História Alma de Vidro - Capítulo 1


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Categorias Haikyuu!!
Personagens Kei Tsukishima, Tetsurou Kuroo
Tags Amizade, Amor, Haikyuu, Kuroo, Kuroo Tetsurou, Kurootsukki, Mistério, Reencarnação, Romance, Songfic, Tsukishima Kei, Tsukki, Yaoi
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Palavras 10.614
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, LGBT, Luta, Magia, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Paixão, um sentimento engraçado


O fogo crepitava lento e cálido; as labaredas dançando refletidas em seus olhos castanhos. As cenas ao seu redor que se desenrolava diante dos seus olhos pareciam acontecer como dentro de um sonho, várias cenas passando diante de seus olhos e ele não poderia fazer nada quanto a isso. Seu corpo foi jogado longe, caiu com um baque mudo em meio a terra. Levantou com dificuldade, não podendo sair do lugar para lutar.

Seu cenho franziu ao máximo enquanto seus olhos estreitaram à medida que pequenos pedaços de vidros se juntavam e construíam paredes ao seu redor. Com um crescente desespero queimando sua veias ele tentou se mexer de novo, porém foi incapaz de sair da imobilização imposta.

Lágrimas inundaram suas vistas, se agrupando no canto dos olhos; mordeu os lábios para segurar o grito de dor que apertava seu peito. Incrédulo tocou com a mão direita a parede transparente que o separou do seu mundo.

Não, isso não poderia estar acontecendo.

Bateu com os punhos tentando com todas as forças quebrar a fortaleza de vidro não suportando a ideia de estar preso nela, ele gritou com todas as suas forças; lágrimas vermelhas descendo pelo seu rosto desesperado.

Em pensar que ela faria uma expressão daquelas: os olhos agradecidos, lágrimas puras banhando o rosto angelical e um cálido sorriso preenchendo os lábios rosados.

Socou com mais força aquela maldita barreira o separando da pessoa que mais amava. Com assombro assistiu os lábios lentamente falando uma última frase e o som dos vidros se agrupando ao seu redor cessou.

Olhou com pressa ao seu redor, vendo seu mundo desaparecer e somente seu rosto assustado sendo refletido; estava no espelho da alma, ele então olhou de volta para onde ela estava apenas para sangrar ao vê-la sendo levada para longe de si.

Sentiu sua nuca arder e, com as mãos trêmulas, tateou o local. O que mais temia estava ali, marcado em seu corpo. O símbolo do seu aprisionamento espiritual.
Bateu a cabeça contra o vidro e deixou seu corpo escorregar pela parede cristalina; caindo de joelho em seguida.

Estava sozinho agora.

 


~~~**~~~
 


Abriu os olhos com preguiça, piscando devagar para se acostumar com a pequena luz que passou por entre as pesadas cortinas. Virou o rosto, meio confuso por ter esquecido onde estava.

Mexeu os dedos no pequeno criado-mudo onde seu óculos estava e, com o objeto em mãos, sentou-se na cama, o colocando. Bocejou e olhou ao redor reconhecendo seu próprio quarto; uma sensação esquisita agitando seu estômago.

Por alguns segundos teve certeza que não era ali que deveria estar.

O sentimento desconhecido que vez ou outra machucava seu peito o deixou atordoado e precisou colocar a mão na cabeça, fechar os olhos e, respirando fundo, procurou acalmar seu coração que batia apressado em seu peito.

A impressão de que sonhara com algo muito triste não saia de seu peito e sentiu o liquido quente descer pelo seu rosto de forma abundante. Incerto, tocou de leve o rastro das lágrimas, seus olhos arregalaram ao notar que estava chorando sem ao menos saber o porquê. Apertou o cobertor felpudo por entre os dedos, controlando a respiração e buscando cessar as lágrimas que caiam sem inibição alguma.

Assim que se recompôs, chutou a coberta para longe e levantou da cama; sua cueca desceu um pouco pelo seu quadril, mostrando o delineado da polpa da sua bunda e os ossos do seu quadril que desciam para sua virilha. Levantou os braços se espreguiçando, estava um pouco cansado pela correria do dia anterior; arrumar as malas e separar todos os documentos necessários para sua mudança foi mais trabalhoso do que imaginou.

Tsukishima foi para o banheiro praticamente arrastando os pés, seu mau humor rotineiro presente em seu semblante fechado. Retirou a cueca box vermelha e ligou o chuveiro. Sem pressa lavou seu corpo, sua estatura alta e de músculos magros gastava bastante do sabonete. Esfregou bem a pele, especialmente onde tinha uma grande concentração de pelos. Pegou um pouco de shampoo e massageou os curtos fios louros.

Quando saiu do banheiro secando o cabelo, o óculos já em seu rosto, parou na frente do espelho em seu quarto e observou a pequena marca próxima a sua virilha. A marca em questão lembrava um círculo com algo que seria um tipo de gancho caindo dele, porém não tinha uma forma certa. Sua mãe disse que era de nascença, contudo esse fato era ainda mais estranho visto que ninguém da sua família nunca teve nenhuma marca parecida.

Vestiu a costumeira calça jeans com um rasgo nos joelhos e uma blusa de manga longa listrada. Não precisando pentear os cabelos – vantagem de ter madeixas curtas – Tsukishima saiu de casa gritando um “ittekimasu” e, antes de fechar a porta, escutou sua mãe responder com um “itterasshai”.

Andou com a lentidão de sempre, seguindo para sua antiga escola onde acabara de completar o colegial. Precisava buscar seus documentos escolares e o comprovante do término do seu ensino médio. A caminhada não demorou muito e quinze minutos depois Tsukishima já estava na secretaria do colégio Karasuno pegando os papeis que já havia encomendado uma semana antes.

O tempo estava esfriando rápido então vestiu seu casaco marrom ao sair. O headphone que usava tocava uma música mais melancólica, combinando com o clima de pesadas nuvens no céu cinzento. Ainda não entendia o porquê de estar tão sensível por esses dias, além dos pesadelos que tinha certeza que andava tendo (mesmo que não conseguisse lembrar de nenhum deles), Kei ainda precisava lidar com o nervosismo de morar sozinho que vinha o acometendo.
Andou bastante durante o dia todo assim como havia feito no dia anterior e, ao ter todos os documentos em suas mãos, Kei pode finalmente respirar tranquilo.

A janta em casa foi mais silenciosa do que o normal e até seu irmão viera para casa para despedir dele. Tsukishima odiava despedidas com todas as forças e por conta disso não fez mais do que abraçar os pais e desejá-los uma boa noite.


A noite passou rápido e desta vez Kei não sentiu nada fora do normal ao acordar às cinco da manhã para pegar o ônibus.

Na porta de casa abraçou novamente os pais e o irmão; sua mãe chorando enquanto seu pai sorria orgulhoso. Prometeu que assim que chegasse em Tóquio mandaria mensagem e reclamou quando seu nii-san se pendurou em seus ombros, resmungando para que parasse de ser antissocial e fizesse amizades.

Apesar de assegurar que o faria, Kei não se importava realmente em fazer amigos. Nunca gostou de contato humano e mal aguentava os amigos que fez por acidente no seu antigo time de vôlei. Ainda achava que era castigo divino ter a companhia irritante de Hinata e Kageyama na mesma faculdade que ingressou. Pelo menos Yamaguchi estaria lá para ajudá-lo a suportar a dupla de esquisitões.

Passou toda a viagem escutando música e olhando pela janela. Em algum momento dormiu, acordando somente quando o ônibus chegou na rodoviária. Ele pegou um táxi para o pequeno prédio onde o seu apartamento de quatro cômodos estava localizado; o caminho foi feito em vinte minutos. Chegando no local, ele subiu com preguiça os dois lances de escadas e entrou no apartamento de número 216.

Os móveis estavam nos seus devidos lugares, porém o apartamento estava empoeirado. Resmungou descontente e pegou os materiais de limpeza já que não gostava de sujeira ou bagunça. O bom de se morar sozinho e em um lugar tão pequeno era a rapidez na limpeza, meia hora passando pano para cima e para baixo e seu novo lar já brilhava. Tsukishima fez corpo mole para guardar as roupas e alguns itens delicados que trouxe na mala, se jogando de costas na cama assim que terminou de arrumar tudo. Seus olhos pesaram então decidiu se levantar para tomar banho antes que acabasse adormecendo. Uma chuveirada rápida e logo Tsukishima saiu do banheiro, em seguida vestiu uma bermuda folgada e uma regata, a calefação do apartamento deixando o clima ameno.

Ele procurou o espelho pelo quarto, encontrando o objeto encostado na parede perto da cama. Seus olhos cor de mel dançaram pelo quarto procurando um bom lugar para pendurar seu espelho e ele ficou contente por achar uma parede grande sem nada encostado nela. Pegou o espelho e o encostou na parede, medindo o tamanho e verificando qual a altura certa.

Quando seus olhos levantaram do espelho para a parede a sua frente, Kei levou o maior susto da sua vida: A parede havia desaparecido e no lugar dela um enorme espelho apareceu e, dentro do espelho, tinha um homem que estava o encarando com os olhos arregalados.

Com o susto o espelho normal que ele segurava escorregou de seus dedos, batendo a ponta no chão e caindo para frente; o vidro estilhaçando com o impacto.   
 


