História Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 8


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apc, Cma, Gsilva, Mpe
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Ele é perigoso.


ELE É PERIGOSO

 

                Existem algumas coisas que acontecem de repente, sem nenhum aviso prévio, e podem trazer consequências boas ou más para quem estiver por perto. Qualquer coisa pode acontecer de repente, qualquer coisa pode acontecer sem que estejamos preparados, e com certeza o que estava prestes a ocorrer era uma dessas coisas. Não havia como eu estar preparado para aquilo, de forma alguma, pois ocorreu tudo tão rapidamente que eu mal percebi.

 

            Fui me deitar naquele dia com a frase do William ecoando na minha cabeça. “Eu mesmo vou matá-la”. Perdi o sono, pensando na remota possiblidade de ele realmente matar a Alexia, por mais pequena que essa chance fosse – na verdade, pensando bem, ele já me agrediu seriamente e ousou a ir na minha casa com uma faca como arma, então não havia motivos para duvidar do William. Para ser bem sincero, eu não estava nem um pouco feliz com aquela situação, não estava de acordo com a possível decisão que ele estava prestes a tomar, mas não havia nada que eu pudesse fazer, e, se decidisse não colaborar, ele com certeza viria para cima de mim. Pensando em tudo isso, não consegui dormir naquela noite, apenas fiquei olhando para o teto, sem me mexer.

            Vi a luz da aurora aparecendo lentamente. Meu quarto ficou todo colorido de amarelo e percebi que estava na hora de ir para o colégio. Levantei-me e troquei de roupa antes mesmo do despertador tocar, saindo de fininho, sem causar alarde. Senti uma pontada de arrependimento ao sair como um ladrão de casa, mas simplesmente não podia contar aquela situação aos meus pais. Eles já tinham problemas demais, afinal, e os meus próprios não seriam aceitos numa boa. Saí rapidamente, mas coloquei um ritmo calmo na caminhada, não querendo ir muito rápido e não querendo ir muito devagar.

            Havia algo naquela minha caminhada para o colégio. Eu sabia que uma hora ou outra iria chegar, que teria de enfrentar a Alexia, o Thomas, o William ou qualquer outra pessoa que estivesse no meu caminho. Contudo, andar mais lento não ajudava em nada, pois continuava a ir na direção do colégio. E há algo mais estranho ainda na ida a algum lugar que com certeza não será bom.

            Cheguei ao colégio na hora que o sinal para a primeira aula tocava. Entrei sem causar alarde e praticamente corri para minha sala. Fiquei esperando encontrar as minhas amigas no caminho, assim como aconteceu no outro dia que cheguei quase atrasado, mas elas não estavam lá – olhei em volta algumas vezes para certificar de que estava sozinho. E, de fato, não havia ninguém além de mim mesmo naquele pátio, então me dei ao trabalho de parar por um momento.

            Eu parei. Literalmente parei.

            Algumas pessoas, se me vissem naquele momento, diriam que eu estava tendo um surto psicológico ou algo do tipo. Simplesmente parei no meio do pátio, com a mão em uma das alças da mochila. Um vento gélido vinha por trás de mim e atingia minha nuca, provocando arrepios, mas não me importei. Não me importei com a temperatura porque havia algo mais sério ocorrendo. Então fechei os olhos, depois de mirar a escada que subia para o auditório. Foi como se nada mais existisse, apenas eu e eu mesmo. Pensei em tudo o que aconteceu, o que estava acontecendo e o que estava para acontecer, e tomei uma decisão. Tomei uma decisão séria, sozinho, e isso pareceu muito revigorante. Respirei fundo antes de abrir os olhos e continuei a andar.

           

            Apressadamente, fui andando pela passarela que ligava o pátio da frente do colégio ao pátio dos fundos. Alguns funcionários cruzaram o meu caminho, mas não implicaram com o meu atraso. Por sorte, cheguei à porta do meu pavilhão antes da professora, tentando não sorrir por causa da adrenalina – afinal, se atrasar é algo divertido. E eu estava prestes a entrar no corredor quando uma pessoa surgiu atrás de mim. Por um momento, pensei que era alguém desconhecido, mas não era.

            — Bom dia, Gregory. — Demetria disse, com um ar de superioridade. Virei-me para ela rapidamente, assustado.

            — B-bom dia. — Gaguejei. — Pode me chamar de Greg.

            — Greg, então. Já planejou o seu projeto para o concurso que lancei há algum tempo? — Ela perguntou, levantando uma das sobrancelhas, e aquilo me lembrou tanto a Alexia que eu fiquei com vontade de socá-la.

            — Não. — Respondi secamente. — Não tenho muita certeza se quero participar.

            — Você deve. — Disse ela. — Estamos entrando na penúltima semana de aula. Você deveria estar preocupado com a sua saída do colégio, tem que dar uma boa impressão.

            — Por quê?

