História Amar, Perder e Conquistar (Edição de Ouro) - Capítulo 9


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Apc, Cma, Gsilva, Mpe
Visualizações 2
Palavras 8.809
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 9 - Eu sou o rei.


EU SOU O REI

 

                — Com licença, você não pode ficar aqui. Temos que pedir que se retire! — Um dos médicos falou grosseiramente, segurando ambos os meus ombros e me empurrando para longe do local. Tentei não me mexer e foi necessário mais de um doutor para me tirar de lá.

            — Eu preciso ficar aqui com ela! — Gritei, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Isso é minha culpa!

            — O senhor está em choque, precisa ir para a sala de espera e se acalmar. — Um dos enfermeiros disse, puxando-me com mais força. Perdi o equilíbrio e por um momento deixei que eles me levassem alguns centímetros para trás.

            — Não, vocês não estão... não estão entendendo. Eu fiz isso. É minha culpa. — Falei, olhando com horror para baixo. O sangue tinha sujado minhas roupas, minhas mãos e, até mesmo, meus sapatos.

            — Senhor, por favor. — Disse o enfermeiro novamente. Desta vez não consegui resistir. Três doutores me levaram para fora da salinha, e a última coisa que vi antes da porta se fechar foi a garota sangrando sobre a cama, com tubos descendo pela sua garganta.

            Eu fiz aquilo.

 

ALGUMAS HORAS ANTES...

 

            Antes de continuar a andar pelo corredor, parei por um segundo, lembrando-me de algo. Voltei para o meu quarto e procurei fervorosamente entre as coisas dentro da minha mochila, procurei por aquilo que faria o William acreditar no que eu queria falar. Achei o pendrive no fundo da mochila, lembrando-me que o peguei tão rapidamente quando saí da secretaria naquele dia que mal o guardei. Naquele dispositivo estava tudo o que eu precisava: a gravação da confissão da Alexia.

            Apertei o passo para chegar ao portão antes que William fosse embora. Quando abri a porta de casa e saí, a primeira coisa que vi foi ele, parado fora do meu quintal, com as mãos nos bolsos e um olhar severo no rosto. Forcei a minha coragem a aparecer e fui andando na direção dele, com rapidez e dureza, mas também com um pouco de medo. Não posso negar, estava com medo, dele e da possível falha do plano. Mas, apesar de tudo, aquilo era necessário.

            — O que você quer? — Perguntei, aproximando-me do portão. Não o abri e fiquei a centímetros consideravelmente seguros de distância.

            — Você disse que me daria uma resposta. — William respondeu com a voz grossa. Olhei para baixo, para os meus próprios pés e, quando levantei a cabeça, ele parecia mais confuso do que nunca. — Tentou mentir para mim?

            — Não.

            — Mas está com medo, porque nem quis abrir o portão. — Ele rebateu.

            — É claro que eu estou com medo, William, é claro que estou com medo de você. Já se esqueceu do que me fez há quase um ano? — Me estressei, arregalando singelamente os olhos por causa da raiva, sem ligar para o fato de estar revelando uma fraqueza para um dos meus inimigos.

            — Isso é inteligente. — Ele respondeu. — Você ter medo de mim, quero dizer. Mas não vim até aqui para falar sobre isso. Eu quero a resposta.

            Olhei novamente para baixo e fiquei mirando meus sapatos. Talvez por causa da ansiedade, eles pareciam muito mais interessantes do que os detalhes no rosto do William. Eu sentia que não devia estar fazendo aquilo, que qualquer coisa que dissesse poderia desencadear um efeito dominó muito desastroso, como um Efeito Borboleta, mas respirei fundo e decidi responder. Levantei a cabeça, dizendo:

            — A resposta é não.

            — Não?

            — Eu não consegui pará-la. Não consegui mandá-la para a cadeia. — Respondi, com um tom de tristeza na voz. — Ela foi declarada incapaz de responder por si mesma, e, por isso, sua confissão foi desacreditada. Ela usava drogas quando confessou.

            — Ok, mas não é esse o seu problema. Quero saber como você pode me convencer de que não foi o culpado pela morte do Larry. Eu não ligo se ela confessou ou não, quero descobrir o verdadeiro culpado. — William rebateu com os lábios quase completamente comprimidos de irritação.

            — Posso convencê-lo com isso. — Respondi, estendendo a mão para ele. Por um tempo, William apenas ficou parado, olhando para mim com um ar de confusão, mas depois de um tempo abriu a mão embaixo da minha e pude finalmente soltar o pendrive.

            O dispositivo caiu na palma da mão dele, que o recolheu e manteve para si até perguntar:

            — Mas que merda é essa?

            — A confissão da Alexia está aí. — Respondi. — Tudo falado. Se você acreditar nela...

            O garoto estranhamente não ficou lá para ouvir qualquer coisa a mais. Ele simplesmente deu um último olhar para mim, com urgência, e virou-se para trás, recomeçando sua caminhada. Dentro de mim, lá no fundo, havia uma vozinha que dizia que eu estava fazendo algo errado, que, em algum ponto no futuro, aquilo não ia dar certo. Mas ignorei a vozinha. Ignorei porque tentei de tudo para afastar a Alexia da minha vida, menos aquilo, tentei de tudo para ter uma vida normal, para não ser culpado por um amor que não pude controlar. E só Deus sabia que eu já tinha metaforicamente “esquecido” o Andrew, mas, ainda assim, Alexia estava lá para me atormentar. Então precisei falar com o William. Eu mal sabia que aquilo mudaria a minha vida para sempre.

 

            No dia seguinte, quando cheguei ao colégio, senti os olhares das pessoas sobre mim. Eu conhecia algumas delas, não todas, mas a maioria. E elas obviamente me conheciam, pois eu era o garoto que arruinou a vida de todas as pessoas ao meu redor, da Alexia, do Andrew, do Larry e de qualquer outro alguém. Segundo eles, eu era o causador da separação do Andrew, das overdoses da Alexia e da morte do Larry. Nem sequer imaginavam que nenhuma dessas coisas foi, de fato, minha culpa.

            Ignorei os olhares e os sussurros e continuei a andar pela passarela. De alguns murmúrios, eu conseguia distinguir frases como “descobri que ele terminou com o Lucas” ou “coitado do Lucas Matheus, merecia alguém melhor do que esse garoto”. Tive que conter a raiva durante o caminho para não sair socando qualquer um que passasse na minha frente. É claro, óbvio, aparente, que não seria um término como qualquer outro – a maioria das pessoas termina seus relacionamentos e ambos seguem caminhos separados, mas eu não, tinha que haver um escândalo, ou não seria o meu término.

            Cheguei ao pátio do ensino técnico com os nervos à flor da pele. Queria socar alguma coisa, qualquer coisa, e tive de conter meu pulso para não esmurrar a parede. Meu Deus, eu estava com tanta, tanta raiva, de tudo e de todos, da Alexia, do Thomas, do William, das minhas amigas, do Larry, de mim mesmo. Como fazer para essa raiva desaparecer, eu não sabia, só queria que desaparecesse. Fui andando até a parede do pavilhão, e jogando-me contra ela, fechei os olhos lentamente.

