História Always lost in thoughts - Capítulo 16


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Notas do Autor


Hey, meus amores! Tudo bem com vcs?
Não lembro a última vez q eu postei 3 capítulos em 1 semana kkk talvez seja um feito inédito! Começamo 2020 bem demaaais! Kkkk
Esse capítulo tem uma cena específica q pode dar um deja vu na galerinha que leu "Lost in thoughts", mas aqui, em ALIT, eu, particularmente, acho q ficou melhor kkkk
Espero que gostem!

Obs.: palavras em negrito indicam gritos.

Capítulo 16 - Uneasy situation


Sigo o Dr. Simmons pelo corredor da UTI. Passar por esse setor e ver tantas pessoas em situações de risco me deixa inquieta, nervosa. Fico imaginando se o David está cheio de aparelhos ao redor dele como alguns pacientes que vi com o canto dos olhos. Consigo visualizar esse cenário, mas meu consciente tenta negá-lo com todas as forças. Parece que associo a imagem de precisar fazer uso de aparelhos hospitalares a um estado de saúde deteriorado. Talvez a imagem de uma pessoa querida utilizando essas coisas cause essa angústia e, em mim, negação.

A UTI consistia em um corredor longo, com o mesmo padrão de cor do restante do andar: piso, paredes e teto brancos, com camas hospitalares e cortinas azuis dispostas ao redor das acomodações, para dar mais privacidade a cada paciente. Umas estavam abertas, outras fechadas... Das que estavam abertas, algumas estavam vazias. Isso é bom, creio eu. Significa que o hospital tem infraestrutura para atender mais um enfermo com quadro mais delicado caso precise.

Após alguns poucos minutos seguindo o neurologista, chegamos na cama em que David estava. A imagem inicial me assusta muito. Ele ainda estava desacordado, usava aquele “avental” típico de quem está internado, de cabelo raspado e com uma máscara de oxigênio cobrindo a boca e o nariz. Havia uma daquelas máquinas que auxiliam na respiração ao lado da cama dele. Além disso, ele usava um colar cervical. Sinto minhas pernas bambearem ao vê-lo naquela situação. Sou leiga em assuntos medicinais, mas posso supor que ele não tá respirando direito e que machucou a coluna na queda. Ai, Deus...

Quando eu e o Dr. Simmons paramos em frente ao leito de David, uma enfermeira explicou ao médico quais procedimentos foram tomados até o momento. Achei que seria indelicado ouvir a conversa dos dois, então fiquei um pouco afastada, tentando conter o ímpeto de me aproximar da cama. Mesmo assim, presto atenção nas expressões faciais que o Dr. Simmons fazia. Não vejo nada fora do normal. Na verdade, ele parece bem... Indiferente? Talvez seja só mais um caso de coma que ficou como sob sua tutela. Assim que terminou de dialogar com a enfermeira, o médico se virou para mim.

- Bom, vou clarear um pouco as coisas. Seu amigo tá num quadro estável, até o momento. Já foi realizada uma bateria de exames enquanto eu estava ausente. Pela tomografia de tórax, foram constatadas 6 costelas fraturadas e uma lesão pulmonar. – Interrompo o Dr. Simmons assim que ouço essas informações.

- Perfurou o pulmão dele? – Minha voz saiu trêmula. Não posso negar que senti um desespero descomunal ao ouvir “lesão pulmonar”.

- Não, é mais simples. Por conta do impacto com a água, o pulmão dele se chocou com força contra a caixa torácica. Isso gerou o que chamamos de hematoma pulmonar. Basicamente, há um inchaço causado por rompimento de vasos sanguíneos pequenos que dificulta a respiração. É muito mais simples do que uma perfuração porque o pulmão dele ainda funciona normalmente. Como ele está em coma, a equipe achou melhor realizar a entubação para usar o respirador mecânico e garantir oxigenação adequada do cérebro.

- Ah. – Suspiro, aliviada. – Menos mal.

- Sim. Também foi constatada uma fissura no rádio esquerdo, um dos ossos do braço, porém o tratamento é tranquilo. Caso ele acorde rapidamente, basta imobilizar por uma ou duas semanas. Sobre o coma, preciso realizar alguns testes diagnósticos antes de projetar qualquer prognóstico.