            — Bom, digamos que a sua imagem nesse colégio não está muito favorável. — Demetria disse com um sorrisinho. — Acho que não posso ofendê-lo mesmo que seja a pior pessoa do mundo, mas posso te dar um conselho?

            Fiz que sim com um movimento. Ela se aproximou de mim, abaixando-se para falar no meu ouvido. Senti o cheiro de lavanda e algum perfume que parecia caríssimo, notando que os olhos dela pareciam ainda mais verdes de perto.

            — Só salvando a vida de alguém para você conseguir ganhar esse concurso. — Disse ela, com o mesmo tom de superioridade. Respirei fundo e prendi o ar dentro de mim para não gritar naquela hora.

            Depois disso, Demetria se afastou com um sorrisinho no rosto, como se nada tivesse acontecido. Fiquei olhando para ela, com as sobrancelhas franzidas, e daquele momento em diante aquele concurso se tornou uma das minhas prioridades.

 

            Entrei no corredor e, consequentemente, na minha sala de aula. Tive que lutar contra o constrangimento de ser o único atrasado a chegar naquele horário (todos ficaram me encarando quando entrei, principalmente Thomas). A professora permitiu a minha entrada e fui correndo até o meu lugar, onde Aqua, Alicia e Alison já estavam sentadas, em suas respectivas mesas.

            Sentei-me rapidamente e fiquei em silêncio, ofegando. Sem querer falar em voz alta para não atrapalhar a professora, lancei um olhar significativo para minhas amigas, que com certeza se perguntavam o que havia ocorrido depois que me acompanharam para casa. Fiquei parado, em silêncio, pensando em algum modo de ganhar aquele estúpido concurso da Demetria.

            Quando o sinal para a segunda aula tocou, virei-me para a Alison com os olhos bem atentos.

            — Você vai ser a minha dupla no concurso. — Falei, sem nem pedir a aprovação dela antes. — Alguma ideia?

            — O quê? — Ela perguntou.

            Aproximei-me da garota, sem querer chamar a atenção da Aqua ou da Alicia (eu não queria explicar o porquê de ter escolhido a Alison como minha parceira no projeto). Cheguei mais perto ainda para poder falar em voz baixa:

            — A diretora veio falar comigo. Ela disse que eu realmente preciso ter um projeto em mente, e que só salvando a vida de alguém eu poderia ganhar esse concurso.

            — Meu Deus.

            — O problema é que eu não tenho nenhuma ideia de projeto em mente. Você tem? — Perguntei. Ela fez que não. — Droga.

            — Por falar nisso. Ouvi dizer que a Alexia e o Matthew são uma dupla, e que já arrecadaram toneladas de alimentos para doação. Esse é o projeto deles. — Alison respondeu, olhando por cima do meu ombro para onde Alexia estava sentada. Olhei de soslaio para trás também, mas não vi ninguém que se chamava Matthew e, droga, eu nem sabia quem era essa pessoa.

            — Matthew? — Perguntei.

            — Sim, aquele garoto loiro sentado ao lado da Anne. — Disse ela, virando-se e apontando. Olhei com cautela e realmente vi que havia uma pessoa ao lado da Anne.

            Era um menino, parecia mais novo do que os outros garotos da sala. Loiro, com olhos claros e pele clara. Parecia um boneco de algum desenho infantil, perfeitamente esculpido, mas de uma forma não muito agradável. Ele parecia aquele tipo de pessoa que é tão perfeita em aparência que não parece real.

            — Eu não sabia que ele se chamava Matthew. — Respondi.

            — Nem eu.

            — E por que a Alexia quis escolher justamente ele?

            — Não sei.

            Fiquei olhando para tentar captar alguma interação entre esse garoto semidesconhecido e a Alexia, mas não consegui pegar nada, então desisti. Mas estava prestes a voltar meu olhar para Matthew de novo quando a porta se abriu, e, através dela, a coordenadora apareceu chamando o meu nome. A sala inteira ficou em silêncio e me levantei.

 

            Segui a mulher pelo corredor, quieto, imaginando o porquê daquilo. Será que era sobre o incêndio do vestiário abandonado no dia anterior? Sobre a acusação em cima da Alexia? Sobre o Lucas? Eu estava prestes a descobrir, e, assim como eu já sabia, existem algumas coisas que acontecem de repente, sem nenhum aviso prévio, e podem trazer consequências boas ou más para quem estiver por perto.

            Lucas estava parado no pátio, olhando para mim. Nunca me considerei um médium, mas senti que havia alguma coisa errada com ele, senti que havia alguma espécie de energia negativa que o cercava. Senti que ele estava triste, senti que algo estava preso dentro dele, esperando para sair, e não gostei nem um pouco de descobrir o que era.

            Ele estava usando o mesmo sobretudo do dia anterior, mas agora seus cabelos estavam bagunçados, alguns fios caindo sobre a testa. Seu rosto parecia mais magro, seus ombros mais baixos, seu olhar frio e triste. Aproximei-me dele com os braços abertos, mas parei quando ele deu três passos para trás e balançou a cabeça sinalizando um “não”.

