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História Alliance (Fillie) - Capítulo 14


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Notas do Autor


Pessoal, eu estou viva e com capítulo novo 💖 Espero que gostem!!1!!!

NOTAS FINAIS
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Capítulo 14 - Efeito Dominó


Fanfic / Fanfiction Alliance (Fillie) - Capítulo 14 - Efeito Dominó

 Millie estava respirando fundo.

Do lado de dentro da capela, não havia mais ninguém, além da garota de joelhos e sua fé. Faziam-se algumas horas que a batalha teve seu fim, mas com ela vieram as sequelas; a devastação pelas mortes, as vidas quase perdidas e o medo circundando pelos corredores, mesmo que os sorrisos desenhassem seus rostos por conta da vitória. A rainha não queria falar com ninguém, a menos que fosse sobre o estado de Finn. As orações sussurradas escapavam por seus lábios em memória à sua mãe, assassinada anos atrás, e as outras foram para o jovem rei, caso ele viesse a padecer por seu ferimento.

Morrer era fácil demais na terra das majestades.

As portas da pequena igreja foram abertas e ainda observando a imagem sagrada, ela ouviu a voz de uma moça em suas costas.

— Majestade, o rei fora abençoado.

Em silêncio, ela fez o sinal da cruz com a ponta dos dedos e levantou-se, agradecendo por não interromperem seu destino. Millie resolveu subir as escadarias reais para retornar ao seu seguro quarto, ignorando a movimentação que estava acontecendo no andar de baixo, na sala dos tronos e na galeria. Chegando no corredor do segundo andar, um pensamento a fez paralisar de imediato.

A porta de seus aposentos e as do de Finn ficavam lado a lado, separadas apenas por uma distância considerável. Para Millie, comandar um país agora parecia a menor das complicações, comparado ao que estava diante de seus olhos a atordoando por noites.

Millie estava em uma batalha interna contra seus interesses e sua conduta. Não queria ceder às investidas maliciosas de Finn, porque ele não significava nada para ela, além de que seu senso de dever e de cumprir a palavra eram suas maiores qualidades. Nunca desapontou a si mesma quanto a sua seriedade e tinha deixado bem claro para Sadie que não iria colocar os pés naquele campo minado que era o quarto dele, nem mesmo sobre ameaça.

Com esse pensamento, Millie abriu a porta, e não era a sua.

Finn estava encostado em sua mesa, observando o fogo que estalava na lareira, parecendo concentrado e preso naquele clarão, quando ouviu os ruídos da madeira. A garota de cabelos caramelo estava com os fios soltos caindo por seus ombros delicados como cascatas, devido ao tamanho. Ela realmente parecia ter sido desenhada por querubins, principalmente quando juntou suas mãos em frente ao corpo, fazendo desse gesto seu costume elegante. 

Wolfhard a fitou de cima a baixo e arqueou uma sobrancelha, com um ar presunçoso.

— Tem certeza que você me odeia?

Ela notou que ele tinha um pequeno corte na bochecha. Não tão profundo para uma cicatriz, mas raso o suficiente para causar um relato.

— Por que pergunta-me isso?

— Porque você aparece muito em meu quarto.

— E se você disser mais alguma coisa sobre isso, saio dele... — respondeu a menina com seu ar esperto, fazendo com que ele soltasse um riso pelo nariz. Millie chegou mais perto com seus passos e encostou-se na mesa ao seu lado, com o ombro desnudo levemente roçando no braço de Finn, que parecia arrebatado por sua presença. Aquela troca de ironias parecia ser o primeiro sinal de que ambos estavam muito bem na companhia um do outro, confortáveis com suas picuinhas. Ela mordeu o canto do lábio e desceu lentamente o olhar para o colo do rapaz. — Como está o seu corte?

Ele subiu um pouco a camisa, para mostrar seu abdômen enfaixado. Millie analisou a ferida coberta com preocupação e em seguida permaneceu pensativa.

Finn observou seu rosto com curiosidade.

— Para sua tristeza, acho que sobrevivo. 

Millie ergueu as sobrancelhas.

— Não pensei que matar você seria tão complicado... — ela respondeu como se não quisesse nada. — Nem mesmo os protestantes deram conta do recado.

— Contraditório, se eu a lembrar que você estava na capela orando por mim... — Finn a desmentiu tranquilamente. — Agora não sei se era por minha vida ou por meu extermínio.

— Pelo visto, você está bem recuperado. — ela comentou soltando um riso astucioso e negando com a cabeça, não muito surpresa com sua alfinetada. Finn estava novamente com uma expressão sacana no rosto, estudando os detalhes da garota de perto enquanto ela erguia-se com orgulho. — Estava orando por sua vida, porque apesar de você ser um caos, esse castelo seria monótono sem sua presença.

— Você diz isso porque gosta de mim.

Ela cerrou os olhos.

— Isso é um pouco demais.

Ele deu um sorriso fraco, que logo foi desaparecendo de seu semblante aos poucos. Os dois encarando a lareira por um momento.

— Não se zangue comigo, Millie. Sei que esteve na capela orando por nós. Você se importa com meu povo, que agora... é seu também. — murmurou o rapaz, com toda sua honestidade. Eles ficaram assim por segundos e a seriedade declinou no ambiente, com sua declaração seguinte. — Homens bons foram tirados de suas famílias hoje, por conta de pessoas sem humanidade. Tenho certeza que não vai ser nesse século, mas algum dia espero que ninguém precise resolver problemas semeando guerras. Eu cresci vendo pessoas com quem eu brincava morrendo em minha frente, em batalhas, de formas brutais, injustas, ardilosas e não me acostumei com essa violência. Acho que nunca vou.

Millie lembrou-se de sua mãe e soltou um suspiro. 

— E que tipo de homem você seria se houvesse se acostumado?

Era uma pergunta sem resposta. Finn não disse nada sobre isso, porque não havia o que dizer e apenas ponderar sobre. E no entanto, um momento de sinceridade surgia entre eles tão de repente que as palavras que o jovem rei desejava proferir escorregavam de seus lábios tão facilmente quanto ele as segurava.

Wolfhard a encarou por uns segundos.

— Quero você no conselho, ao meu lado.

Após um momento, Millie pensou não ter ouvido bem.

— O que?

— Quero você no conselho, comigo... — ele refez sua frase. Sua voz rouca havia deixado Millie completamente desarmada, mas não ameaçada por sua proposta. Ele investigou sua reação esperando encontrar uma resposta e relembrou de uma cena em seu quarto tempos atrás, em que Millie o rebateu dizendo que ele não à ordenava. O pensamento o fez sorrir com sagacidade. — E antes de qualquer coisa, isso não é uma ordem, você pode negar quando... 

— Eu aceito.

— Mesmo?

— Mesmo.

Finn provocou.

— Acha que pode discutir com Charles de Lorraine novamente?

— Você sabe que eu posso discutir com qualquer pessoa, Finn.

— E acredito, porque o alvo sempre sou eu.

