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História Alguéns - Capítulo 34


Escrita por: plutoniana

Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 34 - Alguém vazio


O dia 27 foi um dos mais difíceis para Naruto. Ele nunca quis tanto pegar uma folga do trabalho, mas Sasuke insistiu que era melhor não, já que o emprego era novo e os outros podiam começar a falar que ele estava já amolando. 

Tudo o que ele queria era poder acompanhar Sakura ao consultório médico, já que ela continuava sentindo umas dores no pé da barriga de vez em quando. Mas mesmo que ele pegasse a folga sem problema, ainda assim, ela não iria com ele. 

Sakura bateu o pé e disse que não queria ir com eles. Queria ir com uma das mães.

— É coisa de mulher. — disse Shikamaru no apartamento deles naquela noite, enquanto comiam a comida chinesa que ele tinha trazido. — Elas não gostam de ir no ginecologista com homens como acompanhantes. É esquisito. Quando eu me ofereci pra ir com a Temari, quase tomei um soco.

Naruto franziu o cenho, se tocando só naquele momento que ele nem sabia qual o nome do médico que as mulheres iam quando tinham problemas nos ovários. 

Ginecologista. Certo, ele tinha que começar a aprender sobre o universo feminino daqui pra frente. 

— Mas tipo… ela perdeu o bebê mesmo? — Shikamaru indagou, ainda pensando nesse assunto.

Sasuke fechou a cara, já irritado com a simples presença do amigo de Naruto. Por que ele insistia em fazer amizade com gente hétero que era tão irritante?

— Perdeu, já falei. — Naruto respondeu com um suspiro e depois ficou irritado. — Tudo por causa daquela vaca.

— Mas ela sabe que foi por causa da Ino? — Shikamaru insistiu. — Porque do jeito que vocês falam dela, é quase…

— É claro que foi por causa da Ino. — Sasuke o interrompeu enquanto se segurava pra não quebrar os hashis na mão pelo tamanho da força exercida graças à sua raiva. — Até parece que não foi premeditado. 

— Mas como ela poderia saber que a Sakura tava grávida se nem a própria sabia?

— Ela é doente. Acredite, ela sabia. — Sasuke assegurou com bastante convicção. 

Naruto ficou quieto, só comendo em silêncio. Não sabia o que dizer. Não sabia nem o que deveria estar sentindo, já que seu emocional estava uma verdadeira bagunça nos últimos dias. Ele até tinha se pegado chorando quando voltou pra casa e percebeu que comprou a pasta de dentes errada. 

Comprou a de hortelã. E Sasuke gostava da de menta.

Não era sua culpa, claro. As embalagens eram praticamente a mesma merda, a diferença era que a de hortelã tinha detalhes azuis nas laterais, enquanto a de menta tinha detalhes verdes. E as porras das letrinhas descritivas eram minúsculas. 

Mas é óbvio que ele ficou uma meia hora chorando no banheiro por causa disso, se sentindo péssimo porque sabia que Sasuke ia perceber assim que pegasse a pasta.

— Ela me disse ontem que Ino não parava de ligar. — Sasuke comentou, trazendo Naruto de volta ao momento presente, dos três jogados no sofá da sala de seu apartamento comendo comida chinesa e aguardando que Sakura ligasse pra eles, pra avisar como fora a consulta e que resultados tinham dado nos exames. Naruto e Shikamaru ainda estavam usando até seus uniformes do trabalho. 

— Ela deve ter ficado chateadinha que a Sakura não foi passar o Natal com ela. — Naruto gracejou com uma careta de nojo. — Uma pena, não é senhores?

— E ela atendeu? — Shikamaru perguntou. 

— Claro que não. — Sasuke respondeu o óbvio. — Ainda mais porque os pais dela querem lançar uma medida protetiva pra manter Ino longe dela. Eles já mandaram ela ficar longe desde já.

— Será que ela quer pedir desculpas? — o Nara começou a especular a respeito.

— Psicopatas não pedem desculpa. — Sasuke resmungou antes de enfiar um bolo de macarrão na boca, frustrado e puto. 

Naruto continuava calado enquanto olhava para sua caixa de papel cheia de macarrão ainda, já que ele mal tinha tocado nela. 

#

No fim de semana, Sakura veio vê-los. Os pais vieram deixá-la no apartamento, e assim que ela passou pela porta, encontrou os dois a olhando de forma ansiosa, porém calados porque nenhum deles sabia quais palavras usar para perguntar o que queriam saber. 

