História Alexitimia - Capítulo 2


Escrita por: e CelestiaK

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Colegial, Guerra!au, Hopemin, Jihope, Jihopeproject
Visualizações 170
Palavras 8.173
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Ficção Adolescente, Fluffy, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


A todos vocês que estão de férias: aproveitem por mim, por favor, porque, Brasil, eu estou devastada!

Eu até agora não estou acreditando que terminei esse capítulo. Eu praticamente tive que domar meu bloqueio criativo. Péssimo, péssimo!
O importante é que saiu e aqui as coisas começam a ficar mais claras e interessantes e já deu uma mudada nos ares.

Só é possível entender lendo, então boa leitura a todos! sz

Capítulo 2 - Os conselhos de Namjoon e o pó de arroz tem a solução


Fanfic / Fanfiction Alexitimia - Capítulo 2 - Os conselhos de Namjoon e o pó de arroz tem a solução

Se Jimin soubesse pelo que teria que passar no resto do dia, nem teria pensado em levantar da cama.

Despertou sem a menor vontade de manter os olhos abertos. O fantasma da insônia o visitara mais uma vez e sabia que depois dali teria que lutar o resto do dia contra a improdutividade. Estava cansado e, provavelmente, doente. Sentia uma fraca dor de cabeça, fora o cansaço e um leve enjoo. Puro desleixo próprio por nunca ouvir os conselhos de Taehyung, mesmo sabendo que ele sempre estava certo.

Não bastasse isso, quando se levantou pensando em tomar um remédio antes que a dor piorasse, odiou-se mais uma vez por ter que encarar aquela figura que representava a si mesmo no espelho.

Não conseguia se achar bonito por mais que houvesse melhorado com os anos e o seu rosto desproporcional houvesse se aproximado um pouco mais de seu padrão pessoal de beleza. Os dias continuavam trazendo uma certa angústia por não conseguir gostar do que via em si e pelo fato de que era inevitável ter de se encarar diariamente.

Precisava se arrumar todas as manhãs antes de sair de casa. Tinha que pôr em ordem o emaranhado de fios castanhos e camuflar as olheiras profundas, resultantes de suas noites mal dormidas. O pior — e o que menos gostava —, eram as sardas presentes no nariz e nas bochechas. Não via sentido na existência delas em seu rosto. Era como se estivessem ali apenas para lembrá-lo que ele não tinha nada além de aspectos que o tornavam desagradável visualmente.

Ás vezes perguntava-se porquê não poderia ter a pele lisa e perfeita de Taehyung ou o rosto fino que representava a beleza peculiar de Namjoon. Sentia-se o único no grupo que ainda detinha feições infantis e se negava a acreditar quando os melhores amigos diziam que ele estava bem sendo ele mesmo.

Mas não era somente aparência física que Jimin invejava, afinal, os dois são dotados de particularidades que Jimin acredita nem chegar perto de ter.

Taehyung, como sendo alguém de classe média alta, foi criado por pais rígidos e bem-sucedidos para ser dono de opiniões fortes e, com o tempo, adquiriu uma autoestima inabalável. Consegue firmar sua presença a partir do momento em que profere algo pela primeira vez e aprendeu desde cedo que não precisa da aprovação de outrem, contentando-se apenas com a sua própria opinião. Jimin admira isso, assim como a visão prática de mundo do Kim. Nada é um problema que não pode ser resolvido de forma simples, exceto os cálculos matemáticos tão repudiados por ele.

Já Namjoon, é a pessoa mais inteligente que tem o prazer de chamar de amigo. Possuinte de tamanha gentileza, recebe críticas de braços abertos e quando fala busca sempre as melhores palavras para se expressar. Namjoon sabe o que dizer, como dizer e como lidar com as situações de maneira em que tudo se solucione rapidamente e sem restos de conflitos, além de não se deixar abalar por meras ninharias do dia a dia. Veio de uma família com pais alcoólatras e passou por terríveis conflitos, isso o ajudou a colocar a cabeça no lugar devido a sua única influência boa, a irmã mais velha. Ter consciência desse tipo de coisa tão intima só fez Jimin admirá-lo ainda mais.

E queria ele ter a sorte de possuir um pouco de todas as qualidades que os compõe.

Quando este desceu as escadas, já arrumado com a blusa social branca com o emblema do colégio, esta que fora posta por dentro da calça social preta, sua heroína já estava de pé, pronta para mais uma rotina profissional.

Jimin trocou breves cumprimentos de bom dia e sorrisos pequenos com sua mãe e papearam rapidamente sobre como o dia estava particularmente frio naquela manhã, até mesmo fora alertado para tomar cuidado e levar um agasalho antes que adoecesse. A mulher não percebeu que ele já estava mal. Mesmo assim, ele teve de retornar para o quarto para pegar algo quente o suficiente e acobertar o corpo, algo que Jimin achou desnecessário, pois não sentia frio e já se sentia aquecido internamente por aquelas palavras.

A mãe tinha tanto na cabeça e ainda arrumava um pouquinho de espaço para guardar pensamentos sobre si, sobre sua proteção e bem-estar. Acreditava que nem nascendo novamente ele puxaria a beleza física tanto interna quanto externa que a mulher, próxima aos seus cinquenta anos, contém no coração. As sardas que o incomodavam tanto não eram replicadas naquelas bochechas femininas; herdara do pai, um estrangeiro que não fora mais visto.

Apesar disso, a Sra. Park sempre se esforçou para cuidar e educar muito bem o único filho, mas lamentava não ter tempo o suficiente para passar ao lado dele graças ao trabalho árduo em um restaurante de classe média no qual garantia a sobrevivência dos dois. Era o tipo de mãe que gostava de mimar, dar um agrado, um abraço apertado, dizer que ele era a pessoa mais importante de sua vida, mas mal tinha oportunidades para isso, fora o tempo. Tempo era dinheiro e os minutos nunca se estagnavam na Coreia, muito menos as pessoas.

Jimin entendia isso, sentia-se solitário, mas já havia se acostumado a ter a casa vazia enquanto a mãe trabalhava e não havia nada a fazer senão aceitar o amor dela que era representado em um beijo carinhoso e ambíguo deixado em sua testa antes de partir.
 


[…]

 

Quando chegou na escola, o verdadeiro desafio do dia foi manter seu autocontrole para passar todas as aulas embrulhando suas reclamações sobre seu mal estar. Não queria que Taehyung desconfiasse. Bastava uma análise breve e minuciosa para que ele percebesse que Jimin não estava se sentindo bem e não protelaria ao mandá-lo ir para casa e o Park não queria se dar esse capricho, tudo por pura teimosia.

