História Amar é ser fraco? - Capítulo 6


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Categorias Boku no Hero Academia (My Hero Academia)
Personagens Izuku Midoriya (Deku), Ochako Uraraka (Uravity), Personagens Originais, Shouto Todoroki, Tenya Iida, Toshinori Yagi (All Might)
Tags Bnha Abo, Izuku Alfa, Izuku Seme, Ômega Cabuloso, Omegaverse, Shoto Ômega, Shoto Uke, Soulmate, Tododeku, Todoizu, Traumas
Visualizações 63
Palavras 7.763
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Luta, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Estupro, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, seres humanos que estão aqui! Como vão vocês? Bem? Mal? Bem, no meu caso, peguei uma gripe ainda ontem, então, pelos próximos dias, HAHAHA! Se f*deu, Debra! HAHAHA! (Eu não fui te dar ouvidos, né, mãe? "Débora, vai calçar sua chinela. Mamãe ainda está se recuperando da gripe, e se ficar andando descalço pela casa, vai pegar os meus germes", ela dizia. E eu? "Não, não vou pegar não", pensava comigo. Ai, ai... Por que não dei ouvidos?)
Agora, chega de baboseira! Bora para o capítulo!

AQUI, LEIAM!!
PS.1: Eu não sou especialista em terapia ou ser psicólogo. Pode estar completamente errado e estranho a consulta? Sim, pode. MAS, eu juro que tentei, e fiz com muito carinho. KKK
PS.2: O próximo capítulo será publicado só na semana que vem, ok?

Enfim, bora lá! AAAAHHHHH, antes de tudo, muito obrigada pelos lindos comentários (ri muito de alguns, KKKKK) e os favoritos! 33 FAVORITOS!! YEH!!
Agora, sim: boa leitura para você, caro ser humano. 😁😁😁😁😁😁😁

Capítulo 6 - Capítulo 6


Fanfic / Fanfiction Amar é ser fraco? - Capítulo 6 - Capítulo 6

“As pálpebras do ômega piscavam pesadamente sobre as íris heterocromáticas, os hormônios atordoadores de luxúria e dominância do alfa, que se infestavam como peste pelo quarto escuro, se contrastando com a olência dolorosa e agoniada de rosas do ômega.

Sua mente estava nublada, tentando se orientar em meio ao cheiro que o drogava, sua cabeça pulsando dolorosamente.

- Ah... – Shoto levou a mão pequena para onde a dor se originava – Que dor...

De repente, um toque gelado e úmido da sua mão na testa o estranhou, e quando a levou para frente dos seus olhos, ficou confuso ao ver um líquido escuro manchando sua pele.

Foi então, que de uma vez, arregalou os olhos ao identificar que o que estava em seus dedos era sangue.

O choque atordoou sua mente, desacreditado por tal imagem. Assim, tentando compreender, com o coração se acelerando no peito, e os membros do corpo começando a tremerem, Shoto baixou a mão e olhou para baixo.

O corpo de um homem desfalecido se encontrava no chão, a pele ensopada de vermelho vivo impuro e cheiro metálico vagueando sobre ele, o torso aberto e as mãos jazidas imóveis e feridas sobre a cabeça do agressor, a morte pairando como neblina pelo ar.

- Não... - com a voz pueril, seus olhos se escancararam, o horror nos olhos do ômega - Não... - se ergueu para longe do corpo morto, e ao olhar para as próprias mãos, percebeu que segurava uma faca de cozinha em uma delas, e com pavor, a soltou na hora, esfregando os dedos para tirar o sangue do alfa sujando sua pele, em vão – N-não pode ser...

Passos começaram a soar como tambores pela casa, e Shoto sentiu seu coração falhar de medo ao olhar para porta. Eles estavam vindo pegá-lo, e sabia que, se eles o pegassem, ele seria vendido para outro alfa.

Desorientado, varreu desesperados os olhos a sua volta, ouvindo os gritos de chamado dos guardas correrem até o quarto andar, o andar daquele quarto. Então, viu a noite adentrar o quarto pela janela do quarto aberta no fim do cômodo.

Sem pensar duas vezes, capturou do chão a sua camisola estraçalhada, correndo até a janela, sentou na beirada da janela, e saltou para fora do andar...”

 

 

Com os olhos se arregalando, Shoto se sentou na cama de uma vez pelo reflexo do sonho, a boca aberta ao puxar o ar rarefeito, seu corpo estando coberto apenas por uma blusa e calça de moletom.

Indo ficar na beirada da cama, a cabeça tonta pela falta de ar e o movimento brusco, firmou as mãos no colchão, e se obrigou a inspirar e expirar profundamente pela boca, os olhos fechados pelo esforço que fazia para não desmaiar.

“Você serve apenas a mim, meu querido ômega...

De supetão, sentiu a ânsia subir na garganta. Desesperado, tampou a boca com uma mão, e saiu correndo para o banheiro do quarto, e ao abrir a tampa do vaso, jogou tudo para fora o jantar que havia dentro do estômago.

A fraqueza assolou seu corpo em tremedeira violentas, obrigando-o a cair de joelhos no chão, as mãos trêmulas se agarrando ao vaso, enquanto vomitava bruscamente, os olhos lacrimejando pelo esforço.

- Todoroki-kun! – ouviu a voz da Itou lhe chamar ao abrir a porta do quarto, e sem se importar com seu estado, correu até ele, e o segurou pela cabeça e ombros, ajudando-o a não desmaiar e cair para o chão – Todoroki-kun, calma. Calma, eu estou aqui. Calma...

Após sentir que botou para fora tudo o que tinha, Shoto sentiu o frio começar a dominar seu corpo suado, a visão escurecendo sua mente, deixando seu corpo pesado e fraco, os cheiros misturados de ânsia e preocupação desorientando-o ainda mais ao sentir a cabeça tombar para o lado, desorientando-se.

- Todoroki-kun, consegue se levantar? – soltando um barulho parecido com uma afirmação, conseguiu, com muita dificuldade, ficar em pé com o apoio da beta, que fechou a tampa do vaso, e o ajudou em seguida a se sentar no vaso fechado.

No automático, inclinou o tronco para frente, e deitou a cabeça entre os joelhos, permitindo sangue fluir melhor pelo seu cérebro, ao tempo em que a mão gentil da beta acariciava suas costas em movimentos circulares, ajoelhada, no chão, ao seu lado.

