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História Alguém Como Você - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 2


Por mais que os pais tentassem, especialmente Eliza, nem mesmo o vinho e a ajuda de Samantha Arias, que era extremamente simpática, foram capazes de cortar realmente aquela tensão palpável no ar. Dez anos depois, com tantos assuntos para serem abordados, tantas coisas que poderiam conversar sem realmente tocar no passado, as irmãs Danvers mal conseguiam dizer uma palavra para a outra. Como se estivessem paralisadas. E nas poucas vezes que conseguiram, foi uma troca de farpas sem precedentes.

— Kara está lançando seu primeiro livro esse mês pela Catco — Sam disse de repente, querendo falar de algo agradável. Ela amava exaltar as qualidades da esposa. Como estavam sentadas lado a lado à mesa, foi possível para Sam tocar-lhe amorosamente o braço.

A escritora deu um sorriso sem graça.

— Sério? — Lena perguntou realmente surpresa. — Catco virou a maior editora de livros dos Estados Unidos. Isso é... É realmente grande, Kara. Meus parabéns — disse com um pequeno sorriso, feliz com aquela conquista de sua cunhada. — Como conseguiu cair nas garras de Cat Grant? Deve ser um livro incrível.

Olhos verdes e azuis se cruzaram.

— Para ser sincera, eu também não sei. Até agora não acredito. A mulher é uma divindade no mundo literário. Estou realmente feliz por Cat querer me lançar.

— E deveria estar mesmo, ela pode te abrir portas e-

— Que coincidência — Alex interrompeu a conversa de sua esposa com sua irmã — Lena é dona da maior rede de livrarias aqui da cidade — contou com ares estranhos. — Isso significa que seus livros estamparão as vitrines em breve, então.

— Uma coincidência mesmo — Sam murmurou.

— Você é dona de qual rede de livrarias? — a loira quis logo saber para tirar a dúvida que percorreu sua mente.

— Livrarias Cult L. O L acrescentei há alguns anos quando comprei a rede.

Era tão óbvio. Kara devia ter desconfiado. Lena era apaixonada por História e por literatura no geral. E com toda a fortuna dos Luthor, ela podia muito bem comprar uma rede de livrarias.

— Amor, não foi numa livraria dessa rede que Cat disse que será o lançamento do seu livro junto da noite de autógrafos? — Kara olhou para sua esposa com um sorriso surpreso e nervoso, assentiu.

— Sim.

Alex olhou para Lena, que também estava chocada. Era realmente uma grande coincidência.

— Então você é a autora de National City que vai lançar um livro conosco esse mês — a Luthor disse o óbvio, perdida. — Deus, minha memória é péssima. Minha funcionária falou sobre isso comigo esses dias, mas eu sequer tive tempo de checar o nome da autora. É você.

— Sou eu — as duas se olhavam com sorrisos. O clima estava estranho de novo.

— Tudo em família — Eliza brincou de repente, achando que o comentário seria engraçado. — Que seu lançamento seja um sucesso, minha filha — olhou com carinho para Kara, que estava sentada ao seu lado e apertou a mão dela sobre a mesa.

— Obrigada, mamãe.

Quando o jantar terminou, Eliza foi lavar a louça e teve ajuda de suas duas noras. Samantha reparou na beleza de Lena e em como ela parecia tensa com a sua presença, mas tentou fazer de tudo para deixá-la confortável, afinal, elas eram família e Sam não tinha absolutamente nada contra a morena.

— Seu filho é muito bonito — Samantha tentou puxar papo. Estava secando os copos e os entregava para Lena guardá-los no armário. — Ele tem quantos anos?

— Obrigada. Dylan vai completar dez daqui dois meses. Sua filha é uma graça também. Quantos anos ela tem?

O tempo que Kara havia partido de Midvale, Sam sabia.

— Oito recém completos. Mandy deve estar apaixonada pelo primo. Eu sou filha única, então...

— Eu entendo, porque também sou. Dylan fica bem sozinho só com o videogame ou brincando com Alex. Tem dificuldade em socializar na escola. Vai ser ótimo para ele ter uma prima com quem brincar — sorriu para Samantha, notando como ela tinha olhos carinhosos, parecia ser uma pessoa bastante generosa.

— Vai ser ótimo para os dois essa mudança, então. Mandy ficava muito trancada no apartamento em que morávamos, só via outras crianças na escola. Apesar que Kara estava sempre no parque com ela, não é a mesma coisa que viver numa casa de campo, cercada por natureza.

— Foi por isso então que decidiram mudar? — Lena pareceu curiosa. Estava agora de braços cruzados, encostada na ilha da cozinha.

Eliza apenas escutava com atenção aquela conversa. Precisava ficar de olho caso algo saísse do controle, mas aparentemente suas cunhadas eram civilizadas e estavam se dando bem. Ela rezava que o mesmo acontecesse com suas filhas.

— Sim. Nós queríamos viver em um lugar mais tranquilo. Kara e eu temos esse mesmo amor pela natureza, essa vontade de viver no sossego. Fora que pra ela que é escritora, não tem nada mais inspirador que acordar de manhã e estar de frente para um lago, não acha?