            — Greg. — Disse ele.

            Cheguei mais perto, franzindo o cenho. A estatura dele e seu olhar começaram a me preocupar, comecei a ficar realmente ansioso. Parecia que a bomba de tragédias estava começando a explodir.

            — O que aconteceu? — Perguntei.

            Ele olhou para mim com os olhos sem cor e senti a vida sendo retirada de mim.

            — Isso. — Lucas respondeu, virando o rosto. E subitamente percebi. Percebi o porquê de ter achado sua aparência mais magra, mas triste e defensiva. Ele estava com um olho roxo e um pequeno corte na boca.

            — Meu Deus. — Respondi, tentando me aproximar dele, mas, como antes, ele deu mais três passos para trás.

            — Não, por favor, eu não posso fazer isso.

            — Lucas, quem fez isso com você? — Perguntei.

            — Não posso falar.

            — Lucas. — Elevei a voz.

            — Meu pai. — Disse ele, com um tom baixo. Uma chama de ódio subiu dentro de mim.

            — O quê? O seu próprio pai fez isso? Nós precisamos ir prestar queixa. Ele não vai se livrar disso, vai ser preso por homofobia e vai ter que pagar por ter te machucado. Ele nunca deveria ter tocado um dedo em você!

            — Greg. — A voz dele soou séria, e não sei porque, mas senti que alguma coisa estava acabando naquele momento.

            — O que foi?

            — Ele está certo. — Lucas respondeu. — Ele é homofóbico, é preconceituoso e violento, mas nunca teria descoberto sobre nós se não fosse pela Alexia. Ele disse que tudo é culpa dela e a pior parte é que eu acredito.

            — A culpa foi do Thomas. Foi ele quem levou seu pai até o bosque.

            — E quem você acha que deu essa ideia? O Thomas não consegue nem amarrar os próprios cadarços sozinho. Sem a Alexia, ele não é nada. — Lucas elevou a voz, num tom de discórdia.

            — Ok, então, a culpa é da Alexia. Mas como isso deixa o seu pai menos culpado por ter te machucado?

            — Não deixa, mas ele nunca teria descoberto o nosso namoro se não fosse pela Alexia.

            — E...

            — E eu estou querendo falar algo, mas não consigo. — A voz dele soou mais magoada do que antes.

            Ficamos em silêncio por alguns segundos. Juro por Deus que podia escutar os batimentos do coração dele, mas percebi depois de um tempo que era o meu próprio coração fazendo barulho. Eu podia sentir cada coisa ao nosso redor, talvez até um alfinete caindo no chão. E aquela sensação foi a pior sensação da minha vida, pois eu sentia que estava cada vez afundando mais num buraco negro, e de buracos negros não há volta.

            — Eu disse que não voltaria a ficar com você se ela ainda estivesse aqui. Não esperei o suficiente e olha o que aconteceu. — Disse ele, depois do que pareceu uma eternidade.

            — Mas o processo ainda está em andamento, talvez ela seja presa hoje!

            — Eu não estou falando só desta vez, Greg. — Ele disse grosseiramente. — Mas de todas as outras vezes, tudo o que eu passei por causa dela, todos os medos, todas as noites sem dormir pensando que você poderia morrer a qualquer momento. Eu não aguento mais. Eu achava que poderia ficar com você e conviver com os seus problemas, torná-los meus problemas também, mas isso não ocorreu. Eu não consigo mais fazer isso, fingir que posso te proteger, e não quero me machucar.

            — Lucas...

            — Eu preciso dizer isso, então espere. — Ele interrompeu. — Eu passei por muitas coisas, por incontáveis momentos que achei que não iria mais aguentar, e por um tempo a sua presença foi o suficiente, mas você tem um passado tóxico, Greg. Você tem uma inimiga sociopata na sua cola, um garoto que era apaixonado por você e que causou a morte do seu melhor amigo, e outras séries de problemas. Você é...

            Ele parou por um tempo, olhando para baixo. Aquelas palavras doeram em mim, profundamente, mas vi que doía tanto em mim quanto nele, pois Lucas estava chorando. Aquele silêncio me deixou mais desconfortável do que nunca, então precisei perguntar:

            — O que eu sou?

            — Você é tóxico. — Disse ele. — Eu fiquei com você e olhe aonde isso me levou. — Lucas inclinou o rosto para que eu tivesse o “privilégio” de ver suas feridas. Meu coração doeu mais do que nunca, mais do que doeu quando abandonei o Andrew no hotel.

            — O que isso significa?

            — Significa que não podemos ficar juntos. Eu te amo e sempre vou te amar, mas meus pais não aprovam, seus inimigos não aprovam e isso está me matando aos poucos.

            — Então estamos terminando? — Perguntei. — Depois de tudo?

