História Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 11


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apc, Cma, Gsilva, Mpe
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 11 - Nós éramos diferentes.


Fanfic / Fanfiction Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 11 - Nós éramos diferentes.

NÓS ÉRAMOS DIFERENTES

 

Acordei no dia seguinte com uma sensação ruim. Era como se eu sentisse que alguma coisa ia acontecer ou algo do tipo. Esses “flashes” de intuição não eram mais tão comuns para mim como quanto há meses atrás, entretanto, eu ainda os tinha. Sempre começava com um zumbido no fundo da minha audição, uma espécie de assovio, e depois passava para uma sensação realmente sufocante, deixando minha visão escura e me fazendo tremer. Por algum tempo, acreditei que tudo isso se dava por causa da ansiedade e, obviamente, por causa de tudo que passei, mas comecei a pensar que podia ser algum tipo de intuição mais visceral. Como se eu já tivesse nascido sabendo de tudo que ia acontecer.

            Levantei sem pressa, me sentindo tonto, e fui ao banheiro para tomar banho. Depois de estar finalmente pronto para ir para a faculdade, ainda tirei um tempinho para ficar sentado na cama enquanto pensava se ia ou não. A vozinha na minha cabeça dizia que o dia não seria fácil, mas a maior parte de mim queria ir. A imagem do Larry me encarando no dia passado ainda não tinha saído da minha cabeça (e tenho quase certeza que sonhei com isso também), então, esse foi um dos motivos que me fez sair de casa a passos rápidos até o ponto de ônibus. Só percebi que um dos motivos era ele quando entrei no transporte público e consegui achar um lugar para me sentar. Foi um propósito quase inconsciente.

            Eu treinei a minha mente a não ficar pensando no Larry, principalmente por causa da “morte” dele. Naquela época, não seria nada legal ficar pensando em alguém que tinha morrido, ainda mais se esse alguém fosse ele. A última lembrança que eu tinha antes de tudo, lá no Colégio Vargas, quando meus problemas remetiam ao Thomas tentando me atingir através do Lucas, era a memória do beijo do Larry. Então, ficar pensando nessa lembrança depois da suposta morte dele não era nada agradável. Por esses motivos, consegui não pensar muito naquele garoto enquanto ia para o colégio, muito embora conseguisse sentir, lá no fundo, que a presença dele continuava imutável.

            Cheguei à faculdade minutos depois dos portões se abrirem (costumeiramente). Por algum milagre do destino, escolhi a calça que continha justamente o cartão de entrada no bolso – pura sorte. Me lembrei também do dia anterior, quando tive que importunar o supervisor para conseguir um cartão provisório, acabando, assim, conhecendo meu futuro professor de contabilidade.

            Kevin. Ele parecia diferente e eu não sabia o porquê. Nem a melhor vozinha de intuição ou o mais alto dos zumbidos conseguia me dizer quem ele era naquele momento, mas eu sentia que tinha algo a mais. Ele era bonito, muito bonito, entretanto nada fora do normal – eu já tinha visto muitos caras bonitos, então ele não tinha nada de especial por causa disso. Era algo diferente, talvez a voz ou a forma de olhar, o jeito que andava ou simplesmente o fato de ter o conhecido antes de sequer termos aulas juntos.

            Enquanto entrava o prédio, fiquei pensando no meu mais novo professor de contabilidade para tentar não pensar na encarada do Larry. Foi mais fácil do que parecia, tirar aquele garoto da minha mente ao colocar outro. Quase fiquei com a mochila presa na catraca por causa da distração, mas isso não foi nada demais.

           

            Minutos depois, vi Alison chegando, enquanto esperava por ela na salinha de espera que tinha logo após a entrada. Ela veio toda estabanada tentando ajeitar seu cachecol e procurando pelo cartão ao mesmo tempo. Como sempre, completamente desastrada. Ela derrubou o cartão e teve que se abaixar para pegar, mas, quando levantou, não prestei atenção nela. Lucas estava entrando pela catraca mais ao lado.

            Perceber que meus olhos não conseguiam desviar daquele garoto foi a sensação mais estranha até o momento. Ele me magoou, então seria mais do que racionável que eu o odiasse, mas não conseguia sentir nenhum ódio por aqueles olhos claros, aquela barbinha loira ou até mesmo pelas suas cicatrizes no rosto. Ele parecia mais acabado do que nunca, usando roupas que pareciam ter sido reaproveitadas por semanas, com os tênis sujos e o olhar desfocado lançado ao chão. Ele não parecia ele mesmo.

            Alison percebeu que eu estava olhando para aquele garoto, e não fez cerimônia quando finalmente terminou seu “ritual de entrada” e veio direto na minha direção.

            — Ele não parece nada bem. — Disse ela.

            Lucas segurou a mochila em um dos ombros e passou o mais distante possível ao meu lado, entrando no corredorzinho que levava para as salas de aula do primeiro andar. Ele parecia estar mancando.

            — Oi. — Falei para Alison, finalmente conseguindo tirar os olhos dele.

            — Oi. — Ela respondeu.

            — Se eu o conhecesse direito, diria que não está bem mesmo.

            — E você não o conhece? — Alison pareceu mais confusa do que nunca. Não era de se espantar, principalmente porque fui o namorado do Lucas por pouco mais de um ano.

            — Aparentemente não. — Respondi.

           

            Alison se sentou na cadeira ao meu lado e colocou a mochila em um assento vazio ao lado dela. Seus cabelos ruivos estavam mais claros do que nunca, o que atribuí a uma retocada na pintura (Alison era, na verdade, morena). De alguma forma, ela parecia menos animada do que no dia anterior, como se alguém ou alguma coisa tivesse estragado seu humor.

            — Tudo bem? — Perguntei. Ela ficou um tempo sem responder, olhando para o chão como se todo o piso fosse um buraco, mas depois de um tempo olhou para mim com um sorrisinho que tentava esconder algo.

