História Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 12


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apc, Cma, Gsilva, Mpe
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 12 - Nós estamos juntos.


Fanfic / Fanfiction Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 12 - Nós estamos juntos.

NÓS ESTAMOS JUNTOS

 

DOIS MESES ANTES...

 

                Conforme o tempo foi se passando desde o final do meu terceiro ano do Ensino Médio, tudo foi ficando ainda mais entediante e parado. Quando comecei a estudar na Faculdade Vargas, uma pequena parte de mim queria acreditar que algumas coisas mudariam ou talvez até retornariam ao que eram antes. Uma dessas coisas era o meu relacionamento com o Lucas.

            O nosso reencontro não foi nem um pouco igual ao meu reencontro com o Larry. Lucas estava diferente. Não, se tornou diferente desde o final de todos os nossos problemas envolvendo a Alexia ou algo assim. No início daquele semestre letivo na faculdade, as memórias sobre o nosso término ainda estavam frescas: ele tinha afirmado que não queria ter que enfrentar problemas para ficar comigo, visto que a Alexia queria vingança. De fato, Larry “morreu” porque aquela garota não suportava me ver feliz com outra pessoa (na verdade, ela não suportava o fato do Andrew gostar mais de mim do que dela), e, então, Lucas seria um dos alvos da sua maldade.

            Eu não o culpava, para ser sincero. Ele não tinha culpa pelas coisas que aconteceram antes de eu o conhecer, ou das coisas que vieram depois disso. Ele não tinha culpa do meu conhecimento do Andrew e do meu romance com aquele garoto que já não fazia mais parte da minha vida. Então, por causa disso, não fiquei bravo com o Lucas por muito tempo. Decidi ser empático com ele.

            Mas uma coisa ainda não fazia sentido: se ele não queria ficar comigo por causa da Alexia, depois que ela se foi, então, por que ele não voltou? Essa era a pergunta que me deixava cada vez mais temeroso durante o tempo que se passava. No espaço de tempo entre o final do ano letivo no colégio e o início do semestre na faculdade, Lucas não tentou conversar comigo ou puxar qualquer tipo de interação.

            Ao contrário de Larry, quando eu reencontrei o Lucas nos primeiros dias de aula, tive de lutar para me aproximar. Larry queria tanto conversar comigo e ficar perto de mim, e eu o afastei; agora, Lucas queria se afastar e eu queria me aproximar dele. Não foi fácil perceber que nada tinha mudado, que a mente dele não tinha se ajustado às novas circunstâncias, que ele não tinha pensando em quanto a filosofia dele estava errada. Eu não estava mais em perigo por causa da Alexia e, consequentemente, ele também não.

            Tentei perguntar o porquê daquele afastamento algumas vezes, mas ele nunca me respondia. Fiquei no “vácuo” por mensagens no celular e também na vida real. Sempre quando eu me aproximava, durante a troca de aulas ou nos intervalos, ele se afastava. Mas, assim como a ideia de a Alexia responder por uma parcela do perigo na minha vida estava errada, tinha outra coisa que não fazia sentido: por que o Lucas nunca tentou mudar de faculdade ou fazer qualquer coisa que não me deixasse aproximar? Ele ainda queria que eu tentasse?

            Diante das minhas perguntas sem resposta, me conformei que não conseguiria atingi-lo nem que tentasse, e não foi nada bom ficar naquele tédio. Eu não estava mais conversando com Larry, Andrew estava em algum lugar em outro continente, minhas amigas Aqua e Alicia também não estavam por perto, e a única pessoa com quem eu podia contar era a Alison, já que Lucas mal olhava na minha cara.

            E, entretanto, de repente as minhas perguntas foram respondidas. Quero dizer, ele não chegou para mim e explicou o porquê de seu distanciamento, mas senti algo que me deu a resposta.

           

            Era para ser mais um dia normal. Eu me levantei, tomei um banho, troquei de roupa e voei para a faculdade com o ônibus, quase me atrasando. Esqueci meu cartão de entrada naquele dia, como quase em todos os dias, e tive que pegar um provisório, mas foi aí que vi algo que arrepiou os cabelos da minha nuca.

            O pai de Lucas.

            Eu estava prestes a entrar no corredor das salas de aula do primeiro andar quando vi um carro parar na calçada, lá longe. Eu reconheci aquele carro porque essa não foi a única vez que o vi chegar à faculdade (não que eu ficasse plantado no hall de entrada esperando pela chegada do Lucas) e, por algum motivo, não consegui ir para sala. O sinal já tinha tocado, quase todo mundo já estava em suas aulas, mas meus pés ficaram fincados no chão.

            Me escondi na curva do corredor, olhando para o hall de entrada sorrateiramente. Parecia uma cena de algum filme sobre espiões. Vi Lucas entrar com seu pai, que também teve que pegar um cartão provisório, assim como eu. Aquele homem era bem parecido com o Lucas, para ser sincero, e isso me deu uma espécie de aversão (eu não queria que o meu ex-namorado, a quem eu via como uma pessoa sempre atenciosa e gentil, se igualando com aquele velho enrugado e preconceituoso, para não dizer arcaico): os mesmos olhos azuis, os cabelos loiros, a pele clara e a estatura. Até o jeito de andar dos dois era semelhante.

            Fiquei espiando sorrateiramente e não me mexi. Os dois se sentaram nas cadeiras do hall de entrada e ficaram esperando por alguém – eu não sabia pelo quê ou quem, já que as aulas já tinham começado e Lucas precisava ir para sua sala. Nesse meio tempo de espera, me dei ao trabalho de observar o meu ex mais uma vez: ele estava com o rosto inclinado para baixo, os ombros encolhidos, as mãos no meio das pernas, como se estivesse com frio ou algo do tipo. Fiquei tentado a ir até lá para cobri-lo com algum cobertor ou agasalho, mas de repente percebi que não era isso. Lucas não estava com frio, ele estava submisso. Ele estava com medo. Notei a forma como ele pressionava um lábio contra o outro, a forma como seus olhos perdiam o foco ao olharem para um ponto fixo no chão, o jeito que suas mãos se esfregavam por causa da ansiedade. Foi uma visão nada agradável. E, como se já não bastasse, notei que finas linhas vermelhas detalhavam seu rosto como arranhões ou hematomas. O que ele andou fazendo durante as férias, isso eu não sabia dizer, mas com certeza não era boa coisa.

