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História Alguém Como Você - Capítulo 1


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Notas do Autor


Pessoal, como vocês devem ter notado, o spirit excluiu minha conta PELA TERCEIRA VEZ, por isso a fanfic desapareceu então eis-me aqui novamente repostando pra vocês que preferem ler pelo Spirit... De qualquer forma, se apagarem de novo, vcs me encontram no twitter @maridodazulema_ e lá no meu fixado tem o link do wattpad onde a fanfic também está postada.

Capítulo 1 - Capítulo 1


“Você confia em mim?”

Lena despertou assombrada por aquelas palavras. Frequentemente tinha pesadelos envolvendo o passado. Pesadelos tão reais que a deixavam por dias apavorada. Como não ficar? Os pesadelos eram reais, porque eles já tinham acontecido. Eram uma repetição terrível de algo que ela não podia mudar por mais que quisesse. Uma tragédia do passado que transformou sua vida completamente, mudando todo seu curso e levando-a até o presente no qual se encontrava.

Quando se levantou da cama já estava sozinha, o que agradeceu mentalmente ao seu anjo da guarda. Era difícil ter que encarar sua esposa logo após reviver aquelas memórias. Foi direto para o chuveiro tomar um banho morno para despertar e talvez espantar os fantasmas. Lavou os cabelos devagar. Fechou os olhos com a cabeça debaixo da água e mesmo não querendo, as memórias começaram a lhe invadir.  

Dez anos atrás...

— Eu te levo pra casa. Você vem comigo? — uma Alex visivelmente alterada pelo álcool e sabe-se lá mais pelo que lhe perguntou com a boca próxima de seu ouvido.

Lena estava transtornada de bêbada, não conseguia pensar direito, era como se seu cérebro estivesse se diluindo, mas sim, ela ainda tinha uma parte consciente que lhe alertou sobre os riscos de deixar que Alex a levasse embora naquele estado de embriaguez. Como a ruiva podia dirigir se estava tão bêbada quanto ela?  

— Estamos bêbadas — Lena gritou para que a ruiva pudesse ouvir já que o som altíssimo dentro da casa somado à gritaria dos adolescentes impedia que pudessem se comunicar direito. — É perigoso, Alex.

— Eu sei, mas já fiz isso outras vezes. Além do mais, não é como se nossas casas estivessem tão longe. A fazenda dos seus pais fica há vinte minutos daqui de carro... — argumentou.

No meio daquela loucura de festa onde todos estavam muito chapados e sua irmã não estava presente, Alex se aproveitava para ficar próxima à cunhada, por quem sempre foi apaixonada secretamente. Próxima a ponto de tocá-la no quadril enquanto se inclinava para falar em seu ouvido, com a desculpa que aquilo era necessário para que Lena a ouvisse. E sem ver maldade em seu gesto, Luthor não parecia se incomodar.

Lena ainda a olhou com o canto dos olhos oferecendo resistência à oferta de carona.

— Não sei não, Alex... Ok, mesmo que a gente não sofra um acidente e acabe morrendo — dramatizou aos risos — e se alguém nos pegar? E se a polícia nos parar?

Alex pôs as mãos sobre os braços nus dela com uma firmeza que lhe arrepiou. Ela respirou fundo como se buscasse paciência antes de dizer as próximas palavras. Olhou para os olhos verdes de um jeito que deixou Lena literalmente sem ar.

— Você confia em mim?

Aquelas palavras iriam pairar sobre sua cabeça pelo resto da vida.

Ela confiava em Alex. Por Deus, era sua cunhada! Mais do que isso, sua melhor amiga. Se fizesse uma lista de suas pessoas favoritas no mundo, Alex estaria no topo, depois de Kara, é claro. Provavelmente se Kara não existisse, Lena poderia muito bem se apaixonar por ela. Por que não? Alex era esperta, engraçada, tinha humor ácido, fazia piadas bem elaboradas, amava Nirvana na mesma proporção que Lena e ainda por cima tinha um sorriso adorável. Além disso usava couro com frequência e emanava uma força e resiliência admiráveis. Tudo porque, com apenas 17 anos, vivendo numa cidade de apenas 30 mil habitantes, Alex Danvers sustentava o fato de ser uma mulher trans desde a infância. Que bom que a família sempre a apoiou nessa jornada.

Lena pensava que tinha muito em comum com a cunhada. Na verdade, elas eram parecidas não apenas por apreciarem filmes de terror, por exemplo, mas por partilharem do mesmo temperamento esquentado, o que poderia facilmente gerar muito atrito entre elas caso fossem um casal. Por isso mesmo pensava que se não amasse Kara, não daria certo ficar com Alex. Elas seriam incompatíveis por causa da impulsividade, do excesso de objetividade, da falta de paciência, da passionalidade.

Se fosse fazer analogias, em sua visão, Alex seria como o fogo, sempre queimando até virar pó. E das cinzas ela renasceu novamente. Kara era como um oceano, aparentemente pacífico na superfície, mas ao mesmo tempo forte, arrastando em sua correnteza quem tivesse coragem de se adentrá-lo.

Misteriosamente, as irmãs Danvers eram muito distintas. Enquanto Alex emanava aquela mesma espécie de revolta contra a vida com a qual Lena se identificava, a loira era a própria paz em pessoa. Não havia nada que tirasse realmente a desajeitada e generosa Kara Danvers do sério, que sempre carregava um sorriso no rosto mesmo nos dias mais difíceis como se fosse inabalável. Às vezes Lena achava que ela era. Chegava a ser irritante, para ser sincera. Era irritante sentir tanta raiva ou até mesmo tristeza em certos dias quando sua namorada parecia estar sempre feliz, ainda que diante de situações que tirariam os ânimos de qualquer pessoa. Era como se as esperanças de Kara nunca se esgotassem, o que no fundo era admirável, até mesmo invejável.