            — Sim, sim. E você?

            — Mais ou menos. — Respondi. — Só um pouco ansioso.

            Ela se espreguiçou.

            — E por que seria? — Alison perguntou com um tom mais animado, tentando mudar de assunto (ela sabia que eu ia perguntar sobre o motivo de parecer tão desanimada).

            — Temos aula de contabilidade hoje. Professor novo.

            A garota ficou um tempo pensando no que disse, como se não tivesse entendido, e depois arregalou os olhos e abriu um largo sorriso de orelha a orelha. Seus olhos brilharam quando, percebi sem precisar perguntar, se lembrou que eu tinha dito que o professor era lindo demais.

            — Você é muito safado. — Disse ela, dando um tapinha no meu ombro. Levantei as sobrancelhas e, rindo, virei meu rosto para o outro lado. — Mas só espero que ele não seja um filho da puta.

            — Eu também. — Respondi. — Mas, sei lá, ele não tem cara de ser filho da puta. Ele foi bem gentil comigo ontem.

            — Ele pode ser gentil e ainda te dar uma nota horrível.

            — Pois é. — Falei, me lembrando das minhas tentativas mais do que fracassadas de tentar tirar as melhores notas da sala. — E isso é uma coisa que eu não posso arriscar.

            Lembrar das minhas recompensas pelas horas de estudo não era o assunto mais agradável a se pensar, então tentei mudar o foco da conversa. E ficamos por minutos e mais minutos discutindo sobre coisas aleatórias que iam desde lançamentos de músicas pop até a economia no terceiro mundo.

            Foi muito bom conversar com a Alison, talvez porque eu precisava dar uma “espairecida”, bem como ela disse no dia passado, ou talvez porque simplesmente estava cansado de ficar pensando sempre nas mesmas coisas. Mas eu sabia, lá no fundo, que, assim como não podia deixar de viver o futuro que se aproximava, o passado ainda estava ali. Literalmente, o passado estava entrando por uma das catracas.

            Foi quase como uma intuição divina, olhar para aquele exato ponto naquele exato momento. Alguma coisa me fez olhar para cima, tirar minha atenção da conversa com a Alison por um momento para colocá-la em outro lugar. E confesso que de cara não percebi o propósito de olhar para o local de entrada dos alunos, pelo menos não até ver Larry passando por uma das catracas. Sua mochila quase caiu quando ele entrou no hall, arrumando as roupas como se tivesse acabado de acordar – eu não duvidava disso.

            Alison parou de falar assim que percebeu que eu prestava mais atenção nele do que em nela. O garoto começou a andar na nossa direção, obviamente, porque estávamos perto dos corredores que levavam para as salas do primeiro andar. E eu estava quase voltando a conversar com a garota ao meu lado quando captei um rápido e quase imperceptível olhar dele sobre mim. Foi algo muito rápido, que desapareceu em poucos segundos.

            Larry passou ao nosso lado, com passos largos, como se estivesse copiando o próprio Lucas que tinha acabado de passar por ali também.

            — Você acha que ele ainda quer conversar com você? — Alison perguntou.

            — Eu não imagino porquê não. Ele meio que ficou fissurado em mim depois que voltou.

            — Pois é, mas... será que ele realmente quer conversar com você ou só sente a necessidade de pelo menos esclarecer as coisas?

            Olhei para a garota. Ela estava com a cabeça virada em poucos graus, como se quisesse me convencer ou me orientar de alguma coisa. Eu já tinha pensando no que ela disse, para ser sincero, na possibilidade do Larry só ter tentado conversar comigo porque sentia a obrigação de esclarecer algo e não porque realmente queria. Achei uma teoria bem provável, por mais que eu quisesse que fosse mentira. Meu desejo era que ele verdadeiramente sentisse vontade de conversar comigo.

            — Não sei, mas também não quero falar disso. — Respondi. — Vamos entrar agora. A primeira aula já vai começar.

 

            Entrei primeiro na sala e Alison veio logo depois. Como em qualquer sala de aula, grupinhos se reuniam aqui ou ali para fazer bagunça e qualquer coisa do gênero. Revirei os olhos quando percebi que meia-dúzia de garotas me olharam dos pés à cabeça como se estivessem me julgando – isso era frequente no Colégio Vargas, mas não na faculdade.

            Me contive a simplesmente andar até os fundos da sala e sentar no meu lugar, ao lado da Alison, tentando ao máximo não olhar para a fileira à direita, onde Larry estava sentado. Ele estava conversando com seu “velho-novo-amigo”, Pierre, e ambos pareciam felizes demais, entretidos por uma discussão aparentemente sobre garotas. Idiotas. Não respondi a Alison logo de cara quando ela me perguntou sobre o horário de aulas, principalmente porque haviam palavras horríveis na minha garganta e eu não queria correr o risco de abrir a boca e derramá-las. Eu queria me virar para o Larry e socar a cara dele. Respirei fundo e esperei a Alison perguntar novamente.

            — Ei. Terra chamando Greg. — Disse ela, estalando os dedos na minha frente. Fingi que tinha acabado de escutá-la pela primeira vez, embora tivesse escolhido ignorá-la. — Quais aulas temos hoje?

            — Ehhh, não sei. — Respondi, incerto, e tentei ao máximo ignorar os dois garotos atrás de mim e a discussão deles sobre os tipos de garotas que gostavam (no geral, Larry mais ouvia do que falava, enquanto Pierre não parava de tagarelar). — Por quê? Ansiosa para o novo professor de contabilidade?

            Sorri, fazendo Alison sorrir também. Ela não parecia estar ciente das coisas que aconteciam nos meus pensamentos.

            — Um pouco, mas aposto que você está mais. — Disse ela.

            — Nem tanto assim.