            Depois de alguns minutos, a pessoa tão esperada apareceu apressadamente, e eu reconheci aquele andar, aquela roupa, aqueles saltos que estalavam e seus cabelos ruivos. Era Demetria, a mãe da Alexia e gestora da faculdade. Até onde eu sabia, ela não era a única pessoa que comandava aquela instituição, até porque também tinha o Colégio Vargas sob seu encargo, mas, por algum motivo, Lucas e seu pai estavam esperando especificamente por ela. Engraçado, o porquê daquilo não necessitava dela, percebi depois, mas ficou ainda mais interessante.

            Eles começaram a conversar. Não cabe a mim detalhar toda a conversa, mas sim o modo como eu estava me sentindo no momento (e possivelmente o modo como o Lucas estava se sentindo também). Conforme o pai do meu ex-namorado ia falando, meus sentidos e minha ansiedade iam aumentando. A cada vez que ele falava meu nome, que não eram poucas, meu coração dava um salto e eu sentia como uma facada no meu peito. Sinceramente, eu preferiria não ter descoberto o porquê daquela conversa se tivesse tido escolha, mas não consegui me afastar nem quando a conversa começou.

            A discussão tratava de um contato, alguém que passava informações do Lucas para o pai dele e que parecia estranhamente próximo ao meu ex-namorado. Eu não sabia quem era, mas tinha minhas dúvidas: Larry, talvez por causa da minha recusa a voltar a ser próximo a ele; Alison, porque eu sinceramente não podia confiar em ninguém; Thomas, que foi o responsável pelo meu término de namoro; algum amigo da Alexia, pois naquela faculdade ainda havia muitos deles; ou até mesmo Henry, aquele garoto estranho que conheci como sendo o melhor amigo do Lucas. O pai do meu ex não revelou quem era o contato, mas fiquei observando. Aparentemente, aquele alguém era responsável por falar se eu me aproximava do Lucas, e foi aí que me arrependi do que andei fazendo durante as primeiras semanas de aula:

            Eu não devia ter tentado me aproximar novamente do Lucas, não devia ter tentado fazê-lo contar a verdade, não devia ter insistido em algo que já tinha acabado há muito tempo, pois foi isso que fez o pai dele tomar medidas drásticas. Aparentemente, as minhas aproximações e tentativas de conversa durante os intervalos e trocas de aulas foram observadas pelo contato e delatadas ao pai do Lucas, o que levou a tudo aquilo.

            Depois que aquele homem odioso terminou de falar, ouvi Demetria tranquilizá-lo numa voz gentil:

            — Pode ficar tranquilo, senhor. — Disse ela. — Seu filho não chegará perto de Greg, pode contar com a minha palavra.

            Então isso foi tudo, o suficiente para descongelar as minhas pernas. Não fiquei lá para ouvir mais nada e fui na outra direção, cambaleando, e não conseguindo imaginar a magnitude da situação. Mas não fui direto para minha sala, ao contrário, entrei no banheiro masculino, escondendo-me dentro de uma das cabines, e fiquei lá por um tempo.

 

AGORA

 

            Contei os segundos para a quinta-feira tão esperada, quase que literalmente. Meus sentidos diziam que coisa boa não era, principalmente pelo tom com que Lucas falou comigo, mas, ainda assim, fiquei mais otimista do que antes – qualquer interação dele comigo já era um avanço.

            Os dias se passaram muito lentamente, mais entediantes do que o normal, e eu sempre me pegava pensando no que iríamos discutir quando finalmente ficássemos à sós. É claro que ainda não estava pronto para admitir que talvez aquele fosse o nosso fim, porque, ironicamente, meus dias estavam sendo marcados por fins de relações que eu jurava que iam durar para sempre (Larry pode confirmar isso), mas continuei com o otimismo. Conforme o tão esperado dia foi se aproximando, comecei a ficar cada vez mais ansioso e, consequentemente, mais ríspido – Alisson até me acusou de não prestar muita atenção nas aulas ou nos problemas dela, mas, sinceramente, não me importei muito com isso.

            Passei a tentar me acalmar na marra conforme a quinta-feira foi se aproximando, tomando banhos extras, chás calmantes e esse tipo de coisa. Não adiantou muito, visto que eu não podia sequer pisar no terreno da faculdade, que toda aquela ansiedade voltava.

            Mas finalmente o dia chegou e, surpreendentemente, fiquei calmo. Isso ocasionalmente acontecia comigo (pelo menos em 1/3 dos acontecimentos importantes da minha vida): eu ficava tão mas tão ansioso para algo que meus ossos chegavam a tremer, que eu chegava a ficar andando em círculos em qualquer lugar que fosse, mas, no exato momento que essa ansiedade deveria de fato fluir, eu não sentia nada, só um fraquejo nas pernas.

            Quando acordei na quinta-feira, era desse modo que eu me sentia, não tão nervoso, mas também não tão calmo. Fiquei pensando em tudo quanto assunto diferente, talvez como uma forma subconsciente de proteção contra o nervosismo, enquanto me arrumava para ir para a faculdade. E me surpreendi quando cheguei à instituição sem ter passado mal no caminho.

            Pensei nos mínimos detalhes antes de sair de casa, como ia pentear meu cabelo, qual roupa usaria, se meus dentes estavam limpos e brancos o suficiente, se eu estava atraente o suficiente para o Lucas (nunca se sabe o que pode acontecer), de tal modo que não esqueci meu cartão de entrada. Passei pela catraca, triunfante, e encontrei Alison no hall de entrada à minha espera.

            — Você chegou cedo. — Disse ela, quando me aproximei.