— É verdade — a morena suspirou e coçou o próprio braço. Era estranho ouvir a esposa de Kara falando sobre a vida delas. — E você, Samantha, o que faz da vida? Não me lembro de terem mencionado nada durante o jantar.

— Ah, eu sou enfermeira neonatal — contou com alegria, porque amava sua profissão. — Sou responsável por cuidar dos bebezinhos.

— Que incrível — Lena a olhou impressionada.

Samantha além de linda, educada, generosa, compreensiva - porque devia saber do passado de Kara envolvendo Lena e a irmã e mesmo assim aceitou se mudar para Midvale -, também era uma enfermeira. E de bebês!

Sentia alegria por Kara ter encontrado alguém com tantos atributos. Mas se isso era verdade, por que estava tão triste?

 

Na sala, Jeremiah falava empolgadamente sobre o cuidado do gado. Ele começou a trabalhar nas fazendas Luthor após a morte de Lionel.

Como Kara não fazia ideia do que era administrar fazendas ou cuidar de gados, ela ficou calada o tempo inteiro e focou apenas na taça de vinho em suas mãos.

De repente, percebendo que as irmãs precisavam de um minuto a sós, o pai decidiu se mexer.

— Vou lá em cima checar as crianças.

— Está bem — a ruiva respondeu.

Elas estavam sentadas em sofás opostos, de frente uma para a outra.

— Não está bebendo? — Kara perguntou de repente ao ver que havia um copo de suco nas mãos da irmã. — Reparei durante o jantar que não bebeu nenhuma cerveja, coisa que sei que você adora. Ou adorava.

Alex deu um sorriso nervoso, negou com a cabeça. Estava inclinada para frente.

— Estou limpa há quase nove anos — contou.

Os olhos azuis arregalaram com a revelação. Kara se lembrava de como a irmã bebia demasiadamente quando adolescente. Tanto que a preocupava, realmente. Mas não achou que Alex fosse mesmo por aquele caminho a ponto de se tornar uma alcoólatra... Era triste, mas ao menos estava sóbria.

— Parabéns por isso. Eu mesma evito beber demais, não me ajuda em nada, especialmente tomando remédios — murmurou a última parte antes de encerrar o vinho de sua taça.

— Remédios? — Alex a olhou com uma sobrancelha ligeiramente erguida. — Há algo de errado com sua saúde? — pareceu preocupada, o que talvez fosse um bom sinal.

— Oh, não, eu estou bem — sorriu de lado e ajeitou os óculos. — São mais para... A cabeça, sabe? — apontou com o indicador para a sua e riu. — Ansiedade, depressão, esse tipo de coisa.

Alex prendeu a respiração por um momento. Ela pensou que Kara pudesse sofrer de ansiedade, mas nunca de depressão. Não parecia combinar com ela, que sempre foi tão vívida. Mas Alex sabia muito bem que aquela doença traiçoeira escolhia qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar.

— Entendo, mas você está bem?

—Estamos vivendo um ótimo momento — se referiu a sua família. — E acho que essa mudança será muito boa mesmo. Mandy merece ter seus cachorrinhos e viver perto dos avós, da tia e do primo. Midvale é uma cidade gostosa de se viver. Sinto falta daqui — sussurrou o final, sentindo um pequeno nó formar em sua garganta.

— Com tanta beleza natural, inspiração não vai te faltar para escrever suas histórias — Kara sorriu com aquele comentário. Alex estava sendo mais agradável, parecia mais receptiva do que durante o jantar. — E sua esposa?

— Ela é enfermeira, mas já mandou currículo e tem duas entrevistas marcadas. Uma já é segunda-feira — contou orgulhosa no momento em que Sam e Lena surgiram na sala seguidas de Eliza.

— O que minhas filhas tanto conversam? — uma mãe curiosa, meio apreensiva, mas extremamente feliz quis saber.

— Estava falando para a Alex que Sam é uma profissional incrível e que segunda-feira já vai fazer entrevista no Hospital Estadual de Midvale — falou orgulhosa, se levantando e se aproximando da esposa, que a abraçou de lado. Kara deu um beijo em sua bochecha, Lena desviou o olhar. — Com certeza a vaga já é dela.

— Não exagere, querida. É só uma entrevista, ainda não há nada definido.

— Eu confio no seu talento, e eu tenho instinto para essas coisas, você sabe.

O casal riu, elas pareciam entrosadas. Alex e Eliza gostaram do que viram, mas Lena...

— Vou atrás do Dylan, está ficando tarde, vamos para casa? — Lena murmurou para Alex, que prontamente se levantou.

— Meu pai está lá em cima com as crianças, eu vou lá buscá-los, pode ficar aqui.

Merda. Lena só queria uma desculpa para sair da sala e não ter de ver Kara ao redor de Samantha como se ela fosse sua deusa, mas não conseguiu escapar.

— Mas que legal essa coincidência que o livro da Kara será lançado nas suas livrarias — Sam olhou para Lena — Acho que estou mais ansiosa que ela para essa estreia. E orgulhosa demais! — pôs a mão no rosto de Kara e selou seus lábios sem intenção alguma de querer provocar. Foi apenas um gesto natural de carinho.