~~~**~~~
 

 

A ironia do destino acontece quando todos dizem que sempre há uma luz no fim túnel, você não acredita em luz alguma e, no final, ela realmente aparece. Poderia ser engraçado se seu humor não houvesse sumido com a percepção que tudo ao seu redor seria sempre escuridão e nada mais.

Não, realmente não existia mais graça quando, não importava para onde olhasse, tudo o que poderia ser visto era seu rosto em pânico. Depois de incontável tempo assim, o que restou foi se sentar e esperar pacientemente pelo dia que sua morte viria. Porém nem ao menos isso lhe cabia esperança. Sua maldição era estar preso em um espelho vendo o seu reflexo infeliz sem poder sair ou morrer. Já vinha praticamente definhando em questão de alma, ou sanidade, mas seu corpo sempre estaria jovem, belo e com saúde.

E assim estava; sentado de pernas cruzadas, olhos fechados e a cabeça baixa com o pesar de não aguentar mais estar ali.

Não acreditou em seus olhos quando uma luz absurdamente forte praticamente lhe cegou mesmo que estivesse de costas a ela. E pensar que a luz no fim do túnel seria literal.

Estarrecido, ele observou o rapaz desconhecido andando com um espelho na mão. Levantou com pressa e se aproximou dele, o encarando. Não o conhecia e muito menos reconheceu onde estava. Quanto tempo passou desde que foi aprisionado? Lembrava bem que estava em um campo aberto quando foi preso então de onde venho aquelas paredes e aqueles objetos estranhos?

O garoto levou um perceptível susto quando o viu, mas Kuroo não poderia ligar menos. Todo esse tempo sem vê-la e agora que poderia ver alguém, não era ela.

— Onde está a Keiko? O que fizeram com ela?

Bateu o punho direito contra o espelho, houve um barulho de impacto, mas nada aconteceu com a estranha estrutura.

— O que...?

Tsukishima se afastou tremendo, os olhos arregalados e a boca aberta. Sua panturrilha bateu contra a cama e ele caiu sentado, ainda atordoado e sem realmente acreditar no que seus olhos viam.

— Você está com eles, não é? — o homem dentro do espelho rosnou. — Traga ela de volta, está me ouvindo?

Kei balançou a cabeça, muito abismado para dizer qualquer palavra. Ele se afastou um pouco da parede transparente, olhando com certo desespero ao redor.

Assistiu o homem franzir o cenho e depois os olhos castanhos voltaram a lhe encarar. Ele pareceu pensar um pouco e respirou fundo, quando os olhos voltaram para si, estava com o semblante calmo e malicioso, algo totalmente diferente de antes.

— Você não me é estranho Megane-kun, — falou com um tom mordaz. Tsukishima odiou instantaneamente o “apelido” — Já nos conhecemos?

— Creio que não — murmurou um pouco incerto. Seus olhos caíram um pouco, — E o meu nome é Tsukishima…

Um sorriso maldoso apareceu nos lábios do homem antes de dizer com sarcasmo: — Seu nome é estranho. Megane-kun está ótimo pra você.

Tsukishima levantou uma sobrancelha, uma veia saltando pela sua repentina irritação. “Olha só quem fala sobre ser estranho”, pensou. Quem ele achava que era para dar apelidos de mal gosto para uma pessoa que nem sequer conhecia?

— Não há nada que eu possa fazer, — falou com uma falsa tranquilidade, um sorriso ainda mais falso ainda estampado no rosto. — É um nome de família, de qualquer forma. Não dê apelidos aleatórios assim.

— Entendo. — o homem respondeu, mas seus olhos baixaram com o tédio, — Mas eu não ligo.

Ficaram em silêncio, Kei olhou inconformado para o espelho quebrado enquanto Kuroo olhava desinteressado o garoto sentado na cama.

Tsukishima decidiu então se levantar para buscar a vassoura e a pá, sentindo ainda mais irritação por ter que trabalhar de novo. “Culpa daquele cara estranho”, pensou. Quietamente ele limpou e organizou toda a bagunça, mas mesmo que não fizesse nenhum barulho, sua mente estava tumultuada, rodando em círculos tentando imaginar alguma razão para que as coisas saíssem assim.

Pressionou levemente entre os olhos, o cansaço e o sono cobrando seu preço com uma intensa dor de cabeça. Encarou todo o espelho; ele tinha no mínimo dois metros de altura e um metro e meio de largura, grande o suficiente para abarcar o homem dentro dela, mas não espaçosa de mais.

Como que aquele homem foi parar lá dentro? Não, mais importante do que isso, como era possível alguém ser preso assim?

— Em que ano estamos, Megane-kun?

Fez uma careta com raiva, o comportamento do homem o irritava.

— Dois mil e dezoito, — respondeu.

Passaram-se alguns segundos para que Kei percebesse a estranheza da pergunta. Virou o rosto em direção ao desconhecido, encontrando um rosto paralisado em choque e assombro. Sua cabeça pendeu para a direita, uma enorme dúvida crescendo em sua mente.

— Por que perguntou o ano? Como pode não saber qual ano é?

Kuroo piscou devagar, o peso da informação caindo em sua cabeça como uma bomba. Mil anos, estava preso no espelho há mil anos! Qual a probabilidade de Keiko estar viva depois de um milênio?

A realidade era muito cruel e de repente Kuroo desejou nunca ter sido capaz de ver alguém em sua longa prisão. Sua existência doía menos quando não sabia quanto tempo havia passado; a esperança de tê-la em seus braços evaporando como cinzas ao vento ao obter aquele conhecimento.

— O que?

A pergunta do garoto de óculos acordou sua mente do tenebroso devaneio e Kuroo percebeu que o outro o encarava sem piscar. Vestiu uma máscara de indiferença e o olhar de tédio voltou ao seu rosto.

— Não é nada Megane-kun, — respondeu com falsa tranquilidade. — Não sei se percebeu, mas na minha humilde residência — apontou ao seu redor com desdém, — Não tem nenhum relógio ou calendário. É normal que eu não saiba em que ano estamos.

Uma sobrancelha loira tremeu, os lábios em uma linha fina e irritadiça. Suspirou.

— Tem muito tempo que você está aí?

Kuroo deu de ombros, escondendo a sombra em seus olhos. — Não muito.

Tsukishima achou ter visto um breve momento de seriedade, porém descartou a ideia desinteressado. Foi para a cozinha afim de cozinhar algo rápido e fácil de comer para então poder dormir. Kuroo resmungou que estava entediado e que Kei deveria lhe fazer companhia como um bom anfitrião. “Como se eu houvesse o convidado”, pensou sarcástico.

 Sua cabeça, que já doía anteriormente, parecia querer explodir com as constantes reclamações que o homem fazia; de tão interessado no assunto, Tsukishima não ouviu nada que ele disse na última meia hora.

Já satisfeito, Tsukishima retornou para o quarto. Parou em frente ao espelho, a mão na cintura e o olhar de peixe morto mostrando sua satisfação em ter um cara estranho preso em um espelho, acabando com sua santa paz.

— Eu vou dormir já que amanhã acordo cedo. Então faça o impossível e fique quieto.

Kuroo fez uma careta de desânimo. Não queria ficar sozinho, era solitário ali. O que custava ao outro fazer um pouco de companhia? Maldito Megane-kun!

Kei queria dormir, estava cansado e com sono, porém era quase impossível fechar os olhos quando a sensação de ser observado queimava sua pele. O espelho fantástico-ou-algo-assim precisava mesmo estar de frente para a sua cama? Melhor, precisava mesmo aparecer um esquisito preso na sua casa?

