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História Amados - Interativa - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Hello, amados.
Eu ponderei muito se postaria esse capítulo hoje, mas eu sou gada de vocês mesmo, então aqui está. Além disso senti que devia, depois de um mês de sumiço.
Em fim, espero que gostem ♡

Capítulo 8 - O imitador


Amados.

Uma cidade minúscula, inexistente para o resto do país. Uma cidade que vivia em um ciclo temporal, todo dia exatamente igual ao anterior. Nada de novo acontecia, todos vivendo pacatos em suas próprias bolhas..

Até que a morte se debruçou sobre nós e nos deu um beijo de boa noite. Desde então, uma promessa foi selada: nada jamais seria o mesmo.

O que mudou nossa cidade não foram os assassinatos. Não foi a violência escancarada, os corpos mutilados e o cheiro de sangue. Foi o que veio depois.

Quando uma cidade inteira tem o vislumbre do inferno, é fácil notar que os demônios estão entre nós. Pessoas tornam-se mais frágeis, menos dispostas a usar suas máscaras.

Havia algo podre em Amados, e não era o odor de morte. Eram os segredos sujos de cada um, cuidadosamente escondidos sob a inocente vila.

Mas não por muito tempo.


- Chiquinho, tem visita pra você.

- Hein? - eu estava de frente ao espelho, penteando os cabelos para ir pra casa de Eva. Aquele era o dia da verdade, finalmehte.

Amanda se sentou na minha cama. Com os olhos verdes como os meus e cabelos ondulados quase loiros, parecia uma pequena boneca.

- É um homem grandão, todo chique. Falou que quer te ver. Ele tá na porta.

Franzi a testa e deixei o pente de lado. Saí do quarto e atravessei a sala para abrir a porta de entrada.

- Boa noite, Francisco. - disse o Coronel.

Engoli em seco. Então essa é a sensação de mijar na calça.

- Ãh... Oi. Posso... é... ajudar?

- Só quero conversar. Pode vir pra fora?

Olhei para trás, onde Amanda nos observava curiosa da porta do quarto. Será que alguém de cinco anos vai saber chamar a polícia se eu começar a gritar?

Olhei pra ele e forcei um sorriso.

- Claro.

Sentamos no meio-fio, é eu busquei estrelas no céu para evitar o contato visual. O Coronel era um homem pardo e grande, um esteriótipo de homem da roça. Mas tinha olhos azuis destoantes, cor de gelo. Olhos que se sobressaíam e podiam matar alguém com sua intensidade.

- Francisco, eu quero falar com você sobre Vitória.

Tentei fingir tranquilidade. Impossível. Tinha regredido pelo menos cinco anos de idade e estava apavorado.

- Ah, a gente é só amigo. - disparei.

Ele suspirou.

- Olhe, eu não sou ingênuo. Eu já tinha percebido, desde muito tempo. E quando vocês foram me pedir ajuda juntos sobre a caixa, eu tive certeza.

Senti meu rosto queimar. Encarei as rachaduras no chão, pensando onde enviaria minha cabeça. O Coronel continuou:

- Não vou negar, as vezes eu sou muito protetor. Estou trabalhando nisso. Mas... Eu preciso lhe falar. - algo em sua voz se suavizou - Meus cuidados tem motivo. Você sabe o que aconteceu com a mãe dela, certo?

É claro que sabia. Assim como a cidade inteira. Por um ano depois do incidente, não se falou de outra coisa. Eu lembrava bem, pois foi a primeira vez que ouvi a palavra "suicídio".

- Sim, sei.

- Pois bem. Depois que Daisy se matou, Vitória foi a que mais sofreu. Clarinha era nova demais pra entender, mas Vitória sentiu tudo.

Voltei para dez anos antes. Imagens de uma versão apagada de Vitória, uma versão calada e mórbida. Ela se afastou de todos nós, se limitando a conversas eventuais com Victor. Vê-la daquele jeito era destruidor, mas não era como se nenhum de nós soubesse o que fazer. Éramos todos crianças ingênuas, incapazes de entender a fragilidade da vida.

- Ela sempre foi muito forte, mas ficou destruída. Todos ficamos. E Vitória... Ela morreu de raiva. Por muito tempo ela não conseguiu se sentir amada, se sentir protegida, porque achava que não tinha sido suficiente pra própria mãe. Ela achou que não valia nada, porque não bastou para que Daisy continuasse aqui. Que resistisse.

