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História Amor e Fúria - Capítulo 26


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Notas do Autor


Aviso de gatilho: este capítulo apresenta conteúdo que pode ser considerado sensível para algumas pessoas, como relatos de violência doméstica, consumo de álcool e morte.

Capítulo 26 - Capítulo 24: Caminho sem volta


Fanfic / Fanfiction Amor e Fúria - Capítulo 26 - Capítulo 24: Caminho sem volta

Marinette tentava juntar as peças daquele quebra-cabeça, embora o ataque do Akuma não fosse algo que ela desejasse relembrar. Adrien seguia empenhado em terminar de contar toda a verdade, apesar das dores intensas que pressionavam internamente sua cabeça.

— O Akuma sempre esteve atrás desse mesmo tesouro. Eu não sei como ou exatamente o quê, mas tenho certeza que eles possuem alguma informação sobre essa localização. É por isso que eu preciso da rota, desta rota.

— Você acha que... encontrando o tesouro... vai encontrar o Akuma?

— Eu espero encontrar o Akuma enquanto procuro o tesouro. Sim. Isto também significa, Marinette... que a Capitã Ladybug já esteve mais perto desse tesouro do que eu jamais estive — fez uma pausa. — Também existe uma possiblidade remota de eles terem encontrado o tesouro e por isso sumiram. Ou apenas estão longe demais pra gente ouvir falar neles lá na Europa. Mas essa é a minha única pista sobre o paradeiro deles. É tudo o que tenho. Por este mesmo motivo fui atrás da Rose. Nenhum de nós sabia como a bússola funcionaria depois que estivéssemos em alto mar, quis garantir que os cálculos estariam corretos. Estou apostando tudo nesta única viagem, é a minha última chance de encontrá-los.

Marinette, mais calma, refletia sobre o que ouvia. Também estava exausta e com dor de cabeça — mas que nem de longe se comparava com a enxaqueca que afligia o homem. Ela desprendeu as presilhas que sustentavam o coque, soltando os fios. Massageou a própria nuca, buscando amenizar a sensação de cansaço.

Adrien estava com o semblante derrotado, ambos os olhos avermelhados, além do inchaço no supercílio esquerdo e o hematoma roxo na lateral do rosto. A fadiga era intensa, mas não seria possível adiar aquela conversa, ele sabia disto, tampouco queria. Sentia um alívio enorme por finalmente contar-lhe tudo.

Marinette puxou o ar para tomar coragem e enfim perguntou:

— Capitã Mayura e Hawk Moth... são deles que você quer se vingar?

— Como sabe disso?

— O chapéu. Você esqueceu seu chapéu na minha casa.

Adrien entendeu de imediato ao que ela se referia: as frases bordadas no interior do objeto.

— Sim... eu tive um motivo pessoal para começar isso tudo. Estou atrás do assassino da minha mãe, estou atrás do meu pai.

Marinette apavorou-se.

— Gabriel Agreste assassinou sua mãe... ele é Hawk Moth?

— Sim — o olhar do homem era inconsolável.

A respiração da garota se alterou.

— O Miraculous encontrou o Akuma uns dois anos atrás, Adrien — ela começou a narrar, ganhando a atenção do loiro. — Foi horrível, a tripulação tentou se proteger como pôde. O Miraculous não faz emboscadas... não ataca, mas eles são fortes aqui, sabem se defender. Só que o Akuma... O Akuma é cruel demais... foram muitos feridos. Para eles é sempre questão de vida ou morte, eles são extremamente violentos. Nossa tripulação era mais numerosa, acho que só vencemos por causa disto... E os invasores pareciam cansados, não sei explicar, foi tudo muito rápido. O Hawk Moth me venceu no duelo e eu perdi minha espada. E depois... o seu pai, Adrien... ele tentou me matar.

— O quê?! — A face de Adrien se tornou mais raivosa e aturdida que nunca. — Eu vou matar esse desgraçado e não vai ser farsa!

