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História Alta Fidelidade - Capítulo 14


Escrita por: MissQueenBee

Notas do Autor


Vocês lembram em Anjos Caídos daquele capítulo tenso com o Jooheon? E quando em Vermillus acontece aquela situação com o Chang que deixa o Kihyun desesperado?

Pois esse capítulo tá na mesma vibe.

Capítulo 14 - O vazio


Fanfic / Fanfiction Alta Fidelidade - Capítulo 14 - O vazio

11 de Maio

Minhyuk acordou angustiado. Foi como ter o medo de volta. Aquele mesmo medo dos tempos da infância quando sabia que o irmão mais velho estava no exército, mas há poucos dias de voltar para casa.

Movia-se lento na frente da janela, olhando para o lado de fora do apartamento pela fresta da cortina. Esperava que as grossas camadas de tecido pudessem lhe esconder e assim, continuaria a vigiar o carro parado em frente ao seu prédio desde o início da manhã. 

Quando o carro de Jooheon estacionou logo atrás daquele que Minhyuk vigiava, por alguma razão, o automóvel suspeito se moveu pela primeira vez e o ômega, atento, seguiu o veículo com os olhos até que o mesmo desapareceu das vistas. Ainda poderia vê-lo um pouco mais se corresse até o quarto e foi assim que fez. Andou apressado até o outro cômodo e abrindo a janela, apoiou-se nela, forçando o corpo para frente na beirada. Sentiu uma forte dor na parte baixa da barriga e então desistiu de vigiar.

— Me desculpa, abelhinha. — dizia baixo, acariciando a barriga. 

Poucos minutos depois, pelo som vindo da sala, foi possível perceber Jooheon chegando no apartamento e de onde estava, o ômega apenas ouvia os passos cada vez mais perto, diminuindo aos poucos até o alfa parar na porta.

— Está pronto para ir, Minnie?

Minhyuk fez que sim e o alfa entrou de vez, encontrando com ele no meio do quarto.

— Lindo como sempre. — disse, segurando o rosto de Minhyuk entre as mãos. — Faz ideia que hoje vamos sair para comprar as primeiras roupinhas do neném? — desceu uma das mãos até a barriga. — Oh!... Minhyuk… — se ajoelhou na frente dele e levantou a blusa do ômega. — Sua barriga cresceu um pouco mais.  Já dá pra ver.

— Honey, estamos com pouco mais de seis semanas. Você está falando isso só pra me animar.

— Mas é justamente nesse período que ela começa a crescer.

— Jooheon…

— Abelhinha, seu pai não acredita em mim. — O alfa dizia com a boca na direção do umbigo. — Preciso de apoio, se você acredita, por favor bata duas vezes.

Minhyuk dava gargalhadas. Aquele jeito bobo e cativante do namorado tornava seus dias sempre melhores. Deixou-se levar pelas mãos do alfa que parou com ele em frente a um espelho. Jooheon se colocou atrás do ômega e virando o corpo dele um pouco para o lado, levantou a blusa outra vez.

— Consegue ver, meu amor? — perguntou de forma doce.

Minhyuk encarou o próprio reflexo no espelho. Um pequeno montinho na região pélvica se mostrava mais evidente do que há algumas semanas. Colocou as mãos por cima do local, formando um coração e sorriu emocionado. Em seguida, sentiu as mãos de Jooheon se juntando a dele.

— Essa barriga ficará enorme. Do jeito que você sempre sonhou. — falou ao pé do ouvido e deu um beijo no rosto do ômega. — Em alguns meses, meus braços não conseguirão dar uma volta completa no seu corpo.

— Seu bobo! — Minhyuk se virou batendo no ombro de Jooheon. — Você é exagerado.

— Vamos tirar uma foto, o que acha? Podemos fazer isso todos os meses e acompanhar o quanto a barriga cresceu.

Em silêncio, Minhyuk ainda admirava a barriguinha proeminente com um sorriso bobo. Concordou balançando a cabeça sem dar muita atenção para a movimentação constante de Jooheon atrás dele, e enquanto o alfa se ocupava em pegar o celular no bolso, ele apenas olhava para o próprio corpo em processo de mudança.

Há alguns meses atrás, sequer saberia reconhecer o que era felicidade. Conhecia apenas de ouvir falar, de ver as pessoas sorrindo genuinamente felizes enquanto passavam por ele na rua, mas nunca havia experimentado, de fato, esse sentimento. Agora, a felicidade era como parte dele, uma importante e significativa parte de sua atual realidade.