- O que seria um prognóstico?

- Uma resolução, em linhas gerais. Por exemplo, no caso do Sr. Hall, um prognóstico possível pode ser: ele irá se recuperar dentro de 2 meses com manutenção plena das funções motoras e cognitivas.

- Hum... Agora entendi. Obrigada.

- Por nada. Antes de começar a realizar o processo prático de diagnóstico, gostaria de lhe fazer algumas perguntas pontuais sobre o Sr. Hall para definir quais testes farei.

- Claro, vou responder o que eu souber.

- Ele usava alguma droga, lícita ou ilícita, com ou sem prescrição?

- Não, nenhuma.

- Álcool?

- Aumentou o consumo nos últimos meses.

- Ele estava bêbado quando o acidente ocorreu?

- Não.

- Ele faz uso de alguma outra substância tóxica?

- Não que eu saiba. – O Dr. Simmons anotou algumas coisas em sua prancheta.

- Certo... Ele sofreu algum ferimento antes do acidente?

- Não.

- Bom, foi relatado que ele caiu da Harvard Bridge e provavelmente perdeu a consciência no momento do impacto com a água. Poderia me dar mais detalhes sobre o caso? Ele mencionou alguma coisa sobre suicídio ou depressão?

- Não, mas ele tava passando por um momento bem difícil. Além disso, se recusava a procurar um terapeuta, mesmo ficando mais deprimido a cada dia...

- Ok... Quando foi a última vez que ele parecia normal?

- Olha, plenamente normal, em dezembro. Há uns 4 ou 5 meses.

- Ele andou viajando ou se alimentando de maneira diferente do usual?

- Viajando, não. Sobre a alimentação, creio que não.

- Última pergunta: ele ficou doente recentemente ou desenvolveu alguma doença, como diabetes? Podem ser manifestações de sintomas, também.

- Não, a saúde física dele estava boa.

- Perfeito... Bom, Jessica, realmente pode ter sido uma tentativa de suicídio.

- Não é que “pode ter sido”, realmente foi. Ele pulou da ponte...

- Então. Isso facilita um pouco o diagnóstico e reduz a quantidade de exames que serão feitos. Agradeço a cooperação. Está se sentindo a vontade para assistir ao diagnóstico prático? Preciso começar o mais rápido possível. – Confirmo com a cabeça. – Ótimo. Começarei com testes mais simples e irei aprofundando conforme necessário.

Nisso, ele se aproximou da cama, e eu fiz o mesmo movimento, porém fiquei do mesmo lado que a máquina de respiração. O Dr. Simmons tirou uma espécie de lanterna pequena de um dos bolsos do jaleco, ergueu, primeiro, a pálpebra esquerda de David e a examinou, depois repetiu o processo com a pálpebra direita.

- Certo, a coloração dos olhos está normal. – Também analisou a cabeça dele como um todo, focando no nariz e nas orelhas. – Não há cortes, nem vazamento de líquido cefalorraquidiano. Isso é ótimo, não há lesão craniana ou medular. – Sinto um breve alívio. Um problema em potencial a menos. O médico, após esse primeiro teste, retirou o colar cervical de David. – Ele não vai precisar mais usar isso.

O Dr. Simmons guardou a lanterna e, então, com a ajuda de uma espécie de grampo, manteve as pálpebras de David levantadas. Movimentava a cabeça dele de um lado para o outro, em todas as direções, delicadamente.

- Ótimo, os olhos acompanham o movimento do crânio. Mais um ponto positivo.

Após esse teste, o neurologista chamou David pelo nome, várias vezes. Confesso que achei um pouco estranho. “Ele tá desacordado, não vai te ouvir”, pensei. Mas, ele é o neurologista aqui, deve saber o que tá fazendo.

