História Além do Preconceito - Capítulo 2


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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Além do Preconceito - Capítulo 2 - Prólogo

19 de maio, de 2008.

10 anos antes.


Marcos

Nesses 21 anos de idade vivenciei, sofri na pele o desejo infame de realizar um sonho. A pressão aumenta quando nos damos conta de que a felicidade de outras pessoas, em partes, depende de você. Esse é o caso de Natália, namoramos desde muito novos. Éramos vizinhos, depois estudamos na mesma escola e quando nos demos conta o que sentíamos um pelo outro já não havia mais possibilidade de ser definido por uma mera amizade, éramos muito mais do que amigos, nós éramos cúmplices de um destino. Um destino traçado, transbordando de amores por ambos os lados.

Natália e eu como a maioria dos adolescentes tinha sonhos. Construíamos planos para uma vida juntos daqui alguns anos. Eu queria me tornar policial, ela já sonhava mais alto, sempre foi cheia de postura e argumentos por isso não discordo que minha mulher daria uma excelente advogada.

Infelizmente nossos planos foram adiados quando descobrimos que ela estava grávida. A notícia nos pegou de surpresa, confesso que na época não tive postura e não lidei bem com a situação. Eu era um moleque inconsequente de 16 anos, e ela uma mocinha inocente de 14. Não tínhamos maturidade, experiência, e o pior sempre vivemos imersos as dificuldades financeiras de nossas famílias. E a parti desse momento tudo se agravou, a cada mês da gestação surgia um obstáculo entre nós. Porém, mesmo diante de um turbilhão de dificuldades nos mantivemos firmes fortes. Laurinha veio esbanjando de saúde e alegria, complementando ainda mais nosso amor de cada dia.

Durante esses anos nossa filha se tornou a maior responsável pelos nossos risos diários. Natália até tentou conciliar a maternidade e os estudos, mas não rolou. No final das contas ela optou por se afastar dos estudos para se dedicar a Laurinha. Eu me virei para arcar com as responsabilidades de um pai, e de marido. Havia um senhor no morro que era pedreiro e ele passou a me levar como ajudante, seguir com esses bicos até completar 18 anos. Após a maioridade as coisas ficaram um pouco mais fáceis, consegui uma oportunidade como segurança em um shopping. – Eles diziam que eu tinha altura e postura para a profissão. – E foi aí que descobri minha vocação, a cada dia de pé como uma estátua naquele centro comercial percebi que isto era o que eu queria de verdade. Mas meu verdadeiro intuito não parava por aí , eu não queria apenas ficar parado, de pé em frente uma loja 8h por dia, eu queria mais, meu objetivo sempre foi ser um policial, e é exatamente isso que um dia com muita fé eu seria.

Meus sonhos de infância vieram a tona, o amor, a vontade de proporcionar uma vida melhor a minha mulher e minha filha foi o meu maior incentivo. Natália também torcia todos os dias para que eu voltasse aos estudos. Então eu fiz um supletivo do ensino médio, e me inscrevi num preparatório para concursos, estava gastando uma nota, mas graças a Deus nunca faltou nada para minhas meninas.

Agora estou aqui parado de frente a porta do meu barraco, ansioso, suando frio, extasiado com a notícia que provavelmente mudará nossas vidas.

Suspirei. Enchi meus pulmões de ar, me preparando mentalmente enquanto virava a maçaneta da porta. Quando abri dei de cara com minhas princesas se divertindo, Nat estava tentando ensinar Laurinha a coreografia de um clip que assistiam. As duas pareciam uma dupla de palhacinhas.

Adentrei cheio de ansiedade. Dei um selinho rápido em Natália, apanhei Laurinha no colo e a joguei para cima sucessivas vezes até ouvir sua risada gostosa.

— Olha só Laurinha! Parece que papai teve um bom dia! – Natália disse pressionando o controle remoto, pausando o clipe. Laurinha continuava empolgada com minhas jogadas para o alto.

— Eu tenho uma novidade.

— Hum... Novidade, deixa eu imaginar: Hoje você vai me tirar desse barraco e me levar pra sair, nem que seja pra tomar um litrão só. Eu tô cansada de ficar afundada aqui, vendo as mesmas caras da vizinhança fofoqueira todos os dias. Ainda bem que eu tenho a Laurinha! –Ela disse com um ar de revolta, enquanto enroscava os dedos nos cabelos perfeitamente enrolados.