— Tá bom. — ela suspirou. — Qual explicação vocês querem? A científica e cheia de detalhes? Ou a resumida e fácil de entender?

— Resumida. — os dois responderam ao mesmo tempo, já que sabiam que não entenderiam nada da científica.

Pelo pouco que tinham olhado na internet sobre o básico de ginecologia, o próprio Sasuke ficou chocado sobre quanta coisa não era ensinada na escola sobre o corpo feminino. E se Sasuke não aprendera nada daquelas coisas na escola, Naruto era que não tinha aprendido mesmo. 

— Bom… — Sakura foi até o sofá e se jogou sentada bem no meio dele. — De forma resumida: estou com uma infecção feia nos meus ovários. 

— Meu Deus, e isso é grave? — Naruto até se segurou na parede, porque sentia que estava quase desfalecendo. — Você vai morrer? — ele estava começando a se desesperar. 

— É claro que não. Não seja idiota. — Sakura não sabia se achava a reação dele engraçada ou alarmante. Ela pegou sua mochila e tirou uma sacola de lá. — Vou tomar esses remédios por umas semanas e vai ficar tudo certo.

Naruto suspirou com tanto alívio que parecia até estar tendo um orgasmo. 

— Isso é ótimo. — disse Sasuke dando uns passos cautelosos para se aproximar dela, que tinha se jogado de novo no sofá. — Mas por que ainda parece chateada?

Naruto ficou sério e atento de novo. 

Sakura olhou pra eles algumas vezes antes de responder. 

— É que não estou ovulando mais como deveria. — ela respondeu com a voz arrastada. 

Naruto observou como o rosto de Sasuke ficou mais sério ainda, então entendeu que isso era uma coisa que o Uchiha entendia sobre o corpo feminino. 

— Espera, o que significa? — Naruto questionou, confuso enquanto olhava de Sakura para Sasuke. 

— Ela não pode engravidar. — Sasuke continuava olhando fixamente para a garota. — É isso, não é?

— Teoricamente, eu ainda posso. — Sakura fez uma careta. — Só que segundo os cálculos que a minha ginecologista fez hoje, minhas chances meio que diminuíram uns… — ela começou a se encolher. — 90%.

— E você ainda acha que isso não é grave? — Naruto se segurou pra não gritar.

Sakura não respondeu. Porque não sabia muito o que dizer. 

E eles também não sabiam o que dizer para consolá-la. Então a única coisa que fizeram foi se aproximar e se jogar no sofá junto com ela. Um de cada lado, Sasuke da esquerda e Naruto da direita. 

Os três ficaram olhando para a televisão desligada que refletia a imagem deles jogados ali em frente. 

— Eu sempre quis ser mãe. — Sakura comentou depois de uns minutos, fazendo os dois virarem os rostos para olhá-la ali no meio. — Tipo, sempre quis ser mãe de uma menina. Vocês já se imaginaram sendo pais?

— Já. — os dois responderam ao mesmo tempo de novo, e olharam um para o outro. 

— De um menino ou uma menina? — ela indagou. 

De novo, eles se olharam. 

— Na verdade, a gente nunca discutiu muito sobre isso. — foi Sasuke quem respondeu. 

Era mentira, claro. Porque seria insensível demais dizer que eles sempre planejaram ter dois filhos. Um casal. Não era hora de falar dessas coisas. 

Sakura continuava jogada ali, olhando seu reflexo na televisão e parecendo bem pensativa. 

— Quer que a gente vá comprar sorvete de baunilha ou algo assim? — Sasuke perguntou. — Eu posso ir lá na lojinha de conveniência. 

— Não, não precisa. Hoje tá bem frio. — ela deu de ombros, sabendo que estava nevando bastante lá fora. Tinha até poucos carros trafegando pelas ruas de Seattle. 

Mais uns minutos de silêncio se passaram, e Naruto daria tudo pra saber o que se passava na cabeça de Sakura naquele momento. Vê-la séria era sempre um grande evento, que na maioria das vezes, o deixava nervoso. 

Ela andava bastante séria nos últimos dias, e pelo visto, essa fase ainda demoraria um tempo pra passar. As coisas demorariam um tempo pra voltarem ao normal. 

— Podem me fazer um favor? — ela quebrou o silêncio e ficou de pé, se virando para os dois. 