A voz do Coronel embargou levemente. Pela primeira vez, eu consegui enxergar além de um homem que me dava calafrios. Eu vi um ser frágil, marcado por uma ferida ainda não cicatrizada. Eu vi alguém que perdera o amor de sua vida de uma forma brusca. Finalmente, eu vi um pai.

- Como demorou para ela entender que depressão é uma doença. Que o fim de Daisy não tinha nada a ver com ela, que ela e Clarinha sempre foram as coisas mais importantes do mundo pra nós. Tudo que fiz e faço e pra fazer ela se sentir amada, Francisco. Eu só quero protegê -la. Só quero que ela nunca mais se esqueça como é especial.

Abri a boca. Não lembro o que iria falar, as palavras se perderam antes se saírem. O Coronel olhou no fundo dos meus olhos e falou antes de mim:

- É por isso que quero que se afaste dela.

Fechei a boca. Senti que meu coração mudou de lugar, indo até meu estômago em um baque surdo.

- O quê?

- Me escute, estamos todos assustados com esse assassino. Mas você... - ele hesitou - Você está envolvido nisso de um jeito diferente. Eu não sei como, mas parece que tudo acontece quando você está perto. Não posso deixar que arraste Vitória pra isso.

Senti um gosto amargo na boca. De repente, lembrei porque os olhos do Coronel me assustavam.

- Eu... nunca faria nada que a prejudicasse. Eu gosto muito dela, senhor.

- É claro que gosta. - sua voz voltou a ser firme, ríspida. Agora ele não mostrava um pingo de fragilidade, suas palavras cortantes como lãminas - E é por isso que vai me ouvir. Você não ia se perdoar se algo acontecesse com ela, certo?

Abaixo a cabeça.

- Não, não me perdoaria.

- Então me prometa. Me prometa que vai ficar longe.

Uma promessa. Novamente.

Mas o Coronel não estava pedindo como da última vez. Sua expressão era uma carranca impenetrável, o tom uma linha tênue entre ordem e ameaça.

Assenti.

- Sim, eu prometo.

O rosto do Coronel não suavizou.

- Ótimo, sabia que ia entender. - ele se levantou - Tenha uma boa noite, Francisco. Está fazendo o certo.

O observei andar até seu carro e se afastar. Tirei meu celular do bolso e abri a conversa com Vitória. Suspirei antes de mandar um áudio:

- Vi, olha, a gente não vai pra casa de Eva hoje. Teve uns problemas com a família dela, não entendi direito. Fica para outro dia.

Enviei a mensagem e entrei em casa. As chaves da velha picape repousavam na mesa de madeira, esperando por mim. As peguei e, antes que me desse conta, esmurrei com toda força a superfície achatada. Observei os dedos levemente inchados, uma pequena farpa da madeira gasta fincada na pele, formando um ponto cor de vinho.

Não é tempo de surtar ainda, Chico. Você tem prioridades.

Saí de casa e entrei no carro, dirigindo rumo á casa de Eva.

Rumo ás respostas.


- Que comece a Sagrada Reunião! - anunciou Eva, sentada no chão e rodeada por uma porção de cadernos.

Era estranho estar no quarto dela. Eu me lembrava de ter estado em sua casa uma ou duas vezes, em festas de aniversário da infância. Naquela época ela era Evandro. Parecia um menino, era tratada como menino. Não era um menino, no fundo todos nós já sabíamos. Por isso, quando em dado momento apareceu como Eva, foram poucos os questionamentos. Era uma garota, sempre fora. Uma garota má, fofoqueira e totalmente maluca.

A Sagrada Reunião consistia em Eva, Gabi, Marília e eu, aconchegados nas almofadas do quarto imenso da garota. Os ursos de pelúcia e decorações singelas não davam um ar muito sagrado, mas Eva nunca perdeu uma boa dramaticidade.

- Cadê Victor? - questionou Marília.

- Ele não vai vir, tem umas coisas em casa. - disse Gabi - E também achou que Vitória viria, então né.

- De qualquer forma, não importa. - disse Eva - Ele não estava na festa em que Chico achou a criança, pouco importa pra minha matéria. É uma pena que Vitória não veio, falo com ela depois.

Olhei para o lustre no teto e suspirei. Não queria ouvir as babaquices de Eva, só queria que aquilo acabasse. Só queria uma direção, algum segredo que ela guardava que me faria sentir que não estava tão perdido. Que todos aqueles sentimentos ruins não eram em vão.

- Então, vamos logo com isso.

Ela pegou uma caneta e abriu um dos cadernos. Olhou pra mim, ávida.

