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História Alguém Como Você - Capítulo 17


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Capítulo 17 - Capítulo 17


Kara se mudou para a casa de Lena no dia seguinte. Felizmente Mandy não ficou chateada, porque a mamãe continuaria perto, afinal, a casa de Lena ficava ao lado. A menina podia bater à porta delas a qualquer hora. Kara não deixaria de amar e dar atenção à filha, mesmo que estivesse quase que completamente focada em Lena por motivos óbvios.

Alex estava vivendo em função de esperar pela recuperação de sua ex esposa também. Porque só quando isso acontecesse é que ela poderia se entregar para colocar um ponto final nessa página de sua vida. Enquanto isso não acontecia, Alex era prestativa, levava e buscava Dylan e a sobrinha mesmo que sua irmã se recusasse a olhar em sua cara. Algumas tardes ficava com as crianças só para dar mais privacidade à Kara e Lena, que mereciam um tempo extra juntas depois de dez anos separadas por uma mentira.

Em quase dois meses de radioterapia, Lena perdeu quase 10kg, o que ocasionou uma mudança drástica em sua aparência, pois ela sempre foi uma mulher mais encorpada. Isso deixou sua loirinha bastante preocupada, mas Kara não disse nada, porque sabia que a morena já estava abalada o suficiente e falar a respeito da aparência dela só pioraria tudo.

A pior parte do tratamento era realmente o apetite. Por mais que às vezes quisesse comer algo por pura gulodice, não conseguia ingeri-los, mal tinha apetite, o que contribuía para o aumento de seu cansaço.

Samantha foi algumas vezes visitar Lena para prestar solidariedade. No fim, todas elas eram adultas e haviam se acertado, apesar dos pesares. Menos as irmãs Danvers, mas era uma situação peculiar e que pedia certamente mais tempo.

Segunda-feira pela manhã, Kara foi com Lena para mais uma sessão de radioterapia. Quando a mesma terminou, o Dr. Edge foi falar com as duas. Ele estava com o resultado de alguns exames de Lena feitos na semana anterior.

— O que aconteceu, Dr? Sua cara não parece muito boa — Lena analisou.

— Vamos até o meu consultório? — ele sugeriu.

O casal se entreolhou e apenas assentiu, seguindo-o até sua sala. Lá dentro, de porta fechada, elas se sentaram lado a lado à frente da mesa dele.

— Olha, Lena, os resultados dos seus exames saíram. Aqueles que solicitei na semana passada. Estamos chegando há dois meses de radioterapia hoje e não houveram mudanças significativas no seu quadro. Em outras palavras, o câncer permanece e como ele é avançado, as chances de se espalhar cada vez mais só aumentam, por isso temos que começar a quimioterapia imediatamente — falou sem rodeios, olhando nos olhos de sua paciente o tempo todo.

Lena fechou os olhos por um instante, inalou profundamente e prendeu a respiração. Infelizmente ela já esperava ouvir algo do tipo, afinal de contas, já sabia que estava com um câncer agressivo em estágio avançado e Dr. Edge já havia dito que existia a possibilidade de ter de fazer quimioterapia também. Mas Lena queria tanto que não fosse preciso... A quimioterapia iria deixá-la ainda mais fraca e feia, porque seus cabelos cairiam...

Kara sentiu aquela dor no coração, umas palpitações incômodas, a vontade súbita de chorar, mas se manteve firme, porque sabia que era disso que sua companheira precisava. Que ela fosse forte.

Então Kara pegou na mão de Lena e a apertou.

— Certo, Doutor. E quando começamos a quimio, então?

— Imediatamente.

Lena olhou para Kara com visível medo nos olhos e encontrou nos oceanos a coragem que precisava para encarar de frente a situação.

— Vamos lá, então.

**

Foram para a sala de infusão para o tratamento com quimioterapia, havia quase dez pessoas com câncer sentadas em poltronas recebendo suas medicações na veia.

A duração de cada sessão de quimioterapia para Lena seria de uma hora e meia.

Assim que ela sentou, uma enfermeira veio com sua medicação.

— Relaxa, vai ficar tudo bem, eu vou estar aqui com você o tempo todo — Kara prometeu, sentada em uma cadeira simples que foi posta ao lado da poltrona de Lena, permitindo que ela ficasse ali. Estava segurando na mão dela.

— Espero que sim — a morena suspirou, recostando-se confortavelmente na poltrona.

Após meia hora, Lena sentiu muito sono e acabou dormindo. Kara percebeu e questionou a enfermeira, que explicou que isso era normal de acontecer, especialmente na primeira sessão. Então a loirinha relaxou e continuou ali ao lado dela, segurando sua mão enquanto assistia televisão.

