História Ambitious - Capítulo 4


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Taehyung (V), Personagens Originais
Tags Ambitious, Apocalipse, Bangtan Boys (BTS), Choi Hana, Ficção, Guerra, Jeon Jungkook, Jung Hoseok, Kim Namjoon, Kim Seokjin, Kim Taehyung, Min Yoongi, Park Jimin, Yang Mia
Visualizações 6
Palavras 10.407
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 4 - Pain


Fanfic / Fanfiction Ambitious - Capítulo 4 - Pain

-Não é estranho ver ele rodeado de gente? Quer dizer, ele sempre foi o mais solitário da sala... -Hana diz mais uma vez enquanto encara o filho do presidente e seus mais novos amigos do outro lado da sala. -Mia, você tá bem? Desde que você chegou na sala há 20 minutos você fica encarando seu celular como se fosse eu jogando Amor Doce. 

Não sei se conto pra Hana depois da reação que o Jimin teve ontem. Não quero que mais pessoas se afastem de mim. 

-Eu tô bem sim, Hana. Minha mãe passou mal ontem o dia todo e tô esperando notícias dela. -em parte isso que eu falei é verdade. 

-Ah que péssimo, espero que ela melhore. -Hana faz um pouco de cafuné na minha cabeça. O professor chega na sala com um sorriso no rosto e os alunos começam a se sentar. -Vou pra minha carteira, qualquer coisa vira pra trás tá?  

Hana anda até sua carteira e eu continuo a fitar meu celular. Abro minhas mensagens e leio a última que recebi mais uma vez.  

‘Mia, você já tá voltando da casa de Jimin? Alguma coisa muito estranha aconteceu. Enquanto eu estava tentando acalmar o Yohan no quarto dele, sua mãe saiu de casa. Liguei para Daehan e ele disse que ela pediu para levá-la na Câmara para pegar uns documentos. Ele disse que voltaria com ela depois de meia hora, mas ele só voltou para deixar umas caixas de documentos aqui em casa. Já se passou uma hora desde então e nada da sua mãe. Volta pra casa para poder vigiar seu irmão, porque vou até a Câmara buscá-la.’  

E desde esse momento, mais ou menos às 13:00 minha mãe não voltou pra casa. Meu pai foi na Câmara e voltou sem encontrar ela em lugar nenhum. Ligamos pra ela inúmeras vezes, chamamos Daehan e ele disse que ela não ligou para poder buscá-la. Ela simplesmente sumiu. Eu só vim para a escola porque meu pai ficou com medo do Yohan surtar e ir pro hospital. Mas se eu chegar da escola hoje e minha mãe não tiver voltado, vamos dar queixa de desaparecimento.  

Minha cabeça tá a mil desde o anúncio de ontem e a cada cinco minutos eu sinto uma vontade diferente de chorar. O que aconteceu com Jimin e agora o que aconteceu com a minha mãe... As coisas tão só piorando e eu só estou como expectadora da história. Não pude fazer nada! Abaixo a cabeça contendo as lágrimas mais uma vez. Tento não deixar meus problemas pessoais transparecerem fora de casa, porque a situação do mundo nesse momento é de euforia. Todo mundo comemorando, fazendo coisas altruístas e se ajudando. Não quero que a vida só esteja uma merda pra mim por problemas banais. Como disse Jimin, isso seria egoísmo da minha parte.  

-Bom dia, turma! -o professor disse com um humor melhor do que estava nas últimas três semanas. 

-Bom dia! -a turma respondeu no mesmo tom. 

-Hoje eu preparei alguns exercícios acerca da Guerra do Peloponeso, mas antes, eu gostaria de conversar um pouco sobre o Plano! O que vocês acham? -começam cochichos de todos os cantos da sala e eu permaneço calada. Apesar de querer, ainda não consigo acreditar em toda essa balela de governo bonzinho.  

-Professor, eu acho que já estava mais que na hora dos governos se mobilizarem a respeito das pessoas mais pobres! -uma das meninas da sala diz.  

-Eu já acho que o governo fez isso por pura solidariedade. Aqui na Coreia não existem pessoas pobres por condição, a maioria é por opção mesmo. -um dos meninos diz e eu o olho incrédula. Não consigo me conter. 

-Você tá falando que só porque você enxerga as coisas de dentro da sua bolha, existem pessoas que passam dificuldade por opção? Isso é o cúmulo da ignorância. -respondo irritada e logo outra onda de cochichos toma conta da sala. 

-Alunos, vamos com calma. Quero direcionar essa conversa para o contexto da crise... -o professor tenta controlar os ânimos da turma. 

-Professor, eu acho que a Yang Mia não entendeu o que eu disse. Eu disse que foi uma atitude louvável do governo ajudar essas pessoas com menos condições, porque elas que tinham que dar um jeito de conseguir! Afinal, nós temos empregos, educação de excelente qualidade e ótimos representantes. -fico o encarando ainda incrédula com o tanto de merda que tá saindo da boca dele. Olho pra Hana, que tem as sobrancelhas arqueadas também incrédula. Eu realmente não estava perdendo nada em não me socializar com as pessoas daqui da sala. 

-Professor, na verdade eu acho muito engraçado pessoas como nós, que estudamos na melhor escola de Seul, acharmos que a situação do país seja realmente essa. Nós estamos passando por um aumento do desemprego desde 2020, juntamente com o resto do mundo por causa do aumento da concorrência monopolística das empresas e dos cartéis. A educação já está tão arcaica que até hoje estudamos a história dos países colonizados apenas pelo ponto de vista do colonizador, sem ao menos considerar as vivências dos povos que viviam lá. O sistema capitalista tá tão precário que nem mesmo os empresários estão sabendo lidar com a quantidade de lavagem de dinheiro que os governos fazem e você vem me dizer que tá tudo perfeito desde o anúncio de ontem? Pelo amor de Deus, não tem nem dois anos que descobrimos o último caso de corrupção do presidente da Coreia do Sul, em que país você vive? -digo e finalmente não escuto nada além do silêncio. Parece que as pessoas da sala perderam toda a animação e felicidade, todos parecem estar perdidos com a situação. Olho para o rosto do menino que estou discutindo e vejo o mesmo olhar que vi ontem no rosto de Jimin. Dor. Desesperança. 

Eu não aguento mais. Parece que ninguém consegue ver o que eu tô vendo, parece que as pessoas se recusam a duvidar de tudo isso que tá acontecendo. Como se acreditar no mais lindo dos contos de fadas pudesse resolver a vida real! Sinto uma ânsia de vômito e olho pela última vez para Hana antes de sair da sala. O que eu tava pensando ao vir pra aula hoje? 

Vou para o corredor do banheiro e respiro fundo para pegar um ar. Tento colocar meus pensamentos no lugar, separar as coisas que estão acontecendo na minha vida. Talvez contestar esse Plano não seja a melhor opção agora, talvez eu deva me focar primeiro na minha vida pessoal. Talvez todo mundo esteja certo, talvez os governos realmente tiveram um surto de solidariedade e resolveram ajudar o mundo todo. Quem sou eu pra negar isso? Decido ir para o banheiro jogar uma água no rosto quando sinto uma mão me agarrando forte pelo braço e me puxando violentamente para a outra direção. 

Fico assustada quando vejo que é Jeon Jungkook. Ele tem um olhar de puro ódio. 

-Qual é a sua. hein? Qual é a sua de sempre querer bancar a sabe-tudo e duvidar de tudo que acontece no mundo? Quem é você pra falar daquele jeito com aquele menino? -ele aperta meu braço e eu trinco o maxilar, ainda com os olhos arregalados de medo. Nunca tinha escutado uma palavra sair de sua boca e do nada ele resolve vir me confrontar desse jeito. 

-Do que você tá falando? A gente só tava discutindo sobre o anún... -digo ainda sem entender o motivo de sua raiva, ele aperta meu braço mais forte. 

