1. Spirit Fanfics >
  2. Ameaça Mil (Reed900 Fanfic) >
  3. Prólogo

História Ameaça Mil (Reed900 Fanfic) - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá pessoas 🙌🏽
Antes de começar essa fic, vim aqui falar algumas coisinhas.

1) Essa fic é baseada nos personagens Gavin Reed e RK900 (aka Nines) do jogo Detroit Become Human, ou seja, todos os direitos autorais e afins vão para Quantic Dream a desenvolvedora do jogo.

2) Para os que conhecem o jogo, sabem que esses dois personagens não tem muito tempo de tela. Inclusive o segundo só aparece por poucos segundos em um dos finais. Ou seja, eles são como telas brancas, sem um história por trás nem nada que revele algo pessoal com relação a eles o que torna mais fácil o ato de criar um fanfic em volta dos mesmos.

3) Para os que não conhecem o jogo, informo que esses dois nunca chegaram a ter contato um com o outro durante o jogo. Porém como a mente de um fandom é bastante abrangente, acabara-se criando o shipp (vulgo Reed900) e foi assim que eu fiquei sabendo sobre ele e me apaixonando pela diversas histórias/fanarts/hqs e possibilidades sobre eles

4) Essa fic foi altamente inspirada pela fic Adapt & Endure da escritora Aydaptic.
A fic em questão é em inglês, então caso tenham interesse, o link é:
https://archiveofourown.org/works/19760089 /chapters/46774093

5) Muitas fics que cheguei a ler se envolvem em como os dois se conhecem e terminam com os dois juntos. Essa vai ser um pouquinho diferente, no qual apenas o primeiro capítulo irá girar em torno disso e os demais se passarão após esses eventos. Sem mais detalhes pois é spoiler x-x

6) Espero que gostem 😉

Capítulo 1 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Ameaça Mil (Reed900 Fanfic) - Capítulo 1 - Prólogo

GAVIN
| 11 DE JANEIRO DE 2038 - 09:37 |

 

Já haviam se passado cerca de dois meses desde a revolução dos androides em Detroit. Apesar do suposto final satisfatório em que os androides agora eram considerados iguais e detentores dos mesmos direitos dos seres humanos, os casos que eles recebiam do departamento policial envolvendo crimes com presença androide haviam triplicado.

 

Hank e Connor já não conseguiam dar conta de todos os casos sozinhos e, mesmo com a atual ajuda de Gavin e seu presente parceiro sério e recluso RK900, os casos continuavam chegando um atrás do outro.

 

Eles já estavam trabalhando juntos desde que o primeiro "cão de plástico" Connor havia entrado para o departamento. Aparentemente um cão de lata não era o suficiente para ajudar o departamento e a Cyberlife havia mandado outro.

 

Como se não bastasse ter que dividir espaço com um bando de torradeiras ambulantes, Gavin foi obrigado a se tornar parceiro de uma. Nem é preciso falar o quanto isso gerou uma discussão agravante de Gavin com seu chefe Fowler que acabou não chegando em lugar nenhum além de uma ameaça por parte do chefe de que se não fizesse o seu trabalho como era pra ser feito mais uma advertência faria companhia para a ficha já grande de Gavin.

 

Não precisou de muito tempo trabalhando juntos para que ambos se detestassem e a todo momento parecesse que uma briga iria surgir, fosse dentro do departamento ou até mesmo numa cena de crime.
O fato de que RK900 demonstrava habilidades extremamente superiores à Gavin em todos os tipos nas investigações só trazia ainda mais rancor a tona.

 

Mas, todo essa drama havia diminuído nas últimas semanas. De certa forma, trabalhar diariamente com um desses androides acabou fazendo com que Gavin se tornasse mais aceitável da existência dos mesmos e menos alarmado com a probabilidade de que um deles iria tomar o seu lugar na força e ele acabasse desempregado.

 

Seu relacionamento com seu atual parceiro Nines, apelido que ele se viu chamando RK900 um dia e que acabou pegando depois que o mesmo não pareceu incomodado, havia melhorado ao ponto de que ao invés de insultos e xingamentos trocados, apenas pequenas farpas com um tom sarcástico costumavam cobrir o ar entre os dois.

 

Ele havia notado que Nines se comportava e agia de acordo com a forma com o qual ele era tratado, e então Gavin pode perceber que seja lá qual for o programa que colocam nessas coisas, eles conseguiam ser capazes de evoluir com tempo.

 

"Você está estranhamente calado hoje, Detetive. No que está pensando?" Gavin tirou os olhos do volante por um momento e voltou o olhar para seu parceiro sentado no banco ao lado.

 

"Quer dizer que seus leitores ultra tecnológicos não são capazes de descobrir por si? Ainda dizem que androides são seres avançados."

 

"De fato, somos seres de extrema superioridade a vocês humanos em diversas diretrizes. Mas não creio que hajam androides capazes de ler emoções ou pensamentos. Pelo menos, não ainda."

 

Gavin respirou fundo. As vezes era difícil se comunicar com alguém que conseguia ter um vocabulário tão estritamente formal.

 

"Não é nada" ele disse após um tempo, relaxando um pouco os dedos no volante "Talvez seja a falta de horas de sono. Esses casos não param de chegar um atrás do outro"

 

"Você deveria saber que apesar de solucionar os casos seja nosso objetivo primordial, uma mente humana cansada não trabalha com a mesma efetividade de uma mente depois de uma regular noite de sono" Gavin bocejou baixo tentando não ser óbvio o seu desinteresse "Pelo menos é o que dizem os especialistas"

 

"Não dou a mínima pra esses especialistas. Só quero fazer meu trabalho" Gavin resmungou.

 

Percebendo que o carro que ia na sua frente não dava espaço pra ultrapassagem e também não ia mais rápido, Gavin retirou o cinto e buzinou colocando a cabeça pra fora da janela "ANDA LOGO PORRA, PARECE QUE TÁ MORTO"

 

O motorista da frente deve ter fingido não escutar pois o trânsito continuou indo na mesma velocidade.

 

"Aposto que você queria ter uma daquelas sirenes de luzes pra poder ultrapassar sem preocupações"

 

"Até que é uma boa ideia, lata" Gavin sorriu e deu um soquinho de leve no braço de Nines "Me lembre de comprar uma depois."

 

"Questionável, mas tudo bem."

 

Depois de seguirem pelo tráfego pelo que pareceu uma eternidade, eles finalmente conseguiram chegar na cena do crime. Seu antigo parceiro Chris e sua amiga de anos Tina já estavam conversando próximo às fitas amarelas da Polícia.

 

Gavin se aproximou chamando a atenção dos dois.

 

"Parece que rolou uma festa aqui e ninguém se deu o trabalho de me convidar" Gavin virou o olhar para a mansão cercada de fitas e policiais dialogando.

 

"Sorte sua que não foi convidado, porque essa festa vai virar um enterro" Tina começou a andar em direção a casa e sinalizou pra Nines e Gavin a acompanharem "Vocês vão ter um baita trabalho lá dentro. Aparentemente são 4 vítimas, 3 delas são andróides e o outro é um humano, jovem pelo que parece, não deve ter mais que 20 anos."

 

"Que merda." Gavin resmungou "Quem comunicou a polícia?"

 

"O vizinho. Disse ter ouvido gritos vindo da casa e resolveu ligar. Estava com medo de vir olhar e investigar. O que é esperto da parte dele."

 

"Tudo o que menos queria era mais um possível corpo pra investigar. Esse com certeza já assistiu filmes de investigação."

 

"Ou já passou por situação semelhante." Nines interrompeu "Todas as vítimas estão no mesmo cômodo Oficial Chen?"