Quando a sessão finalmente acabou, Lena acordou toda, bastante sonolenta ainda.

— Vamos levantar devagar, mocinha — Danvers sorriu, pegando em ambas as mãos dela para ajudá-la a se levantar devagar — Daqui até o carro é um longo caminho.

Após se levantar, Lena se apoiou em sua amada, passando um braço sobre seus ombros.

— Deus, estou com tanto sono... Essas drogas são mesmo pesadas — falou com a voz pastosa.

— Elas são fortes, precisam ser para destruir esse câncer idiota — resmungou a loira brincalhona enquanto ajudava a amada a caminhar pelo hospital rumo à saída.

Chegaram no estacionamento, Kara abriu a porta para ela entrar.

— Se eu já estava enjoada por causa da radioterapia, agora, então... — resmungou, fazendo um biquinho enquanto se sentava no banco de passageiro. — Além de não conseguir comer, o pouco que entrar, vou vomitar.

— Não importa, tem de comer mesmo que vomite — a loira falou séria, ligando o carro. — Dr. Edge disse que você precisa comer mesmo que seja forçado para ficar forte, Lena. Ainda mais agora.

— Okay, okay...

[...]

À noite, Dylan já estava em casa e Kara foi preparar um jantar delicioso para sua família. Porque Lena e Dylan, assim como sua filha, também eram sua família.

Cozinhou uma pasta, legumes e batata assada. Enquanto preparava a refeição, o menino assistia TV e Lena estava no andar de cima descansando, pois havia realmente ficado exausta em seu primeiro dia fazendo quimioterapia.

Já eram 20h30 quando Kara finalmente terminou o jantar e foi colocar a mesa.

Lena, que havia acordado há alguns minutos, foi ao banheiro e logo em seguida foi descer para jantar. Lá de cima pode sentir o cheiro delicioso da comida que por um milagre não a deixou enjoada. Quando estava chegando aos últimos dois degraus da escada, ela ficou tonta e desmaiou, caindo ao chão.

— Mamãe! — Dylan gritou assustado ao ver a mãe no chão.

— Lena!

Kara correu depressa para socorrê-la. Se abaixou e ergueu o tronco dela, tocou seu rosto delicadamente e Lena recobrou a consciência rapidamente, mas estava confusa e tonta.

— Você está bem? — perguntou realmente preocupada, encarando os olhos verdes perdidos.

— Mamãe, mamãe! — Dylan chorava completamente assustado, parado perto delas.

— Eu estou bem... — Lena disse ainda confusa, então ela viu o filho chorando e fez um gesto com a mão para que ele fosse mais perto.

Sentada no chão, ela abraçou o filho e Kara com força.

— Não chora, meu amor — pediu ao filho — Eu estou bem, mamãe só ficou meio tonta e perdeu o equilíbrio — mentiu, pois era melhor do que dizer que desmaiou por alguns instantes — Foi por causa dos remédios que estou tendo que tomar.

— Sim, sua mãe está bem, Dylan — Kara reforçou e ajudou a amada a se levantar do chão — Foi só um mal estar, certo? — Lena assentiu — Então vamos jantar agora.

Lena abraçou o filho de novo e enxugou suas lágrimas. O menino ainda tinha uma expressão assustada, pois nunca havia visto a mãe em situação semelhante. Apesar dos pesares, durante aqueles dez anos, Luthor sempre foi uma rocha, ela sequer se permitia chorar, mas agora estava completamente fragilizada pela doença...

Durante o jantar, o clima melhorou e o menino ficou mais calmo.

Mais tarde, quando foram se deitar, Kara disse já na cama:

— Minha mãe ligou hoje quando você estava dormindo. Ela quer dar um jantar quarta-feira em sua homenagem — Kara contou com uma expressão estranha, pois não estava muito contente e Lena já podia adivinhar o porquê. O convite provavelmente se estendia a Alex, que também era uma Danvers.

— Eu gosto muito da sua mãe, principalmente do seu pai. E os jantares são deliciosos. Podíamos deixar Dylan e Mandy na casa de algum coleguinha, assim eles não teriam de ir e presenciar o clima estranho entre você e Alex, o que acha? — Lena sugeriu, caminhando em direção à cama, havia acabado de se trocar.

— É uma boa ideia, pelo menos preservamos as crianças...

[...]

— Eu não sei se é uma boa ideia eu ir nesse jantar — Alex falou nervosamente para Clark. Os amigos estavam em uma cafeteria, era quarta-feira, faltava menos de três horas para o jantar — Quero dizer, Kara me odeia... Meus pais vão olhar para nós duas e vão perceber na mesma hora que há algo de errado, Clark.