- Hum... – Ele parecia pensativo. – Vamos tentar outra coisa... – Nisso, ele aperta a unha do dedo indicador esquerdo de David. Percebo que os dedos dele de movem muito suavemente. Parecia um espasmo natural de uma pessoa adormecida. – Hum... – Dessa vez, o Dr. Simmons dá um beliscão no antebraço de David. Há outro espasmo sutil. – Não tá ajudando a gente, garotão... – Ele faz uma pausa e olha para mim. – Jessica, preciso que você se mantenha calma. Talvez ocorra algo que te pegue de surpresa. – Fico preocupada e apreensiva com esse aviso, mas assinto. Então, o médico coloca sua mão ao redor do braço lesionado e aperta-o. Vejo o corpo de David enrijecer, então ele abre os olhos, faz uma expressão de dor, emite um grunhido e, num espasmo, chacoalha seu braço esquerdo. Após o médico aliviar a pressão, David voltou a estar como antes: como se estivesse dormindo. Ao presenciar essa reação, senti os níveis de adrenalina no meu corpo subirem instantaneamente, meus músculos ficam tensos e eu cerro os dentes. A reação foi muito rápida porque o neurologista segurou o braço dele por menos de 5 segundos. Ao ver essa resposta de David, o Dr. Simmons sorriu. Não sabia se eu sorria de volta, tamanho desespero que sentia, ou se confrontava ele por ter feito isso.

- Agora sim. Jessica, esse procedimento é chamado de teste de som e de dor. Ele busca extrair reações do subconsciente de quem está em coma. Quando eu chamei ele pelo nome, apertei sua unha e belisquei seu antebraço, as reações não foram claras. Tiveram espasmos, mas discretos. Então, ao pressionar uma área altamente dolorida e sensível, ele teve uma reação extremamente positiva. Significa que o sistema nervoso central dele está funcionando, no geral. As chances de dano nas funções cerebrais diminuem quando isso acontece.

- Ah, que ótimo... – Esse era um dos meus maiores medos, ele não se recuperar plenamente.

- Bom, agora, por precaução, ele fará mais 4 exames. É preciso analisar a pressão dentro do crânio dele, a resposta do encéfalo a estímulos elétricos e a quantidade de glicose presente na corrente sanguínea. Ele já foi medicado e já aplicaram uma dose de glicose nele, então quero monitorar os níveis dessa substância no corpo, para garantir que não vão subir muito. – Nisso, ele confere o horário em seu relógio de pulso. – Agora são 18h30. Acredito que os resultados devem sair por volta das 22h. Vou pedir pra uma enfermeira avisar você assim que nosso amigão voltar pra cá. – Ele coloca a mão na perna esquerda de David e sorri. Retribuo o sorriso.

- Obrigada, doutor. De coração.

- Por nada. Se estiver aqui quando eu receber os resultados, gostaria que você fosse até minha sala, no andar debaixo, para que eu passe o prognóstico do Sr. Hall. Uma enfermeira irá avisá-la.

- Certo, estarei aqui. Obrigada.

Sorrio e caminho em direção a saída da UTI. O que... Foi isso? Aquela reação dele quando o neurologista colocou pressão no lugar onde tem a rachadura no braço esquerdo... Nunca imaginei que alguém totalmente apagado poderia fazer aquilo, como se estivesse consciente. Só faltou o David gritar e empurrar a mão do Dr. Simmons. Ainda me sinto um pouco trêmula, a adrenalina não diminuiu consideravelmente. Que dia de cão, cara... Ao sair do setor, vejo minha mãe sentada no mesmo lugar. Assim que ela percebe que eu saí, se levanta e vem em minha direção.

- E aí, filha? O que ele falou?

- Puta que pariu, mãe. Ainda tô tentando processar o que aconteceu. – Ela pareceu um pouco apreensiva.

- Como assim?

- Ah, ele contou o que já sabia sobre o caso. O David tá com uma fissura no braço esquerdo, quebrou 6 costelas e tá com um hematoma no pulmão. Tá entubado e respirando com ajuda de um aparelho.

- Meu Deus do céu... Mas ele tá bem, pelo menos?

- Sim, já deram uns remédios pra ele. O que falta é uma projeção do que vai acontecer, tipo, quando ele vai acordar, se ele vai acordar, se o cérebro ficou danificado e por aí vai. O médico fez uns testes pra fazer essa projeção, mas meu Deus, foi assustador.