Tsukishima Kei e sua habilidade de se envolver sem pretensão em situações incomuns.

E enquanto o garoto de óculos fingia dormir, Kuroo olhava para o tempo; sentado de pernas cruzadas, o rosto apoiado na sua mão, o cotovelo apoiado na perna. Definitivamente Kuroo não sabia o que era pior: passar um milênio sem ver ninguém ou ter alguém com quem poderia conversar e não o faz por simplesmente não estar interessado. Humanos são os piores.

O tique-taque irritante tornou a noite dolorosamente mais longa e Kuroo ficou consciente de toda hora que passava, como em uma tortura pessoal. Em certo ponto, Tsukishima dormiu e logo Kuroo descobriu que o garoto falava muito durante seus sonhos. Achou um tanto curioso o outro choramingar um “precisamos esconder você” e vários “é preciso ser assim”. Por algum motivo, Kuroo achou familiar a voz suave, mas não conseguia lembrar de onde aquela sensação vinha. Inquieto, não somente pelo tédio, ele andou quase que a noite toda pelo pouco espaço dentro da sua prisão.


Devia, porém, pontuar o quão satisfatório era finalmente saber quando é noite e quando é dia. O fato de que tudo a sua volta não mais se resumia a escuridão e seu próprio reflexo aliviava sua mente já cansada.

Antes que o dia clareasse, Tsukishima levantou e Kuroo observou atento os movimentos do mesmo: ele ficou um tanto sonolento assim que acordou, demorando alguns minutos para sair da cama antes de colocar os óculos e, bocejando, se espreguiçar; coçou a bunda e levou outro susto quando o viu novamente. Kuroo riu do tombo que Tsukishima levou e Kei resmungou um “rá rá, muito engraçado” e Kuroo percebe com facilidade o quão mau humorado era o rapaz assim que acordava.

Depois do banho, Tsukishima se vestiu ainda no banheiro e foi para a cozinha. Ele retornou apenas para pegar sua bolsa. Kuroo revirou os olhos, prevendo mais tédio do que teve a noite toda.

Tsukishima, por outro lado, estava aliviado por ficar longe daquele homem e de todo o mistério que o rondava. Andando para sua nova faculdade, a Universidade de Tóquio, pensou no que poderia fazer para se livrar daquele incômodo.

A primeira coisa que resolveu fazer foi pesquisar sobre o quê diabos era aquela prisão, era o mais importante no momento e isso estava bastante claro. Depois de descobrir o que era aquela estrutura de vidro parecendo um espelho, Kei poderia procurar uma forma de libertar ele. O problema na verdade era saber por onde começar a procurar sendo que até uma dia atrás ele não sabia que maldições assim sequer existiam.

Tsukishima entrou pelos enormes portões encontrando Yamaguchi lhe esperando na entrada.

— Oi. — resmungou em cumprimento.

Yamaguchi sorriu fechado antes de responder: — Oi.

Ambos, lado a lado, caminharam para perto da entrada do grandioso prédio. Eram amigos por mais de sete anos e, por um tempo no finalzinho do colegial, tentaram ser algo a mais. Foi bom, Tsukishima gostava bastante de estar com ele e Yamaguchi era bem atencioso, mas era só isso. Eles continuavam agindo como sempre, a única diferença eram os beijos e toques que antes não compartilhavam, a relação era aconchegante, mas fria e ambos decidiram por continuar somente como amigos e guardar as boas lembranças.

— Eu vi o Hinata mais cedo, — Yamaguchi disse calmo. — Ele estava tremendo na entrada e parece que esbarrou em alguém mais alto do que ele, como sempre.

— Deve ser bom ser simplório, — murmurou.

Yamaguchi soltou uma risadinha e continuou: — Kageyama apareceu e o ajudou, de alguma forma. Depois passou meia hora gritando “Hinata-boke”.

— Como esperado do Rei.

A conversa morreu ali, mas nenhum dos dois pareceu ter se incomodado com isso. Conversas tão curtas era algo comum, na verdade, já que Tsukishima não é a pessoa mais comunicativa do mundo.

Cada um seguiu para um lado depois de subirem para o segundo andar. Yamaguchi acenou com a mão e Tsukishima resmungou um “até depois”.

O primeiro dia de aula começara bem, tendo anatomia como sua primeira matéria. Não reclamaria, era tranquilo de se estudar e ele já estava acostumado. Depois de anatomia venho Introdução ao estudo da Medicina, matéria essa que lhe apresentou a história do seu curso. Após o intervalo, uma nova aula de Suporte Básico de vida e outra de Bases da Biologia Humana.

Na hora do almoço Tsukishima se encontrou com Yamaguchi novamente, tendo a surpresa desagradável da dupla estranha estarem junto com eles. Com a fome costumeira, Hinata comeu bastante e de forma rápida e Kageyama, que parecia competir com ele por algum motivo desconhecido, engasgou duas vezes seguidas.

“Ele vai morrer se continuar assim” Tsukishima pensou assistindo entediado Tobio tossir descontroladamente. Yamaguchi soltou uma risadinha e Hinata debochou com um “Kageyama não sabe nem comer”. Mesmo com o agitado almoço, Tsukishima não se sentiu pronto para passar a tarde em seu trabalho de meio-período. A habilidade de fazer todo tipo de café lhe garantiu uma vaga no cyber café próximo da universidade, ao entrar no recinto Tsukishima balançou a cabeça em um cumprimento silencioso aos seus colegas de trabalho e foi para a sala dos funcionários para vestir o uniforme. Ele atendeu com tranquilidade todos os cliente e cuidou do caixa no período com menos movimento do café. Ajudou o gerente a fechar o local e então seguiu para o seu apartamento.

Foi quando abriu a porta que lembrou, desgostoso, que tinha um intruso em seu quarto. Ele decidiu jantar antes de tomar banho e aproveitou a comida que havia separado na noite anterior. Andou com preguiça para o banho, não entendendo nada do que o outro homem disse, menos ainda se atentou se ele dissera mesmo alguma coisa.

Cansado, caiu na cama, sentindo que poderia dormir em poucos segundos. Porém não podia, pois já tinha três deveres extensos para entregar na sexta-feira. Buscou seus materiais e seu notebook, colocou tudo em cima da mesa de estudos e sentou na almofada, cruzando as pernas.

— O que está fazendo?

Tsukishima não olhou para o estranho mesmo podendo sentir os olhos castanhos queimando suas costas.

— Dever de Anatomia.

Silêncio. Abriu o livro de anatomia para pesquisar os ossos do corpo.

— Então você estava na escola.

Não foi uma pergunta. Tsukishima se limitou a acenar positivamente.

— Quantos anos você tem?

— Dezenove.

Mais silêncio.

Kuroo precisava de uma resposta com urgência. A questão que lhe afligia era: Qual tédio era maior? Ficar sozinho ou ficar perto do Quatro Olhos?

Há questões que nunca poderão ser respondidas, não é mesmo?

Sem muito o que fazer, continuou observando o garoto. Dezenove anos é muito pouco, para falar a verdade. Nessa idade, ter o conhecido antes, é simplesmente impossível, portanto descartou a ideia. Contudo, a sensação de familiaridade deve ser seriamente considerada, visto que não era algo fugaz.

Olhou interessado os olhos cor de mel concentrados na tela do computador. Quando o loiro ficava quieto, concentrado, tão sério, ele lembrava muito a Keiko e isso era, no mínimo, engraçado quando pensava em como o senso de humor dela era bem mais gentil e carinhoso do que daquela criança.

— Você tem namorada, Megane-kun?

Kei soltou um “tsc” irritado e voltou os olhos para o inconveniente homem que não o deixava estudar em paz.

— Não, não tenho.

O canto da boca de Kuroo levantou, o sorriso era quase cruel.

— As garotas não aguentam o seu mau humor?

Kei olhou para o moreno por um tempo, pensando se contaria ou não algo tão íntimo sobre a sua pessoa para um desconhecido. Não era como se ele escondesse e, na verdade, não se importava que soubessem.

— Não me importo se elas gostam ou não, — respondeu com um tom sarcástico, um cínico sorriso em seus lábios. — Eu não namoro garotas.

— Hã...? —  o moreno pendeu a cabeça para o lado e pareceu genuinamente confuso. — Você namora quem então?

Kei piscou, buscando como explicar suas… preferências.