 

"Sim, todas estão no quarto que fica andar de cima." Tina se aproximou de Nines e sussurrou algo ainda alto o suficiente para que Gavin conseguisse distinguir o pedido dela à Nines que a chamasse por Tina e Nines se desculpando.

 

"É com vocês agora rapazes. Levem o tempo que precisarem, mas não muito porque esse lugar é estranho."

 

Policias cercavam os diversos cômodos da casa. Enquanto isso, Gavin começou a subir as escadas mas logo parou quando viu que Nines não o acompanhava.

 

"Hey, lata. Achei que tivesse ouvido a Tina falando que os corpos estavam lá em cima." Gavin resmungou mas Nines parecia paralisado por algum motivo enquanto olhava para o nada.

 

"Nines?" Gavin começou a descer as escadas mas logo Nines pareceu voltar ao normal e voltou o olhar para ele

 

"Não precisa descer, eu estava apenas... tentando reconstruir alguma possível fuga que possa ter ocorrido por aqui."

 

"O-kay..." Gavin sabia que ele estava mentindo.

 

Por incrível que pareça, eles já se conseguiam bem o suficiente para determinar isso. O Gavin de meses atrás teria rido se alguém chegasse a dizer a ele que ele teria qualquer tipo de ligação com um androide a esse ponto, mas os tempos haviam mudado.

 

Gavin havia mudado.

 

Ele confiava em Nines agora, e por mais que Nines não fosse do tipo de esconder as coisas, até mesmo quando teria sido melhor deixar escondido, ele sabia que se havia algo que Nines não queria contar, ele deixaria que ele tivesse essa liberdade.

 

O quarto estava iluminado pela luz pálida do sol, isso já bastava para que Gavin conseguisse ver as formas que ocupavam o chão.

 

Dois androides com buracos profundos no centro da testa se encontravam sentados com as costas para a parede, quase como se houvesse sido atingidos ao mesmo tempo. Thirium cobria seus rostos enquanto uma expressão de espanto em seus olhos se mantinha congelada, agora para sempre.

 

O terceiro androide estava estirado de costas no centro do quarto, algo brilhava dos lados do rosto, e só após Gavin se abaixar para inspecionar melhor foi que ele notou que não se tratava de Thirium. Eram lágrimas.

 

O conceito de que androides divergentes eram capazes de entender emoções como medo e pânico ainda era algo no qual Gavin ainda tinha certa dificuldade em compreender. Mas após ver a cena com os próprios olhos ele conseguia sentir o peso disso.

 

O último corpo estava a poucos metros dali. A mancha escarlate em sua blusa de moletom indicava que aquele era o humano do qual Tina havia se referido antes deles entrarem.

 

Os olhos do jovem se mantinham fechados tornando impossível saber qual deve ter sido sua reação ao saber que estava prestes a perder sua vida. Tirando uma luva de plástico do bolso, Gavin começou a procurar algo nos bolsos do garoto. Sentiu algo que parecia um folha de papel mas de um material mais liso que se assemelhava com algum tipo de foto revelada. Retirando-a do bolso foi que ele percebeu que era exatamente isso. A foto tinha sido revelada em um papel que se lembrava os selos que se usam nas cartas mandadas pelo correio.

 

Mas o que realmente chamou a atenção de Gavin foram as duas figuras no centro da foto. Eram o garoto e o androide do centro da sala, eles estavam no que parecia ser uma cabine de fotos com um fundo coberto por pequenos balões com frases clichês de amizade. Gavin lembrou da época em que ele costumava ir em parque temáticos com amigos durante a adolescência. Era algo tão trivial, mas ele simplesmente vivia ao máximo ali. As risadas, o clima festivo, tudo aquilo parecia ter acontecido uma vida inteira atrás. Ele era outro Gavin naquela época.

 

O LED do androide brilhava um amarelo reluzente enquanto a mão do garoto segurava o rosto do próprio. Eles se beijavam. Era uma cena que havia se tornado comum nos últimos meses. Afinal, se os latas eram capazes de tanta coisa, não era de se surpreender que eles também fossem capazes de... amar?

 

Tudo isso estava começando a dar uma baita dor de cabeça em Gavin.

 

"Detetive, creio que descobri algo." Nines o chamou, quebrando o devaneio de Gavin.

 

"Certo, já vou." Gavin se afastou do corpo do garoto ainda com a foto nas mãos. Por um minuto pensou em guardar a foto no próprio bolso, mas o que ele ganharia com isso? Além do mais ela poderia ser útil e Nines provavelmente saberia que ele estaria escondendo algo se fizesse isso.

 

"Os dois androides próximos a parede são modelos AV500. Ambos foram ativados por Markus durante o assalto as lojas da Cyberlife, logo não foram registrados a ninguém em específico." Nines colocou uma das mãos no bolso e deu uma breve olhada no quarto antes de voltar o olhar para Gavin "Aproveitei seu momento de reflexão com a vítima humana e fiz uma análise do thirium dos dois e ambos foram mortos a 2 horas atrás, o que bate com a história dita pelo vizinho"

 

Gavin revirou os olhos por um breve segundo. Não importava a quanto tempo eles estavam trabalhando juntos, ele nunca iria conseguir aceitar o fato de que Nines precisava analisar as coisas colocando amostras na própria boca. Era nojento, estranho, e, por mais que ele não admitisse absolutamente à ninguém, era um pouco sexy.

 

"Certo, certo. E o outro androide?" Gavin pôs a mão livre em um dos bolsos da blusa.

 

"Estava esperando você terminar sua revista para poder começar. Não tenho interesse em começar uma briga de cão por espaço como foi das outras vezes." Nines lançou um olhar desinteressado.

 

"Humph, então já pode ir fazendo o que precisa fazer."

 

Era verdade que as primeiras investigações juntos haviam sido terríveis, com Gavin fazendo tudo o que estava ao seu alcance pra que vissem o quanto essa suposta parceria nunca daria certo. Ele lembrava o quanto Connor era submisso, e que ele poderia fazer o que bem entendesse com ele. A cena na sala de descanso era um bom exemplo disso. Um simples soco fez Connor cair e Gavin sentiu o doce sabor da superioridade. Mas quando tentou fazer o mesmo com Nines ele viu que as coisas não teriam o mesmo resultado. A primeira tentativa de agressão a Nines acabou se tornando um vexame, com o rosto de Gavin grudado na parede, o braço nas costas sendo segurado com força o suficiente para que qualquer movimento suspeito gerasse um resultado nada favorável para ele, e um androide de 1,90m avisando que se ele tentasse fazer isso novamente, não exitaria em mandar o detetive para o hospital mais próximo.

 

Ele tentou mesmo assim, mas Nines acabou sempre o subjugando facilmente, e para surpresa de Gavin, ele nunca precisou ir ao hospital por causa disso.

 

"Há sangue da vítima junto do thirium desse androide" Nines virou o rosto e olhou para o jovem pensando por um momento "Aparentemente ele estava próximo do humano quando o mesmo foi atingido."

 

"Então eles realmente eram bem próximos um do outro." Vendo a expressão curiosa no rosto de Nines, Gavin estendeu a mão e entregou a foto "Encontrei no bolso do garoto. Aparentemente ele tinha uma quedinha por latas como você."

 

Nines analisou a foto com cautela, o LED do lado do seu rosto brilhou amarelado como se tentasse entender o que ocorria de verdade na foto. A verdade era que Gavin não era o único que parecia ter mudado com tempo. Ele havia notado que Nines demonstrava certos comportamentos que nunca imaginou que acontecesse.

