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História All the Bright Places (Noart) - Capítulo 5


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Notas do Autor


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Capítulo 5 - 5- 153 dias para a formatura


Sina Deinert

Sábado à noite. Casa de Sabina Hidalgo.

Vou andando até lá porque são só três quadras. Sabina diz que seremos só nós duas, além de Any Gabrielly e Sofya Plotnikova, já que ela não está falando com Shivani. De novo. Sabina era uma das minhas melhores amigas, mas desde abril a gente se afastou. Como eu saí da equipe de torcida, não temos mais muita coisa em comum. Me pergunto se algum dia tivemos.

Cometi a burrice de contar sobre a festa do pijama pros meus pais, e é por isso que estou indo.

— Sabina está se esforçando. E você também devia se esforçar, Sina. Não pode usar a morte da sua irmã pra sempre como desculpa. Tem que voltar a viver.
Não estou pronta não funciona mais com meus pais.

Quando cruzo o quintal dos Wyatt e viro a esquina, escuto a festa. A casa de Sabina está iluminada como se fosse Natal. Tem gente pendurada nas janelas. E no gramado. O pai dela é dono de uma rede de lojas de bebida, por isso Sabina é tão popular. Além do fato de ela ficar com todo mundo.

Espero na rua, mochila no ombro, travesseiro embaixo do braço. Me sinto no sexto ano. Uma boba. Joalin riria da minha cara e me arrastaria pela calçada. Já estaria lá dentro. Fico com raiva dela só de imaginar.

Me obrigo a entrar. Lamar Morris me dá alguma coisa em um copo de plástico vermelho.

— A cerveja está no porão — grita.

Bailey tomou conta da cozinha com alguns jogadores de beisebol e futebol americano.

— Pegou? — Bailey pergunta a Troy Satterfield.

— Não, cara.

— Nem um beijo?

— Não.

— Pegou na bunda?

— Peguei, mas meio de raspão.

Eles dão risada, Troy também. Todos estão falando muito alto.

Vou até o porão. Sabina e Shivani Paliwal, melhores amigas de novo, estão jogadas em um sofá. Não vejo Any nem Sofya em lugar nenhum, mas quinze ou vinte garotos estão espalhados pelo chão fazendo jogos de beber. As garotas estão dançando em volta deles, incluindo as três Brianas e Heyoon Jeong, amiga de Noah Urrea. Casais estão se pegando.

Sabina acena a cerveja pra mim.

— Meu Deus! A gente precisa dar um jeito no seu cabelo. — Ela está falando da franja que cortei. — E por que você ainda está usando esses óculos? Eu entendo que quer lembrar da sua irmã, mas ela não tinha, tipo, uma blusa fofa pra você pegar?

Apoio o copo numa mesa. Ainda estou carregando o travesseiro.

— Estou com um pouco de dor de estômago. Acho que vou pra casa.

Shivani me encara com aquele olhão castanho.

— É verdade que você tirou Noah Urrea do parapeito?

— Sim. — Por favor, Deus, só queria que aquele dia desaparecesse.

Sabina olha pra Shivani.

— Eu disse que era verdade. — Ela olha pra mim e revira os olhos. — Ele faz essas coisas mesmo. Conheço Noah desde o jardim de infância, e de lá pra cá ele só ficou mais esquisito.

Shivani toma um gole.

— Eu o conheço melhor ainda — ela diz, num tom malicioso. Sabina dá um tapa em seu braço e Shivani bate de volta. Quando terminam a brincadeirinha, Shivani me diz: — A gente ficou no segundo ano. Noah pode ser esquisito, mas tenho que admitir uma coisa: ele sabe o que está fazendo. — A voz dela fica ainda mais maliciosa. — Ao contrário da maioria dos caras entediantes que estão por aí.

Alguns dos caras entediantes gritam do chão:

— Por que não vem experimentar, cachorra?

Sabina dá outro tapa em Shivani. E elas continuam com a brincadeira.

Troco a mochila de ombro.

— Ainda bem que eu estava lá.