— Digamos que eu namoro pessoas com as quais eu me sinto ligado de alguma forma, — Tsukishima respondeu e voltou-se para seus livros. — Em sua maioria, eu prefiro garotos.

Seus olhos caíram e se perguntou se havia explicado de forma fácil de se entender. Não adiantava usar os termos certos quando não sabia se o homem entendia sobre as sexualidades existentes. Dizer “sou demissexual e homorromântico” causaria uma confusão desnecessária e Tsukishima detestava ter que “provar” cientificamente a própria sexualidade e sentimentos.

Kuroo piscou espantado com algo tão incomum. Não que fosse incomum para ele, mas era quase uma proibição entre os humanos. Sim, em um milênio as coisas mudam, porém na época em que andava por aquelas terras, os humanos matariam em massa pessoas que fossem um pouco diferente do considerado "normal”.

Sorriu sincero, gostando do quão seguro e verdadeiro o Quatro Olhos poderia ser.

— Agora que eu penso, — Kuroo chamou a atenção do loiro. Tsukishima suspirou derrotado, queria terminar logo os deveres para ir dormir, mas parecia ser impossível. — Você nunca perguntou meu nome, Megane-kun.

Tsukishima revirou os olhos e fez um sinal de descaso com a mão.

— Não quero saber seu nome. — respondeu.

A boca do Kuroo quase caiu no chão.

— Megane-kun, que cruel! — depois soltou um risinho cínico. — A propósito,sou Kuroo Tetsurou,

Tsukishima deu de ombros voltando sua atenção total aos seus deveres.

Uma hora depois Tsukishima já organizava seus materiais para o próximo dia. Levou o notebook para fazer algumas pesquisas, porém não achou nada que dissesse o que poderia ser aquela cela de vidro.

— Você sabe o que é essa prisão?

Kuroo se assustou ao ouvir Tsukishima puxando conversa e o teor da pergunta o deixou ainda mais surpreso.

— Por que, de repente, você quer saber mais sobre mim?

O tom provocativo não foi novidade e Tsukishima guardou o notebook, retirou o óculos e se deitou, ignorando o tom de chacota.

— Nada que envolva você me interessa, eu só quero me livrar da sua presença. E se para isso eu preciso te libertar, eu o farei. — respondeu

A fala tranquila acertou seu coração como uma flecha impiedosa e Kuroo fez uma careta. Sincero demais, Megane-kun não tinha um pingo de empatia!

— Não quero saber.

Esperou alguma fala desinteressada ou em tom de cinismo, mas minutos se passaram e, duas horas depois, Kuroo aceitou que Kei se importava tanto com ele que o loiro dormiu sem nem ao menos escutar seu tom indignado.

E lá estava ele em mais uma noite de tédio.

Com muita calma, aproximou a mão direita da parede transparente. Sentiu a superfície fria tocar a palma da sua mão e seus dedos, em seguida, forçou mais, o vidro tremulou e balançou, mas Kuroo não foi capaz de passar pela prisão. Ele encostou a testa contra a superfície, lamentando não poder sair dali.

Poderia dizer a Tsukishima tudo sobre seu aprisionamento, no entanto, provavelmente não existia registros sobre o espelho da alma e mesmo que existisse algo sobre esse feitiço extremamente poderoso, não haveria como o libertar; pelo o que se lembrava das lendas acerca do espelho somente quem o invocou poderia o quebrar.

E quem o colocou ali já estava morto, disso ele tinha certeza.

O que dizer para o Quatro olhos? Para que ele se mude de lá?

E isso mudaria alguma coisa? Por que Tsukishima podia lhe ver, pra começo de conversa?

O espelho da alma não se movia, não transitava. Kuroo ainda estava no local onde outrora fora preso mesmo depois de mil anos. Com toda a certeza outras pessoas moraram ali, então por que Tsukishima foi a primeira pessoa a lhe ver em todo esse tempo? O que o loiro tinha de especial? Todas essas questões envolvendo o garoto rodopiavam em sua mente e, para Kuroo, Tsukishima era o verdadeiro mistério. Ele precisava descobrir a resposta então deveria se aproximar mais do mau humorado rapaz. Ok, essa é a parte complicada, mas ele não deixaria de tentar e, em meio ao silêncio da noite onde somente o tique-taque era ouvido, Kuroo pensou na melhor forma de se tornar mais próximo de Tsukishima.

No contexto geral, Tsukishima já queria ajudá-lo, porém da forma errada. Entretanto, o loiro querer libertá-lo era a melhor chance que Kuroo teria, seria apenas justo usar o interesse que Kei tinha em se livrar dele contra o próprio.

E assim que Tsukishima acordou, Kuroo colocou seu plano em prática:

— Ei, Megane-kun. — chamou enérgico. Tsukishima ignorou, sonolento demais para prestar atenção nele. — Eu tenho uma proposta.

— Seja o que for, eu me recuso.

Tsukishima era sincero demais, beirando a maldade, e Kuroo se segurou para não retrucar cinicamente, não era hora para isso, ele precisava mesmo descobrir mais sobre o quatro olhos.

— Achei que quisesse se livrar de mim, — empinou o nariz, o ar superior. — Mas vejo que gosta da minha ilustre companhia.

Com o óculos no rosto, Tsukishima o encarou com desinteresse. Bom, pelo menos ele parecia estar o escutando.

— E qual seria essa proposta?

“Pelo menos finja estar interessado!” Kuroo pensou frustrado.

— Preciso que me ajude a sair daqui e em troca você nunca mais vai me ver.

Kei balançou a cabeça mostrando entender. Os olhos centrados encarou Kuroo por alguns instantes.

— Claro, eu vou te dizer tudo o que eu sei, — o moreno se apressou a dizer, temendo a recusa do outro.

— Sim, vai ser bom ter minha paz e privacidade de volta.

Com a resposta do loiro, Kuroo sorriu maldoso e Kei franziu o cenho sem saber como interpretar o ar esperto que rodeava o outro homem, mas preferiu não se incomodar em fazer qualquer pergunta. Deixaria tudo que envolvia Kuroo para mais tarde.

Os dias, no entanto, passaram com pressa e o entusiasmo inicial de Kuroo se esvaiu assim como suas esperanças de entender o que estava acontecendo. Mesmo dizendo o nome do feitiço em que foi jogado, Kei nada encontrou sobre e como em um efeito ‘osmose’, Kuroo aprendeu mais sobre Tsukishima, coisas como o fato de que Kei não toma café doce demais, preferindo o sabor mais amargo; como os estudos eram prioridade e ele religiosamente passava duas horas por noite revisando cada matéria e fazendo seus deveres. Tsukishima não tinha nenhuma roupa com cor extravagante também; sendo vermelho a cor mais chamativa em todo o seu guarda-roupa. O garoto era muito fechado e introvertido, então foi quase impossível manter um diálogo decente com ele e tudo o que Kuroo aprendeu foi superficial, nada lhe deixando mais próximo em entender qual o papel de Tsukishima em toda aquela história, mas nem tudo foi em vão, Kuroo descobriu com muito prazer que ser chamado de ‘Tsukki’ irritava mais Tsukishima do que ‘Megane-kun’.

— Tsukki, tenho certeza que você não tá procurando direito.

Kei suspirou com força, a irritação crescendo a cada vez que Kuroo abria a boca.

— Já disse, não há nada nem na internet nem em livros de bruxaria que eu li.

— É uma magia rara, como eu disse. Precisa procurar com mais empenho!

E foi isso, aquilo era a gota d’água e Tsukishima largou a caneta na mesa exasperado, encarando Kuroo com os olhos flamejantes.

— Eu perdi meu dia de folga para procurar essa “magia antiga”, — disse com sarcasmo e fez um gesto de aspas. — Não achei nada. Vê se fica calado, pois tenho uma prova semana que vem e preciso estudar!

Com o silêncio de Kuroo, finalmente, Kei voltou a se concentrar em seus estudos porém não havia se passado nem mesmo um minuto e o som irritante de batuque soou pelo quarto. Tsukishima massageou a têmpora tentando manter a calma pra não fazer uma loucura como tentar quebrar aquele maldito vidro. O loiro se virou para brigar com o homem, mas Kuroo olhava para o lado, parecendo pensar. Tsukishima observou por alguns segundos, curioso demais para reclamar sobre o barulho. Não que fosse admitir tal coisa.

— Tenho uma ideia, — Kuroo disse de repente, animado. — Você pode ler como se estivesse me explicando o assunto da sua prova. Sou um bom ouvinte e assim você mesmo aprende melhor.