            Fiquei por um tempo parado, pensando no que secretamente poderia estar acontecendo em algum lugar da cidade. Em algum lugar, por causa de mim, a Alexia podia estar morrendo, ou seu corpo já podia estar frio e sem vida. Os segundos que fiquei parado se tornaram minutos, na minha mente, meses, anos, até que uma voz quase desconhecida me fez olhar para frente.

            — Está com sono? — Violet perguntou. Limpei a garganta e abri os olhos rapidamente, ajeitando minha postura e tentando esconder o nervosismo. Afinal, aquela garota chegou ao colégio pensando que eu era uma espécie de herói, e, dentre todas as centenas de alunos do Colégio Vargas, ela era uma das poucas pessoas que pensava isso.

            — Ah, não. Eu só estava pensando. — Respondi como se nada tivesse acontecido.

            — Posso saber o quê? — Ela perguntou novamente, animada, encostando-se na parede ao meu lado.

            — Sinceramente?

            — Sinceramente.

            — Não.

            — Oh.

            Eu ri.

            — Sério. Eu falaria se pudesse, mas não posso. — Respondi. — Você entraria numa enrascada e, vai por mim, por mais que possa parecer legal ir contra a Alexia e a trupe dela, você não gostaria disso.

            — Ah, então tem a ver com a Alexia? — Violet respondeu mais com um tom de conclusão do que de pergunta. Revirei os olhos e tentei não descontar minha raiva nela.

            — Isso é injusto. — Respondi, sorrindo um pouco. Ela sorriu também até o clima se tornar pesado novamente e o som das conversas ao nosso redor preencher o silêncio.

            Depois de alguns segundos em quietude, a garota deu um pulinho e subitamente pareceu feliz de novo – um susto como quando se está dormindo e de repente acorda com a sensação de queda. Confesso que me assustei com a animação súbita dela.

            — Eu queria falar uma coisa importante para você. — Disse ela, virando-se para mim com um largo sorriso no rosto. — Eu falaria diretamente com ela, mas ficaria nervosa e acabaria estragando tudo.

            — Ela? Alexia? — Perguntei, confuso.

            — Não, Alison.

            — Alison?

            — Sim, ela... — Violet hesitou por um tempo. Senti que o tom da nossa conversa estava começando a se tornar diferente. — Eu queria, quero dizer, queria que ela falasse... eu... Enfim, eu queria você dissesse para ela que...

            Violet estava prestes a responder aquilo que eu queria saber, mas parou com a boca aberta quando outra voz quase desconhecida entrou no meio da conversa. Eu ouvi ele chamando o meu nome e tive de fazer um certo esforço para lembrar de quem era a voz.

            — Greg? — O garoto perguntou. Olhei para o lado e só tive certeza quando vi Matthew parado ao meu lado. Rapidamente esqueci de qualquer coisa que eu e a Violet estávamos conversando.

            — Matt? — Perguntei mais confusamente ainda, olhando para ele. O garoto-perfeito-até-demais-igual-um-boneco parou na minha frente, com os olhos tristes e esperançosos, olhando para mim como se eu pudesse dar uma resposta para algo. E, naquela situação em especial, eu não podia.

            — Ei, você viu a Alexia? — Ele perguntou.

            — Não. — Respondi, com o coração acelerando. — Por quê? Alguma coisa aconteceu com ela?

            — Por que aconteceria?

            — Eh, não sei. — Rebati.

            — Estou te perguntando porque estava tentando achá-la, mas não consigo. — Matt explicou, olhando para baixo. — Enfim, muito obrigado.

            Eu quis perguntar mais algumas coisas para ele (como, por exemplo, “por que diabos você escolheu aquela garota persuasiva e maléfica para ser o seu par no projeto da Demetria?”), mas não consegui falar nada, pois ele se virou e começou a andar na direção oposta.

            Só consegui voltar ao ponto inicial depois de alguns segundos, e olhei para a Violet como se nada tivesse acontecido.

            — Desculpe. O que você estava dizendo? — Respondi. A garota também olhou para baixo, o que me fez pensar que todos nós estávamos fazendo muito aquilo ultimamente, e depois me olhou com um olhar triste.

            — Nada. — Disse ela. — Esquece. Você já tem problemas demais.

 

            Não esperei nem um segundo depois do toque do sinal para entrar na sala. Violet entrou comigo, conversando sobre outra coisa, tentando aparentemente me animar. Eu não sabia se estava de fato parecendo desanimado ou depressivo, ou se era outra coisa, mas ela não parou de sorrir e tentou a todo custo mudar a minha mente de posição. Fui gentil com ela, pelo menos, mas não fingi estar mais feliz do que estava (o que, na verdade, era bem pouco). Entrei na sala segurando minha mochila em apenas um braço e caminhei até o meu lugar. Fui o primeiro a entrar, o que significava que as minhas amigas não estavam lá, então tive que esperar a sala se encher de pessoinhas desinteressantes e conversadoras por quase dez minutos.

            Depois desse tempo, vi Aqua, Alison e Alicia entrando juntas. Elas vieram andando na minha direção e, num reflexo, joguei minha mochila em cima da mesa, pronto para apoiar a minha cabeça nela se precisasse descansar. Geralmente, Alicia vinha sorrindo, Aqua aparecia com toda a sua profissionalidade e Alison simplesmente andava na minha direção, mas aquele dia estava diferente. Tudo estava diferente. Todos nós sabíamos que não seria um bom dia, porque recebemos uma das piores notícias do mundo. Eu sabia disso e elas também. Então não sorrimos quando nos cumprimentamos.

            — Olá. — Alicia disse, cabisbaixa.

            — Oi. — Respondi.

            Aqua e Alison se sentaram nos seus lugares e ficaram em silêncio, já Alicia parou na minha frente e ficou por um tempo.

            — Você está bem? — Perguntou ela.

            — Não. — Respondi.

            — Que bom, porque eu também não estou.

            Finalmente Alicia se sentou na cadeira na minha frente e também ficou em silêncio. Havia tanta coisa que eu queria dizer para elas, tanta coisa que eu queria contar – sobre o William, sobre o Lucas, sobre o Larry. Droga, eu estava sentindo tanta falta do Lucas, falta de encontrá-lo na hora da entrada, de receber uma mensagem de bom dia, de ficar ansioso para a hora do intervalo apenas porque iria encontrá-lo na quadra poliesportiva. Eu queria muito falar tudo isso, e as palavras simplesmente saíram:

            — O Lucas terminou comigo.

            Durante um tempo, apenas o silêncio ao nosso redor reinou na conversa, até que, lentamente, uma a uma, elas se viraram para mim com expressões de espanto. Levei alguns momentos para esconder meu constrangimento e minha vontade de socar a cara de alguém. Tenho certeza que não parecia nada mais do que triste naquele momento.

            — O quê?! — Alison foi a primeira a perguntar, com sua voz uma oitava acima.

