História Always - Capítulo 9


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Bangtan Boys (BTS), Deficienciavisual, Fanfic, Flex, Gay, Jikook, Jimin!bottom, Jimin!top, Jungkook!top, Koookmin, Lemon, Namjin, Romance, Shounen Ai, Taeyoonseok, Yaoi
Visualizações 32
Palavras 12.645
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Fluffy, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Shonen-Ai
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oie meus amores, novamente desculpe pela demora. Mas mesmo eu tendo demorado eu trouxe um capítulo enorme para me redimir.

Amo vcs e boa leitura.

Capítulo 9 - Dear diary-recorder pt.2


"O perdão não é algo que podemos nos forçar a fazer. É algo que se conquista com o tempo e bastante paciência."

🌹

Park Jimin

🌹
 

Logo depois da cena da sacada Hoseok havia contado sobre mim para Jungkook e eu fiquei momentaneamente feliz com essa informação. Eu não tinha quase ninguém e saber que mais outra pessoa sabia de minha existência me deixava feliz.

Não muita coisa havia mudado. Eu nunca saía do quarto quando ele estava aqui e nunca quis conversar com ele. Porém mesmo eu não mudando minha rotina uma coisa perceptível havia mudado. Minha relação com meus dois parentes que tanto amava estava um tanto melhor.

Lembro-me da vez que minha mãe tinha me chamado pra ver um filme com ela quando eu tinha descido a escada de noite. Eu estava com muito calor nesse dia e minha janela não queria abrir por nada nesse mundo, por isso desci e quando estava lá embaixo mamãe havia me proposto isso. No começo ri e até pensei que era brincadeira, mas quando ela permaneceu quieta e não riu comigo eu soube que era verdade.

— Eu não posso ver mãe. Qual vai ser a graça? — me lembro de ter dito com um bico enorme em meus lábios, me perguntando como minha mãe pode ter essa ideia de girico.

— Você pode usar seus ouvidos, Jimin. Ouça e estimule sua imaginação. Faça desse filme um palco para abrir sua mente pra fazer você pensar em tudo que está ao redor. Não precisa ver para sentir.

E aquele última frase me deixou feliz.

Eu sentei entre minha mãe e Hoseok e comecei a assistir aquele filme. O nome era La La Land e eu me lembro de ter rido e chorado até o final. Lembro-me de me sentir bem e feliz com tudo o que senti do começo ao fim do filme. Porque por mais que eu não tenha visto nada, eu senti. Senti muitas coisas com o pequeno filme/musical.

Depois desse dia eu, mamãe e Hoseok marcamos todos os domingos como o dia do filme. Nunca deixávamos de assistir porque era o nosso dia especial. O dia em que a família se reunia e ficava junta sempre.

Com o tempo se recorrendo minhas crises começou a aumentar. Eu havia começado a trancar minha porta e sempre quebrava as coisas do meu quarto. Eu andava para todos os lados por causa da ansiedade que eu sentia. As vozes na minha cabeça sempre estavam presentes nesse momento dizendo o quanto eu era estúpido e nojento.

Todavia o pensamento que agora vivia me rondando era o de querer ter alguém além da minha família para desabafar. Eu queria poder ter alguém em quem confiar cegamente. Alguém para compartilhar momentos e alguém com quem eu poderia chorar e após isso ser consolado.

Eu descobri que o sentimento de inveja habitava meu peito. Eu tinha inveja de meu irmão. Porque eu sempre quis ter alguém como Jungkook em minha vida. Alguém que passasse os dias comigo e partilhasse momentos. Alguém para poder conversar e para poder usar o ombro para me amparar.

E talvez por isso eu tenha começado a ter um pouco de raiva dele.

Mamãe vivia dizendo o quão ele era um bom garoto e gentil. Dizia que ele era como seu terceiro filho e o quão maravilhoso ele era. Mas eu não o achava tããão isso tudo assim. Um dos motivos era por ele ter trago aquele estúpido videogame para minha casa.

Era um dos meus piores pesadelo.

Os barulhos de tiros altos sempre machucavam meus ouvidos por eu ter uma alta sensibilidade ali. Eu sempre ficava ansioso com aquilo e às vezes acabava tendo uma crise por conta disso. Era horrível e eu suspirava feliz quando os barulhos acabavam finalmente.

Meu coração sabia no fundo que Jeon não tinha culpa de nada. Talvez tenha sido por isso que com um pouquinho mais de tempo e com minha mãe e meu irmão sempre rindo por causa dele eu havia parado de sentir raiva do mesmo — com exceção de quando aquele videogame era ligado. O único sentimento que me restava era o sentimento de querer ter alguém como ele em minha vida. Hoseok e Jungkook sempre morriam de rir contando suas histórias e aventuras pelos corredores de casa e eu queria ter isso. Queria ser como Jeon e viver suas aventuras e histórias. Queria ter vários amigos assim como ele. Queria poder ser alguém normal.

Jungkook não sabia, mas indiretamente tinha me influenciado a tentar dar um passo para frente. Fez-me querer enfrentar e tentar mais uma vez encarar o mundo.

Em uma tarde bem chuvosa quando eu desci a escada com uma mão segurando o corrimão e a outra segurava a minha bengala. Eu estava me sentindo deveras receoso de fazer isso, mas depois de tantos anos me auto reprimindo e me privando de conhecer o mundo alguma coisa dentro de mim dizia que essa era a hora. Meu coração naquele momento estava tão acelerado que eu sentia que poderia cair da escada a qualquer segundo por estar tão nervoso como eu estava.

Desci o último degrau. Era agora ou nunca.

— Mãe! — gritei chamando por ela.

— Aqui na cozinha, filhote. — filhote, minha mãe ainda me chamava assim e eu sempre ria desse apelido que ela havia me dado.

Eu caminhei até ela a passos vagarosos e suspirei ao que senti a bengala bater na porta da cozinha. Tateei a madeira e logo encontrei a maçaneta.

— Filhinho de mamãe! — falou me surpreendendo com seus braços em volta da minha cintura. — O que meu bebê favorito quer? Não conta que disse isso para o Hoseok. Seu irmão teria um ataque de pelanca.

Eu ri da forma como aquela mulher era maravilhosa. Todavia meu sorriso logo morreu quando eu me lembrei do que eu iria falar com ela naquele momento.

— Jimin? O que houve filho? — perguntou ela com a voz preocupada. Acho que ela deve ter percebido pela minha expressão que era algo bem sério.

— Mãe… — suspirei. Meu coração estava que nem um festival de tantas emoções. Eu estava muito ansioso e sabia que se eu não colocasse para fora aquilo não seria bom. — E-Eu…

— Calma meu amor. — ela se separou de mim, mas poucos segundos depois voltou e colocou um copo em minha mão. — Toma. — eu bebi e senti a água descendo em minha garganta. — Respire e conte até dez comigo. Vamos… um… dois… três…

— um… dois… três… — contei progressivamente com ela até me sentir um pouquinho mais calmo.

— Agora me diga meu bem. — ela me levou até a mesa e eu me encostei ali enquanto ainda estava meio receoso. Ela tinha calma comigo e eu a amava por isso. — O que está acontecendo?

— euquerovoltarparaescola. — disse rápido demais e a mulher com certeza deve ter me olhado com uma cara de interrogação na testa.

— O que? — sabia que ela não tinha entendido, nem mesmo eu entendi, imagina ela.

— Eu quero voltar para escola. — disse dessa vez pausadamente.

O silêncio desconfortável reinou naquele instante. Eu sabia que isso deve ter sido loucura na cabeça dela e que para ela eu devo estar louco por pensar nisso. Foram praticamente treze anos tentando me fazer sair de casa e do nada eu solto essa bomba.

— O-o que?— disse assustada.

— Mamãe eu me privei demais a vida toda. Eu tenho dezessete anos e não conheço absolutamente nada. — suspirei quando senti minha mãe chegar perto de mim e alisar minhas costas com suas mãos. Ela sabia que aquilo era um passo importante e eu precisei de muito tempo para poder parar pelo menos um pouco de ter medo. Me lembro claramente dos últimos dias e como minhas crises aumentaram quando eu pensei nessa hipótese. Foram dias terríveis, mas significativos para eu tomar minha decisão — Eu mesmo me amarrei e me embaralhei em várias cordas de uma vez. Porém agora eu estou ficando cansado. Eu não quero viver a vida mais desse jeito. Quero fazer alguma coisa para poder melhorar e tentar me surpreender comigo mesmo. Porque este eu... este Jimin é uma pessoa fraca. E ele está cansado de ser assim.

Nesse dia minha chorou depois de muito tempo. Ela sempre teve a pose de durona, mas eu sabia que seu coração era frágil. Eu chorei muito com ela nesse dia também. Viramos uma bagunça de soluços e abraços bem apertados. Aquilo era importante para ela também.

— Tudo bem… vai ficar tudo bem. — ela afagou meus cabelos. — Vamos fazer isso dar certo.

Eu dessa vez espero que realmente tudo comesse a ficar bem.