- Pois bem, me conte tudo.

E contei. Deixando todo o meu receio de lado, relatei toda a minha dança com o assassino. A menina na caixa, a margarida no cadáver. A flor no envelope, a perseguição. Contei tudo, e pela primeira vez não quis chorar. Eu já repassara aqueles eventos tantas vezes que agora parecia que falava sobre um livro que li. Finalmente me acostumando com o medo, os acontecimentos passavam por minha memória de maneira fria. Talvez meu corpo tivesse parado de rejeitar tudo aquilo pois sabia que acabaria me matando.

Eva ouvia e anotava tudo com fascinação. As outras garotas me olhavam em choque, percebendo o quanto eu escondera delas durante tanto tempo. Não importava mais, não tinha porque guardar segredo. Eu já perdera muito, e faria de tudo para que aquela tortura tivesse fim.

- Ótimo. - ela disse, assim que terminei - Muito bom.

- Por que... - Marília apertava as mãos nervosamehte. Seus olhos grandes pareciam prestes a desabar- Por que você? Por que ele faz tanta questão de te perseguir?

- Eu não acho que seja isso. - disse Eva.

Arqueei as sobrancelhas.

- O quê?

- Eu não acho que as margaridas sejam um recado pra você, Chico. Acho que você não é tão especial.

- Meu Deus, Eva. Obrigado.

- Não, estou falando sério. - ela folheou outro caderno e leu alguma anotação - Não acho que as margaridas sejam um jeito de se comunicar com você. Acho que são... A carinha feliz dele.

Olhei para as outras em busca de algum norte, uma esperança de que Eva não tivesse finalmente enlouquecido de vez. Gabi balançou a cabeça, tão confusa quanto eu. Marília, por outro lado, assentiu.

- Eu entendi.

Uma pausa dramática. Me exaltei:

- Então explica! Ai, minha nossa.

Marília baixou os olhos, falando com pesar.

- Foi em 1997 que começou, eu acho. Vários homens foram encontrados mortos em rios e lagos dos Estados Unidos, cerca de quarenta. Eram de vários estados diferentes, mas... todos tinham uma coisa em comum.

- A carinha feliz. - completou Eva - No lugar em que cada um dos homens foi morto, o assassino deixou um rostinho sorridente desenhado. Em uma parede, em uma pedra. Ela sempre estava lá. Por isso não acho que as flores em cada morte sejam uma ameaça, Chico. Acho que são a marca dele. Uma pena que, da última vez, ele deixou a marca em você.

Me lembrei da noite do meu ataque de pânico. Do pavor súbito, a certeza de que ia morrer. A imagem enevoada do conteúdo na cisterna.

- Era uma pessoa, não era? - questionei em voz baixa - Naquela noite que desmaiei. Tinha uma pessoa ali, apodrecendo?

As meninas se entreolharam, como se decidissem quem contaria. Finalmente, Gabi disparou:

- Chico, era uma cabeça. Era só a cabeça de um homem, o corpo estava enterrado não muito longe na mata.

Um calafrio me percorreu a espinha. De repente, lembrei.

Eu abri o compartimento metálico, assobiando com tranquilidade. Empurrei a tampa, e lá estava ele, olhando as estrelas com seus olhos que nada viam.

A pele pálida estava corroída, com pequenas aberturas exibindo a carne. A boca aberta, com dentes podres exalando o fedor de morte. O pescoço era bordas irregulares, pontas de osso exposto. A água ao redor da cabeça estava totalmente escura.

Pisquei os olhos várias vezes, tentando afastar a imagem. Eu preferia não lembrar. Gravei as unhas na coxa por cima da calça, na esperança que a dor amenizaria a ansiedade que nascia em meu estômago, tentando se esgueirar para o resto do corpo.

- Eva, temos um acordo. - falei, ríspido - Eu te contei tudo. Agora me mostre o que você tem.

Ela me encarou por um instante. Eu sabia que ela não queria falar para nenhum de nós. Que ela queria guardar tudo para si, informação fresca para uma futura matéria. Talvez ela achasse que nós podíamos ser úteis, talvez fosse leal á suas promessas. Talvez, por um minuto, quisesse cometer um ato de bondade. Improvável.

- Pois bem, o que é justo é justo. Vou começar recapitulando os casos que já ocorreram.