Kei ponderou a proposta, achando mesmo a ideia ótima. Ele mudou a posição da almofada para ficar na frente do espelho mágico e começou a ditar com uma voz monótona e endurecida o texto que estava estudando, sua personalidade introvertida marcando presença.

 

Kuroo falou a verdade ao dizer ser um bom ouvinte, pois ele se limitou a falar apenas quando Kei parecia ter dificuldade em alguma parte específica. Meia hora depois, Kei debatia o assunto com Kuroo como se este fosse um colega da sua classe e, sem perceber, Tsukishima estava se divertindo.

Eles nem ao menos perceberam o tempo passar e, com um susto, Tsukishima viu que já havia se passado duas horas, ele guardou todos os seus materiais e ambos ficaram em um silêncio agradável. Naquela noite Tsukishima esqueceu da irritação costumeira que Kuroo trazia e Kuroo esqueceu das suas provocações azedas.

Pela primeira vez, depois de uma hora conversando banalidades, os dois estavam com sorrisos sinceros nos lábios e Tsukishima dormiu bem como a muito tempo não o fazia.



~~~**~~~
 


Bocejou cansado, arrastando os pés com os olhos pesando de sono. Nos últimos dias não havia descansado o suficiente; cada vez que se deitava para dormir perdia mais de uma hora conversando bobagens com Kuroo.

Sem perceber, essas conversas haviam se tornado parte da sua rotina e Tsukishima sentia saudades dele durante seu agitado dia de estudante e funcionário no café. Ao chegar em casa ele corria para ver o homem e pegou o hábito de comer no quarto, na sua mesa de estudos, apenas para não perder mais nenhum minuto longe dele.

Tsukishima começou a se preocupar com essa crescente necessidade de estar perto de Kuroo. Ele nunca sentiu algo assim, às vezes não parecia natural e Kuroo também parecia confuso sobre esse sentimento desconhecido. Não era paixão, pois Kei já havia se apaixonado e as sensações nem chegavam perto do que acontecia em seu peito agora.

Na última semana ficou o mais longe possível de Kuroo, o descontrole acontecendo dentro do seu corpo não lhe agradava e precisava descobrir o que era.

Parou de andar, seu pequeno prédio a dez metros de distância. Buscou seu celular que vibrou no bolso do seu casaco. Um alerta de mensagem do Yamaguchi brilhou na sua tela travada pela senha. Pôs sua digital para desbloquear o telefone, deslizando o dedo pela tela para ler a mensagem.

Yamaguchi:
Hinata me pediu para te chamar para assistir ao jogo dele amanhã.

Observou a tela por um tempo. Poderia pedir uma tarde de folga no trabalho já que fazia hora extra sempre que o chefe pedia para que ele fechasse o café.

Ouviu um farfalhar entre as escassas árvores do parque próximo de onde estava. Olhou ao redor, atento. Não era a primeira vez que sentia suas costas queimar como se estivesse sendo observado. Teve a impressão, umas duas vezes, de que estava sendo seguido, porém nunca viu ninguém suspeito.

Talvez devesse chamar a polícia, mas não poderia fazer isso sem pelo menos ver o rosto de quem estava lhe seguindo. Sem ver nada e nem ninguém por entre as árvores, Kei se voltou para seu celular.

Você:
Eu vou.

Guardou o celular e apressou seus passos, ele escutou o barulho de folhas pisadas e arbustos se mexendo, mas não parou e nem olhou ao redor. A situação já estava causando arrepios na sua espinha, então buscaria ajuda da polícia.

Suspirou aliviado quando abriu a porta do seu apartamento e andou devagar em direção ao seu quarto, a vontade de ver Kuroo martelando seu peito. Tsukishima não conseguia compreender como poderia se sentir assim quando conhecia o outro homem a menos de seis meses. Aquela ânsia não era normal, bem sabia disso, e precisava achar uma forma de tirar Kuroo dali para se afastar um pouco dele porque as incertezas começavam a lhe enlouquecer.

— Como foi seu dia, Tsukki?

A voz do moreno ressoou pelos seus ouvidos e Kei fechou os olhos com força. Estava de costas para o espelho, mas conseguia sentir os olhos castanho fitando suas costas. Ele mordeu os lábios, a vontade de tocar Kuroo fazendo a palma da sua mão coçar. O que, por deus, era aquilo?

— Normal.

Kuroo semicerrou os olhos, desconfiado. Tinha alguns dias que Tsukishima andava estranho; não olhava em seus olhos, falava consigo de forma seca e respondia com monossilábicos. O comportamento grosso era diferente do introvertido característico dele, e Kuroo precisava saber o que fez com que ele mudasse bruscamente.

— O que há com você, Tsukki?

— Pode parar de me chamar assim?

— Não.

A conversa parou por ali, e Tsukishima ignorou com veemência qualquer tentativa de diálogo do Kuroo.

Confuso, Kuroo sentou de forma desleixada, a lateral do corpo encostada na parede de vidro. Andava pensando bastante na crescente ligação que o conectava a Tsukishima. Sua afeição pelo loiro não era algo comum e nunca sentiu nada tão forte. Keiko foi seu amor por toda a sua vida e em todo o milênio em que esteve ali também, mas era diferente agora porque Tsukishima ocupava sua mente e ele nem poderia mentir dizendo que era o mistério em torno do rapaz que importava. Não. Kuroo queria vê-lo e conversar com ele, provocá-lo apenas para ver o semblante apagado do loiro ganhar vida e a irritação fazer com que franzisse o cenho.

Ele ficava tão bonito quando nervoso. A implicância também era gostosa e, de vez em quando, Kei sorria pequeno e de forma sincera.

Kuroo já não sabia como interpretar seus próprios sentimentos e isso era frustrante.

Calado assistiu espantado Tsukishima apagar as luzes e ir dormir sem jantar e sem estudar, uma clara quebra da sagrada rotina que, mesmo agindo estranho, ainda estudava no quarto e conversava (na verdade mais escutava que qualquer coisa) com ele.

Encostou a cabeça no vidro e suspirou fundo. Tudo o que restava naquela noite era um irritante tique-taque e sua tristeza por não escutar a voz que tanto ansiava.
Ficou tudo muito quieto, mas não por muito tempo. A lua já estava alta quando Kei levantou da cama e Kuroo achou a movimentação estranha, ele também se levantou. Tsukishima parou em sua frente. Ambos se encararam, o coração batendo apressado.

Tsukishima olhava para sua mão enquanto tocou o vidro e Kuroo seguiu o seu olhar. A mão dele se juntou a do loiro e os olhos voltaram a se conectar.

— O que você está fazendo comigo? — Kuroo sussurrou.

Kei encostou a testa contra a de Kuroo, apenas o fino vidro os separando.

— Eu não sei.

No resto da noite, ambos deitaram lado a lado e Kei se encolheu contra o vidro, seu corpo necessitando tocar o corpo do outro.

Na hora de acordar, Tsukishima não queria sair de casa, não queria sair de perto de Kuroo, mas não poderia ficar, então com rapidez se arrumou e foi embora tendo a certeza de que se ficasse mais um minuto acabaria desistindo.

Kuroo não abriu a boca, pois se o fizesse, imploraria para ele ficar.

Avoado, Kei mal absorveu o que viveu durante aquele dia. Ele não se lembrava de sair da faculdade para o ginásio onde o jogo de vôlei do time de Hinata e Kageyama aconteceria, na verdade, ele sentiu que acordava de um profundo sonho ao chegar no seu prédio. Meio desconcertado, olhou ao redor, tendo certeza que havia mais alguém ali com ele e não estava errado porque um homem estranho parou a alguns metros de si.

Ele possuía uma estranha beleza; os olhos cor de mel, o cabelo com mexas brancas caído nos olhos e no ombro. A vestimentas em si era o mais incomum. Ninguém vestia um casaco tão pesado no outono e mesmo estando frio, o sobretudo até os pés era um exagero. E qual era a do capuz? Um fugitivo da polícia? Um assassino?

— Tsukishima Kei…

— Não se aproxime! — Kei quase gritou, mas o homem ameaçou dar um passo pra frente e Tsukishima se viu obrigado a mostrar o celular. — Se você chegar mais perto eu chamo a polícia!

O estranho piscou surpreso e levantou as mão em sinal de rendição, devagar desceu o capuz, voltando a erguer as mão quando Kei tocou na tela do celular.

— Sei que não me reconhecesse, mas prometo que posso te ajudar a tirar o Kuroo do Espelho da alma.

Kei relaxou, sabendo bem que o homem não poderia estar mentindo. Ninguém, nem mesmo Yamaguchi, sabia sobre Kuroo e o espelho.

— E como você pode fazer algo assim?

— Me leve para vê-lo.

Tsukishima ponderou as suas opções. Obviamente aquele homem estava lhe seguindo todo esse tempo, mas ele sabia bem os estranhos acontecimentos e também sabia o nome do Kuroo. Era a melhor chance de tirar o moreno do espelho e devolver a sua liberdade. Uma vez, em uma de suas conversas com Kuroo, o homem confessou o quanto sentia falta de estar livre, o tom dele foi de angústia profunda e Tsukishima sentiu o peito apertar. A verdade era que sua tentativa de libertar Kuroo não era mais para se livrar da sua presença e sim para vê-lo feliz, para poder finalmente toca-lo como tanto estava desejando.

— Vem comigo.

O homem respirou aliviado e lhe seguiu. Tsukishima esperava muito que estivesse fazendo a coisa certa.