— Olhe para o espelho e sorria. — Jooheon disse com uma mão na barriga de Minhyuk enquanto a outra segurava o celular. — Primeira foto de muitas com nossa abelhinha.

Sorriu e a foto foi tirada. Quando Jooheon se afastou um pouco, Minhyuk o conteve, segurando a mão dele acima da sua. Virou o corpo, ficando totalmente de frente para o alfa e o abraçou, deixando a blusa cair, voltando a cobrir seu corpo.

— Está tudo bem, Minnie?

— Sim… eu só estou feliz.

Os dois ficaram abraçados em silêncio. Jooheon sentia como se algo estivesse acontecendo, algo além da felicidade que Minhyuk dizia sentir. Às vezes tinha a impressão de que ele estava sempre pronto para contar alguma coisa, mas hesitava.

— Minhyuk…

— Nós podemos ir agora, Honey.

Beijou o alfa com carinho e saiu do quarto, deixando Jooheon sozinho e pensativo, sem dar a ele a chance de fazer qualquer pergunta.


O centro costumava ficar movimentado na primavera e o casal, de mãos dadas, misturava-se ao grupo de pessoas que iam e vinham pelos motivos mais diversos.

Jooheon era como uma criança que tudo queria comprar e Minhyuk se ria ponderando sobre o que realmente era necessário para a criança naquele primeiro momento. Aos poucos, a sensação ruim do começo da manhã foi lhe abandonando e ele conseguiu aproveitar o doce momento com seu adorável alfa.

Em certo ponto do dia, Jooheon possuía mais bolsas nas mãos do que podia dar conta e mesmo Minhyuk lhe dizendo que poderia carregar algumas, ele insistia em não permitir que o ômega fizesse qualquer esforço que fosse.

— Eu acho que podemos parar para comer alguma coisa, amor. O que acha?— Jooheon perguntou exausto.

— Acho que isso é você me pedindo socorro. — deu uma risada. — Confessa logo que não aguenta mais carregar essas bolsas.

— É… parece que me conhece mesmo.

— Me dá algumas.

— Não, eu posso dar conta. Quero apenas descansar por alguns minutos.

Pararam em um restaurante e sentaram nas cadeiras do lado de fora. Jooheon suava e respirava tão forte a ponto de Minhyuk sentir pena dele. Fosse por preocupação ou apenas para mostrar sua força como macho alfa, Jooheon ainda era o ser mais adorável e atencioso que havia cruzado o caminho de Minhyuk.

— Eu vou ao banheiro, Honey. Você pede alguma coisa pra gente comer?

— Assim que eu voltar a sentir as minhas pernas outra vez.

Tão logo Jooheon encostou na cadeira, Minhyuk o abraçou e sentou em seu colo provocando um grito de dor por parte do alfa que não sabia se retribuía o carinho ou se gemia com o peso do amado sobre as pernas cansadas.

— Quanta frescura. Eu nem estou pesando tanto para isso. 

— Amor… amor... é sério, minhas pernas estão me matando. Por favor, se levante.

— Acho que alguém precisa de exercícios. — zombava. — Pra que serve essas coxas grossas se eu nem posso sentar nelas?

— Eu posso te sugerir outro lugar pra sentar.

— Seu tarado. — Minhyuk se levantou aos risos. — Tem crianças passando aqui. — balançou a cabeça em negação. — Peça algo para nós. Estou indo ao banheiro.

O namorado o divertia. Não tinha dúvidas disso. Aquele alfa sabia como arrancar sorrisos dele mesmo quando nada parecia bem. Caminhou até o banheiro, vez ou outra olhando para trás e ria sozinho ao perceber Jooheon jogado por cima da mesa, desolado, como se tivesse corrido uma maratona. Quando se virou para entrar no banheiro, ainda aos risos, sentiu no corpo o impacto do choque com um homem alto e forte que saía pela porta. Caiu para trás com as mãos apoiadas no chão.

— Você está bem?

Reconheceria o som daquela voz em qualquer lugar, mas costumava escutá-la com maior frequência em seus pesadelos.  Olhou para a direção dos pés do homem e o coturno militar trouxe lembranças inquietantes. Foi subindo lentamente a cabeça observando as pernas longas e então alcançou a parte superior da farda imunda e desbotada até enfim encarar os olhos. Olhos de demônio.