A morena pensava que caso ficasse com alguém como Alex, eventualmente as coisas sairiam do controle. As discussões seriam constantes, seria difícil encontrar equilíbrio entre duas pessoas tão quentes, de nervos sempre a flor da pele. Mas isso era apenas uma suposição que fazia em cima do que conhecia da cunhada e de si mesma naquela época. Mas o que os adolescentes sabiam, afinal?

Não entendeu porque começou a fazer aquelas comparações nem pensar na cunhada naqueles termos enquanto sentava na picape dela e se permitia ser levada para casa. Talvez fosse intuitiva e no fundo já soubesse dos sentimentos da ruiva. Mas se isso era verdade, por que não conseguiu prever o que estava prestes a acontecer?

No meio do caminho, Alex parou sua picape no acostamento de uma estradinha de terra. Não faltava muito para chegar à fazenda, ao menos não de carro. Se fosse a pé e naquele estado de embriaguez, Lena caminharia mais uns vinte minutos no meio do mato e da escuridão, o que não era muito legal nem seguro. Por isso, de cenho franzido, ela encarou a cunhada.

— Por que paramos aqui?

— É que eu preciso te dizer uma coisa.

Foi nesse exato momento que ela sentiu um estalo dentro de si e soube exatamente o que viria a seguir. Ou pelo menos uma parte.

 

Dias de hoje.

Mesmo após sair do banho e se vestir, Lena continuou a ser assombrada por lembranças inconvenientes. Então começou um mantra que havia criado há alguns anos. Ela redirecionava sua mente apenas às memórias que realmente importavam. Memórias envolvendo o filho. Memórias envolvendo a linda família que havia criado com Alex apesar de tudo.

Desceu as escadas e se deteve a certa distância da cozinha ao ouvir as gargalhadas do filho, que estava aparentemente se divertindo com sua outra mãe. Não fazia ideia do que eles tanto riam, mas lhe acalmava vê-los ali, felizes, a salvo do tormento que ela sentia. Ao menos o filho. Lena não tinha certeza se Alex estava tão segura assim. Aliás, desconfiava que Alex era tão assombrada quanto ela pelo que aconteceu naquela noite.

Dylan era um garoto esperto de cabelos estranhamente mais loiros do que ruivos e olhos verdes iguais aos da mamãe Lena. Atualmente usava óculos (mais uma coisa que lembrava Kara), e estava cheio de dentes novos crescendo na boca. Questionava tudo e só queria brincar com Alex o tempo todo usando suas espadas de laser, pois Alex meio que representava o papel daqueles pais que amavam brincar com os filhos. Talvez fosse por isso que Lena a amava tanto.

Alex foi uma excelente mãe desde o princípio. Amou trocar fraldas, acordou de madrugada para acudir Dylan todas as noites e quis até mesmo tomar hormônios para amamentá-lo. Nunca reclamou de ser mãe tão jovem, em nenhum momento sequer cogitou a ideia de aborto a Lena. Pelo contrário, ficou radiante com a notícia da gravidez mesmo em circunstâncias tão... caóticas. Lena nem entendeu o porquê de tanta alegria, pois embora também sonhasse em ser mãe, não planejou ser mãe aos dezoito anos, tampouco de um filho que não fosse de Kara. Mas o destino quis que as coisas fossem de outra maneira...

Lá estava devaneando de novo com coisas que não deveria. Pare já com isso!

— Ei, meu amor, estávamos te esperando — Alex se aproximou quando Lena adentrou a cozinha. Tocou seu rosto e selou os lábios dela amorosamente. — Dormiu bem? Parece cansada.

— Sim — mentiu com um meio sorriso. — E você?

— Maravilhosamente bem.

— Ouvi vocês gargalhando lá de cima. Qual a piada? — se aproximou de Dylan, que estava sentado ao redor da enorme ilha de mármore comendo seus cereais, e beijou o topo de sua cabeça. — Hmm... que menino cheiroso!

— É o shampoo do Darth Vader — ele sorriu, exibindo os dentinhos da frente ligeiramente tortos — Mãe estava imitando mestre Yoda, ela é muito boa nisso.

— Sou boa em várias coisas — gabou-se a ruiva, dando de ombros com um sorriso convencido.

Lena sentou ao lado do filho e olhou para Alex, que lhe serviu uma caneca de café e um prato de panquecas com ovos mexidos e bacon.

— Mestre Yoda? Isso é novidade. Achei que sua especialidade fosse fazer a voz do Darth Vader e imitar a respiração dele através da máscara.

— Estou expandindo meus poderes — brincou, dando uma piscadela para a esposa. — Estive falando com minha mãe, ela quer que a gente vá jantar na casa dela no sábado. Parece que vai nos contar alguma novidade, não sei. Achei meio esquisito — falou entre uma garfada de panqueca, mastigando com a mão na frente da boca. — Pareceu sério, mas ela não entrou em detalhes. Tentei falar com meu pai a respeito, mas ele se esquivou completamente.

A morena franziu o cenho diante daquilo. Ela gostava muito dos sogros, ou melhor, do sogro. Jeremiah a tratava muito bem, era como um segundo pai para Lena, mas Eliza... Elas costumavam ser amigas no passado, quando a morena de olhos verdes era apenas uma adolescente. Mas depois do que aconteceu com Kara... Tudo mudou drasticamente.