— E deve estar mesmo. Kara é uma ótima escritora — Lena deixou escapar o comentário sem querer. — Pelo menos até onde eu me lembro. Na época da escola, ela sempre tirava as melhores notas nas redações. Lembro que criava histórias inteiras numa única tarde.

Nesse momento seus olhos verdes brilharam a loira. Samantha então sentiu um incômodo pela primeira vez na noite, porque até mesmo ela pode sentir a emoção na voz e no olhar de Lena, que rapidamente desviou, parando de encarar a esposa de Sam.

— Mamães! — Mandy veio correndo em direção a elas. — O primo Dylan é tão engraçado, e ele ama Star Wars assim como eu — a empolgação da menina fez os adultos sorrirem.

— É mesmo, macaquinha? — Kara a pegou do chão e a encheu de beijos.

Dylan veio agarrado em Alex, tão animado quanto a menina.

— A Mandy disse que ela é a princesa Leia e eu sou o Luke! Quando a Mandy vai lá em casa para brincarmos? — o menino perguntou as suas mães, que se entreolharam surpresas com a pergunta.

A ruiva então olhou para sua irmã.

— Quando ela quiser, querido. Nossa casa estará de portas abertas.

Kara olhou para Alex, ambas sorriram.

**

O caminho de volta para casa foi silencioso, pelo menos da parte das mulheres. Dylan falou de sua prima durante incontáveis minutos. Só se silenciou quando percebeu finalmente o clima estranho de suas mães, então decidiu assistir desenho no celular até chegarem.

A casa delas era mais isolada do centro da cidade, pertencia a um lote de casas que ficava em frente ao lago, o que fez logo ambas pensarem que em poucos dias seriam vizinhas de Kara.

Alex estava alegre com o retorno da irmã. Todas as vezes em que imaginou tal situação acontecendo, pensou que não conseguiria ficar realmente feliz por medo de que sua família fosse ameaçada, mas não. Estava contente em ver Kara bem e por tê-la de volta. Talvez Deus estivesse lhe dando uma chance de se redimir pelo seu erro e conquistar de volta o amor e a confiança de sua irmã, que sempre foi sua melhor amiga e que fazia uma falta indescritível em sua vida.

Lena, entretanto, estava com medo. Ficou aterrorizada quando viu Kara porque sentiu imediatamente todos os seus sentimentos virem à tona, como se tivesse voltado no tempo, exatamente no dia em que ela partiu sem olhar para trás. Foi como se nenhum único dia tivesse passado desde então. O problema era que passou. Dez anos passaram.

Quando chegaram em casa, Alex foi colocar Dylan para dormir porque percebeu que sua esposa não estava no clima para fazê-lo. Lena foi direto para o quarto trocar de roupa e lavar o rosto. Sentia-se estranhamente quente e meio doente do estômago.

 — Você está bem? — ouviu Alex perguntar. Nem havia notado quando ela retornou ao quarto. — Não disse uma palavra desde que saímos da casa dos meus pais.

— Não vou mentir que estou um pouco chocada. De tudo que imaginei que sua mãe pudesse ter planejado para essa noite, essa foi a última coisa. Nos levar para um jantar com Kara sem avisar... Depois de tanto tempo... Não deu chance para nos prepararmos... — falou como se estivesse irritada com a sogra por isso. Caminhou até sua cama, sentou na beirada e começou a passar hidratante nas pernas.

Alex caminhou ao redor do quarto e ficou olhando para sua esposa tentando decifrá-la. Sabia que ela estava mexida, quem não estava? Mas era difícil saber exatamente o porquê.

— Foi Kara quem pediu para minha mãe não dizer nada, você a ouviu. Além disso, eu entendi. Faz sentido. Ela ficou com receio que recusássemos o convite por algum motivo.

— Seria um direito nosso recusar, não? — os olhos verdes buscaram os de Alex quase que irritadiços.

— Por que recusaríamos? Kara é minha irmã, ela nunca nos fez mal. Ficou anos longe por decisão própria, e eu respeitei isso mesmo sentindo falta dela todos os dias. Se ela decidiu voltar para cá e ainda por cima quis nos ver assim que chegou é porque nos quer em sua vida, e francamente, Lena, isso me deixa muito feliz.

Lena suspirou pesadamente, colocou o tubo de creme sobre o móvel ao seu lado da cama e se levantou, se aproximou da esposa devagar, que estava visivelmente chateada.

— Me desculpa se não pareço tão empolgada quanto você. Eu entendo que você deva estar muito feliz por Kara te querer na vida dela novamente, isso é realmente muito bom. Eu também estou feliz com tudo isso, eu só... Ainda estou processando — falou suavemente levando as mãos para o rosto de Alex. — Mas está tudo bem.

— Você promete? — perguntou meio insegura, seus braços se apertaram ao redor de Lena, abraçando-a forte.

— Prometo.

[...]