— Quanto tempo, Minhyuk. — se agachou até onde ele estava caído. — O hyung sentiu falta de você.

Quando percebeu que Minhyuk demorava a voltar do banheiro, Jooheon levantou a cabeça da mesa e olhou pelo vidro. Não havia qualquer sinal do namorado em parte alguma. Deixou as bolsas largadas na cadeira e entrou no restaurante. Procurava entre os rostos aquele a que ele conhecia e entrou no banheiro, vasculhando as cabines. Minhyuk não estava lá.

Saiu desesperado até o balcão e assim que alguém pôde lhe dar atenção ele começou a dizer:

— Você... você viu um rapaz alto, magro de cabelos acobreados? Ele estava usando uma camisa azul de botões e calça jeans clara.

A negativa dos funcionários o deixava ainda mais nervoso. Olhava em volta em um desespero comparado ao dia que salvou Jeon da banheira e então saiu pelas mesas perguntando sobre Minhyuk. A foto dele em seu celular era mostrada, mas ninguém sabia dizer nada a respeito. As pernas antes doídas, nem se sentiam mais. A dor na cabeça motivada pela preocupação ocupava todo o espaço agora.

Uma dupla de policiais passava em frente ao restaurante e quem o visse falar com eles sem entender o contexto da situação, o consideraria louco, dada a animosidade na fala, a forma como gesticulava desesperado por não ter ideia do que acabara de acontecer. Dizia as palavras muito rápido, em atropelos de ideias, visivelmente agoniado pelos pensamentos negativos e atormentado pelas razões possíveis do sumiço repentino.

— Vocês brigaram hoje? — o policial perguntou.

— Não!

— Brigaram recentemente?

— Não! Nós estamos bem.

— Ele já fez algo assim anteriormente?

— Não, ele não faz esse tipo de coisa. Apenas disse que iria ao banheiro e desapareceu. Por favor, eu preciso que me ajudem. Ele está grávido… — a voz embargou. — É uma gravidez de risco. Alguma coisa aconteceu. Eu sei disso. Ele pode ter sido levado por alguém.

— Faz alguma ideia de quem poderia ter feito isso?

Jooheon negou, balançando a cabeça exausto. Ele não tinha culpados ou alguém que pudesse apontar. Não tinha qualquer norte para entender a situação e se estivesse no lugar da polícia, talvez também o considerasse louco e exagerado.

— Vou procurar por ele. Fique aqui e esteja atento ao celular. Ele pode ligar para você.

— Me deixe ir com você, por favor.

— Fique aqui. Não vai ajudar em nada indo comigo. Será mais um para me preocupar.

Encolheu o corpo e silenciou. Não poderia fazer mais nada além disso. A culpa por não ter ido junto ao banheiro começava a surgir, mesmo que não tivesse qualquer justificativa plausível para ele ter feito isso no momento.

As bolsas com as roupas da criança acabaram esquecidas no restaurante e Jooheon tampouco se importava com isso agora. Queria apenas Minhyuk de volta, seguro nos braços dele e protegido em seu abraço.

— Você ainda está por perto. Eu sei que está por perto, Minnie. — Jooheon disse baixo, olhando para todos os lados.

Até mesmo aqueles como Minhyuk que não acreditavam em parceiros destinados, poderiam ao menos admitir que havia uma conexão não apenas física, mas espiritual entre um alfa e seu ômega e isso ia muito além de um simples vínculo estabelecido ao atar ou marcar. Muitos, hoje em dia, sequer faziam qualquer coisa desse tipo e ainda assim eram capazes de estarem conectados aos parceiros de uma forma quase mágica.

Ao saber que Minhyuk estava por perto, mesmo sem vê-lo em parte alguma, Jooheon confirmou essa ligação com Minhyuk e se deu conta que o filho era o vínculo, a criança era o símbolo maior da aliança entre os dois e por isso precisava protegê-los a qualquer custo. Não iria esperar ali, passivo, naquela viatura. Por isso, tão logo viu um dos policiais se distrair, Jooheon abandonou o local e saiu correndo em disparada pelo meio das pessoas rumo ao desconhecido. Não tinha ideia de para onde as pernas o levavam, mas o coração de alguma forma sabia. Seguiu apenas os próprios instintos de alfa em busca do seu ômega e de repente, o cheiro de Minhyuk foi percebido misturado ao odor de vários outros ômegas ali presentes. Parou por um segundo, buscando se concentrar no único cheiro que importava e era como se pudesse sentir ao seu redor as linhas invisíveis que o levariam até o seu ômega.