            — Não consegui dormir direito, então vim mais cedo. — Respondi, chegando mais perto.

            Foi um oi um tanto quanto ciente das coisas que estavam para acontecer. Ela sabia que eu estava nervoso e pude notar que até um pouco de ansiedade percorria o resto dela. Alison se sentia compadecida por mim, mais como um ato de piedade do que empatia, e eu sempre fui grato por isso porque era o motivo do nosso relacionamento ser tão mútuo. Eu a ajudava em seus problemas (que, para ser sincero, não passavam de trabalhos atrasados e/ou difíceis demais) e ela me ajudava nos meus.

            Esperamos um grupinho de amigos sair das cadeiras do hall de entrada para que pudéssemos sentar, e Alison começou já a entusiasticamente falar sobre como achava Kevin bonito demais. Ótimo, a última coisa em que eu queria pensar era no Kevin, porque ele me lembrava o Larry, que era a última pessoa que eu precisava nos meus pensamentos naquele momento. Ainda assim, não mandei Alison calar a boca, embora fosse a coisa mais pertinente a se fazer.

            Ficamos falando e falando sobre as coisas que não discutimos durante a semana que estava quase chegando ao fim (já que mal conversamos nos dias passados por causa do meu nervosismo). Aparentemente havia a promessa de algum trabalho gigantesco arquitetado pelo Kevin e pela organização do colégio, que seria apresentado somente no final do ano. Aparentemente também eu não tinha nada no meu caderno, mantendo-o desatualizado porque estava ausente demais pensando nos meus problemas pessoais. Engraçado, a algumas semanas atrás uma nota vermelha era o maior dos meus problemas.

            Depois de um tempo, o sinal para a primeira aula tocou e então, finalmente, a ansiedade retornou. Eu até fiquei um pouco feliz pelo retorno dela, não que realmente precisasse daquela sensação de desespero, mas achava melhor tê-la quando fosse para a aula do que tê-la quando estivesse conversando com o Lucas. Eu e Alison entramos rapidamente na nossa sala, seguidos por diversos e diversos outros alunos.

            Coloquei na minha cabeça que precisava prestar atenção, principalmente naquele dia, mas foi muito difícil manter o foco, principalmente quando vi Larry entrando na sala. Ele frequentemente chegava atrasado, o que não fazia sentido já que morava não muito longe da faculdade. Estava com sua costumeira mochila azul da Nike pendurada apenas em um dos braços, a jaqueta preta aberta e os cabelos desgrenhados. Parecia ter acabado de acordar. Ele olhou para mim por um milésimo de segundo, com o olhar obscuro, e juro que vi uma luzinha no fundo de seus olhos, mas desapareceu antes que ambos pudéssemos fazer qualquer coisa. Eu não o culpava, sinceramente, por causa do nosso distanciamento, mas alguma coisa dentro de mim pediu para que fosse diferente, para que ele me desse um oi animado como antes fazia e sentasse perto de mim. Ao contrário disso, Larry não fez nada.

            O dia foi se passando sem muitos imprevistos, pelo menos não até a quinta aula, que era nada mais e nada menos do que contabilidade. Eu, Alison, Larry e metade da sala já sabíamos que o Kevin ia dar aula, então todos nós suspiramos: eu porque não sabia se devia ou não confiar naquele professor, Alison porque achava ele bonito demais e Larry porque odiava aquele homem.

            Quando Kevin entrou na sala, Larry se levantou, levando sua mochila, e saiu. Houve um pequeno momento, antes de Larry cruzar a linha da porta, um momento em que ele e o professor se entreolharam, mas foi tudo muito rápido. Nem que eu conseguisse olhar para dois lados ao mesmo tempo conseguiria ver o que houve, mas, quando finalmente deixei de prestar atenção no Larry para olhar para o Kevin, ele estava com um sorrisinho.

 

            E, apesar disso, a aula começou como se nada tivesse acontecido.

            — Pessoal, pessoal. Peço para que guardem o material de vocês porque vamos para o pátio, lá fora. — Kevin disse, erguendo a mão para prender a atenção de todo mundo (não que ele precisasse disso, seu rosto já fazia muitas pessoas suspirarem). — Vamos.

            Todos os alunos se levantaram rápido demais, como se já soubessem que não teríamos aula na sala (algo que ocorria quase nunca, já que a Faculdade Vargas foi aparentemente projetada para manter os alunos dentro do prédio, pois os espaços externos eram muito pequenos e pouco confortáveis, como o pátio de recreação ou o hall de entrada). Guardei meu material às pressas e fiquei esperando pela Alison.

            — O que será que ele quer? — Perguntei, arqueando as sobrancelhas. Alison deu um sorrisinho, como se estivesse pensando em algo nada ortodoxo, e terminou de guardar seu material, se levantando.

            — Eu disse que ele estava bolando um trabalho dos grandes. — Disse ela.

            Fomos andando em silêncio até o local escolhido. O hall de entrada era um dos locais que eu frequentava na faculdade, mas, para ser sincero, a maioria daquele lugar ainda era desconhecida por mim. Ao lado do corredor de sala do primeiro andar havia um pequeno corredorzinho que passava ao lado do pavilhão, com uma das paredes feita de vidro. Pude ver um pequeno jardim conforme ia até o fim do corredor, que se abria para um pátio não muito grande.

            Muitos alunos já estavam lá, muitos mais do que os da minha sala, e então supus que não éramos a única turma escolhida para o trabalho. Vi alguns rostos conhecidos, como Lucas (quase gritei quando o reconheci no meio da multidão, embora não tivesse certeza se ele havia me visto), Pierre, Amy, Demetria e outras pessoas que também fizeram parte do Colégio Vargas. Larry não estava em nenhum lugar, como pude perceber, e fiquei um tanto quanto receoso com isso.

            Depois de um tempo, Kevin surgiu lá na frente, encoberto por um monte de outros alunos, e sua voz quase não chegava até onde eu e Alison estávamos, de modo que tivemos que nos aproximar para escutarmos melhor.