-Claro que vocês não tavam discutindo nada! Aquilo que você fez foi um ataque, e como você sabe que todo mundo da sala te respeita, você sabia que todos iam começar a duvidar do Plano! -franzo o cenho completamente confusa com o que ele está dizendo. 

-Ataque? Eu só dei minha opinião e discordei do que ele disse. -digo com mais convicção e ele me puxa mais pra perto de seu rosto, tento me afastar temendo que ele faça alguma coisa. Ele é incrivelmente forte.  

-Você pode enganar todo mundo com essa sua pose de sabidinha e defensora dos oprimidos, mas você não me engana. Eu sei quem é sua mãe, eu sei quem é sua família. Eu sei que ela só se opõe ao meu pai para conseguir tomar o lugar dele no futuro. Você sabe de política tanto quanto eu, eu só esperava que você não fosse se misturar nesse meio nojento assim como eu não me misturo. Agora que meu pai e o governo fazem algo que realmente pode melhorar a vida das pessoas, você é a primeira a jogar uma pedra pra poder alavancar sua mãe quando ela quiser fazer alguma coisa contra. 

-Você não me conhece e você não conhece a minha família. Você não conhece nem mesmo o seu pai se realmente acha que o governo tá fazendo isso pra ajudar alguém. -digo olhando no fundo de seus olhos e consigo puxar meu braço. Ele sorri debochado. 

-E você acha que conhece sua mãe? Você acha que essa imagem de boazinha que ela passa é realmente o que ela é, diferente do resto dos deputados da Câmara que só querem dinheiro e poder. -ele diz e eu não perco nem mais um segundo para dar um tapa na sua cara. O som do contato toma conta do corredor silencioso e dessa vez ele que está desacreditado. 

-Pelo contrário, eu não acho, eu tenho certeza de quem ela é. Eu sei pelo que ela passou e a respeito por causa disso, não por causa do poder e dinheiro. O que os outros pensam dela é irrelevante quando você pega tudo o que ela já fez e deixou de fazer em nome do que ela acredita. -Jungkook volta a me olhar com a mão no rosto, dessa vez sem ódio no olhar. -Dobra a sua língua antes de falar da minha mãe, seu merda. E se for defender seu pai, faça isso civilizadamente. Ao contrário do resto das pessoas, eu não julgo ninguém pela aparência ou por causa de sua família. E também não tenho medo de pessoas como você.  

Dou as costas para Jungkook e sigo até o portão da escola, não posso aguentar mais um minuto aqui. Eles realmente pensam que o que eu falo é pra eu poder tentar destruir a imagem do presidente e tentar priorizar a minha mãe? Eles acham que ela realmente quer tomar o lugar dele? Que patético, minha mãe nunca tentaria uma coisa tão estúpida quanto um cargo presidencial. Tudo que ela quer é lutar pelo que ela acredita, só isso.  

Diferentemente de alguns dias atrás, eu subo as escadas da portaria sem me importar com que seja pega. Saio pelo portão com a cabeça erguida e decidida a não voltar mais. Se eu realmente afeto tanto a vida dessas pessoas, vou fazer igual fiz com Jimin, vou sumir. Não quero que ninguém me respeite, não quero que ninguém me veja como sabe-tudo. Eu só quero ser eu mesma. Entro na primeira sorveteria que encontro e me sento em uma das cadeiras. Sinto meu telefone tremendo. 

-Alô? -pergunto ainda irritada com o que acabou de acontecer. 

-Alô, Mia? Onde você tá? Tô te procurando em todos os cantos e não te ach... 

-Eu saí da escola. -digo e suspiro tentando controlar meus batimentos ainda acelerados. 

-Você fugiu da escola?? -ela cochicha como se tivesse alguém perto dela. 

-Não, eu saí da escola. Sem nem me esconder. Provavelmente vou ser expulsa depois disso. -digo e fico encarando as marcas de dedo no meu braço. Ainda não consigo acreditar que aquele garoto pensa isso de mim. 

-Não vai não, eu falei com o professor e a turma que sua mãe tá passando mal desde ontem e pedi para vim te procurar quando Jungkook voltasse do banheiro. -ela diz e escuto um barulho de torneira, entendendo que ela provavelmente está se escondendo no banheiro.  

-Não adianta, Hana. Eu com certeza vou ser expulsa depois de enfiar a mão na cara daquele desgraçado do Jungkook. 

-VOCÊ O QU... -Hana começa a gritar com sua voz aguda quando alguém a interrompe.  

-Oi? Tem alguém ai? -uma voz mais madura pergunta e eu escuto um silêncio indescritível, como se Hana tivesse prendendo até a respiração.  

Escuto passos saindo do banheiro e logo escuto Hana soltando a respiração. 

-Foi por isso... que ele chegou com o rosto... vermelho... -ela diz ofegante e eu fecho os olhos com força. -Por que você fez isso? 

-Ele disse que eu só contestava as coisas que o papai dele faz porque minha mãe quer tomar o lugar dele.  

-Quê? Como que ele chegou a essa conclusão sem nunca ter falado com você? -Hana pergunta e eu fico olhando pra borda do cardápio de sorvetes. 

-Eu não faço a mínima ideia. Ele tava tão alterado que até machucou meu braço. 

-Eu sabia que ele ficava te encarando na aula, prestando atenção demais em você. Deve ter pensado que você era uma infiltrada da sua mãe ou alguma coisa assim! -Hana chega a uma conclusão e eu rio debochada. 

-Olha que coisa mais ridícula a se pensar, Hana! Depois eu que sou a teórica da conspiração. -digo e levanto meus braços para fazer um alongamento. -Além disso, ele parecia realmente com ódio de mim por ter dito todas aquelas coisas. Ele disse que esperava que eu fosse diferente das pessoas envolvidas na política... Também disse que todo mundo na sala me respeita e toma como verdade o que eu digo. 

-Mas isso é verdade. Pelo menos nesse assunto de política, as pessoas lá da sala confiam mais em você do que no professor. -Hana confirma o que eu queria que não fosse confirmado e abaixo minha cabeça. Como se já não bastasse acabar com as esperanças de Jimin, fiz a mesma coisa com todo mundo da sala. Não que eu me importe, mas... eu só não queria ter esse efeito na vida das pessoas. 

-Você acha que eu fui grossa com o menino, Hana? -pergunto preocupada. 

-Não, eu acho que você só tava surpresa demais com o pensamento dele e por isso que foi tão direta. Mia, às vezes as pessoas não querem escutar a verdade tão diretamente assim, às vezes elas só querem alguma coisa pra acreditar.  

-Mas eu não consigo lidar com isso. Não faz sentido pra mim ficar se iludindo por uma coisa que não é real! -digo ainda sem entender. 

-Mas elas não querem que faça sentido. Elas querem que seja real. -Hana diz e eu sinto um baque com aquelas palavras. Realmente as pessoas realmente querem em algo para acreditar, mesmo que toda a lógica esteja contra o que elas acreditam. Religiões, ideologias, discursos do governo. Elas só querem dormir tranquilas tendo em mente que algo de bom está sendo feito, mesmo que a verdade seja o contrário. É ai que entra o conceito de senso comum de Anthony Giddens. Algo para coordenar a sociedade, sem compromisso com a verdade, mas algo essencial para a existência dela. É isso! Por isso esse Plano foi criado! -Alô, Mia? Você morreu? Eu preciso voltar pra sala antes que achem que estamos implantando uma bomba da escola. 

-Pode voltar pra sala, Hana. Eu te amo, sabia?  

-Sabia sim. Agora vai pra casa antes que você bata em mais alguém na rua! -ela diz e desliga o telefone. Respiro fundo. 