Marinette abaixou a cabeça e as mãos repuxaram o tecido da calça quando as fechou em punho. Ela levantou o olhar, estava repleto de lágrimas outra vez. Adrien rapidamente inclinou o corpo para frente, esticando os braços, e levou a garota para cima de seu colo, a abraçando com intensidade.

— Eu vou matá-lo, Marinette.

— Se você o matar, vai se tornar como ele ou como o Chat Noir finge ser. Só que vai ser de verdade.

Ela o apertou nos braços, debruçada sobre ele, que jazia sentado na cama, com as pernas esticadas no colchão. Ficaram um longo tempo em silêncio, até as respirações se acalmarem.

Adrien quis perguntar se ela sabia a localização do atentado, mas não queria aumentar a angústia da garota; poderia perguntar a outra pessoa depois. Naquele momento, o bem-estar de Marinette era muito mais importante.

Ela afastou o tronco para fitá-lo, permanecendo deitada sobre ele. A mão de Marinette acariciou brevemente o peitoral nu masculino.

— O quanto ele te machucou? — Adrien quase não foi capaz de perguntar por temer a resposta.

— Não muito, eu acertei um chute e depois um soco quando ele avançou pra cima de mim.

Adrien fechou os olhos para aquela constatação dolorosa.

— Exatamente como eu naquele dia.

Os olhares se conectaram de forma angustiante.

— Sim... — ela balbuciou. — E tem outra coisa... — Marinette hesitou.

A garota estava praticamente deitada sobre a lateral esquerda do corpo masculino. Adrien lhe afagou os cabelos soltos, então cessou o movimento para falar.

— Não precisa me contar se não quiser.

— Tá tudo bem, não é exatamente sobre o Hawk Moth. É mais sobre a Mayura.

Adrien consentiu.

— Diga...

— Quando o Akuma atacou o Miraculous, eu ouvi claramente chamarem o seu pai de Capitão. Capitão Hawk Moth.

Adrien ficou perplexo.

— Mayura era a única Capitã do Akuma... até onde sei.

— Eu não conheci a Capitã Mayura. E a tripulação inteira deveria estar no ataque. Não sei por que, mas creio que ela não estava lá.

— Ela era ambiciosa, cruel e traiçoeira, fazia qualquer coisa pra conseguir o que queria. A mais cruel destes mares, Marinette. Capitã Mayura não iria abrir mão do Akuma, é provável que tenha se ferido em algum ataque.

— Possivelmente.

Ambos se olharam com preocupação, havia algo de errado naquela história, alguma informação que ambos desconheciam. Marinette se ajeitou na cama, sentando de modo ereto. Manteve-se perto dele.

— Como seu pai foi parar ao lado dela... o que houve? — Pronunciou devagar, receosa.

Adrien ajeitou o cabelo da garota brevemente, fazendo um carinho, por consequência.

— Não é uma história bonita, muito menos feliz. Eu queria te poupar.

— Eu quero saber tudo, Adrien. Tudo que te obrigou a criar Chat Noir e a iniciar essa caçada. Você disse que me contaria e eu quero saber. É tarde demais pra gente voltar atrás agora.

Adrien concordou ao menear a cabeça.

 — Meu pai estava atrás desse mesmo tesouro desde antes da gente se mudar da cidade. Ele sempre foi ambicioso, Gabriel Agreste não nasceu pra ser pobre. Ele era completamente obcecado pelas histórias da caixa octogonal, pelas outras joias, pelo mistério, por tudo. Todo mundo já tinha ouvido falar uma coisa ou outra, mas ele não se contentava apenas com os boatos, ele estudava cada detalhe, ia atrás das pistas. Diversas vezes nós ficamos sozinhos em casa, somente eu e mamãe, porque ele estava por aí navegando a bordo de algum navio.

— Eu lembro que vocês costumavam ficar sozinhos.