            — Estão me ouvindo aí atrás? — Kevin disse. — Eu posso falar mais alto. Estão me ouvindo?

            Um coro de “sim” respondeu à pergunta dele, mas não falei nada, só fiquei olhando. Do ângulo onde eu estava, dava para ver o rosto do Kevin perdido no meio da multidão e, ao lado dele, Demetria. Não sei porque, mas as pessoas ao meu redor pareciam entusiasmadas a não me deixar chegar mais perto, pois formaram um bolinho nada agradável. E de repente me lembrei que odiava multidões.

            — Todo mundo de Administração está aqui? — Kevin perguntou. Um monte de alunos respondeu. Eu também fazia Administração, mas nem disse nada. — Design? — Ele perguntou novamente e, novamente, outras pessoas responderam. — Arquitetura? — Foi a última pergunta. Mais dezenas de vozes responderam.

            Comecei a me perguntar o porquê de terem sido escolhidas turmas específicas de matérias diferentes e o porquê de tudo aquilo. Afinal, qual era o trabalho que precisávamos? Por que era algo tão grande que era necessário mais de uma turma para realizar?

            Fiquei em silêncio enquanto Kevin começava a explicar.

            — Pessoal. — Disse ele. — Eu chamei vocês aqui porque, junto com a administração do colégio, formamos um trabalho muito específico para vocês. É algo bem grande e gostaríamos que todo mundo participasse, mas, antes disso, peço que formem duplas entre si. — Todo mundo começou a se entreolhar, e eu olhei para Alison, que me mirava com um sorrisinho. — Deve ser aleatório e é proibido que formem pares com pessoas da sua própria sala.

            O mesmo coro que antes suspirava pela beleza do Kevin agora repreendia-o por ser tão chato. É claro que a maioria das pessoas já tinha uma dupla formada, porque grupinhos em salas de aula, mesmo na faculdade, eram mais do que frequentes. Olhei com desaprovação para Alison, mas não falei nada, simplesmente deixei a perceber que não estava nada feliz com a ordem do Kevin. Então olhei em volta.

            As minhas opções eram Design ou Arquitetura. Por algum motivo, pensei nas matérias e não nas pessoas que faziam parte delas, e, também por algum motivo desconhecido, percebi com muito desagrado que ninguém que eu conhecia participava de alguma disciplina além de Administração. Só havia três turmas, uma de cada matéria, então eu precisava escolher alguém que não conhecia – quero dizer, ainda havia Amy, que estava em Arquitetura, mas eu não queria realmente fazer uma dupla com ela.

            Comecei a andar, na busca por um par, algo que antigamente eu repudiaria por causa da timidez. Foi nesse momento que meu coração gelou por um milésimo de segundo. Lucas passou ao meu lado, com o olhar fixo em mim, mas não fez nada além de me ignorar. Eu sabia o porquê daquilo, o porquê daquela frieza, e, ainda assim, senti como se um buraco tivesse sido aberto no meu peito.

            A urgência do momento passou tão rápido que mal tive tempo de pensar em alguma outra coisa, mas continuei andando na busca por um par. Até que vi aquele garoto. Sinceramente, ele não era importante para mim, eu não sabia o nome dele, não sabia qual era sua matéria, mas dividimos uma mesa de lanche quase uma semana atrás. Ele estava solto também, livre na multidão como se procurasse por outra pessoa.

            Fui andando até ele e parei na sua frente.

            — Oi. — Falei.

            Ele ficou confuso por um tempo, mas depois sorriu ao responder.

            — Oi. Você já tem uma dupla?

            Fiz que não com a cabeça e fiquei esperando pela resposta dele, que não veio, mas ambos sabíamos que não precisávamos falar nada.

            A minha dupla já estava feita.

 

***

 

            O trabalho que Kevin pediu para aquelas três turmas da faculdade não era nada pequeno. Eu sabia que, por mais importante ou grandioso que fosse, não conseguiria guardar nada na cabeça por causa da hora da saída, que se aproximava tão rápido quanto antes. Depois de o professor explicar qual era o projeto e tudo necessário para ele, além de falar o porquê de ter escolhido justamente aquelas três salas, fomos orientados a ficar no pátio até na hora da saída.

            O menino que estava na minha dupla ainda não tinha falado nenhuma palavra. Ele parecia mais receoso do que eu, principalmente no que dizia respeito ao trabalho. Parte de mim acreditava que ele não queria falar nada por causa de alguma coisa além daquele projeto, mas decidi não ouvir a minha intuição naquele momento – francamente, se eu escutasse minha voz interior sempre que ela gritasse, acabaria ficando surdo. Apesar do silêncio, nós dois sentamos no chão do pátio e ficamos lado a lado. Frequentemente ele se virava na minha direção e olhava para mim, mas por um milésimo de segundo.

            Quando eu estava prestes a perguntar seu nome (que, ironicamente, ainda não sabia), o sinal para a saída tocou. Foi uma bagunça. Por causa do espaço limitadíssimo do pátio, as pessoas formaram uma multidão na frente do corredorzinho que levava ao hall de entrada da faculdade. Ainda que não fôssemos mais do que três salas, aquele corredor não aguentava tantas pessoas assim. Por causa disso, e por causa do que eu estava esperando, decidi deixar a multidão ir na minha frente.

            Lucas também esperou. Ele estava encostado ao muro, com as mãos nos bolsos da jaqueta e o rosto virado para baixo, como se estivesse pensando em alguma coisa muito íntima. Fiquei tentado a correr na direção dele e fazer alguma coisa que, com certeza, me arrependeria depois, mas Kevin e Demetria ainda estavam ali. Além disso, se Larry tivesse dito a verdade sobre nosso novo professor, não seria nada estranho que Kevin fosse o informante sobre minha aproximação ao Lucas.

            Fiquei parado no meio do pátio, fingindo que estava mexendo em alguma coisa no celular, embora não estivesse fazendo nada de fato. Alison foi embora sem mim, porque já sabia que eu precisava ficar esperando (ela insistiu para poder espiar minha conversa com o Lucas, mas falei que não). Depois de um tempo, Kevin passou ao meu lado. Ele se virou para mim, andando de costas, acompanhado pela Demetria, e disse:

            — Vocês não vão pra casa?