Sua sorte era que o amigo estava mais grudado ao celular do que normalmente estaria e demonstrava um leve mau humor quando era obrigado a se desgrudar do aparelho. Até questionou o Kim mais velho sobre aquele comportamento e Namjoon afirmou que nada sabia, mas sorria como se houvesse uma mínima ideia do que estava acontecendo e decidiu deixar para lá ao tentar se convencer de que não estava tão curioso assim.

Viram a face de vários de seus professores, ouvindo-os dissertando e passando exercícios até o sinal bater indicando o final das aulas e se locomoveram para a saída do prédio com os demais alunos. Normalmente, eles seguiriam juntos até certo ponto, pois Namjoon precisava ir trabalhar, Taehyung iria para um curso especializado que os pais estavam o obrigando a fazer e Jimin tinha parado de frequentar a biblioteca da escola, então voltava para casa e aproveitava o tempo restante para fortalecer seus estudos.

Entretanto, ao ouvir duas garotas comentando sobre o festival primaveril, Jimin estacionou no meio do caminho e amaldiçoou o fato de ainda ter coisas para fazer. Ainda próximos aos armários azuis que contém os pertences dos alunos, os outros dois se deram conta da falta de uma presença e olharam para trás.

— Até amanhã.

— Você vai ficar aí? — perguntou Taehyung e Jimin acenou positivamente.

— Decidiu ir ao conselho? — Foi a vez de Namjoon se pronunciar.

— E eu tenho escolha? — respondeu levemente irritadiço, cruzando os braços.

— Não foi você mesmo que disse que não iria, seu mentiroso? — Taehyung relembrou e em seu rosto reapareceu o costumeiro sorrisinho característico que adora utilizar para irritar os outros. Obteve um lindo sucesso ao conseguir que o amigo revirasse os olhos. Detestava ser chamado de mentiroso.

— Foi praticamente uma ordem, eu não posso recusar. E eu acho que Hoseok não veio pra escola hoje, então não corro riscos.

— Queria que você se preocupasse comigo tanto quanto você se preocupa com ele — comentou Taehyung. — Eu seria uma pessoa mais feliz e menos carente de atenção.

— Você sabe que isso tá bem longe de ser preocupação. — Jimin quase revirou os olhos uma segunda vez.

— Dá no mesmo. — O loiro deu de ombros e cruzou os braços, adquirindo uma pose e expressão debochadas. — Pensa vinte e quatro horas nessa porra desse garoto e não tira um minuto pra perguntar como eu to. Tá vendo? Isso que é exemplo de amizade de qualidade, Namjoon! — Taehyung descruzou os braços para bater curtas palmas e ainda repuxou a blusa de Namjoon, este que tentava segurar o riso, para que ele concordasse consigo. Até Jimin se permitiu rir um pouco do drama mais falso que o loiro no cabelo do Kim.

— Cala a boca que você que ficou o dia todo no celular e eu não falei nada.

— Primeiramente que tu não tem nem moral pra falar sobre isso — Jimin foi olhado de cima a baixo e, mesmo assim, sorria com uma mão na cintura, esperando aonde os argumentos do Kim iriam parar. — Eu hein, abusado… Segundo, você não tem que reclamar mesmo. Terceiro, você sabe que pode muito bem ir embora agora e alegar que esqueceu que tinha sido chamado… ou sido sequestrado. Namjoon e eu damos ótimos sequestradores, olha que lindos — terminou fazendo um sinal de “V” com os dedos e forçando um sorriso.

— Você dá é uma péssima influência! — retrucou Jimin, repetindo o mesmo gesto que o outro.

— Então bem feito! É isso que você ganha por ser certinho demais, seu trouxa! A péssima influência está se retirando para não influenciar mal as outras pessoas.

Os dois riram vendo o outro ir embora. As vezes Jimin se perguntava se um dia cansaria do comportamento do melhor amigo, mas só se lembrou que estava realmente exausto quando Taehyung se despediu com um aceno e seguiu para a saída. Mesmo que ele o trouxesse bastante estresse, levar para longe os males era uma de suas especialidades. Não significa que o Park admitiria isso em voz alta, apenas para não inflar ainda mais aquele ego enorme.

Quando Namjoon foi logo atrás com um sorriso no rosto após se despedir do moreno, Jimin girou os calcanhares para se encaminhar diretamente até o conselho estudantil, ou grêmio, como os estudantes também optam por chamar.

Passando pela quadra principal e subindo a escadaria, uma figura já conhecida fora encontrada andando no extenso corredor ao mesmo tempo em que segurava alguns papéis coloridos. Jimin foi até ele para suprir sua curiosidade.

Jeon Jeongguk parecia radiante enquanto caminhava distraído, não que isso fosse uma anormalidade. Era um bonito estudante da outra divisão de terceiranistas e o que se sabe sobre ele é a sua tão falada amistosidade e boa vontade para ajudar os estudantes com dúvidas e outras questões, era seu dever como membro do conselho, afinal. Além disso, sua inteligência e esforços não eram questionados por ser muito bem comentado e estar próximo a Jimin e Hoseok no chamado quadro de honra.

Não poderia dizer que eram próximos, mas também não havia hostilidade. Antigamente, Jimin havia uma antipatia pelo rapaz por sentir-se inferiorizado, uma leve semelhança com o que Hoseok fazia consigo. Vendo que não era o caso e que Jeongguk o tratava muito bem, resolveu dar-lhe uma chance e mudou seus conceitos, conseguindo vê-lo como uma boa pessoa e não uma ameaça. Trocavam curtas palavras e cumprimentavam-se com sorrisos ao se cruzarem pelos corredores, assim como acontecera quando Jimin foi avistado.

— Você está bem? — perguntou Jeongguk ao ver os traços da face do Park quando já estavam próximos. — Parece cansado.

— Estou — respondeu simples. — Digo, estou bem, sim. — E passou a mãos pela cabeleira acastanhada.

— Tudo bem, então. — Jeongguk sorriu se deixando ser convencido. Se o outro não queria falar, certamente não iria pressioná-lo. — Ah! Eu tenho que te dar um comunicado.

— É sobre o assunto do festival?