— Você fala como se sua alma fosse mais pura do que a de uma criança. Tenho uma notícia para você e aqui vai; não é. — decretou Millie, jogando os cabelos para trás dos ombros com graciosidade. Finn estava com um sorriso divertido no rosto, quando ela beliscou um dos morangos que estavam na mesa. — E por falar em Charles de Lorraine, como ele está?

Finn deu de ombros.

— Com algumas sequelas pós-guerra. A cada segundo reclama que queria ter ido antes para o Vaticano, como havia planejado antes da batalha e admito, eu também queria assim... — Millie estava distraída com a fisionomia concentrada de Finn em direção ao braseiro, quando de repente, ele virou o rosto, fazendo seus olhares se encontrarem. Wolfhard franziu a testa continuando o que dizia, sem notar nada. — Ele apenas defende a França, porque seu patriotismo está muito acima da aversão que ele tem da minha família. 

Ela se recompôs deixando o morango de lado.

— Se ele tem aversão aos Wolfhard, algo de correto vocês estavam fazendo. — Millie murmurou. Seus dedos brincando na borda da mesa de Finn quando ela inclinou-se com elegância para sentar-se acima do móvel, com os braços apoiados atrás do corpo franzino. — Você não acha? 

Finn pareceu avaliar a pergunta com curiosidade. 

— É por isso que os governantes da Europa odeiam você?

Ela fingiu pensar.

— Acho que eles sobrevivem sem que eu os conquiste ou os agrade. 

Finn permaneceu em silêncio quando virou-se de frente para a garota e a luz alaranjada da lareira refletiu contra sua pele pálida. Ele passeou com seu olhar astuto por cada centímetro da sutileza de Millie, em cima de sua mesa. Clavículas expostas, as curvas de seus seios médios marcando no vestido, seu perfume inebriante, as pernas desnudas cruzadas, lábios levemente curvados em um sorriso perspicaz, como se aquela fosse a maneira dela de pagar na mesma moeda pelo prazer secreto que havia entre eles.

O cacheado ainda estava a analisando, com as mãos enfiadas nos bolsos da frente, quando disse:

— Mas você me agrada, Millie. 

— No que?

— Em tudo.

Millie respirou fundo fitando um canto qualquer, a austeridade, silêncio abundantes e ambos não sabendo aonde aquilo os levaria e nem de fato aonde começou. Ser uma pessoa consistente em suas decisões; a jovem rainha era uma praticante ferrenha dessa arte e pensando nisso, tentou ser firme quando o encarou de volta e proferiu:

— Finn, eu não posso amar você. 

— E eu não acho que é verdade.

— Sinto muito, eu só... não posso.

O cacheado continuou quieto com as mãos nos bolsos, os olhos escuros entristecidos e derrotados de paixão, enquanto refletia sobre aquela frase. Finn sentia em seu coração partido, intrusiva e devotadamente que algo estava errado.

— Por que?

Eles se entreolharam.

— Porque eu tenho medo de já estar te amando e porque tenho medo de o perder para qualquer coisa; uma guerra, um veneno, uma emboscada, porque no meu coração você está chegando em um nível muito arriscado de importância e isso é demais para mim. Eu não vou suportar sentir essa dor, não de novo.

Finn sabia que ela referia-se à perda de sua mãe. Ele fitou o chão limpo sob seus pés sem saber o que dizer, tentando acostumar-se com o fato de que Millie havia acabado de confessar, com um nó na garganta, que seus mundos estavam atravessando um ao outro, que ela sentia algo por ele, que talvez ela o desejasse, que talvez ela o amasse e tinha medo por isso. E isso era o que mais machucava. Millie não sabia por que aquela coisa que a causava tanto pânico as vezes parecia esperança de ser feliz ao lado de Finn e como a esperança em momentos mais sombrios, trazia tanta sensação boa, uma sensação real, que trazia consigo uma armadilha; a de perde-lo.

O silêncio tomava conta do quarto e a voz de Finn estava rouca e baixa, quando ele proferiu:

— Eu nunca soube o que era gostar de alguém, até o momento em que você discutiu comigo pela primeira vez na festa de boas vindas. Você não irá me perder, porque esse sou eu dizendo que não. Apenas nos dê a chance de sermos um só.

Millie sussurrou. 

— Eu quero. E quero continuar amando você, mas sem medo. 

Finn encurtou distância entre eles e levantou o rosto de Millie com as mãos, em que os dedos longos eram repletos de anéis. Com o polegar, ele afastou uma lágrima que deslizou pela maçã da bochecha da jovem e sorriu de canto. Ele a encarou como naquela noite da consumação, desta vez com mais intensidade, porque os dois sabiam que não havia mais volta.

— Eu a ensino.

Finn não queria que a jovem rainha escapasse daquela vez e ele sabia que naquela noite, ela não ousaria sair por aquela porta sem antes esclarecer suas verdadeiras vontades. E Millie não podia aguentar ser cruel consigo mesma, não mais, e pelo mesmo motivo; seu medo que se sobressaia sempre à sua ambição por aquele homem. Seu cheiro irresistível, seu maxilar contraído em cada gesto aborrecido de exigência, o calor do seu corpo próximo, sua presença tão marcante e viva em sua frente. 

Seus lábios tocaram nos de Millie sensualmente, em um selinho longo, que resultou em um suspiro repleto de saudades e consentimento. 

O consentimento em que dizia; não vou a lugar algum. Me toque por lugares em que você deseja sentir o gosto, da mesma forma que você faz a releitura do que escreve. Segure-me com seus braços e fraquejarei em me manter em silêncio nos próximos minutos. Percorra seus dedos longos e repletos de nós por minha pele arrepiada e sou capaz de não voltar para minha cama esta noite. Toque-me. Molde-me. Centímetro por centímetro. 

Os lábios de Millie se entreabriram e eles seguiram com alguns beijos curtos, que ficavam cada vez mais intensos. Em seguida, a língua do cacheado deslizou pela sua de modo em que ela vergonhosamente quase gemeu contra sua boca. Seus dedos envolveram-se nos pulsos de Finn enquanto ele ainda segurava seu rosto, assim deleitando-se daquele beijo terno que os lábios macios dele a proporcionavam. A madeira ainda estalava na lareira perto deles, assistindo-os se entregarem um ao outro e ali os dois notaram, que após todas aquelas semanas, todas aquelas discussões e conflitos que sempre os causavam arrepios, tudo que Finn e Millie haviam se tornado eram duas línguas movendo-se na boca um do outro. 

Ainda de olhos fechados e entorpecida de desejo eles beijaram-se de novo, mais profundamente na segunda vez.

Millie estava corando as bochechas pelo calor do momento e sentada naquela mesa de mogno, esperou que não estivesse gotejando de tesão. O rapaz sem nenhum esforço segurou em suas pernas com firmeza e as trouxe para mais perto em meio ao beijo, assim ficando entre as mesmas. Seus corpos estavam levemente roçando-se um no outro, enquanto as mãos dela deslizaram no peitoral do cacheado por cima da camisa. Após um momento, Finn fez menção de terminar o beijo e assim notou o quanto não queria parar e o quanto a amaria cada vez mais, mais e mais. 