            Ele estava sorrindo. Além de todas as coisas que eu queria perguntar, que eu queria ter certeza de que eram ou não eram, sorri de volta – não porque realmente apreciava a preocupação dele comigo, mas porque não queria parecer suspeito por ficar esperando no pátio.

            — Eu estou esperando minha carona. — Respondi. Ele balançou a cabeça.

            — Ok, então, até semana que vem.

            Kevin voltou a andar virado para frente. Alguma coisa estalou dentro de mim quando ele retomou sua conversa com Demetria, talvez alguma percepção de alguma coisa estava rolando por baixo dos panos, mas não fiz nada para descobrir o que era.

            Fiquei quieto por um tempo, ainda olhando para meu celular, até ter certeza que eu e Lucas éramos as únicas pessoas naquele pátio. Claro, havia câmeras de segurança e esse tipo de coisa – além de que o pátio não era muito oculto ou algo do tipo –, mas não tive medo. Pela primeira vez em dois meses, não tive medo de me aproximar dele. E aquela mesma energia, aquela cor amarela que parecia cercar o Lucas como uma áurea alegre, surgiu na minha frente repentinamente.

           

            Eu nem tinha percebido – na verdade, estava mais concentrado em não ser descoberto pelo espião do pai do Lucas –, mas ele também se aproximou. Quando eu menos esperava, seus braços rodearam meu pescoço e ele me apertou fortemente, como se nunca mais quisesse. E foi nesse momento que eu percebi a mesma coisa que percebi quando o vi pela primeira vez. Nada tinha acabado.

            Aquele era apenas um novo começo.

 

***

 

            — Meu Deus, eu senti muita falta disso. — Lucas disse, interrompendo o abraço com o sussurro. Seus braços de alguma forma desceram para o meu quadril, e suas mãos apertavam a minha cintura com uma força gentil.

Olhei para seus olhos cansados e tristes, tentando não passar a mesma sensação que, tenho certeza, ele estava sentindo também. A última coisa que eu queria era que ele ficasse mais desapontado por causa dos meus sentimentos, porque eu não estava bem, nem perto disso. Por mais que seus olhos estivessem finalmente olhando para mim, por mais que suas mãos estivessem tocando meu corpo, eu não me sentia como se estivesse num dia ensolarado ou algo do tipo. Eu estava me afogando.

— Eu senti muita, muita falta mesmo. — Ele respondeu. Respirei fundo e fiz a única coisa que podia fazer que não mostrava meus pensamentos internos.

Eu o beijei. Não foi um beijinho qualquer de reconciliação ou esse tipo de coisa, foi algo bem mais íntimo, mais humano. Aquele tipo de beijo que uma pessoa segura o rosto da outra, o tipo de beijo que faz as pessoas se unirem como se fossem uma só, o tipo de aproximação que faz qualquer um se sentir fora de si mesmo. E, considerando que viver como eu estava sendo um pouco mais difícil do que o normal, adorei ter saído um pouco de mim mesmo. Lucas respirava lenta e profundamente, com força e ao mesmo tempo com gentileza. Quando ele interrompeu o beijo, percebi que ambos estávamos ofegantes.

Eu estava tão agarrado a ele que nem percebi que, literalmente, estava segurando no colarinho da sua camiseta.

— Eu também. — Respondi. Ele deu um sorrisinho e pude ouvir quando algo surgiu dentro dele, quase como um sexto sentido. Pude sentir quando a alegria ressurgiu das profundezas dele.

— Você não sabe o quanto eu esperei por isso. — Lucas respondeu. — E a gente só tem hoje.

Franzi o cenho e inclinei a cabeça, numa forma de mostrar que estava confuso, mas ele não explicou mais nada e eu não perguntei. Ficamos parados por um tempo, olhando um para o outro, como se nada mais importasse ou como se nada sequer existisse. E foi lindo por um momento, até que ele finalmente se afastou, deixando as mãos caírem ao lado do corpo em sinal de impotência. Ele não parecia querer se afastar, mas o fez ainda assim.

— Lucas... — Falei. Havia tantas coisas que eu queria perguntar, como, por exemplo, o porquê de ele ter se afastado por tanto tempo e, de repente, ter voltado como se nada nunca tivesse acontecido, mas fiquei em silêncio. Havia tantas coisas para falar que nem consegui dizer nada.

— Greg, você precisa saber. — Ele interrompeu meus pensamentos. — O que a gente acabou de fazer foi algo perigoso que só aconteceu por causa de um golpe de sorte. Você não pode esperar que se repita. — Fiquei em silêncio e deixei que ele continuasse a falar.

Em vez de continuar a explicar sua frase enigmática, Lucas se aproximou de novo e contrastou aquilo que tinha acabado de dizer: estávamos prestes a repetir o beijo, mas, quando tentei me aproximar, ele colocou a mão na minha clavícula e se certificou de ficar um pouco distante. Sua boca estava comprimida e seus olhos mostravam um claro descontentamento. Ele não queria ficar um pouco distante.

— O que houve? — Perguntei. — Da última vez que você falou comigo mal olhava na minha cara, e agora isso. O que aconteceu?

— Meu pai. — Lucas respondeu o que eu já sabia. É claro que, naquele momento, o pai do Lucas era a última coisa que estava passando pelos meus pensamentos, mas, ainda assim, era um perigo constante. — Ele descobriu sobre nós, se lembra? Desde então ele vem sendo muito opressor.

— Opressor? De que forma? — Perguntei outra vez, decidindo que aquele momento era raro, então precisava perguntar tudo o que queria saber.

— Acho que você sabe.

Lucas continuou com o mesmo olhar e a mesma expressão no rosto. Ele realmente parecia acreditar que eu sabia sobre as coisas que seu pai fez durante os últimos meses, mas, na verdade, eu não sabia. Algumas ideias passaram pela minha mente, suposições e teorias, contudo nada que chegasse perto da realidade – exceto uma teoria.