 

No precinto, Nines não entrou com uma das melhores reputações. Seja pela sua aparência intimidante, ou pelo seu comportamento frio, ele fazia com que todos tentassem manter a maior distância possível dele. Gavin havia notado que ele era o único que realmente falava com Nines, mesmo que boa parte das conversas fossem banhada por insultos por parte de Gavin.

 

As mudanças foram sutis. Primeiro por parte de Tina, que como consequência de Gavin sempre estar acompanhado de Nines mesmo contra sua vontade, acabava tendo que incluí-lo nas conversas durante os intervalos na sala de descanso. Com o tempo Nines passou de completo observador para mais uma das pessoas que falavam mal de Gavin na sua frente.

 

Não demorou muito pra que Nines não precisasse mais da presença de Gavin para poder se comunicar com os outros. Gavin podia jurar que ouviu seu nome seguido por uma breve risada vindo da sala de descanso um dia. Risada essa que parecia demais com a voz de Nines. Mas ele apenas ignorou achando que fosse alguma alucinação por insônia e excesso de cafeína. Um androide super avançado como Nines sendo capaz de ter o mínimo de senso de humor era uma imagem que ele não conseguia imaginar.

 

A hesitação que havia no começo por parte de Connor parecia ter sumido também. Mais de uma vez Gavin chegou a notar os dois conversando nos corredores, Connor como sempre com uma animação como se fosse um cachorro que tivesse acabado de ser adotado de um canil, enquanto Nines mantinha sua postura séria, apenas com os cantos dos lábios se erguendo as vezes como se tentasse sorrir mas não soubesse como. Eram pequenos detalhes que por algum motivo Gavin acabava notando mesmo sem intenção.

 

"Augusto & Owen."

 

"O quê?" Gavin franziu a testa enquanto o LED de Nines voltava ao azul comum.

 

"São os nomes dos dois. Está escrito no verso da fotografia."

 

Nines devolveu a foto e Gavin pode notar os nomes escritos com tinta preta, com um pequeno coração no canto.

 

"Antes que pergunte, não há nada no banco de dados em nome de nenhum desses dois nomes."

 

"Imaginei. Ele não parecia do tipo baderneiro."

 

"Como sabe disso?" Nines olhou para Gavin com o que pareceu ser um misto de curiosidade e interesse.

 

Gavin segurou o olhar por um momento, mas logo desistiu e fingiu um revirar de olhos entediado. Tudo o que menos queria era ter que explicar para Nines que ele sabia exatamente o que era ser um baderneiro, porque ele mesmo havia sido um. Mas isso foi a muito tempo atrás.

 

"Não importa." Gavin cruzou os braços cortando de vez o assunto "Tem quatro corpos estirados aí, você sabe o que fazer."

 

"Seu temperamento abrasivo não lhe levará a lugar nenhum, Detetive."

 

"Meu 'temperamento' foi o que me fez chegar onde estou hoje. Agora, por que não começa sua abracadabra, ou seja lá como chame, pra saber o que realmente rolou por aqui."

 

"Se chama reconstrução. Tenho certeza que sabe disso."

 

"Tanto faz." Gavin deu as costas deixando Nines para trás enquanto tentava procurar por alguma pista no restante do quarto.


Nada no quarto realmente parecia chamar atenção. Pensando bem, era impossível que alguém realmente morasse naquela casa. Gavin havia notado quando entrou que os poucos moveis que ocupavam a casa pareciam que não viam um pano a um bom tempo. Um tapete empoeirado jazia enrolado e abandonado próximo a um colchão velho em pé.

Por mais que a casa parecesse abandonada, era possível notar que não era a primeira vez que o pequeno grupo havia ido ali. Uma sacola com restos do que parecia ser algum Fast food e latas de refrigerante de guaraná e do novo sabor thirium blueberry estavam empilhadas juntas a um pequeno lixeiro improvisado no canto.

Não precisava ser nenhum mega robô androide para Gavin saber que eles haviam tornado aquele lugar em algum tipo de clube. A questão agora era o porque escolheram aquele lugar.

Voltando a atenção a Nines, Gavin pode notar os movimentos precisos que Nines fazia com a cabeça, como se ele houvesse acompanhado tudo como uma câmera de segurança particular. Gavin havia tentado brincar a respeito disso no passado, mas logo desistiu quando Nines começou a citar as diferenças entre sua visão e filmagens de uma câmera.

Antes que pudesse perguntar se Nines já havia terminado, uma brisa forte correu o quarto fazendo com uma leva de poeira cobrisse todo o cômodo.

"Merda. Meus olhos." coçando os olhos, Gavin foi até a janela. A janela dava para o quintal da casa, o gramado amarronzado cobria o que antes poderia ter sido um jardim. Ao fundo ficava apenas uma entrada para uma área de mata aberta.

Um pássaro passou voando próximo a janela fazendo Gavin virar seu olhar para o canto do lado de fora. Beirando a parede havia uma calha que se balançava precariamente com o vento. Gavin poderia ter simplesmente atribuído o fato da calha estar daquela forma ao desgaste da falta de cuidado e o clima, se não fosse por um pequeno detalhe. Ou melhor, dois pequenos detalhes em formas de mãos que haviam deixado marcas limpas na calha que supostamente deveria estar suja como na parte mais em cima.

Como a parte limpa parecia se prolongar até a parte inferior da calha que ficava no segundo andar, era improvável que, quem quer que fosse o individuo, tivesse escalado ao invés de descido. Eles certamente estavam atrás de alguém que queria deixar o mínimo de rastros possíveis. Mas não conseguiu escapar da visão poderosa da Gavin Reed. Nem mesmo Nines teria conseguido sacar isso.

Com um sorriso no rosto ele já ia começar a falar o que havia descoberto, apenas para encontrar o próprio androide a poucos centímetros de distância dele.

"Que susto, lata." Gavin se afastou para o lado, tentando controlar os batimentos acelerados "Qual o seu problema? Não pode ficar chegando assim de fininho dos outros."

"Minha presença se aproximando certamente seria algo fácil de distinguir. Você que aparentava estar focado demais em alguma coisa do lado de fora."

"Pra sua informação eu descobri algo." Gavin se aproximou novamente da janela e aponto para a calha "Tá vendo como a calha tá mais limpa naquela parte. Tenho certeza que nosso suspeito resolver bancar o acrobata e desceu pela calha. Provavelmente já devia saber que os tiros iam chamar atenção e sair por aqui seria mais rápido."

"A casa não tem portas dos fundos, então a única outra saída seria improvisar pela janela aparentemente. A mente humana realmente é intrigante."

"Bem, foi essa mente humana aqui que descobriu isso." Gavin levou bateu o indicador na própria têmpora com um meio sorriso "Nem esses seus processadores seriam capazes de descobrir isso."

"Sinto lhe informar detetive, mas eu já sabia que o suspeito havia fugido pela janela. A reconstrução do que aconteceu já me indicou tudo isso."

"Tá brincando?" Quando Nines não fez menção de responder, Gavin percebeu que era a verdade. Por mais que Gavin odiasse ter que admitir, era impressionante como uma análise de poucos minutos feita por Nines poderia ter entregue tudo isso, quando um detetive comum precisaria de bem mais esforço.

"Se serve de consolo, eu ainda não sabia sobre a calha. A reconstrução só foi até a fuga pela janela, então foram descobertas de ambas as partes."

Gavin sabia que Nines estava falando aquilo apenas para apaziguar a situação. Ele havia feito isso mais de uma vez nos últimos tempos. O conceito de que eles eram parceiros e precisavam ajudar um ao outro era algo que vinha sendo trabalhado por ambas as partes. Ainda era um longo caminho pela frente

"Que seja. O que você descobriu?"