Depois de quase dois meses onde eu estudei com afinco com minha mãe toda hora me ajudando a aprender mais e mais, eu finalmente decidi que iria contar para o meu irmão a minha decisão. Depois do dia em que nos resolvemos depois de eu ter o socado, eu e ele criamos um ritual onde todo dia tirávamos pelo menos meia hora para conversamos sobre coisas triviais. Era um momento mágico para mim porque o hyung sempre contava como foi o seu dia e o quanto na concepção dele foi exaustivo. Era a parte do meu dia favorito porque isso fez nós nos aproximarmos novamente, e agora eu e ele podíamos nos chamar de irmão sem sentir uma total culpa em nossos peitos.

— Ah! — exclamou Hoseok se sentando do meu lado no sofá macio. — Minhas costas estão fodidas.

— Hyung! — exclamei. Tateei o meu lado até encontrar alguma parte de seu corpo desnuda. Achei o braço. Sorri e belisquei. — Não xinga.

— Caral- Carambolas! — falou dolorido. — Que mãozinha endiabrada, meu pai.

— Hyung... — Senti minha boca fazer um bico. Ele disse um "o que, demônio?", mas sei que ele me ama e só tá com raiva por causa do beliscão. — Como foi seu dia?

— Uma por- poxa. Jimin não vai dar certo Eu tenho que xingar pelo menos um pouco se não eu não vou falar porra nenhuma.

— Aish! — cruzei os braços. Eu adquiri certa aversão a palavrões por causa do tanto que meu irmão xinga. — Evita pelo menos um pouco.

— Suave. — Eu o ouvi estalando a língua no céu da boca e logo ele continuou a falar. — Teve uma cocota endemoniada que tava dando uns mole pra mim. Foi uma barra me segurar para não dar uns beijo nela porque ela começou a piscar pra mim no meio da sala. Então depois de muito esforço porque eu queria fod- beijar ela a aula acabou e eu dei uns chegues nela e perguntei se ela queria ir à salinha do Jack o zelador, a menina deu um tapão no meu rosto. Caralho, puta que pariu, foi na frente de todo mundo e eu fiquei com cara de cu no meio do corredor pensando que demônio tinha possuído essa mina. Depois do choque Taehyung segurou meu ombro e disse que na verdade ela tem tique no olho.

Eu ri escandalosamente depois disso. Meu corpo se inclinou e eu automaticamente comecei a dar tapas em Hoseok que estava ao meu lado descontando o ardor na minha barriga por rir tanto.

— H-Hoseok… — falei limpando a lágrima do meu olho.

— Agora sua vez de dizer sobre seu dia palhacinho. Fica rindo das desgraças dos outros. Um dia pode ser você.

E nesse momento minha expressão risonha se desfez na mesma hora. Eu havia me lembrado do motivo de eu ter insistido dessa conversa ter sido realizada mais cedo do que de costume. Meu medo voltou com força só por lembrar disso. Qual será a reação de Hoseok? Ele vai ficar feliz comigo?

Suspirei e apertei minhas mãos uma nas outras.

— Hoseok… — falei em um fio de voz. Eu estava tenso demais. — E-Eu… vou… voltar para escola — a última parte foi falada bem baixinha.

— O que? Fale mais alto.

— Eu vou voltar a estudar.

Apertei meus olhos com força esperando a próxima ação de Hoseok e o que ele fez a seguir me surpreendeu em tamanha escala. Ele gritou comigo.

— VOCÊ NÃO PODE!

Eu estremeci com o tom de voz usado por ele. Ele realmente estava elevando a sua voz comigo? Qual direito ele pensa que tinha para falar assim? Isso é tão horrível assim? Ele vai ter vergonha de mim ou algo do tipo?

Meu coração murchou naquele momento. A pontinha de esperança que eu tinha em meu coração pareceu se esvair de meu peito.

"Se seu irmão não acredita em você imagina as outras pessoas?" — meu subconsciente disse para mim. Mas eu queria tanto tentar ser feliz, eu queria tanto parar de me prender e me libertar das amarras que eu mesmo criei. Era tão ridículo assim?

Eu abaixei a cabeça e comecei a esfregar um pé no outro com nervosismo. Minhas mãos se embaralhavam uma nas outras a todo o momento e meus olhos começaram a arder.

— Jimin-

— QUE DIREITO VOCÊ ACHA QUE TEM? — me exaltei assustando até a mim mesmo naquele instante. Minha respiração estava ofegante e eu tinha tomado impulso para me levantar. Eu não sei se estava encarando ou não Hoseok. Se estava frente a ele ou não, mas eu tinha certeza que ele poderia ver a mágoa transcender meu olhar. — Porque você não me quer lá Hoseok? Porque Não quer me dar um voto de confiança?

E eu comecei a chorar repentinamente. Hoseok tentou me abraçar, mas me esquivei de seus braços.

— Eu apenas não entendo… — funguei e tentei calmamente parar as lágrimas com minhas mãos. — Porque não posso fazer isso? Você não quer me ver feliz?

Feliz.

Feliz.

Eu realmente não sabia se seria quando eu começasse a voltar para o colégio. Era um tiro no escuro e eu poderia acabar com a última fagulha de vida que existe em mim.

— Não é isso. — o ouvi suspirar. — Você não está pronto Jimin.

— Pronto? — eu queria rir. — E quando em sua concepção eu vou estar pronto, hyung? Quando eu tiver trinta anos e perder todas as oportunidades de minha vida?

— Não, Jimin…

— Não me importa o que diga. — menti. Eu me importo demais com tudo o que ele me diz, por isso estava doendo tanto. — Eu vou fazer isso.

Eu saí batendo a bengala no chão rudemente o fazendo entender o quanto eu estava com raiva naquele momento. — Você vai se arrepender. — foi a última coisa que eu ouvi antes de subir as escadas e me trancar em meu quarto.

Chorei muito naquela noite.

Quando eu acordei fui para a sacada. Amava o vento fresco que sentia ali. Lá era o único momento que eu podia ter a sensação de liberdade. Eu fechava os olhos e sentia o vento me acolhendo de forma gostosa e a sensação era tão boa, tão boa que eu queria prolongá-la para sempre.

Será que me sentiria assim quando eu começasse a sair?

E logo eu senti as lágrimas molhando meu rosto de novo.

— Porque é tudo tão difícil?

— Hos eu- — eu ouvi e logo tratei de enxugar as lágrimas de meu rosto novamente.

— Hoseok hyung, é você? — perguntei mesmo tendo certeza da resposta.

— Sim pequeno, sou eu.

E logo eu senti raiva em meu peito por lembrar de tudo o que aconteceu ontem. Piorou mais ainda quando ele perguntou o porquê de eu estar chorando.

Ele era um idiota?

Eu o chamei para levar ao meu quarto porque minha bengala estava em meu quarto e eu queria tentar resolver as coisas entre nós. Porém quando entramos e eu toquei no assunto Hoseok falou novamente que eu iria me arrepender de tal escolha. Eu gritei com ele e mandei-o sair de meu quarto. Me encolhi em meus lençóis e fiquei me perguntando o porque de tudo ser tão difícil.

O sono me embrulhou com seu manto quente e me fez esquecer pelo menos um pouco de tudo a minha volta.

Eu novamente tinha acabado de ter uma crise. Não foi tão intensa como as outras dessa vez. Nesta eu apenas precisei me encolher na cama e chorar baixinho para que tudo passasse e as vozes parassem. É incrível que mesmo depois de anos eu ainda não havia superado tudo o que havia acontecido naquele dia. Talvez por eu ser uma criança aquilo tenha me consumido e eu deixei uma fresta aberta para se tornar um dos meus maiores pesadelos.

Eu fiquei ansioso porque estava com o pensamento do quão bom seria se eu tivesse alguém além dos meus gravadores para conversar. Eu estava farto de guardar as coisas só para mim e não ter ninguém para conversar. Era exaustivo e eu queria mais do que tudo ter um amigo.

Amigo.

Amigo.

Amigo.

O barulho de celular tocando me fez dar um pulo de susto.

— Hoseok hyung? — perguntei assustado.

A resposta demorou a vir e quando veio eu trinquei meu maxilar.

— Não é o Hoseok. Eu sou o melhor amigo dele. Eu venho sempre na casa dele.

Eu sei Jeon Jungkook. Como eu poderia não saber o seu nome sendo que mamãe e Hoseok vivem tagarelando sobre você. Como posso esquecer a raiva que sinto quando você liga o videogame no auto e fica jogando por horas.

— Você. — falei prensando meus lábios. — Você é o garoto que faz os barulhos ruins com o hyung.

— O que? Do que está falando.

Não se faça de bobinho.

— Os barulhos ruins… — suspirei. Talvez ele não tivesse realmente entendendo por eu estar sendo tão vago. — São barulhos altos de gente gritando e a-acho que tiro? Tiro. É, acho que é isso. Os barulhos ruins ma-machucam meus o-ouvidos.

Eu estava super nervoso. Sentia minhas mãos tremendo e suando naquele instante. Esse momento era tão importante para mim. Era a primeira vez que eu conversava com alguém que não é meu irmão e mãe, por isso eu estava tremendo que nem vara de bambu.

Meu coração batia tão rápido que eu poderia até ter um ataque cardíaco.

— Desculpa, e-eu-

— Dói. Meus ouvidos são s-sensíveis demais. — fiz um bico grande em meus lábios lembrando o quão aquilo me faz mal — Minha cabeça começa a doer e-eu começo a ficar… — ansioso e surtado. Eu começo a quebrar as coisas com dor nos meus ouvidos. Neguei com a cabeça me recusando a falar algo do tipo. Não queria assustar o garoto na nossa primeira conversa. — Eu não gosto deles, e eles só acontecem quando você está aqui.