As mãos grandes e pesadas de Lee Jaemoon apertavam o volante do carro dentro de um estacionamento. O nervosismo do homem era evidente para Minhyuk, embora o ômega sentisse o dobro do que o irmão mais velho sentia. 

De repente, ele esticou o braço na direção do mais novo que encolheu o corpo suado e assustado, mas sem possibilidades de escapar, trancado no carro, bastou a Minhyuk fechar os olhos, sentindo o toque dos dedos nojentos de Jaemon sobre o rosto molhado de lágrimas.

— Por que está tão assustado? Eu não vou te machucar. — prosseguia, passando os dedos pelas bochechas do outro. — Sabe o que me lembrei agora? — começou a rir. — De como o papai te chamava quando ficava assim. Rato assustado. — encostou a cabeça na poltrona e gargalhou. — Você parece um rato assustado, Minhyuk.

As lembranças eram divertidas apenas para Jaemoon, pois ouvir a forma como ele era chamado pelo pai, o deixava ainda mais abalado em meio aquela situação delicada. 

— E quem diria que o rato assustado e único ômega em uma família de alfas seria ironicamente aquele que daria certo na vida. — riu um pouco nervoso. — Ninguém esperava por isso, Minhyuk, você realmente nos surpreendeu. Acho que nossos pais estão orgulhosos de você no céu assim como o Minji, onde quer que ele esteja depois de morrer daquela forma irresponsável.

Minhyuk virou o rosto para a janela e fechou os olhos chorando em silêncio. Em uma única fala, Jaemoon o fez lembrar da morte prematura dos pais em uma viagem e do trágico fim do irmão do meio após dirigir bêbado.

— Apesar de ter restado apenas nós dois na família, eu sinto que devo te parabenizar em nome de todos, mesmo que você tenha escolhido fingir que a gente nunca existiu.

— Você estava preso. — finalmente disse baixo e entre os dentes.

— E você não foi me visitar uma única vez. De qualquer forma, não importa mais. Eu não estou triste com você, Minhyuk. Eu sei que é uma pessoa muito ocupada. Senti a sua falta, mas agora você está aqui e eu mal podia esperar pela hora de sair daquele lugar para finalmente poder te olhar de perto como agora.

Jaemoon inclinou o corpo grande por cima do de Minhyuk, o abraçando com tanta força que o mais novo se movia com dificuldade. 

— Está me machucando. — dizia abafado em um abraço sufocante.

O mais velho não lhe dava ouvidos. Seguia agarrado a ele, cheirando os seus cabelos como um louco.

— Você realmente cresceu e ficou bonito. — segurou os cabelos do mais novo.

Com o queixo apoiado no ombro de Jaemoon, Minhyuk avistou uma caneta por cima do painel do carro. Uma folha com seu endereço estava embaixo dela e isso fez com que se lembrasse do veículo suspeito na frente do prédio pela manhã. Não esperou ele prosseguir com aquela loucura, não permitiria que o irmão o machucasse de novo como nos tempos de menino, então, esticou um braço até conseguir alcançar a caneta e quando a tomou nas mãos trêmulas fincou a parte pontiaguda no ombro do mais velho, provocando nele uma dor tão forte que o alfa soltou Minhyuk, jogando o corpo pra trás.

Ao constatar que o plano deu certo, Minhyuk destravou a porta do carro com pressa e saiu dele apesar do abalo com aquele reencontro inesperado, mas antes que os pés corressem para fora do estacionamento, sentiu os cabelos sendo puxados pelo irmão perverso. 

— Por que você é assim, Minhyuk? — o mais velho gritava em meio a própria dor. 

Minhyuk engolia o choro para se focar apenas na tentativa de sair ileso. Precisava proteger a si mesmo e também ao bebê, mas parecia cada vez mais difícil fugir de Jaemoon, pois com a força que ele tinha nas mãos, pôde facilmente empurrar o corpo do mais novo contra a lataria do carro, enquanto crescia sobre ele.

— Me deixe ir embora!

— Você nunca me entendeu. — Jaemoon gritava e na farda imunda, desbotada, fedorenta e provavelmente roubada, a mancha de sangue só fazia aumentar. — Nunca entendeu os meus sentimentos.