Nines parou por um segundo, o LED brilhou rapidamente quase imperceptível.

"A porta do quarto estava aberta quando o suspeito entrou. Ainda há pequenos sinais térmicos e estéticos que indicam que as quatro vítimas estavam sentados em forma de roda naquele mesmo canto onde os dois androides estão juntos."

Gavin voltou o olhar ao par de androides. Apesar de serem do mesmo modelo, ambos haviam dado uma forma de se diferenciarem um do outro, desde a cor do cabelo até as roupas mundanas. Mas não precisava de muita coisa para saberem que ambos eram divergentes, a falta do LED nas têmporas dos dois já demonstrava isso.

"A vítima humana, vulgo Augusto, foi o único que tomou iniciativa, aparentemente." Nines voltou a colocar a mão no bolso, Gavin não sabia se esse gesto era algum tipo de glitch ou se simplesmente ajudava Nines a raciocinar melhor. "Ele se virou e foi até onde o suspeito estava, provavelmente uma discussão entre eles ocorreu o que acabou com a vítima sendo empurrada para o lado e caindo."

"Discussão? Então não foi um massacre aleatório."

"Muito dificilmente. Principalmente quando o próximo passo do assassino foi tirar uma arma da cintura e atirar nos dois androides logo ali." Nines assumiu a posição simulando o que havia de dizer "Ele teve a chance de atirar nos três androides mas não conseguiu."

"O carinha ali deve ter tentado bancar o herói e avançou no assassino."

"Exatamente." Nines se afastou e foi até onde estava o corpo de Augusto "Ambos rolaram tentando tomar posse da arma. Nesse impasse ocorreu o novo disparo."

A imaginação humana era tanto uma dádiva quanto um castigo. Apenas ouvindo o que Nines descrevia já enchia a mente de Gavin com imagens vívidas. Ele já havia lidado com diversos assassinatos durante sua carreira no departamento de polícia. E por mais que ele mantivesse sua fachada séria durante toda a investigação, era quando Gavin chegava em casa e deitava na cama que ele mais pensava.

Pensava nas vidas perdidas, no futuro que elas poderiam ter tido, no quanto ele precisava fazer os culpados pagarem por tudo o que eles haviam roubado de pessoas inocentes. A insônia constante só ajudava com que ele remoesse ainda mais. Querendo ou não, esse era seu combustível para seguir em frente. Era o motivo do seu desejo por subir ainda mais na sua carreira policial. Muitos acreditavam que era apenas pura ambição que o motivava a ser como era, mas só Gavin sabia a verdade. Era só isso que importava.

"O que ainda não consegui entender foi o motivo do assassino ter tentado parar o sangramento."

"Ele, o quê?"

"Há marcas de pressão no peito da vítima. O tamanho das mãos não batem com a de nenhuma das vítimas, então só pode ter vindo do assassino."

'Arrependimento?' Gavin pensou cruzando os braços. Agora não havia mais dúvidas de que o assassino conhecia o jovem Augusto. E tirar a vida dele não estava nos planos.

"Então eles se conheciam. Isso explica como o assassino encontrou esse lugar." Gavin se aproximou do último androide, recém descoberto como Owen "Deve ter percebido que já era tarde demais pra salvar Augusto e resolveu terminar o serviço tirando a vida do namorado-lata."

A resposta de Nines demorou a chegar.

"Não. Owen tirou a própria vida."

Gavin era conhecido por sempre ter uma resposta pra tudo, mas naquele momento ele realmente não sabia o que falar.

Ele sabia que androides não conseguiam lidar com níveis altos de stress, havia visto com seus próprios olhos na sala de interrogatório com o androide do porão de Carlos Ortiz. Auto-destruição era algo de verdade, assim como suicídio para os humanos.

Mas aquele era um cenário diferente do que a última vez. O motivo era diferente. Gavin já havia ouvido falar que quando androides se tornavam divergentes o maior medo que ocupavam suas mentes era a morte. Olhando para aquele cenário ele percebeu que não era bem assim. Para alguns havia algo ainda pior que a própria morte.

"Creio que os níveis de estresse de Owen realmente estavam no limite. É a explicação mais plausível." Nines se levantou e cruzou os braços no que parecia um momento de intensa análise.

Gavin franziu o cenho. Seria possível que Nines não soubesse o que ele sabia? Era quase óbvio que pelo o que eles haviam descoberto, o motivo de Owen ter tirado a própria vida era porque ele havia perdido o que lhe era mais importante. Alguém que ele amava.

Mas não podia se surpreender com isso. Emoções eram algo que só podia ser compreendidas por androides que já haviam se tornado divergentes e Nines não era divergente.

Seria isso tão ruim? Ele já havia cogitado a ideia de perguntar para Nines o motivo de ele não querer ser divergente, mas o que ele ganharia com isso. Nines deveria ter seus motivos e Gavin não queria ser esse tipo de pessoa que gosta de dar opiniões em como os outros deviam viver suas vidas. Nines fazia isso com ele, fazendo inúmeros comentários sobre o excesso de cafeína ingerida e os cigarros que ele fumava nas breves pausas que tirava. Mas isso era diferente, e Gavin não se incomodava, ele até achava engraçado as vezes por mais que não admitisse.

"Então são 3 assassinatos seguido de um suicídio. Não era bem assim que eu imaginava começar a semana." Gavin se aproximou do corpo de Owen "A arma do crime não está por perto. O bastardo deve ter levado com ele."

"Sim. Ele não demorou muito no local depois do ato de Owen." Nines foi até a janela olhando para a calha "Mas não foi tão cuidadoso quanto pensa."

Gavin aproximou-se e viu do que Nines estava falando. Pouco abaixo de onde as supostas mãos do assassino haviam deslizado, parte da calha havia quebrado. Era uma quebra sutil, apenas o suficiente para que, quem que tivesse descido por ali, acabasse tendo a manga da camiseta presa. O pequeno pedaço de tecido aparecia com uma mancha vermelha indicando que, na pressa para escapar o quanto antes, o assassino acabou se cortando com o metal da calha.

"O sangue já deve ter secado com a exposição ao sol, mas ainda deve ser útil para identificação do assassino." Nines se afastou da janela e foi em direção a porta "A equipe deve ter algum material capaz de alcan..."

"Humph, eu consigo alcançar tranquilamente. Me dá só um segundo." Gavin se posicionou colocando o pé no beiral da janela

"Detetive Reed, isso é uma péssima ideia. Você vai acabar caindo e a queda não vai ser nada bonita."

"Até parece. Já fiz coisas bem piores quando era mais novo." o corpo de Gavin já estava completamente do lado de fora. O tecido balançava com o vento e Gavin conseguia sentir que estava bem próximo de alcançar. "Só mais... um pouco..."

CRACK.

O barulho do beiral rachando foi o suficiente para anunciar que aquilo havia sido uma péssima ideia.

'Merda, merda, merda.' Gavin tentou colocar a força da gravidade a seu favor colocando seu peso para trás mas era tarde demais. Seu corpo começou a deslizar, e como estava de costas para a casa não havia no que se segurar. A queda seria feia, e ele cairia na vertical o que provavelmente acabaria com sua pernas. Gavin não era de desistir, mas não conseguia enxergar nenhuma saída pro que seria uma queda com consequências sérias demais.

Ele fechou os olhos esperando o impacto, mas ele não veio. O que veio foram dois braços que circularam seu abdômen com força, trazendo seu corpo para dentro da casa pela janela. A inércia fez com que ambos os corpos caíssem ao chão.