— O que você acha que pode ser? — perguntou meio preocupada. Então algo passou pela sua cabeça. Um pensamento que a fez se arrepiar de medo. — Será que... — engoliu em seco, porque sabia como era delicado falar sobre sua ex, que por um acaso era irmã de sua atual esposa. Elas nunca falavam sobre Kara. Era um dos assuntos que haviam enterrado. — Será que pode ter acontecido algo...

Não precisou prosseguir, Alex compreendeu o que ela queria dizer. Lena notou uma mudança brusca de suas feições.

— Não sei, mas eu acho que não. Se algo tivesse acontecido, eles não deixariam para dizer num jantar. Tragédias são anunciadas rapidamente — murmurou séria, não mais olhando para sua esposa.

— Eles vão se separar — Dylan falou de repente, chamando atenção de suas mães. — Lá na escola isso aconteceu com os pais dos meus amigos. Não com os avós, mas com os pais. Os pais não sabem dizer para os filhos que vão se separar, por isso precisam fazer um jantar.

— Meu amor — Lena olhou para ele e sorriu, passando a mão em sua cabeça. — Ninguém vai se separar. Seus avós se amam e se dão muito bem.

O menino encarou os olhos verdes iguais aos seus.

— Às vezes mesmo se amando os casais se separam — disse com uma sabedoria que não era compatível à sua idade.

Aquela frase iria martelar na cabeça de sua mamãe depois.

As duas mães ficaram chocadas. Alex ergueu as sobrancelhas.

— Quem está te ensinando essas coisas, Dylan? — a ruiva questionou. — Você anda muito espertinho ultimamente. Como pode saber dessas coisas se nunca foi casado, garoto?

— Ué, eu ouvi na escola. Meu amigo Brian disse que a mãe dele falou isso pro pai dele antes de se separarem. A professora Marta então nos explicou que isso é verdade. Que só amar alguém não é suficiente pra ficar perto da pessoa e acho que entendi, porque eu amava a Rosa, mas ela me magoou quando me falou que eu era muito bobo pra ser um Jedi e por isso não queria me namorar... — contou com tristeza, soltando um longo suspiro que fez suas mães rirem.

Lena se levantou na mesma hora para abraçá-lo apertado.

— Sua professora tem razão. E sabe o que eu acho dessa tal Rosa? — Lena perguntou, apertando-o por trás, dando beijos em seu cangote e fazendo-o rir. — Que ela é quem é uma boba por não querer namorar um menino lindo feito você.

Alex sentiu o coração bater mais forte diante daquela cena. Era inexplicável o amor e a paixão que sentia pela mulher e pelo filho. Precisou se levantar e unir-se a eles em um abraço triplo bem apertado.

[...]

Logo após deixar seu filho na escola, Lena passou numa floricultura e depois foi até o cemitério levar flores ao túmulo do pai. Lionel havia morrido há quase três anos, mas ela sentia como se tivesse acabado de acontecer. Sua dor e saudade não podiam ser explicadas, principalmente porque o pai sempre foi seu melhor amigo, ao contrário da mãe, que nunca se importou realmente com Lena.

Depois do divórcio tumultuado dos Luthor sete anos atrás, Lilian sumiu no mundo com sua pequena fortuna, provando o que a morena já sabia: a mãe não dava a mínima para a própria filha, tampouco para o neto fruto de uma relação que ela desaprovava. Lilian nunca gostou dos Danvers por eles serem pobres, menos ainda de Alex por ser uma mulher trans.

Em frente ao túmulo do pai, saudosa como estava naquela manhã, Lena ficou se perguntando se Kara sabia da morte de seu pai. Embora elas nunca mais tivessem se visto ou falado depois do que aconteceu, e Kara não morasse mais em Midvale, os pais dela podiam muito bem atualizá-la com notícias sobre Alex e consequentemente sobre ela, mas era pouco provável. De qualquer forma, Kara não esteve presente no funeral. Não a abraçou para consolá-la, não enxugou suas lágrimas, nem disse suas palavras esperançosas de sempre. Lena não pode ver seu sorriso reconfortante, nem sentir seu cheiro de lavanda e camomila. Mas desejou. Desejou muito. Quando seu pai morreu, a primeira coisa que Lena desejou foi que Kara estivesse lá. Mas ela não esteve. Assim como não esteve presente em tantos outros momentos importantes...

O parto de Dylan, a primeira vez que ele disse “mamãe” sem errar, os primeiros passos, os primeiros dentinhos nascendo, a primeira festa de aniversário, o primeiro dia de escola, a primeira malcriação, os choros fora de hora. Todos estes incríveis momentos que Lena sonhou em viver como mãe, ao lado de Kara, aconteceram na ausência dela. Era engraçado pensar nisso, porque Dylan era filho de Alex, mas ele parecia com Kara em tantos aspectos, inclusive fisicamente. Quando Lena o pegou nos braços pela primeira vez e viu os fios tão loiros que eram quase transparentes, ela soube que estava fadada a relembrar Kara naquela criança. Até o nome que decidiu dar a ele era uma homenagem à mulher que amou profundamente. Dylan significava correnteza, maré. Estava relacionado a água, ao oceano. A imagem que Lena possuía de Kara. O seu oceano.

Era tolice pensar tanto na loira quando a mesma morava em outra cidade, nunca mais a procurou e estava casada. Aliás, Lena também. E com a irmã dela, com quem teve um filho. E devido a todas as circunstâncias de anos atrás, era óbvio que Kara jamais iria querer vê-la novamente, sequer devia pensar em Lena, e se pensasse seria com ódio. Não poderia culpá-la...

