História Além do Preconceito - Capítulo 4


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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - Capítulo 2


Fanfic / Fanfiction Além do Preconceito - Capítulo 4 - Capítulo 2

Perdoem os erros no capítulo.

Marcos

— Então o senhor está me dizendo que tentou ajudar a moça e ela subornou meu policial?

Respirei fundo tentando tomar coragem e paciência para explicar pela terceira vez para o lerdo do delegado.

— Sim. Foi exatamente isso que aconteceu. Eu desci correndo do ônibus em que eu estava vendendo balas, corri mais um pouco temendo que fosse algo grave, e foi aí que vi um carrão rosa, ao lado dele estava a loira com os moleques da comunidade em que eu moro.

— Essa parte eu entendi, mas confesso que estou surpreso com sua facilidade para reconhecer a diferença entre uma réplica e uma arma de verdade. Meio suspeito para quem mora no morro do Pavãozinho, não? – Os olhos negros me fitavam carregados de acusação, a mania que o filho da puta tinha de bater o lápis contra a mesa amadeirada me irritava muito.

— Cara... – Balancei a cabeça inconformado. – Eu entendo de armas porque já fiz vários cursinhos aí de segurança, na verdade eu cheguei a passar na prova da PM iniciei o treinamento... Essas parada toda, mas eu tomei ranço e tô com mais ranço agora! Nada que eu disser vai mudar sua opinião, então me prende logo! – Nervoso, eu estalava cada dedo da mão esquerda afim de me aliviar do estresse. Mas de nada adiantava.

— Você tem direito a uma ligação, advogado...

O interrompi já com o corpo formigando. Sempre fui um cara paciente, mas é foda ficar diante de alguém tão esnobe, ainda mais sabendo que estava rodeado de policiais. O tempo todo criei paranóias, analisei cada traço deles numa procura desesperada para saber qual tirou a vida da minha mulher à 10 anos. A cena da desgraça era tão vívida, tão real que eu podia jurar que tudo aconteceu ontem, era desconfortável e agonizante de mais ficar com isso na cabeça. Depois de Natália nunca mais consegui olhar para outra mulher como olhava para ela, o pior de tudo é saber que eu não sou o pai que ela sonhou para nossa filha.

— Direito? Eu? Eu não tenho direito a nada! Que delegado de merda é senhor?! Me prende logo nessa porra, caralho! – Gritei afobado, bati na mesa com o passado atordoando minha cabeça.

O monitor do computador tremeu. Os olhos do delegado se abriram em fúria, ele levantou enquanto um policial sujo, imundo se aproximou de mim.

Filho da puta! Desgraçado!

Eu e essa mania burra de querer ajudar os outros sendo que ninguém me ajuda, pobre bonzinho só se fode. E eu não aprendo nunca.

— Vamos fazer logo as fotografias de identificação e mandar logo esse delinquente para a cela! – Ordenou ao policial.

Estava duro como uma pedra por fora, porém desabando como uma avalanche por dentro. Sentia nojo daquele policial apertando meu braço, deixando sua pele tocar na minha sem que eu pudesse reagir, tomar uma atitude de homem.

Fiz as malditas fotos, entreguei meus pertences, depois fui algemado com os braços para trás. Enquanto os desgraçados me guiavam para fora do gabinete me deparei com a morena que estava ao lado daquela loira endiabrada.

— Espera! Por favor! Isso foi um engano. Eu sou testemunha, eu estava lá e vi o que houve. Pra quê prender esse pobre vendedor de balas se a mulher que o acusou nem fez questão de vir aqui dar a queixa! – Gritou com a voz e olhos firmes.

— Senhora dá licença! Precisamos passar com o delinquente!

— Cadê o delegado? Vou lá explicar para ele o que realmente aconteceu! – A mulher estava desinquieta, mexendo na bolsa o tempo todo.

Ao ver que não teve uma reposta ela correu para dentro do gabinete, deixando furiosos todos os que estavam ali a horas aguardando sua vez para dar queixa. Os guardas seguiram atrás tentando impedi-la, mas ela foi ágil, entrou, e a porta não tornou a abrir por longos 5 minutos. A delegacia virou um caos, policiais se concentravam para conter a reclamação das pessoas até a morena sair acompanhada de outro policial que estava na sala. Me chamaram e mais uma vez fui levado para o gabinete. Depois de muita ladainha o delegado se deu conta de que não havia motivos suficientes para me manter preso.