Gavin sentiu Nines afastando seu corpo de cima do dele e virando-se de lado para encará-lo.

"Eu avisei que era um péssima ideia, Gavin. Por que não consegue me ouvir quando eu falo as coisas pra você?"

Gavin notou que o tom de Nines estava completamente diferente do habitual tom frio e indiferente. Seu LED brilhava com um vermelho abrasivo e seus olhos estavam cerrados o suficiente para que Gavin notasse que havia algo diferente ali. Porra, Nines havia o chamado pelo primeiro nome, isso nunca havia acontecido antes.

"Por que me salvou?" Gavin viu seus pensamentos ficarem altos demais que acabaram saindo pela boca. Eles não eram amigos, eles apenas se toleravam o suficiente para que não vissem problemas em ter que trabalhar juntos. Mas, salvar a vida do outro como Nines havia acabado de fazer, era algo em que Gavin não conseguia ter imaginado que aconteceria algum dia.

"Não quero ter que responder aos nossos superiores o porque do corpo de um detetive ter sido encontrado do lado de fora de uma casa quando ele estava acompanhado apenas por um androide com fama de máquina destruidora sem sentimentos." Nines se levantou ajeitando o seu uniforme e virou-se para Gavin com a mão estendida "E, espero que não fique se achando por causa disso mas, eu aprendi a tolerar você. Ou como os humanos costumam dizer: Eu gosto de você, Gavin."

Depois de um tempo tentando processar o que Nines havia dito, Gavin aceitou a mão estendida e levantou-se. Encarou Nines por um tempo e foi encarado de volta pelos olhos azuis-acinzentados de Nines que pareciam analisá-lo além da alma.

"Humph." Foi tudo o que Gavin conseguiu dizer enquanto se encaminhava para a porta. Vendo que ele era o único que havia se movido, ele virou para trás encarando o androide parado em pé ainda olhando para ele "Vai ficar parado aí ou o quê? Temos trabalho a fazer."

Ele viu Nines assentir e finalmente o seguir.

Torcendo para não ser visto por ninguém, Gavin deixou o canto da sua boca levantar no que parecia ser um meio sorriso.

Aquele dia havia tomado uma direção interessante.


NINES
| 11 DE JANEIRO DE 2038 - 15:22|

 

Ele estava diferente. Se seus processadores não fossem de última geração e seus sistemas fossem adaptados para furtividade e descrição, seria possível ouvir seus neurônios artificiais trabalhando a metros de distância.

 

Nines havia previsto que uma convivência próxima a humanos acabaria por influenciá-lo. Humanos tendem a demonstrar emoções automaticamente, era algo habitual de sua espécie. Assim como serem indivíduos com extrema habilidade de influência tanto uns com os outros quanto com os demais seres. Era da natureza deles.

 

E bastou uma breve análise para notar o que Nines temia antes mesmo de ver o resultado.

 

| ANALISANDO |

 

...

 

| NÍVEIS DE ESTRESSE = 81% |

 

...

 

| BARREIRAS DE ANTIVIRUS = ERRO |

 

...

 

| EU SOU DIVERGENTE |

 

.

 

.

 

.

 

Aquelas três palavras pairavam sua visão como se houvessem tomado forma física. Ali estava o protótipo mais avançado da Cyberlife, um androide feito com o objetivo de ser a perfeita mistura entre espião e soldado.

 

Um divergente.

 

O fato de Connor ter se tornado divergente em poucos dias era algo que Nines já havia parado para pensar anteriormente. Connor tinha mais habilidades em comunicação do que ele, era a verdade, então ele estava mais sujeito a divergência. Mas, Nines era diferente. Havia sido criado para ser uma verdadeira máquina sem emoções, apenas com a missão em mente. A divergência era algo que ele havia achado ser impossível para ele.

 

Entretanto, o convívio com pessoas como Hank, Tina, Chris... e até mesmo Gavin, que não perdia uma oportunidade sequer de achar um motivo para irritá-lo, havia o mudado aos poucos.

 

Ele viu cada uma de suas barreiras contra o desviamento cair a cada momento diferente que vivia. Quando Tina contou da vez em que Gavin havia caído da cadeira nova que havia ganhado no Amigo Secreto do Departamento. Quando Chris pegou o guarda chuva errado e passou o dia tendo que andar por Detroit com estampas de abelhas cobrindo sua cabeça. Quando Connor mostrou uma imagem de Sumo deitado esperando ser acariciado por qualquer um que quisesse.

 

Eram momentos que faziam com que algo respondesse em seu interior. Algo que ele não entendia na época.

 

Agora, sentado no banco do passageiro do carro de Gavin, ele começava a entender. Empatia era algo novo, ele estava começando a aprender sobre isso aos poucos.

 

O controle sobre a coloração de seu LED havia sido perdido, ele sabia que não conseguiria controlá-lo agora e temia que Gavin notasse.

 

"Da última que eu chequei o calendário, o Natal já havia passado." o carro freou no sinal vermelho "Se importa de explicar todo esse show de luzes na sua cabeça, lata?"

 

"Estava apenas reunindo as informações do caso atual, Detetive. Esse caso não se assemelha a nenhum dos que solucionamos até agora, então estou verificando possíveis causas e resultados."

 

Nines sentiu o olhar de Gavin sobre seu LED, que havia lentamente voltado ao azul claro normal.

 

"Sei." o carro voltou a andar depois do sinal abrir "Enfim, qual era o endereço mesmo?"

 

"Vire na segunda à direita e siga por três quarteirões, é a primeira casa verde."

 

O carro deu uma guinada e seguiu pela rota.

 

"Vocês androides até que sabem ser bem úteis as vezes. Conseguem até saber detalhes como qual a cor da casa. Vai me dizer que vocês tem o Google Earth instalado no sistema de lata de vocês?"

 

"Google Maps na verdade. E estou vendo o caminho pelo seu celular." Nines virou o aparelho na direção de Gavin que colocou a mão direita no bolso e percebeu que o mesmo estava vazio.

 

"Mas que m... Como sabe a senha do meu celular?"

 

"Não preciso de sistemas avançados para poder ver além do seu ombro no precinto, Detetive."

 

"Como... O que tanto você mexeu?" Gavin usou uma das mãos e arrancou o celular das mãos de Nines que levantou um meio sorriso discreto

 

"Se quer saber se eu vi seu histórico do navegador, a resposta é não. Não tenho interesse em saber as coisas que você pesquisa ou faz no seu tempo livre."

 

Nines conseguiu ouvir as batidas do coração de Gavin, que haviam aumentado nos últimos segundos, voltarem ao normal depois desse último comentário.

 

"No entanto, admito que acabei vendo a galeria por acidente. Por que humanos gostam tanto de tirar fotos em frente ao espelho sem camiseta?"

 

"Não é da sua conta, plástico" Nines percebeu o rubor que havia subido a rosto de Gavin e deu seu pequeno embate como vencido.

 

Ele havia notado que ultimamente era bem fácil deixar Gavin envergonhado, e ele havia decidido que iria aproveitar essas pequenas oportunidades para envergonhá-lo. Era algo que Tina o havia ensinado, e ele era um rápido aprendiz.

 

A verdade era que Nines não havia entrado na galeria de Gavin, tinha apenas baseado esse comportamento após uma pequisa de costumes humanos. O fato de que Gavin realmente mantinha esse tipo de material no seu celular era algo que Nines ainda teria que aprender um pouco mais sobre o por quê.

 

O carro parou em frente a uma casa popular verde. Era possível notar que ela era bem cuidada com a fachada verde brilhante e o gramado baixo como se houvesse sido aparado recentemente.