            Ele olhou do chão para mim, com um sorrisinho triste no rosto. Foi aquilo que quebrou o meu coração em bilhões de pedacinhos, aquele olhar, aquele sorrisinho. Eu senti que ele estava mais triste do que nunca, e esse peso foi demais para aguentar. Lágrimas surgiram nos meus olhos.

            — Acho que estamos. — Disse ele, respirando fundo, virando-se para trás e começando a andar.

            O mundo acabou para mim depois disso.

 

***

 

            Eu não sabia mais o que fazer depois daquilo. Não conseguia contar as minhas respirações e meus batimentos cardíacos estavam tão fortes que mal sabia se estava realmente respirando. Fiquei parado, no meio do pátio, olhando para o Lucas, que já estava bem longe de onde conversamos. Ele andava com passos duros, a cabeça virada para o chão, e não consegui desviar os olhos para outro lado.

            Não sei porque, mas comecei a contar os segundos. Quantos segundos será que fiquei parado, olhando para o nada? Perdi a conta. Recomecei a contar. Eu imaginava o quanto ficaria ali, sem me mexer, apenas olhando para o caminho que ligava a área da frente do colégio à parte de trás. Havia mais segundos do que os meus dedos podiam contar, então recomecei. 1, 2, 3, 1, 2, 3. Até que finalmente parei e abri os olhos, figurativamente e literalmente falando. Abri os olhos e percebi o que tinha acabado de acontecer.

            Aquele era o final. O final de tudo.

            De repente, a mera imagem da passarela se tornou demais para mim. Não consegui mais ficar apenas parado, então dei meia-volta e ignorei tudo ao meu redor. Ouvi os coordenadores chamando meu nome (alguns funcionários da limpeza também), mas ignorei todos. Não ignorei porque queria ficar sozinho ou algo tipo, mas sim porque não conseguia olhar para os lados. Foi como se uma parede negra tivesse se formado entre mim e o resto do colégio, e tudo o que eu via era um lugar, uma direção, que levava ao banheiro. Então deixei eles preocupados e entrei no banheiro mesmo assim.

            A esse ponto, eu já tinha a máxima certeza de que estava respirando rapidamente demais. O meu peito doía, e a verdade era que parecia que eu ia explodir. Alguma coisa queria sair de dentro de mim, só não sabia o quê. Eu queria fazer qualquer coisa, falar qualquer coisa, algo que me fizesse esquecer o que tinha acabado de acontecer. Mas não pude fazer nada além de entrar em uma das cabines, havia algo preso na minha garganta. E, quando olhei para a frente, tudo saiu.

            Caí na frente do vaso sanitário, vomitando tudo o que ainda se mantinha no meu estômago. Foi nojento, sim, foi nojento, mas não pude evitar. Era como se tudo o que eu quisesse falar estivesse ali, contudo, não podia simplesmente gritar. Então fiquei parado, jogado no chão, enquanto a minha última força saía de dentro de mim.

            As perguntas vieram logo depois. Limpei a boca, imaginando as centenas de coisas que certamente deveria estar imaginando. Por que ele fez aquilo? Nós não éramos uma dupla, não deveríamos lutar juntos? Ele não precisava da minha ajuda? Então, por que fez aquilo? Por que simplesmente me abandonou sem nem ao menos me dar a chance de tentar ajudar? Só por causa de um pai preconceituoso? Eu já passei por isso, diversas vezes, e já tinha quase passado em casa, então poderia ajudar, mas ele... Ele apenas me dispensou, como se eu não fosse capaz de ajudá-lo. É claro que a culpa era minha, é claro. As coisas ruins que aconteceram a todos à minha volta foram por minha causa, e isso incluía a morte do Larry. Ele não estaria morto se eu... Se eu tivesse sido mais atencioso. Lucas não teria terminado comigo se eu tivesse acabado com a história da Alexia. Andrew não teria ido embora se eu tivesse escolhido ele.

            Sentado no chão do banheiro, quase onde ocorreu o meu primeiro beijo, fiquei pensando em tudo isso, e pela primeira vez em muito tempo, me arrependi. Eu raramente me arrependia das coisas que fazia, porque tinha a certeza de que tudo o que fiz me levaram a quem sou, então... Mas naquele momento tudo o que restava na minha cabeça era o arrependimento. Eu deveria ter tentado mais, deveria ter sido mais para as que precisavam de mim. O problema é que esqueci que precisava mais dos outros do que eles de mim.

 

            Levantei-me com fraqueza, puxando a cordinha que dava descarga. Fiquei por um tempo parado, sem conseguir sair, mas saí mesmo assim. Fui até a pia, abrindo a torneira, e formei uma concha com as mãos para segurar a água. Joguei tudo no rosto. O líquido respingou na minha roupa, entrou nas dobrinhas do meu casaco, escorreu por meu pescoço e molhou a gola da minha camiseta, mas não me importei. Olhei para frente, onde o espelho rabiscado mostrava a imagem de um garoto. Eu não conhecia aquele garoto. Ele parecia mais alto, mais magro do que eu, com olhos escuros, sem vida, cabelos bagunçados e molhados. Demorou muito tempo para eu conseguir descobrir que não havia mais ninguém naquele banheiro, que aquele reflexo não mostrava outra pessoa. Aquele reflexo mostrava uma parte de mim que estava irreconhecível.