— Sim. A Sra. Son mudou de ideia bruscamente e decidiu fazer outra coisa. Nós já conversamos com algumas pessoas e resolvemos imprimir alguns papéis de avisos — ele olhou brevemente para os papéis em suas próprias mãos —, que é mais eficiente do que ficar perguntando de um a um. Mas ela quer realmente que a gente promova isso. Ela não quer algo pequeno, mas majestoso e, por isso, precisa chamar a atenção de muita gente. Talvez ela até apele um pouco.

Jimin parou, respirou, lambeu os próprios lábios e engoliu a própria raiva que queria vazar em forma de sílabas ou até mesmo, grunhidos.

— Essa mulher… — falou entredentes com uma mão no rosto e um sorriso dolorido — poderia ter feito isso desde o início. E, francamente, é só um evento onde as pessoas vão pra comer e, poucos, pra comemorar. Não precisa dessa importância toda.

— Ah, não é só isso. As cerejeiras e o simbolismo são uma boa atração, mas não posso negar que ela é bem…

— Louca.

— Não, Jimin… — A voz do Jeon morreu para dar lugar aos risos que não conseguiu evitar, mesmo achando errado comentar esse tipo de coisa dos professores. Mesmo que alguns até merecessem.

— Ela é louca, sim, Jeongguk! E nem vem dizer que não! As coisas que ela já mandou a gente pintar no fundamental… pelo amor de Deus. É sério, o cheiro constante de tinta não faz bem pro raciocínio dela.

Em meios as risadas do Jeon, os dois constataram que com aquela conversa era impossível não se lembrar das exigências, consideradas absurdas, da mestra. Os alunos chegaram a se auto questionar se ela estava com a cabeça no mesmo mundo que o deles. Talvez fossem suas mentes prematuras perdidas no mundo artístico e abstrato ou a mulher realmente tinha uns parafusos a menos. A maioria preferia acreditar na segunda opção e sendo isso ou aquilo, Jeongguk preferia ficar quieto a respeito.

— Se é você quem está dizendo, quem sou eu? — disse Jeongguk enquanto o Park bocejava com a mão posta sobre a boca.

— Enfim, minha presença não é necessária?

Jeongguk entreabriu os lábios para, logo após, os comprimir, como se houvesse algo, num mínimo, desagradável para dizer.

— Eu preciso de um pequeno favor porque, no momento, eu estou sozinho. Se você puder fazer, é claro.

— O quê? — questionou o Park.

— Eu tenho que ir procurar o professor Kim e deixar essas coisas aqui com ele — referia-se aos papéis. — Pode continuar aqui imprimindo enquanto eu vou lá? Não vou demorar muito.

“Não”, era o que gostaria de dizer. Não por má vontade, mas pelo estresse recente originado desde o começo do dia até ouvir a história de sua professora louca. Sua barriga não parava de roncar e doer, sentia-se febril, sonolento e estava sonhando acordado com a própria cama desde a aula de matemática e não queria saber de outra coisa. O dia estava todo errado e achava que ele deveria acabar de uma vez.

Entretanto, Jeongguk tinha um brilho no olhar que se assemelhava a um bichinho que clamava por comida pelos olhos e, diante esse tipo de persuasão, Jimin parecia não ter escolha. Estava apenas se deixando ser vencido por um ato que considerou meigo, culpa de sua maldita queda por garotos com ares fofos.

— Posso… — disse Jimin, rendendo-se, a voz saindo em um sopro.

Jeongguk sorriu grato.

— Eu já volto.

Vendo o outro se afastar para além do corredor, Jimin espalmou a própria testa, respirou fundo e caminhou uns três metros em direção a porta do grêmio. Era tarde demais para se arrepender de suas boas ações.

Como nunca tinha entrado ali por falta de interesse e oportunidade, deu uma boa conferida no local quando a porta foi aberta. A sala do grêmio não era muito diferente do que havia imaginado. Estava vazia e parecia uma sala de reuniões trivial com mesas, cadeiras, um computador, estantes e pequenos armários — provavelmente contendo os dizeres dos alunos que gostavam de interagir com o conselho para diversos assuntos, incluindo os eventos sociais que são organizados por eles. As paredes não possuíam cores vivas, mas um amarelo pálido e o cheiro se assemelhava a aromatizantes superficiais. O barulho se resumia ao som da impressora realizando a sua função ao captar o papel e preenchê-lo com tinta.

Ao menos Jeongguk já tinha deixado aquela coisa funcionando.

Abandonou o seu material em cima de uma das mesas e achou que teria liberdade para pegar o celular e verificar suas novas mensagens enquanto os papéis eram impressos, no entanto, um estrondo abrupto se alastrou, alarmando o Park. Quando foi até a impressora olhar mais de perto, a máquina tinha parado de funcionar.

“O papel… prendeu?”, supos mentalmente para logo rir desacreditado de sua má sorte.

Não sabia o que tinha dado de errado e era exatamente por isso que o sorriso sumiu de seu rosto a partir do momento em que o receio se apossou deste. Não era para tanto já que era só um erro técnico, mas não sabia o que fazer. Isso nunca tinha acontecido antes. No máximo, a máquina não ligava ou não restava tinta, mas parar do nada era algo novo para si. Ficou ali estagnado, encarando-a com o olhar cansado. A mente embaralhada o impedia de pensar rápido e mover-se para encontrar uma possível solução.

Se fosse esperar Jeongguk voltar, ele poderia resolver o problema, mas pensaria que era um inútil por não ter feito nada, incluindo o favor que ele lhe pedira. Se apertasse algum botão errado, poderia agravar a situação e, francamente, ele não estava apto para se responsabilizar por seus atos naquele momento.

Jimin quis berrar. Poderia até ser exagero de sua parte, mas qualquer mínima coisa que acontecesse parecia estar mais insuportável do que em dias comuns e se fosse para ser testado pelo universo dessa forma, então desejou que piorasse as coisas logo de uma vez.

E seu pedido foi acatado com sucesso.

Estava tão tenso e imerso em suas ideias que não percebeu uma presença se aproximando a passos silenciosos. Quando olhou para o lado, seu corpo estremeceu por inteiro, um grito se estendeu por todo o cômodo e o coração de Jimin, a bombear mais rápido.

O Park já teve pesadelos onde estava em lugares diversos e Jung Hoseok aparecia aleatoriamente para matá-lo do coração, mas essa tinha sido a única vez em que aconteceu verdadeiramente. Seu sangue ferveu, já não estava num bom humor e, de bônus, o outro lhe aparece de surpresa. Queria agredi-lo por não tê-lo sinalizado sobre sua presença de alguma forma.

