História Além do Preconceito - Capítulo 3


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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 1


Fanfic / Fanfiction Além do Preconceito - Capítulo 3 - Capítulo 1


Perdoem os erros no capítulo.

Será que o Rio de Janeiro continua lindo?

Acho que não.

Talvez.

Ele nunca foi lindo!

Há 10 anos decidi que o Rio de Janeiro, na realidade o Brasil em si não era bons o suficiente para alguém como eu. Ninguém merece morar numa cidade rodeada de morros, bandidos, mendigos, essa classezinha inferior. Os 18 anos que vivi ali foram tortuosos, completamente insignificantes e se resumem a uma única palavra: Decepção. Mas, mesmo diante de tantas conturbações eu superei e dei a volta por cima da maneira mais cabível. Eu fui embora, é lógico.

Após completar maioridade com muita dificuldade convenci papai a me deixar partir com a desculpa de que iria me dedicar aos estudos para futuramente ajudá-lo nos negócios da família, bom, isso nunca foi uma mentira, porém meu principal objetivo continuava sendo sumir, desaparecer e nunca mais ter que pisar nesse país ridículo de terceiro mundo.

A tempos eu e meus melhores amigos fazia planos de morar e curtir a beça no exterior, e foi exatamente isso que aconteceu. A cidade de Massachusetts nos Estados Unidos se tornou nosso novo lar. Lá iniciamos o ensino superior em uma das melhores e mais bem estruturadas universidade do mundo, a Harvard. Durante os cinco anos de graduação nossas vidas se dividiram entre os estudos, badalação, pegação, gatos, bebidas... Tudo que envolva curtição.

Suspiro observando a paisagem através da janela do avião já inclinado para o pouso. Segurei firme no cinto de segurança que pressionava meu abdômen. Durante a aterrissagem o desânimo invadiu meu corpo, atordoou minha cabeça quando me dei conta de que depois de quase uma década, cá estou eu em terras brasileiras.

Simplesmente não há o que contestar, a vida é exatamente assim, chega uma hora que o destino lhe dá um tapa na cara te obrigando a enfrentar os medos que te atormentam, e as inúmeras responsabilidades que já lhe fizeram recuar. Dessa vez a história é outra, a Aryela inocente, infantil  manipulada por tudo e por todos morreu quando entrou naquele avião e seguiu para USA. Hoje estou saindo dele como uma mulher inteligente, vivida o suficiente para dar as cartas no jogo a partir de agora.

Papai deixou claro que eu não poderia adiar mais meu retorno, ele precisava dos meus trabalhos, da minha inteligência para ajudar no funcionamento das empresas. E sim, eu estava preparada para assumir, me preparei a vida inteira para ser uma CEO ao nível do meu pai, mas confesso que tenho receio, medo de não saber lidar com as movimentações, negociações e sociedades. A Salgari construtora é o maior grupo imobiliário do Sudeste brasileiro, tendo um faturamento bruto que ultrapassa mais de 4 bilhões ao ano, traduzindo é muita responsabilidade. Porém ao invés de correr estou ansiosa para enfrentar, encarar os desafios que a vida me prepara. Para mim a negatividade sempre estará em segundo plano, principalmente quando está associada ao medo e ao fracasso.

Tudo que eu mais quero é rever meu grande amor Eliberto Salgari, meu pai. Não sei descrever o amor que sinto por esse homem, minha única família, o único ser do sexo masculino que realmente me preocupo. Sempre mantivemos contato via webcan, mas pessoalmente não nos víamos há aproximadamente 1 ano. No início Mr. Salgari me visitava  todo mês, depois a cada três meses, quatro, e por aí vai decaindo. Nesses últimos anos, com a crise a qual o Brasil vem enfrentando ele precisou se atentar mais aos negócios – como se ele não fizesse isso a vida inteira – o que o fez se distanciar de mim.