            Respirei fundo, olhando para o lado, e saí do banheiro. A primeira imagem que tive foi a coordenadora e Sandra paradas na porta do banheiro. É óbvio, elas me viram entrando e ficaram preocupadas, então montaram guarda no pátio. Achei estranho o fato de que o advogado também estava lá, com uma maleta em mãos e um telefone nos ouvidos, conversando rigorosamente com alguém. Não dei a mínima para eles. Eu só queria ir até a minha sala, pegar a minha mochila, pedir autorização para sair, e ir embora daquele colégio infernal. Queria ficar sozinho, contudo, não se tratava do que eu queria, mas sim do que eu precisava. E eu precisava falar com alguém, precisava ir a um lugar que me lembrava meu melhor amigo.

            Com um olhar de relance para o trio, virei para o lado e continuei a andar, mas a voz de Sandra me vez ficar parado.

            — Greg. — Disse ela. Virei-me para trás, sem olhar diretamente nos olhos da mulher.

            — Eu não estou me sentindo muito bem. — Respondi.

            — Greg, você precisa falar conosco. — Disse ela. — Vá para a sala e chame as suas amigas. Nós temos os resultados da acusação contra a Alexia.

 

            Mesmo que ela não tivesse falado para eu ir imediatamente para a sala, fiz o mais rápido que pude. Virei-me para trás e continuei a andar, contando mentalmente de novo, de 1 a 10. Cheguei na porta da minha sala antes do número 8. Bati rapidamente contra a madeira, fazendo o barulho ecoar pelo corredor, e prendi a respiração quando o rosto da professora apareceu pela fresta.

            — Gregory? — Perguntou ela, parecendo preocupada.

            — Com licença. — Respondi, praticamente a empurrando para entrar na sala. Olhei para o outro lado do recinto, onde Aqua, Alicia e Alison estavam sentadas. Sinalizei um “venham comigo” e voltei para trás.

            Vi minhas amigas se levantando e vindo na minha direção, mas não foi isso que me deixou mais ansioso. Segundos antes de elas aparecerem no batente, olhei para os fundos da sala e vi os olhos da Alexia vidrados sobre mim. Ela parecia aterrorizada.

            — O que houve? — Aqua perguntou, espantada.

            — Sandra disse que conseguiram o resultado do processo contra Alexia. — Respondi, começando a andar. Elas me seguiram como sombras, mas eu não conseguia pensar em nada além de contar do 1 ao 10.

            — Greg, aconteceu alguma coisa? Você parece péssimo. — Alicia disse. Eu não virei para ela para responder.

            — Não, não aconteceu nada.

            Com passos pesados, conduzi as garotas para fora do corredor e, consequentemente, na direção da Sandra e dos coordenadores que esperavam para dar a resposta.

 

                Lucas não se juntou ao restante de nós na salinha da coordenação, infelizmente. Fiquei esperando e esperando, enquanto Sandra e o advogado conversavam sobre alguma coisa em segredo, mas ele não apareceu e nem deu sinal de vida. Minhas amigas perceberam que havia algo errado, pois notaram minha inquietação, mas não perguntaram – talvez tenham deduzido que era por causa da Alexia.

            Eu não conseguia controlar o meu corpo. Cada músculo meu tremia de ansiedade, minha boca estava seca, minhas mãos estavam suando. Eu não conseguia mascarar o fato de que estava mais ansioso do que o normal, e não era para menos: não estávamos lá para uma reuniãozinha de rotina, ou para conversar com a coordenadora sobre os conteúdos que perdemos por causa das faltas escolares, mas estávamos lá para receber a resposta sobre o final do que foi o nosso problema durante tanto tempo. Até aquele momento, Alexia sempre foi o meu maior problema, aquele inimigo que eu precisava derrotar, aquela pessoa que tentaria destruir a minha felicidade, então esperar por um veredito que possivelmente acabaria com isso era uma tortura.

            — Presumo que Lucas Matheus não vá aparecer. — Sandra disse, depois de quase quinze minutos de espera. Eu, que estava sentado em uma cadeira para visitantes, assim como as minhas amigas, abaixei a cabeça quando todos olharam para mim. — Não há porque não falar logo de uma vez.

            — Por que todo esse mistério? — Aqua perguntou, parecendo revoltada. — Não estão vendo que o Greg aqui está a ponto de sofrer um surto? E eu também, e a Alison e a Alicia. Falem logo!

            — Aqua... — Respondi, olhando para ela com os olhos semicerrados, tentando controlá-la ao mesmo tempo que tentava entender o seu súbito ataque de raiva.

            — Pois bem. — Sandra respondeu. Ela sinalizou para o advogado ao seu lado e de repente percebi que aquele era o momento.