            Eu estava pronto para me abaixar, abrir minha mochila e pegar meu caderno, onde o horário de aulas estava marcado, pronto para fazer qualquer coisa que não tivesse a ver com o Larry e, finalmente, deixando de lado toda essa história, quando de repente todos os alunos se sentaram e ficaram num relativo silêncio. O que aconteceu em seguida, por mais que eu achasse que mudaria alguma coisa em relação aos novos rumos que a minha vida estava dando, somente deixou tudo mais complicado.

            Vi Kevin entrar pela porta. Ele estava usando uma daquelas blusas de tecido fino feitas para esporte, calça jeans e uns sapatos nada atraentes que mais lembravam o estilo do meu pai. Fiquei pensando na idade dele e se ele tinha saído de um treino na academia para ir direto à faculdade. Seus cabelos castanhos estavam penteados num topete um tanto quanto alto, seus olhos, também castanhos mas mais claros do que o cabelo, também pareciam os mesmos.

            — Uau. — Alison disse, ficando de boca aberta.

            Ouvi um monte de outras garotas suspirando pela sala e essa não foi a primeira nem a última vez que as vi fazendo algo do tipo. Cada movimento dele parecia deixar todo mundo numa espécie de transe: as meninas porque queriam ficar com ele e os meninos porque queriam saber qual era o segredo para atrair tantos olhares femininos. Confesso que até alguns dos garotos (até então desconhecidos) pareciam ter suspirado quando ele abriu um largo sorriso e falou com a voz grossa:

            — Bom dia. Eu sou Kevin, o novo professor de contabilidade de vocês.

            Alison continuava com aquela cara abobalhada, olhando para o professor como se ele fosse um deus grego. A única coisa que eu podia e conseguia fazer era ficar rindo da reação dela e, secretamente, por causa da tão esperada inveja por eu ter conhecido aquele cara antes. Eu pude ouvir a voz dela ecoando na minha mente. Você tem muita sorte.

            — Eu decidi pegar o turno da manhã para ajudar a faculdade agora que o professor antigo de vocês precisou tirar licença. — O professor continuou, viajando com os olhos pela turma. Ele foi olhando de pessoa em pessoa, até chegar na Alison. — Ainda não conheço vocês — disse ele, depois olhou para mim e, aparentemente, abriu ainda mais o sorriso —, só alguns, mas gostaria muito de conhecer. Creio que vamos ter tempo de sobra para isso.

            Alison parecia prestes a ter um derrame, sem conseguir desfocar os olhos do rosto do professor, que não parecia nem um pouco consternado ou desconfortável por causa de todos os olhares em sua direção. Na verdade, ele parecia ainda mais radiante a cada vez que alguém sorria ou suspirava por causa de seus movimentos. Não posso dizer que não fiquei um tanto quanto tocado ou atraído por ele, é claro que fiquei, mas nem tive tempo de pensar nisso porque outra coisa chamou minha atenção.

            Eu tinha o péssimo hábito de olhar para Larry quando ficava de bom humor. Não sei se essa era uma “necessidade” ou uma auto-sabotagem que me fazia olhar para ele sempre que me sentia feliz, para a indiferença do garoto massacrar a minha felicidade, ou se queria simplesmente compartilhar minha alegria com ele. Entretanto, naquele momento eu não pensei nos porquês, só olhei para ele. E não gostei do que vi.

            Larry estava debruçado sobre a mesa, com as duas mãos sobre a madeira. Seus dedos estavam bem abertos. Seus braços, imóveis, pareciam pressionar a mesa para baixo como se ela fosse alguma ameaça. Seus olhos estavam focados no professor, mas não de um jeito bom como a maioria da sala. Ele estava com muita, muita raiva. Percebi o ódio dele simplesmente pela escuridão em seu olhar, ou nos “quase-espasmos” que sua boca estava dando. Levei um tempo para perceber que a pressão sobre a mesa e o olhar de ódio não tinham a ver consigo mesmo, tampouco comigo, mas sim com o professor. O que Kevin tinha feito para ele, isso eu não podia dizer, mas não tentei achar uma resposta de imediato. Só fiquei olhando o Larry em sua pose de raiva mais genuína, algo que eu nunca tinha visto até então.

            De repente ele olhou para mim. Foi como uma transferência de energia ou, sei lá, telepatia, porque pude sentir o que ele estava sentindo, pude experimentar da raiva que o consumia por dentro e que estava prestes a romper. Meu coração doeu e minhas mãos começaram a suar. Parte de mim queria pergunta o que estava havendo, mas todas as outras partes não queriam saber, por segurança. Me contive a franzir as sobrancelhas e lançar um olhar de dúvida ao Larry.

            — Eu preciso falar com você. — Disse ele. Não escutei sua voz de fato, porque ele sussurrou, mas pude perceber que era alguma coisa séria. — Por favor.

 

            Não respondi. Eu não consegui responder, principalmente porque lutei muito tempo para deixá-lo no “vácuo” e, graças ao destino, a ausência de motivos para conversarmos ajudou um pouco, durante um tempo. Agora, com o retorno de alguma coisa séria, tudo o que eu mais queria era perguntar se ele estava bem, o que estava ocorrendo ou se precisava de ajuda. Mas meu orgulho não conseguiu me deixar dizer um sim. Simplesmente me virei para a Alison e continuei sorrindo como se nada tivesse acontecido.

 

***

 

            Kevin passou alguma coisa sobre o cenário contábil mundial, uma espécie de recapitulada geral sobre tudo o que íamos aprender no ano, e depois saiu da sala quando o sinal tocou, todo feliz por causa dos olhares indignados e abobalhados sobre sua aparência. Achei isso um tanto quanto estranho, mas não mais estranho do que perceber que o chamava pelo nome – eu nunca tinha chamado um professor pelo nome. Talvez porque eu tivesse o conhecido fora da sala de aula, ou talvez por qualquer outra coisa, eu não consegui chamá-lo de professor de contabilidade.