— Bom... Não era isso amor... Mas, tá. Vou falar porque já não estou mais conseguindo me segurar. Desta vez eu passei. Na terceira tentativa eu passei para o concurso da PM. Você vai ter um marido policial Natália!

Os olhos negros sinuosos faltaram saltar para fora. Natália ficou imóvel por um segundo, mas num piscar de olhos abriu aquele sorriso hipnotizante que somente ela tinha, respirou fundo e se jogou em mim, compartilhando uma abraço entre eu, ela e nossa princesinha.

— Eu sabia meu nego! Eu sabia! Eu sempre torci e acreditei em você! Parabéns amor! –Disse me fitando cheia de orgulho, exalando alegria. –Tá vendo Laurinha?! Você agora vai ter um papai policial!

— Palabéns papai! –Laurinha disse sorrindo, enquanto as covinhas semelhantes a da mãe afundavam em suas bochechinhas.

— Obrigada meu anjo. Tudo por você, ou melhor, por vocês! – Exclamei desviando o olhar para Natália.

— Eu ainda não estou acreditando. Isso é um ótimo motivo para comemoração. Olha só a coincidência: Hoje tem baile lá na quadra, e... Minha sogra maravilhosa está em casa, ou seja... Avisa pra Ludmilla que é hoje! – Disse eufórica. – Amor fica com a Laurinha enquanto tomo um banho rápido, nós vamos pro baile! – Eu a interrompi.

— Você sabe que eu não curto... – Natália me impediu de concluir a frase.

— Se você não for eu vou sozinha. Eu só tenho 18 anos, não é porque sou mãe e casada que não posso me diverti, e o mesmo serve para você. Vamos deixar Laurinha com sua vó e partiu comemorar. Cara esse é o seu sonho, você sempre lutou pra isto, acho digno uma noite só para dar boas vindas a essa notícia!

— Então tá, vai lá se arrumar. E pelo amor de Deus vê se agiliza, nada de três horas na frente do espelho!

— Eu fico até 4, mas que nem uma baranga eu não saio! – Ela deu de ombros e saiu sorrindo. Não valia a pena discutir com Natália, ela sempre tinha um argumento para me fazer ceder aos seus caprichos.

[...]

Natália surgiu na pequena sala exalando uma beleza única. Ela usava um vestido branco, curto que marcava cada uma de suas curvas, principalmente os quadris largos. As pernas morenas se destacavam sob o salto alto. Ela fez uma maquiagem pesada, seus olhos e lábios carnudos chamavam tanta atenção quanto a fragrância de seu perfume.

Eu tomei um banho rápido, vesti uma camisa nova e o tênis de sempre e esperei que ela terminasse de juntar as coisas da Laurinha e por na bolsa para levar até minha vó. Trancamos o barraco e saímos. Natália se escorava em mim para não tropeçar nas escadas mal feitas entre os becos.

A casa de dona Zilda nem era distante da nossa, tanto é que atravessamos três becos somente e já estávamos nela. Ao chegarmos Nat conversou com vovó, inclusive dona Zilda amava minha mulher, na verdade minha família inteira era encantada por ela.

— Vai menina. Você tá nova, tem mesmo que se diverti. Escuta uma coisa, sempre que vocês dois precisarem sair, desde que seja depois do culto, pode contar comigo. Eu amo a Laurinha. Ela junta com o Guto e anima a casa toda! – Vovó disse tomando Laurinha em seus braços.

Natália se aproximou de nossa filha deu-lhe um selinho de despedida e deu de ombros.

— Mamãe! Onde voxê lá vai?

Ao ouvir Laurinha Natália virou-se toda desajeitada. E aproximou-se novamente até nossa pequenina.

— Ah... Mamãe só lá vai ali dançar um pouco e já volta tá bom meu amor?!

— Mas eu também quelo dançar, nós duas ensaiou o dia todo!

Nat sorriu, acariciando o rosto de Laurinha.

— Eu prometo que quando você crescer mamãe vai te levar pra dançar, mas hoje não dá filha, estamos indo para um lugar que só tem adultos.

Laurinha murchou, não demorou muito para que seus olhinhos desabrochassem em lágrimas. Ela iniciou um choro espalhafatoso que dominou toda casa. Vovó tentou convencê-la com meras palavras, mas de nada adiantou.

— Filha... Por favor... – Natália cedia fácil às pirraças de Laurinha, da mesma maneira com que eu cedia aos seus caprichos.

— Laurinha! – Um grito ecoou pelos fundos da sala.