            — Isso mesmo. Ele terminou o namoro.

            — Por quê?

            — Acho que vocês já sabem. — Rebati grosseiramente. — Por causa da Alexia, e do Thomas, e do pai dele, e de todo mundo que se intrometeu no nosso caminho.

            — Mas...

            — Eu tentei persuadi-lo, mas ele não quis nem conversar. Ele disse que eu era tóxico, que o meu passado apenas trouxe problemas pro nosso relacionamento. E tudo por causa da Alexia. — Respondi, deixando meus sentimentos vazarem. Foram poucas palavras, mas havia tantos sentimentos ali, tantas lembranças, que involuntariamente comecei a chorar.

            — Mas ele te amava. — Aqua protestou, se levantando e vindo na minha direção.

            — Pelo que parece, o amor não bastou. — Respondi. E foi demais para mim, apesar de tudo, foi demais falar aquilo e de repente me debrucei sobre a mesa.

            Contudo, algo deu errado. Minha mochila não estava mais lá. Não havia nada sobre a mesa e eu podia jurar que havia.

            — Onde está? — Perguntei, confuso, meio que esquecendo o assunto da nossa conversa.

            — O quê? — Elas perguntaram em conjunto.

            — Minha mochila, estava bem aqui. — Respondi.

            — Não havia nada aí, Greg.

            — É claro que havia, eu podia jurar que...

            — Greg, quando chegamos já estava assim. — Aqua interrompeu. Olhei para ela com o cenho franzido e deitei singelamente a cabeça, tentando me lembrar. Deus, eu jurava que estava ali, logo ali, sobre a mesa.

            — Violet! — Praticamente gritei dentro da sala de aula. Algumas pessoas olharam para mim, inclusive a própria garota, do outro lado da sala.

            — Oi. — Disse ela.

            — Você viu a minha mochila? — Perguntei.

            — Achei que você tivesse deixado ela em casa. — Violet respondeu, também confusa.

            Olhei para minhas amigas e depois para mesa. Tudo parecia girar na minha cabeça e eu sabia que estava fazendo tempestade num copo d’agua, mas podia jurar...

            — Calma, Greg. Hoje é o antepenúltimo dia de aula. Nem precisamos de mochila. — Alicia tentou me conformar, mas ela não entendia. Ela não entendia que eu estava perdendo a cabeça, que alucinei com a Alanis no dia anterior e que estava alucinando novamente.

            Talvez tudo aquilo fosse demais para mim. Afinal, quem conseguiria passar por tudo que passei e ainda sair mentalmente ileso?

 

***

 

            Tive de explicar para a maioria dos professores (que insistiam em passar atividades mesmo sendo o antepenúltimo dia de aula) que, por algum acaso estranho, acabei esquecendo a mochila em casa. Eles não ficaram muito felizes, mas também não podiam fazer nada a respeito.

            Mesmo que o meu relacionamento com Lucas tivesse chegado ao fim, fiquei contando os segundos para a hora do intervalo, pois ainda havia a ínfima possibilidade de encontrá-lo em algum lugar do colégio, ainda que de relance. Então, passei a maior parte do tempo das três aulas batucando na mesa com os dedos ou debruçado sobre ela, pensando e pensando. Num impulso, quando o sinal estava prestes a tocar, olhei para trás e vi que a sala estava quase vazia (apenas doze alunos foram), e que Alexia ou Thomas não estavam lá. Por algum motivo, não gostei daquilo. Parecia que os dois estavam tramando alguma coisa, escondidos, fora do colégio. Agradeci internamente, pois ambos desperdiçaram um dia para me tirar do sério. Só faltavam mais dois dias...

            Não me levantei imediatamente quando o sinal tocou, pelo contrário. Fiquei sentado, com as mãos nas coxas, olhando fixamente para a minha mesa. Esperei todo mundo sair da sala, inclusive a professora, e olhei para minhas amigas. Elas também estavam me encarando, mas com piedade, como se eu estivesse com câncer ou algo do tipo. E eu simplesmente não conseguia aguentar aqueles olhares.

            — O quê? — Perguntei. Elas pareceram envergonhadas.

            — Nada. É só que... — Aqua respondeu.

            — Você quer andar com a gente? — Alicia interrompeu. — Faz tempo que você não fica com a gente na hora do intervalo.

            Percebi o que ela queria dizer com aquela frase. Faz tempo que você não fica com a gente na hora do intervalo porque passou quase um ano andando com o seu namorado, enquanto nós nos ocupávamos com outra coisa. Sorri gentilmente.

            — Ok, pode ser. Com quem mais eu andaria, não é? — Respondi.

            Aqua estendeu a mão para mim e eu a segurei, levantando-me e preparando-me para os possíveis choques que estavam por vir.

           

            O colégio não estava diferente. Eu queria acreditar que ele estaria diferente porque tudo na minha vida estava diferente, mas ele não estava. Mesmo que fosse um dos últimos dias de aula, o mesmo fluxo de alunos congestionava o pátio, os mesmos professores andavam apressados, as mesmas pessoas que sabiam que o ano estava acabando. E foi apenas nesse momento que eu pensei, pela primeira vez, que estava acabando. Estava tudo acabando.

            — Ei, vocês já perceberam uma coisa? — Perguntei enquanto nos enfiávamos no meio da multidão. De dentro da balbúrdia, Alison perguntou.

            — O quê?

            — O ano está acabando. Quero dizer... — Interrompi-me e esperei até chegarmos num local mais calmo. Voltamos à passarela e continuamos nosso trajeto até o pátio principal, quando voltei a falar. — Não é qualquer ano. É o nosso terceiro ano. O último.

            — Sim, sim. Eu já tinha pensando nisso. — Alicia respondeu, engatando seu braço ao meu. — É triste.

            — Pensem pelo lado bom. Pelo menos não vai ter a Alexia ou Thomas na faculdade. — Aqua disse.

            — Seria muito ruim se eles fossem para a mesma faculdade que um de nós. — Alison comentou e a única coisa que eu pude fazer foi concordar:

            — Sim, seria.

            Eram discussões como aquelas que eu sentia falta, acaloradas, divertidas, discussões sobre a nossa amizade, discussões que eu deixei de ter por mais de um ano porque passei meus intervalos com Lucas. E eu gostei de andar com elas naquele dia porque achei nas nossas conversas a animação que precisava.

            Contudo, o colégio ainda era o mesmo e as pessoas também, então foi quase inevitável achar o que achei na quadra poliesportiva. Entramos como se nada estivesse acontecendo e passei meus olhos sobre a arquibancada, procurando algum rosto conhecido. Encontrei alguns, mas a pessoa estava na segunda quadra, com seus amigos. Aqua, Alison e Alicia pareceram não perceber que estávamos nos aproximando do Lucas, e continuaram a conversar, mas não tirei meus olhos dele nem por um segundo. Em questão de poucos passos, já estávamos na frente da segunda quadra, separados apenas por uma grade de ferro.