Isso não muda o fato de que ele é meu pai, meu sangue, o amor de my life. A vontade de envolvê-lo num abraço apertado, de contar tudo que vivi nas minhas últimas viagens, do aprendizado que recebi ao concluir mais um MBA era imensa. Tenho certeza que ele irá abrir aquele sorriso que só dá quando está com muito orgulho de mim.

O avião aterrissou, mandei mensagens para minhas bests, confirmando se as bitches realmente estavam me aguardando no aeroporto. Lucas e Lorena prometeram estrear a cidade maravilhosa comigo.

[…]

Desci do avião, passei pela vistoria, apanhei minhas malas e minha princesinha Tinkerbell – a chihuahua mais linda da galáxia.

— Keep calm Tinker, o Rio de Janeiro agora é sua nova casa! – Sorri para Tinker, que retribuiu latindo carinhosamente para mim.

Como minha princesa era linda, ainda mais quando estava toda combinada com sapatilhas e toquinha rosa.

— Olha elaaaa! – Quase deixei minha princesa cair com o susto que levei. – A loira mais gostosa de Massachusetts! – Lorena alargou um sorriso brando e  empolgadíssimo quando me viu.

— Falou a socialite mais cobiçada da cidade maravilhosa! – Retribuí o sorriso daquela beldade.

Obviamente ela continuava tomando sol todas as manhãs em sua cobertura no Leme, a pele clara reluzia o dourado do bronzeado, os cabelos negros e compridos esvoaçavam como das propagandas de cremes capilares.

— Olá Tinker! Tem um pastor alemão na casa da minha avó, que se não fosse um cachorro eu diria que ele um gato! Talvez… – Me intrometi.

— Helooo! A Tinker é no mínimo 7 vezes menor do que um pastor alemão, você quer que minha princesa seja arrombada?! – Sorri para ela, enquanto empurrava as malas no carrinho. Tinker era levada, mas perto de conhecidos como a Lô ela até que se comportava, seguiu quietinha sob as malas enquanto nos direcionávamos para o estacionamento do aeroporto.

— Quem disse que minha intenção não é essa! – Sorriu com deboche. – Falando em arrombada, você percebeu que estou andando meio torta… Então ontem eu fodi muitooo! – A última frase saiu baixinha, mas com um grande impacto.

— Novidade, quando é que você não fode? Você é uma bitch professional esqueceu gata?!

— Falou a Boss as bitch!

Paramos de caminhar, olhamos uma para a outra e caímos na risada. Como é bom estar na presença de uma amiga maravilhosa como ela. Lô e eu temos quase duas décadas de amizade sincera, com direito a lágrimas, sorrisos e muitas loucuras.

— E o Stephen, seu boy magia? Como vai ficar o namoro de vocês?

— Dispensei amiga. Até meu vibrador trabalha mais do que ele! – Dei-lhe uma piscadela no canto dos olhos.

— Vou te dar uma dica, pra você que é literalmente insaciável eu recomendo…

Revirei os olhos Interrompendo o que ela provavelmente diria.

— Homens perigosos: bad boys, gangster, mafiosos… Tá Lô eu sei que você é fissurada por esse tipo desde a adolescência, mas eu pensei que você tivesse tomado vergonha na cara depois de ter sido quase morta por um daqueles caras no Brooklyn, aliás, eu me pergunto até hoje: como é que você foi parar no Brooklyn?!

— Ary! Esse assunto está morto e enterrado, já passou da fase da decomposição amada. Iria te contar do meu novo afé, mas não vai rolar porque você não é compressiva! Agora, anda logo antes que Lucas se canse de nos esperar no estacionamento e suma no mapa como ele sempre faz!

Era bem a cara daquela piranha nos deixar na mão, como já fez inúmeras vezes no exterior. Lorena e eu apertamos os passos, depois de 15 minutos chegamos no estacionamento.

Encontrar o carro foi a tarefa mais fácil do dia, o Porsche rosa pink se destacava em meio aos outros veículos por ali. Por mais que eu tivesse encontrado com Lorena e Lucas numa rave em Massachusetts no final de semana retrasado a saudade não diminuía, éramos unha e carne, fogo e gasolina.