- Por que, o que ele fez?

- Ah, teve uma hora lá que o Dr. Simmons apertou o braço do David. Aí ele fez uma cara de dor, endureceu o corpo, grunhiu... Nossa, foi bizarro demais. Pelo menos o médico disse que isso é bom, quer dizer que o cérebro dele tá funcionando direito.

- Glória a Deus. Mas você já sabe quando ele vai acordar?

- Ah, não sei. O Dr. Simmons disse que ainda faltam alguns exames.

- Hum... Você acha que vai demorar pro seu amigo sair do coma? – Solto um riso inocente e me preparo pra tirar um pouco de sarro da minha mãe.

- Ah, dona Irene, aí a senhora tá fazendo uma pergunta difícil demais. Eu tô cursando adm, não medicina. – Ela retribui com um riso sarcástico.

- Engraçadinha. – Sorrio e minha mãe retribui. – Bom, já é alguma coisa. Agora é só esperar. Vai demorar pra sair os resultados dos exames dele.

- Como você sabe?

- Todo hospital é assim, filha. Vou chutar: umas seis horas até sair os resultados. Acertei?

- Não, o médico disse quatro horas.

- Ah, já tá bom. Melhor que seis.

- É... Ah, ele pediu pra eu ir na sala dele assim que os resultados saírem. Disse que uma enfermeira ia me avisar.

- Vai ficar tarde pra você voltar pra casa, não?

- Vou passar a noite aqui. Não vou deixar ele sozinho.

- Certeza? Eu tenho que voltar pra casa, amanhã cedo eu tô de pé.

- Certeza, fica tranquila. Acho que a família dele chega amanhã, então vai ser só essa noite. – Minha mãe continuou incomodada com a minha decisão.

- Ah, tudo bem. Já sei que eu não vou te convencer porque você é teimosa que nem seu pai. – Ela sorri e eu retribuo com um sorriso sarcástico, porque não concordo. Meu pai é umas dez vezes mais teimoso que eu, pelo menos. – Quando for umas 20h vamos sair pra jantar por aqui? A gente come e eu vou pra casa depois.

- Tá bom. Você conhece algum restaurante aqui perto?

- Sim, tem uns bons por aqui. Quando der 20h a gente decide. – Confirmo com a cabeça e sentamos nos assentos disponíveis. Agora só posso esperar...

(...)

Fomos num restaurante de comida oriental na mesma rua do hospital. Pedi a menor porção que serviam, meu apetite foi embora depois de tudo o que aconteceu hoje. Mesmo assim, estava gostoso. Eu e minha mãe ficamos um tempinho conversando no restaurante até ela precisar voltar pra casa pra descansar. Ela deixou uma garrafa de água comigo, caso eu realmente precisasse passar a noite aqui. Não sei se a lanchonete do hospital fecha, então aceitei por precaução. Voltei para o andar da UTI às 20h45. Perguntei para uma enfermeira se o David já havia saído dos exames e ela disse que sim, mas eu não poderia ir vê-lo. O horário de visita na UTI, na parte da noite, é das 19h30 às 20h30. Que merda... Agradeço a moça por ter dado as informações e me dirijo até a frente da UTI, onde ficam os bancos. Me acomodo em um que estava posicionado na frente da TV. Considerando que terei que ficar aqui por, mais ou menos, uma hora e meia, vou ocupar minha mente de alguma forma. Caso contrário eu surto.

Não sei quanto tempo se passou, nem se eu dormi, mas me senti completamente perdida quando ouvi alguém chamar meu nome. Era um enfermeiro... Me levanto e vou em direção ao rapaz.

- Srta. Rivas, boa noite. O Dr. Simmons pediu pra avisar que gostaria que a senhorita passasse no consultório dele. Número 6, sétimo andar.

- Okay. Muito obrigada. Ah, onde ficam as escadas?

- Reto nesse corredor, então o acesso às escadas está a direita, depois do hall dos elevadores.

- Beleza, obrigada.