Eles finalizaram com alguns selinhos demorados e quando se afastaram um pouco, ele disse:

— Não fuja mais de mim.

Aquilo fez Millie devolver um sorrisinho esperto. 

— E eu posso desfazer uma aliança?

Ele acabou sorrindo fraco e antes que respondesse, ouviu cinco batidas contra a madeira que desviaram sua atenção e fizeram com que ele juntasse as sobrancelhas. Millie resmungou em seus pensamentos e deu um pulinho da mesa insatisfeita, assistindo o momento em que o cacheado abriu a porta, deparou-se com Jack e seu semblante preocupado.

— Você precisa ver isso. — no mesmo segundo, o menor calou-se quando observou Millie surgindo atrás do ombro do mais alto. Seus olhos angustiados, agora pareciam curiosos e atrapalhados, mas ainda angustiados. Ele despertou-se. — Quer dizer, vocês precisam ver isso.

Finn e Millie se entreolharam com interrogação e a garota ajeitou seu vestido com pressa, enquanto os dois o seguiam em direção ao andar de baixo do castelo, sem nenhuma palavra de explicação pelo caminho. Ao passar por uma das janelas do corredor, a garota notou que a escuridão da noite enfim havia tomado conta do céu de fim de tarde. Assim, Grazer abriu a portaria gradeada daquele lugar silencioso que eram as masmorras.

A jovem rainha observou ser como um subsolo com poucos castiçais na parede, mas que eram suficientes para deixar no ambiente a breve recordação de que sombras habitavam o local. Eles desceram a escadaria e desembocaram em um compartimento quase vazio, com algumas caixas de madeira pelos cantos. Havia um homem, grunhindo e protestando em voz alta no eco, palavras que os três não conseguiam distinguir tão bem. Quando conseguiram vê-lo nitidamente, perceberam que havia duas correntes fincadas na parede enquanto estavam presas aos pulsos do prisioneiro, com algo que parecia couro.

Noah estava apenas parado, o fitando de canto meticulosamente. Finn chegou perto do jovem nobre.

— O que é isto?

— É um protestante rebelde. — respondeu o castanho. Finn pôs seus olhos escuros no mesmo fazendo um pequeno estudo, não compreendendo aonde Noah queria chegar com aquilo. — Antes que pergunte, ele é francês e não inglês, o que geralmente é incomum.

— Noah o capturou no meio da batalha, enquanto tentava subir o muro do castelo pela lateral. — acrescentou Jack, resmungando algo em alemão e respirando fundo. — Ele conseguiu entrar, não do jeito que queria, mas conseguiu. 

— E nem me agradece, o ingrato. — Noah comentou atrás deles.

Finn permaneceu fitando o rosto do prisioneiro, que claramente tinha sido machucado na batalha horas antes. O cacheado pôs suas íris desconfiadas no príncipe, que ergueu suas mãos em rendição. 

Millie estava preocupada.

— O que ele disse até agora?

— Que... há uma organização de protestantes rebeldes na França, que planejam saques e avanços contra reinos, provavelmente de pequeno e grande porte. Os homens que atacaram o castelo e os vilarejos próximos hoje, todos são franceses e eu sei que ele está falando a verdade, porque encontrei isso... — Noah estendeu o colar com escritas francesas e Finn observou o símbolo que havia nele com atenção, enquanto o rapaz relatava. — Peguei de um dos rebeldes mortos no vilarejo mais cedo. 

Atrás deles, o homem acorrentado continuava gritando ofensas contra a monarquia católica. Assim a jovem rainha suspirou, não podendo evitar estar presa naquela imagem.

— Antes da batalha, eu e Noah fomos atacados antes de chegar no castelo pelo mesmo grupo... — murmurou Jack, com suas sobrancelhas franzidas de inquietação. — Há um líder rebelde aqui na França, que provavelmente vai juntar seus protestantes com os protestantes ingleses, tentando o apoio da rainha Elizabeth. E se eles conseguirem, teremos que nos preparar para épocas tempestuosas. Ela tolera a permanência de católicos na Inglaterra assim como nós toleramos protestantes na França, mas não sabemos até quando.

Noah passou a língua entre os lábios. 

— Quando fomos conferir os corpos, não havia mutilação, ou seja, pode não ter sido Henry Wolfhard e sim outra pessoa...

 — Mas isso ainda não o descarta totalmente como líder dos ataques.

— Millie tem razão. Ele pode não ter mutilado os corpos, justamente para limpar seu rastro e pensarmos que é outra pessoa. — murmurou Finn seriamente, enquanto deixava seu último olhar incisivo no homem acorrentado. Eles subiram as escadas e logo os gritos foram ficando para trás, fazendo com que os quatro surgissem em um dos corredores do castelo e começassem a andar lado a lado. — Mesmo que o prisioneiro tenha deixado escapar essas informações, não acho que ele entregará seu líder por agora.

Schnapp maneou com a cabeça.

— Alguns socos e as palavras saem...

— Eu sabia que tinha sido você. — comentou Finn, querendo soltar uma risada pretensiosa. Em seguida, ele negou com a cabeça e colocou sua atenção no menor ao seu lado. — Jack, você está se envolvendo com o próprio anticristo.

— Eu realmente não tenho amor à minha vida.

— Com toda a modéstia, vocês dois, posso afirmar que sou o melhor Schnapp da família. Sempre tive bom coração e misericórdia por meus inimigos. 

Grazer encarou Millie.

— Ele está mentindo?

— Está.

Eles riram e balançaram a cabeça, determinados a aliarem-se contra Noah, que fingia-se de ofendido. Ele virou o rosto para encarar Finn, que acompanhava a conversa com um sorrisinho vaidoso nos lábios.

— Você também está contra mim?

— Se você é o melhor da família, não quero nem ver quais são os piores. — Finn passou o braço por cima do ombro do castanho, que quase revirou as orbes com o sarcasmo. Os três soltando risadinhas no eco do corredor às sete da noite. — E um aviso, se cometer um ato de rebeldia e não for pra reunião do conselho amanhã, devolvo você para a Espanha dentro de um caixão. 

Noah sorriu abertamente.

— E depois se perguntam o motivo de reis morrerem cedo. 

Não demorou muito para Sadie cruzar o corredor, fazendo com que ela se juntasse à eles com um sorriso doce no rosto, comentando sobre uma moça que havia conhecido na capela horas antes, que queria tocar em seus cabelos vermelhos em troca de um pedaço de terra nos alpes. Sadie recusou educadamente, para o alívio de Jack e a decepção de Noah.

No meio daquelas pessoas que tanto se afeiçoaram, Millie e Finn se entreolharam enquanto os três davam risadas sobre o assunto. Em seus mundos particulares, era bom lembrar quem eles eram e foram dentro daquele quarto momentos antes.