            — Então, eu não sei qual curso vou fazer na faculdade e... — Escutei Alicia comentar algo na conversa delas e, de repente, parar. Ela lentamente foi parando e percebi que tinha notado o que estava acontecendo. Mas eu não liguei para ela.

            Lucas estava na minha frente, no meio do grupinho de amigos dele. Eles aparentemente estavam jogando basquete, o que achei legal, a não ser pelo fato de que ele tinha acabado de terminar comigo e já estava se divertindo com seu pessoal. Vi Henry se aproximar do Lucas e comentar algo, e, então, meu ex-namorado olhou para mim. Doeu muito pensar que ele era o meu ex-namorado e que estava olhando para mim. Tudo ficou em câmera lenta, como se nada mais importasse, e vi tanto significado nos olhos dele, tanta coisa que queríamos dizer um para o outro. Até que a Alison teve a audácia e o bom-senso de me puxar.

            — Ok, vamos por esse lado. — Disse ela.

            Eu quis parar e olhar novamente para Lucas, mas não consegui, por algum motivo. Deixei que as minhas amigas me puxassem para longe daquele lugar e, então, comecei a conversar novamente com elas.

 

            Depois do intervalo, nada especificamente mudou. Fiquei sentado na minha cadeira, conversando com minhas amigas sobre os assuntos mais variados, que iam desde compras de supermercado até como preparar uma lasanha (?). Fiquei agradecido por elas terem feito meus pensamentos voarem para outro lugar, desse modo eu não ficava lembrando do Lucas, da Alexia ou de qualquer outra pessoa. O único problema é que eu precisava lembrar, e que lembraria mesmo que não quisesse.

            Saí rapidamente quando o sinal da quinta aula tocou, não antes de me despedir delas com abraços e tudo o mais. Com rapidez, comecei a andar na direção do pátio, espremendo-me entre as dezenas de alunos que também queriam sair, mas foi aí que vi algo. Quando irrompi pela porta, saindo, olhei para a salinha de coordenação que ficava logo ao lado esquerdo e notei que havia uma garota lá. Uma garota loira, alta e com olhos verdes. Alexia. Senti meu coração acelerar e tudo de bom que aconteceu comigo foi retirado bruscamente. De repente esqueci de todas as conversas animadas que tive e de todo o resto. A única coisa que importava para mim naquele momento era a Alexia, e não era de um jeito romântico ou bonitinho.

            E ela olhou para mim e sorriu.

            Voltei a andar como se nada tivesse acontecido, olhando para baixo e tentando descobrir mentalmente o que ela estava tramando. É claro que não consegui, não naquele momento. Fui andando rapidamente, andando e andando, até que parei, a poucos passos de chegar ao portão. Tive o mesmo “surto” do dia anterior. Fiquei parado, com os olhos fechados, sem pensar em nada. Mas foi diferente, porque senti a presença de alguém ao meu lado. Abri os olhos e vi quem era. Alexia passou andando por mim, rapidamente, como se estivesse atrasada por alguma coisa, e não liguei para nada que tivesse a ver com a privacidade dela. Comecei a segui-la.

            Vi a garota virando para a direita, indo por um caminho que quase nenhum aluno ia. Vi ela entrando numa ruazinha de terra esburacada. Segui ela por essa rua, segui e segui, imaginando se a casa dela ficava por perto, contudo, nunca descobri. Nunca descobri porque alguém surgiu na frente dela, saindo de trás de um grande arbusto, usando uma jaqueta e capuz, com algo brilhando na mão. Alexia deu um pulo por causa do susto e começou a andar na direção oposta, mas a pessoa encapuzada foi mais rápida e a segurou pelos cabelos. Ela tentou se desvencilhar, mas não conseguiu. E eu corri. Corri o mais rápido que pude, corri muito. Não foi suficiente. Só percebi que a pessoa encapuzada era o William quando parei a poucos metros de distância, e só percebi que a coisa brilhante era uma faca quando ela entrou no abdômen da Alexia. A garota gritou de dor e caiu. Só consegui pensar que aquilo era a minha culpa.

 

            William olhou para mim, enquanto Alexia agonizava no chão, e virou-se de costas, começando a correr na direção oposta. Essa foi a minha deixa. Corri até a garota, já com lágrimas nos olhos, ajoelhando-me. Não liguei para as pedras pontiagudas que insistiam em furar meus joelhos, porque ela estava sofrendo mais.

            — Greg? — Alexia perguntou entre soluços.

            — Alexia. — Ecoei.

            Olhei nos olhos dela, que estavam vazios, sem força, e percebi o que não tinha percebido até o momento. Não falei para o William sobre o culpado pela morte do Larry porque queria que a Alexia morresse. Não a segui pela rua porque queria descobrir qual era o plano. Eu revelei a verdade e a segui porque sabia que eu não era uma pessoa odiável, que não era um assassino, que não era violento. Apesar de tudo, de todas as coisas ruins que a Alexia tinha feito, eu queria protegê-la naquele momento.

            — Me desculpe. Isso é culpa minha. — Respondi, gaguejando. Ela segurou no meu antebraço, tão forte quanto a dor deixava, e murmurou.

            — Chame a emergência.

            E eu chamei.

 

                — Com licença, você não pode ficar aqui. Temos que pedir que se retire! — Um dos médicos falou grosseiramente, segurando ambos os meus ombros e me empurrando para longe do local. Tentei não me mexer e foi necessário mais de um doutor para me tirar de lá.

            — Eu preciso ficar aqui com ela! — Gritei, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Isso é minha culpa!

            — O senhor está em choque, precisa ir para a sala de espera e se acalmar. — Um dos enfermeiros disse, puxando-me com mais força. Perdi o equilíbrio e por um momento deixei que eles me levassem alguns centímetros para trás.

            — Não, vocês não estão... não estão entendendo. Eu fiz isso. É minha culpa. — Falei, olhando com horror para baixo. O sangue tinha sujado minhas roupas, minhas mãos e, até mesmo, meus sapatos.

            — Senhor, por favor. — Disse o enfermeiro novamente. Desta vez não consegui resistir. Três doutores me levaram para fora da salinha, e a última coisa que vi antes da porta se fechar foi a garota sangrando sobre a cama, com tubos descendo pela sua garganta.

            Eu fiz aquilo.

 

            Fiquei parado na frente da porta até uma enfermeira aparecer ao meu lado e, educadamente, dizer que eu precisava ir para sala de espera. Quase paralisado, fui andando até onde ela queria me levar e notei que estava vazio. Era uma salinha com vinte cadeiras, mas estava vazio, tudo vazio. Então me sentei em um dos lugares e fiquei esperando. Com as mãos trêmulas, peguei o meu celular e liguei para os meus pais, pensando que a Alexia não poderia morrer. Eu nunca me perdoaria se ela morresse, porque aquilo era culpa minha. Eu... eu a matei.

            — Greg? — Ouvi uma voz perguntar e levantei a minha cabeça imediatamente.