Sorrio e sigo as coordenadas que ele passou. Abro a porta do acesso gentilmente, e fecho da mesma maneira. Quanto menos barulho, melhor. Desço rapidamente e repito os mesmos movimentos no andar inferior. Ando sem rumo pelo sétimo andar até encontrar uma enfermeira e perguntar onde fica a sala do Dr. Simmons. “Vire a esquerda no final do corredor e depois vá reto, os consultórios ficam lá”. Agradeço e sigo rapidamente pelo caminho que ela indicou. Chego no lugar dos consultórios, procuro o número 6 e o encontro. Antes de entrar, bato levemente na porta.

- Com licença... – Abro a porta timidamente e vejo o Dr. Simmons digitando algo no computador.

- Entre, por favor. – Faço o que ele diz e fecho a porta devagar. – Sente-se. – Obedeço o comando e me acomodo em uma das cadeiras. – Vamos lá. Acabei de ler os resultados dos exames. O exame de sangue dele tá normal, a glicose ficou no limite depois da aplicação da dose, mas nada alarmante. Foram dois exames de retina e pupila para checarmos a pressão no interior do crânio e, também, tá normal. Por fim, o eletroencefalograma, que era o exame mais crítico pro estado de coma dele, também teve bons resultados. Os impulsos elétricos atingem o cérebro dele normalmente, e, apesar de um pouco demorada, há resposta. Aparentemente, os lobos do cérebro dele estão funcionando normalmente.

- Isso é bom, né? – Ele me encara com uma expressão não muito boa.

- Não é o pior dos casos, mas “bom” não é. Olha, ele tem chances boas de acordar, mas receio que não acontecerá tão cedo. O problema começa quando esse tempo se alongar demais.

- Qual seria o tempo máximo?

- Três meses. Se ele não acordar em até três meses, provavelmente entrará em estado vegetativo permanente. – Sinto uma pontada dolorosa no coração ao ouvir essa condição. – Agora, só podemos esperar. O quadro dele tá estável, então pedi para providenciarem um quarto pra ele. Uma enfermeira estará a disposição pra regular a pressão do aparelho de ventilação, mudar a posição dele e aplicar anti-inflamatórios diariamente.

- Por que trocar a posição dele?

- Pacientes que ficam acamados por muito tempo podem desenvolver feridas chamadas úlceras de decúbito. Trocar a posição dessas pessoas evita o surgimento desses machucados, muito frequentes nas pernas e nas costas.

- Nossa, não fazia ideia que isso acontecia... Sobre o coma, não há muito o que fazer, mas e as outras lesões?

- Não se preocupe. Acredito que até ele acordar já terão cicatrizado naturalmente. Todas as lesões são tratadas com anti-inflamatórios e repouso, então não há com o que se preocupar.

- Ah, menos mal... Posso passar a noite no quarto, junto com ele, ou tem horário de visita?

- Pode, sem problemas. Há horários pra mais de um acompanhante. Fica tranquila. Ele vai pro quarto 526, no quinto andar.

- Okay, doutor. Muito obrigada, de coração.

- Por nada. Qualquer dúvida ou problema entre em contato comigo. – Ele me entregou um cartão com um número de telefone escrito nele.

- Claro, chamarei o senhor quando precisar. Obrigada.

Ele se levantou e me acompanhou até a porta. A sensação ao deixar o consultório é agridoce. Ele tá estável, as lesões vão se curar naturalmente, mas... E se o David não acordar? Não vou saber lidar. Tá, Jessica, calma. O médico disse que vai dar ruim se depois de três meses ele não acordar. Até lá, a informação já vai ter digerido um pouco melhor. Eu espero...

Sigo em direção ao hall dos elevadores. Aperto o botão para descer. Entro no elevador, vazio, e aperto o botão do quinto andar. Dessa vez, encontrar o lugar para o qual devo ir foi mais fácil. Assim que saí do elevador, me deparei com uma placa que dizia em qual direção fica cada grupo de quartos. Segundo a indicação, devo ir para a direita. Ando um pouco e encontro o quarto 526. Giro a maçaneta e a porta se abre. Coloco o rosto pra dentro do quarto e vejo apenas David deitado na cama, quase do mesmo jeito que estava na UTI. Entro e fecho a porta rapidamente. Coloco a garrafa d’água em cima da mesa que havia no quarto, me aproximo da cama e analiso seu rosto. Ele tinha uma expressão tranquila em seu rosto, como se realmente estivesse dormindo.