Na manhã seguinte, a movimentação pelo castelo era amena, as pessoas resguardaram-se e algumas visitaram a capela, para fazerem suas orações. Sadie observava de longe os campos do lado de fora de maneira investigativa. Paralisada na sacada do segundo andar do salão, o cotovelo no mármore, o rosto apoiado na mão e o vento soprando contra seu rosto, quando porventura sentiu a presença de outra pessoa. 

Era Caleb.

De repente, ela o pegou de surpresa:

— Consegue ver?

O rapaz seguiu seu olhar para a mesma direção das íris azuis de Sadie, que estavam certas na entrada do castelo. Caleb esteve uns segundos procurando algum vestígio desconhecido que estivesse em seu alcance, mas sem sucesso, não encontrou nada. Ele pensou um pouco, antes de franzir a testa para ela.

— Ver o quê?

— As roseiras.

Silêncio.

— Não as vejo.

— É porque elas não existem mais. Foram destruídas na batalha.

Ele acabou rindo pela resposta.

— Então você é uma amante das flores?

— Eu sou Sadie Sink, mas sim, você acertou... — ela disse com um ar de gentileza, ainda com o queixo apoiado na mão e um sorriso elegante no rosto. Caleb realmente estava se surpreendendo com o humor da garota, quando ela franziu a testa e quis saber. — Como foi para você chegar aqui e ser recebido com um ataque?

Caleb de de ombros.

— Caloroso... — respondeu e isso fez com que os dois trocassem sorrisos despretensiosos. O vento soprando em seus rostos juvenis. — Finn não estava de brincadeira quando disse que algo sempre acontece por aqui.

Sadie ainda estava com um sorriso no rosto quando o desmanchou de seus lábios gradativamente, de repente deixando que a insegurança navegasse pelas gavetas de seu pensamento. Então do que de início pareceu uma hesitação da sua parte, ela perguntou: 

— Por que parou para conversar comigo?

— Eu não deveria?

Silêncio.

— Desculpe-me, não é isso. É que... — a menina pausou. Seus olhos transmitindo desentendimento. — Não estou acostumada com abordagens de pessoas que queiram conversar comigo.

— Sou um homem negro no meio das altas classes. Acredite, eu sei do que está falando.

Sadie pensou um pouco.

— De onde você é exatamente?

— Não tenho certeza... — respondeu ele, dando um sorriso fraco e sendo observado pela garota de olhos claros com atenção. — Minha mãe fugiu de algum país comigo e eu fui alforriado por pagamento, pelo pai de Finn quando ainda era vivo. Ele me encontrou sendo escravizado quando criança em Portugal e me trouxe para a França. Desde então sou livre, mas ainda não é simples estar em um mundo de homens que são assim desde que nasceram.

Ela engoliu em seco.

— Sou renegada pela sociedade. Acham que eu sou uma feiticeira que repovoará o país com minhas crias agora que a crise de peste negra passou, quando na verdade sequer um dia terei filhos. Eu sou teimosa em ainda ter fé na humanidade, mesmo sabendo o quanto ela é hedionda com si mesma. Eu sinto muito por você, de verdade.

— Bom... — Caleb observou seu rosto abrindo um sorrisinho motivador, não querendo levar o assunto para um lado que realmente os machucava. — Por esse motivo que eu prefiro estar acampado por meses em um campo de batalha com um exército do que estar em uma corte repleta de nobres.

Sadie o encarou de volta.

— Mas você está em uma corte repleta de nobres.

— Não consigo dizer não ao Finn.

— É porque você não conhece a Millie.

Eles se entreolharam com a rapidez das respostas e gargalharam observando as colinas. Por algum motivo, pareciam dois amigos conversando sobre início, meio e fim de suas vidas. 

— Ela parece ser uma moça bem estudada. Não sei o que acontece no castelo, mas para os demais à fora, eles parecem gostar um do outro. Soube que o papa os chama de reis católicos.

— Existem reis e rainhas que estão tentando uma chance de matar um ao outro há anos. Finn e Millie fazem parte das pessoas que formam a aliança para fingirem se amar, quando na verdade estão fingindo se odiar desde que se conheceram.

Caleb segurou o riso. 

— As chances de uma pessoa ser destinada a você por meio de uma aliança política é quase nula, mas quando você faz parte do quase, a única coisa a ser feita é deleitar-se do privilégio. Amante das flores, eles têm sorte.

Sadie sorriu em resposta pelo seu novo apelido, mas logo o gesto desapareceu de seu semblante com um barulho.

O sino tangeu anunciando que os portões estavam sendo erguidos. Sink direcionou seus olhos azuis para a entrada com confusão e Caleb fez o mesmo, mas ao contrário dela, ele reconhecia o rapaz montado à cavalo e esperava que estivesse enganado quanto a isso.

No andar de baixo, alguém havia sussurrado no ouvido de Finn que havia uma nova pessoa de influência na corte e consequentemente vários nobres curiosos juntaram-se na sala dos tronos. O jovem rei estava com sua coroa dourada na cabeça e vestes bordadas em preto, conversando com Noah, Jack e alguns colegas sobre algumas decisões que eles haviam tomado no conselho mais cedo, mas logo eles dispersaram-se indo para outro canto, inclusive Noah, que prometeu aos dois que ficaria em alerta.

Henry Wolfhard cumprimentava alguns homens pelo caminho, enquanto chegava mais perto do palanque.

E quando chegou, a voz dele disse:

— Finn Wolfhard... — ao ouvir, o mais alto o observou por cima do ombro antes de virar-se para encarar seu rosto, aonde analisou o sujeito sem dizer nada. Henry Wolfhard era um ano mais jovem do que Finn, mas possuía algumas cicatrizes grandes no rosto, devido aos seus confrontos. Ele era o único filho primogênito que havia sobrado do irmão mais velho de Eric Wolfhard, visto que o mais novo havia padecido de febre com apenas treze anos. Henry soltou um riso convencido, ajeitando o cabelo. — Nos reencontramos, majestade.

— Tem razão, mas sou impossibilitado de declarar que essa notícia agrada.

— Ardiloso como sempre. Essa não é a primeira vez que escuto algo parecido vindo de você.

— E não será a última.

Henry sorriu abertamente e em seguida, analisou o rapaz de cabelos negros que estava atrás de Finn. Ele piscou um dos olhos em sua direção.

— Como vai, Jack?

Grazer não conseguiu esconder sua indiferença. O menor se afastou e Finn soltou um risinho contido, enquanto Henry ainda o observava tomando distância. A antipatia entre os dois era mútua e Jack não faria sequer um esforço para reverter o que permanecia por anos.

O jovem rei chamou sua atenção. 

— O que quer em minhas terras?

Henry o encarou novamente.

— Eu soube que casou-se e foi coroado rei, então como não gosto de deixar nada para trás, estive pensando em passar uns dias ao seu lado como hóspede antes de partir para meu próximo destino.