Tudo estava se repetindo, como sempre acontecia em todos os anos, e ambos sabiam o que isso significava: que fazia, definitivamente, onze anos desde o dia em que tudo aconteceu.

E em meio aos seus pensamentos nebulosos, um carinho genuíno de conforto nos olhos esverdeados assolando a mente do Todoroki acalmou seu coração, e com essa lembrança, imaginou o cheiro de bosques do alfa que vinha visitar seus pensamentos, e que ele estava ali, sorrindo gentil para o outro.

Suspirou fundo, sentindo sua alma se tornar serena...

 

 

 

- Parece que tem alguém andando distraído hoje. - o comentário doce de sua psicóloga chamou-o de seus devaneios. – A algo em específico?

Shoto tirou os olhos da janela embaçada, e os direcionou para a fisionomia pequena de Komari Ikoma, os castanhos fios do cabelo em formato chanel combinando com a cor de sua blusa violeta de mangas longas de boca grande.

- Estou apenas pensando. - omitiu, enfim, jogando o tronco para trás, até encostar as costas no material da poltrona, levando a mão até o pescoço coberto pela gola alta de crochê, arrumando a gargantilha escura sob a lã de algodão.

A beta soltou um murmúrio apreciativo, lhe fitando com um olhar enigmático, um sorriso sutil.

- Bom, Todoroki-san, como foram suas últimas duas semanas? – ela imitou seu movimento sutilmente, mas, diferentemente, juntando as mãos na frente do corpo, mostrando sua total atenção – Fiquei surpresa quando você me pediu para não vir no sábado passado. Tinha algum motivo?

Shoto a encarou olho a olho.

- Apenas teve um incidente na sexta, e por conta disso, decidi não vir. – elevou os ombros para o alto – Estava com a cabeça cheia.

- Não se sentiu confortável? – questionou ela.

- Não, apenas não quis vir.

Ela anotou na prancheta, os óculos sobre o tronco de seu nariz.

- Bom, então, aconteceu alguma novidade nessa semana? – perguntou, os misteriosos olhos amendoados em sua direção, um sorriso suave. – Gostaria de me contar?

Shoto piscou as pálpebras, a mente vagueando por alguns instantes.

- Depois que eu salvei um ômega de ser estuprado, - iniciou, o tom neutro – eu fiquei o final de semana estudando e treinando. Kenji teve que viajar à trabalho, então, me senti mais à vontade. Porém, a Itou-san...

- Ela se preocupou? – recebeu um assentimento em resposta – Por que acha que ela se preocupou?

- Porque, como eu ajudei um ômega que passou por assédio sexual, ela... – puxou ar, tentando manter a calma – pode ter achado que isso me afetou.

Komari assentiu, atenta.

- E como você ficou com isso?

- Bem. – anuiu, firme, ainda que, no fundo, não soubesse de fato – Não me afetei com o incidente.

A cabeça de Ikoma mexeu positivamente, a caneta voando pela prancheta.

- E o que mais?

De repente, aquele brilho esmeraldino dos olhos do alfa lúpus cintilaram em sua mente, fazendo-o piscar os olhos algumas vezes, seu coração se esquentando. Desde que haviam conversado na cantina, todos os dias, Izuku acenara para ele, com um largo sorriso no rosto. E Shoto não sabia se deveria ignorá-lo, ou corresponder, sempre sentindo o sangue se acelerar em seu peito. E até hoje, se encontrava com a blusa do alfa.

Não tivera coragem para entrega-lo, ou jogá-lo fora. E agora, o usava com um porta-cheiro particular do alfa, agraciando de seu aroma incomum em todos os momentos em que se encontrava sozinho em seu quarto, ou perturbado. Era bom demais fazer isso, mas o odor estava começando a se desprender do tecido, e, a qualquer momento, teria que aceitar que não teria mais esse acesso para cheirar os hormônios de bosques do Midoriya.

- Eu falei... – inspirou fundo – Com um alfa. Um alfa lúpus.

A psicóloga beta arregalou os olhos, surpresa.

- Sério? – perguntou, o tom afetado de alegria pela emoção – Como o conheceu?

- Na sexta, no incidente. – aclarou – Eu mandei o ômega que eu ajudei a sair do beco, e fiquei lá para impedir os outros alfas. Eu estava me saindo bem, era fácil lutar com eles. Porém, o líder puxou a arma, e quando ia atirar em mim, o Midoriya apareceu e tirou a arma dele, antes que precisasse me desviar do tiro.

Um brilho incomum ascendeu os olhos de Komari.

- Ele ajudou vocês?

- Sim. – disse, neutro – Ele que aconselhou o Takeda a chamar a polícia.

- Takeda?...

- O ômega.

- Ah, certo. – com um sorriso gentil, escreveu na prancheta, atenta a ele – Depois disso, não o viu mais? O Midoriya?

- Na verdade, o vi sim. – retrucou – O encontrei nessa segunda andando na chuva, sem guarda-chuva e nada, então, decidi dar carona para ele. E depois descobri que ele cursa artes, na U.A. E ainda almoçamos juntos na cantina.

- Na U.A, igual a você? Que interessante. – comentou ela, sorridente – Coincidência, não?

- Até demais. – riu, com um toque de frieza – Ele sabia que eu estudava lá também.

- Como ele sabia? – soou entretida.

- Ele me disse que havia me visto algumas vezes na cantina. – ao se lembrar daquela informação, grunhiu desconfiado, olhando para o lado – Mas eu nunca havia visto a cara dele lá, e...

A vogal alongada não deu continuidade a frase.

- E? - ela incentivou.

Shoto encarava a vista fora da janela fechada, as gotas caindo de mansinho no jardim na frente da estrutura, a vista cinzenta e ventosa.

- Ele é... estranho. – disse, por fim, com um suspiro – Ele é educado demais, agradável em demasia, e nem tentou flertar comigo, e ele é um alfa lúpus! – perplexidade aflorou na sua voz tão comumente neutra, sem se segurar – Ele nem parece um alfa, e ele me tratou de uma forma completamente diferente de qualquer um. Ele me admira, e até me elogiou pelos meus movimentos de luta, sem nem considerar que eu era um ômega fraco, e que deveria agir com um tal. E agora, toda vez que chega o fim das aulas, ele se despede de mim, como se fôssemos grandes amigos. Ele até me convidou para sentar com ele e os amigos dele.

- E você se sentou com eles?

- Claro que não. – disse, com tom de obviedade – Eu não sou amigo dele. Somos apenas... colegas.