Fiquei desacreditado, não por  ter sido solto, mas sim pelo tamanho do poder de quem tem grana. A loira manda os caras me prenderem e eles prendem, a morena manda eles me soltar, e eles soltam.

É foda.

Peguei meus pertences e segui apressado para fora.

Eu só conseguia pensar no prejuízo que levei quando deixei todas minhas balas, paçocas e doces para trás, a grana que tinha levantada até aquela hora não seria o suficiente para cobrir tudo que perdi. Mas enfim, não posso fazer nada além de esfriar a cabeça e me preparar para arrebentar de vender no outro dia.

Caminhava pela calçada distraído contando o dinheiro da passagem quando uma voz fina chamou minha atenção.

— Ei! Me espera!

Parei, me virei para trás observando a morenona vindo até mim, correndo sobre o salto alto.

— É sério que você está indo sem me agradecer? Meu Deus, você e Aryela tem muito em comum! – Ela sorriu se aproximando.

— Foi mal! Tô meio perturbado com tudo ainda... Mas valeu, obrigado mesmo por ter me livrado dessa, apesar que foi aquela maluca que fez essa merda toda!

Ela sorriu sem graça.

— A Ary é complicada, mas ela é um anjinho... – Interrompi a maluca.

— Qual foi? Não viaja, de anja aquela mulher não tem nada. Tá mais pra diaba, uma diaba loira!

Ela sorriu me aplaudindo.

— Amei! Diaba loira, bem a cara daquela piranha! – A morena abriu a bolsa rapidamente tirando uma folha. – Vamos esquecer dessa diaba e falar da anja que sou eu, bom, eu ouvir você falando com aqueles moleques sobre o chefe, um tal de Canário, por acaso é esse aqui? – Perguntou me mostrando um cartaz de procurado com o rosto do meu amigo estampado.

Me envergonhei, fiquei meio sem graça, mas respondi.

— O nome dele tá aí, então deve ser. – Sorri recuando para trás.

— Meu Deus ele é lindooo! Que homem senhor! Olha o olhar desse cara!

— Sou mais eu! – Debochei tentando não rir daquilo.

— Mas você é envolvido, faz parte do comando vermelho? – Perguntou séria.

— Tá me tirando? Que papo torto é esse, eu sou trabalhador me respeita porra! – Retruquei franzido a testa.

— É porque de trabalhadora já basta eu querido... Me diz por favor, que você tem o número desse cara! Eu preciso conhecer, ver ele armado em cima da moto... Dançando nos bailes funk com o dedo para cima... – Disse meio em transe.

Só podia ser uma pegadinha, não é possível que uma mulher dessas iria se interessar logo pelo Canário, seco igual uma tábua.

— É sério isso?

— Escuta aqui meu querido, você acha mesmo que eu iria vir aqui te soltar se não tivesse algo do meu interesse? Eu preciso do número desse cara!

Se essa doida tivesse realmente interessada, o que eu tinha a ver com isso? Tem gente e gosto pra tudo nessa vida.

— Me dá seu número, vou passar pra ele.

Ela gritou se agitando em cima do salto.

— Obrigada! Toma aqui meu cartão.

Me entregou um cartão preto escrito em caligrafia dourada Lorena Lambertine – Arquiteta.

— Beleza. Ele vai ficar doido contigo, já tô até vendo!

— Você acha que eu faço o tipo dele?

— Dele e de qualquer homem!

A morena abriu um sorriso de lado, me analisando de cima abaixo.

— Eu preciso ir, tenho cliente daqui a uma hora... Anota meu número também, vai que você precisa. A propósito, qual é seu nome?

— Marcos, e o seu é Lorena... – Ela me interrompeu se achegando, me roubando um beijo demorado no rosto.

— Pode me chamar de Lô, Marcos. Foi um prazer te conhecer, espero te ver daqui pra frente, e por favor, não se esqueça do Canário! – Piscou e deu as costas, seguindo empinada, toda solta.