— Sim, ele mal parava em casa... trabalhava em qualquer navio que estivesse pronto pra zarpar, não fazia parte da tripulação de nenhum deles, mas sempre voltava, levava dinheiro pra gente, ficava uns dias e depois ia embora de novo. Ele colhia informações nessas viagens, com os próprios marujos ou nos lugares que visitava, nos portos onde atracava. Foi quando ele ouviu falar no Akuma... no interesse deles com relação a esse tesouro em específico. O Akuma tinha uma tripulação enorme, mas vivia com baixas, eles eram muito ativos com as emboscadas, desde nossa infância... Desde aquela época o Akuma já aterrorizava os mares e até mesmo invadia ilhas ou pequenas cidades no continente.

— Eu lembro...

Adrien suspirou. Ajeitou os cabelos longos para trás das orelhas.

— Meu pai disse que ia trabalhar lá também. Minha mãe tentou de tudo pra impedir, conhecia melhor que ninguém a ambição de Gabriel Agreste, mas entrar naquele navio era um caminho sem volta. Essa foi uma das grandes discussões que tiveram. Dava pra ouvir eles gritando lá do meu quarto. Ele falava que essa era a chance deles de mudarem de vida. Pensava que com os estudos dele e a experiência do Akuma... eles juntos conseguiriam encontrar o tesouro chinês. Minha mãe respondia que o que nós tínhamos era suficiente, que não precisávamos de ouro nenhum. Eles nunca concordavam, mas Gabriel cedeu... pelo menos no início. Daí ele começou a beber cada vez mais e a discutir de forma absolutamente rude com ela... — As últimas palavras saíram em baixo tom, e ele interrompeu a fala por causa das lembranças dolorosas.

— É por isso que você não bebe? — Marinette perguntou, tentando trazê-lo de volta para a conversa, embora receosa sobre seguir ou não; estavam ambos fatigados.

— É por isso que eu não bebo. Tenho medo de ter herdado isso dele... se existe essa mesma sombra dentro de mim, prefiro mantê-la trancada — respondeu. Então voltou ao relato. — Já havia decorado o que eles iam falar, os argumentos eram sempre os mesmos, de ambos os lados. Eu não suportava mais aquilo, e fugia pra me encontrar com você — ele a olhou amavelmente, os olhos estavam inundados por lágrimas retidas nos orbes.

— Eu lembro que você de vez em quando aparecia lá com o rosto cansado. Mas eu não sabia que era por causa disso, Adrien. Se eu soubesse... — a fala da jovem era uma mistura de preocupação com remorso.

— Aí ficaríamos os dois tristes — sorriu para ela. — Tudo ficava melhor ao seu lado, Marinette... quando estávamos juntos, eu esquecia os problemas de casa e a vida parecia um sonho outra vez, um sonho bom — fez uma pausa, voltando a apresentar um semblante mais tenso. — Ele não a amava, quem ama não se comporta daquela forma. Mas ele acordava arrependido no dia seguinte e minha mãe o perdoava. Ela era a pessoa mais bondosa desse mundo, Marinette.

Adrien parou de falar e começou a chorar em descontrole. Marinette, solidária com a dor do homem, tampouco se privou de externar semelhante tristeza.

— Você precisa descansar.

— Não, eu... isso vai passar...

— Estou exausta, certeza que você também. Fecha os olhos, descansa um pouco. A gente termina mais tarde.

Adrien ainda chorava, sequer conseguia pronunciar as palavras com dicção perfeita.

— Deita comigo.

— Adrien...

— Deita do meu lado, por favor. Você é a única pessoa nesse mundo capaz de fazer com que eu me sinta bem.

Marinette estava ali a manhã inteira e o próprio Capitão estava impossibilitado de assumir suas funções. O Miraculous necessitava de sua Capitã. Por mais que Alya cumprisse esse papel com primor, era a presença imponente de Ladybug que inspirava a tripulação.

— Eu posso ficar um pouco.

Marinette levantou-se, buscou a toalha jogada no lençol e a molhou outra vez, posicionando no mesmo local de antes, sobre o rosto dele, assim que o homem se ajeitou para deitar bem no canto da cama estreita, deixando sobrar espaço para a jovem.