A psicóloga assentiu vivamente, os olhos sobre ele.

- Entendo. – rabiscou no papel – E você sabe ou desconfia o motivo dele ser assim?

Shoto franziu a testa, para logo desviar o olhar.

- Kenji disse que ele sabe o que é passar por uma situação dessas, de subjugação... eu não entendi. – elevou os ombros, as pupilas frias para a psicóloga beta - “Conheço-o desde pequeno, é um bom rapaz, e de confiança”, palavras dele.

Um pequeno sorriso se desenhou no rosto de Komari.

- Será que ele realmente não sabe? – disse, se inclinando sobre as coxas, as pupilas amendoadas averiguando cada detalhe dos olhos e face de Todoroki – Acredito que ele deve ter algo mais para ser assim, por ele entender você e o respeitar, como também o outro ômega. Parece alguém que deveria ser mais compreendido. Não o julgue dessa maneira. Sei que é difícil, mas, tente conhecê-lo melhor.

Aquela frase o impacientou, pois era parecida com a do Kenji no dia do incidente.

- Para logo tentar me persuadir na primeira oportunidade? – disse, entredentes.

- Como sabe que ele vai fazer isso?

- Todo alfa faz isso. – mexeu os ombros ao fechar os olhos, com uma expressão de completa certeza – Nunca foi diferente.

- E o Kenji-san?

Uma trava assolou o corpo do rapaz.

- Ele é meu tutor. – disse, cerrando as pálpebras - Ele é uma exceção.

- Então, pelo que até agora vimos, existem exceções.

Shoto entreabriu os olhos, encarando fixo a psicóloga a sua frente, que devolvia seu olhar com um sorriso compreensivo no rosto.

- Você disse que todo alfa é de um único jeito, - enunciou, com tom suave - mas então, por que esse Midoriya até agora não foi como um deles?

A expressão do ômega permaneceu a mesma, sem saber o que responder de volta, analisando o semblante da beta o observá-lo em igual silêncio, com um brilho no olhar de que compreendia o que passava com ele.

Shoto mexeu as mãos sobre os braços da poltrona, a cor marrom areia de sua blusa de crochê contrastando com o castanho-escuro do couro sintético.

- Eu não sei. – respondeu, enfim, apertando os lábios ao negar minimamente com a cabeça, franzindo o nariz.

Um sorriso minimamente contente subiu em um canto dos lábios dela.

- Como disse, tente conhecê-lo primeiro. – ela ergueu da poltrona, a saia cor bege colada nas coxas chegando até o nível do joelho, roçando levemente enquanto ela andava até a mesa atrás da poltrona dela – Acredito que, às vezes, são as pessoas que menos esperamos algo, é que fazem aquilo que jamais imaginamos sonhar.

Uma palavra sequer saiu dos lábios retos do ômega, olhando com reflexão para a Komari.

A mulher foi até a mesa, puxou um papel da gaveta de sua mesa, e escreveu algo no topo do objeto fino.

- Bem, você terá uma tarefa para essa semana. – disse ela, com uma linha de um sorriso simpático na face ao rumar até ele, entregando o papel – Você deverá escrever, no mínimo, três qualidades boas que você viu no Midoriya-san.

Todoroki arregalou os olhos, olhando para o papel em mãos, escrito no topo “Meta da semana: três qualidades boas de Midoriya para cada dia”, e em seguida, encarou a beta, desacreditado.

- O quê? – soou, indignado – Por que isso?

Ela apenas sorriu como resposta.

- Depois que fizer isso hoje, deve escrever, pelos próximos dias, três coisas boas dele, e se quiser, de outros alfas que também...

- Espera, espera, espera. – Shoto se ergueu da poltrona, se afastando, defensivo – Por que tenho que fazer isso? Me diga.

Impedindo qualquer fala da mulher, o alarme no telefone tocou no celular da beta, avisando o término da consulta.

- Deu a hora, Todoroki-san. – abriu um largo sorriso de olhos fechados. – Espero você na próxima semana.

Percebendo que não receberia resposta alguma dela, Todoroki suspirou, resignado. Mesmo com aquele jeito doce, ela era mais teimosa e enigmática do que parecia.

Se despedindo dela de forma monossilábica, o ômega pegou seu cachecol no cabideiro de ferro ao lado da porta, enrolando-o no pescoço, vestiu o casaco marrom sobre a blusa de crochê, apanhou a bolsa, e atravessou a abertura do consultório. Com o último vislumbre da sua psicóloga sorrindo em um adeus singelo para ele, Shoto fechou a saída.

Atravessou irresoluto a sala de espera quadrada, o lugar ocupado por apenas duas pessoas que não parara para ver seus rostos, e chegou até a porta da frente. Pegou o seu par de sapatos ao lado da entrada, colocou-os nos pés, e com algumas batidas dos calcanhares no chão, os firmou no lugar. Estendeu a mão até o seu guarda-chuva fechado dentro de um embalador, tirou o saco, e ao abrir a entrada, destravou o objeto em suas mãos, se pondo para fora do domicílio.

Posicionou o guarda-chuva sobre si, e tratou de atravessar calmamente sob a chuva calma, que respingava do céu gotas suaves sobre os telhados e os prédios da rua, deixando um aspecto pálido ao seu redor.

Shoto apanhou o seu carro estacionado em uma vaga, e logo tratou de ligar o motor para sair dali. Tinha um lugar em mente para ir, antes de voltar para casa. Não estava com vontade de ficar trancafiado em seu quarto, ou no subsolo; preferia aproveitar o tempo ameno e tranquilo para tomar uma boa dose de café e ler em um ambiente sereno.

Após uns minutos deslizando pelas pistas úmidas, com a chuva finalmente cessada, mas o céu coberto de nuvens cinzas, Shoto desligou o motor, apanhou sua retangular bolsa lateral e guarda-chuva fechado, e saiu do carro, ligando o alarme. Averiguando os dois lados da rua, passou na faixa de pedestre para o outro lado.

Aquela cafeteria era bastante apreciadora para o Todoroki, principalmente pelo preparo magnífico das comidas de lá. Mesmo que fosse bem simplesinho, dava um ar agradável ao jovem ômega.

Adentrando o ambiente, o sininho na porta soou, indicando a cafeteria a sua chegada como um cliente. Varrendo a atenção à sua volta, para o ambiente rústico e tudo feito de madeira e aparência suave, o rapaz andou até a parte mais afastada da cafeteria, ocupou uma mesa de quatro lugares, e se sentou.

