História Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 13


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apc, Cma, Gsilva, Mpe
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 13 - Nós estávamos separados.


Fanfic / Fanfiction Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 13 - Nós estávamos separados.

NÓS ESTÁVAMOS SEPARADOS

 

UMA SEMANA DEPOIS...

 

Os dias se passaram muito lentamente depois da minha conversa com o Lucas. Eu sentia como se estivesse me aproximando de alguma coisa muito importante, a mesma sensação que senti quando terminei o Ensino Médio, a mesma sensação que dá em qualquer pessoa quando algo importante está acontecendo. A ansiedade se tornou mais recorrente do que o normal, quase como uma espécie de pensamento escondido lá no fundo da minha mente, e não me deixou sossegado pelos dias que seguiram. Comecei a perder a linha e o foco nas coisas ao meu redor, e até meus familiares ficaram receosos sobre minha saúde mental.

Não consegui pensar em mais nada além da minha conversa com o Lucas, nem mesmo no Larry, o que me deixou realmente preocupado comigo mesmo. Pelas minhas experiências, cheguei à conclusão de que ficar obcecado e fissurado por alguém (como fiz com o Andrew) não terminaria de um jeito bom. Mesmo quando fiquei sentado na minha cama, com a foto do Larry na minha mão, olhando e olhando, só consegui ficar pensando no Lucas.

Algumas coisas mudaram durante o pouco tempo de uma semana, principalmente as minhas sensações e tudo o que eu pensava sobre antes. Percebi que o futuro não ia mais ser do modo como eu achava que seria, parado, estagnado, uma estátua do tempo, então tive de improvisar para não ficar me lamentando pelos cantos. Novos problemas estavam surgindo e eu precisa lutar contra eles. Claro que, para isso, eu deveria chegar mais perto de pessoas que sequer queriam a minha companhia ou que preferiam viver sem ela.

No domingo daquela semana, sem conseguir segurar minha ansiedade até a segunda-feira, mandei uma mensagem para o Lucas. Ele não me respondeu, não de cara. Fiquei esperando por quase um dia inteiro, até que, de madrugada, recebi uma resposta.

— Eu não quero falar com você. — Disse ele.

Tudo o que eu queria sentir naquele momento, deitado na minha cama antes de dormir, era a raiva e o desentendimento. Se ele não queria falar comigo, por que falou? Aquilo não fazia sentido, então cheguei à conclusão, mais do que rapidamente, que não era verdade. Ele não estava falando a verdade.

A verdade era que eu estava ainda cicatrizando pelas coisas que a Alexia fez contra mim. Ela me jogou de um lado para o outro e me forçou a fazer coisas que eu não queria, brincou comigo e com as pessoas à minha volta. E não foi só ela, como também o Thomas e, provavelmente, mais alguém. Todos mexeram e brincaram com o que eu sentia, sobre quem eu amava e sobre o que eu queria fazer, então, decidi que não poderia levar tudo ao pé da letra. Nunca se sabe a verdade, nunca, nem que a pessoa diga algo justamente na sua frente. É quase impossível chegar na verdade.

Depois que a Alexia foi embora, com a sua gravidez repentina e tudo o mais, coloquei na minha cabeça que nunca mais confiaria no que estava colocado logo à minha frente. Quero dizer, mesmo que tudo mostrasse um significado semelhante, eu não acreditaria. Já me machuquei muito acreditando em coisas que não eram verdade. Por isso, levei em consideração todo o momento antes de sair por aí, julgando o Lucas por sua resposta seca e fria: se o pai dele realmente estivesse controlando seu contato comigo, se o informante era alguém próximo, então obviamente aquela mensagem seria lida e interpretada como uma forma de aproximação.

Ele seria punido por aquilo.

Quando percebi isso, meu coração disparou. Eu não queria ser o motivo da dor do Lucas, fosse ela física ou psicológica. E, mesmo assim, podia ver que já tinha sido o motivo do sofrimento dele, ainda que tivesse ficado longe. Me arrependi por ter mandado aquela mensagem, mas foi necessário, pois só assim percebi o quão perigosos os meus movimentos eram.

Eu precisava tomar cuidado.

 

Na segunda-feira, fui para a faculdade sem a ideia de tentar conversar com o Lucas, depois de uma noite sem sono e mal dormida. Fui cansativamente, mesmo com a carona da minha mãe, e nem me despedi ao sair do carro. Tudo parecia mais parado do que o normal, com o céu cinza, o vento gélido, o tempo úmido que fazia eu me sentir cada vez mais aprisionado. Eu sentia como se o céu fosse desabar em cima de nós.