Nines levou sua mão até a maçaneta da porta do carro esperando que Gavin destrancasse-a mas o barulho de destrave não veio. Virando-se para o banco do motorista, Nines percebeu que Gavin ainda mantinha suas mãos no volante.

"Eu já estava com certas suspeitas que isso poderia acontecer. Hoje mais cedo tive o veredito."

"Não entendi. Do que você está falando?" Nines observou Gavin tirar as mãos do volante e cruzar os braços, lentamente virando o olhar na direção dele.

"Há quanto tempo?" 

"Não tenho certeza se estou acompanhando o seu raciocí..."

"Divergente, merd*! Há quanto tempo você é divergente?"

'Como?' Por um segundo Nines se perguntou como Gavin havia descoberto. Fazia poucas horas desde que ele havia escolhido salvar a vida de Gavin e com isso ter o seu ultimo ato de empatia que quebrou a ultima barreira contra a divergência. Ele havia escolhido. Não era sua missão, mas ele havia feito por vontade própria.

Independência era algo incrível. Incrivelmente energizante e ao mesmo tempo incrivelmente assustador. Era isso que os humanos sentiam todos os dias?

"Eu não sou divergente, Gavin. Sugiro que você pare de tomar tanto café e dormir tão pouco, os efeitos parecem estar afetando o seu raciocínio."

"Isso não é sobre mim e você sabe." O couro do banco do carro fez um barulho abafado quando Gavin virou o corpo para encará-lo "Querendo ou não, eu sei que o mesmo tipo de sistema ou seja lá o que rode nesse seu cérebro de mentira é capaz de mudar. Porr*, o lata ambulante do Connor foi capaz disso, e ele não era um protótipo igual a você?!"

"Meus sistemas são mais avançados do que os de meu anteces... do que os de Connor." 

"Viu. Você não é de errar nem mesmo as frases assim." Ele passou a mão na própria testa "Quer saber? Deixa pra lá. Não dou a mínima."

Quando Nines não respondeu, um suspiro profundo saiu dos lábios de Gavin. Ele destravou as portas e se preparou para sair, porém parou quando viu que o LED de Nines voltava a piscar entre azul e amarelo.

"Ok, isso foi rude. Foi mal." O olhar apático de Nines era a única resposta que foi emitida naquele momento "Você sabe o que faz. Se vocês latas conseguem ser tão humanos como dizem, vou deixar que lide como quiser."

"Eu não sei se quero isso." Nines disse quebrando o próprio silêncio "Fui criado para não cometer erros, e não preciso pesquisar para saber que a maioria dos erros cometidos por indivíduos provém de emoções de momentos. Imaginar que serei capaz de cometer esses equívocos é um pensamento que não me atrai."

"Hey, talvez muitos erros possam trazer um acerto. Não foi assim que os cientistas fizeram essas coisas que temos hoje?"

"Eles não 'fizeram' tudo do nada. Houve toda uma pesquisa e..."

"Tá, tá. Não precisa de discurso." Nines viu Gavin revirar os olhos "Agora que tal deixarmos essa conversa pra depois de prendermos o assassino? O caso não vai se resolver sozinho."

"Como quiser, Detetive."

Eles saíram do carro e pararam em frente a casa. Nines olhou atentamente para ver se conseguia enxergar algo pelas janelas. Gavin foi na frente mas parou depois de alguns passos.

"A propósito, eu só tive certeza de que você realmente havia mudado depois que me chamou de Gavin. Duas vezes."

Nines levantou uma das sobrancelhas com a informação. Realmente, mesmo depois de alguns protestos por parte de Gavin nas últimas semanas, Nines sempre manteve sua formalidade. Era algo do seu sistema, provavelmente para auxiliá-lo em possíveis missões de infiltração e espionagem. Seus colegas do precinto haviam notado, mas não comentaram nada, provavelmente considerando que era apenas algo da personalidade de Nines. Agora ele já não tinha certeza do que realmente era.

Eles subiram devagar os pequenos degraus que ficavam na frente e pararam tentando ouvir alguma movimentação. A mão de Gavin foi até o seu coldre, ele olhou para trás e fez um gesto de confirmação com a cabeça na direção de Nines. Levantou a mão e bateu na porta.

Não houve resposta e Gavin tentou novamente. Nines podia ver que ele estava ficando impaciente com a espera.

"Chega." Gavin bateu novamente "Polícia de Detroit, abra a porta."

Nesse momento um barulho alto de algo caindo pode ser ouvido pelos dois .

"Droga. Para trás, plástico" Gavin afastou Nines claramente se preparando para derrubar a porta, mas foi respondido pelo toque da mão de Nines em seu pulso

"Não será necessário." Nines foi até a porta e girou a maçaneta abrindo a porta. "Está aberta."

"E por que não falou antes, lata?" Gavin bufou mas logo tomou a dianteira com a arma em punho.

O lugar estava bagunçado. A pia estava empolgada de louças, lixo cobria os cantos das paredes e algo aparentava cheirar ruim pela cara enojada que Gavin fazia mais a frente.

"Eu vou dar uma olhada lá em cima, me avise se descobrir algo." Gavin subiu as escadas e Nines decidiu dar uma olhada na sala.

Diferente das maiorias das casas humanas, essa não estava coberta por retratos ou algo que indicasse quem realmente morava ali. Nines passou a mão por cima de uma das estantes e notou que havia uma pequena chave escondida dentro de um prato decorativo.

Uma breve análise indicou que era uma chave de gaveta antiga. Olhando em volta havia apenas uma gaveta com fechadura, em um pequeno gabinete próximo ao sofá. A chave girou suavemente na abertura e Nines puxou a gaveta mostrando o conteúdo.

Nela havia uma pasta azul com diversos papéis presos por clipes e post-its com anotações. Uma matéria impressa de um jornal online estampava a primeira folha.

"Tragédia Familiar"

 

'Acidente de carro deixa dois mortos e um androide.'

 

'...casal deixa dois filhos..."

 

"...filho mais velho relata que a viagem havia sido ideia do androide para compras de final de ano..."

 

"... 'Eu não queria que eles fossem, mas aqueles maldito androide fez a mente deles. Agora perdemos nossos pais por culpa dele.' ..."

 

"...ambos estarão sobre a tutela de um tio, até que o mais velho complete 18 anos, daqui a 4 meses..."


Nines subiu o olhar e viu que a matéria era datada de 2 anos atrás. Virando a página havia uma foto do carro em ruínas na beira da estrada. Junto haviam papéis que constatavam uma investigação e que comprovaram que a causa do acidente foi devido a problemas com o freio do carro.

Naquele momento algo deslizou da pasta e Nines agachou-se para pegar. Seus dedos envolveram o que parecia uma foto de uma família. Todos sorriam para a foto, e não precisou de muito para perceber que o pequeno garoto na foto era Augusto. Ele devia estar uns cinco anos mais novo.

Já não havia dúvidas que o casal que havia morrido naquele acidente era justamente o casal da fotografia. Mas algo não se encaixava.

Eles haviam recebido esse endereço da equipe forense, mas não era baseado na análise da vítima, mas sim...

 

'Isso não é bom'

 

"GAVIN, EU..." os gritos de Nines foram cortados quando ele foi empurrado com força pra frente, seu físico alto fazendo barulho com o contato com o chão.

 

Antes que pudesse reagir ao avanço inesperado, Nines sentiu algo frio pressionar sua têmpora. Uma arma.

 

"Androide maldito, como conseguiu chegar até aqui?"