— Não era a minha intenção. Eu juro que eu não sabia. — ele tentou a todo custo manter o tom firme em sua voz. Era engraçado porque eu senti que ele estava tão nervoso quanto eu. — E eu prometo que a partir de hoje os barulhos ruins não vão ficar tão altos.

Ele falou me pegando de surpresa. Ele faria isso por mim? Isso quer dizer que ele me considera alguma coisa dele?

Nossa… para coração.

— Mesmo? — perguntei animado.

— Sim. Eu não posso prometer que vai sumir, mas eu juro que não vou deixar ficar tão altos como eles costumam ser.

— Você jura? — poxa eu não conseguia tirar o sorriso dos lábios com algo tão simples. Era loucura querer ser amigo de alguém apenas com no máximo dois minutos de conversa? — O-obrigada.

— Jungkook.

— O que? — perguntei confuso pela fala repentina.

— Meu nome é Jeon Jungkook.

Eu sei disso bobinho.

— É um prazer Jeon Jungkook. — sorri. — Meu nome é Park Jimin.

— Eu sei. Quer dizer não... bom, eu sei só que- — Eu comecei a rir de seu nervosismo. Era fofo até.

Essa situação estava sendo melhor do que imaginei e não consegui não sorrir o tempo inteiro. Eu queria dizer para Jungkook que eu também estava nervoso, mas eu só conseguia sorrir.

— Tudo bem, Jungkook. Meu irmão deve ter falado de mim. — sorri quando ele suspirou aliviado. Mamãe havia me chamado minutos antes de eu ouvir o som do celular que agora eu sabia pertencer a Jungkook – ela não me chamou, mas sempre que eu ficava triste ou tinha uma crise eu corria para os braços dela. –, eu estava bem nervoso por mais que eu carregasse um sorriso nos lábios. Por isso eu só queria correr dali por mais que meu coração batesse feliz.

Nossa eu tinha até esquecido que eu estava bem triste há minutos atrás só por uma conversa tão curta? Uau, se Jungkook tinha tamanho poder eu queria mais ainda poder conversar com ele novamente. Só de pensar nessa possibilidade uma sensação bem gostosinha se apossou do meu peito.

— Até mais Jungkookie. — falei mesmo não querendo ir embora. Queria ficar mais um tempinho ali para me sentir bem como eu estava sentindo.

Só me dando conta do apelido que o dei quando eu estava longe do corredor sentindo minhas bochechas corarem.

Naquela mesma noite depois de me sentir a pessoa mais feliz do mundo por ter falado com uma outra pessoa além das que estava acostumado meu coração ficou totalmente pleno. Mamãe sempre afagava meus cabelos e dizia que tudo ia ficar bem, mas ela não precisou fazer isso neste dia. Porque eu já estava feliz quando eu cheguei lá fazendo até mesmo ela me contestar o que aconteceu para eu estar de tão bem, eu não falei nada e ela não me cobrou.

Eu corri para o meu quarto tomando cuidado para não me machucar e com o coração leve tateei a cômoda para pegar o meu gravador.

— Querido diário-gravador, eu acho que eu fiz um amigo.

Depois desse dia foi natural a forma como eu e Jungkook nos encontramos e nos falamos. Mesmo quando ele descreveu a neve de forma tão bela e quando ele perguntou o porquê de eu ter chorado, foi natural a forma como o respondi. Não porque ele havia me contado o que o afligia, mas porque eu sempre quis poder desabafar com alguém. Sempre quis tentar ser amigo de alguém e por mais que tenha sido pouco tempo eu já conseguia considerar Jungkook como um.

Teve um momento em específico naquele dia que fez com que meu coração batesse rápido demais. O momento silencioso em que suas mãos ficaram paradas ao lado do casaco e eu pude sentir o calor de seu corpo momentaneamente. Minhas bochechas pinicaram e eu não pude deixar de me afastar dele.

Quando ele me parou antes de eu ir embora e confessou que chorou e eu desabafei com ele sobre o meu estado, me senti feliz. Eu o poderia chamar de amigo? Eu acho que sim porque era assim que meu peito se sentia quando eu pensava nele.

— Até mais Jungkookie. — O chamei novamente dessa forma já que eu queria que ele fosse meu amigo. Amigos tem apelido, certo? Pelo menos era isso que eu via em filmes. Eu espero que ele não se sinta desconfortável com isso porque eu me sinto bem falando o nome dele dessa forma. — Eu gosto de sua companhia. — não menti.

Demorei muito para dormir porque aquele sorriso não queria sair de meu rosto.

Na mesma manhã eu já estava preparado para tomar café da manhã em meu quarto como de praxe, mas eu queria tanto mudar aos pouquinhos que pensei na possibilidade de ir tomar café da manhã com minha família. Por um momento eu exitei, porém se eu queria mudança teria que dar um passo de cada vez e foi o que fiz.

Tomei um banho demorado e com a bengala tremendo em minhas mãos desci a passos hesitantes. Eu podia ouvir as vozes de minha mãe e irmão no meio da escada e quando eu a desci e cheguei perto da cozinha chamei por eles.

— M-mãe? Alguém? — perguntei ainda hesitante por estar realmente ali.

O silêncio se fez presente por alguns segundos. Acho que os olhos dela talvez estejam transbordando de surpresa por eu estar aqui.

— Jimin meu bebê, como você está? Porque desceu? Aconteceu alguma coisa? — Eu ri de sua preocupação e neguei com a cabeça. Minha mãe sempre foi tão preocupada comigo e eu agradeço aos céus por ter me feito filho de uma mulher tão incrível.

— Não, omma, eu só estava entediado e queria tomar café com minha família, tudo bem? — perguntei mesmo sabendo que ela não iria negar minha presença ali. Ela logo afirmou dizendo que estava tudo bem, mas algo me deixou com uma pulga atrás da orelha. Eu tinha quase certeza que tinha mais de alguém ali e eu estava nervoso demais e não queria ser ignorado ou incômodo para alguém. — Omma, tem mais alguém aqui? Eu ouvi uma voz e-

— O Hoseok amor. — falou rápido demais me fazendo franzir o cenho com sua euforia repentina.

— Eu também estou aqui Jimin. — Eu não pude deixar de sentir meu coração bater rápido porque logo reconheci aquela voz doce do garoto que eu já considerava meu amigo apenas por ter conversado duas vezes. Eu inconscientemente já estava confiando em Jeon e não sei se isso era bom ou ruim.

— Oh! Jungkook, como você está? — falei realmente feliz por sua presença. Logo lembrei que ele havia me dito que ia dormir aqui e me senti um pouco bobo por não ter lembrado.

Eu senti em minha pele os olhares arregalados de minha mãe e irmão naquele instante. Bom, eu sabia o quanto na cabeça deles aquilo era algo inédito.

Eu, Park Jimin, falando com uma pessoa tão naturalmente assim, sendo que eu tinha surtos e crises só de pensar em sair para fora. Eu não os culpo, quando falei com Jeon a duas noites atrás pela primeira vez não imaginei o quão fácil seria das palavras sair de minha boca e na segunda vez foi mais fácil ainda conversar com ele. Jungkook parecia me deixar confortável sem ao menos se esforçar e por isso eu gostava de sua companhia.

Quando me perguntaram se eu o conhecia e respondi que ele era meu amigo, eu pude sentir o nervosismo de minha mãe em minha pele sem me esforçar muito. Tudo naquela mesa era novo. E talvez para mim a maior novidade de fato foi quando Jungkook confirmou que era meu amigo. Eu me senti tão feliz que não sei nem colocar em palavras o quão bem a confirmação dele me fez.

Então eu tenho um amigo?

Sorri.

— Omma? — perguntei receoso.

Um passo de cada vez, Jimin. — eu sussurrei em minha mente. Eu queria muito tentar dessa vez e conseguir. Queria muito não hesitar dessa vez quando eu estivesse de frente a um dos meus grandes obstáculos.

— Eu posso te pedir uma coisa? — continue prensando um lábio no outro.

— Claro meu amor.

— E-Eu posso sair com a senhora?

Silêncio se fez na mesa. Eu mesmo com minha audição supersensível não conseguia captar nada além de respirações pesadas.

Isso seria um não?

— Jimin, que está acontecendo? — ouvi a voz de Hoseok. Nós ainda não havíamos nos acertado. E se depender de mim dessa vez não sou eu quem vai dar o primeiro passo.

Eu suspirei naquele momento. Eu sabia que tudo estava mudando e isso era justamente por minha causa. Todos os dois estavam com medo das consequências, mas eu já tive medo demais à vida inteira.

Estava cansado.

— Nada hyung, eu só... cansei. — falei o mais convicto que podia. — Cansei de ficar em casa o tempo inteiro, sabe. Eu quero começar a viver e isso é um grande passo para mim, então, por favor, mamãe, deixe-me ir contigo?

— C-Claro meu bem.

— O-obrigada — falei com animação.