Lorena entrou no primeiro táxi que passou. Eu fiz igual, peguei o primeiro ônibus sentido Pavãozinho.

[...]

Subi o morro cabisbaixo, pensando no dia tenso. Será que as coisas seria diferente se eu não tivesse caído em depressão e largado a inclusão na PM de lado? Fui fraco, agi com o coração cheio de mágoa ao invés de raciocinar com a cabeça. Em pensar que se passaram dez anos, – a dez começou meu fracasso que não parou até hoje.

A rua principal estava agitada, principalmente no bar do Torneirinha. Uns caras da rua 16 estava tocando um pagode improvisado, por isso a lotação toda. Segui reto, sem olhar para os lados, ainda pensando em como tudo poderia ter sido diferente, mas não foi.

— Aê Marcão! Cola aqui doido! – Olhei para o bar movimentado e avistei Canário com uma garrafa de cerveja na mão, sambando com uma loira do lado.

Só fui porque tinha que entregar o número da madame que havia me dado uma fortalecida mais cedo.

— Eu já vou te passando a visão porque, não gosto de conversa fiada, o papo comigo é reto! Eu mandei sua mulher vazar do boteco, pow mó palhaçada ficar se esfregando, sarrando nos caras! Se eu fosse tu metia o pé na bunda da Renata, mó vadia cara!

— Tu mandou a Renata embora?! Como se você fosse alguma coisa dela? Porra Canário que vacilação é essa cara! – O nervosismo me tomou. Confesso que o que eu sentia pela Renata estava longe de ser amor, mas porra, outro homem mandando na minha namorada, aí já é demais.

Canário virou o restante da cerveja pelo gargalo. Me olhou com desprezo, e disse:

— Foi mal... É que tipo, tu é mó de boa, trabalha o dia todo vendendo bala, só acho que tu merecia alguém melhor, mas já que é assim, fazer o quê né?

Canário era meu fechamento desde a infância. Eu, ele e Pixote sempre fomos amigos inseparáveis. Mas infelizmente a vida nos deu uma grande rasteira, Pixote – seu irmão – morreu no mesmo dia em que Natália, desde então ele assumiu o comando do Pavãozinho. Meus conselhos de amigo nunca mexeu com o pensamento de nenhum deles. Ambos viviam ironizando “Largar o crime pra virar vendedor de bala?” Apesar de tudo e todas as encrencas que ele veio se metendo ao longo dos anos, Canário continua com a mesma concepção. Acredito que temos livre arbítrio para pensar e tomar qualquer atitude na vida, o problema é quando ela não gosta da atitude e se revolta contra nós.

— Pois é, deixa que com ela eu resolvo. – Mudei de assunto querendo quebrar o clima chato. – Conheci uma fã sua hoje.

Canário arqueou as sobrancelhas enquanto ajeitava a arma na cintura.

— Fã?!

— Hurum. Até eu estranhei, mas ela veio louca com sua foto no cartaz de procurado, falando que tu é mó boa pinta, um monte de parada lá! – Não segurei os risos ao dizer.

— Na boa, já tô com mulher de mais pra bancar. Tô afim não cara.

Olhei para rosto magro, olhos negros e apertados, nariz afinado junto aos lábios grossos que lhe dava uma expressão forte.

— Essa mulher pode tá afim de qualquer coisa, menos da tua grana. Mano ele é arquiteta, fora que estava andando com uma vadia e um viado num carrão daqueles importado. Na boa ela gostosa e rica do jeito que é encontra um melhor do que você num estalar de dedos.

Canário sorriu quando entreguei o cartão da moça, ele rapidamente anotou o número no telefone e se livrou do pedaço de papel. Me mostrou na tela do celular a mesma foto que estampava seu cartaz de procurado.

— Aí, pode dar o papo. Tô jeitosão nessa foto, olha minha cara! Boquinha meio aberta, sobrancelha levantada – sorriu – As madame pira mermo, tô que que nem um modelo.

Revirei os olhos entediado.

— Se tu tá dizendo… – mudei de assunto – Tu castigou os moleques lá do arrastão?

— Já dei meu jeito. Aê Marcão, bora curtir o pagode mermão! – Se afastou da pilar onde estava escorado e começou a sambar no sapatinho enquanto acendia um cigarro.