A culpa era um sentimento tão poderoso, Alex o conhecia bem. Carregava aquela culpa terrível nas costas há dez anos e nove meses – exatamente o tempo que seu filho foi concebido. Carregava a culpa do que havia feito naquela noite de sábado em que simplesmente misturou todas as bebidas alcoólicas possíveis com pílulas que sequer sabia o que eram, e simplesmente decidiu que era o momento mais propício para se declarar à cunhada.

Na época, tudo foi terrivelmente confuso e doloroso, mas Alex já sabia que o que havia feito era culpa sua e de mais ninguém. Não havia nada que justificasse seu ato, ninguém para culpar. Nem mesmo Lena tinha alguma responsabilidade no que aconteceu. E ainda assim a morena a perdoou e protegeu, não contando a ninguém o que de fato havia acontecido naquela noite. Alex não entendeu o porquê disso, tampouco a questionou. Em fato, elas nunca tocaram no assunto ao longo dos anos, exceto uma vez, quando Dylan tinha dois anos de idade.

Anos atrás...

Alex estava literalmente caindo de bêbada. Era impossível ficar de pé depois da quantidade absurda de álcool que ingeriu. Lena não sabia como seu organismo podia suportar tanto. Provavelmente estava prestes a entrar em colapso. O que a jovem Luthor sabia era que ela não aguentava mais aquela situação.

— Você está bêbada. De novo — Lena disse à beira das lágrimas, mas com uma expressão de raiva no rosto. Estava esperando por Alex na sala. Eram mais de meia noite. — Depois de ter dito pela milésima vez que pararia de beber...

— Eu não bebi tanto assim — mentiu enquanto se arrastava. Tirou a carteira e a chave do bolso, jogando sobre a mesinha de centro. — É que James e Eva me chamaram para ir ao bar depois do trabalho e você sabe que não resisto a um convite dos meus amigos.

— Eles não são seus amigos, são bêbados inúteis! — ladrou, se aproximando da esposa, que estava ridiculamente escorada na pilastra para não cair. Os olhos giravam, nem eles conseguiam se fixar em nada. — Alex, olhe para você! Olhe para o seu estado, puta merda! É assim que você quer ser uma boa mãe para o Dylan? Esse é o exemplo que você quer dar ao nosso filho? Quando eu aceitei casar com você eu não sabia que estava aceitando me casar com uma bêbada! — quase gritou.

— Não fale assim comigo! — a ruiva gritou e tentou empurrar sua mulher, mas não tinha condições nem para ficar de pé. Lena desviou dela e Alex caiu sobre o braço do sofá. — Eu sou uma boa mãe, sim! Você não pode dizer isso. Eu sempre fui uma boa mãe, e também uma boa esposa. Eu trabalho, eu faço tudo por ele e por você — começou a chorar. — Porra, eu te amo, Lena.

— Então prove! Pare de beber! Pare de me abandonar praticamente todas as noites para ir beber! — Lena chorava copiosamente. — Por que diabos você faz isso, Alex? Nós temos um filho, nós temos essa casa maravilhosa, meu pai te deu um emprego excelente, nós temos tudo... Achei que você me quisesse, que me amasse mesmo, por isso eu aceitei me casar. Por isso eu escolhi ficar com você!

Mesmo com todo o álcool do mundo deixando seus pensamentos lentos e fazendo Alex agir com impulsividade, ela não era estúpida. Estava entendendo exatamente tudo o que sua esposa falava.

— Eu perdoei você! — berrou. — Eu nunca disse a ninguém o que houve naquela noite, porque eu perdoei você. Porque entendi que aquilo só aconteceu por causa dessa porra de álcool. Eu sei que você não é assim, você não é isso — apontou para ela, que estava caída no sofá lhe encarando com lágrimas nos olhos e uma expressão de dor. — Você é maior que isso, Alex. É uma boa pessoa. Eu sei. Eu sei disso. Então por que está fazendo isso consigo mesma? Por que está fazendo isso comigo? Com a gente?

— Porque eu sinto culpa — murmurou, fechando os olhos enquanto as lágrimas caíam. — Eu sinto culpa... Eu sinto tanta culpa... — repetiu sem parar, reclinando-se para frente, cobrindo a cabeça com as mãos. — Sou uma desgraçada, eu não mereço você, não mereço essa vida. Eu traí minha irmã. Eu machuquei você. Eu não sou boa o bastante.

Lena correu em sua direção, se ajoelhou em frente a Alex e puxou seus braços, forçando-a a lhe encarar mesmo que ela não quisesse, pois estava morrendo de vergonha.

— Olhe para mim — Lena implorou, segurando firme em seus braços. — Ei, ei, olhe para mim, Alex — ergueu as mãos e tocou seu rosto, mas a ruiva insistia em fechar os olhos.

— Eu tenho vergonha. Sou um monstro, Lena. Você não devia ter se casado comigo.