— Seu próximo destino aonde vai derrubar casas de cidadãos honestos para poder tomar suas terras, à preço de sangue e sofrimento alheio? — a pergunta de Finn resultou em um sorrisinho irônico de Henry, que se desmanchava e com uma tentativa falha retornava aos seus lábios. O cacheado ainda o observava com desprezo, quando seu primo trincou o maxilar em resposta. — Sabe que não é bem vindo em minha corte e sei que quer me matar para sentar em meu trono, mas enquanto eu estiver aqui, terá que esforçar-se para isso. Eu sou o rei e não é você que vai usar a coroa depois de mim.

Passos foram ouvidos.

Era Millie atrás deles.

— Atrapalho?

Henry virou-se para a jovem e acabou sorrindo dissimulado.

— Nunca, majestade. Estava contando ao Finn como foi minha trajetória de Carcassone até Chambord e ele estava me contando como está sendo seu reinado por agora... — respondeu ele, em um tom sombrio demais, enquanto tomava a mão da moça para si e depositava um beijo cortês por cima da luva branca. Finn tomou um gole de seu vinho que estava perto, enquanto observava a expressão investigativa de Millie por cima da borda da taça, com sua coroa de brilhantes acima dos cabelos claros. — Permita-me, sou Henry Wolfhard.

— Eu o conheço bem.

— Conhecer-me passou a ser condição imposta.

Millie recolheu sua mão com educação e a expressão do rapaz estava impassível, mas a voz dele havia um tom a mais de petulância que não a agradou. Ela forçou um sorrisinho com classe, passando uma madeixa para trás do ombro desnudo. 

— O que veio fazer aqui exatamente, além de ser um grande arrogante?

— Que lugar melhor para esperar minha vez ao trono? 

— Sangue real é a única coisa que está mantendo você aqui dentro, porque asseguro, nós não levantaríamos os portões para um assassino, mas conversando com você, notei que é o menor de nossos problemas. Com licença. 

Millie afastou-se para que não perdesse a linha de prudência e foi em direção ao palanque um pouco atrás, subindo os dois degraus para ter uma boa visão do amplo salão. Henry espalhou-se pelo lugar sendo observado pelos olhos castanhos da menina por alguns minutos, quando Finn surgiu atrás de seu corpo. 

Ele murmurou em seu ouvido:

— O que houve?

— Seus inimigos adoram me azucrinar. Fique sabendo que defender você vai contra meu bom senso. — resmungou, arrancando de Finn aquele maldito sorriso de lado que a desequilibrava. Ela conseguiu sentir o perfume presente do rapaz quando ele parou ao seu lado, com as mãos atrás da costa. Millie o observou com interesse. — Aonde estava?

E assim eles escaparam do salão, sem que quase ninguém reparasse na artimanha, porque estavam ocupados demais com as conversas estadistas e governamentais. Minutos depois, o rapaz estava em um dos sofás do gabinete rindo de alguma coisa que Millie havia sussurrado em seu ouvido.

Seu rosto erguido pela visão da garota de vestido vermelho acima dele, enquanto suas mãos seguravam em sua cintura para que ela sentasse em seu colo, com as pernas de cada lado de seu corpo. Os braços da menina envolveram-se no pescoço do rapaz e Finn tomou seus lábios, com as duas mãos deslizando lentamente para debaixo do tecido do vestido, acariciando suas coxas desnudas de maneira provocativa.

Quando ele mordiscou seu lábio inferior e o puxou levemente com os dentes, a garota retomou o beijo com maestria, mas dessa vez tomando controle e deixando que sua língua deslizasse sobre a dele.

— O que está fazendo? — ele perguntou baixinho e Millie deu um riso em resposta.

— Beijando você...

Com um movimento de quadril, a garota esfregou-se levemente contra a ereção de Finn, fazendo-o morder o lábio inferior com força para se segurar. Millie estava toda arrepiada quando ele começou a depositar beijos molhados por seu pescoço quente. A mão do rapaz segurava com possessão aquela região, deixando-a cada vez mais excitada pelo toque. 

— Estou ficando duro por sua causa... — ele sussurrava, fazendo a menina movimentar-se novamente. Eles iniciaram outro beijo longo, fazendo com que suas línguas brincassem uma com a outra em meio aquela bagunça de excitação e murmúrios. — Millie... 

— Só mais um pouquinho...

— Você não quer que eu te foda nesse gabinete.

— Será? — ela sussurra maliciosa no ouvido de Finn, recebendo um aperto na coxa em resposta. Millie continuava respirando fundo por conta da sequência de beijos que estavam sendo depositados por sua pele exposta. — O que está pensando?

— Agora?

— Agora.

— Que quando a hora chegar, quero apreciar seu corpo, cada pedacinho, antes de... Você sabe bem o quê. — um sorrisinho cafajeste e o timbre rouco de Finn interrompeu as linhas de pensamento de Millie. Ele desceu o olhar para a boca avermelhada da garota e com o polegar, lentamente dedilhou seu lábio inferior de um lado para o outro. — Tenho certeza que sua boca ficaria perfeita ao redor do meu pau.

Ela o observa pelos longos cílios. 

— Como vou saber?

Três baques surdos foram ouvidos, fazendo com que Millie corasse as bochechas, se aborrecesse e deitasse no colo de Finn com o rosto na curvatura de seu pescoço, enquanto encarava a porta de longe. O rapaz a observou de cima, preparando-se para um de seus passatempos favoritos; perturbar Millie.

— Sou o rei e não posso fazer o que eu quero. 

— O que você quer?

— Foder com você. 

— Por todos os reinos, Finn. Eu não posso dar a mão, que você quer o braço... — repreendeu Millie, arrancando um riso divertido do cacheado por conta de sua braveza repentina. Ela levantou-se do colo de Finn aos tropeços e passou a ajeitar a coroa de brilhantes na cabeça em um dos espelhos do gabinete, sendo observada pelo rapaz com atenção. — Voltarei para a sala dos tronos primeiro. Quem bateu na porta deve ter notado nossa falta.

Ela inclinou-se e depositou um selinho nos lábios de Finn. 

— Seu pavio é tão curto, Millie.

— E a culpa é de quem?

— Se disser que for minha, ficarei surpreso. Você ainda irá visitar o meu quarto um dia desses?

— Pensarei.

— Eu sei que irá.

— Adeus.

E assim, ela desapareceu pela porta com um sorriso meigo nos lábios. Finn soltou outro riso sozinho, passando as mãos na nuca.

Horas depois, quando o relógio marcava duas da tarde, poucos transitavam pelos corredores e a cerimônia breve de boas vindas havia acabado. Henry Wolfhard escondeu-se em um dos infinitos quartos luxuosos que lhe fora dado e analisou sua bagagem com cautela, certificando-se de que seus pertences estavam realmente na mala. Sua cabeça funcionava de modo perverso e às vezes de forma imatura, então não demoraria muito para que ele ousasse dar o primeiro passo. A frase que Millie havia dito, sobre ele ser um dos menores problemas o deixou pensativo, com o ego tão afetado que ele era capaz de cometer um erro apenas para provar que a rainha estava errada. 

Espreitando na cortina de sua sacada, ele observou do lado esquerdo a grande janela dos aposentos de Sadie, aonde estava naquele momento gesticulando e rindo com animação sobre algo, porque conversava com Millie que estava sentada em sua cama, ambas desabafando sobre suas paixões.