            Demetria estava parada na frente da porta da sala de espera, ainda usando sua roupa formal de diretora, com uma maleta nas mãos. Ela me olhou com desprezo e espanto ao mesmo tempo e notei que coisa boa não surgiria dali.

            — O que você está fazendo aqui? — Ela perguntou.

            — Eu... — Hesitei. — Eu... a Alexia...

            — Sim, eu sei sobre a Alexia. Mas o que você está fazendo aqui?

            — Eu a achei. Eu estive lá quando o William a esfaqueou. — Respondi, olhando para baixo.

            De todas as coisas que eu esperava da formal e educada Demetria, a última era ela perdendo a cabeça, mas foi justamente isso que aconteceu. Ela veio andando rapidamente na minha direção, jogou a pasta no chão, ajoelhou na minha frente e agarrou os meus ombros com as duas mãos.

            — O que você fez?! — Gritou, sacudindo-me pelos ombros. Não revidei, não tinha forças para isso. — O que você fez com a minha filha?!

            — Eu não fiz nada, juro. — Respondi.

            — Eu não acredito em você! — Ela gritou novamente e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, me deu um tapa na cara. Caí para o lado, esfregando o local da batida, pensando que aquilo com certeza deixaria uma marca bem vermelha. — Você matou a minha filha!

            Foi estranho ver a Demetria tão nervosa, com seus cabelos ruivos falsos bagunçados, seus olhos verdes bem arregalados, sua postura meio corcunda por ter ficado ajoelhada. E eu estava pronto para ser atingido novamente, quando de repente uma enfermeira surgiu na sala.

            — Senhora, senhora. Se acalme. — Disse ela, tentando segurar Demetria pelos braços.

            — Não me toque! — A mulher respondeu, olhando para mim com raiva. Ela veio na minha direção novamente, mas de uma forma mais calma, e apontou um longo e ossudo dedo branco para o meu rosto. — Se ela morrer, Greg, se a Alexia morrer... eu juro que...

            Demetria hesitou e virou-se para a enfermeira, recobrando a postura.

            — Eu sou Demtria Collier, mãe de Alexia Collier. — Disse ela. A enfermeira disse um “pois bem, por aqui” e de repente fiquei sozinho na sala.

            Voltei a chorar.

 

            Meus pais só chegaram quase duas horas depois, atormentados e claramente preocupados com o que havia acontecido. Minha mãe não sabia se implicava comigo ou se tentava descobrir o que aconteceu, entretanto, tive de explicar toda a história enquanto ela me enchia de abraços e metafóricos puxões de orelha. Obviamente, eles não ficaram felizes com o que ouviram, mesmo que eu não tenha contado sobre o William (apenas disse que segui a Alexia e a encontrei quase morta no chão), mas também não podiam discordar das minhas atitudes. Afinal, a Alexia só foi parar no hospital por minha causa, se eu não tivesse a seguido... Ela estaria morta, e teria sido culpa minha. Tudo foi culpa minha.

            Enfim, meus pais me fizeram companhia. Eles perguntaram se eu queria ir embora e respondi que não, que precisava ficar ali para ver qual seria o destino da garota que arruinou a minha vida de todas as formas possíveis – e, mesmo naquele momento, com ela sangrando em alguma cama do hospital, estava estragando a minha vida por ter se tornado um fardo pesado demais. Eu não conseguiria aguentar a morte dela, por mais insuportável que sua presença fosse. E, no meio de tudo isso, pensando em quase todas as coisas possíveis, consegui dormir, ocupando quase cinco cadeiras da sala de espera numa posição nada confortável de se deitar. Meus pais ficaram por lá, levaram lanchinhos do refeitório do hospital, mas se revezaram para ver quem ficaria de olho em mim. Não fiquei completamente agradecido por isso.

            Foi meu pai que me acordou, quase uma hora depois. Ele estava sentando numa cadeira na minha frente, olhando para mim, e levei um susto quando vi seus grandes olhos castanhos fixos no meu rosto.

            — O que aconteceu? O que houve? — Perguntei, assustado, levantando-me e esfregando os olhos. Meu pai colocou a mão no meu ombro e senti todo o seu pesar.

            Foi nesse momento que tive o pensamento mais horrível até o momento. Era isso. Ela estava morta. Tudo tinha acabado. Alexia morreu por minha causa, porque eu não consegui segurar a verdade, porque não consegui controlar a minha raiva.

            Um pânico absurdo tomou conta de mim, mas meu pai intensificou o aperto no meu ombro e deu um sorrisinho triste.

            — Ela está morta, não está? — Perguntei depois de um tempo. Ele respirou fundo.

            — Não. — Respondeu. — Os médicos pediram para te avisar que ela está te chamando, e que a polícia quer algumas informações. Aparentemente o agressor ainda está por aí.

            Meu pai deu uma fraquejada na voz, como se não quisesse dizer aquilo, e olhou para baixo. Demorei um tempo para perceber que ele, na verdade, estava mirando as minhas mãos ainda um pouco manchadas pelo sangue da Alexia. Imediatamente, meu raciocínio me fez acreditar que estava sendo considerado suspeito.

            — Pai. — Respondi, engrossando a voz. — Não fui eu.

            Ele deu de ombros, como se não acreditasse completamente (se eu estivesse na mesma posição que ele, também não acreditaria cem por cento), e se levantou. Me levantei também, limpando as mãos nas laterais das coxas, e comecei a segui-lo para fora da sala e, consequentemente, para o corredor.

            Eu nunca tinha ido a um hospital na área de trauma, não como aquele. Quero dizer, fui quando Andrew foi atropelado e tal, mas não foi nada parecido. Pelo que eu podia deduzir, um acidente de grande escala deixou o pronto-socorro lotado de pacientes e médicos agitados, então foi um contraste muito estranho sair da salinha de espera, calma e pacífica, para o caos da sala de emergência. Tive que praticamente segurar na mão do meu pai para não o perder no meio das pessoas. Continuamos e continuamos, passo a passo, até chegarmos num corredor lateral à sala de emergência, e reconheci a porta da primeira sala.

            Meu pai parou na frente da porta e sinalizou um “entre”, enquanto eu tentava passar um “você não vai entrar comigo?” com os olhos. Obviamente, ele não quis entrar. Tive que ir sozinho, mais ansioso do que o normal, com os nervos à flor da pele e com medo da polícia realmente achar que eu era o principal suspeito. Mas quem não acharia?

            — Mãe, é ele? — Ouvi uma voz perguntar, quando fechei a porta atrás de mim. Estava muito silencioso lá dentro, de modo que a vozinha fraca quase pareceu como um sussurro no meu ouvido. Levei um tempo para perceber que a garota na cama estava falando.

            Numa cadeira ao lado, estava Demetria, e ela se curvou sobre a garota na cama e sorriu tristemente. Tive um péssimo flashback de quando encontrei a Alexia numa pós-overdose e na dependência de remédios.

            — Sim, é ele. — Demetria respondeu. Ela olhou para mim depois disso e não retirou os olhos do meu rosto nem por um segundo.