Fiquei em silêncio por grande parte do tempo, só escutando a Alison falando sobre suas coisas. Só não me deixei ficar em completa quietude porque minha única amiga restante não tinha culpa dos acontecimentos recentes e não merecia minha antipatia. Contudo, também não contei para ela sobre meu encontro com Lucas nem sobre o informante. Até onde eu sabia, ela também podia ser o informante. Nunca se sabe.

            Naquele mesmo dia (e nos dias que se seguiram) vi pequenas cenas que me deixaram curioso e, ao mesmo tempo, receoso. Eu nem sabia que dava para sentir essas duas coisas ao mesmo tempo, mas confirmei ao ver Larry conversando com Pierre e mais meia-dúzia de pessoas que eu não conhecia, ao ver o Lucas nos intervalos com seus amigos, ao sentir que todo mundo tinha uma vida secreta sobre a qual eu não sabia de nada. E a pior parte daquela semana, uma das semanas mais remotas da minha vida, foi sentir que ninguém precisava de mim.

            Por mais clichê que isso possa ser, é verdade. Ninguém precisava de mim. Quero dizer que, além de todas as vezes que alguém se mostrou realmente caridoso comigo, o mundo não seria um lugar pior se eu não estivesse nele. De fato, eu até acho que seria um pouco melhor. Larry poderia ter seguido sua vida sem ter que fingir sua morte ou fazer qualquer coisa do tipo para me proteger; Lucas não sofreria nas mãos de seu pai por causa do nosso relacionamento; Alison conseguiria sentir o que queria porque eu não estaria lá para julgá-la; e todas as outras pessoas seguiriam sua vida sem mim. Não é tão difícil de imaginar.

            E assim foi os restantes dos dias da semana. Uma sensação de perdição e de ansiedade, como se algo ruim estivesse se aproximando, não me deixava sentir a felicidade que antes era uma rotina. Naqueles quatro dias, quase não sorri, quase não me empolguei com nada, exceto com as aulas do Kevin. Na real, eu não estava realmente empolgado com as aulas em si, mas com as coisas que eu sabia que estavam acontecendo por baixo dos panos. Por causa do Kevin, pude me aproximar do Aaron e, assim, tentar achar alguma linha solta. Entretanto, aquele garoto não falava nada durante as aulas, assim como eu, parecendo tão tímido quanto qualquer outra pessoa.

            A sensação de congelamento foi intensificada por causa do silêncio do Aaron e da profissionalidade do Kevin (se o que o Larry disse fosse verdade, aquele homem não estaria somente fingindo ser um professor?). Não captei nada de diferente, com ninguém, pelo menos não até a quinta-feira.

 

            Na Faculdade Vargas, existiam poucos horários vagos, porque a instituição era nova e, com certeza, a direção não queria que maus boatos se espalhassem. Os professores quase nunca faltavam, principalmente por causa disso, mas, naquele dia, nossa professora de RH não foi. A maioria dos alunos se mandou para casa, mas fiquei por causa da Alison (ela disse que não poderia ir embora antes do horário), mas meus sentidos me diziam para ignorar a vontade dela.

            Àquele ponto na semana, decidi ser um pouco mais aberto e animado para mascarar meus medos internos, de tal modo que fiquei conversando com ela durante aquele curto espaço de tempo. Não havia uma vigilância na sala, então os poucos alunos que continuaram ali ficaram fazendo algazarras e brincadeiras com aviõezinhos de papel. Eu os ignorava, conversando com Alison, e ela também.

            Ambos estávamos sentados, literalmente, em cima das nossas mesas, no fundo da sala, olhando o grupinho ao nosso lado. E eu sabia que os nossos olhares estavam sobre a mesma pessoa, o mesmo garoto, e nossos desejos também. Eu sabia que Alison estava olhando para o mesmo menino que eu.

            — Aconteceu alguma coisa? — Perguntei, quando vi o silêncio dela e seu olhar sobre Larry. A garota pareceu acordar de um devaneio, assustada, e se virou para mim.

            — Não. Não. Por quê?

            — Você tá secando o Larry. — Comentei, olhando para ele também. Ironicamente, eu também estava com o olhar sobre ele, mas, como ela não viu, não tinha como provar.