— Bem, eles vão perceber isso de todo jeito. Eles já sabem que Kara e Sam se separaram também e que Kara foi morar na casa onde você costumava viver com a Lena. Acho que esse jantar é uma forma que sua mãe está buscando de sondar, de descobrir o que está havendo... — opinou, tomando um gole de seu café.

— Minha mãe é muito intuitiva e ela tem raiva da Lena pelo que ela acha que aconteceu. Deve estar com mais raiva ainda por ela ter "seduzido" Kara novamente e deixado a Sam, que é a nora perfeita — suspirou pesadamente, dando uma escorregada no assento estofado. — Deus, e ainda tem a Sam...

— O que tem ela? — o moreno sorriu maliciosamente, porque ele já havia sacado o que estava acontecendo — Vocês estão cada dia mais próximas, né.

— Ela virou minha melhor amiga, igual você, só que diferente. Eu não sei explicar nossa relação — falou meio confusa, gesticulando. — Mas nos últimos dias as coisas estão meio confusas... Pra mim, eu digo.

— Confusas como?

— Já faz um tempo que eu me sinto estranha perto da Sam. Sinto coisas que eu não deveria sentir — falou angustiada — Coisas parecidas com o que eu sentia pela Lena, mas ao mesmo tempo diferente. Entende?

— Completamente — Clark sorriu largamente. — Eu vejo na maneira como o seu tom de voz ameniza e em como os seus olhos brilham o que você sente pela Samantha, Alex.

A ruiva estremeceu ao ouvir aquilo, sentindo-se completamente vulnerável com a exposição do amigo, que estava fazendo uma leitura de seus sentimentos.

— E o que você acha que eu sinto?

— Eu acho que você está apaixonada por ela. Tenho certeza, na verdade.

Os olhos dela arregalaram e o amigo riu, balançando a cabeça.

— Você nunca se apaixonou antes, ao menos não assim. Com a Lena foi algo diferente, uma fantasia infantil, como você mesma me disse.

— Sim, isso é verdade. O que eu estou sentindo pela Samantha é diferente. Eu gosto tanto dela que a ideia de ir presa e não poder vê-la faz o meu peito doer... — admitiu com os olhos marejando — Todas as vezes que ela está por perto eu me sinto melhor. Ela não faz eu me sentir culpada, nem como se eu fosse uma pessoa horrível. Sam faz com que eu me sinta humana. Acho que é por isso que eu gosto dela.

— Só gosta? — os olhos azuis a fitavam intensamente.

— Clark... Não posso sentir nada além de amizade por Samantha, ela era casada com Kara, é mãe da filha dela... Eu não posso fazer isso de novo...

— São coisas diferentes, Alex — opinou ele com sinceridade — Elas estão separadas, Kara ama a Lena e está com ela.

— Ainda assim.

— Além disso, está muito óbvio que Samantha te corresponde — o rapaz fez uma expressão de deboche, como se aquilo fosse óbvio, mas para sua amiga não era.

— Você só pode estar maluco — Alex gargalhou de nervoso e bebeu outro gole de seu café — Sam só me vê como amiga. Ela nunca se interessaria por uma mulher como eu.

— Sem essa autopiedade aqui, Alex Danvers, ou eu vou tacar o meu café em você! Pelo amor de Deus, você é linda, engraçada, leva o maior jeito com os animais, sabe cuidar de hortas, passa o melhor café que eu já tomei, é a amiga mais leal que eu já vi. Porra, se eu fosse hetero me apaixonaria por você! — brincou, mas estava sendo sincero.

Alex riu, sentindo-se mais relaxada.

— Vou acreditar em você. Mas então acha que eu devo ir ao jantar?

— Claro que sim. Não fuja. É inevitável. Não pode deixar de fazer as coisas porque Kara estará lá. É a sua família também.

Clark tinha razão. Eram seus pais. E, de qualquer maneira, uma hora teria de contar a verdade a eles... Em algum momento as coisas iriam ficar piores do que já estavam. Alex estava se acostumando a isso, embora não devesse.

Por sorte, ela tinha Samantha. E Sam estaria lá caso algo desse errado.

[...]

Kara e Lena foram as primeiras a chegar, seguidas por Sam e Alex na sequência. O clima ficou pesado no momento que as irmãs cruzaram os olhares, e isso não passou despercebido a Eliza, nem mesmo a Jeremiah.

Apesar de não gostar da jovem Luthor, Eliza tentou ser o mais gentil possível por conta da condição dela. Questionou como a jovem estava agora que havia iniciado a terapia, mas Kara não queria que todo o assunto da noite fosse focado nisso.

Na verdade, Kara estava muito irritada por ter de ficar ali na presença da irmã, uma criminosa que havia machucado a mulher que ela amava e que ainda por cima não teve coragem de assumir isso. Ao menos não até pouco tempo.