Eu me sentei à mesa naquele momento, mas ainda sentia meu corpo trêmulo. Poxa, eu iria mesmo conseguir? E se eu me machucasse mais ainda? E se…

Peguei a faca enquanto ainda tremia por dentro. Eu estava dando um grande passo e precisava ser confiante em tudo que eu estava fazendo. Eu sei que eles estão com medo por me amarem, mas o medo deles não se compara ao medo que eu sinto constantemente. Eu tenho tanto medo e pavor guardado em meu peito que me surpreendo por ainda conseguir levantar. Tudo o que sinto é uma sensação claustrofóbica, me sinto sufocado com todos os meus próprios sentimentos, com meus próprios medos. É angustiante sentir tanta coisa dentro de si. Sentimentos são bons, mas em excesso são prejudiciais.

Eu estava me sentindo tão-

Minha respiração soou pesada. Eu senti uma mão em cima da minha trêmula e resfoliei com o toque repentino. Eu sabia de quem era aquela mão e eu a senti apenas em minha nuca na noite passada. Jungkook tirou a faca de minhas trêmulas e eu queria muito contestar e dizer que eu sou capaz de passar um simples pão, mas no momento eu me sentia travado com suas ações. Eu sentia seus olhos queimando em meu rosto, eu sentia o toque macio de sua mão acariciando a minha. Eu me senti bem. Meu corpo pareceu se aquietar com seu toque tímido sobre minha mão que não estavam trêmulas tanto quanto antes. Eu me senti bem com aquilo. Era como se ele estivesse depositando sua confiança em mim e eu me senti completamente acalentado naquele instante.

Jungkook me fez sentir bem.

Jungkook era meu amigo.

Eu tenho um amigo.

Eu quero tentar seguir em frente.

Eu vou seguir em frente.

Jungkook tirou sua mão quente de cima da minha e meu corpo se sentiu frio de repente. Eu ouvi o barulho da faca abrindo o pão e fiquei ainda com uma expressão um tanto surpresa em meu rosto.

— Você vai conseguir, Jimin. — ele disse perto de mim. — Você é forte.

Eu vou conseguir.

Eu sou forte.

Essas eram palavras que ninguém ainda havia me dito e que fez meu corpo esquentar. Palavras machucam, palavras contaminam, palavras fortalecem. Jungkook as infiltrou e meu peito e me deixo quente por dentro.

— Não precisava. — era um fato, mas eu realmente precisei ouvi-las. — Obrigado.

— Eu sei que não precisava. Você é mais do que capaz de ter o mundo em suas mãos, Jimin, só precisa continuar forte e não deixar se abater. Não deixar de tentar quando acontecer à primeira queda e sempre levantar e tentar de novo. O mundo é cruel, mas você vai se acostumar e conseguir se encontrar. — eu senti sua mão em meu cabelo e suspirei. — De nada.

O café da manhã se seguiu silencioso de vozes, mas por dentro meu coração estava fazendo um festival de tantas emoções que eu estava sentindo.

No dia seguinte eu me arrumei o máximo que podia. Pedi para minha mãe pegar uma roupa bem colorida para mim vestir e estava me preparando física e psicologicamente para dar um grande primeiro passo. Eu comecei a usar roupas bem coloridas porque eu agora odiava o preto. Eu sempre via escuro, mas não queria que as pessoas vissem minha escuridão.

Minha mãe segurou minha mão e a dela estava tão trêmula quanto a minha. Nós suspiramos juntos. Ambos os corações tremendo em ansiedade e os corpos transpirando medo.

— Vai tudo dar certo meu amor. — ela apertou seus dedos finos em meus dedos pequenos. — E se não der a gente tenta até conseguir.

E talvez essas foram as palavras que me incentivaram. Dessa vez não era minha mãe ou irmão querendo me fazer sair de casa com medo de que eu ficasse preso para sempre. Era eu. Eu que queria fazer isso e não tinha ninguém me obrigando a fazer isso.

Eu queria.

Ouvi a porta da frente sendo aberta. Meu corpo tremeu. Mamãe apertou mais ainda sua mão na minha.

— Filhinho?

— Hum?

— Você está pronto?

Eu estou?

"Você consegue."

"Você é forte."

Repentinamente a voz de Jungkook se fez presente em meus ouvidos. Se ele que me conheceu há tão pouco tempo confia e acredita em mim, será que devo me dar pelo menos essa chance mesmo o meu coração dando solavancos tão altos?

Devo?

"Você consegue."

"Você é forte."

Sorri.

— Eu consigo! — gritei alto.

Dei um passo para frente e senti meu corpo querendo retesar novamente. Mas eu queria tanto que tentei de todas as formas calar as vozes em minha mente. Todos os xingamentos e ofensas estavam sendo calados pelas motivações que certo garoto havia me dito.

Outro passo.

"Você consegue."

Outro passo.

"Você é forte."

Outro passo.

"Você é mais do que capaz de ter o mundo em suas mãos, Jimin."

Outro passo.

"O mundo é cruel, mas você vai se acostumar e conseguir se encontrar."

Outro passo.

— Você conseguiu!

— O que? — disse atordoado ainda com a voz de Jeon rondando minha cabeça.

— Você conseguiu. — repetiu minha mãe.

— O.. — E foi quando eu senti a brisa fresca abraçando o meu rosto

Há primeiro instante eu não consegui acreditar que estava do lado de fora de minha casa. Eu não conseguia acreditar que depois de doze anos preso em minha própria mente e me privando de fazer de tudo, eu realmente havia conseguido vencer uma barreira para mim.

Há segundo instante eu desabei nos braços de minha mãe. Nós dois choramos juntos de felicidade consolando um ao outro com palavras doces. Eu amo a maneira que minha mãe sente todas as minhas conquistas na mesma intensidade que eu. É claro que mesmo eu do lado de fora podia sentir aquelas ofensas sendo sussurradas como o vento em meus ouvidos, mas minha mãe estava ali em meus braços dizendo o quanto eu era um menino forte e corajoso e o quanto estava orgulhosa de mim.

Há terceiro instante demos um à mão para ao outro enquanto éramos abraçados pelo vento um pouco forte que batia em nossos corpos cobertos por uma camada densa de sentimentos.

Minha mãe havia falado para irmos de carro porque era um pouco longe, mas eu neguei veemente. Eu queria sentir a cidade, mesmo que ela fosse intocável, em meu corpo. Eu apertei a bengala em meus dedos e minha mãe enlaçou o seu braço no meu. Caminhamos e rimos de qualquer coisa que ambos comentávamos.

Eu não podia descrever em outras palavras o que eu estava sentindo sem logo me arremeter a palavra "mágico" em minha mente.

Eu estava extremamente feliz.
 

...

— E que tal o lápis amarelo do Bob Sponja?

— Mãe! — falei com falso desânimo para ver se minha mãe tomava um tiquinho de vergonha na cara. Era muito engraçado o quanto minha mãe queria me empurrar um monte de materiais infantis sendo que eu já era um homem grande.

— Aigoo, que filho chato que eu tenho. Você negou o caderno da Pucca e a borracha do Pica Pau. Como eu pude errar tanto assim na sua criação?

— Mãe eu não sou mais uma criança. Eu sou um homem enorme e eu tenho que usar coisas que condiz com minha idade.

— Enorme? — MinJung riu de forma escandalosa no meio do Shopping com certeza atraindo olhares diversos em sua direção e pessoas negando com a cabeça enquanto passava perto dela.

Eu só queria me esconder porque eu não sabia que sair com a mamãe era como um convite para pagar mico. Não, eu não tinha vergonha por ela ser minha mãe ou coisa do tipo. Acontece que ela era um pouquinho louquinha e começava a tagarelar beeem alto, gritava no meio da rua e me puxava com tanta força para ir nos lugares que eu quase tropeçava e caia de cara no chão.

Por isso eu sabia que uns montes de pessoas devem estar pensando o quanto a senhora Park é um tantinho escandalosa.

Poxa, as pessoas devem estar pensando que minha mãe é louquinha da cabeça.

— Meu filho virou piadista.

— Omma!

— O que foi filhote? Você parece um anão de jardim. — pegou no meu ponto fraco. Eu não gostava nem um pouco quando mamãe ou Hoseok hyung falava da minha altura. Eu sabia que era maior que minha mãe, mas ela sempre pegava no meu pé dizendo que eu parecia o zangado da branca de neve.

Nunca vi com ele é, mas eu sinto sua dor meu pobre amiguinho anão.

Como de praxe eu já sentia minhas bochechas queimarem de um tantinho de raiva. Sério, nunca falem da minha altura — ou falta dela.

— Aaah, meu bebê. — Minha mãe colocou as mãos nas minhas bochechas e começou a amassar tanto elas que eu já estava as sentindo doloridas. — Parece o zangado da branca de neve.

EU DISSE.

Depois de horas no meio shopping e mais outros vários minutos andando em praças de alimentação onde minha mãe me empurrava um monte de comida — não vou reclamar, inclusive se ela quiser me dar mais... —, minha mãe começou a se cansar e disse que queria ir embora. O shopping que minha disse que ficava longe na verdade ficava a três quadras de casa – segundo ela –, ou seja, minha mãe é uma baita de uma preguiçosa. Como não era tão longe assim de casa eu não considerei isso como uma saída, e sim como um "rolé" como diz Hoseok.

Quando voltamos para casa eu novamente queria sair só por me sentir tão bem enquanto estava na rua.