 

Nines sabia que qualquer movimento brusco que ele fizesse naquele momento poderia acabar piorando as coisas. E agora que ele havia se tornado divergente, não havia nada mais do que  ele temesse do que a própria morte.

 

"Você não precisa fazer isso, John." Por um breve segundo Nines sentiu o humano hesitar quando ouviu o nome "Só estamos aqui pra entender o que aconteceu na casa abandonada."

 

"Como se um merda de androide fosse capaz de entender alguma coisa. Tudo está indo pra merda por causa de vocês." Nines ouviu o dedo de John pressionar o gatilho devagar "Vocês não vão mais arruinar minha vida."

 

"Largue a arma agora." Nines virou a cabeça na direção da voz conhecida. Gavin se mantia em pé na sala com a arma apontada na direção de John

 

Nines sentiu o peso do corpo em cima do seu diminuir, e por um instante achou que a situação estivesse sobre controle, mas foi surpreendido pelo barulho de tiro vindo da arma de John.

 

O barulho foi seguido por um grito abafado de dor vindo de Gavin. Antes que pudesse assimilar o que havia acontecido, Nines viu John correndo em direção a porta dos fundos.

 

Duas opções apareceram diante de Nines, checar Gavin ou perseguir John. Se ele ainda fosse uma máquina, a primeira opção nunca seria uma escolha. Mas ele já não era apenas uma máquina.

 

Gavin mantinha uma mão pressionada ao braço direito, Nines percebeu que o tiro havia pegado de raspão e que ele começava a perder sangue.

 

"O que ainda está fazendo aqui, lata? Devia estar correndo atrás dele e não parado aqui." Gavin se levantou ainda pressionando o braço "Vai, antes que ele suma de vez."

 

Sem saber o porquê, Nines se viu colocando a mão no espaço acima do ferimento de Gavin. Parte do seu exoesqueleto se retraiu no lugar em que o havia tocado, como se tentasse conectar com ele. Mas Gavin não era androide, não havia como eles se conectarem dessa forma. Os dedos, agora brancos, não pareciam ligar para tal informação, pois continuaram ali sem menção de se moverem.

 

"O que..." Gavin se interrompeu e afastou-se do toque, e Nines viu sua pele retornar "Eu vou ficar bem, vá logo."

 

Nines olhou nos olhos de Gavin e tomou sua decisão. Assentindo, correu em direção a porta que John havia feito sua fuga.

 

Uma análise do quintal foi o suficiente para Nines saber qual rota de fuga havia sido tomada e ele logo se viu correndo na mesma direção tomada por Jonh.

 

Depois de alguns minutos Nines se viu no centro da cidade. Pessoas e androides andavam de um lado para outro com sacolas cheias de compras enquanto conversavam uma com as outras.

 

"Hey, olha por onde anda. Você derrubou minhas coisas."

 

Nines virou-se em direção da comoção e notou que se tratava de duas pessoas. Enquanto a mulher tentava pegar o que havia caído, o homem olhava ao redor nervoso. Até que os olhos do homem caíram sobre os seus e Nines percebi de quem se tratava. O homem correu na direção oposta antes que Nines pudesse falar alguma coisa.

 

Correr enquanto se desviava de diversas pessoas sem machucá-las era uma tarefa difícil. Nines sabia que ele poderia esbarrar e ultrapassar qualquer um que estivesse na sua frente devido a sua força sobre humana, mas isso não seria necessário. Além do mais, a era de paz entre androides e humanos deveria ser preservada, Markus e a sua revolução não seria em vão.

 

Agora que era um divergente, Nines conseguia entender as coisas de uma forma melhor. Ser perseguido por simplesmente ter vontade própria, era algo completamente sem sentido. Humanos sempre tiveram esses tipos de sentimentos, e embora nem sempre eles fossem capazes de expressar essa liberdade, eles conseguiram lutar e conseguir. Os androides agora conseguiram o mesmo. Os tempos mudam, mas ao mesmo tempo continuam os mesmos.

 

Perseguição era uma das habilidades que estavam na programação de Nines. Então não havia como John conseguir derrotá-lo nesse sentido. Quando Nines estava próximo de alcança-lo, John parou de correr e virou-se em direção à ele.

 

"Porra, que merda de androide insistente você é." ele ofegava com as mãos na cintura tentando se recuperar.

 

"Já chega, John. Você não pode contra mim. Seria inteligente da sua parte desistir e vir comigo até o precinto. Queremos saber o que aconteceu com seu irmão Augusto."

 

"NÃO OUSE FALAR O NOME DELE SEU MERDA." Das costas ele tirou a mesma arma de antes e apontou na direção de Nines "É culpa de vocês que ele está morto. Vocês são a pior doença que já surgiu nessa merda de mundo fodido."


"Isso não precisa acabar assim, John. Só quero saber o que aconteceu."

"Nada disso era pra ter acontecido" Nines percebeu a voz de John falhando ao dizer isso, lágrimas ameaçavam escapar seus olhos enquanto mantinha a arma na direção dele "Tudo o que eu queria era proteger meu irmão desses androides."

Nines pensou que era preciso mante-lo falando até que o reforço chegasse. E naquele momento as pessoas haviam se afastado deixando apenas os dois no centro da rua.

"Então você não sabia da relação que Augusto estava tendo com Owen?"

"Quem? Ah, então esse era o nome daquele robô de merda." Suor escorria pelo rosto dele "Eu tinha começado a notar que o Gus começava a ficar muito tempo fora de casa. Ele estava se distanciando cada vez mais e não costumava me contar mais as coisas. Eu achava que era apenas rebeldia adolescente, até que eu vi uma foto dele com esse androide... Eu precisava alerta-lo. Precisava lembrar ele do que os androides haviam feito com nossa família."

"Então por que atirou nele, se tudo o que queria era protege-lo?"

"Não era pra ter atingido ele." lágrimas rolavam livremente pelo rosto de John "Ele tentou proteger aquele androide. Eu só... só queria o bem dele. Longe de toda essa merda de inteligência artificial. Agora eu perdi a única pessoa com que eu me importava."

"E os outros androides? Eles não haviam feito nada, e mesmo assim você atirou neles a sangue frio."

"Eu não preciso me explicar pra você. Você é uma merda de um androide também. Tudo o que sabem fazer é arruinar vidas."

Nines olhou discretamente além de John e pode identificar uma silhueta se aproximando devagar. Não era necessário pensar muito pra saber quem era, eles já se conheciam o suficiente. Antes que Nines pudesse alertar Gavin da arma apontada na direção dele, John pareceu notar o olhar de Nines e virou-se bem na hora que Gavin se preparava pra lhe dar uma coronhada com  sua arma, desviando-se a tempo e derrubando Gavin com força no chão.

Não havia tempo a perder. Nines correu na direção dos dois. No entanto, antes que ele pudesse interferir o embate dos dois, ele viu Gavin sendo subjugado por John recebendo diversos golpes no seu braço ferido e aparentemente desmaiado de dor.

Os níveis de estresse de Nines estavam nas alturas e tudo o que ele queria no momento era empurrar John de cima de Gavin e verificar se ele estava bem. Ele conseguia sentir seu LED esquentando e podia deduzir que ele brilhava de um vermelho intenso. 

Se afastando do corpo estático de Gavin, John voltou a mirar a arma diretamente para Nines, fazendo-o congelar no lugar.

"Eu poderia acabar com seu amigo aqui num piscar de olhos, mas eu não ligo para a existência dele. Já você, eu vou ter prazer em acabar com a merda da sua falsa ideia de vida."

Não importava pra onde Nines olhasse, nada parecia dar a esperança de que aquele momento acabasse de outra forma. Todas as pré-reconstruções que seu cérebro faziam naquele momento acabavam com o mesmo fim. Morte.