            Vi o homem se abaixando para pegar alguma coisa na maleta. Vi ele destrancar seu instrumento, pegar uma pasta de arquivos, olhando para baixo com um ar cansado. Então, voltou para cima e colocou gentilmente aquela pilha de papéis sobre a mesa, alinhando-a com o centro.

            — Nós temos uma lista de motivos. — A coordenadora disse.

            — Nós temos as respostas que vocês querem. — Sandra completou, olhando para mim com um ar cabisbaixo.

            Não ouvi o que ela disse em seguida, quando deu a resposta, mas, na verdade, nem precisei. Vi nos olhos dela. Vi que todo o meu esforço foi em vão, vi que o término do meu namoro não ia se resolver tão rápido, vi que tudo ainda podia voltar subitamente. E só consegui digerir a frase dela depois de alguns segundos em silêncio. Sandra disse:

            — As provas apresentadas pelo Greg são ótimas, sem dúvida, pois a confissão gravada era a melhor chance contra a Alexia. Contudo, nós não levamos em conta que os problemas da garota foram, na verdade, a salvação dela. — Sandra fez uma pausa. — O caso nem pode chegar a julgamento, pois Alexia foi considerada mentalmente incapaz. Na data da gravação da confissão, ela estava passando por diversos problemas, desde emocionais, como o término com seu namorado, até físicos, como a dependência exagerada de drogas e medicamentos pesados. Ela foi considerada fora de si, e a sua ida para uma instituição de recuperação em algum país do exterior, cujo nome não podemos revelar, apenas aumentou essa consideração. Por isso, a gravação não serve como prova, e, então, não temos mais nada contra ela.

 

            A sala imergiu num estranho silêncio. Minhas amigas se levantaram da cadeira e ficaram olhando para Sandra e para as demais pessoas na sala. Permaneci sentado, com as mãos sobre as coxas, mirando o chão, pensando nas consequências daquilo. Geralmente, em situações semelhantes, eu não pensava em nada, não conseguia me concentrar em nada, contudo, já havia tomado uma decisão, naquele mesmo dia, quando fiquei parado no meio do pátio. Eu precisava falar com uma pessoa.

            — Então você está dizendo que não podemos fazer nada, mesmo ela sendo a responsável pela morte do Larry e por todos os outros problemas que causou? — Alicia perguntou, levantando-se da cadeira com um olhar furioso. Ela estava vermelha de raiva. Eu nunca tinha visto ela daquela forma.

            — Eu lamento. Não podemos fazer nada. — Sandra disse.

            — Então a gente vai ter que voltar para a sala de aula e continuar convivendo com ela até o final do ano letivo?

            — Pensem pelo lado bom. — A coordenadora interrompeu, parecendo ofendida. — Pelo menos já estamos na última semana de aula.

            — Você sabe o que ela consegue fazer em uma semana? — Alicia rebateu, voltando-se para trás, pegando sua mochila e saindo da sala. Alison a seguiu, parecendo ainda mais nervosa, contudo, preocupada com a amiga. Continuei sentado.

            Aqua se mudou para a cadeira ao meu lado e, gentilmente, colocou uma mão sobre o meu ombro. Fiquei lá, parado, enquanto ela me olhava com aqueles olhos curiosos e preocupados.

            — O que foi? — Perguntei.

            — Você não vai fazer nada? — Ela respondeu com outra pergunta.

            — O que eu posso fazer? — Respondi.

            Ela estalou a língua e soltou o aperto do meu ombro, parecendo um pouco mais decepcionada. Meu coração doeu por deixá-la daquele jeito, mas aquela era a verdade. Não havia nada que eu pudesse fazer, e, mesmo que secretamente houvesse, não podia revelar nada. Fiquei em silêncio enquanto ela se levantava e ia até a porta da sala de coordenação. Milésimos antes da Aqua sair, comentei:

            — Vai dar tudo certo.

            Ela me olhou com as sobrancelhas franzidas e não disse nada, não perguntou nada, pois aparentemente percebeu que eu não podia falar na frente da coordenadora ou da Sandra. Minutos depois, quando senti que estava mais calmo, me juntei às minhas amigas no pátio, do lado de fora.

            O mundo inteiro parecia mais agitado. As conversas dos alunos pareciam mais ensurdecedoras, de modo que ultrapassavam os limites das paredes da sala e inundavam o pátio calmo e vazio. Até o vento parecia diferente, mais agitado, mais confuso, mais frio e mais cortante.

            — O que você quis dizer com aquilo? — Aqua perguntou, olhando de soslaio por cima do meu ombro para ter certeza que ninguém estava olhando.

            — Eu tenho um plano. — Respondi.

            — Que plano? — Alison perguntou, aparecendo subitamente na nossa conversa após acalmar a Alicia. As três garotas formaram uma barreira entre mim e a sala de coordenação, bloqueando a minha visão dos outros. Senti que poderia falar, mas não tudo.