Na sequência, ela fechou a cortina da pequena janela redonda e deitou ao lado de Adrien, virando o corpo na direção dele. Seu rosto tocou superficialmente o braço direito dele, e Adrien buscou a mão da garota para segurar sobre seu peito. A respiração logo ficou pesada e ele dormiu.

Marinette também cochilou. Ao acordar, já havia passado da hora do almoço. Retirou o pano molhado de cima do travesseiro, onde havia caído. Olhou para Adrien. Mesmo dormindo, ele parecia atormentado. Talvez sonhasse com as lembranças ruins de seu passado.

Deixou o quarto.

≋≋≋☯≋≋≋

Depois de uma ronda no navio e de uma conversa rápida com sua melhor amiga, Marinette se alimentou e então retornou ao quarto do pirata.

Adrien ainda dormia. Ela voltou a se deitar ao lado dele, mas ele logo ajeitou-se, virando de lado e a envolvendo com um dos braços.

— Eu te acordei? — Marinette sussurrou.

Adrien encostou a testa na dela, ainda de olhos fechados, e roçou delicadamente o nariz no dela.

— Talvez.

— Desculpa.

— Já descansei o suficiente.

— Tá melhor agora? — Eles seguiam a conversa em sussurros, ambos de olhos fechados, com os rostos em contato.

— A cabeça ainda dói, sim, mas tô melhor.

Adrien respirou fundo, sentindo-se instantaneamente embriagado por ela. Movido por uma necessidade latente de amá-la, inclinou o rosto para buscar os lábios da garota. Marinette o beijou de volta, devagar, usufruindo do carinho e de todas as sensações boas que ele provocava.

Mas aquilo também significava que ela o perdoava? E, mais importante: ela perdoava a si própria pelo mal que lhe havia causado? Sentia-se culpada por trair uma pessoa que havia lhe provado ser inocente contra as acusações de roubos e massacres. Aquele homem era apenas Adrien, verdadeiramente ele e apenas ele; seu amor.

Se ele tivesse mesmo sido capturado, sem se revelar, Marinette seria novamente abandonada por Adrien Agreste, contra a vontade dele, mas por culpa exclusiva dela. O remorso lhe dilacerava o peito, mas ela desejava imensamente ser capaz de aceitar o amor que lhe era oferecido através do beijo.

Então os dedos de Adrien lhe afagaram a nuca, e ela se perdeu no carinho molhado que invadia docemente sua boca e lhe causava uma palpitação desenfreada.

— Adrien... — ela se afastou de repente, desfazendo o beijo.

Ele abriu os olhos, mas se manteve em silêncio. Continuou movendo os dedos entre os cabelos alheios, perto da nuca.

— Eu tava com saudade — ele pronunciou de forma romântica, mas com a respiração afoita.

— A gente ainda tem muito o que conversar.

— Eu amo você, Marinette.

O peito dela se apertou de imediato outra vez e seu rosto se contorceu em sofrimento. Ela observou com remorso o olho inchado e o hematoma no rosto que amava.

— Dói — ela respondeu. — Isso tudo... Adrien... dói demais. Eu não sei se consigo lidar com isso agora... com nós dois.

Ele a abraçou, escondendo o rosto dela em seu peito nu, lhe afagando os cabelos com imensa calma, numa forma de dizer que ficaria tudo bem. Aguardaria até que a moça se acalmasse, mas ela logo se distraiu com o barulho do estômago dele.

— Já passou o enjoo?

— Sim — ele respondeu.

Marinette se sentou, limpando rapidamente as lágrimas teimosas.

— Vou trazer algo pra você comer. Você tá proibido de levantar dessa cama até melhorar, entendeu?

— Sim, mon coeur... — respondeu com a voz romântica.

Ela saiu do camarote e fechou a porta. Em seguida, apoiou as costas no local, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos para suportar as lágrimas. Concentrou-se; precisava ser forte e rápida se quisesse se passar por Marinette e Ladybug ao mesmo tempo.