— O quê? — Naruto perguntou já de prontidão. 

— Quero ir no meu antigo apartamento. 

— O quê? — Sasuke quase cuspiu. — Não. Sem chances!

— Sasuke, quero falar com a Ino. — ela falou quase choramingando. 

— Você vai ficar longe dela a partir de agora, Sakura. — ele começou a falar alto por causa da raiva. — Eu não quero nem saber de você a menos de cem metros dela. 

— Preciso falar com ela. — Sakura insistiu. — Antes que o meu pai entre com todo o processo. 

— Você está nessa situação por causa dela, Sakura! — o Uchiha estava claramente revoltado. — Não há mais nada a ser discutido entre vocês duas. 

— É claro que há. Temos uma história juntas. Eu não posso só ficar aqui sentada esperando vocês a tirarem da minha vida sem que eu ao menos possa falar com ela uma última vez. 

Naruto só olhava de um para o outro, vendo o quanto Sasuke estava alterado. Naquele momento, o moreno se encontrava bufando de raiva. 

— Você se despediu do seu irmão, não se despediu? — Sakura foi certeira nesse argumento, porque Sasuke ficou surpreso e nitidamente desconcertado. — Você precisava se despedir formalmente dele pra seguir em frente, não é? Eu também preciso. 

Sasuke claramente ficou sem saber o que dizer contra aquilo, porque sabia que era verdade. Ele ficou um minuto olhando de forma arregalada para Sakura até suspirar de irritação. 

— Certo. — falou a contragosto. — Mas você não vai entrar no apartamento e nem ficar sozinha com ela. 

— Tá bom. — ela concordou, parecendo aliviada por ele ter aceitado. Olhou para Naruto, esperando que ele fizesse alguma coisa. Um protesto ou coisa parecida também. 

Mas o loiro só assentiu com a cabeça, ainda meio anestesiado com as últimas coisas passadas, então estava deixando Sasuke assumir todas as rédeas ultimamente. 

#

Vinte minutos mais tarde, o carro deles estava parado em frente ao antigo prédio onde Sakura morava. As ruas estavam ainda bem cobertas de neve, e tinha pouca gente pela calçada. 

Sakura, no banco de trás, estava olhando pela janela e respirando fundo várias vezes enquanto tomava coragem para sair, principalmente porque já estava vendo Ino dali mesmo. 

Os meninos, no banco da frente, faziam o mesmo, se perguntando o motivo de Ino estar saindo e entrando do prédio com um monte de caixas com suas coisas dentro e colocando na caçamba de uma picape claramente alugada. 

— Ela disse que ia se mudar? — indagou Naruto observando a loira lá fora carregando mais uma caixa e jogando-a na parte de trás do dito veículo. 

— Eu não sei. Não atendi nenhuma das ligações. — Sakura respondeu de forma quase automática, ainda criando coragem pra sair. 

Sasuke não dizia nada, porque provavelmente iria xingar e só tornar a situação ainda mais tensa. 

— Tá bom. — Sakura anunciou com uma respiração profunda. — Fiquem aqui dentro. Se eu precisar de vocês, vou fazer um sinal. 

— Que sinal? — quis saber Naruto. 

— Sei lá, qualquer sinal. — Sakura respondeu e seus dedos foram até a maçaneta da porta. 

— Se a gente sentir que o negócio tá esquentando, a gente vai sair. — Sasuke disse de uma forma que deixava claro que isso não estava aberto a discussão. 

— Ok. — Sakura assentiu e finalmente abriu a porta para sair. 

Ino parou e olhou em sua direção ao escutar a porta do carro batendo ao ser fechada. 

— Puta merda, onde é que você tava? — ela indagou enquanto Sakura se aproximava de si a passos lentos e cautelosos. — Eu te liguei milhares de vezes. Por que você não atendeu?

— Eu… Eu tava ocupada. — Sakura já começou a vacilar ali mesmo. — O que você tá fazendo? Está se mudando?

— Você saberia se tivesse atendido as minhas ligações. — Ino respondeu em tom acusatório. — Caralho, Sakura. O meu irmão sofreu um acidente de carro na estrada no Natal. 

— Quê? — Sakura ficou confusa e alarmada. — O quê? Mas… Onde foi isso?

— Na estrada pra Vancouver. A mulher e o filho dele estão no hospital. — Ino respondeu de forma estridente, denunciando todo o seu nervosismo com tudo aquilo.