Na mesa do jantar, Sam era quem mais conversava com Eliza sobre assuntos aleatórios para tentar amenizar o clima. Alex não falou uma palavra durante toda a noite, pois sentia-se acuada, especialmente ao ver o olhar odioso que Kara lhe dirigia.

— Alex, minha filha, você está muito calada — Jeremiah observou, fazendo os olhares voltarem-se para ela. — Aconteceu alguma coisa?

— Uhn, não, não, pai. Está tudo bem — respondeu nervosamente, abrindo um sorriso.

Samantha, que estava sentada ao seu lado, pôs a mão em sua perna como sinal de apoio, mas a ruiva se assustou com o gesto inesperado e a encarou surpresa.

— Está tudo bem — murmurou só para ela ouvir, inclinando-se. Todos repararam nisso, especialmente Kara.

Não que estivesse com ciúmes da ex esposa, mas era estranho ver a proximidade de sua irmã traidora com Samantha. Especialmente com o histórico que elas tinham. Alex foi obcecada por Lena a ponto de estuprá-la e agora estava muito íntima da mãe de sua filha. Isso não era agradável para Kara, principalmente quando ela pensava no fato de que Sam preferiu ficar do lado de Alex na briga do que no seu.

— Como as crianças estão lidando com essas separações e inversões? — Eliza questionou — Porque de repente todas vocês se separaram, não deu nem tempo de processar tudo e Kara já está morando na casa que era de Alex e Lena... — sorriu maldosamente, por mais que tentasse, não conseguia esconder seu desagrado com esse fato. O fato de sua filha favorita ter voltado às garras de Lena Luthor.

Kara fuzilou a mãe com o olhar, ficando ainda mais irritada. Ela já não estava afim de ir, só o fez por causa da amada, mas daí ter de ouvir insinuações da mãe, ainda por cima na presença de Alex, a culpada por tudo aquilo?

Lena se encolheu na cadeira sem graça, Kara percebeu.

— Na verdade, as crianças estão lidando muito bem, aparentemente são mais maduras que os adultos — a loira retrucou a mãe.

Sam suspirou. Ela também havia previsto que aquela noite podia dar muito errado rapidamente...

— Mandy ama o fato de que, independente das separações, ela tem duas mães presentes e tias maravilhosas — a enfermeira falou suavemente, intervindo na conversa de novo.

— Meus netos são muito evoluídos e inteligentes — Jeremiah falou orgulhoso, sorrindo para Samantha.

Ele também tinha um espírito mais tranquilo, de quem evitava confusões. Só que a diferença dele e de Sam era de que a mulher não era omissa. Jamais seria. E por saber da omissão grave do ex sogro, ela não conseguiu ficar à vontade para sorrir de volta para Jeremiah.

— Por falar nisso, onde estão meus netos adoráveis? — Eliza perguntou.

— Na casa de um amiguinho — Lena respondeu — Vão dormir lá essa noite.

— Sim, achamos melhor não trazê-los caso algo desse errado por aqui — Kara soltou de repente, olhando direto para Alex, que se sentiu acuada por aqueles olhos azuis lhe fuzilando.

— O que quer dizer com isso, Kara? — Eliza franziu o cenho.

— Não sei, nunca se sabe quando alguma revelação pode estragar um jantar.

— Kara... — Lena se virou para a amada com aquele tom de voz cauteloso. Pôs a mão no braço dela — Por favor.

Samantha também olhou para sua ex seriamente. Não tinha paciência para lidar com as imaturidades dela.

— O que está acontecendo? Alguém pode dizer? Estou notando a noite toda esse clima estranho na mesa. Alex, você não disse uma palavra até seu pai perguntar se você está bem. Kara, você visivelmente está irritada com algo. Alguém pode me explicar o que diabos está havendo nessa família? — a matriarca Danvers explodiu. — Aliás, eu não entendo nem mesmo essas separações de vocês... Quer dizer, Alex e Lena eu já previa, pois sempre achei que fosse uma tragédia anunciada esse casamento, mas Samantha e Kara... — alternou o olhar entre a filha favorita e a ex nora favorita. — Vocês eram tão... Perfeitas.

— Ah, mãe, pelo amor de Deus! — Kara bateu o punho na mesa, fazendo um barulhão que assustou a todos — Você está destratando Lena a noite toda com suas indiretas! Já estamos cansadas de saber que você ama a Samantha, que na sua opinião ela é a nora perfeita, mas não se preocupe, porque provavelmente em breve ela voltará a ser sua nora, não é, Alex? — falou toda insinuante, alternando o olhar entre a irmã e Sam.

Alex engoliu em seco ao ouvir aquilo. Não sabia que estava tão óbvio assim seus sentimentos proibidos por Sam.