Em segundos, um rapaz de rosto simpático e cabelos negros se aproximou.

- Boa tarde, senhor. Gostaria de alguma coisa? – perguntou, com um sorriso educado.

- Quero um café expresso e dois croissants de tofu. – pediu, imparcial, enquanto abria a boca da bolsa, o atendente anotando velozmente.

- Logo trarei o seu pedido, senhor. – disse em resposta, se curvando, para logo se afastar rumo a cozinha.

Shoto puxou da sua bolsa seu celular atado a um fone de ouvido, e seu livro, para se entreter enquanto esperasse o pedido. Apanhou ainda seus óculos de leitura, e pondo-os no tronco do nariz, se pôs a viajar os olhos pelas linhas escritas nas páginas do "Morte Súbita", de J.K. Rowling.

O atendente amigável logo trouxe seu pedido, e com um agradecimento monossilábico, Shoto o dispensou, tentando se distrair nas palavras para longe daqueles olhos oliváceos dentro de sua mente, a mão canhota levando momento a outro a xícara em direção aos lábios, saboreando do gosto quente e amargo do líquido, ou um pedaço do croissant.

Quando estava chegando na parte emocionante no meio do livro, e a música intensa instigando o momento da história, um par de mãos femininas bateu de encontro o tampo de sua mesa, e balançando o móvel, chamou a atenção do ômega.

- Boa tarde, Todoroki-san! – ouviu a voz da jovem a sua frente soar com alegria sobre a música que tocava em seus fones, antes de tirar um deles de uma orelha e escutá-la em seguida claramente: – É um prazer conhecer você pessoalmente.

Shoto arqueou uma sobrancelha. A aparência da garota era bastante marcante; mesmo que ela não tivesse as características consideradas para uma mulher da moda, seu feminino corpo esbelto combinava com o seu tamanho mediano, os olhos coincidentemente brilhantes e cheios de empolgação. Sua blusa rosa-claro com mangas abertas nos ombros em conjunto com sua calça preta, uma bolsa pequenina no braço, e um par de sapatos de salto alto escuro lhe dava uma impressão de uma menininha adorável.

- Perdão, mas... – franziu a testa, confuso – Quem é você?

O rosto arredondado da jovem de madeixas castanhas mudou a expressão para uma espantada, as extremidades de seus cabelos balançando com o movimento que deu para trás, as mãos se pondo nas costas.

- Oh, perdão, não me apresentei! – sorrindo largo, estendeu a mão direita – Uraraka Ochaco, amiga do Deku, prazer.

Ah, aquele nome lhe era familiar. Em um momento de sua conversa com Midoriya na segunda-feira, o rapaz citara o nome dela, e o quão amigos eles eram. E, se não se enganava, era ela que se sentava com o alfa lúpus na cantina. Mas aquele nome “Deku”... Não conseguiu reconhecer.

Com educação, estendeu a mão a ela, sentindo-a balançar para cima e para baixo alegremente em cumprimento.

- Deku?... – iniciou a pergunta.

Mas quando olhou para trás da jovem, seus heterocromáticos olhos se depararam com o rapazote alfa de rosto sardento e cabelos verdes encarando-os com uma expressão misturada em medo e constrangimento. Ele se resumia a apenas uma blusa grossa preta de mangas longas e calça jeans, o cachecol azul-marinho pendurado em seu pescoço, e uma touca preta na cabeça, com um dos braços segurando uma casaca amarela e vermelha.

- Oh, sim, é o apelido dele. – disse, com um tom feliz ao apontar para o Midoriya – Podemos nos sentar com você?

Parece que ela achou o seu silêncio uma resposta positiva, pois ocupou o assento em frente a ele com um largo sorriso, o queixo nos peitos das mãos entrelaçadas, os cotovelos no tampo da mesa.

- O Deku me falou muito de você. – soou, animada, criando um franzir engraçado na cara do Todoroki - Ouvi dizer que você salvou um ômega de ser atacado por um bando de alfas! – se inclinou na mesa, os enormes olhos brilhando às palavras – Eu queria estar lá para ver, - levou uma mão aos ínfimos músculos do braço direito - para mostrar para eles como nós somos capazes!

Com uma expressão retraída, Shoto piscou os olhos, tirou os fones, e fechou a música do celular.

- Bem, obrigado. – disse, o tom inexpressivo, tirando os óculos de leitura de seu rosto. Como assim, esse Midoriya falou de mim? Provavelmente, coisas que não preferia saber.

Por meio de suas palavras, soube que aquela jovem era uma ômega. Mas, outro detalhe nela o fez ter certeza de sua confirmação, mais especificamente, na sua pele; a marca de uma mordida cicatrizada em seu pescoço à mostra pela blusa rosa era a prova de qual categoria ela era.

 - Vem, Deku. – a garota chamou pelo outro, balançando a mão para ele – Vem sentar aqui.

Midoriya parecia completamente desorientado no que fazer. Parecia que queria a todo instante se esconder das pupilas bicolores, como, também, se aproximar.

Todoroki olhou para a cena, e então, pronunciou:

- Midoriya também falou muito de você. – ao dizer isso, os dois pares de olhos se voltaram para si, surpresos – Ouvi dizer que é uma grande conselheira amiga e que gosta de cursar dança.

As orbitas da garota faltaram saltar de tão grande o sorriso foi ao brotar em sua face, as castanhas pupilas radiando luz.

- Sim, sim! – anuiu, energética – É um sonho que tenho desde pequena, por isso decidi seguir esse caminho, sabe? E o seu?

Percebeu Izuku, sutilmente, se aproximar deles, e sentar-se no banco vago ao lado da garota, as mãos retraídas para o colo, os olhos virados acanhadamente para o lado. Céus, se não fosse pela consciência que tinha de sua categoria, Shoto acharia de cara que aquele rapaz era um ômega.

- Curso engenharia. – aclarou, encarando a outra nos olhos – Antes, força policial, mais mudei de ideia.

- Hum, interessante. – mexia a cabeça, entretida – Deku já sonhou cursar criminologia, mas depois mudou de ideia. – ela se voltou para o dito cujo – Por que mesmo, Deku?

Shoto observou a face do outro se avermelhar ao erguer os olhos para a amiga, alternando-os entre ela e o outro ômega.

