História Algo maior que eu - Capítulo 25


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Categorias Histórias Originais
Tags Fantasia Medieval
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Palavras 2.114
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ecchi, Fantasia, Luta, Romance e Novela
Avisos: Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 25 - O acordo entre a melhor ladra e o grande guerreiro


                A frase de fato não fazia sentido algum, e não precisava fazer, porém 4 das palavras pronunciadas quando juntas em uma pergunta, formavam o código mais antigo dos ladinos. Cão era referência a primeira guilda que se tinha noticia, os cães da noite, extintos a anos. Anel era como uma marca para os primeiros da profissão, alguns acreditavam que era mesmo um anel que todos das guildas possuíam, mas o primeiro grupo a usar o anel para identificar uns aos outros usavam um arame em brasa para circular em volta de um dedo, assim quem quisesse sair poderia, desde que cortasse fora o dedo marcado. Fragmento era a palavra usada como gíria para informações de trabalho, o valor de uma joia roubada por exemplo, era um fragmento. Por último quando ladinos trabalhavam juntos costumavam usar assobios para se comunicar. As 4 palavras juntas eram usadas como código para identificar ladinos de qualquer clã, todos conheciam, claro que geralmente as palavras eram dispostas de forma mais orgânica, mas a gnoma não se preocupou com isso já que não havia ninguém por perto.

                —É por que eu sou um Hobbit? —Perguntou Kyssares.

                —Não sei do que está falando. —A pergunta dele confirmava que havia entendido, mesmo assim Tajis queria ouvir a resposta.

                —Sino, ecos, joelho, urgência. —O Hobbit nem se preocupou em formular uma fala, as 4 palavras eram a resposta certa para o código, mas diferente das primeiras deviam ser usadas naquela ordem.

                —Eu sabia, pertence a alguma guilda?

                —Eu não sou um ladino. Eu sou um guerreiro e esse código é muito antigo.

                —Mas você conhece, a única forma de conhecer é se pelo menos já fez parte de alguma guilda. Deixa eu adivinhar; foi criado por ladinos, aprendeu tudo com eles e quando teve idade suficiente para fazer suas próprias escolhas você fugiu.

                —Acertou, foi exatamente isso que aconteceu, você é muito esperta, parabéns.

                —Por que está nervoso?

                —Bom, pelo menos isso explica seu interesse em mim.

                —Meu interesse em você se deve ao seu interesse em mim. Eu acredito quando diz que é um guerreiro, mas agora sei que somos ainda mais parecidos.

                —Sério? Os ladinos que conheci eram traiçoeiros e nunca usavam palavras como honra.

                —Existe um código ladino. —A gnoma pequena ficou ofendida.

                —Claro, só mais um bando de regras para vocês quebrarem.

                —O código funciona para mim, só para você saber eu nunca roubei ninguém mais pobre que eu. —Ela parecia indignada

                —Aposto que não mente também.

                —Mas não diz isso no código dos ladinos.

                —Exatamente.

                Tajis ficou sem palavras, virou o rosto fugindo dos olhos dele, não esperava aquela reação e com certeza não esperava um final tão trágico para uma noite que deveria ser perfeita. Ficaram em silencio. Kyssares também não gostava nem um pouco do rumo que as coisas estavam seguindo, por um momento se arrependeu de ter sido tão duro, mas não sabia como se desculpar, principalmente por que tudo que disse era exatamente o que pensava. Resolveu esperar até a pequena se acalmar, analisou com cuidado os objetos ao redor, agora fazia sentido aquele amontoado de coisas valiosas reunidas em um esconderijo no subsolo, coisas roubadas, provavelmente tiradas das salas de nobres, só então se lembrou do que tinha que fazer, durante toda aquela noite a gnoma não havia retirado o colar em nenhum momento e certamente ele teve muitas oportunidades de surrupia-lo. Se sentiu ainda pior ao lembrar que embora não fosse um ladino roubar era justamente o trabalho que deveria fazer ali.

                —Me desculpa —ele disse. —Eu não deveria julgá-la.

                —Mas eu quero que me julgue. Quero que me julgue, mas desejo um julgamento justo e quero uma sentença boa.

                —Isso soou meio contraditório.

                —Você perguntou se eu te reconheci como ladino por que é um hobbit, mas não foi isso, foram seus movimentos que te denunciaram. Aposto que todos te veem como ladino só por ser um Hobbit no meio dos aventureiros, aposto que até aquela elfa te vê assim.

Foi um comentário surpreendente.

—Como você...

—Eu vi vocês juntos na taverna. O olhar dela foi bem fácil de entender.