Deixou as flores no túmulo, deu as costas, voltou para seu carro e dirigiu rumo

Era difícil não ter pensamentos impróprios quando os dias são longos e não há nada com que preenchê-los. Definitivamente a decisão de ser apenas mãe não havia sido uma boa ideia, ela percebeu logo quando o filho completou seis anos e começou a passar bastante tempo na escola. Mas como era Alex quem cuidava das fazendas, negócio dos Luthor, e Lena não tinha o menor talento ou interesse, começou a pensar em outras coisas até decidir comprar uma pequena rede de livrarias.

Eram quatro espalhadas pela cidade. Ocupava seu tempo administrando-as, conferindo o andamento das vendas, verificando se seus funcionários estavam felizes, modificando constantemente a aparência das lojas, fazendo bons acordos com editoras, criando promoções etc. Não era um simples trabalho ou passatempo, muito mais do que isso: uma necessidade vital. Um bote salva-vidas. Se não fosse por isso e pelo filho, ela já teria morrido.

 

— Bom dia, Andy, desculpa o atraso — Lena pediu a amiga e funcionária assim que entrou na sala. Faziam as reuniões, planilhas e todo o trabalho pesado naquela sala, que se localizava na maior das livrarias, a que ficava na avenida central da cidade. — Fui deixar flores no túmulo do meu pai.

— Bom dia, querida, relaxa. Estou aqui já resolvendo pepinos, porque como você bem sabe, sou muito eficiente — gabou-se enquanto digitava no notebook, mas parou por um momento e olhou para sua amiga e chefe. — Está chegando a data, não é?

Lena suspirou antes de sentar em frente à mesa da outra.

— Sim, daqui um mês vai fazer três anos que ele se foi. Ainda é difícil acreditar. Passou tão rápido, mas eu me sinto congelada no tempo — admitiu e encarou os olhos azuis da amiga, que a olhava compadecida.

Andrea era a única pessoa com quem Lena podia se abrir após a morte do pai. Com Lionel, ela costumava compartilhar tudo, ou quase tudo. Algumas coisas não podiam ser ditas a ninguém, nem mesmo a si própria.

— Mas você não se sente congelada no tempo apenas por causa disso — observou a amiga, ousando entrar num caminho perigoso. Lena arqueou uma das sobrancelhas. — Qual foi, Lena, admita. Você tem se sentido assim muito antes da morte do seu pai, e nós sabemos o porquê.

— Eu realmente não gostaria de falar sobre isso hoje — se levantou e deu as costas para a amiga, caminhando em direção a sua própria mesa. — Tive uma péssima noite de sono.

— Pesadelos? — Andrea se reclinou em sua cadeira e ficou girando um lápis entre os dedos. — Você nunca me contou exatamente sobre o que sonha. Já cansei de te dizer que deveria fazer terapia. Pelo menos falar sobre isso com alguém.

— Não preciso de terapia — Lena mentiu, porque ela mesma achava que precisava e muito, só que não tinha coragem. Como ela poderia contar a alguém algo que não conseguia admitir? Que fingia que nunca aconteceu? — O que eu preciso é do relatório de vendas do último mês, senhorita-sabe-tudo.

— Aí — apontou para a mesa de Luthor, que sequer havia percebido que o papel já estava sobre sua mesa. — Para não dizer que não sou extremamente eficiente — piscou. — E como estão as coisas em casa? E o Dylan? Saudade do pestinha.

— Não chame meu filho assim — resmungou, revirando os olhos. — Estão bem, só Alex que está preocupada com um convite da mãe dela para irmos jantar na casa dos Danvers no sábado... — ligou seu notebook e começou a mexer nos papéis sobre sua mesa.

— Quem deveria estar preocupada é você, certo? Sua sogra não te odeia por você ter quebrado o coração da outra filha e dividido a família no meio? — deixou escapar a brincadeira sem graça e se arrependeu quando viu o olhar de Lena. — Ok, desculpa, talvez eu tenha exagerado na piada. Esqueço como isso ainda mexe com você.

— Não mexe! — rosnou entre dentes. — Mas não gostei mesmo da maneira como falou. Não é como se eu fosse um monstro que destruiu uma família. Éramos muito jovens naquela época, e as coisas perderam o controle — falou exasperada, visivelmente nervosa.

— Tudo bem, tudo bem, não está mais aqui quem falou. Não fique brava. Sabe que eu te amo, Lee. Relaxa, okay? Vamos focar no trabalho que eu sei que é isso que você ama e que te acalma.

Lena suspirou e finalmente deixou o corpo relaxar contra sua cadeira reclinável.

— Vamos trabalhar.

**

— Mamãe, acorde! — a menina resmungou pela quarta vez, debruçada nas costas de sua mãe preguiçosa, que fingia dormir.

— Hm... O que você quer tão cedo, macaquinha? Por que não está dormindo também? Hoje é domingo... — murmurou ainda de olhos fechados, o rosto afundado no travesseiro.

— Não, mamãe, hoje é segunda-feira e estou atrasada pra escola — insistiu, as mãozinhas agarradas a camiseta do pijama da mãe, puxando sem muita eficácia. — Mamãe Sammy foi trabalhar, ela disse que você quem me levaria hoje. Você se esqueceu?

Puta merda, ela havia esquecido!

Kara se ergueu às pressas, derrubando a pobre criança na cama tão abruptamente que ela quase rolou para o chão.

— Oh, perdão, meu amor — pegou a menina e a puxou para um abraço. — Fui dormir muito tarde ontem à noite e me esqueci completamente. Deus, eu jurava que hoje era domingo! Preciso me trocar... Você já está pronta, macaquinha? — olhou para a filha e constatou que não ao ver que Amanda ainda vestia seu pijama de dinossauros. — Okay, então corra para se aprontar, vamos lá. Você tem dez minutos. Nos encontramos na cozinha?