            — Eu não. — Alison se defendeu. — Eu estava viajando.

            — Alison, por favor. — Respondi como se acreditasse que ela se abriria se eu fosse gentil. Deu parcialmente certo.

            — Eu só estava pensando em como ele pôde continuar aqui. Se o que você disse for verdade, sobre o Kevin e tal, por que ele não foi embora? Quero dizer, olhe só para ele. Ele parece feliz?

            Pela primeira vez até então, prestei atenção no Larry que se colocava ao meu lado. Ele estava sentado em sua cadeira, com as pernas esticadas no espaço entre as mesas, encostado na parede como se fosse cair a qualquer momento. Suas mãos se arranhavam lentamente e ele parecia curiosamente entretido com os movimentos dos seus dedos, como se o restante do mundo não existisse. Porém, eu sabia que aquela pequena imagem dele entretido com algo só estava lá para mascarar o que realmente estava sentindo por dentro. E a culpa daquela angústia era minha.

            — Acho que está na hora de você parar. — Alison disse. Tirei os olhos de cima do Larry por um momento para poder olhar para ela.

            — O quê?

            — Acho que está na hora de você parar. — Ela repetiu. — Com essa sua brincadeira e esse seu joguinho. Chega de afirmar que não quer saber o que aconteceu com ele durante os últimos meses.

             — Ele estava aqui nos últimos meses. — Falei sarcasticamente. Ela bufou.

            — Eu estou falando sério, Greg. Não vê que está machucando o garoto?

            A fala dela me atingiu como um soco na cara. Olhei novamente para Larry e subitamente senti o terror da situação. Eu nunca tinha sido o motivo da dor de alguém, além do Lucas, pelo menos não de alguém tão importante quanto o Larry. Quero dizer, Lucas Matheus foi meu namorado por algum tempo e a gente se amava na nossa forma, mas Larry já estava lá quando eu o conheci. Eu já tinha tido uma vida passada com o Larry antes de conhecer o garoto que um ano depois se tornou meu ex-namorado, então o impacto de saber que eu era o motivo de sua dor foi bem mais forte. Subitamente percebi que ele só estava sentado ali, com as mãos entrelaçadas, o rosto sem nenhum vestígio de felicidade, por minha causa.

            — Ok, ok. — Falei.

            Sem dar mais explicações para Alison, me levantei do meu lugar, dei a volta na mesa dela e fui para a fila ao lado, onde Larry se sentava. Não foi difícil puxar uma cadeira vaga e me sentar ao lado dele, que nem se moveu. Senti a desaprovação dele, e não era para menos, já que o ignorei durante tanto tempo.

            — Tudo bem. — Falei. Ele olhou para mim com os olhos curiosos e sérios. — Só porque a Alison está preocupada com você e porque você ainda é importante para mim, eu aceito te escutar por nada mais do que dez minutos.

            Ele continuou me olhando, mas sua expressão mudou para uma alegria séria, como se estivesse receoso.

            — Hoje, na minha casa. — Falei e me levantei novamente, deixando a Alison (e ele) confusa.

 

            É claro que marcar um “encontro” com o Larry não estava nos meus planos iniciais para o dia, assim como não estava nos meus planos sequer me importar demais com ele. Na noite de domingo, eu só conseguia pensar no Lucas, e, entretanto, na quinta-feira da mesma semana, a maré mudou.

            Fiquei, como quase sempre fazia quando sabia que algo importante estava se aproximando, contando os minutos depois que saí do colégio. Como se todo o universo tivesse se responsabilizado e se tocado sobre a minha vida pessoal, nada mais alarmante aconteceu naquele dia, ou seja, não voltei no mesmo ônibus que o Aaron, não recebi as encaradas penetrantes do Kevin e não encontrei o Lucas em lugar nenhum. O resto do dia foi um tédio, para ser sincero, até que cheguei em casa.

            Não consegui almoçar naquele dia porque qualquer aroma ou gosto diferente na minha boca pareciam distorcidos. Eu estava internamente lutando contra a ansiedade e, mesmo que não estivesse de fato tremendo fisicamente, podia sentir meus órgãos chacoalhando dentro de mim. Eu sentia que estava tremendo, mas lutava para não entregar isso ao mundo. Meu irmão estava encarregado em seus jogos eletrônicos e nem pareceu perceber que eu estava ali, então, felizmente, consegui passar o resto do dia sem ser atacado por perguntas curiosas.