- Ah, b-bem, era um sonho de criança, sabe? – abriu um sorriso exageradamente grande, rindo nervoso – Mas, depois, eu percebi que o meu lugar era na arte mesmo. – coçou a nuca, acanhado.

A sobrancelha ruiva se ergueu questionadora no rosto de Todoroki, analisando a situação em que se encontrava. Se não estivesse vendo coisas, tinha a leve suspeita de que a tal Uraraka estava tentando fazer com que o Midoriya entrasse na “roda” de conversa. Mas, por qual motivo? Aquele alfa era tão tímido assim?

- Garçom. – a animada ômega ergueu a mão para o alto, chamando a atenção de um dos atendentes – Sabe, eu gosto de desenhar, acho que é até um dos meus hobbys, mas o que o Deku faz é fora do comum. Os desenhos e obras dele são incríveis! Você deveria ver um dia.

Izuku paralisou no lugar, a pele de seu rosto inteiro se tornando vermelho vivo, a expressão em choque para a Ochako, fazendo com que um sorriso minimamente cínico brotasse nos lábios do Todoroki. Quando a garota se distraiu com o atendente que chegou, Shoto soltou baixinho:

- Não vejo a hora de ver. – sua voz soou rouca e intimidante, a atenção cravada sobre o coitado do Midoriya, que se voltou para si com as pálpebras arregaladas, antes de esconder a cara com as mãos, de forma bastante divertida para o sádico ômega.

Ambos fizeram os pedidos - líquidos quentes, e saborosas tortas salgadas -, antes de liberarem o simpático garçom, que foi falar os pedidos para a recepção.

- Qual o seu hobby? – perguntou a jovem, se curvando sobre a mesa, para o outro.

- Treinar luta. – disse, sem fraquejar.

- Oh, é a sua cara, mesmo. – fechou os olhos ao rir divertida, o tom de sua risada contagiante – Meu namorado também gosta, mas, no caso dele, ele está até treinando para ser um lutador de karatê profissional. Kacchan é uma figura mesmo. Já vi até uma vez você e ele lutarem em um campeonato de escola.

Todoroki ergueu uma sobrancelha, e só bastou isso para a garota esclarecer:

- Bakugou Katsuki. – uma mão segurando um prato apareceu no campo de vista deles, deixada pelo atendente que anotara seus pedidos – Foi até no nono ano de vocês, e que você acabou por dar uma baita de uma surra nele na competição. Se lembra dele?

No mesmo instante, Shoto semicerrou as pálpebras ao se recordar do camarada: Katsuki Bakugou era um dos alfas que o rapaz teve o maior desprazer de conhecer em todos os seus dezenove anos de vida, não sendo somente o pior por conta do seu passado. Na época em que o conheceu, era a pessoa mais preconceituosa e arrogante que já vira, e ainda enchia o seu saco dizendo que um ômega não era capaz de lutar de igual com um alfa, ou nem ao menos socar alguém, parecendo mais um carinho do que uma pancada. Parece que as suas brigas de escola com ele naquela época resultaram na sua quase obsessão por ser o melhor lutador. Por sorte, ou destino, ou com o passar do tempo mesmo e a razão chegando, Katsuki parou de atazanar sua vida, e parece que até aceitou que ele era um ótimo rival de luta, mesmo que ainda fosse chamado de “pavê” pelo alfa.

- Ah, sim. – não escondeu o seu desprazer na voz – Lembro.

- Ele não gosta de admitir, mas ele me disse uma vez que até hoje nunca encontrou um lutador de karatê tão bom quanto você, e que se sentia até superado. – sorriu, vendo os olhos bicolores se voltarem para ela, levemente interessados – E eu concordo; quando você luta, você dá um show de surtar, Todoroki-san! – pegou um bolinho salgado, e pôs na boca, dando a impressão de suas bochechas inflarem, igual à um esquilo cheio de nozes na boca.

- Obrigado. – soou, e mesmo que não dissesse em voz alta, seu orgulho inflou de alegria ao ouvir aquilo.

- Deku, você podia ter umas aulas com Todoroki-san, não? – falou, claramente com um tom brincalhão, o sorriso nos lábios ao se voltar para o rapaz de cabelos verdes – Teria um ótimo professor de luta para lhe ensinar.

Izuku abriu um sorriso gentil, pegando de surpresa o rapaz ômega.

- Eu teria mesmo. – ainda que acanhado, as pupilas oliváceas se voltaram para Shoto, as bochechas levemente coradas – Seria uma experiência maravilhosa.

Mais uma vez, um quê de admiração adornou o verde daqueles olhos, parecidos com uma floresta cheia de conforto e proteção, completamente direcionados para Todoroki. Shoto não conseguia entender de onde que aquele alfa havia tirado da cabeça aquela visão completamente deslumbradora e cheia de fascínio para ele. Ele era apenas um ômega que não queria ser subjugado como um fraco pela sociedade, e que vivia a sua vida. O que é que havia em si que o fazia receber aquele olhar do alfa?

De repente, uma exclamação soou da garganta da garota, que olhava para a tela de seu celular com capa de moranguinhos.

- Ai, meu Deus, a hora! – quase gritou as palavras, chamando um pouco a atenção das poucas pessoas dentro daquele ambiente – Minha nossa, eu prometi as garotas que encontraria com elas para o treino de dança! Eu tenho que ir.

Ela começou a remexer insanamente dentro de sua bolsa, as mãos parecendo voar para o interior como aves batucando sua comida nos buracos da terra.

- Uraraka-chan? – o alfa lúpus chamou pela amiga, mostrando confusão – M-mas o que...

De repente, ela puxou duas notas de dinheiro da bolsa e bateu com força na mesa, assustando-os.

- Eu tenho que ir! – se ergueu, sem dar tempo do amigo falar algo – Adeus, meninos! Foi muito bom conhecer você, Todoroki-san! – quando se virou, quase bateu de cara com um dos atendentes que segurava uma bandeja, e que exclamou de susto – Desculpe! Pode ficar com o troco! – e saiu correndo pela cafeteria até porta afora, acenando energética para os dois antes de fechar a abertura e sair correndo, fazendo o sino tremer em barulho violentamente. Sua fisionomia foi observada por ambos os garotos, e alguns outros clientes, através das paredes de vidro, até desaparecer na esquina, os braços dela se protegendo dos pingos de chuva.

Shoto piscou os olhos repetidas vezes, tentando se situar com o que havia acabado de acontecer. Céus, aquela garota era maluca, ou insanamente cheia de energia.