Aproximei do vidro dianteiro e antes que eu tocasse três vezes ele abriu deixando amostra os cabelos loiros espetados para cima junto aos olhos verdes que se assemelhavam a duas pedras de esmeralda.

— Piranha! Eu já estava na bad aqui! I miss you gata! Tá um arraso, ainda mais linda!

— Não mais que você minha putinha do amor!

— Se continuarem assim vou ficar com ciúmes! – Lô disse com o antebraço apoiado no capô do carro.

— Ah para mona, você sabe que meu core é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um! E nós somos as Trix, muita beleza, poder e dinheiro num bonde só! – Lucas fez biquinho distribuindo beijinhos pelo ar.

Abracei a bicha que me empurrou quando viu a Tinker. Confesso que tenho ciumes da minha bebê, mas nas duas vadias eu até confio. Entrei no Porsche e me senti esmagada juntos as malas e Tinker no banco de trás.

[...]

Passávamos pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, quando  a vista da periferia roubou a atenção dos meus olhos. Ali vivia um amontado de mendigos, mulheres sujas, bandidos, crianças com piolhos... Enfim, fiquei com nojo só de olhar. O Rio de Janeiro tinha tudo para ser esplêndido, uma verdadeira cidade maravilhosa, se não estivesse envolta de centenas de morros com aquelas casinhas esquisitas, e por mais que morássemos em condomínios fechados na zona Sul, ou coberturas frente à praia como a Lorena e o Lucas, continuávamos nos esbarrando nessa classezinha de quinta, é um saco sair para correr e ter que se deparar com favelados, pobres miseráveis, negros. Ninguém merece.

Lucas cortou o clima tenso colocando a música Havana da Camila Cabello para tocar. Fizemos uma capela maravilhosa, usando os latidos de Tinker como segunda voz.

Havana, ooh na-na

Half of my heart is in Havana, ooh-na-na  

He took me back to East Atlanta, na-na-na

Oh, but my heart is in Havana

There's somethin' 'bout his manners uhuhuh

Havana, ooh na-na

Lucas chacoalhava o corpo enquanto mantinha os braços firmes no volante. Lorena estalava os dedos e eu cantarolava usando minha mão como microfone e minha princesa continuava agitada com seus latidos ritmados.

De repente um trânsito repentino se formou pela avenida, buzinas e gritos ecoavam por todas as direções, – murchei com aquilo – mas o pior foi ver alguns carros darem meia volta, recuarem pela contramão em meio a toda turbulência.

— Ai monas! Deus nos guarde! Acho que é um arrastão! – Lucas gritou atordoado.

— Calma gente… Respirem fundo… Vamos preparando as jóias, dinheiro, celular… Puta que pariu! – Lorena berrou nos deixando ainda mais preocupados. – Terceiro assalto este mês, não é possível caralho!

— Não esperava outra recepção desta cidade, se eu não fosse assaltada hoje nem iria acreditar que estou no Rio! – Gargalhei alto, mas estava chorando por dentro.

— Porraaa! – Gritamos, em coro.

  Meu coração falhou uma batida quando dois negros, beiçudos, com cabelos despenteados surgiram batendo forte contra o vidro fumê do carro.

Lucas abriu todos no mesmo instante. Um dos vagabundos sacou a arma na cabeça do meu amigo. Meu coração disparou a ponto de querer sair pela boca quando o outro macaco agarrou meus cabelos puxando minha cabeça para fora do carro. As lágrimas brotaram em minhas pálpebras, lembranças dolorosas me atordoaram, fiquei ofegante com as mãos trêmulas, faltou-me ar.

— Vai passando a porra toda! Celular! Jóia! Grana!

— Calma meu amigo nós vamos te dar, calma… por favor, calma. – Lorena murmurou com os olhos arregalados.

— Adianta logo porra! As madame tá achando que nóis tá de onda? Que isso é aqui é brincadeira?!

— Não! Toma aqui meu celular! – Entreguei meu IPhone com desprezo.