Olhei para o rosto do Lucas, que permanecia imóvel, mas não foram seus olhos que prenderam a minha atenção nem nada do gênero. Ele ainda tinha as cicatrizes no maxilar, arranhões que pareciam ter sido causados por algum animal. Ou uma briga. Achei um pouco curioso o fato de até as cicatrizes dele serem bonitas.

— Meu Deus. — Respondi, suspirando profundamente. — Seu pai fez isso?

Lucas deu um passo para trás.

— Na verdade, não. Não literalmente. Ele queria me machucar, mas não fiquei esperando pelo golpe. — Disse ele. — Brigamos e eu caí. Meu pai não chegou a me machucar de verdade.

Lucas engoliu em seco e continuou distante de mim, com as mãos nos bolsos e o mesmo olhar impotente no rosto. Sinceramente, naquele momento tudo o que eu senti foi raiva, principalmente por causa da forma como aquela cicatriz conseguia se encaixar perfeitamente no rosto dele, um detalhe lindo, mesmo que fosse algo causado por um preconceito horrível. A raiva do pai do Lucas acabou cobrindo o amor que eu estava sentindo no momento, então cerrei as mãos e tranquei a mandíbula.

— E agora? Nós temos que fazer alguma coisa! — Falei, quase sem abrir a boca. Lucas deu outro passo para trás e mexeu os braços como se quisesse que eu me acalmasse.

— Fique calmo. Não há nada que você possa fazer.

— Como assim? Precisamos denunciá-lo ou fazer alguma coisa sobre isso.

— E o que aconteceria depois? Eu conseguiria cuidar da minha mãe e meus irmãos sozinho, sem o dinheiro que ele leva para casa? — Lucas jogou um questionamento mais forte do que o meu. — Não podemos fazer nada.

— Mas...

— Greg, por favor, eu aceitei falar com você porque estava com saudade e porque precisava te contar isso, mas não me obrigue a me sentir mal por não denunciar o meu pai. Eu faria se pudesse, mas não posso.

A fala do Lucas parecia tão sem sentido para mim que quase fiquei com tanta raiva dele quanto de seu pai, mas decidi que isso não tinha sentido. Por que sentir raiva do Lucas em si, sendo que tudo de mal ali era culpa de outra pessoa? Quero dizer, se o pai dele não tivesse sido tão abusivo e opressor, com certeza estaríamos juntos.

— Lucas. — Falei seriamente. — Não me peça para ficar em silêncio sobre isso, não depois que você me ajudou em tudo o que precisei. Ainda lembro da vez que você me levou para a antiga casa da Alexia, mesmo contra a própria vontade e com medo. — Lucas respirou fundo e trancou o ar dentro de si, olhando para mim com a mesma seriedade. Acho que ele não imaginava que eu iria reagir dessa forma. — Nós concordamos que iríamos proteger um ao outro.

— Mas eu não quero que você se envolva com isso. Você já teve problemas suficientes para uma pessoa só.

— Então mais um não faria diferença. — Argumentei.

Depois disso, Lucas não disse mais nada. Ele sabia que não havia nada que pudesse falar que poderia mudar minha linha de pensamento. Ele sabia que eu não ia desistir tão fácil de conseguir a vingança que queria, mesmo que nem eu soubesse o que queria fazer. A filosofia de “olho por olho, dente por dente” era mais a minha praia, mas eu não podia sair por aí agredindo o pai do meu ex-namorado, então não falei nada no momento.

Subitamente senti que precisava me aproximar do Lucas, mas também senti que ele não queria isso tanto assim. Debaixo de todo aquele sentimento que ele tinha por mim, da mesma forma como acontecia comigo quando a Alexia estava por perto, havia o medo de sofrer as consequências pelo amor. Isso era algo que eu conhecia: ficar com medo de ficar com alguém por causa de alguma coisa. É claro que nunca tinha sido naquela forma de “garoto gay do cotidiano”, onde o preconceito predomina e todo esse tipo de coisa. Na minha vida, foi algo bem mais puxado ao romance policial, mas aquela era a realidade. Lucas estava sofrendo o que vários outros garotos homossexuais sofriam em quase todo o mundo a quase toda hora. E não tinha escapatória, senão revidar.

Por um milésimo de segundo, pensei em tudo o que ele tinha acabado de me falar e lembrei de sua frase no início da conversa.

— Porque temos apenas um dia? — Perguntei, semicerrando os olhos e parecendo mais curioso do que realmente estava.

Lucas olhou em volta e pareceu consternado, até assustado, de forma que, quando retornou a olhar para mim, senti seu medo. Parecia que aquele pátio tinha se tornado nosso mais novo ponto de encontro e, entretanto, uma cilada, como se todo o restante do mundo estivesse envolto numa névoa negra e tudo o que podíamos ver era um ao outro.

— Meu pai tem um informante aqui. Eu não sei quem é, mas presumi que conseguiríamos ficar sozinhos nesse lugar, porque quase ninguém vem para esse pátio. — Lucas respondeu.

— Mesmo assim, por que somente um dia? Podemos nos encontrar aqui outras vezes, não podemos?

— Não. — A resposta dele foi seca. — Greg, eu falei sério sobre isso. O que acabou de acontecer aqui não pode acontecer de novo. Nós não podemos estender ainda mais o que tínhamos entre a gente. Meu pai saberia.

Fiquei em silêncio, esperando a resposta dele, mas ela não veio. Lucas não disse mais nada, simplesmente pelo fato de que eu não precisava de mais nenhuma explicação, mesmo que a coisa que mais queria fosse isso. Eu queria que ele falasse algo a mais.

— Esse é outro término? — Perguntei, mais com um tom de afirmação do que de indagação. — Você disse que poderia conversar comigo só porque queria terminar de novo? Eu não precisava disso.