— Kara, pare com isso! — Lena disse brava.

— Você é uma idiota — Sam acusou. — Não tem limites, não sabe respeitar os outros.

— Eu sou a idiota aqui? Por que não conta aos meus pais o que a Alex fez e vamos perguntar a opinião deles?

— Eu nem devia ter vindo... — a ruiva levantou de repente. Não foi isso que ela planejou para aquele jantar. Estava disposta a tolerar algumas indiretas e um clima pesado, mas aquilo estava ultrapassando. Alex queria contar a verdade aos pais, mas não assim. Não naquele momento.

— Vai fugir? — Kara se levantou também, todos acabaram fazendo o mesmo.

— Kara, já entendi que você me odeia e não me quer por perto, mas não seja uma idiota. Samantha não tem nada a ver com isso, nem os nossos pais.

— Por que você não admite que eu estou certa? Que você está interessada na Samantha? Sabe o que é mais engraçado? Você sempre quer algo que é meu! — explodiu do nada, completamente alterada sem razão aparente.

Suas palavras ecoaram pela sala de jantar, causando choque, indignação e decepção. Só depois de falar que se deu conta do quanto aquilo não havia saído da maneira que deveria...

— Algo que é seu? — Lena perguntou decepcionada, os olhos cheios de lágrimas — Achei que você tivesse superado o fim do seu casamento como eu superei do meu...

— É claro que eu superei, não foi isso que eu quis dizer, Lena. Eu... Escapou. Eu estou com raiva.

Sam não sabia onde enfiar a cara. Ela devia ter previsto aquele caos e impedido Alex de ir. Ambas deveriam não ter ido.

Os Danvers estavam chocados, eles sequer sabiam o que dizer. Não estavam compreendendo realmente aquela confusão. Kara parecia com muito ódio de Alex, mas eles não entendiam o motivo. Não fazia sentido ser apenas ciúmes de Samantha, já que estava nítido que Kara amava Lena.

— Do que você tem tanta raiva? — Eliza quis saber. — Qual o motivo dessa confusão? Eu quero respostas agora! Alexandra e Kara, me digam o que há de errado.

Alex abaixou a cabeça e sentiu as lágrimas virem.

— Fale de uma vez, eu sei que você quer — a ruiva murmurou para a irmã, erguendo-se para encará-la.

— A Lena nunca me traiu — Kara falou quase que imediatamente, como se fosse uma espécie de vingança. As palavras saíram muito fáceis — Alex a estuprou na noite da festa, foi assim que o Dylan foi concebido.

Aquilo foi demais para todos.

Lena não aguentou ouvir aquelas palavras serem ditas em voz alta novamente, ainda mais na frente dos sogros. Se sentiu diminuída, exposta, humilhada. Kara não tinha o direito de falar sobre algo tão íntimo seu daquela maneira, sem sequer consultá-la.

Sem dizer uma palavra, chorando, Luthor saiu às pressas do cômodo.

— Lena, espera!

Kara tentou ir atrás dela, mas Jeremiah não deixou.

— Você não vai a lugar algum antes de esclarecer essa história — o pai esbravejou, finalmente mostrando alguma atitude. — Que história é essa?

Eliza estava chocada, sem reação.

Samantha tocou o braço de Alex e tentou fazê-la se mover.

— Vamos sair daqui, esse não é o melhor momento para essa conversa — a enfermeira disse, mas a ruiva não se moveu.

— Agora é tarde para isso, Sam. Kara quer se vingar, deixe ela fazer isso.

Foi tão doloroso ouvir isso, ver a feição destruída dela. Samantha sentiu uma dor inexplicável, solidarizando-se novamente com Alex.

— É isso mesmo que eu disse — Kara falou com lágrimas nos olhos também, mas a expressão de raiva não abandonava seu rosto. Ela não havia engolido a revelação de Alex na outra noite. Como ela poderia? Sua irmã havia estuprado Lena. Era surreal. Era terrível. Alex conseguiu, com aquele ato, estragar as duas coisas mais importantes no mundo para Kara: seu relacionamento com a irmã e com Lena — Alex abusou da Lena e foi assim que ela engravidou. Lena não disse nada na época porque não queria estragar nossa família...

— Oh meu Deus... — Eliza se sentiu tonta, precisou se apoiar no marido — Isso é verdade, Alexandra? — olhou horrorizada para a filha.

Alex sentiu o peso daquele olhar. A mãe a olhou como se ela fosse um monstro. A ruiva só conseguiu assentir, chorando sem parar.

— Oh não! Eu não posso suportar isso! — gritou, abraçando o marido e escondendo o rosto no peito dele — Meu Deus, Jeremiah! Onde foi que nós erramos?