A ruiva ainda estava em primeiro estágio, tentando descobrir quem era Caleb e quais eram suas ambições, enquanto a garota de cabelos cor de mel estava pensando se queria estar novamente na cama de Finn sentindo os beijos dele, sentindo o peso de seus lençóis, com o cheiro dele, em cima de seu corpo desnudo. Ela sabia que seria capaz de entregar-se para ele apenas com um frase, então contou isso para Sadie.

No andar de baixo, uma carruagem finalmente chegava no castelo. 

Amelia estava com seus olhos penetrantes sobre seu irmão, como um corvo, desde que havia o confrontado no casebre na noite passada. Eles desceram da carruagem e ambos andaram pelo corredores do castelo, enquanto os homens desciam suas malas e as levavam para seus aposentos anteriores. Quando os servos se afastaram totalmente e sobraram apenas o som dos passos dos dois, ela ergueu sua atenção para Aiden.

Amelia sussurrou.

— Queimará no inferno pelo seu pecado e eu irei junto, porque somos um só.

— Eu não quero falar sobre isso. O que você fez para mim em Amboise foi o bastante.

Ela puxou a mão do rapaz e o arrastou para dentro de uma sala pequena, em que quadros empoeirados estavam pelo chão, inclusive de monarcas anteriores que o tempo fez questão de apagar. Aiden colocou-se de frente para uma janela de vidraças quebradas, esperando o sermão com desânimo. Amelia estava queimando de desgosto, quando disse:

— A única coisa que fiz em Amboise após ver aquela cena, foi exigir que você explicasse-me quando que havia perdido a sanidade, para arriscar o nome de nossa família com suas libertinagens. Só isso. — a garota aproximou-se de Aiden, que continuava impassível sem direcionar sua atenção para ela. De repente, Amelia deitou o rosto na costa do rapaz e ficou assim, com seus olhos verdes começando a marejar levemente. — Você sabe o esforço que eu fiz para garantir que Mary e Eric Wolfhard nunca contassem algo para os outros ou nunca o enforcassem. Eu garanti isso, por você.

Aiden afastou-se dela.

— Eu não pedi por isso... — suas sobrancelhas juntaram-se com todo aquele desconforto e aborrecimento. Ele baixou o tom de voz aproximando-se novamente da garota, dessa vez rosnando pertinho de seu rosto. — E desde que você causou a morte deles, eu sou controlado por você, como se eu te devesse a minha vida. Eu não aguento mais suas possessões e... 

Amelia o interrompeu. 

— Eu protegi você, com o que eu tinha, e é assim que me agradece. Perfeito. — ela limpou sua lágrima com força. Em seguida, sorriu abertamente com todo seu desprezo quando observou o maxilar do rapaz contraindo-se de indignação. — Deveria estar beijando meus pés por ainda estar aqui. Você sabia que nunca valeu a pena morrer por depravação e pecado? 

Pensando naquilo, o rapaz sabia que os conselheiros reais estavam se envolvendo às escondidas, mas ele não contava para Amelia, porque não queria que ela causasse a morte de Jack de alguma maneira. Apesar de Aiden detestar Noah, por ser estrangeiro e por ter sua personalidade extremamente confiante, um dos pontos responsáveis pela apatia do loiro em relação à ele era saber que Schnapp tinha o afeto que um dia ele nunca teria de Grazer, com quem cresceu por quase toda a sua vida.

Amelia apenas sabia que desde criança seu irmão prezava a companhia de Jack mais do que a dos outros, mas não sabia se ele era correspondido e claro, era melhor que nunca soubesse.

— Desde que éramos crianças, você finge-se de desentendida, porque recusa-se a ter um irmão que gosta da mesma coisa do que você; pau. Não precisa se preocupar, eu também gosto de foder mulheres.

Naquele momento, ela pareceu ofendida com todas as palavras despejadas. E quando Amelia deu-se conta, ela estava limpando as lágrimas que sobraram com rapidez e estava saindo atrás dele às pressas. 

Quando Aiden chegou no corredor, deparou-se Jack, Finn, Caleb e Noah caminhando lado a lado, conversando sobre algo de modo casual. Algumas sobrancelhas franzidas e gestos com as mãos. Amelia estava logo atrás do irmão com as engrenagens de seu cérebro ansiosas para o que viria a seguir e por um momento ela quase esqueceu que havia discutido segundos atrás.

Noah foi o primeiro a avistar Aiden, que estava com a cabeça erguida em sarcasmo, preparando-se para fazer algum comentário infeliz.

O castanho avançou para cima dele antes que os outros pudessem deter, com os olhos verdes carregados de repulsa. Noah o segurou contra a parede e em sua mão esquerda estava o punhal de prata erguido em direção à seu pescoço.

— Você é um homem miserável e repugnante. Nunca mais ouse aproximar-se ou tocar em Millie ou eu juro, por todos os reinos, que minha adaga dançará em sua garganta.

— Solte meu irmão.

Era Amelia.

— Pense o que quiser.... — Aiden abriu um sorriso asqueroso e o rapaz o apertou mais. Ele tossiu levemente. — Estrangeiro.

— Chega... — Finn os segurou pelo colarinho e os separou ficando entre eles, para em seguida empurrar Aiden levemente para se afastar. O cacheado apontou para o rapaz, que massageava o pescoço e era amparado por sua irmã. — Eu não quero mais uma palavra sua ou juro que eu mesmo o mato. Você e Amelia, sumam da minha frente. Noah, para o escritório agora.

Schnapp colocou suas íris incisivas em Amelia, como se avisasse que ele ainda teria outras chances de acabar com a vida do marquês e assim afastou-se, parecendo enraivecido demais para argumentar contra qualquer pessoa, porque ele não queria ficar mais um segundo ali. Se ficasse, mataria os Sinder. 

Caleb observou o rosto de Jack, que acompanhava com repreensão os irmãos gêmeos tomando distância deles.

— O que foi que aconteceu aqui?

— Temos muito a conversar, meu amigo.

Finn e Noah entraram na pequeno escritório e frecharam a porta. Como se estivesse lendo seus pensamentos, o cacheado disse:

— Não pode tentar matar a todos. 

— Deixe-me adivinhar... — murmurou o castanho, que deitou-se no sofá com o braço por cima de seu rosto de modo desleixado. Noah espiou o cacheado pela brecha. — Você está tentando ser um bom homem?

— Aprecio seu sarcasmo, mas estaria longe de ser um bom homem, Noah. As batalhas que lutei ao lado de meu pai obrigaram-me a abandonar este título e creio que você saiba do que estou falando, pois esteve bravamente presente nas suas com o seu. 

O jovem príncipe ajeitou-se no sofá, bufando e tentando controlar sua impulsividade. Ele ergueu sua atenção para Finn, que estava sentado em sua frente o analisando com cautela.  

— Está querendo dizer que...

— Que não saia matando a todos que odeia por satisfação.