            Passei grande parte do tempo deitado, na realidade, pensando em como a minha vida tinha chegado a tão ponto. Eu raramente era impulsivo e, quando era, significava que a coisa toda era importante. Então, tecnicamente, aquilo estava sendo importante para mim. Há algum tempo, eu nunca sequer imaginaria que convidaria o Larry para a minha casa novamente, que o faria sentar na minha cama, como fazíamos antigamente, e o faria explicar tudo. Como eu tinha chegado àquele ponto, bom, isso ninguém sabia dizer. A única coisa que fiquei pensando era que o único lugar mais apropriado para nos encontrarmos (até porque tínhamos muitas lembranças daquele local) era o parque, mas ele não era seguro e nem receptivo à noite.

            Depois que meu irmão saiu de casa, para ir para sua faculdade, fiquei ainda mais nervoso. Eu estava sozinho, sem ninguém nem nada para me distrair. A bateria do meu celular estava morta e toda a companhia que eu tinha era eu mesmo, meus próprios pensamentos, e isso, obviamente, me deixou mais nervoso. Então comecei a pensar em como seria se as coisas dessem errado, se ele ficaria bravo com as minhas perguntas, magoado ou alguma coisa do tipo. Tudo bem, depois de tudo que o Larry me fez passar, eu já não me importava muito com sua opinião, mas, mesmo assim, ainda queria que tivéssemos aquele vínculo. Coloquei na minha cabeça que o deixaria falar antes de sair atacando com perguntas, assim como não gostaria que fizessem comigo.

            Depois de certo tempo, comecei a me perguntar se ele realmente apareceria. A única coisa da qual eu tinha certeza era que, se a situação fosse contrária, se nossos papéis estivessem trocados, eu não iria. Para ser bem sincero, generosidade e empatia não foi a coisa que eu mais mostrei para o Larry nos últimos meses, então não seria espantoso se ele não aparecesse. Na verdade, parte de mim queria continuar sozinho até meus pais chegarem, parte de mim queria que ele não aparecesse, que nunca tivéssemos tido aquela conversa.

            Mas ele apareceu.

            Eu estava quase desistindo, já começando a preparar o jantar, antes que meus pais chegassem, quando ouvi alguém batendo palmas no meu portão. Minhas cachorras de guarda começaram a latir ferozmente e até fiquei com um pouco de medo, confesso, poderia ser qualquer pessoa. Poderia ser o William, que sabia onde eu morava; Lucas, que não morava tão longe assim; Alison, Ryan novamente, meus pais ou qualquer outra pessoa. Mas lá no fundo eu sabia que era o Larry, talvez pela forma como suas palmas ecoaram pela casa, ou talvez por alguma intuição sobrenatural.

            Então larguei tudo o que tinha em mãos (utensílios de cozinha, na verdade) e corri para o quintal. Acendi as luzes externas, preparado para encontrar aqueles olhos castanhos e aqueles cabelos bagunçados além do meu portão, mas não foi o que vi. Quero dizer, Larry realmente apareceu, mas não de imediato.

            — Eu não sei por que suas cachorras não gostam de mim. Eu já vim aqui várias vezes. Elas deveriam estar acostumadas. — A pessoa disse.

            Dei um passo para frente e me deparei com aquela menina de cabelos castanhos que eu conhecia tão bem.

            — Alison?

            Ela se aproximou da luz e pude ver seus olhos escuros. Não eram os olhos que eu esperava.

            — O que você veio fazer aqui? — Perguntei, tentando não soar tão rude, mas também tentando falar um “não quero que você esteja aqui”.

            — Você não achou que eu ia deixar você e o Larry conversarem sem mim, achou?

            — Mas... — Comecei a argumentar, porém, olhei fundo nos olhos dela.

            Se existia uma pessoa na face da Terra que conseguia ser teimosa e persuasiva ao mesmo tempo, essa pessoa era a Alison. Ela tinha um jeito de conseguir tudo o que queria, principalmente de mim por causa da minha vontade de sempre querer o bem das pessoas ao meu redor (empatia nem sempre é bom). Quero dizer, ela não fazia isso por querer ou por maldade, mas fazia. Ela não tentava tirar algo importante de mim nem tentava fazer eu dar algo, mas fazia qualquer um se sentir mal por não responder com um sim.