Quanto a Hoseok, ele mal havia se movido após o grito. Seu corpo se impulsionou levemente para trás e um olhar arregalado se fez presente. Jimin não tinha esquecido que ele também havia sido chamado, mas como não o viu anteriormente, não achou que ele fosse aparecer.

Era a sua segunda vez tão próximo a ele dessa forma e em um intervalo tão curto de tempo, constatou que sua maré de azar tinha atingido um extremo absurdo.

— Não te avisaram que não precisava vir mais!? — Jimin esbravejou com a respiração desregulada. Pensou por um segundo se deveria mesmo dirigir-lhe a palavra, mas estava claramente alterado devido ao susto.

— Não — respondeu Hoseok em um tom baixo, grave e meio rouco que surpreenderam Jimin por mal estar acostumado a ouvir aquela voz. Por ela, parecia que ele tinha acabado de acordar, no entanto, não tinha indícios disso, como sempre.

O Jung não parecia afetado por vê-lo ali, mas mantinha certa distância, talvez pelo receio em estar por perto ou só por educação, coisa que Jimin duvidava muito. Notara que ele olhava para a impressora como se já imaginasse que tinha algum problema.

— Estava funcionando — resolveu explicar a situação, visto que o outro não tinha perguntado  —, mas ela parou do nada. E só pra deixar claro, eu acabei de chegar. — defendeu-se. Não o deixaria pensar que era algum tipo de destruidor, apesar de não ser tão organizado quanto gostaria de ser, ainda tinha um enorme cuidado para com as coisas dos outros.

Ele o olhou brevemente, sem esboçar reação alguma e voltou a olhar para a máquina.

Sentiu um peso costumeiro na consciência que sempre ocorria quando estava perto do outro e procurou se afastar enquanto ele ficava ali, analisando o que estava acontecendo.

Quando se sentou de braços e pernas cruzadas em uma das cadeiras, tentou calcular a quantos minutos Jeongguk já tinha ido e quanto  ainda faltava para que ele voltasse e, de certa forma, o salvasse daquela situação. Até mesmo a louca da Sra. Son seria uma ótima pessoa para aquele momento. Mas não. Tinha de aparecer justo o convencidinho zero um da turma.

Via Hoseok de soslaio, se movimentando tão calmamente pela sala e não sabia o que ele estava tentando fazer. Ouvia os seus passos que beiravam o silêncio até que não deu nem dois minutos no relógio pregado na parede e a máquina já estava funcionando como nova. O Park, indignado, se levantou para ir conferir, colocando-se ao lado de Hoseok. Estava estupefato.

— O que você fez? — Jimin perguntou, os lábios grossos e róseos abertos em surpresa e os olhos fitaram Hoseok que parecia um tanto pensativo.

— Faltava papel — respondeu ao que foi arrancando de seus pensamentos.

Se Hoseok já conseguia fazer com que se sentisse insuficiente, agora parecia que ele era desprovido de inteligência básica, pois era assim que ele estava se sentindo: burro e constrangido.

Irritou-se. Recusava-se a acreditar que estava com a vista tão cansada assim. Não poderia ter sido tão estúpido. Hoseok deveria o achar uma piada e não duvidava que, por trás da farsa que acreditava ser o olhar sereno do Jung, ele estivesse rindo internamente de seu deslize.

— Eu não sou idiota — começou Jimin. — Se é isso que está pensando.

— Eu sei que não — ciciou, encarando um ponto invisível no chão. — Acontece.

— Mentira! — acusou, pondo-se a encará-lo. — Eu sei o que você pensa de mim!

Hoseok nada disse.

Seu olhar parecia indiferente ou hostil. Jimin não conseguia decifrar o que era, só sabia que ouvir aquilo foi o seu limite e que, se fosse para ser menosprezado, que ao menos dessa vez tivesse chance de falar algo que prestasse, ou somente algo.

— Eu não sou nada do que você pensa que eu sou, mas não é como se você se importasse em saber, não é? Nunca se preocupou em perguntar alguma coisa. Sempre preferiu me estimar em silêncio e eu imagino que talvez isso te ajude a se sentir melhor.  — O tom que usava agora estava mais para algo abatido do que nervoso.

Perante aquelas acusações, o Jung franziu as sobrancelhas. Aquilo parecia mais uma desabafo do Park do que o início de uma discussão. E mesmo que fosse, não via necessidade em dar continuidade a ela. Pensou que seria melhor deixá-lo falar e essa iniciativa, ou a falta dela, resultara no cômodo preenchido por silêncio mais uma vez.

Isso nada agradou Jimin, pois aguardava alguma resposta seja lá qual ela fosse.

— Cortaram a sua língua fora? — perguntou a ele e se aproximou, parando em sua frente e ria com escárnio. — Isso também é coisa do seu critério?

— Critério?

— O que você usa para escolher como tratar as pessoas. Ao menos, você deveria ser honesto com os outros em vez de, simplesmente ver alguém como um lixo inferior, sabia? Ou aprender a disfarçar melhor.

Hoseok arregalara o olhar em assombro. Claramente, não tinha a menor ideia do que o Park estava falando e aquilo nem de longe parecia certo, mas sua mente estava estagnada e não sabia o que dizer.

O bom é que não dera muitos segundos e a porta se abriu. Jeongguk pôs os pés na sala e ao ver os dois tão próximos, hesitou. Intrigou-se pelo que estava acontecendo, pois raramente via outras pessoas próximas ao Jung e aquilo parecia incoerente.

— Tá tudo bem por aqui? — Jeon questionou enquanto se aproximava cauteloso.

— Sim — respondeu Jimin. Não sabia se agradecia ou se colecionava pensamentos raivosos por ter sido interrompido. Talvez aquela fosse sua única chance de conversar com ele ou, simplesmente, tacar na cara dele tudo o que pensava e mais um pouco, mas agora que estava livre, decidiu que deveria ir embora de uma vez. — Já que você voltou, eu vou pra casa.

Antes de Jimin ir até a mesa pegar o resto de suas coisas para partir, decidiu sussurrar algo a mais no ouvido de seu rival:

— Eu já percebi tudo que você tenta fazer pra me diminuir, mas isso não vai durar por muito tempo. Saiba que o próximo primeiro lugar é meu.