Kyssares fez uma expressão interrogativa.

—Ela estava com inveja de mim, deve estar muito acostumada a ser o centro das atenções.

—Dessa vez você errou feio, ela chama a atenção onde vai sim, mas isso é o que ela mais odeia.

—Tem razão não era inveja, a segunda opção faz muito mais sentido. Ela estava com ciúme. A elfa pode não gostar de chamar a atenção do resto do mundo, mas com certeza ela esperava mais atenção da sua parte.

                —Agora você está delirando. Nem sei por que estamos falando dela, ela é só minha contratante.

                Tajis riu.

                —Você se justificando assim para mim, nos faz parecer um casal.

                Ao parar para pensar Kyssares se deu conta da tremenda verdade, não devia estar se justificando, acabou rindo também.

                —Então você trabalha como aventureiro?

                —Kyssares, guerreiro e mercenário, ao seu dispor.

                —Neste caso tenho um trabalho para você senhor guerreiro. O que sabe sobre bruxas?

                Mirlanda estava aflita, já havia descansado as poucas horas que precisava como elfa e o Hobbit ainda não havia voltado. Olhando pela janela do quarto o tempo havia mudado bastante, o céu da madrugada e o vento gelado anunciavam a chuva que estava por vir. Ainda agitada ela voltou a cama e se enrolou nas cobertas, passou alguns segundos procurando uma posição agradável, mas por algum motivo ela não encontrava conforto. A cama parecia grande demais e fria demais. Horas como aquela eram facilmente contornadas com um bom vinho, mas ela não queria tapear sua mente com álcool, queria mesmo era saber onde andava o pilantra do Hobbit.

                De volta a toca da gatuna.

           —Tudo começa com um estudante de magia —ela dizia. —Em algum momento, pode ser em uma magia que dá errado ou explorando uma ruina, quando um aspirante a mago se encontra com uma entidade das trevas e é proposto um pacto. É assim que nasce um bruxo, o caminho mais obscuro da magia se abre diante de um qualquer e preenche seu coração com trevas e ambições.

                —Quer matar uma bruxa, é isso?

                —Não, eu não sou tão audaciosa, quero roubar uma bruxa.

—Isso parece bem perigoso, o que espera conseguir de uma bruxa?

—Como mercenário você não deveria fazer tantas perguntas.

Uma verdade incontestável, um mercenário deveria viver pelo ouro, questionar os motivos do contratante não cabia nesse contrato.

—Sendo um caso tão arriscado preferiria falar sobre o motivo, mas se quiser podemos discutir a recompensa.

—A recompensa é o que quiser —ela sussurrou aquelas palavras com um sorriso no rosto. —Isso mesmo, o que quiser, é só pedir que eu lhe darei.

O Hobbit conseguia pensar em uma dúzia de coisas que gostaria de pedir aquela bela fêmea, mas o colar no seu pescoço era seu objetivo afinal, porem ele ainda não sabia exatamente o valor que ela dava aquela pedra em forma de gota pendurada pela corrente de prata.

—Você coloca muita certeza nas suas palavras, e se o que eu quiser você não puder me dar?

—Não há nada que eu possua que não te daria com prazer se puder cumprir com essa tarefa.

—Que perigo. —Suspirou. —Nesse caso deixarei para fazer o meu pedido depois de completar a missão, assim você não vai poder negar.

—Que chato, poderia ser dono e desfrutar do seu prêmio ainda hoje.  —Ela se deitou e rolou na cama instigando a imaginação de Kyssares.

Algumas horas depois.

Quando Kyssares encontrou a estalagem já havia amanhecido, mas o céu ainda estava escuro com ameaça de chuva. Encontrou a elfa no salão principal, a cara dela não parecia boa, mas assim que botou os olhos nele sua expressão piorou bastante. A garota não esperou ele se aproximar, foi ao encontro dele inflando os pulmões com todas as reclamações que tinha para fazer.

—Onde você estava? —Primeiro ela precisava fazer algumas perguntas para ter certeza de não reclamar sem razão.

—Estava tentando conseguir o que você quer, esqueceu? —Ele respondeu depois de um longo bocejo, parecia cansado.

—Passou a noite acordado?

—Já disse o que estava fazendo, está com a chave do meu quarto? Eu preciso dormir.

                —Tudo bem, mas não antes de me contar os detalhes.