~~~**~~~
 

 

 — Tsukki! Que bom que você chegou, eu já estava me sentindo aban…

O sorriso e a voz de Kuroo sumiram assim que pôs os olhos na inusitada visita. Tsukishima ter trazido alguém ao apartamento correndo o risco de verem Kuroo já era inusitado o suficiente para preocupá-lo, mas nada poderia ter lhe preparado para quem estava vendo.

— Bokuto... — murmurou embasbacado. — ... como?

O semblante de Kei fechou no mesmo instante. Por alguma razão, ter outra pessoa vendo Kuroo indefeso daquele jeito, o incomodou profundamente.

— Você o conhece?

Sua agitação interna subiu mais ao ser ignorado por ambos os homens, nenhum dos dois se dignaram a responder e Kei não gostou da troca intensa de olhares. Mudou o peso de uma perna pra outra, o cenho franzido ao máximo e um discreto bico nos lábios.

— Kuroo... Faz muito tempo, irmão.

A fala do homem desconhecido pegou Tsukishima de surpresa, ele deu um rápido olhar na direção de Kuroo, vislumbrando um sorriso gentil nos lábios dele. Kuroo o chamou de Bokuto, então o nome ele já sabia, mas irmãos? Nem  poderia dizer se aquilo era ao menos possível.

— Vocês são irmãos? Eu nunca teria imaginado.

Um silêncio estranho pairou sobre o ar. Tsukishima olhou de um para outro sem entender a reação de Kuroo diante do outro homem, desde quando Kuroo tinha a capacidade de olhar de forma carinhosa e melancólica para alguém? E aquele sorriso? Kuroo sorriu apenas uma vez de forma sincera para ele, mas para aquele estranho o moreno abriu tal sorriso com facilidade? Isso não era justo…

Seus olhos se arregalaram quando percebeu a careta com a qual encarava Kuroo, o moreno já devolvendo o olhar com uma dúvida estampada no rosto então Tsukishima virou o rosto pigarreando para disfarçar. Por que estava tão descontente com a relação entre eles? De qualquer forma, Kuroo não se portava como um irmão, mesmo estando claro que ambos tinham um laço forte.

— Eu pensei que nunca mais o veria, Bokuto.

Pela primeira vez a voz de Kuroo estava mansa e Kei detestou isso, ele preferia aquela voz com o tom malicioso e provocante ao qual Kuroo sempre usava para debochar dele, ou a voz esperta e engraçadinha. E aquele tom manso deveria ser dirigido a ele que estava suportando aquele idiota por todos aqueles dias!

— Eu esperei pacientemente o dia em que te tiraria daí, Kuroo.

Cansado de ser ignorado no seu próprio quarto, Tsukishima ficou entre os os dois. Olhou de relance para Kuroo, ainda com o semblante fechado e se concentrou no “visitante” em seguida.

— Você disse que sabia como tirar ele do espelho. Me diga como se faz que eu vou libertá-lo.

Bokuto olhou incerto sem saber como reagir com o tom ríspido que o loiro usou, sua cabeça pendeu um pouco para o lado, mas logo ele espantou as dúvidas. Tirou com calma o sobretudo que usava e o jogou na cama.

As roupas por debaixo do sobretudo eram tão estranhas quanto o casaco em si. Botas, calça e um kimono. Quantos anos aquele cara tinha?

— Mas é claro que você é quem vai liberta-lo, — o homem de cabelos brancos respondeu tranquilo tirando o kimono e ficando com uma regata branca. — Belo aquecedor você tem em casa, estou suando!

E ele riu.

Tsukishima se perguntou se deveria retrucar, mas decidiu por deixar quieto.

— O que quer dizer com ele poder me libertar, sua Coruja irritante?! — Kuroo questionou e Bokuto pareceu irritado, mas logo riu.

 “Serio, de onde esse cara saiu?” Tsukishima se perguntou.

— Exatamente o que eu disse, Kuroo.

Uma veia na testa de Kuroo saltou, suas mãos em punho e Kei achou que ele sairia do espelho só pra dar uns tapas no cabeça de vento, não tinha outra forma de definir Bokuto.

— Sua Coruja velha! — o moreno resmungou, — Você como bruxo deve saber bem que ninguém além de quem fez o espelho da alma pode quebrar o feitiço.

Bokuto assentiu, colocando as mãos na cintura e alongando as costas até ficar totalmente relaxado. Tsukishima se perguntou novamente onde foi que se meteu, ele abriu a boca para reclamar de toda a falta de vontade dos dois homens de esclarecer o que estava acontecendo quando finalmente realizou o que Kuroo disse. “Ninguém além de quem fez o espelho da alma pode quebrar o feitiço”.

Virou-se devagar para fitar Kuroo com o seu melhor olhar de traído.

— Você sabia o tempo todo como quebrar a maldição, — murmurou.

Kuroo mentiu para ele. Disse que lhe contaria tudo o que sabia, mas nunca disse nada além do nome do feitiço. Tsukishima havia se sentido conectado ao outro homem e quis, com todas as forças, tirar o olhar de angústia do seu rosto, ele havia passado noites sem dormir, procurando desesperado uma forma de tirar Kuroo do espelho para, finalmente, poder tocar a mão dele e encostar a testa contra a sua. E agora ele descobriu que tudo o que viveu nos últimos meses era uma mentira, que o Kuroo que conheceu foi uma ilusão.

Quando Kuroo notou o erro que tinha cometido já era tarde demais, assim que ele percebeu que seu coração batia mais depressa perto de Tsukishima, decidiu que jamais contaria que sua saída do espelho era impossível porque o olhar de Kei sempre mudava de peixe-morto para esperançoso ao achar pistas de um jeito de o libertar e Kuroo não queria tirar isso dele.

Certa vez conversaram sobre como Kuroo se sentia estando enjaulado como um animal em um zoológico e pareceu que Tsukishima iria chorar apenas por Tetsurou estar triste. Kuroo desejou nunca mais ver o rosto dele daquela forma.

— Tsukki, não é o que você está pensando.

Ele soltou uma risada amarga e saiu do quarto. Covardia. Kuroo não poderia ir atrás dele por mais que quisesse.

Desesperado, Kuroo se jogou contra a parede transparente.

— Tsukishima, volta aqui!

Nenhuma resposta e Kuroo mordeu os lábios, furioso consigo mesmo. Tsukishima devia estar chorando, tinha certeza! Voltou a se jogar contra a barreira que o aprisionava, um baque alto soou com o impacto e Kuroo sentiu o seu ombro direito queimou, mas não importava, ele precisava sair dali.

— Kei, por favor, deixe-me explicar. — implorou para o nada, continuando a se jogar contra a barreira.

Bokuto olhou de um lado para o outro completamente perdido, ele se apressou a se aproximar do espelho, esquecendo que não podia parar o melhor amigo por causa do espelho e só pode observar sangue escorrendo pelos olhos do Kuroo enquanto mexeu as mãos de forma ansiosa.

— Para, Kuroo! — Bokuto exclamou nervosamente. — Se você continuar batendo contra o espelho ele vai te castigar.


O alerta, no entanto, veio tarde e Tsukishima correu para seu quarto ao ouvir os gritos de dor e o som de estalos.