Deu uma última olhada desgostosa em Hoseok antes de passar por Jeongguk e pressupôs que ele estava o julgando mentalmente pelo comportamento deveras estranho. Talvez burburinhos sobre aquilo não seriam anormais na manhã seguinte.

Mas Jeongguk estava era preocupado com outra coisa.

Quando o Park se distanciou o suficiente ao sair pela porta, ele se aproximou de Hoseok com feições preocupadas. O outro ainda permanecia imóvel e absorto como esteve durante todo o desabafo que fora despejado em si tão inesperadamente.

— Ele fez alguma coisa com você? Te falou algo ruim? — Ele segurou os ombros do outro e o sacudiu visto que ele não o respondia e nem parecia estar o ouvindo. Estava em choque. — Hoseok!

O Jung meneou a cabeça em negação.

— Ei! — Jeongguk levou a mão até o queixo do moreno, elevando-o para que olhasse em seu rosto. — Você fez algo?

— Eu não sei. Acho que sim.

Não que o moreno já não estivesse acostumado com aquelas respostas vagas, ainda mais vindas de alguém como o Jung que era amigo há tanto tempo e uma fonte de suas aflições. O problema era que, se houvesse ocorrido algo grave, Jeongguk teria que penar para extrair alguma informação.

— Assim fica difícil… — coçou os cabelos negros escorridos enquanto raciocinava. — O Yoongi já deve estar em casa. Vamos voltar.

 

[…]

 

Dias se passaram.

O interior do prédio escolar estava belo com enfeites amáveis e sutis, dignos da primavera. Parecia que o plano da Sra. Son estava ocorrendo exatamente da maneira que ela queria e havia boatos de que ela havia até discutido com o diretor por conta daquilo. Ninguém entendia o que parecia ser uma fixação da mulher pela estação e o evento em si, só esperavam que aquilo não subisse a cabeça dela, coisa que estava sendo muito comentada em cochinhos pelos estudantes ao mesmo tempo em que todos admiravam o que ela planejava.

Nesse meio entre o pacífico e o conturbado, a dupla de Kim’s era vista contornando os cantos da escola sem o seu terceiro membro. Taehyung não ficara surpreso quando descobriu que Jimin tinha ficado em casa devido a piora de seu estado de saúde e foi obrigado a ficar de cama até ele se estabilizar. Foi exatamente o que ele disse que aconteceria caso o outro teimasse em continuar sendo desleixado consigo mesmo.

A mãe do garoto estava tão preocupada que até sugeriu se ausentar do trabalho para cuidar dele, mas o próprio alegou que não era mais uma criança para precisar dessa observação toda. E também, não queria a atrapalhar. Não seria por isso que seus melhores amigos não fariam presença. Era extremamente preocupante Jimin faltar aulas, justamente por ser algo raro, quase extinto. E depois de dias sem comparecer e inúmeras mensagens não respondidas, os dois esperaram até o sábado para aparecerem sorridentes em sua porta, alegando para a Sra. Park — esta que já estava de saída — que estavam ali para entregar anotações das aulas que ele perdeu.

Mal sabia ela que eles estavam ali para puxar a orelha de Jimin e mal sabiam eles que não seria tão fácil quanto previsto.

Quando convidados para entrar e ao se depararem com o amigo, logo perceberam que Jimin estava com um humor dos infernos e Taehyung suspeitava que até o anjo das trevas ficaria horrorizado com alguém tão ranzinza. Mas não ele. Conhecer todos os lados de Park Jimin era como estar preparado para uma guerra das mais terríveis.

E é nesse campo de batalha hipotético que a diferença entre Taehyung e Namjoon solucionando problemas é mais do que evidente.

Namjoon enxergou muitas variáveis para o comportamento do amigo estar assim e ainda interligou o seu humor a última vez em que se viram na escola, mas não parecia fazer sentido, pois era um acontecimento de dias e isso o obrigava a continuar usando a cabeça para pensar em alguma coisa.

Já o loiro, não gostava de enrolação.

Estavam todos na sala de estar de Jimin e o lugar tinha aspecto limpo e arrumado graças a Sra. Park que encheu a cabeça dele para fazer a faxina enquanto ela não estava, pois se dependesse do próprio, tudo estaria uma perfeita desorganização.

Namjoon se encontrava sentado no encosto do sofá de frente para o Park e Taehyung se posicionou sentado ao lado do mais velho. O olhar afiado estava fixo no outro que os tratava como se eles nem estivessem ali. Jimin estava sentado no chão, com as costas coladas num dos sofás que era de frente para onde os amigos estavam. As anotações e cadernos sobre a mesa de centro e ele as lia e relia, tentando assimilar a matéria que perdera. Se teve a coragem de desafiar o Jung na cara dele, ao menos tinha de valer o desafio que fez e ser colocado para trás por conta de faltas era inadmissível.

Mas seus amigos não estavam dispostos a colaborar consigo.

— Jimin, você sabe que eu não vim até aqui a toa, então vamos acelerar o processo — disse Taehyung, firmemente. Curvou o corpo para frente e apoiou os cotovelos nos joelhos cobertos pelo jeans claro e rasgado. Não estava em seu humor comum para brincadeiras.  — Por que você tem ignorado a gente?

O moreno desviou o foco de seus enunciados para encarar os olhos do Kim. Embora o castanho estivesse sobreposto pelas lentes azuis que ele gostava de exibir casualmente, ainda era possível sentir o intenso descontentamento naquele olhar. Chegava a ser arrepiante, mas não o afetava.

— Porque eu estava… doente? — Em sua cabeça, ele nem deveria responder aquilo. Era uma coisa óbvia e não fazia sentido não ter sido facilmente interpretada.

— Estava, do verbo passado. E seu braço não iria cair se você mandasse uma mensagem dizendo se estava melhorando.

— Mas minha dor de cabeça ia atacar, gênio.

Não queria perder as estribeiras por completo, mas já estava para falar algo nada agradável quando foi impedido pela mão do mais velho que pousou em seu ombro. Namjoon e sua maldita insistência em ser pacífico.

Taehyung respirou fundo.

— Estávamos preocupados, só isso — explicou Namjoon. — E queríamos saber porquê você está assim. Só queremos te ajudar, Jimin

— Vocês já me ajudam ficando quietos e me deixando estudar em paz.

As palavras acertaram em cheio a paciência de Taehyung. Pobre coitada, o Kim decidiu que não precisava mais dela.