Meu celular vibrou e quando vi que era uma mensagem de Renata, me despedi de Canário dando as costas para o bar.

Segui reto, cortando beco até chegar no meu barraco.

[...]

— Meu amor... Eu não entendo porque sua filha me trata assim, eu sei que eu nunca vou poder ser como a mãe dela, mas eu queria que Laurinha me visse pelo menos como uma amiga... – Renata disse secando as lágrimas das bochechas.

— Ela não quer ser sua amiga Renata, evita forçar. Fica você pra lá e ela pra cá.

Renata puxou um dos longos cachos do mega-hair e se dispôs a enrolá-lo nos dedos.

— Mas vamos ser um família, é importante que nos demos bem. Eu já amo tanto ela como eu amo você Marcos. – disse tocando os lábios grossos pintados de vermelho nos meus.

Eu não acreditava, mas essas coisas eram complicadas. Fiquei 7 anos sozinho pegando uma mulher aqui outra ali sem conseguir engatar em algo sério, mas Renata se esforçou até conseguir. Eu realmente sinto um carinho muito grande por ela. Nos conhecemos em um ensaio da Portela onde ela era e ainda é passista. Seu jeito, o sorriso perfeito junto a calmaria que ela me transmite despertou algo em mim, mas longe de ser o que um dia sentir por Natália. Ela foi e sempre será o único amor da minha vida.

— Isso é bom morena. – Disse passando meu braço a sua volta.

— Quando é que você vai comprar outro sofá? Por que o buraco desse tá incomodando minha bunda... Não que eu esteja achando ruim, é só que...

— Tá incomodada? Então vaza! Aproveita que a porta tá aberta, vai e não volta mais! – Laurinha disse nervosa apontando para a porta.

Renata começou a chorar me deixando nervoso. Levantei-me aproximando da minha filha que nunca se conformou de eu ter encontrado outra pessoa.

— Olha como você fala com a Renata! Laura você não precisa gostar dela, mas eu exijo respeito. Ela é minha namorada!

— Eu só respeito quem se dá o respeito pai. Essazinha aí já rodou na mão do morro inteiro, agora que  ninguém quer vem babando pro seu lado! – Laura franziu a sobrancelha. – Pior é ela achar que pode reclamar de alguma coisa como se a casa fosse dela, ela fica aqui o dia inteiro e não ajuda eu e a vovó em nada!

— Chega Laura! – Meu grito ecoou pela casa. – Você tem que cuidar do seus estudos, da sua vida. Eu faço tudo que está ao meu alcance por você, então me deixa ser feliz. Eu preciso da Renata para ser feliz! – Gritei com o dedo na cara da minha filha, meu coração apertou, mas eu precisava tomar uma atitude forte quanto as muitas pessoas que acha que pode dar palpite no meu namoro.

— Tio Marcos tu não pode gritar assim com a Laura. Ela só tá te mandando a real! – Guto se intrometeu afastando Laura para trás.

— Deixa Guto, tudo bem... Preciso me arrumar senão vou me atrasar para o ensaio... – Deu as costas dura, exalando frieza enquanto seu irmão à amparava.

— Laura. Bom ensaio filha, desculpa se... – Quando ela virou o rosto vi que seus olhos transbordavam em lágrimas.

Como se não bastasse o dia difícil, agora a noite seguiria pelo mesmo caminho. Sempre foi assim, preocupação demais com a família, casa, minha namorada. Queria poder fazer mais por eles, mas estava numa fase que nem por mim estava conseguindo fazer nada.

— Preto não fica assim, são os hormônios a flor da pele que há em todo adolescente... – Renata disse me abraçando frio.

— Vai embora Renata, vai embora! Preciso fazer umas contas... – respirei fundo abstraindo tudo – na verdade eu preciso ficar sozinho.

— Eu entendo perfeitamente meu amor. Se você puder me emprestar dinheiro pra eu retocar minhas unhas de acrigel ficarei grata.

— Não posso, tive um prejuízo hoje. Vou fazer as contas aqui e se sobrar eu te dou. – Falei seco sentindo algo vazio no meu peito.

— Obrigada. Mas vê se consegue até amanhã tá bom? – Me deu um beijo na testa e saiu rebolando até a porta.