            A minha esperança era ter pelo menos até o intervalo, tendo tempo suficiente para poder pensar no que iria falar para o Larry. Isso era algo que antigamente eu não precisava: medir as palavras para conversar com ele. Larry sempre foi meu confidente desde a primeira vez que precisei dele, desde quando me salvou de uma morte agonizante e iminente no chão do banheiro do Colégio Vargas. As coisas eram muito diferentes naquela época. Entretanto, vivendo um futuro que o Greg do Ensino Médio nunca acreditaria, eu precisava medir e tentar achar as palavras certas para conversar com ele.

            Eu apenas esperava ter o tempo necessário.

            Alison tinha acabado de começar uma conversa sobre alguma coisa que tinha a ver com o Kevin, e eu estava virado para ela, dando o máximo de atenção, quando senti que alguém estava parado do meu lado. Era o Larry. Não precisei olhar muito para cima para achar o rosto dele, quando Alison parou e pude tirar minha atenção dela para dar para ele, já que Larry não era muito alto. Ele tinha a péssima mania (digo péssima porque era uma das coisas que me atraía em sua atitude) de colocar a mão perto de mim quando precisava falar qualquer coisa. Eu não sabia porque gostava daquele hábito dele, mas gostava.

            — Greg, a gente pode conversar agora? — Ele perguntou com a voz baixa, parecendo submisso, com a mão sobre a minha mesa quase encostando no meu braço.

            Não suportei olhar nos olhos dele por mais de dois segundos. Abaixei a visão e olhei para a Alison, que parecia petrificada ao meu lado. Uma das coisas que eu mais queria no momento era dizer não, falar que não podíamos conversar porque ainda não tinha superado o fato de ter sido feito de trouxa por tanto tempo, mas se havia uma coisa que eu tinha aprendido nos últimos meses era que não se pode sempre fazer o que se quer. Às vezes, deve-se fazer o que se deve.

            — Podemos. — Respondi, sem dar nenhum sorrisinho ou fazer qualquer cerimônia.

 

            Por sorte, não encontramos nenhuma autoridade importante da faculdade na ida até o hall de entrada – e, se tivéssemos encontrado, não faria diferença, já que o tratamento para universitários não é mesmo usado para estudantes normais (as autoridades realmente não ligavam se eu estava na sala de aula, no banheiro, em casa ou até mesmo em cima do telhado). Apenas Demetria me preocupava. Olhei algumas vezes em volta para constatar que ela não estava por perto e, finalmente, sentei em uma das cadeiras de espera no hall de entrada.

            — O que é? — Falei, erguendo as sobrancelhas.

            Larry se sentou na cadeira ao meu lado, mas fiquei virado para ele de uma forma nada acolhedora. Aquilo parecia um julgamento. Ele abriu as pernas e colocou os antebraços sobre os joelhos, curvando-se para frente e cruzando os dedos das mãos. Sua língua passou pelos lábios para umedecê-los e senti que alguma coisa boa não sairia de suas cordas vocais.

            — Esse cara... — disse ele, fazendo uma pausa —, Kevin, não é quem você pensa que é. Ele é perigoso, Greg.

            Levantei ainda mais as sobrancelhas, fingindo que não queria estar ouvindo aquilo. Ele colocou uma das mãos sobre o peito, exatamente onde fica o coração, e tentou usar a voz mais sincera possível.

            — Confie em mim, você sabe que eu não falaria isso se não fosse verdade. — Disse ele. — Esse tal de Kevin não é uma boa pessoa. É terrível, na verdade.

            — E como você sabe disso? — Interrompi.

            — Você nunca me deu a chance de explicar de verdade. Eu só falei um resumo do que aconteceu comigo quando não pude te ver.

            — Não pôde? Eu estava bem aqui, você fingiu que estava morto e não apareceu, depois ainda se deu ao trabalho de fazer novas amizades e simplesmente me deixou de lado.

            — Eu não te deixei de lado e, acredite em mim, se eu não voltei antes foi porque não podia. — Larry se defendeu, erguendo a voz. — Eu teria voltado pra você se pudesse, mas não podia. Por causa dele.

            — Do Kevin? Do nosso professor de contabilidade? Me responda, Larry, porque isso mais parece uma desculpa esfarrapada pra mim: como que o nosso novo professor de contabilidade, que chegou ontem, inclusive, é o responsável pela seu afastamento e sua morte falsa?

            Larry respirou fundo e guardou todo o ar que pôde dentro de si, e respondeu numa voz mais fina do que o normal:

            — Porque ele matou o meu irmão.

 

TRÊS MESES ANTES...

 

            Na primeira vez que vi a Faculdade Vargas, minhas expectativas não foram atendidas, foram superadas. O Colégio Vargas era um amontoado de salas cercadas por diversos pontos importantes como a biblioteca, a sala de informática, o auditório e todo o tipo de coisa. Já o prédio da faculdade era imenso, em estilo moderno, com as paredes pintadas de azul escuro e quase 100% cobertas de vidros pretos. O terreno da instituição também parecia razoavelmente maior do que o do colégio, cobrindo quase o quarteirão inteiro.

            Foi a minha mãe que me deixou na frente da faculdade naquele dia, no caminho ao trabalho. Ela raramente fazia isso e eu sempre agradecia (principalmente porque não queria ficar andando de ônibus logo pela manhã), contudo, no meu primeiro dia de aula na faculdade, não consegui falar uma única palavra sequer quando ela parou o carro. Fiquei parado, com a boca levemente aberta, olhando aquela gigantesca construção, pensando em como nunca tinha descoberto aquilo antes.