Minha mãe estava resolvendo as burocracias do colégio e eu estava focado demais estudando que nem um doido nos últimos dias. Eu e Jeon não nos falamos tanto quanto eu queria nesses dias e eu queria muito falar com ele, mas estava ocupado me preparando mentalmente para o que eu iria enfrentar.

No meu íntimo eu sabia que iria ser difícil.

No sábado eu estava sentindo a neve roçar em meu corpo. Eu queria desistir. Estava sentindo as paredes de sentimentos me sufocando. Mas por incrível que pareça naquele dia em que eu tinha planejado apenas chorar no meu cantinho e falar para minha mãe que queria desistir, algo aconteceu.

Eu ouvi um miado sôfrego do meu lado e saltei assustado.

— Miau! — eu ouvi novamente franzi o cenho tentando assimilar que tipo de som era aquele.

— Filho vamos assistir esse filme hoje. — minha mãe disse puxando meus braços e me fazendo sentar meio torto no sofá.

— Qual o nome? — perguntei enquanto sentia o sofá ao meu lado afundar com a presença de Hoseok.

— Gato de botas! — ela disse animada e eu me animei junto com ela.

Aquilo era um miado e eu só soube disso por minha mãe ter me feito assistir aquele filme.

— Um gato! — falei exasperado e o bichano pareceu ter percebido que eu entendi quem era ele e pulou no meu colo esfregando a cabeça em minha mão. — Ei, eu não posso ficar com você. A mamãe não vai deixar. — e o gatinho começou a se contorcer em meu colo pedindo carinho enquanto se esfrega todinho em mim. — Ei! eu n-

Ele entrou na minha blusa e eu não me assustei como outras pessoas fariam, porque eu simplesmente entendi o que ele estava fazendo.

— Miaaau. — ronronou.

— Você está com frio né amiguinho? — e ele esfregou a cabeça na minha barriga fazendo cosquinha nela, como se tivesse entendido a minha fala.

Ele era apenas um animal indefeso com frio e veio me pedir ajuda e mesmo não sabendo nada sobre mim me tratou como se eu fosse seu amigo. Nessa mesma hora eu corri com o bichano em meus braços até o quarto de minha mãe e implorei para ela deixar o bichinho comigo dizendo que eu ficaria responsável por sua alimentação e responsável por si.

Responsável.

Responsabilidade.

Mamãe havia me matriculado a meu pedido em um colégio e com isso eu havia ganhado uma responsabilidade.

Responsável.

Aquele gatinho tinha vindo justamente quando eu precisei.

No domingo eu estava bastante nervoso. Eu comia a minha unha enquanto esperava em frente do banheiro do corredor. O som da água se chocando contra o chão era ouvido por mim enquanto eu andava de um lado para o outro esperando Hoseok sair.

Tudo estava bem enquanto eu arrumava meus matérias para estudar, mas eu acabei lembrando de uma pauta que eu não havia trabalhado com Hoseok.

O pior disso é que ainda não estávamos no falando e por isso eu estava tão nervoso, por ter que engolir o meu orgulho que eu nem sabia que tinha ate esta situação chegar.

O som do banheiro cessou. A porta se abriu. O vento me colidiu.

— Jimin? — perguntou confuso com certeza por me ver parado roendo o canto das unhas enquanto eu estava de cabeça baixa.

— Eu preciso falar contigo. — disse sem delongas.

Eu ouvi ele suspirar.

— Diga-me.

— Eu vou voltar a estudar.

— Jimin...

— Ouça-me Hoseok. — eu já estava nervoso e eu sabia o quanto ele repudiava a ideia. Eu meio que sentia e especulava os seus motivos para ser contra eu voltar a estudar, mas mesmo assim ele não tinha o direito de tentar me impedir de viver. — Eu vou voltar a estudar e com isso eu quero lhe pedir algo que para mim é bastante importante.

Hoseok demorou para responder fazendo um silencio desconfortável pairar sobre nos. O nervosismo aumentou mais ainda — se é que poderia ser possível.

— Diga.

— Eu não quero que seja meu irmão.

Neste instante não houve mais o silencio entre nós. Hoseok arfou surpreso e se remexeu inquieto. O toque de suas mãos veio diretamente em meus ombros, os sacudindo levemente.

— O que?! — falou esbaforido.

— Eu não quero que seja meu irmão-

— Jimin!

— Dentro da escola Hoseok. Não quero ser conhecido como seu irmão. Não quero que comecem a falar comigo só por eu ter ligação sanguínea com você. Eu mesmo quero moldar minha própria historia e não quero que quem comece a escrevê-la seja você. — respirei fundo tentando manter a linha de raciocínio em minha cabeça. — Eu não quero que as pessoas se aproximem com pena ou ganancia somente por eu ser seu irmão. Eu quero amizades reais e que sejam feitas por mérito meu e por minha personalidade. Eu quero ter amigos por causa de mim e não por causa de outros.

Hoseok afastou as mãos de mim e não disse nada por longos minutos que pareceram ser eternos. Naquele momento eu queria poder enxergar para ver as expressões de meu irmão, mas eu sabia que era impossível.

— Chim... e-eu... não posso fazer isso. — ele disse amargurado e eu sabia que ali tinha um pouco de pena. Hoseok não acreditava nas minhas capacidades e isso me doía demais. Ele não acreditava que um menino como eu que era leigo em questões do mundo poderia se adaptar. Isso pesava. Isso me enfurecia.

— Porque não? — falei tentando controlar o filete de raiva que subiu. — Por eu não ser auto insuficiente? Por eu não ter capacidade alguma de fazer amigos? Por eu ser cego? Por eu ser nojento?!

Eu parei imediatamente na ultima fala, porque ela significava o quanto eu estava com magoa, não era nem raiva, era a mais pura magoa.

— Não é isso! — ele se exaltou.

Mas já tinha magoa em meu peito e ele sabia o quanto aquela fala era delicada para mim. Eu tinha crises gritando por elas.

— Não importa. — importa sim, queria gritar. — Não ouse falar comigo quando eu estiver passando pelo corredor. Finja que eu não existo. Eu não sou seu irmão quando atravessar aqueles portões. Eu sou um desconhecido e não sou ninguém. Sou apenas o garoto novo que esta naquele colégio. Apenas isso.

— E-Eu não quero. Por favor, não me faça ser um babaca com você naquele lugar. Já não basta eu ser um inútil aqui em casa, não quero ser lá também. Eu sou falho como irmão, eu sei. Eu deveria te apoiar, mas veja, há segundos atrás eu estava com raiva de você por você querer viver. Eu sou um maldito monstro e não mereço ser perdoado. — ele parou de falar repentinamente meu peito estava começando a arder em sentimentos confusos.

Eu não o achava um monstro. Eu sabia que suas intenções era de certo nobres, e por mais que eu não quisesse admitir eu o entendia, mesmo suas atitudes não sendo certas, eu o entendia. E eu queria gritar isso naquele instante, mas eu me descobri sendo um covarde quando se tratava de demonstrar meus reais sentimentos.

— Por isso eu não quero mais ser mais um maldito babaca. Então não me faça fazer isso. Não me peça para ser um idiota lá dentro contigo. Deixe-me eu me redimir.

E minha mente trabalhou em suas palavras. E por mais que elas tenham soado calorosas em meu coração, minha mente não fez questão de processa-las.

— Não. — abaixei meus olhos com medo da intensidade que seu corpo estava emanado.

— Chim...

— É a minha escolha, Hoseok. Eu lhe imploro. — eu disse sentindo a tristeza enlaçar meu coração. Minha garganta estava ficando seca e eu sabia que iria chorar se ficasse mais tempo ali. Hoseok usou palavras bonitas, mas mesmo assim eu não queria ajuda de ninguém para começar a me construir. Eu não precisava de ninguém. — Por favor, confie em mim desta vez. Eu estou implorando.

Finalmente levantei a cabeça e mesmo não enxergando nada sabia que Hoseok estava assustado por olhar em meu rosto triste, porque no mesmo instante ele concordou e me abraçou apertado. — Tudo bem.

— Fale isso para o Jungkook também.

— Tudo bem.

 

O relógio berrou em meus ouvidos e eu acordei já querendo voltar para a cama. Eu havia demorado muito para dormir e tenho certeza que minha adrenalina estava a mil porque eu não conseguia pregar os meus olhos em nenhuma posição que eu ficava. Quando eu dormi já era bem tarde e meu corpo estava super exaurido.

Peguei a coberta e coloquei em minha cabeça tentando de forma inútil abafar os sons ao meu redor. Senti uma movimentação na cama e dei um pulinho assustado quando eu senti uma coisa molhada em minhas costas.

— Gatinho mimadinho. — me virei no colchão para me afastar do bichano e ele continuou me seguindo arranhando levemente suas patinhas em minhas costas. — Eu não quero ir, filha. — no mesmo dia que eu a adotei mamãe havia me dito que ela era menina, eu fiquei muito feliz que iria poder cuidar de uma gatinha. Senti-a pulando em meu peitoral e ela começou a me lamber de novo só que agora em meu rosto. — Poxa!

Eu tirei a coberta de meu corpo nu e estiquei a coluna quando fiquei sentado.