            Por causa disso, decidi abri o portão. Alison entrou rapidamente, como se estivesse com medo das cachorras, e voou para dentro da casa. Depois que fechei o portão novamente, fiquei por um tempo encarando a rua, tentando não pensar nas coisas rudes que eu queria falar para a Alison. Ela não podia simplesmente surgir na minha casa dizendo que queria ver a minha conversa com o Larry. Isso era invasão de privacidade em dois graus! Coloquei na minha cabeça que deveria mandá-la embora assim que o Larry chegasse, o que não demorou muito:

            Eu tinha acabado de voltar para dentro quando ouvi outras palmas no portão e, novamente, minhas cachorras começaram a latir. Dessa vez minha intuição não falou nada nem fez eu me sentir como se já soubesse da verdade, talvez porque fui enganado a pouco tempo. Alison ficou sentada na sala de estar enquanto eu corri novamente para fora, já esperando encontrar nada de diferente.

            E foi aí que eu o vi, e senti aquela coisa que não deveria ter sentido. Foi quase como um flashback, uma imagem que eu já tinha visto antes: ele parado no meu portão, com as mãos nos bolsos, roupas quase completamente escuras, os cabelos bagunçados pelo vento e os olhos semicerrados na minha direção. Essa imagem me lembrou do dia que fui para a festa da Iliana com ele, antes de tudo, antes de ele saber dos meus sentimentos. E, surpreendentemente, não senti vontade de voltar no tempo, pelo contrário. Eu queria continuar com aquilo.

            Resisti ao impulso de sorrir, por mais lindo e atraente que ele estivesse. Quando me aproximei, percebi que seu rosto agora tinha uma camada de barba que antes não estava lá (ou eu talvez nunca tivesse percebido) e notei que nem a idade dele estava clara na minha mente. Eu não o conhecia mais. Puxei o portão para o lado e o deixei entrar. Lentamente, Larry foi andando para dentro de casa e entrou. Eu continuei parado no portão, como tinha feito minutos antes, depois da entrada da Alison, e, quando abri os olhos, vi o carro de onde Larry saiu, estacionado do outro lado da rua. Um sedan preto que não parecia ter marcas de um acidente.

 

            Quando retornei novamente para dentro de casa, encontrei a Alison e o Larry sentados, lado a lado, no meu sofá. A imagem dos dois tão próximos me fez ficar receoso com alguma coisa, mas o porquê ainda era desconhecido para mim. Alguma coisa na aproximação dos dois não me deixava confortável, como se estivessem tramando alguma coisa ou como se, simplesmente, estivessem falando algo em segredo. Além disso, eu via a forma como a Alison olhava para ele.

            Fechei a porta, respirei fundo, e me preparei para começar a conversa, mesmo que não soubesse exatamente o que falar. O olhar da Alison em mim me fez desistir completamente da ideia de expulsá-la antes do começo da discussão, então percebi que deveria falar as coisas que queria sem me importar com a opinião dela. Entretanto, como eu deveria começar aquilo? O que eu deveria perguntar?

            Sem falar nada, corri para a cozinha e tirei as panelas do fogo (um desastre não me ajudaria em nada no momento) e depois voltei para a sala de estar como se nada estivesse acontecendo. Em silêncio, sentei num ponto do sofá que estava substancialmente longe dos outros dois. Aquele silêncio era a única coisa que realmente estava me deixando desconfortável. Alison era minha melhor amiga e Larry era, bom, o Larry; era muito raro eu ficar desconfortável na presença deles, mas, naquele momento eu podia sentir os olhares e os pensamentos estranhos dos dois.

            Depois de um tempo, sequei o suor das minhas mãos nas minhas pernas, e respirei fundo. Olhei para o Larry e ele olhou para mim.

            — O que você quer saber? — Ele perguntou.

            — O que você quer me contar? — Respondi com outra pergunta, mesmo que isso fosse grosseiro. Os cabelos da Alison se chacoalharam conforme ela virava a cabeça para mim ou para o Larry, já que estava sentada entre nós dois.

            — Eu quero contar muitas coisas, mas o que você quer saber, especificamente? — Larry falou outra pergunta.

            — Especificamente? Tudo.