Quando viu a cena ele mordeu os lábios, suas mão tateando o espelho tentando entrar e segurar Kuroo em seus braços. Ali, na sua frente, Kuroo sofria espasmos como se estivesse levando um forte choque.


Por mais que tentasse ajudar, não havia nada que pudesse fazer e, no fim, ele assistiu Kuroo cair, como que em câmera lenta, desmaiado bem na sua frente. Tsukishima caiu de joelhos em seguida, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

 A culpa era sua! Se não tivesse fugido como o maldito egoísta que era, Kuroo ainda estaria bem.

Bokuto andou hesitantemente até Tsukishima, rondando o garoto sem saber como falar com ele. Não tinham intimidade, não mais. Kei não se lembrava dele e Bokuto precisava ter tato ao abordar a criança, especialmente no estado emocional em que ele se encontra.

— Ele vai ficar bem, — garantiu suavemente. — Preciso que você esteja bem para quando ele acordar para que você o liberte.

Kei negou, a mão em punho encostada na superfície de vidro. — Não vou poder libertá-lo! Você não ouviu?

Bokuto se agachou ao lado dele e chegou perto suficiente para tocar, mas não muito mais para não ser invasivo.

— Eu não estaria aqui se não soubesse o que estou fazendo.

Demorou um pouco, mas Tsukishima acenou e se levantou. Não levou muito mais do que alguns minutos para Kuroo acordar parecendo bem e praticamente pulando quando viu que Tsukishima retornou ao quarto.

— Kei, acredita em mim, eu jamais tive a intenção de enganá-lo! — se explicou depressa. — Eu sabia que se falasse pra você que é impossível me tirar daqui, você faria aquela cara triste de novo. Eu nunca mais quero ver você sofrer outra vez.

— Patético, — Tsukishima murmurou, o rosto virado e os olhos escondidos pelas lentes de seu óculos. — Eu só queria me livrar de você.

As palavras feriram Kuroo de uma forma que ele não sabia ser possível. Recuou um passo, sentindo que poderia cair com a força que a simples fala de Kei o atingiu. De repente, o choque que o espelho lhe deu como castigo não doía nada comparado ao seu peito esmagado. No fim, ele era só um incômodo.

— Entendi…

Bokuto suspirou cansado e se aproximou deles, tocando o ombro de Tsukishima.

— Tsukishima, eu sou o que chamam de Bruxo Branco. — falou com calma. Kei o encarou, prestando atenção. — Basicamente a minha magia é limpa e coisas como maldições ou magia negra são impossíveis para mim. Se eu fizesse qualquer coisa como isso perderia a minha alma para sempre.

Kei acenou, mostrando entender, ele chegou a ler algumas coisas sobre bruxos enquanto procurava algo para quebrar a maldição do espelho da alma, mas não cogitou que seria verdade, porém não estava realmente surpreso por ser.

— No passado eu apresentei você e Kuroo, — Bokuto disse e sorriu diante do espanto de Tsukishima. — Você não lembra porque foi em uma vida passada.

— Bokuto, — Kuroo chamou quietamente. — Você está dizendo que Kei é...?

Bokuto assentiu sem olhar para Kuroo. Tsukishima abaixou a cabeça, não querendo olhar para o homem que feriu gratuitamente.

— A mil anos atrás, os vampiros foram expostos à humanidade. Muitos caçadores foram enviados para matar Kuroo e, mesmo sendo um conde, Kuroo jamais conseguiria se proteger de todos. — continuou explicando. — Keiko, sua vida passada, foi minha aluna. Ela era uma bruxa branca muito talentosa, mas largou tudo para viver com Kuroo.

Tsukishima apertou seu braço, uma confusão de sentimentos o acometendo. Então era por isso que se apaixonou tão rápido por Kuroo, esse era o motivo da conexão entre eles ser tão forte. Os sentimentos não eram seus, eram dela, da sua vida passada.

— O espelho da alma não é uma maldição, como você parece acreditar, — Bokuto disse e se aproximou do espelho, forçando Kei a olhar para a estrutura enquanto seguia seus movimentos. Seus olhos cor de mel cruzaram com os de Kuroo, mas desviou rapidamente. — Keiko protegeu Kuroo invocando essa magia antiga. O espelho guarda a alma da pessoa em segurança e é invisível aos olhos. A única pessoa que pode tornar o espelho visível é a que o invocou, assim como somente essa pessoa pode desmancha-lo.

— Eu não sou a Keiko, — Tsukishima falou alto, quase que furioso. — Eu sou Tsukishima Kei, não importa quem eu fui em outra vida. Lembranças, sentimentos, isso tudo que a Keiko fez e foi não sou eu! Não posso fazer magia alguma.

Ofegante, Kei apertou a blusa que cobria o seu peito. Sim, aquilo era a verdade, ele não era Keiko. Não era uma bruxa e os sentimentos de Keiko não eram os seus. O que Kuroo era para ele não tem nada a ver com o que viveu em uma vida passada, tudo o que acontecia em seu corpo e em sua alma, bem como em seu coração, pertencia a Kei e somente a ele.

Bokuto não se ofendeu, ele até mesmo gostou da sinceridade do garoto, já Kuroo por sua vez ficou chocado com a necessidade que Kei precisou de afirmar isso. Será que em algum momento Kei achou que Kuroo confundiria os dois? Impossível, Tsukishima era único.

— Os humanos que viram Keiko invocar o feitiço lhe acusaram de bruxaria e a queimaram, — Bokuto falou com pesar. Kuroo abaixou a cabeça e Kei se sentiu mal por vê-lo sofrer pela morte da pessoa que ama. No fim, ele sempre seria egoísta. — Mas Keiko sempre foi esperta. O espelho da alma guarda um pedaço da alma de quem o invocou. Parte de Keiko está dentro de você, Tsukishima, e eu vou trazê-la à superfície. É ela que vai libertar o Kuroo.

Kei se encolheu; seus braços abraçando suas pernas. No fim não era ele quem libertaria Kuroo e sim a pessoa que Kuroo ama. Ele foi inútil, assim como Kuroo já esperava.

— Pode não parecer, mas esse cara é o maior bruxo que eu já conheci. — Kuroo disse, achando que o desânimo de Tsukishima fosse por medo de não conseguir trazer Keiko. — Mesmo que ele não tenha conseguido impedir a morte da Keiko.

— Se for pra me atacar não comece elogiando! — Bokuto resmungou irritado.

Kei se levantou, os olhos de peixe-morto voltaram e Kuroo fez uma careta de desagrado. Detestava quando Tsukishima agia como uma casca vazia.

— Ela se deixou levar para tirar o foco de você, engraçadinho. — Bokuto disse, ainda retrucando a provocação sem perceber que Kei havia se levantado. — Vocês já estavam ligados pelo espelho da alma e ela sabia que reencarnaria até vocês se encontrarem novamente para que o feitiço fosse desfeito. A marca que você e o Tsukishima compartilham é como um imã, um chamado. Levou mil anos, mas no fim Tsukishima veio até você.

Kuroo vislumbrou os olhos perturbados de Tsukishima e se agitou, ele tocou no espelho, mas foi rejeitado tendo a mão queimada e soltou um gemido de dor.

— O que...?

Kei se aproximou preocupado e perguntou: — Como você se queimou?

— Eu só toquei de leve no espelho.

— Ele não vai deixar que você toque por causa que você ficou se jogando contra o espelho anteriormente. Fique longe da superfície, Kuroo.

 

Kuroo obedeceu 3 se afastou um pouco enquanto Tsukishima se virou para Bokuto.

— Traga ela logo, precisamos tirar ele dali.

Bokuto concordou. Ele pegou os pulsos do loiro com calma e encostou a sua mão no espelho. Kuroo achou que o espelho queimaria Kei também e correu para impedir, mas Bokuto o lembrou que se tocasse em alguma parte ele próprio seria queimado. Tsukishima murmurou um “eu estou bem” para o moreno preocupado e Kuroo suspirou aliviado.


— Não solte o espelho em hipótese nenhuma. — o bruxo avisou e Kei assentiu.