É um pouco embaraçoso dizer, mas a verdade é que eu amo muito dormir nu. Minha mãe havia parado de escolher minhas roupas há um tempo e eu tinha muita preguiça de tatear roupas até encontrar um tecido fino para finalmente vestir e tomar banho. Eu tinha muita preguiça e assim que eu saia do banheiro pulava diretamente na cama macia e dormia rapidamente. Havia virado um costume meu.

Quando me levantei da cama finalmente depois de muito tempo enrolando, senti uma euforia se apossando de meu corpo.

Eu realmente estava indo para o colégio e não poderia estar mais emocionado para com isso. Eu sei que soa contraditório já que a grande maioria das pessoas odeia estudar, mas eu me considero uma pessoa completamente diferente da maioria. Eu não falo isso por ser cego. Falo isso porque esse é um grande passo que estou dando, passo esse que estou com medo de errar, mas mesmo assim estou tentando.

Eu vou poder ao menos falar que tentei caso eu desista.

A roupa que eu escolhi com a ajuda de minha mãe para ir para o colégio estava totalmente arrumada e separada em um canto de meu quarto. Eu corri para me arrumar e mesmo que tivesse demorado um pouco para colocar e acertar os lugares certos por causa de minha visão tenho certeza que fiz isso antes mesmo do tempo em que eu tinha que estar na escola de findar.

Para falar a verdade nesses últimos dias eu estava surpreso comigo mesmo. Eu sempre vinha tendo sentimentos ruins quando pensava em como seria se eu voltasse para a escola, mas ali, naquele exato momento em que eu estava tomando café com minha mãe, eu me sentia realmente bem e até mesmo o sentimento de êxtase que eu pensei nunca sentir em minha vida estava sendo sentido.

— Anda logo, meu amor. — disse minha mãe me colocando pressa enquanto eu estava ocupado apreciando o gosto daquela geleia com pão.

Era uma delicia!

— Espere eu acabar só esse.

— Ok. Eu estou indo pegar a chave do carro!

— Omma eu já disse que eu queria ir sozinho para lá. Eu quero ser independente!

— E vai meu amor. No entanto o colégio fica bem distante de nossa casa e você ainda não conhece o caminho. Como já esta ficando tarde eu não quero que se atrase.

Eu murmurei um sim mesmo a contra gosto. Minha mãe depois que viu que eu realmente queria estudar começou a espalhar currículos pela cidade e depois de muitos “nãos” ela finalmente ganhou um sim e estava super feliz. Eu não queria ser um peso para ela. Esse era um dos motivos de eu não querer que ela me leve.

Quando eu ouvi os passos dela se distanciando da mesa eu peguei mais um pão e coloquei bastante geleia. Estava silencioso aquele cômodo. Hoseok havia ido mais cedo e eu sabia que ele não queria me encarar depois do que eu o disse ontem. Era difícil para mim também aquela decisão, mas eu não podia depender das pessoas se eu quisesse depender apenas de mim mesmo. Eu não quero precisar de outras pessoas para viver para sempre.

— Eu vi você pegando outro mocinho. — cantarolou minha mãe me fazendo arregalar os olhos.

— Só mais esse.

Quando entramos no carro eu coloquei minha cabeça encostada no vidro da janela. Minha mãe colocou um musica bem calma o caminho todo. Ela sabia que eu estava nervoso e quando eu fechei meus olhos e os apertei senti sua mão entrelaçando na minha tentando me passar confiança. Eu a agradeci em minha mente. Eu a amo demais

O carro estacionou e fiquei ali por alguns minutos sendo consolado por palavras reconfortantes da mulher mais maravilhosa desse mundo. Ela havia me dado um celular antigo e eu até franzi o cenho, porque poxa... eu não poderia ver os números, como eu ligaria para ela? Mas ela me explicou para mim apertar o quarto botão debaixo e pressionar por três segundos que automaticamente o telefone ia ligar para ela. O celular era um pouco pesado, mas coloquei no meu bolso. Ela me deu um beijo demoradamente em minha testa e disse que tudo ia ficar bem. Eu sai do carro pensando nisso, pensando o quão bom aquele passo que eu estava dando era importante para mim.

Todavia quando eu coloquei a bengala no chão senti meu corpo pesar com os olhares que estavam sendo direcionados a mim. Cochichos e palavras como “o que ele esta fazendo aqui” foi captadas por mim, me fazendo automaticamente me encolher e andar mesmo não sabendo para onde eu estava indo.

Meu peito estava começando a se apertar e eu só queria correr até o caminho que eu fiz e voltar para o carro da minha mãe e dizer que nunca mais queria fazer isso.

— Park Jimin! — eu saltei assustado pelo meu nome ter sido gritado daquela forma. Uma voz ofegante estacionou do meu lado e eu fiquei com medo quando eu senti braços finos se entrelaçando com um dos meus. — Eu sou Hyuna. Sou a inspetora dessa bagaça e eu estou aqui para te mostrar a escola.

— O que... — murmurei um tanto desconfortável pelo toque repentino e ela logo percebeu e se afastou pedindo um monte de desculpas. Eu não sabia como era a escola ou sua dimensão de espaço e visando nisso mesmo um pouco desconfortável pedi para ela me guiar, e ela logo enlaçou meu braço de novo.

— Então... — ela falou depois de um tempo que estávamos andando. Ela disse que me levaria ate minha sala e quando batesse o sinal me faria fazer um tour por todo o colégio. — Eu quero lhe falar algo. — eu concordei batendo a bengala a minha volta tentando ter uma noção de espaço. — No começo pode ser exaustivo. — ela disse me fazendo franzir o cenho, provavelmente vendo minha confusão ela logo tornou a explicar. — Você é o primeiro aluno que recebemos que é cego. Eu não estou te desmerecendo ou algo do tipo. Tem vezes que eu queria ser cega também para não poder olhar o quão feio o mundo é... o que falei foi idiota né?

— Um pouco...

— Desculpe, eu sou uma tonta. O que eu queria dizer é que em nosso âmbito escolar ninguém esta acostumado a isso, sua condição, e logo essa diferença pode causa certo estranhamento em alguns tapad- alunos. — ela perto meu braço no seu e logo entendi que ela estava receosa. Estamos chegando em minha sala. — Eu só quero dizer que qualquer coisa que aconteça, qualquer coisa mesmo, você pode vir em minha sala ou pedir para me chamarem. Eu vou estar aqui para você, Jimin. Não quero que tenha medo, mas se tiver faça dele uma arma contra esses tapad- alunos. Você não é diferente deles, Park, é especial.

E com isso nos dois paramos. Eu estava parado em frente de minha sala, eu sabia, mas minha cara de choque era por suas palavras finais. Eram boas de ouvir. Eu senti que poderia confiar em Hyuna.

Ela logo chamou uma mulher e eu sabia que ela era a professora, porque assim que ela chegou Hyuna se dispersou e foi embora dizendo que nos encontraríamos depois.

Eu segurei a bengala em meus dedos de forma firme demais, fazendo com que meus dedos doessem devido à força que usei. Eu estava morrendo de medo naquele segundo. A professora me chamou. Meu coração alavancou. Eu segui reto e recoso até ouvir os passos da professora se frearem.

— Alunos, façam silencio! — ela pediu alto e o barulho automaticamente se cessou. — Este é Park Jimin. O novo colega de vocês.

Silencio.

Eu não esperava muita coisa quando eu entrasse em sala, mas o silencio constrangedor me deixou muito mal.

— Você quer acrescentar algo? — perguntou a professora apenas para eu ouvir, neguei. — Então pode se sentar na... humm... na terceira cadeira no final da sala.

Então o único som que fez eco foi da minha bengala batendo no chão. Não era ouvido mais nada além disso. Eu segui de cabeça baixa até o final da sala, bati a bengala do lado e vi ela se chocar com algo metálico. Dei dois passos para trás e virei meu corpo para entrar em um pequeno corredor cheio de cadeiras e mesas em cada lado. Contei uma, duas, três batidas nas cadeiras ao meu lado para enfim poder me sentar, mas antes que eu pudesse fazer isso sem querer meu corpo esbarrou em uma cadeira, me fazendo ir de encontro ao chão.

Ouvi risadas contidas, abaixei o rosto.

— Você esta bem? — ouvi a voz da professora e algo em seu tom não me agradou.

— Sim. — respondi envergonhado.

Levantei-me apoiando no objeto em minhas mãos e na mesa ao meu lado. Tateei ela e suspirei quando vi que ela estava vazia. Sentei. A professora começou a dar a aula. Senti que havia alguém ao meu lado e ouvi a cadeira se arrastar para longe de mim. Meu coração se apertou triste.

Não sei uma forma de descrever como foi aula, mas uma coisa eu tenho certeza, não foi boa.

Meu corpo estava pesado com tantos olhares em mim. Senti olhares julgadores, enojados, penosos e odiosos sobre minha pessoa. Eu estava me sentindo muito mal ali dentro e a sensação de paredes se apertando ao meu redor estava ficando cada vez mais sufocante. Eu não sabia antes, mas eu comecei a ter medo de lugares com muitas pessoas. Porque grande parte delas são falsas. Elas dizem que não tem preconceito com pessoas cegas, mas quando um passa ao seu lado elas começam a acelerar o passo para não ter que falar com ela. Pessoas são hipócritas e por isso eu comecei a temer mentiras. Eu abominava isso. Eu comecei a temer as pessoas por serem tão mentirosas. E naquele momento eu estava cercado delas. Era amedrontador aquela sensação que eu estava sentindo.