            — Eu contaria se pudesse. — Respondi. — A única coisa que posso falar é que, sim, vai acabar com a Alexia de uma vez por todas.

            — O que é? — Alicia perguntou impacientemente.

            — É algo perigoso. Não posso contar. Mas vocês provavelmente não me verão mais depois do final, porque vou acabar levando o mesmo fim que pretendíamos dar a Alexia.

            — Do que você está falando? — Elas perguntaram em coro.

            Não respondi. Sabia que não podia responder, e por mais que elas fossem as minhas melhores amigas, por mais que elas sempre estivessem me ajudando, não podia falar a verdade e correr o risco de levá-las junto para o meio da bagunça. Eu deveria fazer aquilo sozinho, pois as consequências seriam desastrosas, seriam perigosas, então não falei nada e apenas andei na direção oposta, voltando para a sala de aula.

 

            Não conversei com mais ninguém durante aquele dia. As minhas amigas ficaram preocupadas em bolar um plano para se livrarem da Alexia por, pelo menos, a última semana de aula. Contudo, fiquei sentado no meu canto, com os fones de ouvido num volume ensurdecedor, um capuz na cabeça e a mochila em cima da mesa. De certa forma, uma das coisas que eu mais queria fazer naquele momento era ignorar tudo, era tentar esquecer que provavelmente estava me tornando uma pessoa horrível, mas não consegui. Não importava o volume da música nos fones, a bagunça ao meu redor, as conversas das minhas amigas, eu não conseguia afastar da minha cabeça a ideia de que estava me tornando aquilo que mais repudiava: a própria Alexia. Durante dias, meses e quase diversos anos, fui machucado, deixado de lado, espancado, magoado, perdoado e esquecido; tudo isso me fez tomar uma atitude, uma decisão que me levou ao patamar mais horrível da minha vida. E, olhando isso de longe, era odiável o fato de que eu realmente tinha decidido aquilo.

            Quando o sinal para a saída tocou, não dei tchau para as minhas amigas, mas simplesmente segurei minha mochila e andei rapidamente para sair da sala. Eu não queria ter que olhar novamente no rosto da Aqua, da Alicia ou da Alison e explicar o porquê de ter feito um plano em silêncio. Quase empurrei vários alunos que insistiam em andar com passos lentos na minha frente. Tudo estava me irritando, tudo, até mesmo as pessoas animadas ao meu redor. Foi um alívio quando finalmente cheguei ao portão do colégio.

            Comecei a andar rezando para encontrar William quando chegasse em casa (não que eu realmente quisesse encontrá-lo, mas sua presença era essencial para a execução do meu plano).

 

            Cheguei rapidamente. Já estava suando àquele ponto, como se tivesse corrido uma maratona, mas não era por causa do cansaço ou por causa da caminha de meia hora. Era a ansiedade. Felizmente, minha mãe não parecia estar em casa, o que achei particularmente bom, já que pretendia encontrar William e sua carranca em algum lugar.

            Abri o portão e entrei normalmente, sendo recepcionado pelas minhas cachorras de estimação. Entrei em casa sem causar alarde e fui surpreendido por uma pessoa que eu não via há muito tempo. Ela estava com o meu irmão, sentada no sofá, conversando animadamente sobre alguma coisa desconhecida. Aproximei-me, ainda duvidando da presença dela na minha casa, até que definitivamente reconheci seus cabelos coloridos.

            — Alanis? — Perguntei. Ambos olharam para mim, ela e o meu irmão.

            Vi o rosto da Alanis mudar de uma expressão de confusão, como se não reconhecesse a voz que a chamou, para uma alegria súbita. Vi seus olhos quase se fechando quando sorriu e sua respiração amentando o ritmo. Ela se levantou de onde estava sentada e, já abrindo os braços, veio na minha direção. Posso dizer que o que ocorreu depois foi um meio abraço, meio aperto.

            — Greg, que saudade! — Disse ela, metaforicamente me esmagando com aqueles pequeninos braços magrelas. Eu a apertei da mesma forma, sentindo a felicidade surgir dentro de mim. De fato, não havia conversado muito com ela nos últimos meses, principalmente depois da morte do Larry, mas, ainda assim, revê-la foi como sentir novamente o ar fresco depois de ter sido enterrado vivo, ou como relembrar os bons momentos que eu tinha antes de tudo acontecer.

            — Eu que o diga. — Respondi. Ela interrompeu o abraço, ainda com as mãos nos meus ombros e parou com o rosto a centímetros do meu – se eu fosse hétero, Ryan com certeza sentiria ciúme. — O que está fazendo aqui?

            Ela sorriu e pareceu ligeiramente envergonhada, olhando para trás.

            — Bom...

            — Achei que já estava na hora do pai e da mãe conhecerem a minha namorada. — Ryan respondeu, todo orgulhoso. Olhei dele para ela e depois para ele de novo, pensando que, a meses atrás, Ryan nem sequer tinha tomado atitude para começar seu namoro (na verdade, fui eu que fiz isso por ele), então foi de se espantar aquela situação.