A expressão no rosto do pai foi indecifrável, mas havia dor em seu olhar.

Kara olhava para a irmã num misto de raiva e mágoa. Alex chorava, imóvel. Sam estava ao seu lado, pronta para consolá-la.

— Alex é um monstro — a escritora ousou dizer de repente.

— Eu não quero mais você aqui! — Eliza se soltou do marido de repente e se voltou furiosa para a filha mais velha — Não quero que apareça aqui nunca mais, Alexandra. Eu não tenho uma filha abusadora!

— Ei! — Samantha entrou no meio literalmente, pois Eliza avançou em Alex — A senhora deveria medir as palavras. Vocês duas, aliás — apontou para Kara — É muito fácil julgar os outros, apontar dedos, eu quero ver é reconhecer seus próprios erros como Alex fez.

— Lá vem você... A defensora dela... — a Danvers mais nova sorriu com deboche — Eu me esforço, mas é difícil não acreditar que vocês estão tendo um caso desde antes de nos separarmos, porque não é possível você defender tanto uma estupradora que conheceu há poucos meses!

Alex estava completamente indefesa, ela não fazia nada, sequer se movia. Ela só tremia e chorava com o olhar perdido. Não conseguia nem ter o impulso da raiva para brigar com a irmã. Era como se tivesse regressado à infância, quando era apenas uma criança frágil, à mercê da maldade alheia.

— Cala a boca! — Sam rosnou — Você é uma estúpida ignorante! Já que vocês querem apontar dedos, julgar os outros e expor verdades, então aqui vai uma verdade para vocês: Alex foi abusada com seis anos de idade pelo próprio avô. Isso aconteceu várias vezes e ninguém pode fazer nada para impedir.

Samantha jamais iria expor Alex senão fosse extremamente necessário. E naquele momento ela sentiu que era. Dizer a verdade àquelas duas hipócritas era uma maneira de proteger a ruiva, que estava em frangalhos.

— O quê? — Eliza e Kara tiveram reações parecidas. Ficaram incrédulas e fizeram expressões duvidosas.

— Quem disse isso? Ela? — Kara apontou com deboche — Como vou acreditar em qualquer coisa que saia da boca de alguém que foi capaz de fazer o que ela fez e mentir por anos?

— Pergunte ao seu pai! — Sam apontou para Jeremiah, que estava em silêncio absoluto, mas com lágrimas gordas rolando pelo rosto — Ele sabe o que aconteceu, ele sempre soube e nunca disse nada. Nunca fez nada para ajudar a própria filha!

— Eu fiz! — gritou de repente, finalmente explodindo — Eu fiz o que eu pude! Eu não sabia, mas quando descobri... Eu matei meu próprio pai para proteger a minha filhinha!

O queixo de Kara caiu com as revelações. Começou a tremer como se rajadas de vento viessem contra seu corpo. Olhou para seu pai chocada. Nunca o viu chorar antes. E agora ele estava se desmanchando...

Olhou para Alex, sua irmã estava arrasada. Uma reação muito parecida à qual Lena teve na noite do jantar em sua casa com Sam. A reação de alguém que estava sendo exposto, humilhado... Por Deus, era verdade! Sua irmã tinha sido estuprada pelo seu avô!

— Jeremiah! — Eliza estava horrorizada, ela não conseguia processar aquilo tudo — Como... Como isso... Meu Deus, não é possível... Como? Como eu nunca vi? Como nunca notei? Você... Você descobriu e nunca me disse nada? — ficou revoltada.

— Eu não queria destruir nossa família, e eu sabia que isso aconteceria. Já tinha ouvido histórias de casamentos se desmanchando por coisas menores, que dirá isso. Achei que não precisava te causar essa dor... Achei que... que se fingisse que nunca aconteceu... que Alex ia crescer e esquecer...

— Ela parece como alguém que esqueceu? — Eliza berrou nas fuças do marido — Olhe para sua filha alcoólatra, que foi capaz de estuprar alguém e me diga se ela parece com alguém que esqueceu ou superou o fato de ter sido abusada pelo próprio avô quando criança! — avançou no marido e começou a agredi-lo, transformando a situação num caos completo.

Kara correu para apartar a briga.

— Alex, fale comigo — Sam pediu, dando toda sua atenção à ela, a única pessoa que importava — Fale comigo, você está bem?

A ruiva não conseguia pensar.

— Não consigo fazer isso, não consigo — murmurou atordoada antes de sair correndo, fugindo pela porta antes que qualquer um a alcançasse.

Kara encarou Samantha chocada depois que sua mãe desistiu de bater no marido e simplesmente sentou na mesa e caiu ao pranto.