            Olhei em volta, inseguro, e notei que não estávamos sozinhos. Havia mais três pessoas naquela sala: Sandra; um homem desconhecido, com a aparência nada amigável; e outra mulher, mais formal, contudo, bem menos amigável ainda. Estremeci. Eles só poderiam ser investigadores, detetives ou sei lá o quê.

            — Ajude-me. — Alexia disse, esticando o braço e apertando o antebraço da mãe. Vi Demetria se abaixar um pouquinho e, com uma destreza estranha, apertar o botão que fazia a cama da Alexia se dobrar e, consequentemente, sentá-la.

            A aparência dela não estava muito diferente da época da pós-overdose. Ela estava magra, mais magra do que eu me lembrava, mais magra do que aquele curto espaço de tempo conseguiria deixá-la, vestindo as vestes de paciente, com agulhas enfiadas nos braços e um acesso de oxigênio nas vias respiratórias.

            — Gregory, não é? — O homem desconhecido disse. Olhei para ele, assustado, e fiz que sim. — Eu sou um investigador no caso da jovem Alexia Collier. Eu e minha parceira fomos contratados por Demetria Collier, mãe da cliente.

            — O que Sandra está fazendo aqui? — Perguntei.

            — As informações que ela possui são de muita importância para a investigação. — A mulher desconhecida falou.

            Houve um segundo de silêncio, onde eu, Alexia e Sandra ficamos nos entreolhando, tentando captar as nuances, as diferenças das coisas que aconteceram. Eu olhava para Sandra com uma cara de “isso é o troco pela confissão?” e para a Alexia como “o que você fez agora?”. Obviamente, nenhuma delas respondeu em voz alta.

            — Pois bem. — O investigador disse. — Vamos começar.

 

            Foi incrivelmente desgastante ficar sentado naquela cadeirinha desconfortável, ouvindo o investigador fazer perguntas sobre o meu passado (que geralmente eram intermediadas e respondidas pela Sandra), insinuando cada vez mais que eu tinha motivos para tentar matar a Alexia. Eu tinha, de fato, mas não queria que isso acontecesse.

            — Então o garoto em questão, Andrew, disse que o Larry foi assassinado e que sabia quem tinha sido? — Saí do devaneio e o ouvi perguntar.

            — Porque a Alexia confessou para ele! — Sandra protestou, com uma cara de incredulidade.

            — Deixe-o responder, por favor. — A mulher instrutora interrompeu e elevou a voz. Olhei para ela.

            Para ser bem sincero, eu estava começando a ficar entediado. Eles apenas ficavam perguntando coisas sobre o meu passado que pelo menos vinte pessoas no mundo já sabiam, então nada era novidade. Eu não podia negar nada. Foi como se eles estivessem me perguntando se eu havia acordado naquele dia – óbvio que sim.

            — Sim. — Respondi.

            — Então ele te levou até a casa da Alexia, e você a viu na época da pós-overdose e, segundo relatórios médicos, isso foi quando ela teve a terceira e mais séria overdose? — O investigador perguntou.

            — Não sei se foi a pior overdose dela, mas sim, ela teve. — Respondi. — Mas o que acho que não consta nos relatórios médicos nem nos seus relatórios é que ela tentou se matar. Eu não fiz nada.

            — Não temos prova disso.

            — Porque ela foi inteligente o suficiente para esconder. — Rebati. — Foi muito conveniente que eu tivesse ido à casa dela e não o contrário. E... e eu não entendendo o ponto aqui. Eu estou sendo investigado pela “quase-morte” da Alexia, a morte do Larry e a essa tentativa de suicídio? Parece que vocês querem criar mais crimes apenas para me manter como culpado. — Irritei-me, usando um tom irônico. Eles ficaram em silêncio por um tempo, me olhando; a mulher parecia mais dura, como se não se abalasse tão fácil assim, mas o homem hesitou num instante.

            — Nós só queremos recolher informações. — Disse a mulher.

            — Pois perguntem a todo mundo que esteve envolvido nisso. Andrew, William, Anne, as minhas amigas, meus pais, o meu irmão e a namorada dele... — Interrompi. — Eu não posso ser o único suspeito.

            — Na verdade, Gregory, você é. — O homem respondeu.

            Um silêncio desconfortável surgiu ao nosso redor. Eu nunca havia passado por um ato de injustiça tão grande. Simplesmente não podia acreditar que estava, de fato, sendo acusado de todos aqueles crimes, inclusive da morte do meu melhor amigo. Eles não podiam estar falando sério. Eles não podiam acreditar naquilo.

            — O quê? — Perguntei, horrorizado, mas pela primeira vez a garota na cama se pronunciou, depois de pigarrear para limpar a garganta.

            — Não! — Disse ela, tão alto e tão forte que fiquei com medo que estivesse tendo um surto psicológico.

            O silêncio que apareceu na sala foi muito diferente depois disso. Foi como uma calmaria, como se todo o mundo estivesse esperando por alguma catástrofe. Do lado de fora, o som das pessoas parou, tudo parou, e até o ar pareceu mais pesado. Todos nós olhamos para Alexia, que mirava um ponto fixo na parede, com os olhos bem centrados.

            — Não. — Repetiu ela. — Ele não pode ser um suspeito.

            — Filha... — Demetria começou a falar, tentando acalmar sua filha, mas não deu certo.

            — Não venha com esse sentimentalismo de mãe agora. — A garota interrompeu bravamente. — Eu preciso falar algo.

            Ficamos ainda mais em silêncio – se é que era possível.

            — Ele não pode ser um suspeito. — Alexia continuou. — Eu chamei os investigadores aqui para explicar justamente isso. Havia um garoto na minha sala, na nossa sala. O nome dele era William. Ele entrou no meio do nosso segundo ano, junto com Larry, e ambos eram melhores amigos. Eu via a amizade que os dois tinham, o grau de aproximação, como se fossem irmãos. — Ela fez uma pausa. — Mas isso nem sempre é bom. Ele começou a se tornar invejoso e ciumento. Meu ex-namorado, Andrew, também iniciou virou amigo do Larry e logo William foi ficando cada vez mais hostil. Andrew e Larry se tornaram muito próximos por um tempo, de modo que, de vez em quando, meu ex-namorado me deixava na mão para poder ir à casa do Larry.

            Ela olhou para mim nesse momento. De todas as coisas que eu não imaginava que podiam aconteceu, a amizade entre Andrew e Larry era a mais improvável. Eu nunca sequer desconfiei, até porque nunca os vi conversando. E foi nesse momento que percebi algo que ficou adormecido na minha mente durante tanto tempo, uma dúvida: logo depois que contei ao Larry sobre como me sentia, ele sumiu, e, dias depois, através do celular da Aimee, ele disse que Andrew sabia onde era seu esconderijo. Isso foi muito interessante.