Apanhei a bolsa e coloquei nas mãos do macaquinho que achava que era alguém perante a mim. Minhas bests fizeram o mesmo.

— Caralho! Lombrou Cazuza! Os cana porra! – O macaco maior gritou.

Quando o vagabundo que agarrava meu cabelo ouviu as sirenes da polícia ecoar, abriu a porta do carro puxando as mechas do meu cabelo entrelaçadas em suas mãos, e me arrastou para fora como se eu fosse um saco de lixo.

Os favelados apontaram simultaneamente as armas na minha cabeça.

Sim! Havia dois revólveres pressionando minha linda e inteligente cabecinha. A sensação de pânico atravessava meus neurônios como uma corrente elétrica.

Lorena e Lucas me olharam desesperados sem saber o qual atitude tomar.

— Toma vergonha na cara bando de filho da puta! Assaltando com arma de brinquedo, queimando o filme da comunidade! – Outro negro gritou, e esse estava com um cacho de balas e paçocas penduradas no braço.

Mal encarado o homem jogou as guloseimas no chão, se achegou aos moleques dando-lhes um abraço mortal, encurralando o pescoço de cada um entre os braços fortes e definidos.

— Eu vou passar essa visão pro Canário, vocês vão penar na mão do chefe!

Os macaquinhos me soltaram amedrontados quando viu o gorilão aparecer. Não esperava menos de moradores de uma comunidade periférica, são ridículos ao ponto de se arriscarem assaltando inocentes como eu e minhas bests usando armas de brinquedo. Seria cômico se não fosse trágico. Mas nunca foi novidade que assaltar, matar, estuprar para eles é um hobby. E é exatamente por isso que todo favelado, todo negro tem que ser preso. Só assim poderemos viver longe de toda  violência e baixaria que perturbam a cidade.

— Ai que arraso! Você viu mona?! Ele chegou que nem o Pantera Negra! – Lucas afirmou ofegante, com os olhos quase atravessando o gorila com os macaquinhos.

Um sorriso escapou do suposto “herói”.

— Verdade! Ele é nosso herói, merece até uma recompensa! – Lorena afirmou olhando maliciosamente para o corpo definido do negro.

O  homem mirou os olhos mais escuros do que sua própria cor nos meus. Será que ele estava esperando que eu o agradecesse? Era exatamente esse o objetivo do assalto, lógico que eles idealizaram que quem estaria dentro de um Porsche tinha muito mais à oferecer do que meras jóias e celulares.

Mantive-me séria sondando o negro que tentou me ajudar. Ele seria lindo se não tivesse essa cor imunda, uma pena. Porque eu costumo imaginar o pau pelo tamanho da palma da mão, e cai entre nós a palma da mão do macaco era enorme. Um desperdício, que pena.

Os policiais enfim se aproximaram, infelizmente um deles também era negro, não duvido nada que estejam todos interligados, o Brasil transborda corrupção.

Ainda estava pálida, portanto Lucas e Lorena deram os detalhes aos policiais enquanto me ajeitava e conferia se estava tudo ok com a Tinker. Estranhei quando algemaram apenas os macacos menores  que estavam com as réplicas e deixaram o gorilão solto.

Não é possível que iriam deixar o outro em liberdade. É por esse e outros motivos que o Brasil não sai do lugar.

Caminhei até o policial estalando o Louis Vuitton em meus pés no asfalto.

— Com licença senhor, não sei como funciona o trabalho de vocês, mas acho que esqueceram de algemar o outro bandido. Anda logo, senão ele vai fugir!

— De acordo com as testemunhas, aquele homem te salvou. – Falou sério, o olhar duro me fitando como se fosse alguém diante de mim.

Retruquei-o.

— Eu como testemunha digo que ele é envolvido no crime. É algo explícito que vocês deveriam ter percebido desde o início. Aquele homem é um marginal, olha pra ele, tá na cara! – Apontei para o negro revoltada.

— Senhora, assim como você ele irá prestar depoimento… – Tive que interromper aquele demente outra vez.