— Eu não sabia... — a loirinha quis se justificar dizendo o óbvio — Eu nem podia imaginar, Sam... — estava quase engasgando com as palavras — Eu...

A informação de que a irmã havia sido estuprada pelo avô tirou seu chão tanto quanto o fato de Alex ter estuprado Lena.

Kara se sentiu culpada por ser tão agressiva com Alex, por não deixá-la falar o que estava sentindo, por não deixá-la expressar seu arrependimento.

— Sua irmã me contou isso na mesma noite que me revelou sobre Lena. É um segredo que ela e seu pai têm guardado ao longo dos anos. Só o revelei porque não aguentei ver a forma injusta e cruel que você estava tratando sua irmã. O que Alex fez é injustificável, mas saber o que aconteceu com ela quando criança nos faz entender algumas coisas. Assim como eu entendo sua revolta com o que ela fez com a Lena, mas não posso aceitar a forma como você reage a isso, sendo cruel com sua irmã e comigo também, que nunca fiz nada para que você duvidasse da minha lealdade.

Não havia resposta para aquilo. De novo, Samantha estava coberta de razão e Kara se sentiu insignificante. Estava envergonhada pelas suas ações, por magoar tantas pessoas numa mesma noite. As pessoas mais importantes de sua vida.

E por falar nisso...

Onde estava Lena? Para onde ela e Alex haviam ido?

[...]

Samantha dirigiu o mais rápido possível até o motel que Alex estava hospedada. Durante o caminho todo, tentou falar com ela, mas seu celular só chamava. A sensação de desespero foi dominando o peito da enfermeira, que sabia que a ruiva estava no seu limite há muito tempo, afinal de contas, vivendo com aquele peso e com tudo e todos ao redor lhe condenando, como poderia ser diferente?

A maneira como ela foi humilhada por Kara, exposta diante dos pais... O fato de Jeremiah ser um covarde que nunca a protegeu de verdade... O jeito como Eliza, sua própria mãe, foi logo querer condená-la sem lhe dar uma chance de se explicar... Tudo isso somado ao fato de que Alex estava isolada, vivendo num quarto de motel qualquer enquanto Kara já estava morando na casa que pertencia a ela e Lena... e ela sequer podia pisar lá dentro direito para ver o próprio filho, porque sua presença incomodava...

Por mais que não dissesse, que fingisse que estava bem, que estivesse na terapia, Samantha não era ingênua de achar que Alex não estava à beira do precipício.

Por ser alcoólatra, as coisas ficavam ainda mais difíceis. A tentação à bebida era enorme e Sam ficou com medo que Alex cedesse naquele momento de fraqueza, por isso foi atrás dela na mesma hora. Não queria desrespeitar seu espaço, mas não podia deixar sua melhor amiga, sua razão de estar sorrindo nos últimos tempos, estragar completamente sua vida.

Chegou no motel e correu depressa para subir às escadas. Ao chegar na porta, bateu desesperadamente, chamando seu nome, mas não obteve resposta. Então tentou abrir e descobriu que a porta estava destrancada.

— Alex!? — Sam parou onde estava ao ver a ruiva sentada no chão encostada à parede com um revólver em mãos — O que é isso? Onde você conseguiu isso?

— Não importa... — falou, o rosto vermelho e coberto de lágrimas — O que importa é que agora eu encontrei uma solução.

— Solução?! — o coração da enfermeira parecia na boca de pânico. Estava apavorada — Acha que isso é uma solução? Você é mais esperta que isso, Alex, por favor...

A ruiva sorriu fraco, colocou o tambor do revólver para fora, girou e empurrou novamente. Estava carregada. Completamente.

— Eu estou tão cansada, Sam — admitiu sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Ergueu a cabeça e olhou para os olhos cor de mel — Tão cansada... E eu só tenho trinta anos. Dá para imaginar?

— Alex — deu dois passos a frente, estava tremendo da cabeça aos pés — Seja lá o que você está pensando, se matar não é a solução. Eu sei que as coisas estão difíceis agora, mas-

— Agora? As coisas sempre foram difíceis pra mim, Sam, sempre! Em nenhum momento elas foram fáceis. Nunca. E quando eu penso que elas vão melhorar ao menos um pouco... Elas pioram. Eu não sou idiota. Eu sabia que Kara reagiria assim, eu sabia que perderia minha irmã para sempre... Não tem como aceitar, não tem como perdoar o que eu fiz, eu entendo, mas... Eu não consigo... — falava chorando, completamente desestabilizada. Pôs as mãos sobre a cabeça sem soltar o revólver — Ouvir aquelas coisas, receber aqueles olhares da minha família. Eu sou um monstro.

Sam desabou num choro e se jogou no chão de joelhos em frente a Alex, pondo as mãos nos braços dela e se inclinando, encostando suas testas.