- Que merda, hein, Dave? – Sorri ao falar isso. – Nem fizemos os votos e já estamos juntos na saúde e na doença.

Percebo que alguns músculos de sua face sofreram um leve espasmo. Quando me dou conta do que falei, sinto minhas bochechas esquentarem. Foi tão espontâneo que eu sequer pensei no que falar. Ah, pelo menos ele tá apagado e não me ouviu... Ia dar muito trabalho para me esquivar de alguma zoeira dele, e eu tô morta de cansaço. Vejo que havia uma poltrona e um sofá no quarto. Tiro os chinelos, coloco eles ao lado do sofá, e me deito. Fecho os olhos e adormeço rapidamente.

(...)

- Jess.

Eu caminhava tranquilamente pela Harvard Bridge quando ouço alguém chamar meu nome. Não conseguia enxergar o que estava a minha frente, havia uma espécie de neblina cobrindo a ponte. Continuei andando, procurando quem me chamava.

Jess. – Era uma voz um pouco rouca, quase soturna.

Conforme eu avançava, mais alta a voz ficava, mantendo o mesmo tom rouco. Não estava assustada, mas sim intrigada. De quem é essa voz?

- Jessica.

Ao me aproximar do final da ponte, encontro um rapaz apoiado nas grades, olhando para baixo. Me aproximo um pouco mais, tentando reconhecer quem era.

- Jessica! – Ele falou em tom mais elevado e menos rouco. Eu conheço essa voz...?

Consigo me aproximar o suficiente para que a neblina não cobrisse o rosto dessa pessoa. Mesmo assim, a distância entre nós era considerável. Espera, eu conheço essa pessoa...

- David?

- Jessica. – Era ele. Respondeu com o mesmo tom rouco e soturno. – Onde você tava?

- E-eu... Como assim?

- Onde você tava quando eu mais precisei? – David continuou a falar, apoiado nas grades e olhando para o rio. Fico em silêncio e ele se vira para mim. – Onde?!

- Eu não sei! Não sei nem do que você tá falando...

- Você não fez nada pra evitar. A culpa é sua. Eu vou morrer e a culpa é sua. Somente sua.

- C-como assim, “vou morrer”e “a culpa é sua”? Do que você tá falando?

Do dia em que eu pulei! Você não tava lá por mim! Eu vou morrer e a culpa é sua! – Nisso, ele passou as pernas por cima da grade. – A culpa é sua!

Nisso, ele pulou.

E eu acordo desesperada, quase caindo do sofá. Ajeitando a postura, decido me sentar ao invés de continuar deitada. Minhas mãos e pernas tremiam como nunca, senti lágrimas escorrendo pelo rosto, mas meu cérebro ainda processava o que tinha acontecido. Antes de entender que tinha sido um pesadelo, comecei a chorar compulsivamente, ao ponto de soluçar. Coloco minha mão esquerda sobre minha boca para diminuir o barulho dos soluços, me levanto e caminho até David. Ele continuava na mesma posição, com o mesmo semblante. Ainda cobrindo a boca com uma das mãos, seguro a mão direita dele com a minha que estava livre.

- Por favor, Dave... Você não pode morrer... Você tem que acordar... Por favor... – Falei, entre soluços.

Fiquei um tempo andando de um lado para o outro no quarto, tentando conter o choro. Quando consigo controlar os soluços, tomo uns goles de água tentando me acalmar. “Que porra foi essa...?”, perguntei para minha mim mesma. Enxugo as últimas lágrimas que ficaram presas no canto dos meus olhos, deito novamente e tento dormir. Minha mente estava a mil, mas meu corpo não aguentava mais ficar acordado. Acabei dormindo de novo, sem sequer perceber.

(...)


Notas Finais


E aí, amores, pesado demais? Kkkk
A ideia era fazer desse capítulo algo um pouco mais forte mesmo, começar a explorar pontos psicológicos em personagens além do Dave.
No mais, espero que tenham gostado e até o próximo capítulo! <3


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