— Querido. Acho que você não entendeu. Meu nome é Aryela SALGARI, filha de Eliberto SALGARI que por vez é amigo íntimo do senador, e primo de um dos juízes mais influentes da merda desta cidade. – O policial engoliu seco. – Se você quiser manter seu emprego é melhor prender aquele traste, ou então a carta de demissão chegará na sua mesa pela manhã! – Meus olhos estavam firmes, a segurança e imposição exalando por cada traço.

As feições do homem fardado expressava raiva, mas ele não ousou me desafiar. Não demorou para ele dar ordem de prisão para o outro negro.

Quando o marginal passou ao meu lado sentir a fragrância do perfume barato que fez com que meu estômago embrulhasse.

— Miserável! Eu te salvei! – As sobrancelhas expressivas marcavam o olhar sério, firme. – Eu impedi que a molecada te assaltasse! Não acredito que está mandando me prender! Moça eu sou trabalhador, vendo bala aqui nessa área o dia inteiro, só na honestidade… Tenho família para sustentar... – Ele estava nervoso, os músculos de seus braços eram maiores do que os dos policiais, o suor escorria na pele realçando o tom achocolatado.

Seria até meu tipo se não fosse negro, um macaco humano.

— I'm so sorry! – Falei em inglês porque obviamente o favelado não compreenderia.

Caminhei a passos lentos enquanto o via ser lançado como um animal para dentro do porta malas da viatura.

Meus olhos azuis, cruzaram com os negros carregados de ódio dele. Eu pisquei e mandei um beijo como se ele fosse uma atração de circo, apesar de que ele realmente era um gorilão. Joguei as madeixas loiras para o lado e saí desfilando até alcançar minhas bests que não estavam com semblantes dos mais agradáveis.

— Ary! Você mandou prender o cara só por quê é negro? Não acredito que fez isso de novo?! – Lorena gritou enraivada.

— Por mim todos os negros desta cidade estariam atrás das grades, enjaulados que nem seus parentes, macacos! – Minhas mãos tremeram de ódio, respirei fundo tentando me conter.

— Gata você já foi em tantos psicólogos, achei que tinha resolvido isso... – Lucas  lamentou.

— Viada, vai me dar a carona, ou não?! Porque se não for eu vou chamar o táxi agora. Preciso descansar da droga dessa viagem, tomar um banho para me limpar do toque daqueles neguinhos! E o assunto morreu por aqui, me recuso a falar mais sobre isso! Vamos, as Trix circulando agora! – Gritei marchando na frente.

— Odeio quando baixa a pomba gíria e a bixa fica assim perturbada! – Lucas gritou enquanto rodopiava a chave.

— Um de nós vai ter que prestar depoimento. Eu vou lá. Beijos e até mais gatas! – Lorena deu tchau e entrou no táxi que parou ao seu lado.

Lucas e eu seguimos nosso destino.

[...]

Despedi da viada quando chegamos frente a mansão Salgari, na hora chamei os seguranças para me ajudar a carregar a porção de malas.

O casarão continuava lindo, a jardinagem impecável como sempre, seu Josafá sempre trabalhou muito bem.

— Aryela! Eu vi nas fotos como você havia crescido e ficado linda, mas não imaginei que fosse para tanto! – Josafá se aproximou com os braços abertos, as mãos estavam sujas de terra, ele evitou se achegar mais temendo me sujar.

Coloquei Tinker no chão, abaixei os óculos escuros e lhe dei um abraço apertado.

— Josafá você está um gato, se não fosse da Rosa eu mesma te pegaria! – Mostrei a língua para meu jardineiro e amigo que corou as bochechas constrangido.

Mandei beijos para ele e continuei seguindo com o coração na mão. Eram tantas lembranças, momentos inesquecíveis da infância, adolescência. Agora estou aqui mais uma vez, adulta, e ajuizada na medida certa.