Quando virou o rosto para frente, viu Midoriya fazer o mesmo que si à igual tempo, formando um encontro natural e singelo de seus olhos com o par de esmeraldas.

- Ah, bem... – o alfa tentou dizer, levando a mão a nuca ao rir ansioso – Ela é uma pilha de energia, não?

Sinceramente, Shoto não sabia mais o que esperar.

- Sim. – disse, ponto, e fim.

A estranha manta silenciosa reinou entre eles, estendida sobre uma murada de frieza e distância completamente dura e gelada pelo ômega. Shoto, de repente, se sentia incomodado com a presença do alfa ali. Sentia como se a qualquer instante a presença dele se tornasse imperiosa e dominante, e isso o assustava. Contudo... não sabia se era por conta de ter certeza que ele faria isso, ou por achar que ele faria isso.

“Como disse, tente conhece-lo primeiro”, a voz de sua psicóloga soou na sua mente. “Acredito que, às vezes, são as pessoas que menos esperamos algo, é que fazem aquilo que jamais imaginamos sonhar.”

Um suspiro foi contido na goela de sua garganta. Céus, o que há comigo?

- Bem... – a voz do alfa tirou-o de seus devaneios, cheia de hesitação e tristeza – Eu acho melhor...

- Como você aprendeu a manejar uma arma? – a indagação escapou de sua boca antes que processasse as palavras adequadamente.

Erguera a cabeça ao pronunciar, se dando de cara com o alfa apoiando a mão no encosto da cadeira, como se estivesse prestes a sair.

- Manejar? – devolveu com outra pergunta, a expressão confusa, ao tempo em que se arrumava no banco da cadeira, os olhos vidrados sobre o ômega.

- Naquele dia no beco, você destravou a arma e atirou ela para cima com a maior facilidade do mundo, e ainda mais, parecia confiante no que fazia. – ergueu uma sobrancelha, em questionamento – Como se soubesse o que estivesse fazendo.

Izuku pareceu vacilar, pois baixou os olhos para o lado, constrangido.

- Na verdade... – levou a mão a nuca - eu nunca aprendi.

Shoto ergueu as sobrancelhas.

- Nunca?

- Nunca. – confirmou, negando com a cabeça – Desde pequeno, eu observava Toshonori-san treinando suas miras de tiro no subsolo da delegacia, e por me entreter em memorizar os seus movimentos e treinos, acabei por recordar na hora em que apanhei a arma do líder do grupo.

Os olhos de Todoroki semicerraram, curiosos.

- Que dom interessante. – admitiu, com tom neutro.

Izuku sorriu de leve, dando de ombros.

- É uma mania que eu tenho. Bom, acho que depois dos meus murmúrios, a minha segunda maior mania. – riu de forma adorável, para, em seguida, levar uma mão aberta para o ar, o fitando com serenidade – Eu gosto de observar as coisas em cada mínimo detalhe; paisagens, pessoas, animais, tudo. Acho interessante fazer isso. Assim, eu sinto como se pudesse entender um pouco mais elas e o mundo.

Shoto assentiu. Será que era por isso que Izuku sabia que ele cursava na U.A? Por ter o visto, em meio as suas observações do mundo?

- Entendo.

- E você?

- Eu? – retrucou, confuso.

- Qual é a sua mania? – respondeu, com tom gentil.

O ômega parou por um instante, elevando os olhos para cima, canto direito.

- Eu não sei. – soltou, lento – Talvez... rememorar as coisas.

Izuku deitou a cabeça levemente.

- Rememorar?

- É. Quando aprendo algo ou descubro alguma coisa, gosto de ficar repassando isso na minha mente. – fez um movimento circular com o indicador canhoto, perto de sua orelha esquerda – Assim, quando o assunto vier à tona, é mais fácil eu lembrar do tema.

Um riso divertido saiu dos lábios do Midoriya, os olhos se fechando no ato, e no mesmo instante, os olhos de Shoto desceram para a boca de beiços fartos do alfa, o coração esquentando quando, por um milésimo segundo, recordou dos beijos intensos em seus sonhos.

- Essa é a mania mais legal que eu já ouvi. – comentou Izuku, divertido.

E assim, enquanto continuavam comendo, permaneciam em conversar amenidades, e dessa vez, Shoto começava, a cada minuto que se passava, conhecendo mais Midoriya Izuku: seus sinceros sorrisos largos; seu jeito cativante de desviar os olhos quando se envergonhava; apreciar mais seus murmúrios longos ao se interessar em um assunto; seus sonhos de conhecer museus e lugares do mundo; sua paixão pela arte; e os seus olhos esmeraldinos brilharem de vida quando falava sobre algo que o cativava. E, por mais incomum que fosse, Todoroki, gradativamente, sentia-se atraído por aquela presença tão segura e viva.

As horas foram passando, enquanto ambos mergulhavam mais e mais na companhia um do outro, e se aprofundavam mais e mais nos olhares. Parecia como se o tempo não andasse; tivesse congelado no instante em que Shoto andara na floresta radiante das pupilas do alfa.

Chegou o momento em que um dos atendentes teve que chegar na mesa deles para avisar que estavam fechando a cafeteria.

- Mas já? – Izuku olhou para Shoto, que erguera o pulso do braço esquerdo, revelando um relógio sob a manga – Que horas são?

- Sete e cinquenta. – revelou, com um leve tom de espanto. Havia ficado duas horas naquela cafeteria, e não havia visto o tempo passar?

Logo, pagaram a conta, e se retiraram da cafeteria, sendo recebidos pelos ventos gélidos e os finíssimos pingos de chuva que caiam do céu da noite inteiramente nublada, com Shoto agasalhado em seu cachecol e casaco de crochê, e Midoriya parecendo um ser adorável vestido em sua casaca vermelha e amarela, o gorro preto escondendo um pouco de seus cachos em conjunto com o cachecol.

- Quer carona para ir para casa? – o ômega se voltou para o outro, o tom tranquilo.

- Eh? – o alfa olhou para ele, e logo abanou as mãos na frente do rosto – N-não precisa. Não quero incomodar...

- Você não incomoda. – revelou com calma, e surpreendentemente, percebeu ser a mais pura verdade.

Izuku arregalou os olhos, então, assentiu, ameno.

- Então, tudo bem. – sorriu, enfim, seguindo o Todoroki rapidamente quando ele começou a atravessar a faixa de pedestre.