— Guto! – Laurinha esqueceu o choro e o substituiu por um sorriso espontâneo. Contorceu o corpo até vovó botá-la no chão.

— Que legal! Você vai dormir aqui hoje. Vamos brincar?

— Vamos! Tchau mamãe!

Laurinha e Guto saíram correndo atravessando os cômodos da sala espalhafatosamente. Guto era um garotinho branco, um ano mais velho que minha filha. Minha avó o cria desde bebê, e o considera como filho, assim como eu o considero parte da família.

— Nossa... Parece que Laurinha até esqueceu que é minha filha...

— Ah para né Nat. Não era isso que você queria?! Bora, partiu baile!

Despedi brevemente de vovó, envolvi Natália em meus braços e a puxei para fora, tínhamos longas escadas para subir até chegar ao local do baile.

Estávamos distantes, mas creio que o complexo inteiro conseguia ouvir os funks pesados da equipe de som do baile. O barulho era tão alto que eu precisava gritar para que alguém me escutasse. Quanto mais nos aproximávamos mais ficava difícil a passagem, várias barricadas improvisadas bloqueavam as passagens de acesso aos bailes. – Era uma forma de prevenção deles. – O cheiro da maconha era comum ali, aliás, maconha é comum. Eu e minha esposa sempre que pudemos compartilhamos um baseado. Na entrada de acesso a quadra havia várias bancadas com drogas a venda, os traficantes faziam assim como os camelôs para facilitarem seus trabalhos.

Parei para comprar um baseado, quando inesperadamente sinto o cano de um revólver pressionar minha cabeça. Meu coração acelerou, faltou explodir dentro do meu peito. Confesso: Me tremi todo.

— Ah para né Marcão?! Qual foi, já tá todo se cagando!

— Porra, caralho! Ih qual foi Pixote?! Quer me matar do coração? Respeita aí né cara!

— Tava de onda contigo, até a Nat viu. – Nat sorriu com sarcasmo enquanto acendia o baseado.

Pixote era o dono do morro. Ele que mandava em tudo aqui, mas, para mim ele não passava daquele moleque catarrento e chato que brincava de pelada comigo nos fins de tarde. Eram anos de amizade, e várias vezes em que passei necessidade, ele sempre quebrou meu galho.

— E aí casal 10! Bora brotar no camarote?! Ficar na cola do DJ, vapor passando toda hora oferecendo baseado!

— Bora! – Disse segurando Natália pelo braço.

— Ei espera amor... Aquela lá não é a Jessica?

— Acho que é...

— Gente... Fala sério, tem um tempão que não vejo aquela vaca! Vou lá agora!

Fiquei conversando, pondo as conversas em dia com Pixote, que por vez estava desinquieto.

Nat voltou até nós na companhia de Jéssica.

— Amor, se quiser ir para o camarote pode ir. Vou ficar aqui com Jessica, tem umas piranhas lá que ela não gosta. E você sabe como eu sou...

Respirei fundo, balançando cabeça.

— Tá. Tudo bem, qualquer coisa eu tô lá... E nada de ficar pegando bebida de outro macho!

— Até parece que sou dessas! Tá me confundindo por acaso?!

— Claro que não amor... Tá de boa, esquece.

Dei-lhe um selinho e me despedi brevemente. Acompanhei meu amigo até o camarote, na qual estava repleto de mulheres, mas eu não via olhos para outra que não fosse a Nat. Ela era um presente de Deus, e eu sei que ela pensava o mesmo de mim.

O cheiro forte da maconha se espalhava entre nós. Os fuzis eram chacoalhados para cima no ritmo do funk, eu balançava o corpo intencionado a acompanhar a música. Estávamos no embalo, curtindo, entretidos com tudo aquilo até eu perceber o rádio chamando na cintura de Pixote, mas meu amigo estava tão distraído com as mulheres que o rodeavam que nem fazia questão de atendê-lo. Também pudera á essa hora na sua cabeça só tinha pó e maconha. Mesmo sabendo que não era o recomendável para um homem naquela responsabilidade, Pixote muitas vezes agia como um vapor, ou melhor, como um moleque desajuizado da época de infância.

Acheguei-me até ele e gritei no seu ouvido:

— Porra Pixote, seu radinho tá tocando. Atende cara!

Pixote não me deu uma resposta, tirou o rádio da cintura e no mesmo instante o elevou até o ouvido. Seu rosto ficou pálido, toda energia que o abrangia parecia ter sido consumida repentinamente.

— O que houve Pixote? – Perguntei com receio.