— Alex Danvers, você é tudo, menos um monstro. Eu sei disso porque conheço você. Agora olhe para mim e me escute, por favor — implorou e a outra acabou cedendo. — O que você fez foi horrível, é verdade. E não há como mudar isso. Mas eu entendi que aquilo não era você, que aconteceu por causa de todas aquelas porcarias que estavam no seu organismo e por isso eu te perdoei. Só que se você continuar bebendo, se continuar nesse caminho, como eu posso saber que não fará nada semelhante novamente? As drogas mudam as pessoas, Alex. E eu não quero que você mude. Porque você é incrível do jeito que é, e droga... Eu te amo. Você me fez te amar, então por favor não jogue tudo no lixo por causa de um erro que eu já perdoei.

Dias de hoje.

Depois daquela noite, Alex Danvers colocou na cabeça que daria um rumo em sua vida pelo bem de sua família. Procurou o A.A (Alcoólatras Anônimos) e decidiu parar de beber. No começo foi difícil. Houve ocasiões em que pareceu que não conseguiria ainda que estivesse se esforçando ao máximo. Todos falavam da dificuldade em ficar sóbrio, mas ela não pensou que fosse ser praticamente impossível. Por sorte, ela teve Lena ao seu lado ao longo do caminho.

Ainda que fosse apaixonada por ela desde sempre, não podia negar que Lena foi uma garota bastante mimada pelo pai. Rica, não sabia sequer fritar um ovo até o dia que decidiram realmente casar e se tornarem adultas assim, do nada. E Alex pensou diversas vezes que a morena não fosse dar conta de ser mãe e esposa tão jovem. Eram duas responsabilidades enormes que só ficaram ainda mais pesadas por conta de seu alcoolismo, então o mínimo que Alex tinha de fazer era ficar sóbria, se recompor e ser uma esposa à altura.

Além de Lena, Alex também contou com o apoio de seus pais e do sogro. Mas havia outra pessoa que a ruiva conheceu durante aquele processo que a ajudou bastante, e essa pessoa foi Clark Kent. Ele era pouca coisa mais velho e já estava limpo há dois anos quando se conheceram. Por incrível que pareça, eles tinham algo muito importante em comum além do alcoolismo: eram transexuais e gays.

Clark virou padrinho de Alex, e em pouco tempo seu melhor amigo. A intimidade entre eles cresceu tanto que após algum tempo a ruiva decidiu confessar seu pecado a ele. Fez isso morrendo de medo de sua reação, porque não queria perder a amizade de Kent, um cara tão legal e compreensivo, que estava sempre pronto para ajudá-la em qualquer ocasião.

Ao contrário do que Danvers imaginou, ele não a julgou tampouco se afastou. Claro que ficou chocado com a revelação e pensou até em lhe dar algumas broncas, mas não fazia sentido já que tanto tempo havia se passado desde o ocorrido e Alex estava mais do que ciente do erro terrível que havia cometido, afinal de contas, ela se culpava por ele todos os dias e essa era uma das razões que dificultava não ceder ao alcoolismo.

 

Ligou para Clark, porque estava inquieta e não queria ir para o trabalho ainda. Na verdade, era não precisava trablhar num domingo. De qualquer forma não queria ficar sozinha. Não quando havia um caldeirão de emoções em seu interior. Sabia como era perigoso para um dependente químico ficar sozinho em momentos assim.

O professor de academia acordou com o chamado dela. O marido Bruce resmungou do seu lado da cama, questionando quem estava ligando tão cedo, mas quando Clark disse que era Alex e pulou da cama para ir encontrá-la, seu marido nem ousou questionar. Já estava acostumado com o forte relacionamento dos dois.

— Mande um beijo para ela — resmungou o moreno, que estava nu na cama, deitado de barriga para baixo.

Apesar da pressa e de ter se vestido na velocidade da luz, Kent achou tempo para dar um tapa na bunda do marido e um beijo em seus lábios.

— Até mais, baby.

 

Usando roupas esportivas extremamente coladas que exibiam os grandes e largos músculos, Clark surgiu na cafeteria onde ele e a amiga sempre costumavam se encontrar. Ela estava sentada na última mesa, debruçada, com uma cara preocupada e uma caneca de café diante de si.

— Bom dia, arco íris. Que diabos aconteceu? Caiu da cama? Olha, espero que você tenha um motivo muito bom para me fazer sair da minha tão cedo justo num domingo onde eu poderia ganhar um boquete matinal — falou com bom humor. A garçonete se aproximou e lhe serviu café.

Alex estava tão abalada ainda pela noite anterior, pela novidade do retorno da irmã e principalmente pela culpa que voltou a rondá-la que não conseguiu relaxar nem com as piadas do amigo.

— É a Kara, Clark. Ela voltou para a cidade.

— O quê? — quase gritou. Os olhos azuis do amigo se arregalaram. — Como assim?

— Ela voltou. Está casada, tem até uma filha com idade próxima do Dylan. Lembra do jantar que meus pais estavam preparando que eu estranhei? Pois era isso. Kara voltou e queria me encontrar, mas não sabia se Lena e eu aceitaríamos o convite, então... — deixou que ele deduzisse o resto.

— Oh meu Deus, eu não posso acreditar! Estou perplexo com essa notícia, Alex — pôs a mão na frente da boca num gesto bem gay que a fez dar um ligeiro sorriso. — Ela decidiu voltar assim, do nada?