            — Então o clima começou a mudar. — Alexia continuou. — Foi o William que me deu o meu primeiro cigarro de maconha, que foi a porta de entrada para as outras drogas. Ele me viciou em tudo quanto é substância. Ele convenceu uma outra garota da sala, Iliana, a me drogar e me deixar em algum lugar da cidade. Essa foi a minha primeira overdose. Tive outra, algumas semanas depois, quando comecei a entrar em depressão, e depois, quando Greg foi me visitar. Falei coisas que não faziam sentido, como a confissão. — Alexia fez uma pausa e olhou para a Sandra, como se quisesse a todo custo provar sua convicção. — E William me visitou algumas vezes antes disso, e me disse o que falar, o que fazer, quais drogas usar. Ele foi o culpado por tudo. Ele viu que Greg e Larry estavam se aproximando bastante e decidiu pôr um fim nisso, foi assim que Larry morreu. Tudo por causa do ciúme. E foi ele quem me esfaqueou.

            Alexia ficou ofegante quando parou de falar, apertando os cobertores como se eles pudessem impedi-la de desmaiar ou até de morrer. Para falar a verdade, ela parecia aterrorizada, terrificada. Mas não importava o quanto aterrorizada ela pudesse parecer, eu sabia da verdade. Eu sabia que ela estava mentindo. Só não sabia o porquê de querer me proteger.

            — Isso é verdade? — O homem investigador disse.

            — Sim. — Alexia respondeu. — Eu juro, perante a lei. Sei que posso ser presa por mentir para a polícia.

            — Então a nossa presença aqui não foi mais nada do que errônea? — A mulher investigadora perguntou. E Alexia acenou com a cabeça.

            Por algum motivo, ambos os detetives pareceram constrangidos e irritados, pois saíram andando a passos duros para fora da sala. Demetria e Sandra foram com eles, ambas também bufando de raiva – eu sabia que a mãe da Alexia estava mais brava do que qualquer pessoa no mundo, principalmente por causa de todos esses “segredos” guardados. Ela ficou com cara de idiota.

            Em menos de dez segundos, fiquei sozinho com Alexia na sala. O silêncio retornou e não consegui me mover. Apenas fiquei olhando para ela, com confusões na cabeça, e perguntei:

            — Por quê? Por que você fez isso? Por que me protegeu?

            Ela sorriu tristemente e sua sobrancelha levantou, em sua típica expressão de superioridade.

            — Você pode achar que isso não é um motivo, por enquanto. — Disse. — Mas eu te protegi porque estou grávida.

 

***

 

NO DIA SEGUINTE...

 

            — Eu não sei por que a Demetria ainda quis fazer essa reunião de alunos. — Aqua disse, quando nos encontramos no pátio na hora da entrada. — Se eu estivesse no lugar dela, nem iria querer dar as caras.

            — Eu também não faço ideia. — Respondi.

            De fato, aquilo estava estranho. Logo depois eu ter sido dispensado do hospital e mandado para casa (eu não era parente da Alexia, então não podia ficar perambulando pelo local), meus pais receberam um e-mail dizendo que a presença no último dia de aula era obrigatória, uma mensagem assinada por Demetria. Quando eles me falaram aquilo, todos nós ficamos perplexos. Por que ela ainda queria fazer um último dia de aula? Por mais que essa pergunta ficasse ecoando na minha cabeça, levantei-me mais cedo no dia seguinte e vesti meu uniforme. Fui andando para o colégio como se fosse um dia qualquer.

            — Talvez ela queira se vingar de alguma forma. — Alicia respondeu, levantando as sobrancelhas.

            — Por quê? Eu salvei a filha dela. — Respondi.

            — É o que parece, mas quem disse que é o que ela acha? — A garota rebateu. — Além do mais, ela apenas dará alguns recados, não tem nada a ver com o concurso. Ouvi dizer que a Alexia e o Matthew ganharam a competição, com a construção de uma ONG de doação. Só pode haver apenas um ganhador, mas, mesmo assim...

            — Ah, tá. — Falei sarcasticamente. — A Alexia, fazendo doação? Parece impossível.

            — Parece.

            Olhei em volta e tentei procurar pela Demetria ou por qualquer pessoa que pudesse me dar uma dica de como Alexia estava se sentindo (não que eu realmente me importasse, apenas queria ter certeza que ela não estava morta), mas não encontrei ninguém. Foi estranho ver que quase nenhum aluno estava de uniforme, algo que era bem implicado no colégio, e me senti deslocado no meio de tantas pessoas.

            — Ainda bem que acabou, não é? — Alison disse. Olhei para ela com as sobrancelhas franzidas e percebi que estava entrando num território hostil. — Quero dizer, Alexia te protegeu, sabe-se lá por que, e agora tudo acabou.

            — Pois é. — Respondi. — Acho que sim.

            Tentei sorrir naquele momento, tentei olhar para Alison e mostrar que estava tudo bem, mas não estava. Ninguém ali sabia da gravidez da Alexia, e, se soubessem, com certeza se revoltariam ou tentariam estragar a vida da garota de algum jeito. Eu não queria isso. Eu apenas queria deixar a Alexia em paz, para que ela me deixasse em paz também. E estava rezando para que desse certo.

            — Por falar em mudanças... — Alison disse. — Vocês viram a Violet? Ela disse que queria conversar comigo.

            Balancei a cabeça negativamente. Alicia e Aqua fizeram o mesmo, provocando uma expressão de desanimação da Alison. Esse era um dos pontos que eu estava mais curioso para saber do desfecho. Por que a Violet parecia tão preocupada com a atenção da Alison?

            — Ela disse que queria que eu falasse algo para você, mas não disse o que era. — Comentei.

            — Ela é estranha. — Aqua disse. — E acho que temos que ir agora...

            Ela estava certa. Alguns dos alunos já formavam uma massa em volta do pequeno palco improvisado no centro da quadra poliesportiva. Eu olhei para aquele monte de gente e pensei que não seria uma boa ideia entrar lá, mas minhas amigas me puxaram pelo braço e fui praticamente obrigado a ir.

 

            De fato, estava muito apertado. Parecia um dos aqueles shows ao ar livre, onde todo o público tenta empurrar a si mesmo para chegar mais perto do artista. O palco improvisado não ajudava muito, e Demetria, que estava em cima dele com seus acessórios, não pedia silêncio ou ordem. Ela parecia tão deslocada quanto eu. Tive de me espremer entre os alunos da parte da frente para poder ficar cara a cara com a mãe da Alexia, e as minhas amigas fizeram o mesmo. Mas todos nós sabíamos que aquele show todo foi montado por causa do concurso, contudo, não havia sentido. Se Alexia já tinha ganhado, qual era o sentido de dar um prêmio para alguém que não podia recebê-lo? Eram tantas perguntas.

            — Bom dia! — Demetria deixou toda a sua expressão cabisbaixa para trás e soou animada ao gritar no microfone. — Bom dia!

            As pessoas ao redor responderam num sonoro coro. Não falei nada, apenas fiquei olhando.

            — Bom, antes de começarmos, eu gostaria de dizer que estou muito orgulhosa dos alunos deste colégio e queria agradecer por terem sido tão atenciosos. Tivemos muitas ideias boas ao longo das últimas semanas, e esse foi um ótimo modo de estrear como diretora. Muito obrigado. — Ela disse, provocando gritos, assovios e salvas de palmas. — Então, todos estão ansiosos para saber quem ganhou, não estão? — Novamente, as pessoas gritaram.