"O primeiro, pouco mais de duas semanas atrás. Uma menina desconhecida é encontrada morta dentro de uma caixa, junto apenas de um lençol estampado com margaridas. Nua, mas sem sinais de moléstia. Morreu por pancadas na cabeça, e sua identidade ainda é um mistério. O mais curioso é que o assassino cortou seus cabelos bem curtos, iguais aos de um menino.

Semana passada, nossa ex-professora Helena. Foi morta á facadas, e o corpo serrado em dois após o assassinato. Também encontrada nua, mas sem sinais de estupro. O assassino desenhou um sorriso em seu rosto com a navalha, e colocou uma margarida entre seus lábios.

Por fim, ontem. Ernesto Fontes, um morador de rua sem família na cidade. A autópsia ainda não saiu, mas provavelmente foi estrangulado e depois decapitado. O assassino escondeu o corpo na mata e jogou a cabeça em uma cisterna, e como assinatura deixou uma margarida no braço do nosso amigo."

Ela virou a página do caderno, e todos a olhamos atentos á espera de uma conclusão.

- Meus amigos, o que esses casos tem em comum?

- Tem uma semana de intervalo. - constatou Gabi.

- E as margaridas. - murmurei.

- Sim... mas não só isso. - Eva nos olhou enfática - Todos eles já aconteceram.

- O quê?

Ela abriu uma pasta e tirou uma fotografia. Na foto, um menino em preto e branco. Talvez dormindo, talvez morto.

- Em 1957, na Filadélfia, um motorista encontrou uma caixa de berço na beira da estrada. Dentro tinha um menino morto, de uns três a cinco anos. Morto por pancadas na cabeça. - ela fez uma pausa - Sua identidade nunca foi descoberta, assim como quem o matou.

Antes que pudéssemos reagir, ela pôs outra foto diante de nossos olhos. Uma bela jovem de cabelos negros encaracolados.

- Em 1947, em Los Angeles, Elisabeth Short, uma atriz, foi encontrada morta em um terreno baldio. O corpo dividido em duas partes, um sorriso marcado no rosto com faca. O assassino nunca foi descoberto. Soa familiar?

Nenhum de nós era capaz de responder. Ela guardou as fotos.

- O terceiro foi o mais dificil, mas acho que sei em quem ele se inspirou.

- Elisa Lam. - falei, o caso borbulhando em minha cabeça - Eu lembro das reportagens. A menina que foi encontrada morta sem explicação na caixa d'água de um hotel. Descobriram o corpo porque os hóspedes reclamaram da qualidade da água.

Eva assentiu. Ficamos todos em silêncio por um instante, assimilando o que acabávamos de saber.

- Porra! - exclamou Gabi, se levantando - Não é só um psicopata, é um psicopata obcecado por crimes famosos. Ele arquitetou tudo para ser o mais parecido possível.

- Não só crimes famosos.- acrescentou Marília - Crimes não solucionados. Ele quer brincar com a gente. Ele sabe que não vai ser pego.

- Não ia. - corrigiu Eva. Se levantou, eufórica - Mas agora esse idiota nos deu um mapa! Sabemos que ele age a cada semana, e que imita assassinatos famosos. Se formos espertos, vamos conseguir adivinhar o próximo passo dele, e chegaremos mais rápido.

- E o que? Dar uma surra nele? - forcei uma risada - Você tá louca?! Temos que falar isso pra polícia.

Ela ia rebater, mas não houve tempo. Dentro do meu bolso, a música do toque do meu celular ressoou. Peguei o aparelho, e franzi a testa ao ver quem ligava.

- Oi, Victor.

Do outro lado da linha, uma respiração pesada, quase um arquejo.

- Chico, é o meu pai... - a voz do meu amigo estava embargada - Ele está morto.


Notas Finais


E é com esse capítulo que eu anuncio o fim do Ato 1 de nossa amada história.
Mas como assim, Bolada? Eu te explico, querido.
A partir de agora, nossa história vai mudar um pouco. De maneira prática, a trama chegou a metade, faltando mais ou menos o mesmo número de capítulos para acabar. Também é um divisor de águas em relação ao conteúdo. Agora todos os personagens foram apresentados, e se no Ato 1 era basicamente nosso protagonista só reagindo emocionalmente aos assassinatos, agora se inicia uma participação mais ativa. Agora nossos personagens tem, finalmente, uma pista.
Também vou iniciar uma série de pequenos projetos extras da história. Falarei melhor sobre eles futuramente.
Então talvez o próximo capítulo demore um pouco. Temos que começar o segundo ato chutando o balde, certo?
Dito isso, o que acharam das revelações? Comentem!


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