— Sim. Disse que sentia saudade da cidade e que achou que seria melhor para ela e sua família viverem em Midvale.

— Vocês passaram todos esses anos sem trocarem uma palavra, então ela decide voltar e marca esse jantar. Uau. Me conte tudo. Como foi isso?

— Foi estranho. Não tivemos muito tempo, estávamos cercadas. Haviam as crianças, nossos pais, Lena, a esposa dela... Ficamos pouco tempo sozinhas. Eu mencionei meu alcoolismo e ela pode ter mencionado que sofre com depressão e ansiedade.

O melhor amigo bebeu um gole de café sem tirar os olhos de cima dela. Parecia completamente focado.

— Deus, Alex, que maluquice. Estou perplexo ainda, posso imaginar você — ele estendeu sua grande mão sobre a mesa para que ela pegasse. — Como está se sentindo, querida? Sei que sua irmã é um tema delicado pra você, ainda mais depois de tantos anos de distância, de saudade...

Alex agarrou a mão dele e imediatamente começou a chorar mesmo não querendo. As lágrimas simplesmente caíram e ela depressa limpou com a mão livre.

— Merda — resmungou. — Estou assim, vê? Por isso acordei cedo e sai de casa depressa. Não podia deixar que Lena acordasse e me visse nesse estado. Só pensei em te chamar.

— Fez bem, querida, fez bem. Estou aqui para você. Desabafe.

— Eu não sei, Clark — apertou a mão dele e depois soltou para levar ambas ao rosto. — Fiquei chocada quando vi Kara ali, na sala da nossa casa. Crescemos ali, juntas. Toda nossa vida está debaixo daquele teto. Eu ainda me lembro do dia em que a vi sair pela porta, então agora ela está de volta... Num primeiro momento senti medo, uma estupidez. Como se ela estivesse de volta para se vingar de mim e roubar a família que eu construí, mas isso passou rápido. Eu estou eufórica com a volta dela, ainda mais porque aparentemente ela quer reatar nossa relação, mas...

— Mas está com medo? — ele adivinhou com um sorriso amável.

— Sim. E não é de ela tentar roubar minha família, porque isso é uma estupidez. Meu medo é de Kara descobrir que eu sou ainda pior do que ela pensou. Medo de estragar essa chance de ter minha irmã de volta. Não posso foder tudo de novo, Clark, mas eu também não posso mentir — falou desesperada, o rosto vermelho por causa do choro.

O homem forte a sua frente ajeitou os óculos.

— O que quer dizer com “não posso mentir”? Você pretende contar a verdade sobre aquela noite? — perguntou chocado. — Alex, você e Lena enterraram isso anos atrás, o assunto nunca mais nem foi mencionado por vocês.

— Eu sei, mas talvez esse tenha sido nosso erro. Talvez devêssemos falar sobre isso. Kara nunca soube da verdade.

— Porque Lena preferiu mentir, ela fez isso para te proteger, porque ela sabia que isso poderia destruir a relação de você e Kara para sempre, e não apenas por dez anos — argumentou ele, porque embora fosse a favor da transparência nos relacionamentos, Clark temia que aquela verdade pudesse destruir sua amiga e sua família.

— O que está sugerindo que eu faça, então? Que continue mantendo esse segredo?

— Não é o que tem feito ao longo dos anos?

— Mas era diferente. Lena me perdoou, foi algo entre nós. Ninguém mais precisava saber, exceto Kara, que foi a atingida por tudo isso. Ela merece saber a verdade. Eu devo isso a ela, Clark — falou à beira de mais lágrimas, seu corpo tremendo ridiculamente.

— Querida, me escute — ele se levantou e foi sentar ao lado dela, abraçando Alex de lado. — Kara acabou de voltar, ainda é muito cedo. Espere um pouco. Vamos ver o que acontece. Espere a relação de vocês firmar outra vez. Veja o andamento das coisas e então, no momento certo, você conta a verdade, ok?

Alex não estava segura se aquela se a solução do amigo era a melhor, mas também não confiava em si mesma para tomar alguma decisão, então era preferível não fazer nada até ter coragem de dizer a verdade a irmã.

[...]

O domingo foi um dia de longas reflexões não apenas para Alex. Sua irmã também não a tirou da cabeça ao longo do dia, e embora não quisesse, foi inevitável não pensar em Lena também.

Em apenas duas horas embaixo do mesmo teto, sem trocar mais de duas palavras, Kara reparou em como Lena havia se tornado uma mulher bonita e sofisticada. Os cabelos tão sedosos e as roupas de marca muito bem passadas em nada tinham a ver com as peças descoladas de roqueira que ela costumava usar na adolescência.

Como as coisas mudam, pensou com um sorriso triste. E mesmo quando as coisas mudavam para melhorar, ainda assim era triste. Porque do passado só restava saudade já que não havia como retornar a ele.

Por sorte, Sam ficou o dia todo sendo paparicada por sua sogra, e seu pai levou Mandy para brincar no parque, então Kara teve tempo de ficar sozinha com os próprios pensamentos.