O loiro sorriu com desdenho e se levantou, encaminhando-se até Jimin, agachando-se na altura deste e tomando as anotações de cima da mesa para falar seriamente consigo. O Park devolveu-lhe um olhar raivoso, mas se segurou para não falar nada.

— Sabia que seu mau humor é um problema exclusivamente seu? E que os outros não tem nada a ver com isso? E não venha me dizer que isso é normal e nós que estamos forçando, pois não é. Te conheço a tempo suficiente pra saber que você é um saco de chato, insuportável e um poço de estresse ambulante, mas não age assim com a gente sem ter um motivo. Então, faça o favor de poupar o nosso tempo porque sabemos que não está tudo bem.

Depois de longos segundos encarando o rosto do loiro, aguardando milagrosamente uma desistência, foi Jimin quem desistiu ao bufar e relaxar o corpo, jogando a cabeça para trás.

Sabia que não tinha opções. Conhecendo-os como conhece, Namjoon até deixaria aquilo passar por não achar moralmente correto a ideia de invadir seu espaço pessoal, mas Taehyung não se importava com as barreiras que tentava erguer. Ele só sairia dali sabendo de tudo, nem que tivesse que arrancar a força.

Depois do Kim sentar-se ao seu lado, contou a eles de maneira impaciente sobre o acontecimento na sala do grêmio e Taehyung até rira da falta de atenção do amigo naquele dia, mas seu rosto adquiriu um semblante sério quando Jimin começara a contar a parte principal: a conversa nada normal que teve com Jung Hoseok.

— Você fez o quê? — O Kim falou repreensivo e o moreno teve vontade de rir infeliz.

É claro que Taehyung não o compreenderia e apelaria logo para o sermão. Era o que ele mais estava fazendo ultimamente. Não há nem motivos para se surpreender.

— Eu já estou cansado de repetir a mesma coisa — disse Jimin, sorrindo forçado e com sentimentos revirando dentro de seu estômago com o que vinha. — Você sabe porquê eu fiz. Não vou discutir com você.

— Eu quero discutir. — Taehyung falou com convicção. Jimin tinha a terrível mania de achar que estava certo em qualquer coisa que fizesse e que suas atitudes eram intocáveis. Na maioria das vezes, cabia ao loiro trazer ele de volta para a realidade. — É assim que se lida com crianças, você coloca elas no devido lugar.

— Engraçado. Você quer discutir e eu sou o infantil?

— Obviamente! Depois de ameaçar, intimidar, acusá-lo de coisas que você não tem certeza, fora que ele te fez um favor e você foi ignorante e mal agradecido, você espera que eu não diga nada? Por que você fez isso, Jimin?

O Park estava com as pernas esticadas e balançava um dos pés freneticamente, os outros dois sabiam que aquilo era um claro sinal de que ele estava para perder a cabeça. Também explicava o fato dele não olhar para Taehyung, mas para um lugar qualquer na tentativa de se manter calmo.

— Pare de falar como se eu tivesse cometido um crime… — disse Jimin, baixo e paulatinamente. — Eu tenho plena certeza das coisas que eu disse. O que realmente me intriga é o porquê de você defender tanto ele…

— Não é defesa. Acha mesmo que o que você fez é um comportamento normal?

— Caso não se lembre, você que mandou eu ir e tirar satisfação. Então reflita sobre isso antes de querer ficar do lado do seu amiguinho.

— Reflita sobre isso você! Não tem nada a ver com você ter ido ou deixado de ir. Foi o que você disse! Jimin, acorda! Eu te incentivei a ir na esperança de você tomar alguma iniciativa positiva!

— Que tipo de iniciativa positiva!? — Jimin se virou ligeiramente para ele. — Que faríamos as pazes e viraríamos melhores amigos!?

— Não, Jimin. Eu achei que você teria um pouquinho de consciência nessa sua cabecinha vazia pra enxergar algo além da sua bolha de egocentrismo onde só você pode conseguir as coisas. E pelo visto, eu me enganei. Realmente não tem nada aí além da sua vontade insaciável de ganhar algo imprestável.

A postura de Jimin se abrandou junto aos seus traços faciais e seus lábios tremeram. Taehyung havia passado dos limites.

— Taehyung. — Namjoon que, até então, preferiu somente observar aquela discussão sem interrompê-los, viu que era um bom momento para tal. Sabia partir dali, nada de bom iria sair.

E ao contrário do deveria ser feito, Taehyung não estava arrependido de nada. O que disse não era mentira e disso teve certeza. Se havia algo doloroso, esse algo era a verdade e Jimin deveria aprender a lidar com ela o quanto antes.

Quando o Kim se levantou para voltar a se sentar ao lado de Namjoon, ouviu a voz cabisbaixa do moreno:

— Me desculpe se eu não tenho uma vida perfeita em todos os sentidos. Dá próxima vez eu tento nascer em uma família rica e, quem sabe, eu não consiga ser um pouco como você.

— Grande merda. Isso não define caráter de ninguém.

Olhando a maneira como Jimin murchou a postura e se encolheu em uma expressão dolorosa, ele parecia uma criatura sensível que acabara de ser machucada. Taehyung pensou que, talvez houvesse sido duro demais, porém, fora a primeira coisa que passou pela sua cabeça e tinha a terrível de falar antes de pensar.

Minutos insuportáveis se estenderam mais do que deveriam. O silêncio os engolia e transportava para uma atmosfera que chegava a dar náuseas.

Jimin não aguentou e teve que se afastar, murmurando que iria até a cozinha fazer café para si. Pegou o que precisava na cozinha e deixou a máquina trabalhando, empesteando o lugar com o cheiro de cafeína, enquanto se debruçava no balcão para pensar.

Como tinha deixado as coisas chegarem naquele nível? Já fazia muito tempo desde a última vez em que o arrependimento o culminava com tanta intensidade. Seu orgulho estava inchado e machucado. Tudo o que menos queria era uma discussão daquele nível e muito menos por conta daquela pessoa em específico.

De alguma forma, as coisas sempre voltavam a girar em torno de Hoseok, mas sabia que aquilo era unicamente sua culpa.

Pela primeira vez parou e pensou que talvez estivesse obcecado demais.

E de volta a sala, Taehyung não estava muito diferente. Ainda sentia algo queimar dentro de si e estava cansado de mexer as pernas inquietamente e guardar coisas que ainda tinha para dizer. Não sentia prazer em discutir, não daquela maneira, mas não estava só indignado com as atitudes do amigo como também estava magoado.