— Você é nojento, Jaemoon. É um doente. Me maltratou a vida inteira. Como irmão mais velho, você deveria ter me protegido, mas era justamente o alfa que mais me machucava.  — chorava desesperado.

— Se te castigava era porque assim como agora, você não queria aceitar a verdade. Eu sou seu irmão, mas também sou um alfa.  Então, até entender que seu lugar é comigo eu vou continuar te machucando quantas vezes forem necessárias. 

O homem então pressionou mais ainda as mãos no pescoço do ômega, espremendo o corpo do mais novo contra o carro.

Minhyuk queria implorar para a consciência do alfa. Dizer a ele que estava em um estado delicado de uma gravidez de risco, mas talvez, dizer ao irmão possessivo que estava esperando um filho de outro alfa poderia resultar em algo ainda pior. Com o resto de força e consciência que tinha, Minhyuk subiu a coxa pelo meio das pernas de Jaem os ir oon e o golpeou na parte mais sensível.

— Filho da puta!

Enquanto ele o xingava e se curvava de dor. Minhyuk aproveitou para fugir do estacionamento, correndo desesperado até a saída que parecia nunca chegar. Quando finalmente enxergou o lado de fora, iluminado pelos raios solares, se apressou em sair do lugar para fugir rumo a qualquer parte da cidade longe dos olhos de Jaemoon. Conseguiu realizar este intento. Estava fora do estacionamento e longe do irmão, mas ao se aproximar da rua principal que ficava há poucos metros, ouviu Jaemoon gritar:

— Minhyuk!

Olhou para trás e o alfa vinha na direção dele com o carro.

— Minnie!

Olhou para a frente e Jooheon surgiu na esquina, correndo e gritando o seu nome afobado. Não dava tempo de sair do lugar. Minhyuk, parado, esticou o braço na direção de Jooheon como se pudesse alcançá-lo, mesmo sabendo que não tinha mais forças para sair dali. Fechou os olhos para que não visse o que estava para acontecer e então sentiu no corpo um forte impacto.

★★★


Há alguns meses, o trajeto até o subúrbio costumava ter um final bem mais feliz para ele. Kihyun ficou de certa forma surpreso ao ver que se lembrava do caminho sem precisar do GPS. Dirigia de forma automática remoendo as notícias que o jardineiro lhe trouxe e elas nunca mudavam, pois Changkyun continuava fora de sintonia, entubado, ligado a aparelhos que o mantinham vivo e sequer sabia como respirar sozinho.

Às vezes, o ômega se pegava pensando se o fato de Changkyun ainda permanecer naquele estado era a falta da confissão de amor que ele pediu na carta de despedida. E então sorvia o amargor da culpa, mesmo que isso não fizesse nenhum sentido em termos práticos ou médicos. 

Chegou em frente a casa da velha Ae-Cha e ela já se encontrava parada na porta com umas poucas bolsas velhas. Quando Kihyun percebeu que a idosa não se movia do lugar, ele baixou os óculos escuros e a encarou como se perguntasse o que ela estava esperando.

Essa mulher espera que eu abra a porta do carro pra ela?

O playboy balançou a cabeça rindo de nervoso. Saiu do carro e andou até a babá. Não estava acostumado a servir ninguém, muito pelo contrário, mas Changkyun havia lhe feito um pedido e ele estava disposto a cumprir isso. 

— Com a sua licença.

Kihyun pegou as bolsas na mão da senhora e andou até a lixeira da rua. Assim que percebeu o que o ômega estava prestes a fazer, Ae-Cha se adiantou na tentativa de impedir, mas Kihyun foi muito mais rápido e em poucos segundos, as únicas roupas que a velha tinha foram jogadas fora. 

— Você não vai entrar com esse lixo no meu carro. — falava palavras por palavra. — Basta o que está vestindo agora. — suspirou e vendo o rosto desesperado da mulher continuou. — Não se preocupe. Eu vou te comprar outras novas. Entre no carro. — concluiu, abrindo a porta para ela.



— Ji-Nabi, eu não vou jantar agora. — A voz de Hyunwoo soou de dentro do escritório, após ouvir alguém batendo na porta.

— Sou eu. — Kihyun disse. — E não me   confunda com aquela criatura pavorosa.

— O que você quer?

— Falar com você. Ainda tenho esse direito?— gritou da porta. 

Hyunwoo tirou os óculos e após um tempo sem resposta, o ômega viu o rosto sério do alfa surgir conforme a porta se abria. Sempre muito polido, Hyunwoo fez sinal para que o marido entrasse e fechou a porta assim que ele passou. 