Os sussurros e algumas piadas baixas sobre mim estava me envolvendo em uma bolha grande de medo que me sufocava.

“Woh! Ele é mesmo cego?”

“O que ele está fazendo numa escola normal?”

“Coitado do Hansol se sentando logo do lado dele.”

Eu me sentia como se estivesse na minha antiga escola. Sentia Kai e seus amigos me olhando com nojo e seus pontapés em meu estomago. Eu estava me sentido sufocado. Queria gritar, mas isso seria mais um motivo para rirem de mim.

Eu me sentia um estupido.

O sinal tocou e vozes animadas foram ouvidas por mim. E impressionantemente me senti bem quando enfim aquela torturante aula se findou. Era hora do intervalo. Hyuna disse iria me ver.

— Park! Peter Park! — eu ouvi a voz dela e franzi o cenho com o recém apelido.

— Peter? — perguntei.

— O homem aranha! — ela falou incrédula, como se eu fosse algum tipo de E.T. — Tu tá dizendo que nunca viu aquele mac- ih porra, abortar missão. Murro na burra.

Eu comecei a rir dentro da sala, meu corpo se inclinado para baixo enquanto eu batia no ar.

— Caralho você é muito lindo. — ela disse.

Eu corei.

— Puta que pariu que menino fofo. Iti. Iti. Iti. — fiz uma cara emburrada e ela logo colocou as mãos magras em minhas bochechas apertando-as. — Se você fosse mais novo...

Franzi o cenho confuso ainda com ela esmagando minhas bochechas.

— O que? — falei com a voz estranha por meu rosto estar sendo puxado.

— Esquece. — ela se afastou e estalou os dedos. — Ah! Tenho um tour para fazer contigo. Vamo que vamo, muleque piranha.

Muleque... o que?

Eu nunca ri tanto em minha vida. Hyuna era realmente uma companhia legal de se ter ao lado. Ela me puxava para todo canto como um boneco, mas quem disse que me importei? Ela era engraçada e gentil e sempre fazia questão de descrever os lugares e contava comigo alguns passos para locais importantes. Foi engraçado porque ela gritava os números altos e quando nos perdíamos ela voltava no lugar para conta de novo. Ela era incrível.

O sinal já havia batido dando início às aulas, mas quem disse que ela se importou?

Quando perguntei para ela se ela não levaria alguma penalidade por isso ela apenas deu um tapinha no meu peito e falou:

— Idaí, meu filho. Eu sou a lei.

Quando os corredores ficavam com alguns alunos sussurrando desgostosamente em nossa direção ela apertava mais ainda meu braço e começava a tentar me distrair das coisas ao meu redor.

Até que funcionou.

Hyuna começou a contar um pouco de sua vida para mim. Ela era divorciada e fez questão de ressaltar que deu um pé na bunda dele porque ele não queria deixa-la trabalhar, ela disse que não dependia de macho para nada e não seria ele que tiraria a independência dela. Ela tinha um filho e o nome dele era Robin. Quando indaguei sobre o nome peculiar ela disse que ele era estrangeiro, ela havia o adotado porque os pais deles havia o abandonado e como ele era negro ninguém queria o adotar. Então ela o adotou e da todo o amor e apoio que ele precisa. Eu fiquei feliz por ela e comecei a admirar a mulher que ela é.

O sinal bateu mais uma vez, mas dessa vez ela disse era melhor irmos porque agora era o outro intervalo e ela queria que eu conhecesse o local.

Nós fomos até a cantina e ela me ajudou a escolher os lanches, sussurrando no meu ouvido o que eu deveria evitar por não ser confiável as origens do item.

Quando chegamos na porta ouvi um monte de falas sendo ditas. Eram comentários incessantes e falas demais me deixando desconfortável tanto barulho por causa de meus ouvidos.

Hyuna apertou meu braço e eu sabia que ela sentiu meu receio.

— Tudo bem? — ela perguntou.

Não, eu queria dizer, mas ela estava sendo muito boa comigo naquele dia e eu não queria decepciona-la.

— Sim. — sorri sem mostrar os dentes. Sorri tentando afastar meus medos profundos.

A porta se abriu e novamente a sensação sufocante se fez presente. Senti os olhos grudarem em mim e minha alma despida com os olhares alheios.

Hyuna começou a falar do meu lado, mas eu não prestei atenção em nenhuma palavra sequer. Eu estava concentrado em tentar fazer meu corpo não entrar em colapso naquele instante. Minhas mãos estavam suando e eu nem notei quando começamos a caminhar. Nem notei quando me sentei. Concentrado e com medo das pessoas ao meu redor.

Só fui notar quando ela se afastou de mim e disse que precisava sair para resolver um problema urgente na secretaria. Meu corpo estava estático ali e eu senti as pessoas se afastando de mim. Senti as pessoas ditaram sobre mim ao meu redor. Senti o ar faltando em meu peito, mas mesmo assim eu tive forças para pegar os chopstick para comer mesmo a contragosto a comida.

Fazia tempo que aquela sensação ruim não era sentida por mim.

A sensação de não pertencer a lugar nenhum.

Quando o sinal tocou dessa vez eu não tinha ninguém para me auxiliar. Então tive que seguir a risca, contando alguns passos como Hyuna havia me ajudado e incrivelmente eu havia conseguido chegar à sala de aula.

A aula se seguiu da mesma forma que a anterior e eu senti uma vontade louca de enfiar meus dedos em meu bolso para pegar o celular e ligar chorando para minha mãe me tirar desse circo de horrores.

Dado o sinal para o final das aulas eu pude abaixar minha cabeça e descansar ela em meus braços. Fiquei ali por um bom tempo suspirando de coração partido e dolorido.

No final eu só saí porque Hyuna havia me chamado novamente, mas dessa vez era para ela me dar os materiais que faltavam para eu estudar já que eu não pude estudar quase nada ou acompanhar os professores por não ter os materiais necessários. Ela me acompanhou até sua sala e ficou ali, me explicando sobre o colégio e algumas regras; conversando comigo e transpassando seu bom humor. No fim ela me deu os materiais necessários e disse que estava ficando tarde. Ela me acompanhou ate a saída e de lá eu comecei a caminhar um tanto pensante para dentro.

Minha cabeça rondava sobre os acontecimentos anteriores. Tudo que eu pensei foi totalmente ao contrario do que me veio a minha mente quando eu pensei em voltar. Eu ingenuamente pensei que as pessoas haviam evoluído e isso provavelmente tenha sido um dos meus erros.

Foi tudo tão inesperado do que pensei.

Mas eu não posso ficar criando expectativa ou planejando tudo passo a passo do iria ocorrer na minha vida. Porque eu nunca em todos meus anos de existência imaginaria que estaria no meio do nada, no telhado de um prédio aparentemente abandonado junto com Jungkook.

Isso sim foi a coisa mais inesperada de minha noite.

— Eu pedi para que você encontre sua própria luz, Jungkook, e consiga finalmente brilhar.

Eu disse para ele com os olhos fechados. Eu não conseguiria colocar em palavras o que eu estava sentindo naquele momento. Era tudo tão novo e inesperado. Estar com aquele garoto do meu lado me proporcionava sensações que eu julguei ser inexistentes.

Meu coração pulava em meu peito e havia momentos em que eu sentia que ele simplesmente parava e começava a me analisar. Seu olhar em mim despia minha alma, mas eu sentia que não era um olhar ruim. Era um olhar que me fazia ficar de bochechas coradas e deixava meu estomago revirado. Era estranho.

Era bom.

Jeon inesperadamente segurou minha mão na sua. Mesmo sua mão estando gelada eu pude sentir um breve choque com o contato.

Suspirei.

— Obrigada.

— Hum? — murmurei atordoado ainda impressionado com o quanto minha mão se encaixava na sua.

— Yah, você esta prestando atenção em mim? — senti um beliscão na minha cintura e sobressaltei.

— Você quer levar uma bengalada de novo? — falei entredentes, fingindo uma raiva inexistente em mim quando estava com ele.

— Por isso eu a peguei e escondi de você. Sou jovem demais para morrer. Já imaginou aparecer no jornal "menino é morto a bengaladas por anão furioso"

Eu ri, mas foi só na minha mente. Por fora eu estava com raiva.

Eu menti sinto raiva com ele sim, grr.

Eu soltei o enlaço de nossas mãos e comecei a estapeá-lo com a força do meu ódio.

— Yah! Quem é o anão senhor girafa-les? — perguntei enquanto minhas duas mãos iam de encontro ao seu peito duro, o estapeando.

Jungkook então inesperadamente segurou meus dois pulsos e em questão de segundos eu me vi deitado no forro macio que estava no chão. Eu fiquei atordoado com esse movimento imprevisível e como em todas as outras vezes em que sem querer o silêncio nos envolve, senti os olhos de Jungkook queimar em meu rosto. Era uma sensação indescritível e meio esquisita. Seu corpo pesava em cima de mim e eu sentia suas mãos tremendo enquanto agarrava meus pulsos em suas mãos. As pontas de seu cabelo roçavam em minha testa e seu hálito quente se chocava em meu nariz, me causando arrepios.