— Não é um término. Você acha que eu te daria um beijo como aquele se fosse? — Lucas contra-atacou. — Você sabe que eu nunca quis que acontecesse o que aconteceu, mas nem eu nem você pudemos evitar. Então... isso aqui é só um esclarecimento.

— Esclarecimento sobre o quê?

— Que eu ainda te amo, e talvez sempre vá te amar. Mas os meus problemas são como os meus sentimentos por você, talvez passem ou talvez não. — Lucas disse com uma dureza que me deixou feliz e, ao mesmo tempo, receoso pelo futuro. Eu não queria imaginar a possibilidade de um dia ele desgostar de mim. — Eu ainda te amo, Greg. Muito. Se vai haver um dia que eu não te ame, esse dia está longe.

Não falei mais nada por um tempo, apenas fiquei fitando seus olhos em mim. E aqueles segundos que se passaram pareceram durar uma eternidade. Eu vi, na minha mente, o relacionamento que poderíamos ter tido se nada tivesse acontecido, sobre as coisas que o Thomas ou a Alexia fizeram que mudaram o rumo daquela coisa tão pura que era o nosso relacionamento.

— E, ainda assim, nós não podemos ficar juntos? — Perguntei. — Mesmo que a gente ainda goste um do outro?

— Exatamente. — Lucas respondeu.

Ele tentou lutar contra o afastamento, mas pude ver em seus olhos que não conseguiria ficar ali por muito tempo. Até mesmo eu estava quase correndo na direção oposta, então não o culpei quando seu corpo girou sobre os calcanhares e foi na direção do corredor.

Eu até poderia ter gritado alguma coisa, corrido e feito a maior cena, arriscando a nossa exposição, mas não fiz isso – não porque não queria, mas porque nem tive tempo de raciocinar direito. Quando Lucas sumiu no final do corredor, e só então, percebi que havia alguém escondido no canto mais extremo do pátio. Era o garoto da minha dupla, e ele parecia muito interessado na minha conversa com o Lucas.

Repentinamente, percebi que as respostas estavam tão perto de mim quanto antes.

 

***

 

É claro que não fiquei parado no meio do pátio olhando para o garoto quase escondido no canto mais remoto. Eu tinha visto ele e ele tinha me visto. Ambos sabíamos que alguma coisa boa não sairia dali, mas, ainda assim, ele não deu nem um passo. Não decidi andar com indiferença para tentar fazê-lo acreditar que não tinha visto-o, mas eu simplesmente não dei a mínima. Aquele garoto não me conhecia e eu não o conhecia, então, supus que ficaria longe do meu caminho e da minha vida pessoal.

Entretanto, ele não ficou literalmente fora do meu caminho. Quando eu estava prestes a entrar no corredor que levava até o hall de entrada, aquele menino se meteu na minha frente e me fez reduzir o passo. O susto não deixou que eu o olhasse como se já soubesse que estava ali, então arregalei os olhos e quase gritei.

Quando finalmente percebi que era ele mesmo, olhei com seriedade para seu rosto.

— Cara, não faça isso. — Respondi. Ele deu um sorrisinho animado e um passo para trás.

— Desculpe.

Continuei a andar, como se nada tivesse acontecido, com o menino logo atrás de mim. Ele não parecia muito afim de querer se afastar, e isso somente aumentou ainda mais minhas desconfianças. Se ele era o informante do pai do Lucas, seria mais do que necessário que ficasse me seguindo durante as horas vagas na faculdade, principalmente porque eu podia me encontrar com o meu ex-namorado quando ninguém estivesse por perto – assim como tinha acabado de fazer. Enquanto andava pelo corredor, percebi que a estranha aparição daquele garoto na minha vida social era mais do que suspeita.

— Então... — Disse ele, numa voz alta de mais, quando chegamos ao hall. — O que você pretende fazer para o trabalho, inicialmente?

Não olhei para trás para respondê-lo, até porque já sabia que seu rosto estava quase grudado na minha nuca. Com destreza, peguei meu cartão de passagem no bolso e falei enquanto passava pela catraca, com cuidado para não enroscar as alças da mochila.

— Não sei. — Falei. — Você... você tem alguma ideia?

— Eu pensei em algumas coisas, sim, mas nada que seja realmente importante. — Disse ele. — Eu estava tentando estudar um pouco ali no pátio antes de ter que ir para casa.

O álibi dele não parecia confiável porque, simplesmente, ele não parecia o tipo de garoto que fica até um pouco mais tarde na faculdade, tentando estudar. Quero dizer, não que eu tenha prestado muita atenção em sua aparência, mas aquele menino realmente não parecia aqueles nerds focados em aprendizado que não largam um livro.

— Sério? — Perguntei, dando uma olhadinha para trás. Ele não pareceu intimidado.

— Sério. — Ele disse.

Continuei a andar como se ele nem estivesse ali. A última coisa que eu queria era ter que ir para casa na companhia daquele garoto, mas não tinha escolha, sendo que ambos íamos de ônibus – só descobri isso minutos mais tarde. Fui descendo a rua até chegar num cruzamento e esperei o sinal ficar verde para poder atravessar. Rezei para que o sinal ficasse vermelho antes que o menino atravessasse, mas isso não aconteceu.

Eu queria colocar um muro ou um mundo entre mim e ele, mais por medo de ele ser o informante do que por outra coisa. Quando o vi pela primeira vez, mordiscando seu lanche na praça de alimentação, o achei um pouco estranho, não vou mentir, e essa lembrança só me fazia ficar mais receoso. Eu olhei para o Lucas naquele dia, enquanto estávamos sentados na mesma mesa, e aquele garoto olhou para mim quando fiz isso. Será que ele reportou aquilo ao pai do meu ex-namorado? Bom, eu não tinha como saber isso enquanto cruzava a rua, então não me preocupei muito. O meu maior problema era o fato de que ele tinha visto o meu beijo com o Lucas.

— Você volta de ônibus também? — Disse o garoto, chegando até a mim com os pulmões gritando por ajuda. Com um passo, eu andava duas vezes mais do que ele, que parecia ter que correr para poder me acompanhar.