— Falta uma semana para o nascimento de Sarang. — Kihyun começou a dizer. 

— Eu sei. Fui até a clínica hoje saber como estão os preparativos para o parto.

— Lembra quando me prometeu até sete babás para cuidar dela?

— Foi uma brincadeira.

— Eu sei, mas está faltando tão pouco pra criança nascer e até agora não temos nenhuma. 

— Eu não tive tempo para ver isso.

— Por isso eu mesmo procurei uma.

— Você procurou uma babá?

— Sim. Vim aqui justamente para te apresentar a ela.

Hyunwoo abriu os olhos levemente espantado.

— Ela está aqui? 

— Sim. Posso chamá-la?

Dando de ombros, Hyunwoo seguiu o marido com os olhos, trazendo no rosto um sorriso fraco. Kihyun não costumava agir de forma tão independente quanto aos assuntos da casa, então essa atitude de certa forma, surpreendeu o alfa.

— Essa é a babá Jang. — Kihyun disse abrindo a porta. — E será assim que a chamaremos, porque ela não precisa ter um nome. Babá é o suficiente.

Na verdade, Kihyun evitou dizer o nome completo de Ae-Cha por medo, afinal, se Hyunwoo havia investigado a vida de Changkyun, ele sabia da existência da mulher que o criou, e até ela surgir por trás do corpo dele, em uma versão totalmente repaginada, o ômega ainda teve medo de que ele a reconhecesse, mas não aconteceu.

Kihyun promoveu naquele dia uma mudança tão drástica no visual da babá que nem mesmo Changkyun ao acordar daquele coma seria capaz de reconhecer a mulher com quem cresceu.

Os cabelos brancos foram pintados de preto para que parecesse mais nova e mesmo que ela tivesse algo em torno de sessenta e três anos, as boas proporções faziam com que parecesse uma mulher ao menos cinco anos mais nova. As roupas estavam bem alinhadas e a maquiagem ocultava os sinais da idade. Todo esse conjunto de fatores ajudaram Kihyun e a babá no disfarce criado apenas para os olhos de Hyunwoo.

— É um prazer conhecê-la, babá. — Hyunwoo cumprimentou respeitosamente a mulher que continuou parada feito estátua na frente do político.

Apesar da mudança externa, Kihyun percebeu ali que algumas aulas de etiqueta seriam necessárias.

— Qual é o problema dela? — Hyunwoo perguntou ao marido.

— Ela não fala.

O político sorriu um pouco sem jeito para a nova funcionária e chegou mais perto do marido, lhe falando ao ouvido:

— Kihyun... você contratou uma mulher muda?

— Não precisa falar baixinho, mas se for falar mal dela, fale de costas porque ela consegue ler os lábios.  Ah!...e ela não é muda, só não foi oralizada. É apenas surda. 

— E qual a diferença?

— Tem diferença. Nem todo surdo é mudo e você deveria saber já que é um político.

— Certo. Assumo minha culpa quanto a falta de interesse em me informar a respeito disso. — o outro respondeu, enquanto a babá ficava olhando de um para outro. — Mas ainda assim, não entendi o motivo de sua escolha. Como acha que uma babá surda pode dar conta de cuidar de um bebê. Isso é alguma piada? 

— Quanto preconceito. Você está dizendo que uma pessoa surda não é capaz de cuidar de uma criança?

— Está distorcendo as minhas palavras.

— Quantos ômegas surdos devem existir em toda a Coreia e são totalmente capazes de proteger seus filhos.

— Kihyun…

— Além disso, imagina o quão bom seria pra sua imagem ter uma babá que é parte de uma minoria. — Kihyun disse, capturando a atenção do marido. — Poderíamos levá-la para o evento do nascimento e isso mostraria toda a sua generosidade com a comunidade surda da Coreia do Sul. Você seria visto como um político mais inclusivo e isso ajudaria nos seus planos futuros. 

Hyunwoo coçou o queixo refletindo a respeito das palavras de Kihyun e elas curiosamente faziam algum sentido. Estranho era acreditar nas boas intenções do ômega com isso.

— Pode pedir pra ela nos dar licença?

Antes que Kihyun fizesse isso, a babá saiu do escritório.

— Viu? Ela leu os seus lábios.

— Kihyun, eu não sei o que pretende, mas obviamente isso não foi pensando em mim. De onde essa mulher saiu?