— Inojin está no hospital? — Sakura estava quase entrando em estado de choque, já que o sobrinho de Ino não tinha nem dois meses de idade ainda. — Mas e o seu irmão? 

— Meu irmão tá morto, Sakura! — Ino berrou se segurando pra não chorar. Já tinha chorado os últimos dois dias inteiros. — E você saberia disso se tivesse atendido qualquer uma das minhas ligações!

— D-Desculpa, eu… — Sakura nem sabia o que dizer. 

Ino limpou o rosto e andou a passos revoltados pra dentro do prédio de novo, deixando Sakura assimilando aquilo tudo parada no mesmo lugar. Um minuto mais tarde, a Yamanaka voltou com mais uma caixa. 

— E os seus pais? Eles já…

— O meu pai tá na UTI também. Teve uma merda de um ataque cardíaco quando os médicos do hospital ligaram pra ele. — Ino respondeu enquanto jogava a porcaria da caixa de qualquer jeito na caçamba. 

— Meu Deus, Ino!

— Pois é! — a loira parecia furiosa naquele momento. — E eu devia estar feliz, já que minha família homofóbica de merda está um verdadeiro caos nesse momento. Mas não. Eu estou aqui arrumando tudo pra ir pra casa tentar resolver toda essa merda! E você nem ao menos me atendeu pra eu te falar isso!

— Desculpa, eu não podia atender. — Sakura murmurou baixinho olhando pro chão. 

— Não podia atender? — Ino perguntou em tom debochado. — Sua família perfeita não te deixou atender o telefone pra não estragar o Natal deles?

— Não, eu… — Sakura nem sabia mais como dizer isso, visto todas as coisas que Ino tinha acabado de lhe dizer. 

— Eu tentei te ligar pra você ao menos vir pegar as suas coisas. — Ino continuava falando rápido, bastante nervosa com tudo. — Não posso mais ficar aqui. Tenho que ir pra Vancouver organizar o funeral do meu irmão já que ninguém mais pode. E provavelmente vou ter que começar a organizar o do meu pai também, já que todo mundo sabe do histórico de problema cardíaco que ele tem. 

— Ino… — Sakura tentou falar mas a outra continuava tagarelando sem prestar atenção. 

— E puta merda! Pelo o que a minha mãe falou, é provável que a minha cunhada e meu sobrinho não sobrevivam também, já que eles estão em estado grave. Olha, eu comprei só uma passagem mas considerando que é fim do ano e que quase ninguém tá viajando por causa da neve, acho que também podemos comprar uma passagem pra você se chegarmos cedo no aeroporto…

— Ino, eu não vou com você! — Sakura falou com a voz elevada, finalmente interrompendo a outra. 

Ino parou de falar e a olhou como se ela tivesse acabado de dizer um completo absurdo. 

— O quê? — ela balbuciou. 

— Não posso ir com você. — Sakura nem sabia como falar aquilo sem parecer uma completa filha da puta. Nunca atuou tão bem na vida inteira, demonstrando uma veemência bem ensaiada de sua convicção. — Não posso ir com você pra Vancouver. 

A loira piscou seus olhos azuis, ainda em choque pelas palavras de Sakura, como se não conseguisse processá-las. 

— Você…

— Ino, você sabia que eu tava grávida, não sabia? — Sakura perguntou com os olhos cheios de lágrimas não derramadas. — Você sabia o que estava fazendo quando me deu aquele chá?

— Do que está falando?

— Não mente pra mim, Ino. — Sakura bateu um dos pés no chão. — Sabia, não sabia?

As duas ficaram um longo minuto se encarando. Ino pareceu engolir duramente enquanto seu rosto se contorcia de novo numa expressão de irritação e nervosismo. 

— Você veio até aqui pra choramingar por causa de uma coisinha do tamanho de uma célula? — ela indagou com a voz lenta antes de berrar: — Meu sobrinho é um bebê de verdade, e ele está agonizando numa UTI nesse exato momento, Sakura!

— Como é que você pôde? — Sakura berrou de volta, furiosa. — Por sua causa, agora eu provavelmente nunca vou poder ser mãe! 

— Não vou ficar aqui escutando você choramingar por seus problemas de branquinha riquinha e mimada, Sakura! — Ino rugiu. — Tenho problemas de verdade pra resolver a 230 quilômetros daqui! E você nem ao menos vai ter a decência de me acompanhar no pior momento da minha vida!