Quando as pessoas não querem acreditar em algo lógico, que parece com a verdade, é porque elas escolhem acreditar em algo. Esse algo se chama senso comum e nem sempre é negativo. Pelo contrário, muitas vezes o senso comum vem como instrumento para alcançar a verdade justamente quando é questionado. Ele é necessário para a manutenção da ordem em uma sociedade. Talvez seja por isso que o Plano tenha sido criado, para dar às pessoas algo em que acreditar. Mas na verdade, nada está sendo feito sob esse propósito.  

Sinto meu celular tremendo mais uma vez. 

-Alô? 

-MIA! MIA PELO AMOR DE DEUS, ONDE VOCÊ ESTÁ? -escuto os gritos do meu pai no último volume. É a primeira vez que o escuto gritar assim. 

-Pai...? Aconteceu alguma coisa? -pergunto ainda confusa com a situação. 

-Eu liguei pra escola pedindo pra te liberar mais cedo por causa da sua mãe e eles falaram que você simplesmente saiu! Que irresponsabilidade é essa, Mia? Você tá querendo me matar minha filha?? -ele está claramente desesperado. Engulo em seco. 

-Perdão pai, eu me descontrolei na sala de aula e... 

-Nunca mais faça isso Yang Mia, só sua mãe agindo de um jeito totalmente contrário que o normal já tá sendo demais pra mim. Eu preciso de você pra me ajudar, não pra me atrapalhar mais, ok? -ele diz recobrando sua calma e com um tom sério.  

-Desculpa pai, nunca mais faço isso. -tento me redimir e escuto um suspiro pesado em retorno. 

-Escuta, Daehan tá indo te buscar na porta da escola. Vá pra lá. 

-Ok, até ma... -ele desliga sem se despedir. As coisas estão realmente sérias se meu pai tá ficando nervoso desse jeito. Desse ser difícil conhecer um pessoa por 20 anos e ela do nada agir totalmente diferente. Pego minha mochila e saio da sorveteria sem nenhuma expectativa do que está por vir. 

Quando me aproximo da escola avisto o carro de Daehan parado em frente. Ando um pouco mais rápido para não correr risco de ser chamada por alguém da diretoria e entro no carro. 

-Oi, senhor Daehan. -digo não tão animada como todos os dias. Ele não me responde. 

A viagem de carro parece uma viagem até um enterro, ou pode ser só coisa da minha cabeça. Daehan não troca uma palavra comigo e mais nenhuma mensagem do meu pai chega no meu celular. Tento ligar pra minha mãe mais uma vez, o telefone chama até cair. Ter que esperar, mas ao mesmo tempo não ter nenhuma notícia é doloroso demais. 

Paramos em frente à minha casa e eu já saio do carro em direção ao portão. Abro a porta de casa e vejo meu pai sentando no sofá com seu notebook em mãos. 

-Oi, pai. -digo e me sento ao seu lado no sofá. 

-Vamos prestar queixa quando for 13:00. -ele simplesmente diz e eu respiro fundo. 

-Mas a polícia vai agir? Que eu saiba o desaparecimento só é oficial depois de 48 horas. -contesto. Meu pai não tira os olhos do computador, não sei se ele está trabalhando ou tentando achar alguma coisa da minha mãe. 

-Ela vai agir se tivermos alguma prova de que ela foi sequestrada. Antes da polícia vir aqui para registrar o boletim de ocorrência, quero que você vá em um almoço que sua mãe tinha de compromisso hoje e tente descobrir alguma coisa do paradeiro dela. -olho perplexa para meu pai, que diz tal coisa de forma natural. 

-Você acha que ela foi sequestrada? -digo entre suspiros e meu pai finalmente para de digitar para me olhar nos olhos. 

-Filha, você sabe que ter uma vida pública é correr riscos diariamente. Sua mãe é legitimamente uma opositora do Governo atual e com essa mudança no cenário mundial, algumas pessoas podem ter se incomodado com a posição dela. 

-Mas ela nunca disse nada publicamente sobre ser contra o Plano. 

-Mas ela pode ter votado contra ele na Câmara. Lembra que antes dela ter ficado estranha, ela teve uma reunião? -fico encarando o rosto do meu pai sem resposta. Será possível que mandaram sequestrar ela de dentro da Câmara? Eu não duvido que seriam capaz de tirar alguém de jogo assim, mas será que consideravam minha mãe uma ameaça tão grande assim? Tento não pensar no pior. 

-Tá bom, mas eu sou menor de idade. Que credibilidade eu vou ter pra conversar com os deputados? 

-Você sempre acompanha sua mãe nas reuniões, diferente de mim que nunca vou. O almoço começa às 11 então procure se arrumar. -ele diz e volta a mexer no computador concentrado. Fico um tempo processando as informações e me levanto do sofá pra ir me arrumar. -Ah, Mia. 

-Daehan disse que sua mãe deixou uma carta para você quando entregou as caixas pra ele. Acho que é algo importante. -meu pai diz e eu sinto minhas pernas bambearem. Uma carta pra mim? Por que não para o meu pai? Será que é alguma coisa sobre o que conversamos naquele dia?  

Mudo meu rumo do meu quarto para o escritório da minha mãe. Não sei o que vou encontrar nessa carta, mas espero não ser alguma coisa terrível. Tudo o que eu quero nesse momento é minha mãe aqui.  

Entro no escritório que hoje parece ser mil vezes maior. As caixas estão em cima da mesa de minha mãe e eu fico as encarando por um momento. Respiro fundo e me aproximo das mesmas, avistando um envelope lacrado em cima de uma delas. “Para Mia” diz o envelope. Sinto um arrepio correr por todo o meu corpo e interpreto isso como um mau sinal. 

-Espero estar errada... -digo cochichando para mim mesma. Pego o envelope, o abro de forma a rasgá-lo o mínimo possível e tiro o pedaço de papel que está dentro dele. 

“Seul, Coreia do Sul  

 23/07/2054 

 Querida filha, 

Sinto muito por ter que te mandar essa carta sem nenhuma explicação, mas a situação pede um meio de comunicação que não seja facilmente acessível. Meu coração dói muito por eu não poder te falar isso pessoalmente hoje, mas foi a melhor forma que eu encontrei para te proteger. Para proteger nossa família.  

O que está acontecendo hoje no mundo é maior que todos nós. Eu gostaria de ficar teorizando, brincando de Harvey Specter e Mike Ross com você, mas infelizmente não tenho tempo pra isso. Vou ser rápida e objetiva com essa carta. O Plano Novo Mundo não é o que parece, você como uma boa crítica já deve ter suspeitado isso. Eu descobri isso da pior maneira, sem quere. 

No dia da reunião, antes de ocorrer a votação acerca do Plano, eu estava na sala de computadores para fazer uma pesquisa sobre os índices de desemprego da cidade, adiantando serviço e já documentando as coisas. Eu faço isso todos os dias, apesar da sala de computadores só abrir oficialmente depois do almoço, a funcionária que fica com as chaves é minha amiga. De repente, dois homens entraram nela, não pude identificá-los por estar tudo escuro. Eles provavelmente tiveram que conversar ali, porque a sala de reuniões estava sendo preparada e eles acabaram não me vendo não só porque eu estava no fundo, mas porque estavam com pressa. Me abaixei um pouco para me esconder e escutei a conversa. 

Pelas vozes consegui identificar que era o assessor do senhor Presidente, Gyeon Mookbae  e um dos deputados aliados ao Governo, Kim Jooyeon. O deputado perguntou em tom formal por que o assessor o havia pego de surpresa para levá-lo a um lugar escondido para conversar. O assessor disse que era um assunto de extrema confidencialidade, que apenas o deputado saberia porque era de confiança do Presidente. Jooyeon perguntou porque o Presidente não mandara um email, e o assessor disse que provavelmente todos os aparelhos eletrônicos dele estariam grampeados nesse momento, então decidiu passar a mensagem oralmente. E então começou a falar. 