            — Muito bom. — Respondi.

            — Você precisa me atualizar das novidades. — Alanis disse, puxando-me pela mão até o sofá e praticamente me obrigando a sentar. Fiquei numa posição bem desconfortável por causa da mochila.

            — Com certeza, mas agora não é uma boa hora... — Respondi.

            — Ah, qual é? Na faculdade não tem nenhuma Alexia ou Thomas para deixar as coisas mais interessantes. Lá é muito chato. Por favor...

            Sem conseguir dizer “não” para a carinha de cachorro abandonado da Alanis, respirei fundo e comecei a contar a história. Quando acabei, finalizando com a revoltante resposta da Sandra sobre a prisão da Alexia (deixando meu término de namoro de lado), já estava quase sem fôlego. De vez em quando, Alanis abria a boca para falar algo, mas logo depois desistia. Fiquei me perguntando o que ela queria falar.

            — Isso é inacreditável. — Disse ela, depois de um longo silêncio.

            — Não vá na onda dele. Ele faz muita tempestade num copo d’água. — Ryan comentou, aumentando o volume da televisão com o controle remoto, apoiado num braço só sobre as costas do sofá. Evitei olhar para ele e vi que até a Alanis pareceu irritada.

            — Inacreditável. — Ela ecoou.

            — Sim, é. — Respondi, terminando de vez o assunto.

            Depois de um tempo em silêncio, comecei a me despedir dela dizendo que ficaria feliz em mandar uma mensagem de texto de vez em quando, ou visitá-la na sua casa, mas, mesmo assim, me levantei do sofá e fui andando na direção da cozinha. Só percebi que o intuito do Ryan não era apresentar a Alanis para os meus pais quando vi que eles não estavam em casa. Seja lá o que eles estavam fazendo, era melhor eu não saber. Minha intuição dizia isso: vai por mim, você não vai querer saber.

           

            Naquela mesma tarde, tive um episódio estranho. Alanis ficou na minha casa até quase o pôr-do-sol, conversando com Ryan sobre as coisas da faculdade de ambos, falando que era incrível fazer Artes Cênicas e qualquer coisa do tipo. Fiquei no meu quarto, mas, ainda assim, era quase impossível não ouvir a conversa dos dois, que estava num volume muito mais alto do que o normal. Então ela veio se despedir de mim. Parei de fazer o que eu estava fazendo (escutando música, deitado na cama, olhando para o teto como se ele fosse o céu), e olhei para a porta, onde Alanis estava parada. Mas por um momento ela não era mais a Alanis. Ela não estava com as pontas dos cabelos tingidas de azul, não estava com seus olhos castanhos e um moletom nerd de Star Wars. De repente ela se transformou em outra pessoa.

            A garota que eu vi ali era diferente, mais baixa, loira, com olhos azuis e roupas de moda. Essa menina ficou me olhando por um longo tempo, com um sorriso no rosto e, simultaneamente, um olhar desafiador. Levei um tempo para processar que era a Alexia.

            — Greg, você está me ouvindo? — Perguntou ela, sorrindo nervosamente. — Greg?

            A voz da Alexia não era a voz da Alexia, mas sim da Alanis. E eu achei isso muito estranho, muito mesmo, então tive de piscar algumas vezes para conseguir focar novamente no rosto dela. E tudo voltou ao normal. Desta vez, era verdadeiramente a Alanis que estava no batente da porta.

            — Desculpe. O quê? — Perguntei, franzindo o cenho.

            — Eu disse que estou indo embora. — Disse ela. — No que você estava pensando?

 

            Depois de me despedir da Alanis, voltei para a cama e recoloquei os fones de ouvido, deitando-me para pensar no que tinha acabado de acontecer, e, mais do que rigorosamente, rezando para não estar ficando louco. De certa forma, eu estava.

 

***

 

            Meus pais chegaram quando já estava escuro. Eles aparentemente tinham saído para algum lugar especial, o que acabou me deixando sozinho com Ryan pela tarde toda. Tive que sair do quarto para mostrar que não estava morto, deitado sobre a cama e ainda com o fone de ouvido, para eles não me perguntarem se havia ocorrido alguma coisa. Felizmente, por sorte, não perguntaram, mas falaram algo que me fez ficar mais ansioso.

            — Aquele seu amigo está no portão, chamando por você. — Minha mãe disse, colocando algumas sacolas em cima da mesa de jantar, na cozinha. Olhei para ela e franzi o cenho. — Aquele mesmo garoto que veio aqui ontem.

            Fiz uma cara de espanto, como se estivesse me lembrando subitamente do William, embora aquilo não saísse da minha cabeça. Meus pais não podiam saber o que eu estava tramando, porque também seriam colocados no meio da bagunça, então simplesmente comecei a andar como se não fosse nada demais, como se eu não fosse dar uma sentença de morte para a Alexia.



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