Pra ser mais exata, ainda bem que ele estava lá antes que eu caísse do parapeito e me matasse na frente de todo mundo. Não consigo imaginar o que seria dos meus pais, forçados a lidar com a morte da única filha que restava. E nem pareceria acidental. Esse é um dos motivos para eu ter vindo hoje sem questionar. Sinto vergonha de quase tê-los feito passar por isso.

— Lá onde? — Bailey vem tropeçando com um balde de cervejas. Coloca no chão, derrubando gelo por toda parte.

Shivani o encara com o olhar afiado.

— Na torre do sino.

Bailey olha pros peitos dela. Depois se obriga a olhar pra mim.

— Por que você estava lá, afinal?

— Eu estava indo pro setor de humanas quando vi ele passar pela porta no final do corredor. A porta que vai pra torre.

— Humanas? Mas não é só no segundo período? — pergunta Sabina.

— Sim. Mas eu precisava falar com o sr. Feldman.

— Aquela porta fica trancada e bloqueada. É mais difícil de alguém abrir do que a sua calça, pelo que eu saiba. — Bailey cai na risada.

— Ele deve ter arrombado.

Ou talvez tenha sido eu. Uma das vantagens de parecer inocente é que a gente pode fazer qualquer coisa. As pessoas nunca desconfiam.

Bailey abre a cerveja e toma de uma vez.

— Que idiota. Você devia ter deixado ele pular. O imbecil quase arrancou minha cabeça ano passado. — Ele está falando do incidente com a lousa.

— Você acha que ele gosta de você? — Sabina me olha com cara de repulsa.

— Claro que não.

— Espero que não. Se eu fosse você, teria cuidado com ele.

Dez meses atrás, eu estaria sentada ao lado delas, bebendo cerveja, me enturmando e fazendo comentários espirituosos na minha cabeça: Ela pensa bem ao soltar essas palavras, como uma advogada tentando convencer o júri. “Protesto, srta. Hidalgo.” “Me desculpe. Por favor, desconsidere.” Mas é tarde demais, porque o júri ouviu as palavras e não tira elas da cabeça — se ele gosta dela, ela também deve gostar dele…

Mas agora estou aqui, me sentindo indiferente e deslocada e me perguntando como um dia fui amiga da Sabina pra começo de conversa. O ar está pesado. A música, alta demais. Sinto cheiro de cerveja por toda a parte. Estou enjoada. Então vejo Diarra Sylla, repórter do jornal do colégio, vindo até mim.

— Tenho que ir, Sabina. Falo com você amanhã.

Antes que alguém diga alguma coisa, subo a escada e vou embora daquela casa.

A última festa a que fui aconteceu no dia 4 de abril, véspera da morte de Joalin. A música e as luzes e os gritos me fazem lembrar de tudo. A tempo, afasto o cabelo do rosto, me abaixo e vomito no meio-fio. Amanhã eles vão achar que foi algum bêbado.

Procuro o celular e mando uma mensagem para Sabina.

Desculpa. Não estou me sentindo bem.
Bj, S

Viro pra ir pra casa e dou de cara com Krystian Wang. Ele está suado e despenteado. Os olhos grandes e bonitos estão vermelhos. Como todos os caras gatos, sempre abre um sorriso provocante. Quando sorri com os dois cantos da boca, aparecem covinhas. Ele é perfeito e conheço seu rosto de cor.

Não sou perfeita. Tenho segredos. Sou uma bagunça. Não só meu quarto, mas eu mesma. Ninguém gosta de bagunça. As pessoas gostam da Sina que sorri. Me pergunto o que Krystian faria se soubesse que foi Noah que me salvou, não o contrário. Me pergunto o que qualquer um deles faria.

Krystian me ergue e me gira, com travesseiro, mochila e tudo. Tenta me beijar e eu viro a cabeça.

A primeira vez que ele me beijou foi na neve. Neve em abril. Bem-vindo ao Meio-Oeste. Joalin estava de branco, eu estava de preto, uma coisa meio Sexta-feira muito louca que a gente fazia de vez em quando, irmã boa e irmã má com papéis invertidos. O irmão mais velho de Krystian, Daniel, estava dando uma festa. Joalin subiu com Daniel e eu fiquei dançando. Sabina, Shivani, Sofya, Any e eu. Krystian estava na janela. Foi ele que avisou:

— Está nevando!