Renata sempre foi cobiçada por ser passista e uma mulher muito bonita, sempre foi linda por fora, a pele moreno jambo hipnotizava, os quadris largos, a bunda grande e durinha, os seios siliconados... Realmente ela era muito linda pra mim, e eu mal estava conseguindo manter minha família, imagina uma mulher dessas.

Segui para o quarto que dividia com Guto, meu filho de criação e me dispus fazer os cálculos do faturamento do dia. Uma merda, só prejuízo.

Droga!

[...]

Laura narrando


Queria entender qual o problema do meu pai. Queria saber porque ele gosta de se colocar para baixo diante daquela puta da Renata. Todo mundo sabe que ela está com ele porque ninguém quer mais. Agora a vagabunda fica aqui extorquindo meu pai. Eu torço tanto para ele encontrar alguém de verdade, uma mulher firme e independente, que chega para somar não para subtrair. Eu não quero uma segunda mãe, jamais, mesmo não tendo lembranças da Natália sei que mãe é só uma na vida... Mas em compensação eu tive um pai maravilhoso a qual admiro muito, minha vó que é um amor de pessoa, e Guto meu irmão, meu melhor amigo que sempre está comigo.

Tirei a blusa para colocar um cropped decotado com a estampa de onça. O cropped junto a qualquer short jeans escuro fazia parte do uniforme do grupo de dança a qual participava desde os 12 anos: Felinas.

— Sabe Laura, acho que não é legal você ficar só de sutiã perto de mim. Não somos mais crianças, eu tenho 16 anos e você 14... – Guto disse sem graça, desviando os olhos azuis piscina de mim.

— Deixa de ser chato Guto! Troco de roupa na sua frente a vida inteira, já fiquei pelada na sua frente e você vai vim com essa frescuragem agora? Por favor né! Anda vem cá fechar o zíper do meu cropped. – Virei de costas esperando Guto se achegar.

Guto cresceu muito com os anos, seus ombros ficaram mais largos, braços e pernas engrossaram e o cabelo loiro escureceu, agora eram castanho escuro igual ao seus poucos fios de barba. É pecado me arrepiar quando meu irmão jogou meu cabelo de lado para fechar o zíper do meu cropped?

— Prontinho. Vamos logo, as meninas vão te encher o saco porque você está chegando atrasada de novo.

— Culpa da vadia da Renata. Eu preciso separar ela do meu pai de qualquer jeito! Meu pai é um gato, merece coisa melhor! – Disse já sentada na cama enquanto apertava meu tênis velho, quase descolando.

— A Renata também é linda. Uma negona de tirar o chapéu, e se for olhar aqui no morro tem mulher muito mais rodada do que ela.

— Eu não tô nem aí se ela é linda, gostosa, cobiçada, rodada! A questão é que ela trai meu pai, eu tenho certeza disso. Já rolou vários boatos e ele fica com fama de corno no Pavãozinho. Mas isso vai acabar, porque ontem eu fiz um tinder com o perfil do meu pai e já apareceu mais de 10 interessadas. Agora eu estou selecionando uma a uma para ver qual se encaixa melhor com ele! – Dei o último aperto no cadarço, caminhei até o espelho onde sacolejei meus cabelos fazendo o volume aumentar.

— Tio Marcos não vai gostar, ele não precisa disso Laura!

— Precisa sim. Ele só não sabe que precisa, mas depois do primeiro encontro vai me agradecer. Vamos Guto! – Gritei arrastando para o lado a porta do meu quarto que estava solta há quase um ano.

As Felinas era eu e mais quatro dançarinas, tivemos a ideia juntas dentro da sala de aula, e desde então o nosso grupo só cresceu. Sempre nos apresentamos nos bailes do Pavãozinho e de morros vizinhos, participávamos de vários projetos sociais, e fazíamos parceira com outros grupos de dança. Eu amava dançar, meu pai sempre disse que isso foi influência da minha mãe, e que eu dançava tão bem quanto ela. Desde novinha sempre fui encantada pelas coreografias da Beyoncé e da Britney e meu maior sonho é me tornar bailarina no programa do Faustão.