                Mirlanda guiou o Hobbit até seu quarto e lá ouviu a história toda sobre o acordo, a forma honesta que Kyssares encontrou para conseguir o colar. Claro que ele omitiu boa parte da história, muitos e muitos detalhes. Mirlanda ouviu com atenção e as palavras dele lhe davam um certo conforto, ela nem imaginava porquê, mas já nem estava com tanta vontade de xingar. Ele havia voltado, ele estava trabalhando no objetivo e por fim havia retornado com um resultado satisfatório.

                —Agora eu posso dormir?

                —Acho que você merece.  Vou me retirar e depois conversamos sobre essa bruxa.

                Ela já ia sair se sentindo orgulhosa de não ter gritado um monte de asneiras sem fundamento, satisfeita de ter feito perguntas antes de se expor, mas acabou por notar um hematoma no pescoço do Hobbit, uma marca muito peculiar, característica dos homens sem decência que não se protegem de lábios descontrolados. Nada na história dele justificava aquela marca, tudo que ele havia lhe contado passava longe de uma provável explicação ou qualquer esboço de qualquer coisa que se parecesse com um motivo, não, naquela história não havia fagulha de qualquer indicio de justificativa.

                —Que marca é essa no seu pescoço? —Mirlanda parecia calma, embora extremamente séria.

                —Isso? Ah sim, isso... —antes de responder Kyssares se lembrou do que Tajis disse após abocanhar deu pescoço.

                Ela o pegou se surpresa, não foi um beijo nem bem uma mordida, embora parecesse querer sugar seu sangue pelos poros. Durou alguns segundos e até que foi agradável mesmo sendo dolorido.

                —Isso vai provar que eu estava certa. —Foi só o que ela disse.

                Kyssares não entendeu na hora, mas estava prestes a entender.

                —Acho que foi um tipo de presente de despedida, sei lá.

                Por um momento Kyssares teve a impressão de ver pequenas chamas se acendendo nos olhos da elfa. Começou com um pequeno insulto e em um tom de voz normal, mas foi crescendo como uma sinfonia. Mirlanda parecia ter esquecido toda a história que Kyssares havia contado, claro, a marca no pescoço dele invalidava toda história. Idiota, mentiroso, imbecil, foram os insultos mais leves que ele ouviu, alguns foram em élfico e ele não entendeu, outros pareciam só rosnados, talvez fosse dracônico, mas isso o pequeno jamais saberia. Na verdade ele nem entendia ainda por que ela estava tão nervosa, até tentou acalma-la, mas isso era como colocar lenha na fogueira.

                A porta atrás deles se abriu violentamente. Samires estava já com o arco armado, Trioma com o machado erguido pronto para o combate e Lupe com os dentes a mostra. Os 3 ficaram surpresos de não ter nenhum inimigo em parte alguma do quartinho, mas a cara da elfa deixava claro que havia algo errado.

                —Aconteceu, alguma, coisa? —Samires perguntou com todo o cuidado que conseguia ter.        

                Ninguém respondeu. Samires olhou nos olhos de Kyssares que parecia bem assustado e acabou notando a marca no pescoço dele e entendeu tudo instantaneamente, os olhos do hobit pareciam pedir socorro.

                —Tá bom, dá para ver que vocês estão bem, vamos indo —disse a druida voltando lentamente ao corredor.

                —Está tudo bem, mestre? Trioma ajuda. —O grandão tinha um bom coração, mas dificilmente conseguiria entender a situação complicada em que seu amigo se encontrava.

                Samires puxou o meio-orc para fora e bateu a porta.

                Nem bem voltaram a ficar sozinhos e a elfa voltou a gritar. Enquanto fingia ouvir o que ela dizia, Kyssares mergulhou em seus pensamentos a fim de buscar respostas para aquela situação. Ele navegou profundamente em sua própria consciência e em determinado momento percebeu que aquele não era o lugar certo para buscas a verdade, as respostas estavam nas profundas e perigosas aguas da natureza feminina, onde o que faz ou não sentido depende do dia do mês, do alinhamento dos astros e de mais alguma coisa que ninguém sabe ao certo o que é e se existe. Pensar sobre aquilo chegava a ser doloroso, continuou mergulhando cada vez mais fundo, ignorando tudo que achava saber para descobrir uma nova verdade, uma verdade incoerente e bem, bem feminina. Ciúme, era o que ele estava deixando passar, o que a gnoma havia mencionado antes, não fazia sentido nenhum, na verdade ia no sentido contrário, ela estava sempre irritada com ele, arrumava briga por qualquer coisa, de tudo que podia ser ciúme parecia o mais improvável. Se fosse mesmo ciúme uma mentira resolveria o assunto, mas seria também muito menos divertido.



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