Na segunda-feira bem cedo, Samantha tinha sua entrevista. Mesmo sem precisar, Kara acordou junto com ela e a levou até o hospital. Depois voltou para casa, arrumou Mandy e foi levá-la até o colégio. Tinha que apresentá-la ao diretor e acertar os detalhes de sua transferência.

Quando tudo estava resolvido, Kara saiu com a filha no meio da multidão de crianças que corriam em direção à saída. Já era hora de voltarem para suas casas. Por coincidência ou destino, Mandy e Dylan se esbarraram antes mesmo de Kara perceber Lena Luthor na calçada, completamente nervosa depois de vê-la.

— Prima!

— Oi, primo!

As crianças se abraçaram, tinham um entrosamento como se já se conhecessem há anos, o que era engraçado e doce na opinião de Kara.

Enquanto isso, ela e Lena que eram duas adultas e que de fato já se conheciam há anos pareciam estar meio travadas.

A loira seguiu com as duas crianças em direção a Lena.

— Olá — murmuram ao mesmo tempo quase.

— Veio matricular a Mandy? — a morena perguntou adivinhando, olhando para Kara com bastante cuidado para não transparecer nenhuma emoção indevida.

— Sim, faltava entregar umas papeladas da antiga escola — explicou. — Ela começa amanhã.

— É uma boa escola, acho que ela vai gostar.

— Pelo menos ela terá a companhia do primo nos intervalos — Kara presenteou Lena com um sorriso. O primeiro genuíno. O coração da morena acelerou. — Dylan, hm? — perguntou, e agora seu sorriso já parecia rancoroso.

Lena corou e encolheu os ombros, sentindo-se envergonhada pelo questionamento. Claro que Kara se lembrava daquele nome.

— Eu... Eu sempre gostei do nome e... — olhou para o filho, que estava distraído conversando com a prima há certa distância das duas, mas sem sair de suas vistas, depois voltou a olhar para Kara.

— Ei, você não precisa se justificar para mim — a escritora deixou claro, fazendo um gesto com a mão. Ela só quis provocar Lena, mas não queria aparentar que se importava, embora se importasse. — É seu filho, você tinha o direito de chamá-lo como quisesse.

— Claro — Lena suspirou e deu um sorriso nervoso. — E Samantha?

— Na entrevista, estou esperando-a mandar uma mensagem para ir buscá-la, mas acho que vai demorar um pouco...

— Podemos tomar um café — ofereceu de repente.

Kara a olhou surpresa, as pupilas dilataram por um momento. Lena também se surpreendeu com sua própria ousadia no convite, mas não havia nada demais em tomar um café com sua cunhada, ainda mais na companhia de seus filhos.

— Conhece um lugar perto?

— Na verdade, sim.

**

O tamanho do lugar era surpreendente, fora o acervo de livros e a decoração vintage que fizeram os olhos de Kara brilhar assim que pisou no lugar. Definitivamente Lena tinha bom gosto e estava fazendo um ótimo trabalho como administradora daquelas livrarias.

Dentro do local havia uma cafeteria, o que fazia com que as pessoas se sentissem compelidas a escolherem um livro, sentarem para tomar um café e desfrutarem de uma experiência única e bastante agradável. Era uma ótima jogada de marketing na opinião da escritora.

Enquanto as crianças exploravam o lugar sob o olhar atento de Winn, um dos funcionários da livraria, Lena e Kara foram se sentar na cafeteria para conversar, embora nenhuma das duas soubesse o que dizer. Nenhuma delas imaginou que um dia ficariam frente a frente outra vez, mas ambas desejaram isso ardentemente por muito tempo...

— Será aqui o meu lançamento ou em outra unidade? — a loira questionou depois de uma garçonete servir para ela um capuccino e para Lena um expresso.

— Aqui. Essa é a maior e a melhor loja. Tenho um carinho especial por ela.

— Consigo entender o porquê — Kara deu um meio sorriso. — É maravilhosa.

— Você gostou? — perguntou como se a opinião dela fosse muito importante.

Seus olhares se cruzaram.

— Bastante. Nunca imaginei que um dia você fosse ser dona de livrarias... — falou de repente, sem muito filtro.

— Já eu imaginava que você se tornaria escritora. E uma das boas. Você sempre amou escrever, sempre foi completamente dedicada a isso — Lena falou com os olhos fixos sobre a loira, a encarando tão intensamente que Danvers chegou a prender a respiração por um momento — Mas me fale sobre seu livro, eu ainda não li o arquivo que a Catco enviou. Eu prefiro ler a coisa impressa, em mãos.

A questão do livro era um ponto delicado e interessante. Kara não queria dar spoilers, porque precisava que Lena lesse e sentisse cada linha do livro. Apesar de ser ficção, ele não deixava de ser um pouco autobiográfico.

— Só posso dizer que ele se chama Alguém Como Você e que é um tanto quanto intenso — falou com um sorrisinho cínico, bebericando outro gole de seu capuccino despreocupadamente.

