ter suas próprias escolhas.
 
Ninguém pode me culpar.
 
Então porque sinto como se cada célula do corpo de Yoongi tivesse se ocupado esse tempo todo em me odiar?
 
É que o que ele se tornou. Uma bola reluzente de ódio.
 
Não volto para a sala durante os intervalos, e tampouco Yoongi sai dela. Fico no pátio com todas as almas perdidas desse LIMBO, tendo os cabelos acariciados por mãos de garotas e rindo com as merdas que Julian e Biel falam. Eles ainda são idiotas, mas é um tipo de idiotice agradável, como uma melodia qualquer que você escuta no elevador. As vezes meu olhar desliza para a janela da sala de aula lá em cima, para o pontinho escuro que é Min Yoongi embolado em seu moletom preto.  Ele parece pequeno como um gato e meu peito dói. Dói tanto que tenho que me virar de costas para conseguir respirar, porque só consigo pensar no quanto o corpo dele era leve e frágil contra o meu quando éramos crianças. 
 
Eu esperava encontrar tudo diferente quando voltasse, mas de algum modo está tudo igual, e o que sinto por Yoongi ainda é pegajoso, grudando em todas as partes.
 


Notas Finais


não sei se a vibe dessa fic vai agradar os leitores, e eu sinto muito se ela não está sendo como vcs estão esperando, mas o estilo da história é esse mesmo, um pouco mais pesado, mas tb tem momentos sensíveis e fofos pq o Yoongi é mto, mto MUITO sensível.

O Jimin voltou eeeeba <3 ele vai aparecer mto nessa fic, nosso príncipe lindo

o que estão achando? Me contem :)


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