— Sim, mamãe — a menina sorriu, exibindo o buraco que havia no lugar do seu dente direito.

Kara correu para o banheiro jogar uma água fria no rosto para acordar. Ainda estava sob efeito do calmante que tomou na noite anterior para conseguir dormir. Os pensamentos acelerados e nada agradáveis foram um empecilho para que pegasse no sono, então teve de recorrer aos tarja preta que mantinha muito bem guardados em sua caixinha especial. Sua esposa não gostava quando Kara se automedicava, porque sabia que sua saúde mental era frágil, mesmo com acompanhamento psiquiátrico constante, mas às vezes sabia que era necessário que ela tomasse aquelas benditas pílulas.

A loira de grandes olhos azuis e sorriso largo sempre foi uma criança agitada, alegre, expansiva. Isso se manteve na adolescência. Kara emanava luz por onde passava, era extremamente energética, parecia o próprio Sol. Entretanto, quando um evento nada agradável aconteceu quando ela era apenas uma adolescente tola e apaixonada, Kara acabou perdendo um pouco de seu brilho. O luto de terminar uma relação tão traumática fez com que ela desenvolvesse uma depressão que a perseguiu ao longo daqueles anos.

Estava casada, feliz com sua família, prestes a lançar seu primeiro livro e pronta para voltar à cidade que amava a fim de viver uma vida tranquila com a qual sempre sonhou, mas ainda assim às vezes a depressão vinha súbita, sorrateira, pronta para sugar toda sua felicidade e drenar sua energia até transformá-la em algo pequeno e morto.

Colocou uma roupa qualquer e desceu às pressas, indo rumo à cozinha para preparar o café da manhã e o lanche que a filha levaria pra escola. Por sorte (sorte essa chamada Samantha Arias Danvers), ambas as coisas já estavam preparadas. Havia um lanche e frutas devidamente separados dentro de um saquinho plástico de alimentos, e panquecas à mesa. Kara só precisou pegar leite e sucrilhos para complementar.

— Está pronta, Mandy? — Kara gritou, e a menina surgiu na mesma hora carregando sua mochila cor de rosa e jogando-a no chão antes de se sentar no banco. — Seus sucrilhos — entregou a ela uma tigela com leite até a metade e bastante cereal. — E suas panquecas — empurrou o prato com elas e pegou uma para si, dando uma mordida generosa. — Sua mãe faz as melhores panquecas... — gemeu, debruçando-se à ilha.

— Faz mesmo — a menina concordou antes pegar uma e dar uma mordida generosa também. — Cadê o mel, mamãe? Não pode esquecer do mel.

— Verdade! — concordou, dando um tapinha na própria testa antes de ir atrás do pote de mel. Pegou também um pote de Nutella. Os olhinhos da menina brilharam ao ver tanto açúcar à sua frente. — Não conte para sua mãe, ou ela vai me bater — dramatizou, fazendo careta.

A menina de oito anos de idade, cabelos castanhos longos e lisos e um rosto arredondado riu e balançou a cabeça, concordando com sua mamãe loira. Geralmente a mamãe morena era mais séria, dizia “não” com bastante frequência, falava que açúcar demais fazia mal aos dentes e à saúde. Mamãe Kara não só permitia que Amanda comesse quantos doces quisesse como ainda lhe ajudava a comê-los. Era divertido. Faziam isso em segredo. Uma coisa delas.

Kara amava ser mãe, especialmente de Mandy. Ela sempre quis ter um filho, passou a adolescência sonhando em como seria quando o momento chegasse, fantasiando qual seria o rosto do seu bebê etc. Só que naquela época Kara só vislumbrava a maternidade ao lado de Lena Luthor, sua ex namorada. A única que teve antes da esposa Samantha. Não imaginou que um dia seria mãe de um filho de outra mulher...

Se tornar mãe não foi planejado. Quando conheceu Samantha, Kara tinha apenas vinte anos, ainda estava na Universidade e a mulher cinco anos mais velha estava grávida, prestes a dar à luz. Sam tinha acabado de se livrar de um relacionamento extremamente abusivo e jamais permitiria que o pai da criança chegasse perto de sua filha. E ele nem queria.

A relação entre elas se firmou muito rápido, foram morar juntas em pouquíssimo tempo. Não por conta de uma paixão avassaladora à primeira vista, mas por confiança. Kara reconheceu na dor de Samantha a mesma dor que havia sentido não muito tempo atrás. Ambas foram destroçadas por relacionamentos tóxicos. Kara foi traída da maneira mais vil, Samantha violentada física e psicologicamente por anos.  

Vivendo sob o mesmo teto, não demorou para que a paixão chegasse sem avisar. Foi durante o primeiro ano de vida da pequena Amanda que Kara conquistou sem querer o coração da enfermeira Arias, que ficou realmente tocada com todo o amor que aquela loira podia sentir por sua filha como se fosse realmente dela, como se tivessem feito Amanda juntas. Era algo surreal e tão lindo.

 

Dentro do carro, enquanto Kara dirigia rumo à escola, Amanda começou a disparar perguntas. Ela era extremamente curiosa e falante, muito parecida com a loira, o que impressionava Sam.

— Essa cidade que vamos morar é legal? Mamãe Sam disse que foi até lá só uma vez, mas que lá é bonito, tem praia, lago... É verdade que vamos morar em uma casa no lago? — olhou para a mãe pelo retrovisor com um sorriso ansioso.

— Sim, macaquinha. É uma cidade muito legal, você vai adorar. Tem um parque de diversões bem bacana, eu vou te levar todo o final de semana, se quiser. E nossa casa será em frente ao lago, sim. Com um espaço enorme pra você correr! — Kara respondeu com a mesma empolgação, olhando para ela às vezes, sem deixar de prestar atenção no trânsito. — Podemos até adotar um cachorro, se você quiser.