— Eu vim aqui pra me despedir, na verdade. — Sakura confessou baixando o tom de voz. — Não posso mais ver você. Nunca mais. 

Ino a encarou com seriedade. 

— O que isso exatamente deveria significar?

— Significa que não podemos mais ser amigas. — Sakura respondeu de forma trêmula. — Meus pais não querem você perto de mim, nunca mais. Meu pai vai até entrar com uma ordem judicial de medida protetiva. 

Ino riu fracamente, como se fosse engraçado. 

— Então mande ele enviar a intimação para Vancouver. É onde estarei nos próximos dias. — ela debochou. 

— Ino, é sério. — Sakura estava claramente sofrendo. — Não podemos mais nos ver. Dessa vez você foi longe demais. E olha que eu ainda me peguei pensando em formas de te defender nos últimos dias, mas não dá mais. Você conseguiu acabar com a minha vida. 

A loira olhou na direção do carro estacionado ali perto, onde os dois garotos estavam com os olhos fixos nelas, prontos pra saírem caso percebessem algo ficando perigoso para o lado de Sakura ou coisa do tipo.

Ela voltou a olhar para Sakura, vendo o estado trêmulo e nervoso em que a garota estava.

— Você percebe o quão egoísta é? — ela começou a falar baixinho e devagar. — Passei minha vida inteira largando tudo pra ficar do seu lado, em qualquer merda que você se envolvesse. Porra, Sakura! Eu abri mão de uma bolsa integral em Harvard pra vir pra cá ser a sua babá. E agora você está me dizendo que não pode nem ir comigo pra Vancouver pro funeral do meu irmão?

Sakura não respondeu nada, porque não sabia o que dizer. O tom que Ino usava, falando baixinho e devagar daquele jeito, fazia todas aquelas palavras parecerem ainda mais cortantes e destrutivas. Era como se Sakura estivesse sendo esfaqueada por dentro naquele momento, se sentindo um lixo de pessoa. 

— E tudo isso por causa de dois paus que você conheceu há menos de quatro meses atrás. — Ino disse isso com um sorriso cínico no rosto. — Quer saber? Por mim tudo bem. Fique aqui. Entre no carro e brinque de casinha com eles até se cansarem de você. — ela ficou séria. — Porque nós duas sabemos que eles vão. Como eu já falei um monte de vezes: eles estavam juntos há muito mais tempo antes de te conhecerem. E quando as coisas apertarem, eles ainda vão ficar juntos. Já você… é totalmente descartável, e provavelmente é só um fetiche do momento.

— Você não conhece eles, Ino. — Sakura balbuciou baixinho. — Não sabe o que sentem por mim. 

— É, tem razão. Os quatro meses a mais te fizeram conhecer eles muito melhor que eu. — Ino riu com ironia. — Tudo bem. Eles são os verdadeiros amores da sua vida. Eu não vou me meter mais. 

Sakura engoliu em seco de novo, tentando encontrar alguma palavra pra dizer. Mas não tinha. 

— Tá bom, presta atenção em como as coisas vão acontecer a partir de agora. — Ino a encarou de uma forma que deixava bem claro que nada do que dissesse a partir dali estaria aberto a contradições. — Você não vai mais falar comigo. Não vai mais me ligar. Nem ir me visitar na casa minha mãe em Tacoma. Vai me tirar de todas as suas redes sociais. E vai esquecer que eu um dia fiz parte da sua vida, tá legal?

Sakura sentiu as lágrimas em seus olhos começarem a descer por suas bochechas. Ela estava se esforçando totalmente para não soluçar. 

— Já que você finalmente decidiu o que quer pra sua vida… — ela olhou rapidamente na direção do carro de Naruto antes de voltar a encarar a Haruno. — Então é assim que funciona daqui pra frente. Você nunca mais vai voltar correndo pra mim, tá entendendo?

Os lábios de Sakura tremiam de forma quase compulsiva. 

— Não vai voltar correndo com sua amizade. — Ino continuou de forma ferina. — Nem com seus probleminhas. Nem com essa sua compaixão excessiva pelas pessoas. Com a sua tristeza, sua raiva, ou com a porra do seu amor por gente babaca. E eu não vou estar aqui pra resolver a sua vida nem te consolar. Nunca mais. 

Era como ouvir que toda a sua vida ia ficar insólita a partir daquele dia. Que nunca mais teria segurança de nada. 