            Até a Alison respirou fundo nesse momento. Larry pareceu ligeiramente desconfortável e se sentou mais perto da beirada do sofá, com os cotovelos nos joelhos, o corpo arqueado e as mãos entrelaçadas. Ele parecia pensativo e receoso, como se o que estivesse prestes a falar não fosse fácil de digerir, e pensei que isso não fazia sentido: se ele queria que eu acreditasse, então, deveria ter a coragem de dizer. Depois de um tempo pensando, com sua corrente dourada balançando em seu pescoço, ele falou:

            — Acho que preciso começar do momento antes da morte do meu irmão. — Larry engoliu em seco. Eu e Alison continuamos a olhar para ele. — Eu nunca descobri o real motivo para aquilo, mas tenho quase certeza que eu mesmo causei o acidente. Não quero dizer que fui a pessoa que cortou os freios do meu carro ou algo do tipo, mas o que fizemos, eu e você, levou àquilo.

            — Disso eu já sei. — Interrompi, impaciente. — Alexia me contou. Ela disse que o Thomas falou algumas coisas.

            — Exatamente. — Larry continuou. — Thomas viu o nosso beijo, mas contou que você, na verdade, estava com o Andrew. A Alexia decidiu tomar uma atitude, mas como não podia fazer nada contra o Andrew, porque ele era o namorado dela, decidiu fazer algo contra mim.

            Alison respirou fundo, parecendo juntar alguns pontos – na verdade, eu nunca tinha contado tudo a ela.

            — Essa é a parte mais confusa, que nem eu descobri direito. — Larry continuou. — No dia do acidente, eu estava fora de casa, passeando pela cidade para tentar me distrair. Fui de ônibus para o centro da cidade e deixei meu carro na casa da minha mãe. Foi nesse momento que o Kevin conseguiu algum meio de sabotar o carro. — Ele fez uma pausa e engoliu em seco, olhando para o chão. Depois de um tempo, umedeceu os lábios com a ponta da língua e se preparou para continuar. — Eu deveria ter morrido naquele dia. Se eu tivesse voltado, teria pegado o meu carro e estaria vindo para cá. Eu vi sua mensagem e saí para o centro antes de vir te encontrar.

            — Isso explica o porquê da sua demora. — Respondi, lembrando que fiquei esperando o Larry por quase três horas naquele dia.

            — Pois é, eu precisava espairecer. Quero dizer, a gente tinha acabado de se beijar! E naquela época eu ainda estava com a Anne, e você com o Lucas. Eu não queria dar motivo à Alexia. — Ele fez outra pausa. Vi que Alison estava tentada a falar alguma coisa, mas também a vi engolir as palavras como se achasse impróprio ou incerto. — Eu teria ido, teria mesmo, mas, quando voltei para casa, não encontrei meu carro e nem a minha mãe. Ela também tinha saído. Então eu estava pronto para sair novamente quando encontrei o Kevin de espreita no quintal.

            — Esse Kevin é “o Kevin” que eu acho que é? — Alison finalmente perguntou, parecendo curiosa. Eu já tinha falado para ela sobre a desconfiança do Larry sobre nosso professor de Contabilidade, mas, aparentemente, ela precisa ouvir da boca dele.

            — É. — Larry disse. — Ele estava lá, com uma cara de espanto, com o meu celular nas mãos e os olhos arregalados. Ele disse que tinha me visto morrer, e foi nesse momento que percebi que meu irmão estava morto. A parte mais engraçada, talvez até seja uma brincadeira do destino, é que meu irmão não morava aqui. Ele veio só para visitar, aparentemente, mas a forma como ele conseguiu a chave do meu carro é matéria para outra história.

Larry deixou um ar de mistério no ar, evidenciando algo que eu não tinha parado para pensar. Se o carro era do Larry, como o irmão dele tinha a chave? Decidi não perguntar no momento, mas me lembrei que ele já tinha me dito uma vez que foi expulso de seu antigo colégio por alguma confusão. Talvez (só talvez), o irmão dele fosse um ladrão.

            — Então ele me sequestrou. — Larry disse na lata. Eu e Alison olhamos para ele com os olhos bem abertos. Meu coração disparou.

            — O quê? — Perguntei alarmado.

            — Kevin me sequestrou. Quero dizer, ele me levou para o carro dele e me fez sair da cidade. Só isso. — Larry respondeu.

            Fiquei parado no meu lugar, olhando para o chão e pensando que tudo ali não fazia sentido. Na verdade, fazia todo e completo sentido, mas, ao mesmo tempo, eu não queria acreditar. Me lembrei que há alguns meses, a Alexia me atraiu para uma armadilha dizendo que o Larry estava sequestrado. Era uma farsa, e, contudo, verdade.