— Sério, mamãe? Vai me levar ao parque? E me dar um cachorrinho? — a menina ficou maravilhada diante das possibilidades, a boquinha abriu, exibindo o buraco sem dente que fazia Kara suspirar de amores. — Eu sempre quis um cachorro, mas mamãe Sam nunca quis, sempre disse que apartamentos são lugares ruins para eles... — falou com tristeza.

— Ela está certa, macaquinha. Cães precisam de espaço pra correr. Agora que vamos morar em Midvale, você poderá ter quantos cães quiser.

— Não sei, não. Mamãe Sam não vai querer uma casa lotada de cachorros — Amanda lembrou, mais esperta que Kara.

— É, você conhece bem sua mãe... — sorriu e parou o carro ao chegar na porta da escola. — Mas pelo menos uns três eu posso te garantir.

— Oba!

Kara desceu do carro e deu a volta, abriu a porta para a filha descer e a agarrou ali mesmo, apertando sua cria sem medo de parecer a mãe mais grudenta do planeta. Talvez ela fosse.

— Mãe, dói! — a garotinha resmungou, quase sendo esmagada.

— Desculpa, querida. Eu te amo, sabe. Já estou com saudade antecipada — soltou a garota e se abaixou para encará-la. — Se cuida, coma seu lanche e seja uma boa garota.

— Eu também te amo, mamãe. Pode deixar.

Beijou a testa da filha, pegou sua mochila e a colocou em seus ombros, deixando finalmente a menina partir. Ficou ali observando-a seguir o fluxo com as outras crianças até Amanda desaparecer após passar a porta. Kara suspirou, voltou para o carro e dirigiu de volta para seu apartamento.

Já em casa, a escritora recebeu uma ligação da editora-chefe da Catco, Cat Grant. A mulher era incrível e estava dando um suporte enorme para Kara na publicação de seu primeiro livro. Catco havia se tornado uma das maiores editoras de livros do país na última década, então era mais que uma honra ser lançada por Cat Grant, era um sonho.

Recebeu informações a cerca da livraria em Midvale onde faria sua primeira noite de autógrafos, mas não se deu ao trabalho de pesquisar afundo sobre ela, porque se o fizesse, descobriria que a proprietária da mesma se tratava de Lena Luthor.

O evento aconteceria duas semanas após sua chegada à cidade, para dar tempo ao menos de ajeitar as coisas na nova casa que sequer haviam comprado.

Sozinha no silêncio absoluto, a ansiedade começou a atacar.

Andava mais ansiosa que o normal com a aproximação do dia que iam finalmente retornar à cidade. Só de imaginar, a boca do estômago doía forte. Cada parte dentro de Kara parecia se contorcer, era terrível. Ela ficava sem ar, as mãos suavam, a visão se tornava turva. Tudo porque a cidade que tanto amava, a cidade onde a nasceu remetia ao grande trauma que a fez ir embora. Mas Kara jurava que estava preparada para fazer isso. Para voltar. Para encarar a irmã. Para encarar Lena. Ela precisava fazer isso. Precisava deixar realmente o passado para trás e recomeçar.

Não havia um dia sequer que Kara não sentisse falta de sua irmã, e da proximidade com a família. Ainda que falasse com os pais e que vez ou outra eles viessem visitá-la, não era a mesma coisa que seria caso Kara estivesse em Midvale. Eles sempre foram muito unidos, mas a família se partiu ao meio quando Kara foi embora. Tudo porque Eliza tomou suas dores, mas o pai pareceu ficar ao lado de Alex, mesmo ela sendo a errada da história. A loirinha não se surpreendeu com isso, afinal Alex sempre foi a favorita dele. Mas não podia fingir que não sentiu muita raiva do pai por não a defender.

Voltar a Midvale era uma chance de unir sua família novamente, de tentar retomar a relação perdida com a irmã que um dia foi a pessoa mais importante do mundo para si, de tentar melhorar a relação com o pai. Kara também queria que sua filha tivesse contato constante com os avós, e que conhecesse a tia. Como Samantha não tinha irmãos e o pai já havia morrido, Kara não achava justo privar sua filha dos avós e da tia por causa dos seus problemas pessoais e tão já ultrapassados.

Apesar de nunca mais ter falado com a irmã, e de ter pedido que os pais não lhe trouxessem notícias, Kara sabia o básico: Alex havia se casado com Lena não muito tempo depois de sua partida. Estavam juntas desde então, o que tornava tudo ainda mais doloroso e difícil de perdoar.

 

Estava distraída sentada diante do notebook tentando começar a escrever seu próximo projeto quando de repente sentiu mãos em seus ombros, o que a fez pular da cadeira.

— Jesus Cristo! — pôs a mão sobre o peito, realmente assustada. Olhou para Samantha chocada. — Quase me matou de susto.

— Você não me ouviu entrar e nem te chamar, estava mesmo distraída, hein? Toda concentrada... — Sam sorriu docemente e a puxou, passando seus braços ao redor do corpo dela. — Eu amo o jeito que você esquece do mundo quando está escrevendo.

Kara sorriu timidamente. Se sentiu um pouco culpada já que estava distraída por outra razão naquele momento. A mente quase que completamente perdida no passado.

— E eu amo o jeito que você quase me mata susto — brincou. Selou os lábios de Sam e passou os braços ao redor de seu pescoço. — Que faz em casa tão cedo? Achei que tivesse plantão.