Atravessei a grande porta de madeira jogando meus cabelos para trás. Dali mesmo avistei Rosa servindo chá para Mrs. Estela que estava sentada sobre o sofá com as pernas elegantemente cruzadas. Quando me viu ela rapidamente colocou a bandeja na mesa de centro e veio correndo até mim espalhafatosamente.

— Minha menina! Como você cresceu, está ainda mais linda! – Rosa me abraçou com os olhos cheios de lágrimas.

— Rosa! Para de atropelar Aryela, e sobre a beleza ela tem de quem puxar! – Estela levantou-se do sofá com o queixo empinado.

Realmente, todos diziam que eu era a cópia perfeita da minha mãe. Loira, alta, magra, traços finos, aquele típico padrão europeu. Mrs. Estela estava conservadíssima, muitas plásticas ao longo desses anos. Rosa se afastou quando ela veio até mim desfilando sobre o salto alto, eu apanhei Tinker do chão e me desviei daquele lixo de pessoa. Pra quê mentir? Eu não senti falta nenhuma dela, pela contrário a distância é essencial entre nós.

— Aryela! Não vai cumprimentar sua mãe depois de anos sem me ver? Me dá um abraço filha, seu pai está esperando para o almoço na sala de jantar. – Afirmou com os braços estendidos.

— Papai está na sala de jantar Rosa? – Perguntei evitando olhar para Estela.

— Sim minha filha...

— Obrigada. Tinker! Vamos querida! – Estalei os dedos para minha cadelinha enquanto seguia para a sala de jantar.

Meus olhos cintilaram quando vi meu pai sentado à mesa. Mr. Eliberto estava pálido, com o aspecto cansado por trás dos olhos azuis. Ele ainda não tinha me visto por isso me aproximei sorrateiramente e o surpreendi quando lhe dei um abraço por trás, fazendo carinho na barba grisalha.

— Aryela... – Papai disse baixinho sem me olhar, permaneceu sentado e abaixou a cabeça quando as lágrimas invadiram seus olhos.

Esperava uma recepção melhor, mas meu coração apertou quando o vi naquele estado.

— Sente-se Aryela, preciso falar algo muito importante para você...  

— O que é papai? Por que está assim? Por que está chorando?

— Eu fui diagnosticado com três cânceres no intestino. É terminal, e talvez eu não passe de 90 dias... E tudo que eu mais quero é viver esses últimos dias com minha única filha... – Lamentou sem olhar nos meus olhos.

Meu coração despedaçou, me sentir frágil diante de uma notícia tão arrebatadora, não queria dizer nada, apenas acreditar que essa era mais uma de suas piadinhas de péssimo gosto.

— Mr. Eliberto! Sem gracinhas, por quê cheguei hoje então vamos só matar a saudade, ok?! – Sorri para ele ao dizer.

— É exatamente assim que eu quero que você haja na presidência do grupo, com convicção, cheia de argumentos para se esquivar dos possíveis impasses. Não tenho dúvidas de que você está pronta para assumir meu posto. Tenho muito orgulho em saber que posso contar com você para me representar daqui para frente, eu te amo filha, e sempre estarei com você...

— Pai! Eu me recuso a acreditar que isso seja verdade! Eu passei quase uma década longe do senhor... Eu não me conformo... – As lágrimas cortaram minhas pálpebras como navalhas afiadas.

Papai riu.

— Vou morrer feliz, satisfeito com tudo que construí e alcancei com meu próprio esforço, e muito orgulhoso por ter tido uma filha como você. E, apesar da distância sempre fomos  companheiros, nunca tivemos segredos e é por isso que lhe pedir para voltar, queria te contar pessoalmente. Confesso que estou triste porque vou morrer sem assistir a última temporada de Game of Thrones, mas fora isso está tudo bem! – Ele sorriu como se não tivesse dito nada de importante.

Caí de joelhos aos prantos perante à ele. Meu pai, o único homem que eu realmente me importava iria morrer. Não, eu não estava preparada para tamanha tribulação… Apesar de me amar muito, preferia mil vezes estar no lugar dele.



Notas Finais


Gostaram da Ary? Rsrs

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