A moça retornou algum tempo depois, entregando-lhe a comida. Prometeu que voltaria mais tarde para terminarem a conversa e ele poderia descansar mais um pouco.

Ela aproveitou o intervalo para ser a Capitã do navio novamente. Tudo estava razoavelmente tranquilo. Os marujos já haviam todos retornado aos seus postos e a viagem seguia sem problemas.

No final da tarde, retornou como Marinette ao camarote de Chat Noir.

Quando abriu a porta, encontrou o homem deitado, de lado, segurando um livro também apoiado no colchão. Estava com uma camisa e a máscara preta. O peito saltou com o susto, era como estar diante de um vilão novamente, de alguém que agora ela sabia que sequer era mau de verdade. As lembranças e o terror, porém, ainda duelavam dentro de si.

Quando fechou a porta e girou a chave para trancá-la, Marinette respirou fundo e aguardou um momento antes de caminhar até a mesa e acomodar o lampião aceso que carregava.

— Já vai escurecer — ela comentou, então virou-se na direção dele.

O homem havia fechado o livro e a olhava com admiração. A máscara não cobria o hematoma por completo. O Capitão ameaçou retirar a peça quando foi interrompido.

— Espera! — Ela pediu.

Marinette sentou-se na cama e esticou a mão até tocar a face masculina, procurando os traços de Adrien no rosto coberto pela máscara negra, buscando eliminar o pavor e o ódio que aquela figura evocava em si, ao dizer para si mesma que ele não era real, e que o homem por trás era certamente alguém que a estimava, alguém que estaria disposto a arriscar a própria vida para salvá-la da iminência de qualquer perigo.

Mais calma, ela moveu a máscara para cima até retirá-la.

— Eu te evitei de propósito no primeiro dia de viagem... quando te vi chegar, eu me senti mal e me escondi. Não foi tão difícil, soube que você ficou aqui trancado quase o dia todo — disse como se fosse verdade, algo que ela certamente faria caso não fosse a própria Capitã da embarcação.

Adrien se apoiou nos braços para se sentar.

— Acho que eu não era alguém muito agradável... ou alguém que você estimasse pra ter por perto — ele brincou, arrancando um sorriso singelo da jovem. — Você tá bem?

— Fisicamente, sim. E você?

— Acho que nem fisicamente — ele respondeu. Ela sorriu outra vez.

— Hawk Moth. E o Akuma — ela lembrou onde ele havia parado a narração.

O jovem anuiu. Concluiu para si que era melhor terminar logo aquela história antes de tentar aproximar-se de Marinette de novo. Ela claramente precisava de um tempo para assimilar todas aquelas informações, e por mais que ele a quisesse desesperadamente ao seu lado, o tempo, naquele momento, era seu melhor aliado.

Olhou amavelmente para a garota e então voltou ao relato.

— Foi por isso que a gente se mudou. Minha mãe pensou que tinha convencido ele a desistir dos mares, desistir do tesouro. Fomos morar perto de onde minha tia Amelie morava, a irmã gêmea da minha mãe.

— A mãe do Félix?

— Sim. A gente pensou que ia ficar tudo bem, mas meu pai ainda pensava no Akuma. O navio raramente era visto de perto, só aparecia quando precisava de mais pessoal, acredito que os outros itens de subsistência eles também roubavam junto com o ouro que encontravam nos navios emboscados. De alguma forma meu pai soube de um desses recrutamentos numa cidade próxima, num porto clandestino, e foi. Ele sumiu por meses. Minha mãe pensou que ele não iria mais voltar. Então ele voltou, dizendo que era o novo contramestre do Akuma.

— Contramestre? É um cargo de confiança.

— Exatamente. Ele sempre foi influente e astuto. Com certeza ele forneceu alguma informação relevante pra Capitã Mayura e ela percebeu o quanto ele seria valoroso... e decidiu promovê-lo. Esta parte estou apenas supondo, ele não nos contou exatamente o que houve, mas nos disse que a partir de então ele seria conhecido por outro nome.

— Hawk Moth.