Seu porto seguro da vida inteira estava indo embora. Literalmente.

— Nunca mais, entendeu? — Ino indagou mais uma vez, só pra ter certeza de que ela tinha entendido. — E se um dia a gente se encontrar de novo por aí, é bom você fingir que nem me conhece. Senão eu juro que vou quebrar a sua cara, não importa se vamos estar num lugar público ou não. 

Sakura deixou um soluço escapar, já que tinha prendido a respiração até aquele momento. 

Ino finalmente se moveu de novo, passando por ela para voltar a carregar suas caixas para a picape. 

— Eu vou deixar as suas coisas lá em cima. — a loira murmurou ao passar por ela. — Venha buscar até o ano novo, que é quando o síndico vai encerrar de vez o nosso contrato. 

Sakura queria ao menos ter a decência de dizer um “tudo bem”, ou até um mero “ok”. 

Mas não conseguia. Não sem desabar ali mesmo. 

Então a única coisa que conseguiu fazer foi acenar com a cabeça e concentrar todas as suas forças para mover as pernas e começar a rastejar de volta pro carro, onde os meninos observavam tudo sem ao menos piscar, confusos e ansiosos para saber tudo o que estava sendo dito ali. 

Sakura abriu a porta do carro, mas antes de entrar, parou e olhou pra trás. 

Ino nem ao menos estava mais olhando na direção dela, como se nem estivesse ali. Só entrava e saía do prédio, carregando suas caixas de forma decidida. 

A cena, em si, causou a Sakura um misto de emoções tão fortes que ela sentiu a própria cabeça pesar e tontear por alguns instantes. 

A pessoa que esteve ao seu lado durante a vida inteira não estava mais ali. 

Pra quem ela iria ligar quando quisesse chorar por causa de uma prova? Ou quando quisesse discutir sobre como sua mãe exagerava com o lance de sua segurança?

Ou apenas quando só queria conversar com alguém de madrugada depois de um dia exausto e cansativo?

Era como um enorme vazio que tinha acabado de formar em toda a sua vida. 

E Ino nem ao menos lhe lançou um último olhar de consideração. 

Estava indo embora. Pra Vancouver. E pra fora de sua vida.

Sakura entrou no carro e se deixou deitar no banco de trás enquanto os dois a olhavam atentos. 

— Tudo bem? — foi Naruto quem indagou depois de uns minutos. 

E Sakura demorou mais uns minutos pra responder. 

— Tudo, eu acho. — ela não estava chorando. Percebeu que não conseguia chorar. Só ficar deitada olhando o teto do carro e refletindo sobre como aquele vazio se tornara tão intenso e parecia ter se instalado definitivamente dentro de si.

Eles continuaram aguardando, esperando que ela falasse mais alguma coisa. Mas não tinha mais nada a ser dito, em sua opinião. 

— Vocês tem alguma coisa pra fazer hoje? 

— Não. — os dois responderam. Era sábado, afinal. Dia de lavar roupa e ficar em casa assistindo filme chato na televisão. 

— Podemos ir pra casa e assistir Gossip Girl? — perguntou por fim. 

— Claro. Claro. — Naruto respondeu prontamente de novo, se ajeitando no banco enquanto já ligava o carro. 

— Ok. 

— Ok. — Sasuke repetiu. 

— Ok. — Sakura murmurou por fim antes de suspirar.


Notas Finais


Vou confessar uma coisa pra vocês: eu particularmente acho amizade abusiva muito mais pesada que namoro abusivo, em alguns aspectos. Pra mim, esse foi um dos capítulos mais complicados que já escrevi na vida, porque é um momento muito delicado na vida de uma pessoa dependente emocionalmente de outra: dizer adeus e ter que lidar com esse "desligamento" de sentimentos. Eu não fiz um momento assim em Principes de Papel por exemplo, onde a Sakura terminou um casamento abusivo de cinco anos, porque percebi que esse tipo de momento é bem complexo e bem delicado, mas espero que vocês tenham gostado, no fim das contas <3

Playlist da fic: https://open.spotify.com/playlist/4AqelcBjoot4iwfdbkFyZE?si=ac5b0dcef68c4cbf

Instagram: writer.plutoniana

Cronograma de atualizações: https://docs.google.com/spreadsheets/d/1t5DKJYcCh_KA6E9p385Eqy_cw1MLKYhjYMR1-lrFvi0/edit#gid=0


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