— Estou oficialmente dispensada! — Kara a olhou surpresa. — Como sou muito querida pela minha chefe, ela deixou que eu aproveitasse meus últimos dias em National City. Não é bem aproveitar, porque temos ainda que arrumar um monte de coisas, mas... — sorriu com certa malícia, uma das mãos descendo e contornando o quadril da esposa. — Achei que podíamos aproveitar ao menos hoje...

— Oh, entendi — a loira devolveu o olhar e o sorriso. — Sabe que eu amo suas ideias? Elas são sempre geniais... — beijou Samantha depressa, roubando seu fôlego com tanta paixão súbita. A morena só teve tempo de segurá-la e corresponder.

Kara a empurrou rápido e bateu seu corpo contra a parede. Sam gemeu baixinho e sorriu contra seus lábios. Geralmente a esposa era bastante delicada, muito romântica, dificilmente selvagem. Ela gostava da loira exatamente do jeitinho que ela era, mas não podia negar que ficava completamente molhada e rendida diante daquele outro lado pouco visto da esposa.

— Antes que eu arranque sua roupa e te coma aqui na sala — Kara sussurrou com os olhos azuis em chamas — Me diga que você pediu que sua mãe buscasse a Mandy na escola e ficasse com ela hoje.

A morena assentiu, as duas sorriram largamente. A escritora amava aquela conexão mental que elas tinham, quase sempre adivinhando os desejos uma da outra.

— Agora cumpra com sua palavra — Samantha exigiu, puxando a loira pela camiseta e enfiando a mão por dentro, tocando o abdômen delicioso. — Coma sua esposa aqui na sala.

— Agora mesmo!

[...]

De madrugada acordou de súbito no meio de um sonho intenso, com uma espécie de sobressalto no coração, mas não se moveu porque havia alguém em seus braços. Não a mulher de seus sonhos, mas Samantha, sua esposa, é claro. A mulher com quem escolheu se casar, a mãe de sua filha. A mulher que amava.

Sempre que faziam amor, elas costumavam dormir de conchinha. Era um hábito gostoso que elas não queriam perder mesmo após tantos anos juntas. Mantinha o romance. Fazia Sam se sentir segura e dava a Kara a confirmação que ela precisava de que Samantha a amava. Às vezes a loira precisava de pequenos gestos comprovativos. Não porque não soubesse ou não acreditasse no amor visível da esposa, mas porque não se sentia suficiente para ela, acreditando que pudesse ser substituída a qualquer momento.

Kara tinha um grande trauma. Como poderia não ter? Foi inclusive por causa dele que desenvolveu a depressão. Tentou fazer terapia duas vezes, inclusive uma delas durou bastante tempo, mas não foi eficaz o bastante para apagar suas memórias ou para fazê-la se sentir menos insignificante. O que mais ajudou ao longo daqueles anos não foi a terapia, nem os amigos da escola em que trabalhou sempre a enchendo de elogios e incentivos para escrever seu livro, mas sim o amor de sua família.

Samantha e Amanda eram tudo para Kara.

E ainda assim lá estava ela... Com a cabeça no passado. Com a cabeça em Lena Luthor.

Dez anos atrás...

Sozinhas na beira do lago, as adolescentes apaixonadas corriam só de calcinha e sutiã sem medo de nada. Era verão e elas só queriam aproveitar o momento, viver intensamente aquele sentimento arrebatador que queimava em seus corações desde os primórdios de suas existências.

As duas se gostavam desde crianças, mas a paixão arrebatadora veio aos treze anos, quando os hormônios começavam a trabalhar em seus corpos para transformá-las em mulheres.

Lena correu na frente e pulou sem medo, mergulhando fundo naquelas águas, que em sua própria analogia não deixavam de ser como o oceano que Kara representava. A loira pulou atrás.

— Vem aqui, me dá um beijo — Kara nadou para perto dela e a agarrou, tentando beijá-la. Lena se esquivava de propósito, mas não conseguia escapar de seus braços. — Só um beijinho, não seja malvada...

— Ainda estou brava com você — fez um bico e deixou as mãos paradas sobre os ombros da loira.

— Por causa da Janet? Qual foi, ela só queria ajuda com os exercícios de álgebra — explicou inocentemente, apertando Lena com mais força para não correr o risco de a mesma escapar.

— Estamos de férias, Kara! — resmungou com ciúmes.  — Além disso, vocês nem são amigas. Ela está dando em cima de você. Eu não gosto disso.

— Não acho que ela esteja, mas eu não ligo. Só tenho olhos pra você, sua boba — sorriu, e tudo se iluminou de uma forma que Lena até se esqueceu que estava irritada. Kara beijou seu queixo e foi subindo por todo o rosto. — Olhos e todo o resto... — sussurrou em seu ouvido, suas mãos percorrendo caminhos ousados embaixo d’água, fazendo a temperatura subir...

Lena fechou os olhos e suspirou, agarrando-se mais forte no corpo da loirinha.

— Ah, Kara... Eu não consigo te resistir... — suspirou.

 

Dias de hoje.

Suspirou pesadamente. As memórias boas apareciam com muita frequência, não só agora que estava prestes a voltar. Só que até mesmo essas memórias eram dolorosas e sem sentido. Kara não queria revivê-las e nem deveria. Estava casada, assim como Lena. Estava feliz. Tinha tudo o que precisava, mas talvez não tudo o que queria.

[...]

Sábado à noite, Alex pegou sua família e foi para a casa dos pais, que ficava no subúrbio da cidade. A mesma casa onde cresceu. Intocável. Tudo exatamente no mesmo lugar, completamente igual. Ou quase.

Quando tocou a campainha, seu pai veio abrir a porta. Pelo som de vozes e risadas, estava claro que haviam outros convidados para o jantar.