— Sim. — Respondi secamente.

Ele continuou a andar do meu lado, até que chegamos no ponto de ônibus. Como vários outros alunos pegavam o mesmo ônibus no mesmo lugar, não foi difícil me misturar no meio daquelas pessoas e, graças a Deus, perder o menino de vista. Mas constatei que não o tinha no meu campo de visão porque ele estava logo atrás de mim.

Um calafrio percorreu a minha espinha somente pelo pensamento de ser dedurado pelo garoto misterioso. Ele tinha um ar de mistério, de fato, como se estivesse pensando algo internamente, como se seus pensamentos não condissessem com suas palavras.

 

            Depois de alguns minutos, vi o ônibus virar na esquina adiante e vir na direção do ponto. Ele parou exatamente onde deveria e todas as pessoas subiram. Por sorte, o garoto estranho acabou se separando de mim na confusão e ficou para trás, bloqueado por outras pessoas. Paguei a taxa e cruzei a catraca, já procurando um lugar para sentar (não achei, já que era um horário de pico e todas as pessoas do mundo pareciam estar naquele ônibus). Mas havia um lugar, um ponto no ônibus que parecia especialmente vazio, perto de uma das barras para segurança, lá no fundo.

            Fui até lá, mas o menino também.

            Ele parou ao meu lado, segurando na barra, e, quando vi que estava do meu lado, virei a cara. Eu sabia que ele acharia essa desconfiança estranha e que supostamente deduraria isso para o pai do Lucas, falando que eu tinha descoberto sobre sua identidade secreta. Nesse momento, minha primeira grande dúvida sobre esse assunto surgiu. Na verdade, não foi bem uma dúvida, mas mais uma escolha dupla. Eu tinha duas opções: decidia ignorá-lo e acabar aquilo ali de uma vez por todas, mas isso levantaria suspeitas sobre o meu conhecimento da identidade do informante; ou poderia forçar uma amizade onde não havia. Essa segunda opção parecia mais interessante, já que eu poderia usá-la para fazê-lo acreditar que eu não tinha nada com o Lucas – embora isso fosse ridículo, já que ele tinha visto aquela cena.

            — Eu odeio ônibus. — Ele falou. Olhei para ele com um sorrisinho gentil e não fiquei em silêncio.

            — Eu também. — Respondi.

            — Todas essas pessoas cansadas e suadas e chatas perto de mim. Credo. — Seu tom soava cômico, embora eu não quisesse rir. — Onde você mora?

            Um alarme soou na minha cabeça enquanto eu tentava descobrir alguma coisa para responder. Se ele era o informante do pai do Lucas, então, seria muito imprudente dizer informações pessoais. Pelo menos era isso o que eu pensava.

            — Longe. — Respondi. — E você?

            — Perto da Ópera. — Ele passou no primeiro teste, fornecendo suas informações pessoais (algo que um espião não faria). — Bem longe.

            — É. Bem longe.

            Ficamos em silêncio por um tempo até ele pensar em outra coisa para falar. Sinceramente, estava sendo horrível conversar com ele por causa daquela desconfiança que eu tinha sobre sua identidade, mas, ainda assim, falar era melhor do que ficar em silêncio. Ele não podia suspeitar de mim, não por enquanto.

            — Eu ouvi dizer que todo ano o professor Kevin dá uma festa na casa dele para os alunos. Será que é verdade? — O menino disse. Dei de ombros.

            — Não sei. Ele mesmo disse isso?

            — Não, mas os alunos do último colégio dele disseram que sim.

            — Espero que seja verdade. Eu preciso de uma festa. — Não sei porque falei isso, mas falei. Acho que simplesmente precisava de alguma coisa para continuar a conversa.

            — Ah, então você é um dos festeiros! — Ele pareceu surpreso (algo que talvez um espião faria). — Não parece ser o tipo de pessoa que sai para festas.

            — Bom, eu curto alguma coisa. Não é a festa que faz a festa...

            — ... são as pessoas que estão nela. — Ele completou.

            O ônibus acelerou e passou por uma lombada exatamente no momento que ele sorriu e olhou para mim. Eu não queria olhar para ele, para seu rosto ou para seu sorriso, tampouco para seus olhos acesos. Naquele momento, sua íntima e repentina felicidade parecia mais falsa do que nunca, mas não hesitei. Então ele estendeu a mão para mim.

            — Aaron. — Disse ele.

            — O quê? — Perguntei, confuso.

            — Meu nome, é Aaron.

            — Ah! — Sorri e apertei a mão dele, tentando não mostrar a ânsia de vômito que estava sentindo. Eu não queria tocá-lo, não sabendo que tinha quase 90% de chance de ser a pessoa que estava estragando a única parte linda da minha vida. — Eu sou...

            — ...Greg. — Ele completou novamente. — Eu sei.

            — Como?

            — Todo mundo sabe. Quero dizer, todo mundo que veio do Colégio Vargas. Você é tipo uma lenda por lá, o rei. Ouvi dizer que tem até uma coroa.

            — É verdade. — Respondi, me lembrando da “cerimônia de coroação”, quando Demetria colocou a coroa na minha cabeça e me viu superar todas as dificuldades que sua filha colocou na minha frente. — Eu deixo ela no fundo da minha gaveta.

            — Um rei nunca deveria deixar de usar sua coroa. — Aaron disse num tom brincalhão, fingindo uma reverência. Eu ri um pouco, tenho de admitir.

            — Ok, ok, súdito. Meu ponto está chegando.

            Ambos olhamos pela janela para o pequeno marco que se aproximava, enquanto o ônibus diminuía a velocidade. Graças a Deus alguém apertou o botãozinho de “parada solicitada”, porque eu estava me esquecendo.

 

            Não falei nada enquanto descia, e, quando meu rosto tocou o ar de fora do ônibus, quando meus pés saíram do automóvel e eu percebi que finalmente estava longe do Aaron, o meu personagem desapareceu. Eu não queria estar sorrindo. Pela primeira vez, quis me preocupar com as coisas que estavam por vir.



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