 

O assessor começou explicando o Plano Novo Mundo da mesma forma que o Presidente fez na televisão hoje e que a votação que aconteceria seria para aprovar o Plano. Logo depois, ele contou a verdade por trás do Plano. Começando há quatro anos, quando o primeiro surto de fome aconteceu no Oriente Médio. Numa cidadezinha de 100 mil habitantes, o Governo se preocupou e pediu ajuda aos Estados Unidos. A ONU, reportando o problema para o Presidente, começou uma ação afirmativa no país, mas quando Urnie assumiu, tal ação foi interrompida bruscamente. Quando questionado o motivo de ter impedido uma ação da ONU, o Presidente norte-americano disse que a mesma não podia agir em um problema interno de distribuição de alimentos. Na verdade, as taxas de oferta de alimentos caiem gradualmente em todos os países desde 2017. No começo, os governos tentaram resolver com campanhas de preservação ambiental e climática, o momento de 2020. Depois uma campanha em prol da diminuição do consumo de carne, visto que apenas 10% da população mundial tem acesso a carne. Mas com o passar do tempo essas campanhas foram diminuindo e não haviam novas iniciativas. Nós do parlamento teorizávamos, falando que essa falta de campanhas aconteceu para não gerar desconfiança na população de que a situação estava saindo do controle das mãos dos governantes. 

Mas a realidade é que os governantes sempre estiveram no controle. Ao invés de tentar inibir a diminuição da oferta de alimentos, eles redirecionaram o problema para os demandantes menores, os pequenos e médios comerciantes. Em outras palavras, as famílias de classe média e baixa. Os empresários e comerciantes do ramo não perceberam nenhuma diferença na hora de comprar alimentos, não houve nenhuma falta. E por aproximadamente 30 anos, essas faltas nos supermercados populares se tornaram os surtos de fome em grande escala. A desculpa que os Governos davam é que estava assim para todo mundo e que eles tavam tomando atitudes para melhorar a situação. Entretanto, os empresários e seus filhos começaram a perceber que não estava faltando comida pra eles, e a divulgar isso. As pessoas começaram a desconfiar dessa falta seletiva de comida e começaram a se manifestar nas redes sociais. Por que falta comida para o habitante do Sudão, mas não para mim americano? Então os Governos começaram a impedir a oferta de comida para algumas cidades do próprio país. Cidades pequenas, com IDH baixo, com alto índice de pobreza. 

Mesmo assim quanto mais surtos de fome, mais teorias rodavam na internet. Existem muitas pessoas como você, que se perguntam sobre as coisas e procuram respostas. O ser humano é, apesar de tudo, racional e questionador. A exigência de explicações foi tão grande que em uma medida de acelerar o Plano, os Governos resolveram anunciar a guerra. No entanto qual era o objetivo, qual era o Plano? Distrair as pessoas enquanto eles escondiam as coisas terríveis que fizeram nos últimos 30 anos? Por que eles fizeram isso durante esses anos todos? Para conseguirem concluir a fase final do Plano que está em prática de pouco a pouco.  

 

O controle de oferta de alimentos e os surtos de fome foram apenas o começo do Plano Rehabitar, que é o nome real do PNM, conhecido apenas pelos governantes de 5 países: EUA, Inglaterra, África do Sul, Japão e Coreia do Sul. Esse Plano oculto que está sendo mascarado pelo Plano anunciado pela TV tem como objetivo habitar de novo o mundo que nós conhecemos. Lembra das teorias sobre controle populacional? A indústria farmacêutica aplicando doenças de propósito na parcela pobre da população sob o pretexto de testes de cura? Isso tudo é real, Mia. O Plano real dos Governos mundiais é eliminar parte da população e rehabitar o planeta da maneira que eles querem. 

E não é só parte da população mundial, é a população de todos os continentes. É claro que nem todos as pessoas que sabem do Plano concordaram com deixar as pessoas morrerem de fome, é algo difícil de limpar depois. Então os Governos optaram por uma guerra nuclear para matar o máximo de pessoas no menor tempo possível, selecionando os países que não iriam ser atingidos para salvar algumas famílias e o restante ‘morrer de fome’. O que eles não esperavam foi a reação violenta das pessoas, que hoje em dia estão mais informatizadas que nunca. O conhecimento é realmente a arma do século 21. Mas eles utilizaram esse contratempo para armar outra forma de concluir o Plano. Utilizaram essa tentativa desesperada de ‘acabar com os conflitos entre EUA e China’ e cancelaram-na como forma de mostrar benevolência e compaixão pela população, lançando um projeto de paz. Com o PNM as questões da fome serão resolvidas em meses, todos trabalhando juntos em prol do bem-estar social.  

 

Na verdade, as famílias que foram convocadas para a África do Sul serão as convocadas para repopular o planeta, enquanto os próprios habitantes de lá serão a mão de obra dos próximos anos. Após todas as famílias irem pro país, serão jogadas bombas nucleares em todos os continentes. Apenas 56 milhões de pessoas restarão no mundo, aquelas que foram escolhidas para viver, os mais ricos e influentes. Quando eu escutei isso, Mia, eu quis vomitar. Eu não sei como permaneci agachada, mas eu deixei minhas lágrimas correrem pelo meu rosto. Foi o momento que eu perdi a fé na humanidade. A que nível a ganância precisa estar para matarem bilhões de pessoas por causa de dinheiro? O que é o dinheiro perto de uma vida humana? Um pedaço de papel perto de um coração que bate? De um cérebro que pensa? De uma criança que tem direito de ter um futuro? Eu não consigo entender, eu não quero entender. Pra mim um ser humano não pensa assim. Que sistema podre alcançamos, onde foi que erramos como humanidade? Ignoramos os pensadores que falaram que as ideologias radicais destruiriam nossa sociedade? Nossa humanidade?  

Mas ai eu me lembrei de duas pessoas muito importantes. Sabe, Mia, os seres humanos têm defeitos. Muitos e muitos defeitos, alguns toleráveis, outros que merecem uma punição pela lei. Mas todos os seres humanos mudam. A mudança existe em tudo no planeta, mesmo que você tenha certeza que algo é imutável, nunca é. E essa é a única certeza que a gente tem. Esses governantes que decidiram, as pessoas que fizeram esse Plano elas podem mudar. Você só precisa dar um motivo bom o suficiente para elas mudarem. Eu me lembrei de você e do seu irmão, e de repente senti aquele fogo no meu peito. A motivação, algo que eu só sentia em momentos particulares e em pouca quantidade. Mas dessa vez, naquela sala escura, eu senti aquela sensação o mais intensamente o possível. E saí daquela sala de cabeça erguida, mesmo sabendo que os horários nos documentos que eu mandei, denunciariam minha presença ali. 

E foi com a cabeça erguida que eu entrei no plenário para votar contra este plano covarde. Mesmo que todos votassem à favor esperando um milagre, eu sabia que não era. E é de cabeça erguida que eu espero as consequências. Eu não quero ser uma heroína, filha, eu quero ser o que eu sou até o último momento! Sim, eu me arrisquei pelas pessoas, me arrisquei por nossa família. Mas o mais importante de tudo: eu me arrisquei por mim. O que quer que aconteça comigo, eu saberei que foi a minha escolha. Nunca abandone seu direito de escolher. E quando a tristeza, a raiva, a desmotivação bater no seu coraçãozinho, sempre se lembre da sua capacidade de sorrir e de mudar as coisas à sua volta. Você é mais do que capaz, eu te conheço muito bem. 