Após 15 minutos chegamos a quadra. Sempre que havia ensaios várias pessoas, na verdade meninos ia nos ver dançar. Eu amava aquilo, era até legal para eu já ir me preparando porque quando eu fosse me apresentar ao vivo em rede nacional o público seria muito maior.

As meninas estavam deitadas espalhafatosamente mexendo no celular ao lado da caixa de som. Caminhei apressada me jogando sobre elas.

— 2 anos depois a Laura aparece para o ensaio. Só fica ligada que no Faustão não pode rolar atraso! – Sara disse se levantando.

— Nem pode ficar deitada no meio do palco!

Ela fez cara feia para mim, mas eu não me abalei porque a cara dela nunca foi bonita.

— Bora começar suas puta! – Sabrina gritou ligando a música. – Jogando sujo da Lud!

Seguimos para nossas posições já no ritmo do funk, não era a primeira vez que dançávamos aquela música, a coreografia estava montada, agora era só rebolar. Sara e eu caminhamos para a frente cruzando as pernas, apoiamos as mãos na altura do seio enquanto passávamos onda pela barriga. Uma fila se formou desde a Sabrina lá atrás até eu que estava na frente,  colocamos as mãos na nuca tremendo a bunda com ela empinada, depois nos viramos de lado rebolando, quebrando no quadradinho até embaixo.

Repetimos a coreografia umas 10 vezes, até achar que ficou quase perfeito. Terminamos o ensaio cansada, o suor quente atravessando minha pele, ensopando meus cabelos e meu cropped.

— Ficou um arraso! – Sabrina gritou nos deixando animada.

— Teria ficado se a Valesca não tivesse dura que nem uma pedra! – Sara afirmou olhando Valesca com deboche.

— Melhor dura do que achar que tá abafando, quando na verdade parece uma cobra mal matada! – Gritei imitando ela toda desajeitada.

Tadinha ela gosta de criticar, mas não gosta de ser criticada. Tenho ranço de gente assim.

— Gente para! O Boneco tá ali, que coisa feia pra vocês ficar fazendo na frente do gerente! – Sabrina gritou dando uma de madura na frente do Boneco. Por que ela não fala de uma vez que é doida pra ficar com ele? Que saco isso!

O gerente se afastou das grades da quadra caminhando até nós com um de seus vapores do lado. Quando ele se aproximou as meninas ficaram retardadas fazendo comentários sem sentido pro cara.

— Ficou da hora, Canário quer que vocês abra o próximo baile! – Falou sério, sem dar mole para nenhuma de nós. – Bora Beiçola!

Afirmou encarando o vapor ao seu lado. Meu vizinho de 15 anos, moreno, cabeça raspada cheia de desenhos de apologia ao tráfico. O corpo era magro e esguio, e ele não tirava o cigarro da boca por nada.

— Vai na frente, vou marcar um dez aqui com a Laura?

— Comigo? Por que comigo? – Questionei sem entender nada.

— Teu plantão começa daqui uma hora cara. Se tu atrasar já sabe! – O olhar que Boneco fez para ele quase me desmontou de medo. O gerente deu as costas, se afastou sem se despedir de nós.

— Sei lá... Eu gosto de ver você dançar... Se quiser dançar de novo. – Piscou para mim fazendo o silêncio abrangir entre eu e as meninas.

— Você não tá vendo que ela acabou de dançar cara?! A Laura tá cansada! – Guto veio lá de trás enraivado.

— E cara, por quê tá se metendo? Meu papo é com a Laura, não contigo! – Afirmou empurrando Guto com o ombro.

Guto lhe devolveu a ombrada, o jogando para longe.

— A Laura é minha irmã, e eu não vou deixar um otário que nem tu chegar nela!

— Irmã onde? Olha pra ela, olha pra tu! Você loiro do olho azul, a Laura morena... Nada a vê cara! Tu se acha o fodão só porque tem essa pinta de playboy, mas geral sabe que tu não tem dinheiro pra comprar nem uma cueca! Essa havaiana remendada no seu pé é a prova! Olha pra mim cara, eu tô de kenner novinho! – Beiçola disse se achando, cheio de deboche.

— Eu vou quebrar sua cara!

Guto gritou pulando para cima de Beiçola com os punhos cerrados. Ambos caíram contra o chão e lá meu irmão bateu sua cabeça no chão até o sangue minar de seus lábios.