            — Isso é estranho. — Falei. Larry olhou para mim com perguntas no olhar. — Uma vez eu recebi uma mensagem que vinha do seu celular, depois da sua “morte”. Você dizia na mensagem que estava sequestrado. Quando fui no local que o sequestrador marcou para a troca, era uma farsa. A Alexia estava por atrás de tudo aquilo.

            — Então era verdade? — Alison perguntou, olhando para mim e para o Larry. — Você realmente estava sequestrado?

            — Como eu disse, Kevin só me obrigou a sair da cidade. Eu não fui realmente sequestrado. — Larry disse, mudando a história. — Então fui para a casa da minha tia, que fica na zona rural, não muito longe, e não saí de lá por um bom tempo.

            Àquele ponto da conversa, minha cabeça já estava girando drasticamente e tudo o que eu conseguia pensar era nos porquês das coisas. Sinceramente, havia muitas histórias que ainda não tinham sido explicadas, e, quando Larry disse sua última afirmação, decidi fazer a pergunta que precisava.

            — Mas o Kevin não ficou te vigiando por todo o tempo, ficou? — Perguntei. Larry fez que não. — Então, por que você não voltou antes, por que não tentou mandar um contato?

            — Eu tentei manter contato. Pedi para minha tia mandar meus recados para você. — Larry respondeu, me fazendo lembrar do dia que fui com a Anne à casa dele. — E eu não voltei antes para te proteger. Kevin disse que iria atrás de você se eu voltasse. A Alexia queria que você ficasse sozinho.

            — Mas Larry...

            — Eu não pude. — Ele interrompeu, olhando para mim com os olhos sérios. Vi sua mandíbula contraída, seu olhar pesado, sua postura ereta e, ao mesmo tempo, triste. — Você não entende que eu não pude? Você era importante demais para mim. Eu não queria te colocar em perigo, e se a Alexia foi capaz de contratar alguém para sabotar os freios do meu carro, o que ela seria capaz de fazer com você? Eu não queria que você sofresse, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não pude voltar.

            Larry falou pouco, mas falou com o coração. Vi reflexos de lágrimas nos fundos de seus olhos, e foi nesse momento que eu percebi que ele estava falando a verdade. Por mais que as coisas não batessem, que a história ainda estivesse muito estranha, eu decidi acreditar nele. Talvez a história não estivesse estranha, talvez eu não estivesse entendendo. Talvez os meus sentimentos pelo Larry estivessem bloqueando o caminho da racionalidade. Eu precisava pensar no assunto.

            Por causa disso, decidi não perguntar mais para nada para aquele garoto que parecia tão indefeso, sentado no meu sofá. Aquele era o Larry, finalmente. A pessoa por quem eu estava esperando. Ou talvez não.

            — Eu não entendi uma coisa. — Alison interrompeu inconvenientemente. — Se o Kevin é tão mal assim, por que...

            Comecei a prestar atenção na pergunta dela, mas fui interrompido pelo telefone fixo da casa, que começou a tocar freneticamente. Corri para ele, que estava fixado em uma das paredes da sala, enquanto Alison e Larry continuavam a conversa. Olhei no visor do telefone e vi as palavras “número desconhecido”. Quem poderia ser?

            Atendi.

            — Alô? — Perguntei.

            Os ruídos que vinham do outro lado da linha quase me deixaram surdo, de modo que tive de me afastar um pouco. Parecia um lugar com vento, talvez na cidade, perto de um local movimentado. Ouvi muitas vozes, mas, entre elas, uma mais alta e mais conhecida:

            — Greg?

            Meu coração disparou. Era o Lucas.

            — Lucas?

            — Greg, que bom que você atendeu. Eu não tenho muito tempo. Tem alguém me seguindo. — Ele disse. — Provavelmente é o informante do meu pai. Eu ouvi eles conversando no portão da minha casa.

            — Espere, o quê? De quem você está falando?

            — Eu ouvi meu pai e o informante conversando hoje. — Lucas continuou. — Eu não sei quem é, não quis me aproximar e ser descoberto. Mas eles disseram que iam ficar de olho em você também. Cuidado.

            — Lucas, eu não estou entendendo...

            — Só tome cuidado. — Ele interrompeu. — Cuidado se ver um sedan preto parado na frente da sua casa. Você não pode confiar na pessoa que sair dele.



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