Minha princesa, eu confio em você mais do que em qualquer pessoa. Eu sei que você tem plena capacidade de cuidar de si mesma caso algo aconteça comigo, apesar de que pedir isso aperta meu coração. Eu queria ver você se formar na faculdade, começar no seu emprego, ter sua família. Eu queria muito segurar um netinho nos braços. Mas infelizmente, às vezes nossas escolhas nos privam de outras coisas. Eu sei que no final tudo vai valer a pena... Faça o que achar melhor pra proteger você, seu pai e seu irmão. Diga a seu pai que eu o amo como nunca amei ninguém. No começo, eu tive muitas dificuldades de me relacionar com um homem por causa do meu pai, mas... Seongjo conseguiu me convencer de que havia amor após muita insistência e uma convivência de 25 anos. E seu irmão... me dói muito ter que deixar Yohan assim... Não porque ele precisa de mim, mas porque eu sei que ele é uma criança maravilhosa e se tornará um grande homem. A sociedade um dia vai aprender a se adaptar à mentes iguais a dele. No momento que eu escrevo essa carta eu sinto dor, eu já sinto saudades do rostinho de cada um de vocês. Mas mais do que uma lembrança minha, vocês têm minha presença em cada fragmento do corpo de você. Em cada célula, um pouquinho de mim. E seu pai tem a vocês. Não deixem de viver sua vida por minha causa, ou tudo que eu um dia signifiquei pra vocês foi errado. Mia, eu te amo. Não se esqueça do que eu falei, eu vou sempre estar com você. Seongjo, eu te amo, controle suas manias loucas e cuide bem dos nossos presentes. Yohan, mamãe te ama, nunca desista de nada, saiba que seu pai e sua noona sempre estarão aqui pra você.  

                       Com muito amor, 

Mamãe” 

... 

 

Dentre os vários sentimentos que eu sinto nesse momento, o que grita mais alto é a raiva. Seguro a carta meio trêmula e fecho os olhos com força. Que droga, mãe. Você fez isso de impulso. A gente poderia ter resolvido isso juntas. A gente... 

Sinto as lágrimas se formando no meu rosto, mordo os lábios. Começo a soluçar. Eu não acredito que perdi minha mãe desse jeito. Não desse jeito.  

A vontade é de rasgar essa carta em mil pedaços, mas eu sei que daqui um tempo minha raiva vai passar. Vejo minhas lágrimas caírem no chão e me sento no mesmo.  

 

Ainda existe uma esperança. Ainda pode dar tempo. Olho para a letra da minha mãe em meio aos meus soluços. 

Pego a carta, corto a maior parte da mesma, a parte que conta do Plano. Rasgo ela em incontáveis pedaços, guardo eles na minha bolsa. Ninguém vai saber desse Plano a não ser eu, vai ser a melhor forma de proteger minha família, de proteger todos próximos de mim. Soluço mais uma vez. 

Escuto batidas na porta. 

-Mia? -escuto a voz do meu pai e respiro fundo. As lágrimas não param de percorrer meu rosto. Ele não espera mais nenhum segundo, entra já com um semblante desesperado. -Mia!  

Ele corre para a minha direção, pega a carta de minhas mãos e eu não sinto mais vontade de ficar calada. Verbalizo meus soluços enquanto vejo a expressão do meu pai ficar cada vez mais cheia de dor, e a dor no meu coração se intensificar. Ele começa a chorar também. 

-Pai... 

 

Desvio o olhar pra tentar amenizar a dor no meu peito. Mas ainda tem esperança, não tem? Eu sei que tem, eu sinto que tem. Nesse ponto deve ser a quarta vez que ele relê a carta. Olho para o lado e imagino Yohan parado na porta com os olhinhos cheios da lágrimas. 

Não, o Yohan não pode nos ver chorando desse jeito. Puxo o rosto do meu pai que ainda lê o pedaço da carta que eu deixei.  

-Pai. Não podemos simplesmente ficar aqui. Ainda dá tempo. -digo e ele olha pra mim com os olhos desfocados. -Eu vou no almoço e você fica pra fazer o B.O. Lava seu rosto pro Yohan não te ver assim, por favor. -digo e me levanto do chão.  

 

Engulo todos os pensamentos negativos e vou quase correndo para meu quarto.  

Já são quase 11 e meu rosto está todo borrado de maquiagem escorrida. Lavo ele com água e sabão para refazer a maquiagem. Mesmo com pressa, a faço da melhor forma possível para poder me destacar no meio daquelas pessoas hipócritas. Qualquer coisa que eu fizer agora pode ser crucial para salvar minha mãe. 

Dou uma última olhada no meu vestido antes de sair do quarto. Desço as escadas relutante, tento não prestar muita atenção na expressão de meu pai no sofá. Diferente da minha mãe, ele é bem sincero e transparente. E nesse momento está com uma expressão totalmente confusa e com dor. Dou um último suspiro e saio pela porta da frente. Daehan não está do lado de fora do carro como sempre.  

Entro no carro e passo o batom no mesmo, como naqueles filmes. Ele liga o carro e saímos de perto de carro. Não sei porque sinto alguma coisa misturada no meu estômago, como se fosse ambos uma sensação boa e uma ruim. Será que é meu racional e meu emocional em conflito? Se for, eu não sei o que sentir sobre isso. A não ser que eu prefiro a sensação boa. Fico olhando para o lado de fora do carro, minha vizinhança rapidamente passando. É engraçado como que eu nunca cheguei a reparar nisso, mas ela é muito bonita. Ela é bem distribuída entre casas grandes e pequenas. Não sei se isso é uma coisa boa, mas é só uma observação.  

Quem diria, a garota que mais odeia formalidades, que não quer entrar pro mundo político... tendo que se disfarçar dessa forma pra tentar salvar a mãe. Quem diria que eu estaria nessa situação há três dias? Realmente mãe, tudo muda. O assustador é quando muda bruscamente de uma hora pra outra.  

-Chegamos, senhorita. -Daehan diz e eu sinto um calafrio percorrendo meu corpo. É isso. Eu vou dar minhas caras. Ser minha mãe por um dia.  

-Obrigada, senhor Daehan. -agradeço e saio do carro com minha bolsinha. Meu único foco é arranjar uma forma de me aproximar de alguém para tentar puxar um assunto. Vou seguindo a trilha de pedras enquanto os seguranças me observam com cuidado. Quanto mais vou adentrando na mansão, vou percebendo que o almoço é na verdade um churrasco e as pessoas estão espalhadas pelo quintal e pelo jardim. Droga... isso pode dificultar meu plano. Preciso de uma nova estratégia. 

Apesar de estar me considerando bem chamativa, as pessoas não olham através do seu próprio ego para me perceberem. Elas estão muito preocupadas em rir falsamente de piadas rídiculas e de tomar seu martini que tem um gosto muito amargo, mas todo mundo bebe socialmente, não é mesmo? Olho em volta e tento achar rostos conhecidos, não encontro ninguém.  

O desespero toma conta do meu corpo, esse tempo de espera pode ser tempo demais para a minha mãe. O que eu faço, o que eu faço... 

-Com licença. -uma voz masculina me tira dos devaneios. Olho para o dono da vez e percebo que seu rosto não me é estranho. -Bom dia. 

-Bom dia... -sorrio sem demonstrar minha confusão com o fato de reconhecer o rosto daquele garoto, mas não saber ao certo quem é. Olho em volta mais uma vez.  

-Meu nome é Kim Namjoon, mas não acho que você deva me conhecer. Nossos pais são...”rivais”. -ele dá um ênfase cômico na palavra rivais e eu volto a olhar para ele. Kim Namjoon... Seus olhos amendoados, seu rosto comprido... 

“Pelas vozes consegui identificar que era o assessor do senhor Presidente, Gyeon Mookbae  e um dos deputados aliados ao Governo, Kim Jooyeon. O deputado perguntou em tom formal por que o assessor o havia peg...” 

É isso! O filho de Kim Jooyeon, o deputado de maior confiança do Presidente. E também o menino do sofá daquele jantar de terça-feira. Se ele está falando comigo agora, não é porque ele gostou do meu rostinho. Ele com certeza sabe de alguma coisa... É isso, é com ele que eu preciso tirar informação. 