Lena achou sua cunhada misteriosa e sentiu um arrepio com o título da obra. Andrea não havia falado absolutamente nada a respeito, ou ela quem esteve muito avoada nas últimas semanas para não ter visto as informações necessárias antes de aceitar lançar o livro de alguém em suas livrarias.

— Aguardarei ansiosa para ler.

— E minha irmã? — perguntou de repente, mudando todo o clima.

A pergunta foi um pouco surpreendente, pegou Lena de surpresa, que elevou as sobrancelhas.

— Está em alguma das fazendas trabalhando, eu acho. Ela vive lá. Nunca vi alguém gostar tanto de bichos e mato — comentou com um sorrisinho.

— É verdade, Alex sempre gostou — Kara também sorriu e seu olhar se perdeu em algum ponto da mesa, de repente havia voltado no passado. — Mas... — ergueu os olhos em direção à cunhada, estava séria agora. — Ela está bem?

— Como assim?

— Alex me disse que está sóbria. Ela é alcoólatra?

Lena estava prestes a responder quando Dylan correu em sua direção.

— Mamãe, Mandy e eu podemos tomar chocolate quente e comer croissants? —  pediu, fazendo exatamente a mesma feição que Kara fazia para pedir qualquer coisa que queria.

Ver aquilo deixou a escritora perplexa, porque ela não sabia que seu sobrinho era assim tão semelhante a ela.

— Claro, querido. Mas sentem-se para comer, ok?

— Obrigado! — ele agarrou Lena por um momento e a beijou no rosto antes de partir na mesma velocidade em que chegou.

Lena notou o olhar chocado de Kara.

— Ele lembra você em muitos aspectos — comentou. — Desde pequeno.

A loira não fazia ideia do que fazer com tal informação, então preferiu ignorá-la.

— E Alex?

— Ah, sim. Ela é alcoólatra, mas está sóbria há muito tempo mesmo. Graças a Deus nunca teve recaídas.

— Ela bebia bastante quando éramos jovens, mas não achei que chegaria nesse ponto... — lamentou, sentindo uma espécie de aperto no peito.

— Foi uma fase bem difícil, mas aconteceu há muito tempo e passou. Agora ela está bem, respondendo a sua pergunta.

— Que bom. Ela deve ser bem feliz. Quero dizer, trabalhando em fazendas, com um filho... Alex sempre quis ser mãe de um menino — lembrou e Lena se calou diante daquele comentário. — No fim, ela conseguiu tudo o que queria — por mais que não quisesse transparecer o que sentia, por mais que não quisesse sentir nem um pouco de raiva ou remorso, era impossível. Kara era humana demais para isso.

— Você também — Lena rebateu amargamente. — Escritora, lançando o primeiro livro, com uma filha... Casada... — murmurou a palavra. — Vai até comprar uma casa no campo. Tudo que você sonhou um dia.

— Nem tudo.

Silêncio. Lena sentiu o coração errar duas batidas, seu corpo estremeceu. Kara se arrependeu de dizer aquilo, mas já era tarde. Além do mais, era a verdade.

Foram interrompidas pelo celular da loira tocando.

— Oi, amor — Kara atendeu com empolgação, abrindo um sorriso que fez Lena murchar. — Terminou a entrevista? Já podemos ir buscá-la? Ok, estou indo aí com a Mandy — desligou o celular, se levantou e olhou para Lena. — Eu preciso ir.

— Tudo bem...

Luthor permaneceu sentada. Ficou ali parada vendo seu primeiro amor partir novamente. Pelo menos não era para sempre. Kara ia embora atrás de sua esposa, que não era Lena. Que coisa mais estranha, pensou amargamente enquanto terminava seu café. Era estranhíssimo ficar frente a frente com seu primeiro e grande amor após tantos anos e sentir como se elas não fossem mais do que estranhas. Tanta coisa havia mudado, mas ao mesmo tempo o que Lena sentia parecia igual. Talvez fosse apenas saudade momentânea de uma época que não voltaria, mas por poucos instantes sentada naquela mesa, encarando os olhos azuis, a morena sentiu como se voltasse no tempo para seus melhores anos.

Enquanto dirigia até o hospital para buscar sua esposa, Kara pensou nos minutos anteriores em que passou naquela livraria ao lado de sua cunha. Cunhada. Que adjetivo mais absurdo. Nunca pensou que um dia teria que usá-lo. Nunca imaginou aquele cenário nem em seus piores pesadelos infantis. Quando era só uma adolescente idiota e sonhadora, a loira cogitou a possibilidade de eventualmente perder seu grande amor. Aliás, assim como qualquer criança insegura Kara sentia medo de perder Lena, mas não pensou que a perderia para sua própria irmã. Às vezes a vida era uma piada de mau gosto.

Afastou os pensamentos. Eles não ajudavam em nada. Kara não queria alimentá-los. Amava sua família e estava feliz. Havia voltado para fazer as pazes com o passado. Queria retomar sua relação com Alex, construir a reconstruir a confiança perdida, e para fazer isso precisava esquecer que a ruiva foi capaz de trai-la, tirando dela aparentemente a coisa mais importante que Kara tinha: o amor de Lena.

Bem, ao menos era nisso que a loira acreditava...



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