Havia uma angústia em si que cultivava há muito tempo. Desde que sentia que as reuniões entre os três não eram mais as mesmas e desde que percebeu que saía menos com os amigos e, mesmo Namjoon sendo ocupado, ele ainda se disponibilizava para ouvi-lo.

O problema era Jimin que sempre tinha algo mais importante para fazer do que simplesmente estar como faziam antes dele começar a focar em uma única coisa, um único alguém. E mesmo que pensasse que ele tinha o direito de fazer o que bem entendesse e que deveria só estar ali por ele como amigos deveriam fazer. Entretanto, sentia saudades reais de Jimin e nunca havia se sentido tão distante.

Taehyung não se aguentou e se levantou para ir atrás dele. Percebeu que, de alguma forma, precisava tirar isso da cabeça e só conseguiria limpar a consciência depois que falasse. Namjoon até tentou agarrar-lhe o braço e chamá-lo, mas não foi rápido o suficiente e só recebeu um pedido do loiro para que relaxasse.

Jimin só se atentou quando ajeitou a postura ao ouvir que alguém vinha e sentiu uma figura mais alta o enlaçando carinhosamente por trás e a ponta do nariz de Taehyung roçando em seu pescoço.

Tentou se recordar da última vez em que recebera um abraço assim e era inacreditável que alguém como ele, que anteriormente era tão necessitado de toques, havia esquecido e passado tanto tempo sem isso. Só soube que sentia falta da respiração de Taehyung aquecendo seu rosto e os braços o abrigando fortemente quando ele o fez ali naquele mesmo momento.

— Sabia que o Namjoon tem altas chances de entrar em uma ótima universidade e ele não te disse nada porque tem receio da sua reação? — Taehyung sussurrou contra a sua pele.

O Park sentiu uma pontada em seu interior, mas nada fora dito e Taehyung continuou:

— Ele não disse porque se importa. Porque sabe que você não tem mentalidade suficiente pra ouvir que alguém está melhor do que você.

— Se está insatisfeito, vocês sabem onde fica a porta. É só sair. Ninguém é obrigado a ficar comigo.

Taehyung o apertou ainda mais e Jimin achou que iria se desfazer ali mesmo. Estava dolorido, os dois estavam, então por que continuava dizendo coisas que não consistiam com seu real estado?

Tudo o que menos queria era que ele ou Namjoon fossem embora, mas não conseguia externar isso de uma forma simples. Na verdade, não conseguia externar isso de forma nenhuma e só conseguia se sentir mais errado.

— Se lembra da última vez em que tivemos uma conversa normal? — Taehyung retomou o assunto na intenção de finalizar aquilo de uma vez. — Digo, sem enfiar os seus problemas no meio. Porque eu não me lembro disso. Até meses atrás, eu costumava te contar tudo, coisas que eu só consigo falar com você, mas hoje em dia não dá. Park Jimin está muito ocupado pro melhor amigo, não é? Park Jimin está muito ocupado porque ele precisa se matar pra ganhar um pedaço de papel estúpido que prova que ele é inteligente, ou ele não consegue se aceitar e nem ser feliz.

Destruído.

As palavras dele o destruíram porque era a mais pura verdade.

— Desculpa. Queria realmente que isso houvesse sido diferente, mas que eu morra no caminho pra casa se eu falei alguma mentira.

Taehyung o soltou e Jimin quis morrer quando ele se afastou. Somente Namjoon, que ouviu tudo encostado no batente da cozinha, o acompanhou com o olhar enquanto ele se retirava do local.

Jimin pressionou o lábio inferior com os dentes e se locomoveu até onde estava sentado anteriormente, passando pelo outro Kim e evitando olhar em seu rosto. Não duvidava que Namjoon também estivesse decepcionado com suas atitudes e, de certa forma, percebeu que isso o machucava  a mesma altura das palavras de Taehyung.

Quando se sentou no tapete, sentiu um nó crescente na garganta e uma sensação ruim o assolando. Queria desaparecer quando ouviu a porta batendo ao longe. Quando ouviu Taehyung indo embora.

Aquilo significava que ele o deixaria? Que pararia de insistir em si? Sabia que tinha milhares de defeitos e que ele mesmo o mandara partir, mas não desejava que aquilo estivesse acontecendo de verdade.

Viu o seu material de estudo sobre a mesa e refletiu se tudo o que estava fazendo não valia de nada e se a maldita geometria rabiscada em seus cadernos era mesmo tão importante assim.

Abraçou as próprias pernas e se escondeu entre elas. Odiava aquelas brigas, principalmente porque, na maioria das vezes, sabia que estava errado. E assim como nas outras, sabia que ele também estava errado nessa. Seu coração doía enquanto realizava as coisas sem sentido que disse e que não deveriam ter sido ditas em pura defesa.

Ficou tanto tempo preso em suas reflexões que, como não ouvia nada, sentiu-se miserável achando que Namjoon tinha o abandonado também, mas pôde sentir a presença do mais alto ao seu lado, denunciando sua permanência quando este se sentou ali.

— Quer me falar alguma coisa também? — Jimin disse ao levantar a cabeça e confirmar que o outro realmente estava ali ainda.

Foi presenteado com silêncio e desarmado com um gesto simples. Namjoon passou o braço por seus ombros e o puxou delicadamente para um abraço de lado. Sentiu sua angústia se desembrulhando e vagando por todo o seu interior e quis ceder ao choro, mas não o faria. Estava cansado de se lamentar tantas vezes por seus erros. Tudo porque eles fincavam continuidade e o carma parecia ter o escolhido a dedo para importunar.

Permaneceu ali, sendo aninhado e recebendo um afago na cabeça, tendo certeza de não merecia aquilo.

— Você fez o exame de admissão focando em Psicologia, não é? — Jimin resolveu quebrar aquele silêncio e fazendo algo certo pela primeira vez. Namjoon assentiu. — Parabéns.

— Obrigado. Aliás, Jimin… — O chamou no intuito de que o moreno virasse para si e prestasse mais atenção em suas palavras. — Ele foi equivocado. Eu ainda nem sei se passei, por isso não achei útil te contar. Taehyung descobriu porque fuçou as minhas coisas, então eu fui praticamente obrigado a contar pra ele.