Lena entrou na frente com o filho e logo viu uma menininha um pouco menor que Dylan e uma mulher bonita que desconhecia completamente. Então sua sogra surgiu com uma expressão tensa e o barulho cessou. Exceto por uma voz que veio da cozinha. Uma voz empolgada, risonha, que Lena conhecia muito bem e que não ouvia há tanto tempo que parecia uma ilusão.

De repente, Kara surgiu ali na sala e finalmente o tão sonhado reencontro aconteceu.

Kara? — Alex pareceu não acreditar no que estava vendo. Seus olhos esbugalharam diante da imagem da irmã, que a encarou.

Foi uma troca de olhares intensa.

— Eu voltei — a loira anunciou com um meio sorriso extremamente nervoso.

— Voltou de vez — Eliza explicou. — Se mudou com a família para cá. Ficará uns dias aqui conosco até comprarem uma casa.

Família? Lena, que estava paralisada e a ponto de desmaiar, voltou sua atenção novamente para aquela linda criança e a morena próxima a ela. Então aquela era a esposa de Kara? Aquela menininha era sua filha? Jesus Cristo...

Alex sentiu como se alguém lhe acertasse um soco no queixo e a derrubasse. Estava extremamente confusa, completamente desnorteada.

— Uau... Então foi por isso que vocês dois estavam tão esquisitos no telefone — olhou para a mãe quase como se a acusasse de algo.

— Fui eu que pedi para que eles não dissessem nada — Kara deu alguns passos a frente, mas achou melhor manter uma distância razoável da irmã e de sua ex, que ainda não havia encarado realmente. — Fiquei com receio que caso você soubesse, recusasse o convite do jantar. Acho que já está na hora de voltarmos a nos falar.

Mais uma vez a ruiva se sentiu golpeada. Kara não parecia a mesma garota que partiu anos atrás morrendo de ódio dela. A irmã estava estranhamente muito calma naquela situação surreal.

Finalmente a loira teve coragem de olhar diretamente para Lena bem a tempo de flagrar o olhar dela sobre si. Foi um encontro tão intenso que mesmo à distância podia dar choque.

“Hello from the outside

At least I can say that I've tried

To tell you I'm sorry for breaking your heart

But it don't matter, it clearly doesn't tear you apart anymore.”

(Hello – Adele)

— Olá — foi a única coisa que Lena pensou em murmurar para ela, completamente perdida, sem saber como devia agir naquele encontro surreal.

— Olá — Kara replicou tentando conter um sorriso emocionado que surgiu de repente.

Os olhos azuis da escritora desceram até o garoto que estava à frente do corpo de Lena, que tinha as mãos da mãe sobre seus ombros. O menino tinha cabelos claros e usava óculos parecidos com os seus. Era bonito e visivelmente tímido, mas olhá-lo foi tão doloroso que Kara desviou na mesma hora.

Aquela criança era a prova viva e indiscutível da traição de sua irmã e da mulher que amava.

Por um instante sentiu emoções antigas virem à tona, como raiva, mágoa e rancor, então se recompôs na mesma hora, aproximou-se de sua família, pondo uma mão na lombar de sua esposa e a outra sobre a cabeça de sua filha.

— Essa é minha esposa Samantha Arias, e essa é minha filha Amanda.

Lena engoliu em seco para disfarçar seus próprios sentimentos. Estava tão abalada que qualquer um podia notar, não só sua esposa, que a olhava seriamente preocupada.

Alex passou todos aqueles anos pensando na possibilidade que um dia sua irmã poderia voltar. Talvez Kara fosse perdoar Lena pelo passado e com isso havia a possibilidade de reconquistá-la, roubando-a de si. Mas pelo que estava vendo, a irmã voltou com uma família bonita e feliz. Seja lá quais razões a haviam trazido de volta, a ruiva não achava que reconquistar Lena estava entre ela.

— Mandy — a menina corrigiu a mãe, chamando atenção de todos na sala, quebrando um pouco o clima tenso e esquisito. — Prefiro que me chamem de Mandy.

— Esse aqui é seu primo — Alex falou se aproximando do filho com orgulho. — Dylan.

— Oi — o menino falou baixinho, olhando para Mandy.

— Oi, Dylan Que legal ter um primo! Nós podemos brincar e assistir filmes juntos e desenhar e fazer tantas coisas legais.

Todos riram e na mesma hora Lena sentiu um aperto no peito ao constatar como aquela menina era parecida com Kara. Não fisicamente, mas no jeito de ser. Toda falante e empolgada.

— Crianças, por que vocês não vão lá em cima no antigo quarto da Alex brincar? — Eliza perguntou, chamando os dois com as mãos e guiando-os rumo as escadas. — Dylan, mostre a coleção de brinquedos da sua mãe para Mandy.

— Está bem, vovó.

Enquanto as crianças subiam apressadas, o silêncio sepulcral da sala reverberou. Todos estavam mexidos, principalmente as irmãs e Lena. Mas Samantha também captava algo errado com a esposa. Kara pareceu se calar depois da apresentação de seu sobrinho, como se ficasse profundamente abalada. E ela ficou.

Kara olhou para Lena por um breve momento, pois não podia buscar encará-la diante dos olhares de suas esposas por muito tempo. Luthor sentiu o peso daquele olhar, que era indagatório, como se dissesse: Sério? Você deu o nome da criança de Dylan?

Porque a loira sabia o que aquele nome significava.

Um dia, no passado, sua ex namorada havia dito que caso elas tivessem um filho, Dylan seria o nome da criança. Mas então Lena engravidou de sua irmã e deu esse nome ao bebê. Maldita fosse por isso.



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