Ele tirou o fuzil que carregava nas costas, engatilhando e apontando para cima. Não demorou para que ele iniciasse os gritos.

— Desliga a porra do som! Os verme tão subindo caralho! Explana geral!

A notícia se alastrou como uma virose no auge, em questão de segundos os festeiros que aproveitavam o baile inocentemente iniciaram uma correria desesperada sem rumo determinado. Meu peito pesou, uma sensação ruim me invadiu. Naquele momento não pensei em nada que não fosse Natália. Saí correndo junto a outras centenas de pessoas aglomeradas em direção à saída da quadra. Os disparos estalavam, e a cada grito que escutava sentia meu coração contrair, pulsar lento desanimado. Natália... Eu preciso encontrar Natália... Meus pensamentos estavam conturbados.

Três adolescentes eufóricos esbarraram em mim em meio a fuga desesperada. Meu corpo estava prestes a ir de encontro ao chão quando senti mãos delicadas me segurando, me apoiando.

— Marcos... Ainda bem que te achei, eu perdi a Jessica no meio dessa confusão toda. Tenho medo de algo ruim acontecer com ela! – Nat disse com os lábios trêmulos.

— Ela tá bem, já deve ter sumido daqui. E nós vamos fazer o mesmo!

Reergui meu corpo num impulso, agarrei Natália pelo braço e a puxei comigo para a direção da viela da entrada. Corríamos eufóricos, e a cada barulho de tiro sentia como se uma faca estivesse penetrando minha alma, uma angústia incessante crescia gradativamente no interior do meu peito.

No final da viela nos deparamos com um paredão de barricadas, o calor exalava dos pneus em chama, assim como o cheiro forte de borracha queimada que inalávamos.

— Perdeu vagabundo!

Natália e eu desviamos nossos olhares para trás e vimos um homem fardado com o fuzil pontado a nossa direção.

Um disparo ecoou.

Natália se jogou a minha frente.

Seus olhos se arregalaram. O corpo ficou bambo, enquanto a mancha avermelhada se espalhava e crescia no decote do vestido branco.

Minha respiração ficou irregular, as lágrimas rolaram de meus olhos a cada gemido de dor que ela dava.

— Natália! Por favor... Porque você fez isso? Porque se jogou na minha frente? Natália, aguenta aí amor, já vou te levar pro hospital! – Murmurei desesperado, as palavras mal saíam de meus lábios.

— Não vai dar tempo... – Ela disse elevando as mãos sob o peito manchando seus dedos com o próprio sangue. – Eu fiz isso porque você tem um futuro todo pela frente... Agora que você... Conseguiu realizar seu sonho...

— Vai dar sim! Tem que dar! – Não pensei duas vezes, a apanhei em meus braços e corri descontrolado pelos becos, enquanto ela agonizava, sangrava como se um de seus órgãos vitais tivesse corrompido.

— Mar... cos... Chega amor, eu não vou aguentar...

Meu corpo estava trêmulo, não estava sabendo lidar com aquelas palavras. Eu não queria aceitar a possibilidade de não ter o amor da minha vida mais comigo, me ajudando, me apoiando, me estressando e me fazendo sorrir.

Minhas pernas bambearam, dobrei os joelhos e me joguei no chão ainda com o corpo da minha amada em meus braços. Um grito saiu antes da minha voz, era meu coração implorando para que ela ficasse.

— Marcos... Eu amo você... E a Laurinha... Eu só te peço: por favor, cuide bem da nossa menina... E sejam felizes... meus amores... – Ela tossiu se esforçando para dar o último suspiro. Seus olhos molhados devido ao rio de lágrimas que ela soltou cerraram. O pior de tudo era saber que eles nunca mais voltariam a se abrir.

— Natália! Natália! Eu te amo! Por favor, não vá! Droga! A culpa foi minha por ter aceitado vir na merda desse maldito baile! Nat! Por favor, amor... Fala comigo! Malditos! Policiais desgraçados! – Gritei enquanto a amargura, a ânsia de desistir da vida me consumia.

— Fica... Fica só mais um pouco... – Murmurei acariciando com leveza os cachos da minha mulher, que estava intacta, dela só saíam sangue, nada além desse líquido e o restante das lágrimas que fartaram seus olhos.

Minha mulher não tinha mais vida...

Eu não tinha mais minha esposa...

Minha filha não tinha mais sua mãezinha...

E eu já não queria mais ser policial.



Notas Finais


Tenho um grupo no zap para minhas leitoras, entrem e faça parte da nossa família❤

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