Apesar do corpo tremer diante da pergunta, Kihyun tentou não mostrar o abalo. Colocou no rosto o semblante mais cínico e então disse:

— Tenho interesses particulares nisso. Você está certo. — apoiou-se na mesa do escritório— Quero que enxerguem a sua bondade e te vejam como o futuro da Coreia, afinal, quando isso acontecer e você atingir os seus objetivos, finalmente estarei livre deste contrato. Satisfeito?

Assim que disse, deixou o lugar. Não importava mais o que Hyunwoo pensava, sabia que havia conseguido o que queria, não estava tão enferrujado em manipular aquele homem como imaginava. 

— Kihyun…

O ômega parou com a mão na porta. 

— Eu não quero que ela cuide da Sarang. Não vejo como isso poderia dar certo. De qualquer forma, não precisa também mandar a mulher embora. Veja se ela sabe cozinhar e deixe que ela fique responsável por essa parte, assim, Ji-Nabi se ocuparia apenas da administração da casa. Quanto a babá, eu mesmo vou procurar por uma. 

O cargo não importava para Kihyun, ele precisava apenas que a babá ficasse na casa para assim realizar o pedido de Changkyun. Saiu do escritório com um sorriso vitorioso, mas também com o coração tranquilo.

★★★


Nunca antes abrir os olhos foi tão difícil. A luminosidade daquele ambiente frio quase cegava Minhyuk. Percebeu que estava no hospital quando levantou o braço e notou um tubo fino de soro e outro de medicamentos saindo de uma máquina ao lado da cama direto para a veia.

— Minnie! — Jooheon se levantou rápido assim que percebeu ele acordar. — Você está bem? Está sentindo alguma coisa?

Minhyuk balançou a cabeça um pouco confuso e  assustado ao ver que já era noite do lado de fora. O ômega tinha apenas algumas escoriações leves e o corpo dolorido. Jooheon também estava ferido, mas muito menos machucado que o namorado.

— Eu fiquei tão assustado. — Jooheon dizia chorando. — Tive tanto medo de perder você.

O ômega levantou a mão e tocou o peito do namorado.

— Eu sinto muito, Minnie. Eu não queria me jogar tão forte sobre o seu corpo, mas se não tivesse feito isso, se não tivesse te empurrado, aquele carro teria te levado embora para sempre.

— Do que está falando, Honey? — perguntou com dificuldades. — Por que está me pedindo desculpas?

Antes que Jooheon respondesse, a Doutora Jae Hwa surgiu na porta.

— Bom te ver acordado, Senhor Lee.

Ao fazer um movimento curto na cama, sentiu na barriga um leve incômodo. O coração acelerou de tal forma que o aparelho ao lado apitava em um som reticente e incômodo.

— Mantenha a calma, Minhyuk. — a médica dizia.

— Como está o meu bebê? — a voz do ômega começava a aumentar.

A Doutora se aproximou, afastando Jooheon da cama que chorava junto com o ômega.

— Honey, o que aconteceu com o nosso bebê? — gritou — O que fizeram com ele?

Jooheon não sabia o que o desesperava mais, se era Minhyuk lhe implorando uma explicação ou se a visão de um grupo de enfermeiros entrando no quarto para auxiliar a médica em sua tentativa hercúlea de administrar o calmante no ômega.

— Por favor… me fala o que aconteceu. — a voz enfraquecia aos poucos.

A cabeça pendente para o lado, observava Jooheon chorando forte e sem saber o que dizer. Enfim, Minhyuk fechou os olhos e não foi mais necessário contê-lo na cama. Quando os abriu novamente, quase não reagia, olhava apenas para o alfa, segurando a mão dele enquanto ouvia a médica dizer ao fundo e em ecos constantes:

— Minhyuk, consegue me ouvir?

Ele não respondeu.

— Como está se sentindo?

— Vazio. — respondeu sem ânimo.

A mão tocando suavemente a barriga dolorida indicava que ele não estava bem e sem quaisquer pretensões de promover uma nova cena de descontrole, Minhyuk apenas se deixou ficar sobre a cama, observando os olhos inchados do namorado ao lado dele, enquanto escutava a médica, na ponta da cama lhe introduzir ao assunto que não sabia se queria ouvir. 

— Isso poderia ter sido muito pior. Você seria atropelado se Jooheon não tivesse chegado milagrosamente a tempo de se jogar com você na calçada.