-É mesmo? E como você conhece a minha mãe?  -digo parecendo interessada e começo a caminhar lentamente em direção ao jardim. Ele não está completamente vazio a ponto de dar chances pro garoto fazer algo comigo, mas também não está lotado para que outras pessoas escutem nossa conversa. 

-Ah... sua mãe é fantástica! Além disso, eu sou muito interessado no campo político, quero poder me envolver com isso formalmente um dia.  

-E o que te impede? -paro para o olhar de relance e ele sorri.  

-Meu pai. -ele ri e eu sorrio em resposta. Tudo precisa ser calculado para que pareça uma conversa cordial até que eu consiga forçá-lo a dizer o que ele quer comigo. -Você já deve o conhecer, o deputado... 

-Kim Jooyeon. Mas é claro que sim. -digo e paro em frente a um jardim vertical de tulipas. Olho para Namjoon enquanto deslizo meu dedo na entrada da minha bolsa. Ele para e se coloca ao meu lado. 

-Vejo que você também é interessada no campo. -ele pontua, eu balanço a cabeça indicando um “mais ou menos”. 

-Interessada em política sim, mas me envolver nesse ramo? Não. Eu prefiro o anonimato. -informação demais, Mia. Ele pode usar isso contra você mais tarde. 

-Eu entendo, afinal, esse trabalho com certeza envolve muitos riscos, muitos perigos ligados à vida pública... -ele olha nos meus olhos pela primeira vez. Eu já saquei que ele sabe algo da minha mãe, então ele provavelmente vai falar disso agora. -Falando nisso, onde está sua mãe? Eu vi você chegando sozinha. 

-Esperando minha chegada, Namjoon? -pergunto debochada e ele desvia o olhar para frente. -Minha mãe está ocupada hoje, muita papelada pra analisar, sabe como é... 

-Sim, eu sei. Meu pai é praticamente invisível lá em casa. -ele aparentemente tem alguns ressentimentos em relação ao pai dele. -Bom, é uma pena. Adoraria conhecer sua mãe formalmente hoje.  

Percebo que ele está tentando perceber qual é o meu grau de desespero em relação à informação que ele quer me dar pra pedir outra em troca. Mas eu não vou deixar ele perceber isso. 

-Bom, foi um prazer conhecê-lo, Namjoon. Mas preciso falar com umas pessoas hoje... -me despeço com um sorriso e começo a me afastar do lugar que estamos. Vejo de relance seu olhar para o chão e um pequeno suspiro, percebendo que ganhei essa pequena disputa de blefes. 

-Mas eu asseguro que você precisa falar comigo antes. -paro onde estou e dou uma rápida olhada em volta. Tem alguém por perto? Não vejo ninguém. É agora que ele vai me entregar a informação. -Eu sei que sua mãe está desaparecida.  

Apesar dessas palavras me doerem, ainda não é o que eu quero. Preciso forçar mais um pouco. 

-Não sei do que você está falando. -faço minha melhor cara de inocência e ele sorri de lado. 

-Mas eu sei exatamente do que eu estou falando. Como eu te disse, eu sou um rapaz interessado, mas mais do que isso, sou curioso... -ele começa a se aproximar lentamente de mim, esperando algum tipo de recuo. Permaneço da mesma forma que estava. -E ocasionalmente olho os documentos e emails do meu pai. Vim falar com você, porque vi o nome da sua mãe em um lugar... importante. 

É isso, é o que eu preciso para o próximo passo: o email do pai dele. Mas como acessá-lo? Não tenho nenhum hacker ou ajuda de última hora.  

-Bom, e como um bom interessado em política e curioso, você certamente não está falando comigo por importar com a minha mãe... -lanço uma pequena ironia e fico o olhando para obter uma reação. Agora preciso me afastar o máximo possível da situação para que não o dê nenhuma informação que seja útil pra ele. Não conheço esse garoto! Além disso, se o que ele diz é verdade o pai dele participou de tudo isso... 

-Com certeza. -ele deu um sorrisinho. 

-Me desculpe, não posso ajudar. -concluo a conversa e me afasto alguns centímetros. Ele parece um pouquinho confuso. 

-Você realmente não está curiosa sobre o desaparecimento da sua mãe? -ele pergunta tentando me desestabilizar emocionalmente. Eu sorrio. 

-Ainda não tenho certeza do que você está falando. -falo uma frase ambígua pra ele entender que só isso de informação ainda não é o suficiente. Ele viu isso no email do pai, porque veio me contar? O que ele quer comigo? Também quer me sequestrar? E se a única coisa que viu no email foi falando sobre minha mãe ter escutado a conversa? Isso eu já sei. Preciso saber exatamente o que o tal email tem a ver com o desaparecimento.  

-Claro que sabe, afinal, um desaparecimento não é a forma mais cordial de se resolver um problema. E se chegou a esse ponto, sua mãe sabe de alguma coisa bem séria... -ele começa a se expôr. 

-Ai que você se engana: supondo que minha mãe tenha me contado essa “coisa bem séria”. Se é tão séria assim, ela esconderia de mim pra me proteger, não acha? -o olho por uma última vez e começo a me afastar de novo. Ele permanece ali, parado. Acho que posso considerar um xeque-mate.  

-O que eu li no email, foi que meu pai mandou matar sua mãe. -congelo no mesmo lugar. Tento engolir em seco, para não deixar o impacto de suas palavras transparecer. Mandaram matá-la? Quando? Onde? Com esse tempo de silencio, Namjoon já teve ter percebido que pegou no meu ponto fraco. 

-E por que eu confiaria em você? -pergunto com um tom mais grosso que das outras vezes. Agora eu não tô mais brincando, agora chegamos onde eu quis chegar.  

-Porque eu sou curioso. E sei que meu pai deixa o telefone dele em casa quando tem compromissos sociais. Podemos descobrir mais coisas sobre o paradeiro da sua mãe. -cerro meus dentes, me odiando por pensar que tudo isso não passa de um jogo pra ele. É a vida da minha mãe em risco e tudo que ele quer é negociar isso por uma informação idiota. Acabo me virando bruscamente e encaro Namjoon, cuja expressão de surpresa denuncia que não esperava um encontro de olhares tão rapidamente. 

-E o que você ganha com isso? Entregando seu pai dessa forma? -pergunto entre dentes e ele acaba sorrindo um pouco. 

-Eu espero ganhar a informação. Sobre meu pai... ele nunca vai ser descoberto por isso. Se fosse, não seria punido. Mas o que me irrita é o fato dele ter sido mandado fazer isso, e como bom cachorrinho do presidente que ele é... ele fez. Se a justiça existisse, eu ganharia o entregando também. -Namjoon diz olhando bem no fundo dos meus olhos e é assim que eu sei que ele está falando a verdade. O ressentimento do pai, a vontade de entrar na política. Não é porque não gosta de seu pai, mas sim porque não gosta de ter um pai pau mandado do presidente.  

-Então vamos. -digo e começo a andar rapidamente pelo jardim. Pego meu celular rapidamente na bolsa sem que Namjoon perceba e acesso o teclado de emergência. Pela primeira vez, vou usar o código que minha mãe fez para momentos em que eu achasse que tivesse em perigo. Digitei os três últimos dígitos do número de Daehan, depois a quantidade de tempo que queria que a polícia me rastreasse e fosse me buscar: 40 minutos. É mais que necessário para descobrir o que preciso descobrir e chegar no local a tempo. 

Se eu não descobrir nada e acabar ficando presa na casa de Namjoon, caso seja uma armadilha qualquer, pelo menos ele vai ser pego. Seu pai pode ser inocentado por ser um deputado, mas ele ainda é só o filho do deputado e pode causar muita dor de cabeça pro pai. Então nessa situação eu saio ganhando de ambas as formas, exceto o fato que eu corro perigo nas duas. Ah e daí? Eu escolhi entrar nesse meio quando rasguei aquela carta.  