            Olhei em volta o máximo que pude. Não consegui achar o rosto da Alexia no meio dos alunos, então meus pensamentos começaram a ficar urgentes. Comecei a duvidar sobre a história da Alicia sobre a Alexia ter ganhado o concurso.

            — O vencedor é um garoto, dos últimos anos. — Demetria respondeu, o que provocou gritos por metade das pessoas (aqueles que tinham chance por serem dos últimos anos) e murmúrios da outra metade (aqueles que perceberam que não tinham chance). — Ele demonstrou imensa coragem em sua estadia no Colégio Vargas. Passou por muitos problemas, mas não se deixou levar por suas dificuldades. E ontem... bom, eu não deveria estar falando essas coisas para vocês. — Demetria fez uma pausa e a multidão ficou em silêncio. — Ontem minha filha foi atacada por um psicopata e quase morreu, mas a coragem do vencedor do concurso conseguiu mantê-la viva. Ele não teve medo. E, por ter salvado uma vida, levou esse prêmio. Parabéns, Gregory, da turma 3º TC.

            Meu coração disparou e subitamente fiquei surdo (as pessoas gritavam ao meu redor, mas eu não conseguia ouvir nada). Fiquei olhando para baixo, mal conseguindo acreditar no que tinha acabado de escutar. Não fazia sentido, não fazia o menor sentido. Por que eu? Por que eu, dentre todas as pessoas possíveis? Minhas amigas me puxaram e me empurraram, encheram-me de abraços e beijos de parabéns, mas não consegui sorrir. Fiquei em choque. E só acordei depois de alguns segundos quando Demetria voltou a falar no microfone.

            — Suba aqui para a coroação.

            Minhas amigas me empurraram na direção do palco e a única coisa que pude fazer foi andar. Senti que estava subindo em algum lugar perigoso. Os degraus pareciam muito altos, tudo parecia diferente e nocivo. Eu simplesmente queria sair dali, não queria aquele prêmio, mas, ainda assim, fiquei frente à frente com Demetria.

            De algum lugar, uma coroa surgiu na frente dela. E não parecia ser qualquer coroa, mas sim um artefato de puro ouro, com pedras brilhantes – embora meu bom-senso dissesse que se tratava de uma réplica muito bem feita. Fiquei com medo de danificar aquele negócio.

            — Greg agiu sozinho e por isso não poderá dividir o prêmio. — Demetria disse ao microfone, provocando alguns suspiros da plateia, mas não me importei. Ela veio andando na minha direção e, lentamente, colocou a cora na minha cabeça.

            Fiquei olhando para os olhos dela quando se afastou, murmurando no meu ouvido:

            — Alexia pode ter desistido de te derrubar, mas eu não vou.

            Estremeci. O que aquilo significava? Será que mais alguém tinha escutado? Por que ela quis falar algo assim? Eu salvei a filha dela! Quis gritar, pedir por ajuda, falar que fui ameaçado logo ali, na frente de todo mundo, mas não consegui me mover.

            Novamente, o público ficou em silêncio e essa foi a deixa para Demetria pegar novamente o microfone e começar a falar.

            — Agora, vocês devem estar se perguntando qual é o prêmio. — Disse ela, numa voz sonora que ecoou por todo o colégio. — Bom, há tempos eu e a coordenação do colégio abrimos um projeto. Nós fundamos uma faculdade, que levará o mesmo nome: Faculdade Vargas. E, cada aluno aqui terá 50% de desconto no ano de estreia.

            A plateia saiu do controle. A gritaria foi absurda, as pessoas ficaram quase que literalmente loucas. Ouvi a maioria gritar “é sério?” como se não acreditassem que Demetria podia fazer algo do tipo. E, obviamente, nem eu sabia, mas não duvidei muito.

            — E o ganhador do concurso ganhará uma bolsa integral. — Demetria comentou, mas sua voz quase não foi ouvida. Os ânimos demoraram para se acalmarem, então, depois de quase cinco minutos, quando os alunos cansaram de comemorar, ela continuou: — Contudo, apenas alguns alunos poderão ir para a faculdade com esse desconto. A lista será enviada por e-mail daqui alguns dias. E é isso. Bom final de ano para vocês e...

 

            A maioria dos alunos que estava presente me agradeceram, inclusive as minhas amigas, que pareciam mais do que animadas (Alison estava até chorando de felicidade por mim). Fiquei agradecido, mas, sinceramente, não estava ligando muito para o fato de ter ganhado uma bolsa na nova faculdade. Minha mente ainda girava em volta daquilo que Demetria disse. Alexia pode ter desistido de te derrubar, mas eu não vou.

            E foi a partir daí que tudo começou a desandar. Os alunos começaram a sair do colégio, as minhas amigas se despediram de mim rapidamente e me deixaram ir sozinho para casa. Mas foi esse o problema.

            Não tinha como eu estar preparado para o que estava prestes a acontecer. Simplesmente não tinha como prever.

            Como sempre, estava uma bagunça no portão. Alguns alunos insistiam em ficar parados justamente na frente do fluxo de pessoas, então ficou uma confusão. Tive de me espremer entre dois veteranos para poder passar para um lugar mais livre, mas arrependi-me no momento em que o fiz. Olhei para frente e meu coração quase explodiu (se é que de fato não explodiu). Uma pessoa estava parada a alguns metros de distância, mas não qualquer pessoa. Era um garoto.

            Eu conhecia aqueles olhos castanhos tão bem, aquele maxilar desenhado, aquele cabelo liso e rebelde, os ombros largos e musculosos, os cílios longos e negros, a postura defensiva. Eu o conhecia tão bem, melhor do que a mim mesmo. Eu...

            — Não, você só está na minha cabeça. — Falei em voz alta, mesmo que acreditasse que aquela era uma alucinação. De fato, já havia alucinado com ele algumas vezes, e experiências recentes me fizeram crer que eu estava realmente tendo episódios recorrentes. Então ele não era real. Não. Ele estava morto.

            Comecei a andar, mas ele mexeu os braços, e pude ver ambas as tatuagens. Vi os desenhos que ele tinha sobre a pele e lembrei de seu irmão gêmeo, que não as tinha. Meu coração doeu e deu um pulo dentro do peito.

            — Você é uma alucinação. — Respondi para ele, retornando a andar, com o objetivo de passar ao lado como se ele nem estivesse lá.

            Mas ele me segurou. Ele me segurou no antebraço e me puxou para perto de si.

            — Eu não estou morto. Eu não sou uma alucinação. — O garoto disse, com sua voz grossa. Minha pressão caiu ao simples ato de ouvir sua voz.

            E foi nesse momento, olhando para aqueles olhos negros, que eu percebi que havia acreditado em algo que não era verdade por muito tempo. Ele não estava morto.

 

            Larry sempre esteve vivo.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...