            Depois de me despedir da minha mãe, saí do carro com as mochilas nas costas e um olhar de preocupação no rosto. Eu obviamente não podia me ver, mas tenho certeza de que deveria estar parecendo a pessoa mais insegura do planeta. Metade dos alunos da faculdade já estudavam no Colégio Vargas (por causa de toda aquela história de um “ano-teste” para a instituição) e essa porção de pessoas sabia da maioria das histórias que ocorreram comigo nos meses anteriores. Mesmo que eu tivesse tentado, nunca teria conseguido manter todas aquelas confusões em segredo. Me lembro que a primeira vez que alguma coisa minha foi à público foi quando Alexia espalhou as cópias de Como Magoar Alguém pelo colégio. Vaca.

            Entretanto, eu não estava pensando na minha “vida passada” antes de entrar na faculdade, não naquele momento. Uma parte de mim acreditava que algumas coisas iriam piorar ou se repetir, mas minha sensação era, na verdade, boa. Eu sentia que apesar das coisas ruins que tinham acontecido e as outras que estavam acontecendo, novas e boas histórias se aproximavam. Depois de ouvir o carro da minha mãe saindo em disparada, repentinamente a faculdade passou de um lugar que merecia preocupação para um local onde eu deveria ser diferente, um lugar onde tudo deveria ser diferente.

            Enquanto cruzava a rua, fiquei me perguntando como era o primeiro dia nas faculdades. O edital das turmas seria divulgado em algum lugar público, como acontecia no Colégio Vargas, ou eu teria que ir para algum lugar para descobrir? As pessoas estariam igualmente animadas como no Ensino Médio ou simplesmente tão nervosas quanto eu? A diretora (que até onde eu sabia ainda era a Demetria) tinha ensaiado um discurso ou algo assim?

            Tentei responder as minhas perguntas com minha intuição, mas não foi tão fácil assim. Percebi que, na verdade, muitas coisas haviam mudado. Uma delas era a forma de, literalmente, entrar na faculdade. Haviam catracas perto do hall de entrada do prédio, por onde passavam alunos com seus cartões tecnológicos. Procurei pelo meu, que deveria estar em algum lugar da minha roupa, e o encontrei no bolso de trás da calça. Entrei rapidamente.

            O primeiro passo já foi um choque. Por mais que adorasse estudar no Colégio Vargas e o considerasse como um dos melhores colégios da região, ele era um tanto quanto malcuidado. A faculdade era imensamente mais bem tratada, com o chão brilhando como uma pérola, vidros tão limpos que nem pareciam existir, decorações modernas e acomodações que faziam a instituição parecer mais um hotel do que uma faculdade.

            Tudo estava lindo e perfeito, pelo menos até eu encontrar a Alison pela primeira vez desde que nos separamos no fim do ano letivo. Para ser sincero, encontrá-la não foi o verdadeiro problema, muito pelo contrário, pois estava com saudade e louco para contar as coisas que aconteceram durante as férias. Mas havia um garoto conversando com ela. O reconheci assim que o vi. Era o Larry.

 

AGORA

 

            — O quê? — Perguntei, dando um passo para trás e, sem sucesso, tentando esconder o meu espanto.

            — Ele... — Larry abaixou a visão, como se não quisesse ou não conseguisse olhar nos meus olhos. — Ele...

            — Por que você nunca me falou isso antes? — Elevei a voz, soando o mais indignado possível.

            — Porque você nunca me deu a chance de falar, desde que nos encontramos aqui pela primeira vez há três meses atrás. — Ele soou mais indignado.

            Eu sabia que era inútil e injusto ficar bravo com o Larry, não só a minha intuição, mas como também a minha empatia dizia isso. Ele não tinha feito por mal, não tinha escolhido deixar todas aquelas coisas em segredo, embora também nunca tivesse realmente tentado falar a verdade bruta. A maioria das conversas que ele queria ter comigo era sobre o Lucas ou sobre o nosso beijo antes da suposta morte dele, e eu não queria falar sobre aquilo – eu queria o motivo que o levou a fingir sua própria morte. Sempre quando ficávamos pertos um do outro, pelo menos nos primeiros dias do ano na faculdade, ele sempre chegava perto de mim, tentando conversar ou simplesmente puxar assunto como se nada nunca tivesse acontecido. Ridículo. É claro que tudo tinha acontecido, tudo estava diferente, e minha intenção de interrompê-lo em suas explicações era fundada nessa aparência dele de achar que tudo estava certo, mesmo quando não estava.

            Mas eu fui muito egoísta. Por tanto tempo, fui muito egoísta. Um dos meus piores defeitos era o egoísmo e sempre que tinha uma chance de mudar, nunca conseguia. Tal defeito evoluiu ao ponto que me levou a ignorar a morte do irmão do cara que eu supostamente amava simplesmente porque fui feito de idiota. Por mais que o Larry tivesse me enganado, mentido para mim, omitido um monte de coisa e se recusado a explicar sobre seus motivos, o meu egoísmo não tinha fundamento. Eu nunca perguntei, em nenhum dia sequer, se ele estava bem.

            — Meu irmão não tinha culpa. — Larry disse. — E eu sinto falta dele todo dia.

            A mesma conexão que me fazia sentir as mesmas coisas que o Larry sempre quando nos aproximávamos retornou outra vez. Eu pude sentir as emoções do garoto sentado na minha frente, simplesmente por ver que suas sobrancelhas estavam milímetros mais para baixo, que seus olhos pareciam mais comprimidos, que sua recusa a olhar para o meu rosto estava ficando estranha demais. Eu pude sentir ele, pela primeira vez desde o início do ano. E foi quase imperceptível, porque Larry não era muito emotivo (pelo menos não na minha frente), mas juro que consegui ver seus olhos enchendo-se de lágrimas.

            Não consegui resistir.