Quando ambos saímos da área do jardim, vejo Namjoon indo pra direita mais rapidamente e eu diminuo meus passos para não parecer óbvio que vamos sair juntos. Ando no meio dos deputados que sequer notam minha presença e continuo andando pra direção que Namjoon foi. Depois de alguns minutos, saio da mansão com os seguranças distraídos com algumas pessoas que entram. Ando normalmente, e só quando saio totalmente da propriedade que olho em volta para achar o carro de Namjoon. O vejo no final da rua com o pisca alerta ligado. 

Abaixo um pouco a cabeça e continuo caminhando normalmente para o carro. Droga, isso é exposição demais. Assim que eu conseguir descobrir o paradeiro da minha mãe, o pai de Namjoon vai de alguma forma chegar no dia de hoje. Tudo bem eu passar desapercebida, mas o Namjoon deve ser bem conhecido dentre os deputados. Vou ter que resolver esse problema de exposição mais tarde. Entro no carro pelas portas traseiras e já trato de tirar meus sapatos que a este ponto estão me matando. 

-Bom, minha casa é cercada de câmeras de segurança, então você não pode simplesmente entrar. -Namjoon dá partida no carro e começa a andar. Suspiro. 

-Qual é o plano? -pergunto colocando minha bolsinha no banco e olhando em volta para ver se acho algo suspeito no carro. 

-Embaixo do meu banco tem um uniforme que eu consegui de uma pizzaria. Um amigo me deu, não tem nada documentado. -olho embaixo do banco e vejo o uniforme verde escuro bem dobrado. -Você vai entrar lá em casa como se tivesse indo entregar uma pizza, a caixa de pizza está embaixo do outro banco. 

-E ninguém vai suspeitar quando o entregador ficar dentro de casa por muito tempo? -pergunto enquanto pego ambos o uniforme e a caixa. 

-Como eu disse, eu tenho um amigo que trabalha nessa pizzaria. Você vai se disfarçar como se fosse ele. -pego uma buchinha para amarrar o meu cabelo enquanto Namjoon dá uma diminuida na velocidade pra não levantar nenhuma suspeita. 

-Pensei que um cara como você não tivesse amigos funcionários. -digo debochada e vejo ele olhando pelo retrovisor. 

-E eu achei que uma pessoa como você fizesse julgamentos. -ele diz com um sorriso. Quem ele pensa que é? Tiro o vestido sabendo que ele vai ficar desconfortável e ele desvia o olhar no mesmo momento. -Você é maluca? 

-O quê? Tava achando que eu ia entrar com o vestido por baixo do uniforme? -dou uma risada sarcástica e continuo a colocar a roupa verde musgo.  

Termino de ajeitar meu cabelo por baixo do boné quando Namjoon para bruscamente na esquina de uma rua. 

-Aqui ainda não tem nenhuma câmera de vigilância escondida, minha rua é a próxima. Conta dez minutos pra poder ir para lá. -Namjoon diz e eu abro a porta do carro. -Não senhorita, deixa sua bolsinha no carro.  

-Tá maluco? Como eu vou confiar em uma pessoa como você com minha bolsa? -digo ofendida e tiro a bolsa do banco. 

-Não preciso do dinheiro que você poder ter na carteira e seu celular provavelmente tem dispositivo de reconhecimento facial. A não ser que você tenha alguma informação aqui dentro? -suspiro irritada com sua demanda e abro a bolsa para conferir tudo que está dentro antes de deixá-la com ele. 

-Dentro do porta-luvas. -abro o mesmo e soco a bolsa lá dentro. -Quero ela na mesa no momento que eu entrar na sua casa, ou começo a gritar socorro e a arrancar minha roupa. -ameaço e fecho o porta-luvas. Namjoon sorri triunfante e dá uma ré no carro para continuar andando na mesma velocidade que fez no restante do percurso. O filha da puta me deixou contato 10 minutos de cabeça... 

... 

... 

É agora. Saio andando de onde eu tô como se tivesse estacionado a moto ali e seguro a caixa com cuidado pra poder fingir que tem alguma coisa lá dentro. Sinto meu coração disparando à medida que caminho pela rua deserta nesse horário. Só tem mansões gigantescas e a de Namjoon é bem a da esquina, como pude ver quando ele entrou com o carro. Paro em frente à mansão, várias câmeras apontam pra mim. Abaixo o rosto devagar pro boné tampá-lo por completo e toco a campainha.  

Devia ter tirado a maquiagem antes de vir. Espero alguns segundos, tento parecer relaxada. Namjoon abre o portão já com roupas informais e um sorriso falso. 

-Wonho! Ainda bem que você chegou cara, tava com fome. -ele me abraça de lado e me puxa pra dentro. -Ainda tá com aquela amigdalite?  

Aceno a cabeça concordando e ambos andamos até a porta da casa. A entrada geralmente é grande, mas agora tá parecendo infinita.  

-Cara, você não tem noção do tanto que eu tava com saudade dessa pizza... -Namjoon continua conversando cordialmente e me abraçando de lado. Eu só quero entrar dentro da casa e poder tirar esse boné.  

Namjoon abre a porta normalmente e ambos entramos. Assim que ele fecha a porta, ele se afasta de mim e eu o olho pra checar se tá tudo certo. 

-Pronto. -ele diz e eu suspiro aliviada. Tiro o boné e o sigo rapidamente até um cômodo da casa. Quando entramos julgo ser o escritório de seu pai, cheio de arquivos e livros grandes. -Aqui, vou te mostrar o email do meu pai antes da gente começar a mexer no celular. 

-Cadê minha bolsa? -pergunto seca e Namjoon não desvia o olhar da tela do computador. -Como eu vou saber que nesses 10 minutos você não excluiu alguma coisa? 

-Sua bolsa tá bem ali. -ele aponta pra mesinha do lado da escrivaninha. -E por que eu excluiria sendo que a gente vai olhar a lixeira? Além disso, nesses 10 minutos eu troquei de roupa e avisei meus pais que vim embora pra resolver algumas coisas.  

Pego minha bolsinha e checo se tudo está ali, inclusive o papel rasgado. Suspiro quando percebo que está e volto para o lado de Namjoon, que mexe no computador concentrado. Cada tecla que ele digita parece uma fração de segundo que eu tô desperdiçando pra ir buscar minha mãe. 

-Claro que ele excluiu o email, e na caixa de excluídos não tem nada... -Namjoon diz e eu fecho os olhos com força. Como que a gente não contou com a possibilidade mais idiota? 

-E agora? -pergunto incomodada com a pequena falha no plano. 

-E agora que isso vai facilitar nossa vida! -Namjoon sorri e pega um HD externo com uma espécie de T de entradas USB, ao invés de ser aqueles Ts de tomada. Não consigo raciocinar muito bem com meu coração disparado desse jeito.  

-O que é isso? -pergunto confusa com aquele aparelho. Namjoon conecta ele no computador e no celular do pai ao mesmo tempo.  

-Nossa varinha mágica. -ele diz com um sorriso. Assim que conecta, abre uma janela preta tipo um prompt de comando do computador, e Namjoon começa a inserir uns códigos bem loucos. 

-Não sabia que você era hacker... -digo meio surpresa. Ele definitivamente não tem perfil pra ser hacker. 

-E eu não sou. Meu amigo que me deu esse HD e me ensinou algumas coisinhas. Nada perto do que ele pode fazer, na verdade. -ele diz enquanto termina de digitar o comando e dá Enter. A janela preta some e depois de alguns segundos a tela do computador dá tipo um blackout sincronizada com a tela do celular. Namjoon abre a janela do email e da mensagem em cada aparelho, só que dessa vez tem uns arquivos a mais escritos com letra roxa. 