Bokuto então tocou na sua cabeça e na base das costas, fechou os olhos e se concentrou.



~~~**~~~
 

 

Como em um sonho, Tsukishima viu uma garota de longos cabelos dourados rir enquanto corria de um Kuroo alegre. Ele era rápido e ela usava magia para atrapalhá-lo em sua corrida, os dois estavam brincando de pega-pega e Kei achou ridículo dois adultos agindo como crianças. O cenário então mudou e Kei agora viu a garota chorando enquanto Kuroo tentava fugir dos humanos, ele estava bastante ferido e Tsukishima sentiu a dor dela como se fosse sua.

Ele assistiu enquanto, em um ato de desespero, ela jogou o vampiro longe, abrindo os braços e levantando a cabeça; os olhos brilhando em uma luz pura. A palavras “hic tantum habere tibi et dimittam te” saíram dos seus lábios e a mente de Tsukishima as traduziram automaticamente: Aqui eu te prendo e somente eu te solto.

A atitude da mulher chamou atenção dos humanos que gritaram “bruxa, bruxa!” e a agarraram. Enquanto isso acontecia, Tsukishima viu Kuroo gritar, o vidro se formando em quatro paredes ao se redor dele e a mulher loira sorriu e, mesmo com as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, ela parecia satisfeita por poder salvá-lo.

Kei sentiu-se cair em meio a escuridão; uma queda sem fim no vácuo da sua mente, porém, ele não sentiu medo e fechando os olhos ele pode sentir as misturas de certezas e decisões que a mulher havia passado ao invocar o espelho de sua própria alma.

A marca próxima da sua virilha queimou e a imagem tremulante de Keiko apareceu na sua frente: ela estava conformada com a sua morte e Kei viu atrás de si a fogueira acesa.

Ainda em queda livre, Kei sentiu o corpo queimar. Ele gritou agoniado, implorando para que parassem e o tirassem dali, levou suas mãos ao alcance dos seus olhos, sua pele partindo do vermelho até desmanchar.

E antes de desmaiar pela dor excruciante, Kei ainda pode ouvir Keiko sussurrar:
— Cuide bem de Kuroo.



~~~**~~~
 


Kuroo assistiu assombrado os olhos de Tsukishima ficarem brancos e uma luz sair deles. O rapaz murmurou algo que não conseguiu entender e depois caiu desacordado.

As paredes ao seu redor se desfizeram pouco a pouco – exatamente como quando foram erguidas – até não restar mais nada. Kuroo caiu no chão e olhou para trás, uma parede normal agora ocupava o lugar que anteriormente estava o Espelho da alma.

Ele cambaleou até chegar perto de Tsukishima e o segurou no colo, o levando até a cama. Procurou por Bokuto pelo quarto e o encontrou já vestido com o seu sobretudo e perto da porta.

— Minha parte eu já fiz, Kuroo. Depois eu volto para recuperarmos o tempo perdido. Tem uma pessoa que eu preciso ver agora.

Kuroo levantou a sobrancelha para o tom apaixonado que Bokuto usou, mas nada disse, só assistindo seu amigo suspirar como um idiota e sair do apartamento.

O moreno suspirou com tristeza e sentou ao lado de Kei na cama. Por um minuto sentiu Keiko quando Tsukishima tocou no espelho, mas assim como essa sensação veio, ela foi embora rapidamente e Kuroo soube no mesmo instante que Keiko se foi definitivamente.

Logo em seguida ele sentiu fome, como era bom estar livre, e percebeu isso enquanto corria para fora do prédio. Com rapidez ele alcançou uma pequena floresta longe da cidade – era surpreendente que ainda estivesse em pé mesmo depois de mil anos. Ele se alimentou de um veado, consumindo todo o seu sangue por estar tão faminto consumiu, abraçou então o corpo do animal, lamentando por ter que matá-lo – normalmente ele nunca matava suas presas, mesmo que isso significasse se alimentar mais vezes do que o costume. Enterrou o animal na floresta e voltou para o prédio de Tsukishima.

Assim que passou pela janela parou a corrida vendo que Tsukishima já estava acordado. O loiro permaneceu imóvel mesmo depois de notar sua presença.

O rapaz não parecia estar bem e Kuroo preferiu permanecer onde estava.

— Estou livre, dá pra acreditar?!

Riu nervoso. Kei não se mexeu e não respondeu então Kuroo se aproximou mais, embora ainda mantivesse uma pequena distância entre eles.

— Você me libertou como disse que faria, Tsukki, estou tão feliz.

— Não fui eu, foi a sua mulher.

Kuroo esperava que Kei sentisse raiva, rancor, chateação, porém não estava preparado para o quanto o rapaz pareceu vazio ao dizer aquilo.

— Não, foi você, Kei.

Silêncio. Kuroo engatinhou pela cama, realmente preocupado com o loiro.

— Kei, olha pra mim.

Nada. Nenhuma reação. Tsukishima não lhe expulsou da casa nem disse que finalmente estava livre dele, o loiro não reclamou da ousadia de chamá-lo pelo nome como se tivessem intimidade. Ele só quase parecia morto.

— Não faz assim Kei, olha para mim!

Os olhos cor de mel vazios encontraram os seus e Kuroo sentiu os seus olhos marejar. Mordeu o lábio inferior para segurar o choro.

— Kei, o que está acontecendo? Fala comigo.

Lentamente o mais novo levantou, segurando a cabeça como se ela doesse.

— Vá embora.

Kuroo encarou as costas de Tsukishima perdido. O que era aquela recusa de repente?

— Não, — respondeu sucinto, — Não sem uma garantia que você está bem.

Tsukishima abaixou a cabeça e Kuroo se sentiu triste por saber que o outro realmente só quis ficar livre da sua presença, mas tudo bem, mesmo com o coração quebrado Kuroo daria a paz que Kei tanto queria. Ele só precisava saber, precisava garantir que Tsukishima ficaria bem.

— Você não se importa comigo, — foi o que Tsukishima murmurou. — Keiko não vai aparecer, se é isso que está esperando.

— Que...?

— Eu disse que o amor da sua vida se foi. Ela não tá aqui. — finalmente Kei reagiu, virando todo o corpo para encarar um chocado Kuroo. — Eu sei que você quer ela mais do que tudo, eu vi você chorando por ela! Mas ela não vai aparecer... Desculpe.

O final da fala foi sussurrado. Não havia cinismo ou sarcasmo nas duras palavras de Tsukishima e ele realmente acreditava em tudo o que disse. Kuroo balançou a cabeça em negativa, sorrindo feliz.
Kei não soube como interpretar a súbita felicidade estampada no rosto do moreno.

— Para uma pessoa inteligente, você é bem burro. — Kuroo riu com vontade, o peito explodindo de felicidade, tanto que não dava pra se controlar. — Eu amei muito Keiko, sim, e sofri a perda dela, mas — enfatizou quando Kei abaixou a cabeça triste. Ele se aproximou e levantou o queixo do loiro com a mão. — Eu jamais esperei por ela, Kei. Estou aqui por você e, como você mesmo disse, você não é ela e quem eu amo... — Kuroo encostou sua testa na de Tsukishima, segurando-o pelo pescoço. — É você, Tsukishima Kei.

Os olhos cor de mel se arregalaram e encheram-se de lágrimas. O liquido transparente caiam em cascatas pelo seu rosto e Kei mordeu o lábio inferior, o cenho franzido, os dedos longos se agarraram nas laterais da blusa de Kuroo, ele não suportou encarar os gentis e amorosos olhos castanhos, por isso acabou por fechar os olhos.

Kuroo retirou os seus óculos que embaçaram por conta das lágrimas e colocou o objeto na cabeceira da cama.

— Poderia ter dito antes, Tetsurou, seu idiota.

A boca de Kuroo quase caiu no chão.

— Do que você me chamou?

— Tetsurou, — respondeu envergonhado.

Um segundo depois, Kuroo tinha os lábios pressionados contra os de Tsukishima.

O loiro gemeu de surpresa pelo contato bruto, mas correspondeu avidamente.

E enquanto as línguas dançavam uma contra a outra, suas mãos se entrelaçaram e Kuroo delicadamente o deitou na cama, o corpo abraçando o seu.

Kei sentiu que, sim, agora estava em casa.



Sentimentos são
Fáceis de mudar
Mesmo entre quem não vê que alguém
Pode ser seu par


Basta um olhar
Que o outro não espera
Para assustar e até perturbar
Mesmo a Bela e a Fera


Sentimento assim
Sempre é uma surpresa
Quando ele vem, nada o detém
É uma chama acesa


Sentimentos vem
Para nos trazer
Novas sensações, doces emoções
E um novo prazer


E numa estação, como a primavera
Sentimentos são, como uma canção
Para a Bela e a Fera


Sentimentos são
Como uma canção
Para a Bela e a Fera


Notas Finais


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