            Me aproximei dele, numa posição desconfortável – porque ainda estávamos sentados –, e o abracei. Ele colocou os braços ao redor das minhas costas imediatamente, como uma planta carnívora engolindo uma presa. Pode não ser a melhor metáfora do mundo, mas era desse jeito que eu me sentia naquele momento: preso, abraçado, sendo engolido por um monstro de sentimentos que parecia tão terrível quanto os inimigos que fiz ao longo dos últimos anos. E não foi tão difícil assim descobrir as emoções do Larry depois disso, pois eu podia sentir os ombros dele pressionados contra o meu, sua respiração na minha nuca e seu aperto desesperado.

            — Me desculpe. — Falei.

            Ele não respondeu nada, só ficou me abraçando.

            — Eu nunca perguntei se você estava bem. — Respondi.

            Ele continuou em silêncio.

 

            Ficar abraçado com o Larry no meio do hall de entrada parecia a coisa mais pacífica do mundo, como se todo o restante do universo estivesse num caos gigantesco enquanto somente nós dois estivéssemos quietos. Mas acabou se tornando demais depois de um tempo, de modo que ele mesmo interrompeu o abraço, olhando para mim com olhos atentos.

            — Eu sinto muito por você, sinto mesmo, mas... — Comecei a responder e hesitei no meio do caminho, já sabendo o que queria falar, mas esperando ele perguntar.

            — O quê?

            — Mas você não pode esperar que isso mude o que aconteceu entre a gente. — Respondi. — Quero dizer, isso não pode mudar o que nós nos tornamos.

            — Como assim?

            Respirei fundo e tentei não socar a cara dele. Foi um confronto de emoções: há dois segundos, tudo o que eu mais queria era abraçá-lo e ficar com ele, e, no entanto, depois não suportava mais o fardo de ter que conviver com ele sem saber dos motivos que o levaram a fazer o que fez. E, se um dos meus maiores defeitos era o egoísmo, o dele também era.

            — Larry, você sumiu por quase seis meses. Você estava morto. Você morreu para mim. Sabe o que isso significa? Cada vez que eu pensava em você meu estômago embrulhava e minha mente parecia girar e girar. — Respondi. — E você nem quer me disse o porquê de ter sumido assim, de ter deixado eu acreditar que tinha morrido. E eu não vejo um motivo para continuar tendo o que tinha com você sendo que há tantos segredos entre nós.

            — Mas era justamente o que eu estava tentando falar. — Larry pareceu consternado. — Kevin. Ele não pode ser confiado. Ele matou o meu irmão e, acredite em mim, eu contaria mais se pudesse, mas isso colocaria você e todos nós em perigo.

            — Se o Kevin é tão perigoso assim, então já estamos em perigo. — Falei.

            — Isso pode ser verdade, mas eu não quero correr riscos.

            — E como você pode provar que foi ele que matou o seu irmão?

            — Porque ele confessou. — Larry respondeu na lata.

            — Confessou? — Ergui minha voz mais uma vez. — Eu não vejo provas disso.

            — Eu tenho provas, mas não posso te mostrar justamente porque colocaria todo mundo em perigo.

            Larry parecia muito convicto no que estava dizendo, como se realmente acreditasse ou como se aquilo realmente fosse verdade. Eu queria dar crédito a ele, queria mesmo, porque desconfiar de pessoas como o Larry nunca foi o meu forte (tantas pessoas poderiam ter me enganado por causa dessa mania minha de confiar em pessoas que conquistaram meu coração), mas, ainda assim, era sufocante demais conviver com ele sem todas as cartas sobre a mesa.

            Me levantei sem fazer cerimônia.

            — Desculpe, Larry, mas eu não consigo fazer isso. — Respondi. — Se você acha que não vale a pena falar a verdade para mim simplesmente porque quer me proteger, então acho que não vale a pena continuar tendo o que tinha com você simplesmente porque há segredos que podem nos colocar em perigo.

            Ele levantou a cabeça e pareceu um pouco confuso, me olhando como um cachorrinho curioso.

            — O que você está dizendo? — Larry perguntou.

            — Estou dizendo que esse talvez pode ser nosso fim, de qualquer coisa que tenhamos começado juntos. — Respondi. — E talvez seja o melhor, porque só Deus sabe como ambos sofremos depois que eu tentei chamar a sua atenção com aquela merda de Correio Elegante.

            Não falei mais nada para prender o olhar do Larry, embora também não quisesse sair dali. Tive que forçar as minhas pernas a andar em direção ao corredor que levava até a minha sala. Tive que forçar a minha mente a não pensar no que tinha acabado de dizer, embora tivesse percebido instantaneamente que aquela foi quase a mesma coisa que eu disse para Andrew quando nos separamos há quase um ano atrás.

 

            Voltei para a sala de aula como se nada tivesse acontecido, notando que Larry parecia relutante a voltar junto comigo. Ele continuou por um tempo no hall de entrada, supus, pois não retornou à sala pelo menos antes do intervalo.

            Contei tudo para Alison, que ficou me olhando com uma cara de quem viu um fantasma, com a boca aberta e os olhos arregalados. Tenho certeza de que estávamos atrapalhando a aula em questão com a nossa conversa, mas realmente não me importei. Haviam coisas mais importantes em jogo do que meia-dúzia de termos jogados no quadro. O restante dos alunos prestava atenção, somente nós estávamos conversando. E pela primeira vez houve o benefício de sentar nos fundos da sala, pois ninguém parecia estar se importando com a gente.

            — Você simplesmente saiu assim? — Alison perguntou, parecendo indignada.

            — O que mais eu poderia fazer? — Perguntei.

            — O irmão dele morreu, Greg, e se ele estiver certo, foi um dos nossos professores que o matou. — Alison respondeu, agora soando realmente indignada. — Você sabe que a gente não tem um histórico muito bom com professores.

            — Você e a Aqua não têm um passado muito bom com professores. — Ataquei. — Eu nunca tive problemas com nenhum deles.

            — Relativamente.