-Tá vendo, esses de roxo foram excluídos. -Namjoon aponta tanto pros emails quanto pras mensagens. -Se a gente olhar na lixeira... 

Namjoon entra na lixeira regular do email do pai e está cheio de emails roxos na mesma. Abre o último enviado, intitulado “serviço 245”. 

“Kwon, a deputada Lee Heejung, procure tudo dela, toda sua agenda de horários nas próximas 24 horas. Preciso que o serviço seja feito o mais rápido possível.” 

-O email foi mandado antes de ontem, às 16:27... -Namjoon diz. Minha mãe saiu de casa ontem mais ou menos às 13:00 , então ainda tem chances dela ter escapado. 

Que merda, o email não fala onde ele mandou esse tal de Kwon fazer o serviço.  

-Olha as mensagens e tenta descobrir onde seu pai mandou fazer o serviço. -digo com as mãos meio trêmulas. Namjoon pega o celular e olhas mensagens excluídas. 

-Tem uma antes de ontem às 16:34. -Namjoon diz e abre a mensagem. 

“Senhor, você quer que eu faça isso no galpão 7? Essa mulher é muito conhecida.” 

É isso, é o tal do Kwon falando do serviço. Namjoon vai nas mensagens enviadas e abre a primeira da lista. 

“Seu idiota, não me contate por mensagem! Sim, realize no galpão 7, sem sujeira.” 

Sinto meu sangue ferver de ódio e bato na mesa com força. 

-Você sabe onde fica esse galpão 7?! -pergunto e puxo a manga da camisa de Namjoon. Ele para uns segundos pra pensar, mas depois para se lembrar de algo. 

-Sei, fica a duas ruas abaixo da que você tava esperando, aqui na Daechi 1-dong. O galpão fica na esquina, ele parece um container gigante, meu pai guarda barcos e carros de luxo lá...  

Largo a camisa de Namjoon e pego o boné em cima da escrivaninha. Coloco o mesmo na cabeça, pego a bolsa e começo a ir em direção à porta. 

-O que você tá fazendo?? A gente precisa de um plano... -Namjoon se levanta rapidamente, assustado com a minha pressa, e eu me viro pra ele. Eu não tenho tempo pra pensar muito. 

-Namjoon, além de ser uma pessoa em risco, é a minha mãe. Eu não posso ficar aqui sentada pra fazer planos sabendo que cada minuto conta com uma oportunidade pra ela ficar viva ou não! -olho em seus olhos e ele parece confuso. Eu não posso explicar isso pra Namjoon agora, claramente ele não está na mesma situação que eu. Enfio a bolsinha dentro do uniforme e alongo o pescoço de um lado pra outro. Respiro fundo antes de abrir a porta da casa e saio andando, aceno pra porta como se tivesse me despedindo. Namjoon vai para a porta da casa, onde é possível que a câmera o pegue e acena de volta sorrindo. 

Continuo andando até o portão e tento segurar a velocidade dos meus passos para não ficar suspeito. Saio da propriedade da mansão e ando mordendo os lábios até a esquina quando finalmente vou estar livre pra correr. 

 

É isso, hora de ir. Saio correndo com todo o preparo que eu tenho e quando chego na terceira esquina, passo os olhos na rua para procurar o tal galpão. Ele está na outra esquina da rua, e está aberto por algum motivo. Parece que estão descarregando alguma coisa lá. Tento me aproximar escondendo atrás de alguns carros de forma discreta, quando chego numa distância segura e que dá pra enxergar o que está acontecendo. 

São cinco homens, todos uniformizados. Um está afastado de mim, do outro lado da porta do galpão mexendo no celular, suponho que ele deveria estar vigiando. Outros dois mais próximos da entrada e mais no centro parecem estar batendo papo. Um está dando ré em um caminhão enquanto um outro está fazendo sinais com o braço pra ele se aproximar, ambos bem mais próximos de onde eu estou. Como vou me aproximar para entrar sem que esses dois me vejam?  

Respiro fundo para oxigenar meu cérebro, deixar meu lado racional funcionar, e tento não me desesperar com o fato de minha provavelmente estar dentro desse caminhão. Pego minha bolsa rapidamente e vejo quanto tempo tem que eu acionei o rastreador. 

35 minutos, ou seja, tenho cinco minutos pra entrar e tentar achar minha mãe antes da polícia aparecer. Olho analiticamente mais uma vez pelos arredores para achar uma forma de entrar no galpão escondida e vejo um container daqueles industriais bem na porta, antes do caminhão. É isso! O container tá convenientemente de frente pro homem uniformizado, de modo que ele não consegue me ver se eu ficar agachada atrás dele. Provavelmente de lá eu consiga ver uma entrada, e consiga correr pra dentro sem ser vista.  

Quatro minutos, respiro fundo um milhão de vezes. Sinto a adrenalina correr pelo meu sangue, essa situação é de vida ou morte. Continuo agachada e começo a andar rapidamente em direção ao container sem fazer nenhum barulho. As vozes começam a se aproximar, principalmente a do homem fazendo sinais com as mãos.  

-Pode vir... vem mais... -o homem fala mais alto e eu engulo em seco. Ele não me viu. Finalmente chego atrás do container e permaneço abaixada, a distância entre eu e o homem é de quase uns 5 metros. Suspiro e tento controlar o ritmo das minhas batidas. 

Três minutos, vejo uma entrada para o galpão. Aperto os olhos para tentar ver o fundo do mesmo, mas está tudo escuro exceto por uma lâmpada que parece iluminar toda aquela área. Vejo uns carros não muito longes de onde estou, é melhor eu esconder atrás de um deles e ir andando até o fundo. Dou mais uma olhada no homem e respiro fundo antes de correr. É agora, é tudo ou nada. 

 

Saio correndo do lugar em que estou e procuro um carro para ficar atrás. Consigo chegar até ele e continuo ajoelhada, tento conter minha respiração ofegante com o peito doendo de ansiedade. Não acredito que consegui entrar. Olho pra trás e conto os homens para ver se algum deles saiu do lugar. Estão todos do mesmo jeito, ainda bem. Olho pra frente e aperto os olhos, mas ainda assim não vejo nada. O jeito é chegar mais perto da lâmpada pra melhorar meu campo de visão. 

Dois minutos, escuto a sirene do carro de polícia. Puta que pariu, eu não tenho mais tempo. 

-Polícia? O que a polícia tá fazendo aqui? -um dos homens grita alto. Fico levantada, ainda abaixada e olho pra trás antes de correr até perto da lâmpada.  

-Do que você tá falando? 

-Não tá escutando a sirene? -as vozes se confundem pra mim. Vou me aproximando da luz e vejo mais coisas, como caixas de madeira e barris. 

De repente eu vejo um vulto atrás de uma caixa grande. Quando percebo que é um sapato vermelho de salto alto, eu congelo, os barulhos ao meu redor ficam turvos.  

Tento me aproximar mais dele, ainda abaixada e consigo ver as pernas, ela está ali, sentada no chão.  

 

Um minuto, agora vou andando sem medo do que pode acontecer. Os gritos atrás de mim se intensificam, escuto barulhos altos de portões e pneus de carros derrapando. As luzes dos carros da polícia iluminam o fundo do galpão, vermelhas e azuis. Continuo me aproximando e consigo ver duas mãos amarradas por uma corda. Tiro o boné, começo a cambalear um pouco, não consigo raciocinar. 

 

Finalmente vejo a silhueta do corpo da minha mãe, com uma sacola plástica amarrada na cabeça. Não pode ser... Sinto minha visão ficando turva. 

-Senhorita Yang! Senhor... -uma voz se aproxima e me abraça de lado. As lágrimas tomam conta dos meus olhos. Não pode ser. 



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