Namjoon nunca foi de se estender muito, exceto quando precisava dar entrevistas de emprego e coisas do gênero, mas achou que o Park precisava no momento. O dialogo se aprofundou sobre o dia em que Namjoon prestou o exame e como ele estava nervoso, mas se esforçava para transparecer calmaria. Colocar na cabeça que não era algo tão importante, embora fosse, o ajudava a lidar com isso. Durante toda a história Jimin só pôde sentir seu misto de orgulho e admiração por ele aumentar, ao mesmo tempo em que se colocava ainda mais pra baixo.

Ele era e sempre foi o mais adiantado deles. Taehyung não fazia nada porque não queria e, talvez, porque não precisasse. Jimin não sabia. Seu caso em particular se resumia ao fato de que ficou tanto tempo focando na escola que nem parou para firmar uma decisão sobre qual faculdade prestar, coisa que ele deveria, mas não tinha a menor ideia do que cursar.

O que lhe foi contato, deu brecha para que se sentisse mais confortável para falar de suas inseguranças. Aproveitou aquela oportunidade para contar ao Kim sobre sua sensação de andar em círculos, sobre achar que estava fazendo tudo errado enquanto pensava fazer a coisa certa e sobre estar quase se convencendo de que Taehyung não errou em nada do que disse e que não tinha mesmo nada de útil na cabeça.

Até que Namjoon veio com a seguinte questão:

— E se você estiver tentando da forma errada? Você diz que tenta e fracassa, mas nunca procurou uma outra forma de fazer as coisas.

Jimin o olhou curioso.

— E o que eu deveria fazer, então?

— Rever suas atitudes e aprender com elas. Repensar as próprias ideias.

— Em quê? — Estreitou os olhos, claramente confuso.

— Em tudo. Você é precipitado demais e conclui a maioria das coisas sem pensar direito.

Com a expressão de Jimin, Namjoon imaginava inúmeras interrogações sobre a cabeça dele e riu anasalado antes de bagunçar aqueles cabelos castanhos.

— Você vai entender. Faça o que eu disse por enquanto e tudo vai dar certo.

 


[…]

 

— Oh, desgraça! — Taehyung gritou ao motorista da moto que, por pouco, não o partiu no meio enquanto tentava atravessar a rua.

“Ok, eu realmente tenho que tomar cuidado com as coisas que eu falo.”, pensou ao lembrar-se do que tinha dito ainda na casa de Jimin.    

O indivíduo nem se deu o trabalho de olhar para trás e seria o que tinha o deixado mais puto se não fosse o péssimo atendimento dos úberes da cidade e o maldito aparelho celular que tocava insistentemente e irritantemente em seu bolso.

Taehyung o pegou pensando se deveria tacá-lo no meio-fio e ao ver pela quinquagésima vez aquele nome digitalizado na tela, teve certeza de que era isso mesmo que queria fazer

“Pó de Arroz”

Respirou fundo antes de atender a chamada. Nada como um dia normal e infeliz.

— Eu sei que você já me ama, mas você quase fez eu ser atropelado, meu bem. Pode parar de me ligar um pouco?

“Peguei a madame em um humor ruim?”

A voz jocosa soou do outro lado da linha e o Kim se sentiu menos estressado. Era o efeito que as conversas com aquela pessoa estavam causando em si ultimamente.

— Péssimo. Estou de TPM. — Olhava para a rua movimentada e continuava andando. Um sorriso ladino enfeitava o seu rosto e tomava mais cuidado para não ser surpreendido novamente por algum veículo.

“Que aconteceu?”

Aquilo não tinha a menor graça. Achava que receberia alguma piada em troca, mas ainda não tinha se acostumado com isso, mesmo depois de dias conversando com o tal cara que o surpreendera um dia nesses em sua conta do Instagram. O tom rouco e sério, a preocupação implícita ali, tudo fazia com que Taehyung também assumisse essa mesma posição, desfazendo o sorriso que sustentava. E não queria omitir o que tinha acontecido, não depois de tê-lo contado tanto.

— Eu briguei com o Jimin.

A chamada ficou em silêncio por alguns segundos.

“Que merda”

Taehyung suspirou.

— É. O Namjoon disse que ele tá arrependido. Abrir a caixinha de Pandora serviu pra alguma coisa, afinal. Se não servisse também…

“Isso é bom. Aliás, sabe mais o que é bom?”

— Quando você para de me ligar a cada cinco minutos e eu não corro o risco de morrer como indigente?

“Não, seu imbecil. Receio te dizer que ainda vou receber um convite desagradável pro seu velório”

— E quem disse que eu te quero lá?

“Morto não opina. Agora cala a boca e me escuta. Eu tenho uma boa notícia! Uma ideia que pode atiçar o seu interesse”

— E esse seu plano maquiavélico inclui eu beijar a sua boca em algum momento? Porque é o que eu to precisando agora.

Novamente a chamada havia ficado em silêncio.

O Kim se viu cercado por uma sensação boa e riu anasalado supondo que tinha deixado o outro constrangido por ser tão direto. O mais divertido era o fato de que aquela não era a primeira vez em que isso acontecia — provavelmente não seria a última — e nunca perdia a graça.

E a voz o surpreendera do nada:

“Sai, garoto. Eu sou hétero!”

Não, ele não era mesmo. Taehyung tinha certeza disso.

— Para de me enrolar, Yoongi. Fala logo que meu tempo é curto e meus créditos também.      

“Acho que já tá na hora de colocar nosso planinho em ação e resolvermos isso de uma vez. E você, o que acha?”

Aquilo era tudo que Taehyung precisava ouvir para começar a estruturar todas as coisas em sua cabeça e um sorriso se formar visto que aquilo não poderia dar errado, ainda mais com tudo que fizera Jimin ouvir aquela tarde.

Se tinha algo de que havia plena certeza era que seriam os protagonistas a acabarem com aquela maldita guerra fria definitivamente e logo seria hora de colocar o plano em ação.

 

 

 

 


Notas Finais


Por favor, não me matem por esse Vmin e por quase não ter tido Jihope! São cenas necessárias, okay!? <3
Mas olha que lindo! As coisas estão se resolvendo e irão se resolver mais rápido agora. E eu vou tentar (bastante intensidade no "tentar") trazer um Jihope lindíssimo nos próximos capítulos.
Todo comportamento há um motivo e nossos meninos representam bem algo que o Jimin precisa. Todos eles.

É isto, lindxs. Que Taehyung abençoe a todos e que a paz esteja com você, nobre pessoa que tá sofrendo por fazer provas e as férias nunca chegarem. É, eu entendo sua dor.

Até o próximo capítulo com muito amor! <3


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