As meninas só gritavam que nem retardadas enquanto eu tentava separá-los.

— Socorro! – Gritei desesperada.

Olhei para trás e vi uma moto parar lá fora. Dois moleques vieram correndo até nós, quando se aproximaram separaram meu irmão de Beiçola.

— Qual foi? Tá tirando achando que pode bater na tropa? – Um garoto negro e alto perguntou.

— Ele que começou! Ele falou mal do Guto! – Entrei na frente temendo o pior.

— Esse cara fica se achando só por causa do olho... Mó fodido! Olha os traje do cara! – Beiçola afirmou com deboche, fazendo os amigos ao lado caírem na risada. – Já pensou se ele ficar sem o olhinho azul? Imagina o que não vai ser!

— Chega! Vocês são ridículos, nem parece vapor. Se encostar um dedo em mim ou no meu irmão eu vou ligar pro meu pai e ele vai falar tudo pro Canário! Vamos embora Guto! – Afirmei puxando Guto pelos braços, dando as costas para os amostrados.

Saímos da quadra com medo, Guto tremia de raiva e permaneceu mudo até eu perguntar pela vigésima vez se estava tudo bem.

— Não enche o saco Laura! Eu quero ficar sozinho! Aqueles caras estão certos, todo mundo sabe que eu não tenho nada, que eu não sou ninguém. Eu nunca fui na escola, eu não sei a data do meu nascimento, – forçou o sorriso – falando nisso eu nem tenho uma certidão de nascimento... Eu não existo!

— Meu pai já está arrumando isso... – Ele me interrompeu.

— Desde que eu me entendo por gente seu pai tá arrumando essa porra! Mas ele nunca consegue porque temos que sair para a rua pra vender bala o dia inteiro, e vai continuar assim até eu morrer. Eu vou morrer tendo apenas um apelido, eu não sou ninguém!

— Você é meu irmão, meu melhor amigo. – Falei o que veio de dentro.

— Não Laura, eu não sou nada seu, nós não temos o mesmo sangue. Acho que se eu não tomar um rumo a partir de agora, eu vou continuar esse merda até morrer! Eu não vou voltar pra casa... – Interrompi Guto, ele não estava bem.

— Você vai sim! Senão eu vou chamar meu pai! – Gritei enraivada.

— Ainda bem que você disse SEU PAI, nem ele nem você são nada meu. E foda-se vocês e as balas que ele vende!

Guto disse me dando as costas, seguindo lentamente pelo caminho contrário, sério, parecendo calmo, mas eu sabia que no fundo ele estava transbordando em raiva e remorso. Corri até ele apressada, não podia deixar que ele fosse embora assim, à toa.

— Você vai embora só por causa disso? Só por causa de uma briguinha de nada?

— Não. Eu vou embora porque eu cansei de ser um nada, um ninguém nessa porra!

— Não Guto! Você é meu irmão, nós crescemos juntos... Eu sei que você tá estressado, eu também sei melhor do que ninguém o quanto você sofreu e está frustrado, mas acho que podemos resolver...

Ele continuou seguindo caminho, sério, enquanto eu o seguia.

— E se eu te dissesse que gosto mais de você do que como um irmão... Eu acho que eu amo você de outra forma... Eu queria que você fosse, sei lá meu namorado... – Entrei em sua frente com os olhos transbordando em lágrimas, dei-lhe um abraço forte, apertado.

Guto me empurrou com tanta força que eu caí no chão desorientada.

— Eu não quero ser teu irmão, muito menos seu namorado! Eu só quero paz, descobrir quem eu sou! Eu não quero você nem seu pai vindo atrás de mim. Pelo contrário eu quero que vocês se fodam! – Gritou olhando para baixo, vendo o quanto estava triste, completamente magoada.

Mesmo assim ele se foi...

E quer saber de uma coisa: Eu também quero que ele se foda!


Notas Finais


Boa noite!

Se puderem me responda rapidinho.

Os protagonistas do livro são: Aryela, Marcos, Laura e Guto.

Qual o melhor protagonista até agora?

E qual o pior?

Deixem os comentários, quanto mais comentários e corações mais rápido sai o capítulo.

❤❤❤❤❤❤


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