Noah fitou sua adaga. A prata polida brilhando contra a luz que insistia em entrar pela fresta das vidraças transparente. Ele a guardou e um silêncio pesado se impôs entre eles. 

— Finn, serei sincero com você. Estou afiando minha adaga todos os dias desde que eles partiram, para dar as boas vindas quando eles voltassem. Está me pedindo demais. Aiden deveria estar morto, milhas de distância, junto com sua irmã.

— Eu concordo.

— Então por quê não os condenou naquele dia?

— Se você soubesse... — Finn desviou o olhar para um canto qualquer com consternação, sentindo um gosto amargo na boca ao relembrar do dia da coroação. A seriedade em sua voz rouca, enquanto observava o chão entre seus pés. — Se você soubesse quantas formas eu imaginei acabar com a vida de Aiden quando descobri que ele havia tocado em Millie contra a vontade dela, não sentaria em minha frente e me questionaria por acolher um miserável como ele entre meus muros.  

Noah franziu a testa.

— Mas eu ainda não entendo o que impede você de... Finn, você é o rei. Por que ele ainda está aqui, respirando?

— Se eu matasse por ordens minhas, Amelia e Aiden, dois nobres, sem provas de que eles emboscaram Millie para que ela fosse executada por traição, a inquisição faria uma investigação minuciosa no castelo por meses. Talvez eles implicassem com os cabelos vermelhos de Sadie e a queimassem. Talvez descobrissem sobre você e Jack, então nada valeria a pena. Eu mantenho todos os jeitos de matar Aiden apenas em minha cabeça, porque eu não quero perder meu melhor amigo e acredite, nem você Noah, para inquisidores, que acham que sabem o que é certo ou errado. Estou mantendo Aiden em meu castelo para que Jack possa ficar vivo e em segurança, mas sob meus olhos. Eu nunca trocaria a vida dele por cinco minutos enforcando Aiden. Nunca.

Noah não sabia o que dizer.

— Então é por nossa causa? — perguntou, com os pensamentos à mil. Schnapp queria protestar e dizer que não podia aceitar essa proteção, mas ao mesmo tempo era tão desesperador saber que aceitar não tratava-se apenas dele, mas sim de outra pessoa. Ele brincou com os próprios dedos e confessou. — Pensar na possibilidade de um futuro em que o Jack pode não estar é cruel demais para mim. Ele é... a carta que a vida pode me tirar a qualquer momento.

— Então você o ama?

Mudez absoluta.

— Eu morreria por ele.

E aquilo fez a conversa cessar para sempre. 

Anoitecendo, todos prepararam-se para o grande evento do banquete da vitória que aconteceria na sala dos tronos em dedicação à todos os guerreiros que lutaram bravamente e em homenagem aos homens que deram suas vidas defendendo a fortaleza. Millie banhou-se em rosas, trajou um vestido preto de veludo e mangas, seus cabelos presos no alto da cabeça e o colar de safiras que caiu-lhe bem no pescoço para uma noite tão estrelada. Encarando-se no espelho, a garota observou seu reflexo por alguns segundos e deixou que uma lágrima solitária moldasse a estrutura de seu rosto. 

Para ela, ver Aiden em sua frente a deixava amedrontada. Ela fitou o anel de casamento que estava em seu dedo e suspirou profundamente. 

Membros importantes da realeza sentaram-se na grande mesa que estava ao redor do grande salão, com lugares demarcados. Finn estava no centro e ao seu lado direito, estava Jack, depois Aiden e após ele, Caleb, aonde haviam alguns nobres de menores cargos ao seu lado. À esquerda do jovem rei, estava Millie e depois Noah, que estava ao lado de Sadie e ao lado dela mais alguns membros do conselho, incluindo Henry Wolfhard.

Henry estava conversando com um dos nobres sobre as últimas terras que havia conquistado, quando levantou-se para cumprimentar alguns condes que chegavam pelo salão, encarando os irmãos gêmeos de longe, relembrando do quanto repugnava ver a família Sinder transitando pela nobreza. O rapaz de cabelos escuros observou curiosamente Sadie de longe e em seguida algo o despertou, desviando sua atenção no exato momento.

Os músicos começaram a tocar uma canção de acordes melódicos. Era Gavota, um dos ritmos que Finn havia dito que traria para a França e na mesma havia alguns gestos incomuns; como trocar beijos sutis e inofensivos no meio da dança. O rapaz arqueou uma sobrancelha para a garota ao seu lado e estendeu a mão em sua direção, com gentileza.

— Permita-me. — naquele segundo, eles se entreolharam. Millie encarou suas íris por alguns segundos e deslizou seus dedos pelos seus, fazendo com que Finn a guiasse com cavalheirismo para o centro do salão.

As palmas foram ouvidas ao redor. Amelia tomou seu vinho, dessa vez surpreendentemente ignorando o casal e com sua atenção presa em Aiden, que estava do outro lado do salão encarando a cena dos dois com impassibilidade. Finn e Millie ergueram as mãos e encostaram suas palmas levemente, sem quebrar o contato visual em nenhum momento.

Wolfhard segurou em sua mão e a girou, fazendo a bainha de seu vestido negro esvoaçar leve como uma pluma.

— Millie? — murmurou o rapaz, assim que chegou perto de seu rosto e a balançou devagar no ritmo da música clássica. — Perguntarei algo à você.

— Pergunte.

— Você seria capaz de matar alguém?

— Por que?

— Porque o Aiden voltou. Você está bem com isso?

Millie assentiu com a cabeça. Ela adorava quando ele a decifrava tão bem, mas temia o que podia estar entendendo.

— Apesar de querer que ele suma para sempre, estou.

Ela rodopiou novamente e seus corpos aproximaram-se um do outro. Finn sabia que Millie estava alheia, então resolveu não invadir seu espaço. O rosto da menina deitou no peitoral do cacheado quando em seguida, seus olhos castanhos capturaram que Caleb conversava com Henry Wolfhard atrás das pessoas que haviam se reunido para observar a apresentação. Ela juntou as sobrancelhas.

Henry tomou distância do jovem marquês rapidamente e Caleb tomou um gole de vinho antes de erguer sua taça com elegância, cumprimentando alguém que estava do seu lado oposto. Millie notou que era Sadie, que acabou fazendo a mesma coisa, ambos flertando e não se importando com o que as más línguas iriam comentar sobre. A rainha guardou aquela cena na memória, enquanto mais uma vez arriscou mais alguns passos com Finn.

Quando o relógio anunciou a badalada das oito horas em ponto, o banquete fora servido, as bebidas passearam de um lado para o outro em bandejas, junto com cachos de uvas e grandes maçãs. Millie estava contando algo para Finn sobre sua infância, para a grande insatisfação de Amelia e risadas bobas dos dois. Caleb e Sadie estavam dançando algo agitado junto com outras pessoas, que os faziam pular, cruzar os braços com desconhecidos de um lado para o outro, o que rendeu uma salva de palmas dos demais presentes.

As pessoas estavam espalhadas; reunidos entre risadas, conversas, discussões, gargalhadas. 