Logo trataram de entrar no carro, e ao pedido do rapaz de cabelos bicolores, Midoriya falou o endereço de sua moradia, e assim, os pneus do automóvel começaram a deslizar pelas ruas da cidade.

A serenidade passeou pelo interior do carro, enquanto uma música qualquer tocava na rádio como um manto de som de fundo.

- Todoroki-san. – em resposta, soltou um murmúrio de garganta – Eu queria perguntar uma coisa já tem algum tempo. Posso?

Shoto olhou-o de esguelha por um instante, antes de assentir.

- Por acaso, você não tem olfato? – pronto, foi dita a indagação. – Por que... eu percebi que você não parece reagir a cheiro nenhum, então... fiquei curioso.

O ômega apertou os dedos no volante discretamente, pensando furiosamente em como retrucaria a ele. Poderia mentir, não é? Dizer que sim, que por conta de algum acidente imaginário, havia perdido o dom de sentir qualquer cheiro. Ou, ainda, diria que havia nascido assim, certo?

Tentou não transparecer seu conflito em sua expressão, principalmente, em sua olência natural. Poderia contar uma mentira inventada, mas... não custava contar, não é? Quer dizer, não morreria ou se tornaria fraco caso ele soubesse, certo?

Com um suspiro profundo, Shoto relaxou os ombros, negando com a cabeça.

- Não. – soltou com alguma dificuldade a palavra – Eu sinto os cheiros. Mas, na verdade, eu fico boa parte do dia usando um inibidor de cheiro.

- Um... – disse, confuso - Um o quê? – exclamou, desconcertado, fazendo com que Todoroki inspirasse o ar, relutante.

- Abra o porta-luvas, e pegue um pote de plástico transparente. – pelo canto da visão, detectou o ocupante ao seu lado acatar o seu pedido, e quando ele segurou em mãos o objeto que citara, continuou: - Isso que está aí dentro é um inibidor de cheiro, uma cópia dessa versão aqui. – apontou para o arco preso em seu próprio nariz – Minha irmã criou para mim quando procurei uma maneira de não ser afetado pelos cheiros de alfa caso tentassem algo comigo, o mascarando como um piercing de nariz. Seu único defeito é que ele impede que eu sinta qualquer cheiro. Por isso, pareço não reagir aos odores.

O silêncio veio sobre eles enquanto o outro parecia processar, absorto, a informação do ômega ao seu lado.

- Esses são os únicos que existem? – questionou o alfa.

- Sim. – concordou.

Então, uma risada deslumbrada soou ao seu lado.

- Minha nossa. – resfolegou Midoriya - Se isso parasse nas estantes das farmácias, ajudaria muitas pessoas, e simplesmente resolveria o problema dos ômegas de não serem submetidos aos cheiros de comando dos alfas. Diminuiria muito os casos de assédio! Todos poderiam começar a usar, até os alfas! – de repente, parou - Por que sua irmã não tenta vender?

Um riso encharcado de ironia saiu anasalado como resposta.

- Ela tentou. Mas as empresas e farmácias recusaram a invenção dela. – virou a esquina, começando a se aproximar do endereço indicado - Porque, se isso começasse a vender, pararia por completo as vendas de pílulas inibidoras e as gargantilhas. Foi a resposta deles.

Um longo silêncio se seguiu quando Izuku pareceu ter uma paralisia no banco.

 - Mentira... – disse, desacreditado - É sério?

- Absoluta.

- Mas, não faz sentido... Meu deus, era só o que me faltava. – a raiva assolou a voz antes tão gentil do Izuku, logo em seguida um bufar alto - Um passo tão grande na ciência, e completamente recusado por conta de encher as barrigas de dinheiro. Céus!

Aquilo impressionou o ômega, que teve vontade de rir da frustração do Midoriya. Um alfa com raiva de uma invenção recusada que poderia ajudar os ômegas a não serem afetados? Até que ponto aquele rapaz iria continuar o surpreendendo?

Izuku, então, acorda-o de seus pensamentos:

- Sua irmã venderia por cliente?

Surpreendido pela pergunta, Shoto franziu a testa.

- Bem, se eu conversar com ela, tenho certeza que ela pensaria na proposta... – parou a fala, pensativo.

- Poxa, Todoroki-san, converse com ela. Pergunte por quanto ela venderia, e aí, eu irei comprar. Nossa, vou contar para a Uraraka-chan também! Ela vai ficar muito feliz com isso. Tenho certeza que ela também vai encomendar para o Kacchan.

Com um solavanco suave, Shoto foi tirando a velocidade de pouco em pouco do carro, os olhos averiguando os números das moradias.

- Ali. – o alfa apontou mais adiante – Na casa verde-clara.

Seguindo a indicação, finalmente parou em frente à residência de um único andar, as janelas brancas combinando com a simplicidade da construção e o jardim florido na frente.

Desligando o carro, suspirou.

- Muito obrigado pela carona, Todoroki-san.

Ao virar a atenção para o rapaz ao seu lado, viu-o lhe presentear um sorriso agradecido, e com uma linha de emoção desconhecida em seus olhos e expressão.

- Não há de quê. – respondeu, em um suspiro, penetrando na floresta intensa de seu olhar.

Ambos se encararam profundamente, as cores distintas das pupilas bicolores nas esverdeadas se enlaçando em um único fio, uma única conexão, as marés das verdades em seus corações brilhando nas janelas das suas almas, desejando, pedindo que se juntassem.

- Eu... – o alfa murmurou, absorto – Eu gostei muito de conversar com você na cafeteria. – um fleche de sorriso brilhou em sua boca – Eu gostei bastante.

- Também... gostei. – acrescentou em um sussurro, sentindo o coração batendo, sem conseguir desviar o olhar. – Podemos fazer mais vezes.

Céus, o que foi que disse?

- Eu vou adorar. – sorriu abertamente, os olhos radiando alegria.

Por um instante, percebeu que essas mesas íris verdes descerem para sua boca, antes de encará-lo novamente, e aquilo mexeu com seu interior de uma forma surreal e poderosa, e sentiu um calor misterioso abarcar seu espírito e aconchega-la na imensidão dos bosques, uma quentura subir pelo seu corpo.

Hipnotizado, se curvou um pouco mais em direção ao outro, e viu o alfa fazer a mesma aproximação, ambos alternando a atenção lentamente entre os lábios e olhos, desfocados do mundo afora, e mergulhados em seu próprio universo, fechando devagar as pálpebras, e entreabrindo os beiços devagar para o momento.