Minhyuk tentou sorrir para o namorado, mas não conseguiu. A tristeza era como a grande anfitriã da noite, aguardando sua convidada especial, a má notícia. E ele sabia que ela estava perto de chegar.

— Você e Jooheon tiveram escoriações leves, mas precisamos te internar por causa do bebê.

Finalmente… o bebê. O ômega apertou os olhos e duas lágrimas escorreram.

— Foi feita uma cirurgia de emergência e está tudo bem com o ele.

Pela primeira vez, Minhyuk tirava a atenção de Jooheon para encarar a médica. Estava errado esse tempo todo, afinal. Contra todas as expectativas, sua criança ainda permanecia ali com ele.

— Mas… apesar de estar bem… — a médica continuou. — ...para que ele tivesse chances de sobrevivência, eu o retirei de dentro de você e o transferi para um útero artificial.

Nenhuma palavra ou frase, nem gestos ou atitudes, muito menos o inferno vivido nos tempos da infância ao conviver com um irmão obcecado por ele foi páreo para a dor que a notícia recém recebida lhe causou. 

Minhyuk não encarava mais a médica, olhava novamente para Jooheon e ele segurava a sua mão a apertando na tentativa de transmitir uma força que nem mesmo ele tinha para dar. Estava destruído igual, machucado igual, triste e frágil, mas ainda assim, pretendia ser o suporte que o ômega precisava.

— Jooheon… — dizia em uma voz mais rouca do que o normal.

Não tinha nada de concreto para lhe dizer. Queria apenas falar o nome dele, sentir cada sílaba saindo da garganta arranhada como se isso pudesse lhe deixar um pouco menos solitário no meio daquele mar de dores.

— Eu sinto muito, meu amor. Eu não queria que fosse assim. — o alfa dizia fraco. 

— A gente ia tirar fotos da minha barriga crescendo. Você disse.

Nesse momento, Jooheon desabou. Foi invadido pela emoção da lembrança mais recente do começo de um dia feliz e não havia nada que pudesse fazer para mudar aquilo.

— Eu sei que não era o que vocês queriam. — a médica voltou a falar. — Mas considerando as opções, esse foi o resultado ideal. Para um ômega recessivo como você, Minhyuk, ter um filho gestado em útero artificial ainda é melhor do que correr o risco de não ter filho nenhum. E era isso que teria acontecido se a gravidez tivesse continuado pelos meios convencionais. — deu um tempo e caminhou para o lado da cama. — Eu realmente sinto muito por essa situação. Vou deixá-los sozinhos, mas logo a assistente social virá para conversar com você a respeito. Assim que estiver pronto para falar sobre isso com ela, nos avise. 

A médica saiu em passos lentos e de cabeça baixa. Atrás dela, no quarto de um hospital requintado, deixou um casal jovem, mas que chorava tanto a ponto da tristeza amadurecer o olhar.

Jooheon segurava o rosto do namorado e ele o encarava de volta arrasado com tudo o que viveu e escutou até ali. Não suportava mais a dor e nem sabia diferenciar se a que mais lhe fazia sofrer era a física na altura da barriga ou a emocional dentro do peito.

— Foi tudo culpa minha, Minnie. Eu não soube te proteger.

Mesmo no estado miserável em que se encontrava, o ômega levou os dedos finos até o rosto do namorado e limpou as lágrimas dele.

— Não foi culpa sua… — disse muito fraco. — A culpa é toda dele.

Jooheon parou por um segundo de cultivar sua própria dor para se atentar a última coisa dita pelo ômega.

— A culpa disso tudo é daquele maldito.

— De quem está falando?

As lágrimas não paravam de descer pelo rosto exausto.

— Do homem que me sequestrou e quase me atropelou hoje, Honey. — olhou de volta para o namorado, segurando a mão dele muito forte. — E ele tentou me matar por tantas vezes que eu nem consigo contar.

— Então você conhece a pessoa que fez aquilo?

Minhyuk balançou a cabeça em afirmação.

— E quem é ele, Minnie? Quem é esse homem? 

Após um tempo em silêncio, como se precisasse de coragem apenas para falar aquele nome, Minhyuk finalmente disse:

— Ele é Lee Jaemoon, o meu irmão mais velho. 


Notas Finais


Nem tenho muita coisa pra dizer. Capítulo tenso demais de escrever, mas necessário pra o restante da história. Confiem! Semana que vem tem coisa boa acontecendo. 😘😘😘


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