— É a casa dos horrores?

Jack percebeu que Noah falava da chegada de alguns duques que ele discutiu no conselho pela manhã. O menor acabou sorrindo com o resmungo, enquanto negava com a cabeça. 

— Não seja mau. Como foi sua conversa com Finn hoje mais cedo?

Noah entornou o restante de seu vinho da taça e franziu o cenho levemente.

— Por que?

— Por nada, você parece nervoso desde então... — naquele momento, os olhos bondosos de Grazer analisaram com preocupação o castanho, que estava distante com aquele assunto. Ele mordiscou o lábio inferior e tentou de novo. — Tem alguma coisa que eu deva saber?

— Não é a nada disso, meu bem.

— Então o que é?

— Ele me deu um sermão de como não matar as pessoas, principalmente o Aiden, e confessei para ele que amo você.

— Você não me ama, você me acha gostoso.

Noah quis rir com a frase.

— Como adivinhou? — perguntou o rapaz de cabelos amendoados, fazendo Jack cruzar os braços seriamente e ignorar sua presença por uns minutos. Noah apoiou seus braços na mesa e inclinou-se para o lado, para perto do garoto que estava observando as pessoas dançando e distraídas com suas conversas. — Eu amo você e só você... Se pudéssemos, esse seria aquele momento em que eu roubo um beijo seu, subo em cima da mesa anunciando que estamos juntos e mandaria todos os inquisidores me servirem. 

Jack evitou sorrir e observou Noah brincando com algumas uvas.

— Isso realmente parece algo que você faria.

— Tem razão. Mas diga-me, você está bem depois de hoje?

—  Está falando da batalha?

— Do que aconteceu na capela. Eu fiquei preocupado com você depois que... Bom, você disse que viu algo.

— Sim, eu... — o rapaz entortou os lábios, não sabendo por onde começar. Grazer hesitou e com isso entendeu o motivo; tinha que contar para Noah para que pudesse ser totalmente honesto com ele antes que fosse tarde demais. — Eu prometo que explico à você, mas antes eu preciso de um tempo. 

Schnapp assentiu compreensivamente.

— Quando você quiser. Sabe que de todos os... 

Ele assustou-se pelo barulho de um talher caindo ao chão. Aiden estava debruçando-se sobre a mesa, respirando rapidamente, colocando a mão na garganta e descendo os degraus do palanque de maneira desgovernada. Millie, que estava conversando entre sorrisos e gestos, interrompeu-se imediatamente.

Naquele momento, todo o salão entrou em alerta.

— Parem a música. — mandou a rainha, nervosa com o que estava acontecendo. Seus olhos frustrados observaram Amelia correndo para perto de Aiden com pressa enquanto ele desmanchava-se no chão. — Chamem todos os médicos do castelo, agora.

— Fechem todas as portas. Há algo envenenado aqui dentro. 

Finn ordenou à todos.

Ao se aproximar de Aiden, o cacheado passou a mão no pescoço e nos lábios com apreensão, sabendo que nem ele, nem os médicos, nem os curandeiros e nem sua fé poderiam salvá-lo. Amelia estava desesperada enquanto segurava seu irmão nos braços, afirmando o fato de que ele sempre seria a única parte vulnerável que havia na jovem. As lágrimas estavam desenfreadas escapando por seus olhos verdes e os lábios continuavam tremendo, quando os médicos a afastaram educadamente.

— Diga alguma coisa. Diga que pode salvá-lo. — ela protestou.

O homem apertou os lábios após um momento. 

— Eu sinto muito, senhorita. 

Amelia observou seu irmão com tristeza.

— Eu não quero ficar assistindo ele sofrer... — ela negava com a cabeça, enquanto Henry estava com pensamentos próprios no canto do salão. Millie estava paralisada e tremendo os dedos, segurando o braço de Finn, que estava impassível e ao mesmo tempo nem parecia estar presente. Amelia arqueou as sobrancelhas, passando sua mão estremecida pelo rosto do rapaz, quando seus lábios começaram a sussurrar. — Você não pode me deixar sozinha nessa terra. Eu não consigo... viver, se uma parte de mim estiver faltando. Por favor. Somos... almas gêmeas.

Caleb estava desacreditado ao lado de Sadie, que estava em um pranto silencioso por conta do medo. Grazer estava lutando contra suas lágrimas pela cena desesperadora que estava sendo e Noah estava desconfortável com tudo aquilo, sentindo um pesar no ambiente, com sua atenção redobrada na mesa aonde Aiden estava. Amelia notou um fio de sangue saindo por cada um de seus ouvidos, que pingou sobre seu vestido branco. 

Ele tentou dizer:

— Amelia, eu sei que...

Tocou no ambiente, anos de silêncio, palavras não ditas, uma frase inacabada, algo não pronunciado e todo o espaço entre o coração e os corações das pessoas apavoradas daquele salão; ao terminar, ele não estava no calamitoso cosmos, não mais. Os olhos verdes de Aiden estavam ainda abertos, mas os de Amelia, cheio de lágrimas e com um quesito. Ela chorava descontroladamente contra seu peitoral. Os dedos manchados tocavam o rosto inexpressivo do rapaz, que sangrava pelos ouvidos e pelas narinas, deixando rastros pelo bordado de seu vestido branco que ela havia encomendado especialmente para esta noite.

Ela nunca soube o que o irmão queria dizer e antes de seu falecimento, tempos depois, Amelia relembrou-se do momento em que a alma do rapaz perdeu a vivacidade por completo naquela noite, declarada como banquete da vitória. Ela repassava a cena várias vezes na mente para montar esse quebra cabeça que ele deixou na mesa, faltando apenas uma peça.

O grande contratempo agora era que entre os suspeitos que estavam na sala dos tronos, todos envenenariam Aiden.

 

 


Notas Finais


OBRIGADO pelos favoritos e pelas views, eu sou tão grata. Meu coração é todo de vocês.
Eu ia postar ontem, porque foi meu aniversário, mas eu fiquei um pouco alterada na bebida como uma mera mortal e atrasou. Mas enfim, espero que vocês tenham gostado do capítulo. Fiz de coração, não é o melhor, eu sei, mas coisas boas virão no próximo. Podem apostar que eu leio cada comentário de vocês pedindo atualização, vendo sugestões, fazendo crítica e respondo o máximo que eu posso, principalmente as pessoas que tem dúvidas sobre algumas coisas. Quando vocês pensarem que eu abandonei a fanfic, lembrem que na verdade é que eu sou MUITO exigente comigo mesma e é por isso que meus capítulos demoram tanto. Desculpem por isso, sei que vocês amam os personagens e sentem falta deles.

Uma pergunta; quem matou Aiden?

Segunda pergunta; quem será o próximo personagem a morrer?

Terceira pergunta; atualmente, qual seu personagem favorito?

A playlist de Alliance está disponível no Spotify com músicas que lembram o enredo de 1560, espero que gostem: https://open.spotify.com/playlist/5h9Ozu4lFsjILFVQlmnvrk?nd=1

Até a próxima ❤️


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