“Você serve a mim, ômega...”, a voz detestável soou em sua mente. “E nunca deverá me desobedecer...”

Shoto arregalou os olhos, vendo os poucos centímetros entre ambos, e se afastou bruscamente, o coração batendo enlouquecido no peito.

Izuku piscou os olhos, estranhando a reação por um instante, mas quando se deu de cara com o reluzir assustado nos olhos heterocromáticos, seu rosto foi tomado por receio.

- Céus, eu... – se afastou igualmente, erguendo as mãos para o alto – Olha, desculpe, eu... eu pensei que...

Shoto virou a cara, e apertou as mãos no volante, tentando recompor os batimentos que se descontrolaram no coração, e recuperar a neutralidade impenetrável em sua mente, baixando a cabeça.

- Todoroki-san... – tentou chama-lo, estendendo, hesitante, uma mão – Olha, eu só achei que estivesse...

- Saia do meu carro. – sussurrou, frio.

Midoriya franziu a testa, confuso.

- O que disse?

- Quero que saia do meu carro. – trincou os dentes, os dedos doendo pela força que colocou no volante – Agora!

O alfa se afastou bruscamente, o encarando com preocupação no olhar. Mas, sem dizer mais nada, rapidamente abriu a porta do carro e se colocou para fora, fechando-o com um baque. Sem prestar atenção a mais nada, Shoto ligou a chave na ignição, e empurrou com força total o pé no freio, saindo em disparada para fora daquela rua.

Seu coração estava a mil, sentindo a raiva subir até seus olhos, e começaram a se transbordar em lágrimas pelo seu rosto, os grunhidos furiosos saindo de sua garganta toda vez que as limpava com os pulsos. Estava prestes a beijar um alfa. Estava prestes a aceitar a se submeter a um alfa lúpus. O que estava na sua cabeça para fazer isso? Não podia. Era errado, e poderia ter sido pego de guarda baixa por ele, e ter sido aproveitado. Onde é que estava com a cabeça?

Se criou uma turbulência em sua mente desnuviada, o corpo estranhamente esquentando, e suas mãos parecendo mais duras para se moverem no volante, todavia, se manteve firme na direção, conseguindo se orientar com dificuldade pelas ruas. Não iria fraquejar. De jeito nenhum que iria.

Depois de um indeterminado tempo, chegou na entrada da garagem da sua casa, e abriu o portão rapidamente, para logo a fechar ao entrar com o carro. Cambaleando, Shoto pegou a sua bolsa, e saiu para fora do carro, se orientando confusamente até a saída do subsolo.

- Todoroki-kun? – a voz de Itou-san o chamou, quando bateu com força a porta de acesso a garagem.

Com o aspirador na mão, pode ver que a beta se encontrava no meio da sala, desligando a máquina diante de sua chegada. Quando Itou Hana puxou o ar em fungos delicados, viu-a, com a vista se embaçando, arregalar os olhos.

- Onde você esteve? – se aproximou, assustada – Por que demorou tanto nesse estado?

Do que ela estava falando? Não queria conversar com ninguém. Queria apenas se isolar no subsolo, e extravasar a sua raiva socando o saco de pancadas. Nada mais.

- Eu estou bem. – murmurou, tentando passar por ela, mas teve seus ombros empurrados para trás facilmente.

- Você não percebeu o seu estado?! Você poderia ter sido atacado. – levou uma palma a testa dele, e arfou alto – Você está ardendo de febre!

- Eu já disse que estou bem. – desvencilhou de sua mão de forma mole, novamente intencionado a se afastar dela.

- Todoroki-kun, me escute... – a beta tentou segurar seu braço, mas ele a puxou bruscamente para longe – Todoroki-kun, pare!

A voz da governanta começava a ficar entrecortada em seus ouvidos, e suas pernas pareciam começar a ficar pesadas demais para atravessar a sala até a escadas para o primeiro andar. Sentia-se mergulhando em um mundo paralelo... um mundo confuso e nublado.

- Eu... – murmurou, e sentindo os joelhos fraquejarem, apoiou uma mão na parede – Já disse... que estou bem...

- Shoto!

Barulhos de estilhaços preencheram os sons a sua volta ao se desequilibrar e cair de lado no chão, os cacos de vidro do jarro sobre a bancada que puxou consigo espalhados ao seu redor, brilhando sob as luzes das lâmpadas do cômodo. Seu peito e corpo doíam dolorosamente, sua cabeça parecia chumbo preso ao seu pescoço, e um líquido quente começou a escorrer de sua entrada de forma incômoda.

- Shoto... – ouviu ao longe seu nome ser pronunciado pela voz do Kenji – Shoto, me responda!

- Ele está entrando no heat. – em seguida, escutou a de Itou-san – Tsuragamae-sama, por favor, me ajude a leva-lo para o subsolo, rápido!

Completamente drogado pelos sentidos desnorteados, sentiu seu corpo ser erguido para cima, as luzes amareladas da sala de estar cegando sua visão nublada. Seu corpo começou a doer mais ainda, fazendo-o inconscientemente soltar grunhidos angustiados.

- Mi... Midoriya... – soltou meias palavras, bagunçadas em gemidos desesperados de sussurros – A... alfa...

Seu ômega implorava pelo toque do alfa, se arrepiava por seus beijos, e se perdia em seu olhar verde cheio de vida e admiração. Queria seu Izuku, necessitava de seu alfa, de se entregar de corpo e alma a ele e se sentir completamente dele.

Com a mente ludibriada pelos sentidos, seus olhos foram se fechando, desmaiando nos braços do Kenji, até finalmente sonhar estar saciando seu desejo luxurioso nos lábios charmosos do alfa, sendo encarando pelas suas esmeraldinas íris cheias de conforto e amor, e o sorriso marcado em seu rosto sardento.


Notas Finais


Enfim, é isso! Por favor, não me matem. KKKKKKKKK Está bem dramático, não tá? Ok, mas espero que, mesmo assim, tenham gostado.
Amazing? Meio a meio? Deixe seu comentário - se assim desejar -, que lerei e responderei a todos! (As críticas tem que ser concretas)
Agora, eu vou tomar o meu chá de gengibre, por que até agora não fui, só para terminar de publicar aqui. KKKKKKK É isso. PS: Capítulo 7 só na quarta que vem. Bye, bye!


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