— Alex, você não é um monstro, está me ouvindo? Você não é! — agarrou o rosto dela e manteve suas testas coladas — Olhe para mim, ei, olhe para mim, por favor, me escute, Alex, converse comigo! — falava desesperada ao ver a ruiva com os olhos fechados, batendo a mão que segurava o revólver contra a própria cabeça.

— Me deixa, Sam... Me deixa... Eu não sou boa para ninguém. Você não devia estar aqui... Me deixa ir...

— Não, eu não vou te deixar ir embora, Alexandra! Eu não posso te deixar ir embora! Eu amo você! — desencostou suas testas para encará-la, suas mãos agarradas no rosto molhado e quente de Alex, que abriu os olhos, chocada com a declaração — Ouviu? Eu te amo, caramba, Danvers! Você não pode me deixar. Eu preciso de você... Eu quero você.

Após se declarar assim, do nada, tomada pelo calor da emoção que não a deixou pensar direito, Samantha beijou os lábios de Alex, que deixou o revólver cair ao lado e a beijou de volta, agarrando Sam às pressas, trazendo-a para mais perto, fazendo a enfermeira sentar em seu colo de joelhos.

O beijo era intenso, desesperado, completamente apaixonado, diferente do que ambas estavam acostumadas com suas antigas parceiras.

Elas sentiram o gosto salgado das lágrimas enquanto suas línguas deslizavam. Sam segurou firmemente nos cabelos ruivos com uma das mãos e a outra permaneceu no rosto de Alex, que segurou forte em sua cintura, mas soltou de repente após empurrá-la.

— Não, não, Sam... Não podemos... Eu não posso... Isso é errado... — falou desesperada, tirando a enfermeira de seu colo, se levantando depressa, correndo para o outro lado do quarto, fugindo como se fugisse do diabo.

— Errado? — Sam levantou do chão ofegante e perdida — Alex...

— Eu sou um monstro, eu vou te machucar, eu não posso te machucar — disse de costas para a enfermeira, com vergonha de encará-la.

Samantha correu e a abraçou por trás, deitando a cabeça em seu ombro e apertando os braços ao seu redor.

— Ei... Você não é um monstro... — sussurrou em seu ouvido, causando arrepios na ruiva — Eu conheço você, Alex. Você jamais me machucaria.

— Sam... — suspirou de olhos fechados — Eu estou com medo, nunca me senti assim antes — admitiu — por ninguém.

Sam sorriu com a declaração e roçou o nariz na nuca dela, aspirando o perfume de seus cabelos ruivos. Alex estava dizendo com todas as letras que sentia algo por ela que nunca sentiu nem por Lena. Isso a fez se sentir especial.

— Eu também nunca me senti dessa maneira. Nunca senti nada que me tirasse o chão... que me fizesse flutuar, ao mesmo tempo que me deixasse perdida e com medo de perder a estabilidade...

Alex se soltou dos braços dela para poder virar-se de frente. Seus olhares se cruzaram brilhando em intensidades avassaladoras.

— Sam, você sabe o que eu fiz... E sabe que eu tenho que me entregar à polícia, não sabe? Mesmo que eu sinta isso... Esse sentimento... por você... Eu preciso fazer a coisa certa ou eu vou morrer de um jeito ou de outro...

Sam sorriu em meio às lágrimas e assentiu. Secou suas lágrimas.

— Eu sei que sim, Alex. Eu sei que sim e eu não me importo. Eu vou te esperar, se você me quiser. Vou te esperar, vou te visitar... Porque eu quero você. Eu realmente estou disposta a fazer isso, se você estiver também... — falou de peito aberto, pois já havia pensado nisso. Na verdade, nas últimas semanas, Samantha não pensava em outra coisa senão no que sentia pela ruiva.

— Eu também quero você — confessou, invadindo o espaço pessoal da enfermeira, tocando seu rosto delicadamente com ambas as mãos — Eu quero muito, Sam. Demais... Deus... — suspirou, estremecida só de olhar para aquela linda mulher à sua frente. Sam sentiu um arrepio só de ver aquele olhar — Mas temos que ir devagar... Eu não... Nunca fiz... Nunca fiz sexo com outra pessoa além... Eu tenho medo...

— Tudo bem, não tem problema nenhum, Alex, vamos com calma... Eu só preciso... — abraçou a ruiva com força, com desespero, precisando sentir o corpo dela colado no seu para ficar em paz, pois há poucos minutos correu o risco de perdê-la para sempre — Me abraça bem forte e me promete que vai se livrar daquela arma.

— Eu prometo! — a apertou nos braços e sorriu, tão feliz que nem parecia que estava prestes a se matar.



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