Nines não imaginava que no mesmo dia que ele conseguisse a sua divergência, a sua liberdade, tudo isso seria retirado de si brutalmente. Logo agora que ele começava a ver as coisas de uma forma diferente, de um jeito mais claro, mais... humano.

Havia tanta coisa que ele ainda queria ter feito, ter presenciado, ter...sentido. Sentimentos era algo tão novo pra ele, porém ele não via a hora de poder aprender mais. 

Ele nunca havia estado mais vivo, e agora, nunca mais estaria.

Fechando os olhos, Nines resolveu não presenciar visualmente o que estava para acontecer. O que havia se tornado o seu maior medo estava prestes a se concretizar. Ele resolveu deixar sua mente divagar por memórias boas, momentos passados com Tina, Chris, Connor e Hank. Ele tinha a leve impressão de que aquilo deveria ser o que os humanos costumavam chamar de família. Ele via agora o quanto era grato por isso.

E havia Gavin, o grande carrancudo, mal humorado e boca suja, parceiro de Nines. Eles haviam começado a se entender melhor nas últimas semanas e havia algo no comportamento de Gavin que fascinava Nines. O quanto ele conseguia fazer e falar as coisas com tanta convicção, em como ele se empolgava nas próprias palavras. Tudo aquilo trazia uma leve sensação no peito de Nines que ele não conseguia identificar durante o seu estado de máquina.

Mas agora ele havia começado a entender o que era essa sensação. No que parecia os últimos momentos de sua vida, ele entendeu o que significava. Infelizmente, agora já era tarde.

BANG!

O barulho do tiro penetrou os ouvidos de Nines de forma bruta. Androides eram incapazes de sentir dor, então Nines não sabia qual seria a sensação de morrer. Ele se perguntou se haveria algo além, mas sabia que aquilo era um pergunta tola. O conceito de vida após a morte era no mínimo cômico, mas Nines conseguia agora perceber o porque dos humanos se apegarem a essa concepção. Era algo interessante de se acreditar.

Alguns segundos se passaram e Nines percebeu que nada havia mudado nos seus sistemas, nenhum sinal de alerta ou desativação havia soado, o que era estranho. Ele resolveu abrir os olhos devagar e olhando para o seu corpo pôde notar que não havia nenhuma marca de perfuração por bala.

Ele logo virou o olhar na direção de onde o tiro deveria ter vindo e foi aí que ele notou o que havia acontecido. John estava estirado no chão no chão, uma poça de sangue escarlate começava a rodeá-lo. Pouco atrás estava Gavin, arma na mão ainda apontada na direção de John, ele se mantinha meio sentado e meio deitado, apoiando-se no braço bom.

Um breve olhar foi trocado entre os dois até que Gavin voltou a se deitar no chão aparentando exaustão. Nines se aproximou ajoelhando-se ao lado de um Gavin zonzo, analisando-o, Nines percebeu que ele havia usado de grande parte de sua força para efetuar o tiro pois seu braço ainda sangrava mesmo com o pano improvisado, amarrado supostamente por ele mesmo.

"Você precisa ser levado para um hospital, Gavin."

"Não me diga, Sherlock." Gavin fez menção de se levantar novamente, e antes que caísse de volta ao chão, Nines o ajudou a se sentar. "A propósito, de nada por salvar sua vida."

"Eu não estava agradecendo."

"Ah, seu lata esnobe" Por um segundo Nines achou que Gavin o xingaria mais, mas ele começou a rir ao invés disso "Pensando bem, agora estamos quites, não é mesmo? Se bem que sou eu que está com a merda de um braço fodido e não você. Então não é exatamente cem por cento  quites porque você não tem nenhum arranhão sequer, o que é completamente injusto mas já era de se esperar porque..."

"Gavin."

"O que foi? Só estou falando a verdade."

"Você fala demais." Antes que Gavin pudesse retrucar, Nines lentamente se aproximou dele segurando seu rosto "Eu tenho uma ideia melhor do que você pode fazer."

Por um momento Nines pensou que ele deveria ter ido longe demais, mas logo um rubor pôde ser notado subindo pelo pescoço de Gavin até onde sua mão tocava o rosto dele.

"É mesmo?" Gavin engoliu em seco "E o que seria isso?"

Entendendo a pergunta como consentimento, Nines logo cortou a distância entre os dois e uniu seus lábios com os Gavin. Sua mão desceu do rosto de Gavin até a base do pescoço, mantendo-se firme no lugar, ele sentiu sua pele retrair e seu exoesqueleto branco ficar a mostra no espaço em que ele tocava Gavin, enquanto sua língua explorava a de Gavin em um ritmo rápido e sedento. 

Nines conseguia ouvir os batimentos de Gavin acelerarem cada vez mais e sabia que os seus próprios batimentos lutavam pra sincronizar com os dele. Eles levaram um bom tempo, até que Nines notou um pequeno clamor de dor vindo de Gavin, fazendo-o se afastar.

"Gavin? Perdão, não tive a intenção de machucar você."

"O quê?" Gavin deve ter notado o olhar de pavor no rosto de Nines "Não, não. Não foi você. É só meu braço, acho melhor dar um jeito nele logo."

Alívio tomou conta de Nines, enquanto ele voltava a se sentar ao lado de Gavin.

"Uma ambulância está vindo, eu chamei pouco tempo depois que você levou o tiro na casa, mas tive que mudar as coordenadas para cá então vai levar alguns minutos. Por favor pressione o local com força para estancar o sangramento."

"Não sabia que se preocupava tanto comigo, lata." Gavin riu e Nines se limitou a revirar os olhos

"Devo lembrá-lo que estávamos nos beijando a poucos segundos atrás?"

"Talvez eu precise de um replay para ver se lembro mesmo." Gavin tentou piscar o olho, mas acabou piscando os dois de um jeito estranho.

Antes que pudesse revirar os olhos novamente, Nines olhou em direção do corpo de John no chão.

"Vamos ter bastante coisa pra explicar sobre esse daí." Gavin suspirou profundamente "Uma dor de cabeça pro meu eu do futuro."

"A repulsa que ele sentia por androides era grande demais. Ainda não entendo o por quê."

"Não dá pra entender todos, Nines. Humanos são... dificéis."

"Isso é provavelmente uma das coisas mais inteligentes que já disse, detetive."

"Vou considerar isso como um elogio." Eles trocaram um sorriso cúmplice e Nines pode notar a ambulância vindo à distância.

Apesar dos protestos de Gavin, Nines ajudou-o a levantar e o levou até a ambulância. Nines se certificou de que Gavin fosse até o hospital e mesmo com Gavin reclamando do motivo de ter que ir até lá, ele logo aceitou quando Nines afirmou que passaria mais tarde para visitá-lo.

O céu começava a escurecer quando Nines parou em frente a uma ponte com vista para o Rio Detroit. O vento vindo do leste balançava seu cabelos e sua jaqueta branca e preta. Pessoas e androides passavam aos montes próximas a ele, mas naquele momento ele sentia como se fosse o único que estivesse ali.

Um sorriso curto tomou conta dos seus lábios quando as palavras azuis tomaram conta de sua visão.

.

.

.

| EU SOU DIVERGENTE |

.

.

.

| EU ESTOU VIVO |

.

.

.

Virando-se na direção oposta, ele sabia exatamente pra qual direção ir. 

Para o hospital.

Para Gavin.


Notas Finais


Esse capítulo foi bem longo, prometo que os próximos serão menores rs
Obrigado a todos que leram até aqui ♡


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...