            Alison estava usando um tom muito convicto na voz, como se realmente estivesse acreditando no que Larry disse. Eu sinceramente não sabia o porquê de tudo aquilo – eles nunca pareciam tão próximos assim. É claro que a ausência de todas as outras pessoas que antes faziam parte do nosso meio (Aqua, Alicia, Andrew, Alexia, Lucas e por aí vai) fez os dois se aproximarem, talvez até por causa de mim, mas eles nunca pareciam próximos o suficiente para formarem uma opinião que me deixasse contra a parede. Se a Alison acreditava nele e, consequentemente, queria saber mais, significava que eu também deveria acreditar – a outra opção era ficar sozinho e pagar de orgulhoso.

            — A gente precisa ajudar ele. — Alison disse.

            — E fazer o que exatamente? — Ataquei outra vez. — Isso foi algo que eu também falei para ele. Se Kevin é tão perigoso assim, então já estamos em perigo. Não há nada que possamos fazer.

            — Eu não estou falando sobre o Kevin. Você já parou pra pensar em como Larry deve estar se sentindo? — Alison contra-atacou. — Ele deve estar muito sozinho agora, depois da morte do irmão e depois de ser abandonado por você.

            — Eu não o abandonei. — Corrigi. — Só não consigo conviver com ele sabendo que há segredos tão importantes entre nós. Além disso, Larry não parece tão sozinho, até já fez novos amigos aqui na faculdade.

            — Isso não significa que ele não está se sentindo sozinho...

 

            Paramos de conversar assim que a porta se abriu e Larry entrou por ela. Ele estava com uma cara nada agradável, vermelha e inchada, como se estivesse chorando pelo tempo que ficou no hall de entrada. Seus cabelos estavam um pouco molhados e fiquei imaginando a cena dele debruçado sobre a pia do banheiro, com os olhos fixos no espelho e a certeza de que eu tentaria fazer de tudo para tirar a verdade da situação. Alison respirou fundo quando o viu, guardando o ar dentro de si.

            Eu não via um motivo sólido para a súbita intimidade e empatia que ela sentia pelo Larry. Mas consegui perceber, numa fração de segundo, que ela se importava com ele mais do que ambos sabíamos.

            — Ele parece péssimo pra mim. — Alison disse. — Se isso não mostra que ele está se sentindo sozinho, então não sei o que mostra.

 

***

 

            Ficamos em um relativo silêncio até a hora do intervalo. No meu lado esquerdo, Alison estava sentada, quieta, aparentemente tentando resolver um exercício de matemática. Do lado direito, Larry continuava me olhando com aquela mesma cara de preocupação de antes. Fiquei ilhado, sem saber para onde olhar ou o que fazer, então me debrucei sobre a mesa e escondi meu rosto nos meus braços.

            É claro que eu queria conversar com a Alison sobre o Larry e tudo o que aconteceu entre mim e ele, principalmente porque precisava por pra fora todos aqueles sentimentos que estavam guardados dentro de mim, mas senti que deveria ficar quieto. Alguma coisa em mim dizia para não falar com ela sobre o assunto. Subitamente percebi que Alison se sentia tão empática ao Larry quanto eu, talvez por causa do tempo que todos nós estávamos juntos ou talvez pelas coisas que passamos (afinal, a Alexia não era uma ameaça só para mim). E é claro que eu também queria conversar com o Larry. Vê-lo daquele jeito, machucado, magoado, aparentemente sofrendo por alguma coisa que não podia me contar, apenas me deixava ainda mais sufocado; mas ele não entendia o meu ponto. Nenhum dos dois entendiam. Eles não entendiam o que eu tinha passado e estava passando por causa das coisas que a Alexia fez, por causa das coisas que o Larry fez, ou por causa das coisas que até o Thomas (que eu não via há quase seis meses) fez.

            Fiquei debruçado sobre a mesa até o sinal para o intervalo tocar. Nesse meio tempo, ocorreu-me que a coisa que estava faltando no momento não era exatamente algo, mas alguém. Se estivéssemos a alguns meses atrás, antes de toda aquela história do Thomas ter descoberto o “ponto secreto” onde eu e Lucas nos encontrávamos, eu poderia contar com meu namorado. Mas ele não estava mais ali. Para ser sincero, me acostumei a raramente sentir falta dele, somente nos momentos que realmente precisava de ajuda – como aquele. Enquanto estava debruçado sobre a mesa, fiquei pensando nos dias que eu contava os segundos para sair correndo e encontrá-lo perto da quadra poliesportiva, para abraçá-lo e beijá-lo na esperança de deixar todos os meus problemas para trás. Irônico, ele, que sempre foi o meu porto-seguro, um lugar onde eu podia me esconder dos meus problemas, acabou se tornando mais um deles.

 

            Me levantei imediatamente ao ouvir o sinal tocar. Não precisei falar nada para a Alison, pois ela se levantou e começou a andar comigo também. Sempre que sabíamos que estávamos no limite, prestes a discutir, nunca pedíamos desculpa ou algo assim. Era mútuo. Ela deu um sorrisinho ao olhar para mim e percebi que já estava tudo bem.

            — Vamos comer? — Perguntei.

            — Vamos. — Disse ela.

            O andar do prédio onde eram servidos os lanches para a hora do intervalo estava significativamente mais vazia do que no dia anterior. Não foi nada difícil achar uma mesa vazia, e mais do que rapidamente nos sentamos. Alison ficou tagarelando sobre o que queria comer e me perguntou, mas só confirmei que comeria o que ela escolhesse. Depois de alguns segundos, não querendo desperdiçar mais nenhum minuto do intervalo, Alison se levantou rapidamente e correu na direção da cantina.

            Fiquei sozinho na mesa de quatro lugares. Me permiti “aproveitar” o silêncio para notar coisas que quase nunca notava: a textura da mesa, a forma como organizaram todo o andar, os rostos desconhecidos que me cercavam, as câmeras de segurança espalhadas pelo teto (bom, pelo menos eu não correria o risco de ser atacado por alguém, como ocorreu no Colégio Vargas), o som de pessoas conversando e comendo vorazmente. Falando na forma mais popular possível, eu viajei. Eu fugi de mim mesmo, me escondi atrás de um monte de pensamentos. E levei um susto por causa disso.