Dancei até lá, passando pela multidão, e ele olhou pra mim.

— Vamos.

Simples assim.

Pegou minha mão e corremos pra fora. Os flocos eram pesados como a chuva, grandes, brancos e brilhantes. Tentamos pegar alguns com a língua, e a língua dele encontrou minha boca. Fechei os olhos enquanto os flocos pousavam em minhas bochechas.

Lá dentro, barulho de gritaria e coisas quebrando. Sons de uma festa. As mãos de Krystian embaixo da minha camiseta. Lembro que estavam quentes, e no meio do beijo eu estava pensando: Estou beijando Krystian Wang. Coisas assim não aconteciam comigo antes de a gente se mudar para Indiana. Coloquei as mãos embaixo do moletom dele também e senti a pele quente e macia. Era exatamente como eu imaginava.

Mais gritos, mais coisas quebrando. Krystian se afastou e eu olhei pra ele, pra mancha de batom em sua boca. Eu só conseguia pensar: É o meu batom nos lábios de Krystian Wang. Aimeu-Deus.

Queria ter uma foto minha daquele instante exato pra lembrar como eu era. Aquele foi o último momento bom antes de tudo ficar ruim e mudar pra sempre.

Agora Krystian me abraça e me levanta do chão.

— Você está indo pro lado errado, S. — Começa a me levar em direção à casa de Sabina.

— Já passei lá. Tenho que ir pra casa. Estou enjoada. Me põe no chão. — Dou soquinhos nele e ele me põe no chão, porque Krystian é um bom garoto, que faz o que mandam.

— O que aconteceu?

— Estou enjoada. Acabei de vomitar. Tenho que ir. — Dou tapinhas no braço dele como se fosse um cachorro. Viro e corro pelo gramado, desço a rua, dobro a esquina e vou pra casa. Escuto Krystian gritar meu nome, mas não olho pra trás.

— Você voltou cedo. — Minha mãe está no sofá com o nariz enfiado num livro. Meu pai está jogado do outro lado, olhos fechados, fones de ouvido.

— Nem tanto. — Paro no início da escada. — Só pra você saber, foi uma má ideia. Eu sabia que era uma má ideia e fui mesmo assim pra você ver como estou tentando. Mas não era uma festa do pijama. Era uma festa mesmo. Do tipo “vamos ficar bêbados e fazer uma orgia” — digo tudo isso como se a culpa fosse deles.

Minha mãe cutuca meu pai, que tira os fones. Eles sentam.

— Você quer conversar? Sei que deve ter sido difícil, um susto. Por que não fica um pouco aqui com a gente?

Como Krystian, meus pais são perfeitos. Fortes, corajosos e carinhosos e, embora eu saiba que eles choram, ficam com raiva e talvez até atirem coisas quando estão sozinhos, raramente presencio cenas assim. Pelo contrário: eles me encorajam a sair de casa e entrar no carro e voltar pra estrada. Eles ouvem e perguntam e se preocupam, e estão do meu lado. Aliás, estão do meu lado até demais agora. Precisam saber onde vou, o que faço, quem vou encontrar e a que horas pretendo voltar. Mande mensagem quando estiver indo, mande mensagem quando estiver voltando.

Cogito sentar um pouco com eles, só pra concordar com alguma coisa, depois de tudo que passaram, depois do que quase fiz passarem ontem. Mas não sento. — Estou cansada. Acho que vou deitar.

Dez e meia da noite. Meu quarto. Estou com a pantufa do Freud, uma felpuda com a cara dele estampada, e meu pijama tem uns macacos roxos desenhados. É o que visto quando quero ficar feliz. Risco o dia com um “X” preto no calendário que fica na porta do guarda-roupa e me acomodo na cama, encostada nos travesseiros, livros espalhados pelo edredom. Desde que parei de escrever, leio mais do que nunca. Palavras de outras pessoas, não as minhas — minhas palavras se foram. Neste momento, estou curtindo muito as irmãs Brontë.