Por um momento enquanto sentia seu corpo encostado no meu comecei a pensar em todas as descrições que Jungkook havia me dado quando eu o pedi. Eu queria poder ver o seu rosto e poder saber se ele é tão bonito como a neve ou se os olhos dele brilham como as estrelas que ele descreveu há minutos atrás. Minha mente formulava hipóteses e tentava formular como seria o rosto de Jeon. Queria saber se ele era tão lindo como a alma dele se mostrava ser. Queria saber todas as suas expressões e detalhes imperceptíveis. Queria o tocar… céus, eu queria muito tocar seu rosto para poder ao menos imaginar sua fisionomia.

E talvez, só talvez, eu já soubesse o quão lindo Jungkook era desde antes de nós nos falarmos. Meu coração sabia disso e eu resolvi acreditar nele.

Não sei dizer quanto tempo ficamos daquele jeito, mas uma coisa eu posso dizer, meu coração não parou de bater rudemente em meu peito a cada segundo.

— Errw… — senti seu calor indo embora, para longe de mim. — Desculpe.

— Que isso, haha. — o que foi essa risada? meu pai! — Não tem problema.

— E-Eu tava di-dizendo que… hummm… aish!

No fundo do meu coração eu sabia que o momento era inoportuno, mas eu não consegui segurar a risada que quis sair de meus lábios. Jungkook era uma pessoa tão doce sem se esforçar que mexia comigo.

— Obrigada.

— Por qual motivo está me agradecendo?

— Estou agradecendo por você confiar em mim. — ele suspirou profundamente e eu senti brevemente seu hálito batendo em minha bochecha. — Você e eu não nos conhecemos há muito tempo, mas mesmo assim você está aqui comigo. E eu queria agradecer mais uma vez. — eu ri colocando a mão em minha boca tampando minha risada. — Eu realmente não sei o que está acontecendo comigo. Eu não confio muito nas pessoas ao meu redor, mas é simplesmente mágico a forma que me sinto confortável a sua presença. Você me deixa confortável Jimin e por isso quero agradecer. Quero agradecer por me deixar ser eu mesmo e não me julgar. Droga…. eu não sei mais o que estou falando… me descul-

— Jungkook! — eu o calei com minha voz. — Eu não posso lhe perdoar…

— O que?! Eu-

— Deixe-me terminar. — suspirei ruidosamente. Senti meu coração voltando a acelerar novamente e posso dizer que estava começando a me assustar com isso. —… Eu não posso lhe perdoar… porque eu na verdade me sinto da mesma forma. Eu não sei se percebeu, mas além de minha mãe e Seok não há mais ninguém a minha volta. E para mim foi um grande passo ter deixado você se aproximar. — aquele momento estava sendo composto pelos sons das folhas se batendo uma contra outra. O vento fazendo ruídos quando se chocava com alguma coisa ao seu redor. Com o som de meu coração e a descarga de adrenalina que estava correndo em minhas veias. — Eu não suporto mentiras, Jungkookie, e as pessoas geralmente são manchadas por elas em seu corpo. Por isso eu sou grato por você não ser uma daquelas pessoas mentirosas que se esconde por camadas, que me minimiza por minha condição. Por ser uma pessoa que não me trata como uma diferente só por eu ser cego. Por me fazer confiar que talvez o mundo não seja tão escuro como eu vejo. Eu sou grato por você ser você.

Eu senti meu corpo tremer, mas não era por causa do vento frio que batia em meu corpo, era por causa de minhas emoções que estavam se embaralhando e se tornando uma confusão em meu coração. E talvez amanhã eu possa fugir de Jungkook por estar descarregando meus sentimentos de maneira tão crua, mas eu não posso sempre ficar pensando no amanhã e nas suas consequências. Eu não posso pensar que Jungkook talvez se arrependa de ter me prendido em seus braços como fez surpreendentemente neste momento.

— Confiar… — ele sussurrou em meu ouvido. — A verdade é que eu tenho medo de sentir e desconheço a intensidade dos sentimentos por nunca poder os sentir verdadeiramente. Amor para mim sempre foi algo impossível... — meu coração martelou em meu peito e seus braços me apertaram mais ainda. — Confiar.... Eu sempre odiei o modo como essa palavra soava. Confiar é você de algum modo se dar para uma pessoa. É entregar um pedaço seu mesmo não sabendo se a pessoa vai ter zelo com aquele pedaço que lhe foi dado… Confiar pode ser relacionado ao amor. Não apenas ao amor romântico, mas ao amor fraternal, ao amor entre amigos, ao amor de outras diversas formas. Se você ama a pessoa e entrega uma parte sua você sempre tem uma ponta de esperança dentro de si que espera retorno mesmo nem sempre dando certo. Confiar para mim sempre foi questão de tempo. Mas mesmo nós nos conhecendo a menos de uma semana eu sinto que posso aos poucos dar um pedaço de mim a você… eu sinto que posso confiar em você, Jimin.

O silêncio se fez presente. Nada mais saiu de nossos lábios. Nada mais poderia ser dito por nenhum de nós depois de dizermos algumas de tantas coisas que estavam entaladas em nossa garganta.

Jungkook me apertou mais ainda em seu calor e eu não pude deixar de retribuir da forma mais confortável que eu podia. Jeon se tornou uma estrela para mim naquele momento, em cima daquele prédio abandonado, cercados apenas pelos sons de cigarras a nossa volta. Eu não tinha ideia de como, mas de algum jeito faria Jungkook se sentir uma pessoa brilhante.

— Temos que ir… — ele murmurou ainda com seus braços ao meu redor.

Mesmo não querendo eu me afastei de seu calor acolhedor e Jungkook começou a arrumar as coisas para podermos ir para casa. Quando enfim ele terminou de arrumar tudo Jeon começou andar ao meu lado, mas por algum motivo acabou tropeçando. Eu só soube disso porque ele teve que segurar com força o meu braço para não cair no chão. Eu ri de seu jeitinho destrambelhado.

— Para de rir!

Eu não aguentei, ri mais ainda.

— Aé? Tchau! — eu ouvi ele se afastando a passos pesados de mim, mas segundos depois ele voltou e enroscou seu braço no meu. — Só tô fazendo isso porque sou um príncipe.

E assim descemos as cansativas escadas de novo. Pegamos a mesma trilha e tivemos que esperar longos minutos até um ônibus passar. Jungkook permaneceu com seu braço no meu até nos separamos quando chegamos novamente em casa e por incrível que pareça quando chegamos ela estava silenciosa.

Jungkook saiu de perto de mim e se despediu de modo desesperado alegando que precisava de um banho e eu apenas murmurei o apelido dele fazendo ele correr mais rápido ainda.

Eu comecei a caminhar até meu quarto a passos vagarosos e cheguei até o meu quarto. Quando estava prestes a tocar a maçaneta eu ouvi passos pesados no corredor e eu sabia quem era apenas pelo modo que os sons saiam de seus pés pela força desengonçada de andar.

Por um momento eu refleti as palavras de Jungkook sobre confiança e sobre as formas que poderíamos amar. Hoseok era meu irmão e eu confiava e o amava demais. Eu havia guardado aquilo por muito tempo em meu coração e eu sentia que já estava na hora de me abrir e falar aquilo que estava a tanto tempo preso em minha garganta. Com esse pensamento eu me impedi de entrar no quarto e ali, estático, eu pude colocar para fora o que eu tanto quis dizer ao meu irmão:

— Hosoek eu em momento algum te culpei pelo o que aconteceu. Nós éramos jovens na época e não tínhamos consciência do que era o futuro. — eu resfoliei sentindo meu peito apertando. — Eu sei que você da sempre o seu melhor e sempre está me apoiando em tudo que pode e eu do fundo do meu coração o agradeço por isso. Você não tem culpa Hos, nenhum de nós têm. Fomos apenas vítimas do acaso e isso não está no nosso controle para evitar. Então, por favor, não se martirize tanto por isso. Apenas seja minha guia como você sempre foi, meu irmão.

Então eu abri a porta do meu quarto sem antes ter tempo de ouvir sua resposta. Corri aos tropeços até minha cama e tateei a cômoda para pegar o meu gravador.

"Querido diário-gravador, eu definitivamente tenho um novo amigo. Porém estou confuso… esse amigo me faz sentir coisas demais…"


 

Jimin sempre foi um odiador de mentiras, mas não sabia que do outro lado de sua parede Jungkook mentia enquanto se revirava na cama sem dormir sentindo o que dizia nunca ter sentindo.

Jungkook estava sentindo pela primeira vez sentindo o sabor dos sentimentos. Ele estava pela primeira vez começando a sentir o gosto doce do amor... mesmo não sabendo.

 

 


Notas Finais


Oie gente, i'm comeback depois de ter passado o prazo kkkkkkk desculpa.

Eu não gostei do capítulo, sinceramente. Achei que dava para acrescentar mais coisas, mas ficou desse jeito e espero não ter ficado tão ruim.

O capítulo tá enorme, desculpe. O próximo eu juro que vou tentar deixar menor.

Eu sinto que não passei muito bem a visão do Jimin sobre como ele se sente sendo cego. Porém vai ter outros capítulos na visão dele e eu prometo passar melhor os sentimentos dele sobre isso.

Espero que tenham gostando. O próximo capítulo já volta sendo a visão do Jungkook🌹

🐥🐰Obrigada e até a próxima🐰🐥


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