            Alison já estava voltando para a nossa mesa quando recobrei minha atenção, mas parou no meio do caminho quando um garoto entrou na frente da minha mesa e me fez acordar do devaneio.

            — Oi. — Disse ele. — Tem alguém sentado aqui?

            — Ehhh, tem. — Respondi, sem pensar muito bem. Depois, percebi que era mentira.

            Havia três cadeiras desocupadas na mesa e eu só estava com a Alison, e ela obviamente não ocuparia todas elas. O garoto se virou com uma cara de desaprovação para trás, procurando por outra mesa vazia, mas me apressei a responder.

            — Ah, não, desculpe. Não tem ninguém aqui.

            Ele se virou para mim com um sorriso no rosto.

            — Você não está acompanhado? — Perguntou.

            — Sim, mas ela não se importa. — Falei.

            O garoto puxou a cadeira e se sentou na mesa. Logo depois, Alison chegou rapidamente trazendo um sanduíche natural nas mãos (o preferido dela).

 

            Não conversamos durante o intervalo, principalmente porque aquele garoto estava sentado na mesma mesa que a gente. Eu não conseguia adivinhar se estava tão desconfortável quanto a Alison, mas julguei que não – ela parecia estar mais. A garota virou a cadeira de modo que ficou virada apenas para mim, como se estivesse com medo ou vergonha de olhar para o menino desconhecido. Ele não parecia muito à vontade, para falar a verdade, remexendo a porção de salada na sua frente como se fosse a coisa entediante do mundo, com o rosto apoiado em uma das mãos e os cotovelos sobre a mesa. Ele parecia triste, para ser sincero, mas nem eu nem Alison tínhamos intimidade o suficiente para dizer alguma coisa.

            Nós não conversamos, mas isso não quer dizer que não houve assunto. É claro que houve. Nunca ficávamos sem assunto. Minutos antes de o sinal para a volta tocar, Alison gesticulou com a cabeça para algum ponto atrás de mim e falou com a boca cheia:

            — Olhe lá quem está te encarando.

            Não me movi. Até onde eu sabia, a única pessoa que gostaria de me encarar era o Larry e eu não queria olhar para ele. Fiquei estagnado, como se estivesse sendo perseguido por um monstro de algum filme de terror.

            — Quem? — Perguntei.

            — Lucas.

            Meu coração disparou. Não sei se foi por causa do fato de ele estar me encarando ou simplesmente porque não era o Larry, mas não consegui me conter. Virei para trás tão rápido que até o garoto desconhecido sentado na nossa mesa se assustou.

            Ele estava de fato me encarando. Pensei que o único garoto que estava sozinho e triste naquele refeitório era o menino sentado conosco, mas percebi que essa afirmação estava errada quando olhei para o Lucas. Ele estava numa mesa posicionada na minha diagonal esquerda, com os braços sobre a madeira, olhando para mim com os olhos quase fechados. Eu senti algo estranho quando captei aquele olhar claro em cima de mim, até porque notei que seu rosto tinha algumas cicatrizes desconhecidas. Ele parecia acabado, mais acabado do que eu, do que o Larry ou do que o menino sentado na minha mesa.

            — O que será que ele quer? — Perguntei. Alison não respondeu, dando continuidade ao fato de que não conversamos durante o intervalo.

            Continuei olhando para o Lucas e ele continuou olhando para mim. Não foi uma tarefa tão fácil. Foi como ser bombardeado diversas e diversas vezes, principalmente por causa da forma como ele me olhava. Lucas parecia estar com dor, por algum motivo não aparente, e tudo o que eu mais quis era perguntar como ele estava se sentindo.

 

            Não consegui me conter.

 

            Eu e Alison não conversamos durante o intervalo porque eu não dei oportunidade, porque me levantei para conversar com o Lucas.

            Ele desviou o olhar e tentou disfarçar conforme fui me aproximando, mas não conseguiu ser convincente. E, obviamente, não se levantou, para não parecer que estava de fato prestando atenção em mim. Ficou parado, olhando com os olhos fixos para a mesa na sua frente. A primeira questão era: se ele não queria comer e estava sozinho, por que estava no refeitório? A segunda questão era: ele ia aceitar a minha vontade de conversar?

            — A gente precisa conversar. — Falei, parando ao lado dele.

            — Fique longe de mim. — Disse ele, comprimindo os lábios para esconder alguma emoção.

            — Lucas, é sério. Eu não aguento mais esse silêncio. — Respondi, tentando elevar a voz, mas soei como se estivesse implorando para conversar.

            — Eu não quero conversar com você.

            — Lucas... — Comecei a falar, mas ele se levantou e foi andando na direção oposta.

            Por um momento, eu me tornei aquele garoto idiota que ficou parado no meio do refeitório quase lotado, deixado para trás numa conversa que poderia arrumar muitos caminhos. Um dos motivos que me levaram a querer conversar com o Lucas, ironicamente, era o Larry: eu queria desabafar, queria sentir aquela força que sentia nele antes de tudo acontecer, queria ajudar e ser ajudado. E fiquei parado, com cara de idiota, enquanto ele ia embora. Mas isso foi só por um momento, pois Lucas parou no meio do caminho.

            Ele voltou andando na minha direção com os olhos fixos nos meus. Tremi como um terremoto.

            — Eu não posso conversar com você agora. Somente na próxima quinta-feira, depois da aula. — Disse ele, com a voz grave, depois se virou para o lado oposto e começou a andar novamente.

            Dessa vez fiquei parado por tempo indeterminado no meio daquelas pessoas, com perguntas na mente e medos no interior. A terceira pergunta era: o que ele queria me contar?



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