Amo meu quarto. O mundo é melhor aqui do que lá fora, porque aqui sou o que eu quiser. Sou uma autora brilhante. Posso escrever cinquenta páginas por dia e nunca fico sem palavras.

Sou uma futura aluna de escrita criativa na NYU. Sou a criadora de uma revista on-line popular — não a que fiz com a Joalin, uma revista nova. Sou destemida. Sou livre. Estou segura.

Não consigo decidir de qual das irmãs Brontë gosto mais. De Charlotte não, porque ela parece minha professora do sexto ano. Emily é feroz e despreocupada, e Anne é a ignorada. Torço por Anne. Leio e depois fico deitada em cima do edredom olhando pro teto. Desde abril tenho a sensação de que estou à espera de alguma coisa. Mas não faço ideia do quê.

Depois de um tempo, levanto. Há pouco mais de duas horas, às 19h58, Noah Urrea postou um vídeo no Facebook. Ele tocando guitarra, sentado onde imagino que seja seu quarto. A voz é boa, mas rouca, como se tivesse fumado muito. Está inclinado na guitarra, o cabelo preto caindo nos olhos. A imagem está embaçada, como se tivesse filmado com o celular. A letra da música é sobre um cara que pula do telhado da escola.

No fim da música, ele fala pra câmera:

— Sina Deinert, se você vir isso, ainda deve estar viva. Por favor, confirme.

Fecho o vídeo como se ele pudesse me enxergar. Quero que o dia de ontem, Noah Urrea e a torre do sino sumam. Pra mim, aquilo tudo foi um pesadelo. O pior deles. O PIOR que já tive.

Escrevo uma mensagem privada: Por favor, apague o vídeo ou edite o que falou no fim pra ninguém mais ler/ ouvir.

Ele responde imediatamente: Parabéns! Imagino, pela mensagem, que está viva! Agora que sei disso, acho que devemos conversar sobre o que aconteceu, já que você é minha dupla no projeto. (E ninguém além de nós vai ver o vídeo.)

Eu: Estou bem. Quero muito parar de falar disso e esquecer que aconteceu. (Como você sabe?)

Noah: (Porque só entrei no Facebook pra falar com você. Além do mais, agora que você já viu, o vídeo se autodestruirá em cinco segundos. Cinco, quatro, três, dois…)
Noah: Por favor, atualize a página.

O vídeo some.

Noah: Se você não quiser conversar pelo Facebook, posso ir aí.

Eu: Agora?

Noah: Bom, teoricamente, em cinco ou dez minutos. Tenho que me vestir primeiro, a não ser que você prefira que eu vá pelado, além do tempo que vou gastar no caminho.

Eu: Está tarde.

Noah: Isso é relativo. Olha só, eu não acho que está tarde. Eu acho que está cedo. É o início das nossas vidas. O início da noite. O início do ano. Se você parar pra pensar, vai ver que está mais cedo que tarde. A gente só vai conversar. Nada mais que isso. Não estou dando em cima de você.

Noah: A não ser que você queira. Que eu dê em cima de você.

Eu: Não.

Noah: “Não”, você não quer que eu vá, ou “não”, você não quer que eu dê em cima de você?

Eu: Os dois. Todas as anteriores.

Noah: Tá bom. A gente pode conversar na escola. Talvez na aula de geografia, ou posso procurar você no almoço. Você em geral está com Sabina e Bailey, né?

Ai, meu Deus. Faz isso parar. Faz ele desistir.

Eu: Se você vier aqui hoje, promete parar com isso de uma vez por todas?

Noah: Palavra de escoteiro.

Eu: Só pra conversar. Nada além disso. E tem que ser rápido.

Assim que escrevo, me arrependo. Sabina e a festa estão ali, a poucas quadras. Qualquer um pode passar por aqui e ver Noah.

Eu: Você ainda está aí?

Ele não responde.

Eu: Noah


Notas Finais


Gente não me matem por ter colocado a Shiv naquela personagem kkkkkk

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