— Isso... — ele pausou a fala, seu olhar era aflito. — Ficou claro que ele trabalharia apenas para o Akuma, definitivamente. E mamãe tentou convencê-lo a desistir, como sempre, mas foi em vão. Ele dizia que fazia aquilo por ela, por mim, por todos nós, mas na verdade ele só fazia aquilo por ele mesmo. Depois de se unir ao navio, ele ficou mais irritado, mais agressivo. Ele estava se comportando como se... — Adrien hesitou enquanto refletia, mas Marinette sabia exatamente o que ele tentara dizer.

— Como se tivesse sido possuído por um espírito maligno.

— Você conhece a tradução — Adrien afirmou com a intenção de pergunta.

— É uma palavra japonesa. Akuma significa espírito mau.

— Exatamente. Gabriel Agreste já tinha a alma corrompida, mas o Akuma intensificou isso, expôs seu pior lado, como se ele enfim tivesse permissão para ser quem ele realmente era, quem ele sempre foi. Ele queria que a gente o aceitasse daquela forma, aceitasse suas ideias, mas isto não seria possível. O que ele sentia era pura ambição. Ele foi e voltou algumas vezes, poucas vezes; passava a maior parte do tempo navegando. Nem sempre conseguia vir pra casa, mas sempre que ele voltava, era um inferno... Até que teve essa noite, numa das vezes em que ele voltou de viagem, eles discutiram de novo. Era madrugada. Eu acordei. Quando fui até lá... — a respiração do jovem ficou mais pesada. — Ele estava com um cinto na mão, gritava que ela tinha que obedecê-lo. Eu a abracei para protegê-la, mas ele não parou, ele chicoteou minhas costas com o cinto várias e várias vezes até minha camisa rasgar. Queria que eu saísse dali. Fui incapaz de me mover... temia que ele descontasse nela. Eu era menor, mais fraco e estava assustado, ele obviamente ganharia de mim, então fiz a única coisa que pude: proteger minha mãe — Adrien estava com o rosto apático, abundante em lágrimas. — Foi quando ela revidou, ela tomou coragem e o expulsou de casa. E desde essa noite nunca mais o vi.

— Nunca mais...? Então como... — ela não foi capaz de perguntar.

Adrien abaixou o rosto, atordoado. Sentiu o conforto da mão de Marinette em seus cabelos. Levantou o semblante depois de um tempo, com o rosto molhado por um pranto silencioso.

— Quando ele sumiu dessa vez, eu tentei convencê-la a mudar de casa, mas ela acreditava que um dia ele ia melhorar, que ia desistir e voltar a ser quem ele era, voltar pra gente... e seríamos uma família de novo. Minha mãe não enxergava o quanto aquele relacionamento era péssimo. Meses se passaram... A gente tava feliz de novo, de certa forma. A gente tinha paz. Eu tinha planos. Você estava neles, Marinette. Estava com dezesseis anos, já sabia o que queria da vida: um futuro com você. Eu estava trabalhando pra isso, no mercado, carregava peso, até ganhei alguns músculos nos braços, já não era mais aquele magrelo com quem você tanto implicava. Também ajudava a organizar o estoque... aprendi muito sobre matemática nessa época, que depois me foi muito útil nos assuntos de intendência do Cataclismo. Minha mãe era habilidosa, vendia bordados, e eu completava a renda da casa com o que ganhava no mercado. Também juntava dinheiro, o pouco que sobrava, pra ir te visitar em breve, esse era o plano, eu queria tanto te ver... deixar de trocar aquelas cartas e passar a trocar carícias. E então eu perdi tudo naquela noite: os meus sonhos de uma vida feliz. Era pra ser um dia normal, mas quando voltei do trabalho, ela já estava morta.


Notas Finais


ó_ò
.
.
.
Várias pequenas (e sofridas) referências ao episódio Chat Blanc >_<

Eu sei que não parece, mas juro que no próximo capítulo vai dar pra rir e respirar um pouco <3

Até quarta! Obrigada por ler! *-*


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