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História Amores - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Amor Doentio


Eu imploro por paciência aos deuses. Como poderia existir alguém como ele?

Sabíamos que Hades já havia se anunciado há algum tempo, só bastava ele realmente retornar. Não sabíamos como isso se procederia, mas de acordo com a tradição, o senhor dos mortos mantém seu corpo vivo em algum lugar desconhecido, enquanto isso, usa o corpo de algum mortal, geralmente de alma pura e caridosa, e tenta dominar novamente a Terra.

Parece que ainda temos algum tempo até que isso aconteça. Athena ainda é uma criança (tem seus dez anos) e acabou de chegar ao santuário, sua casa.

Desde sempre, tivemos o costume de nos mantermos alheios a todos os outros cavaleiros, mas desta vez, fizemos diferente. Na verdade, na verdade, nós já fizemos algumas empreitadas juntos e por isso conhecemos uns aos outros, mas amizade mesmo, não há (salva algumas exceções).

E parece que eu – o estrangeiro de origem francesa – também me encaixo nessa exceção.

A minha vida foi desgraçada no dia em que conheci o cavaleiro de Escorpião, Kardia. Eu tenho remorsos desse dia até hoje, já que Kardia tem uma mente que só pode ser classificada como dominada pelo demônio, não há outra possibilidade.

Estávamos todos ocupados com o treino dos garotos aspirantes. Um deles, inclusive, tem tanto talento, mas tanto talento, que o Grande Mestre está pensando em torná-lo um de nós, cavaleiros de ouro. E a prova disso é que quando cheguei, Régulus (seu nome), tinha acabado de derrotar três de seus colegas, todos ao mesmo tempo. Brilhante!

Mas não foi isso o que me chamou a atenção. Do outro lado, Kardia estava ocupado com os piores garotos. Todos sabíamos que aqueles ali não dariam nem mesmo para soldados, quem dirá para cavaleiros! Muito fracos.

E o cavaleiro responsável por este grupo definitivamente adorava colocar as pessoas preguiçosas nos eixos.

Kardia nunca teve lá métodos muito ortodoxos, diga-se de passagem, mas definitivamente, até para mim, que me considero um homem severo e doutrinado, ele estava exagerando.

De longe era possível ver o horror nos olhos daquelas crianças e nunca, em toda a minha vida, eu jamais desejaria que alguém passasse por um terror daqueles (leia-se por isso: nem os meus inimigos).

– Já chega!

Uma voz estridente reverberou pela arena e no mesmo instante Kardia parou, sua posição denunciando que ele claramente iria desferir uma de suas agulhas naqueles que nem haviam ainda desenvolvido o cosmos.

– Não achas que estás exagerando, Escorpião? – o grego se voltou imponente e desafiador, como sua postura sempre demonstrava. Ergueu o rosto e respondeu.

– Se assim o achasse, não o faria, não concorda?

Os olhares se mantiveram, até que Kardia deu por vencido e, com um sorriso de escarninho, deu de ombros e virou as costas para os que ficavam no chão, porém, falando alto o suficiente.

– É por isso que estamos como estamos. Logo enfrentaremos uma guerra importante e estamos passando a mão na cabeça de uns fedelhos fedidos a leite que não têm coragem nem força.

Era sempre assim. Se tivesse apenas cuspido nos garotos, não teria sido mais ofensivo. O tom de sua voz mostrava todo o desprezo que ele tinha por pessoas que considerasse fracas.

Uma mania que não entendia. Sempre precisava de um desafio, precisava que alguém atendesse as suas expectativas, suas exigências. Vivia para o combate. Às vezes penso que é só da boca pra fora, já que nunca tivemos uma luta de verdade. Mas se eu pensar bem, todas as vezes ele tinha atitudes quase que suicidas. Aliás, todas as vezes que se dispunha a lutar e sempre saía frustrado. Nunca entendi o motivo, mas parecia que ele dava o máximo de si, e desejava apenas o mesmo de seu inimigo.

– Por que pegas pesado com esses rapazes? – perguntei ao passar ao meu lado.

Outra vez. Seus olhos, de um azul tão claro como nunca vira antes em lugar algum, fosse na França, fosse na Sibéria, fosse na Grécia. E só ele conseguia o efeito que conseguia com aquele olhar: como era possível alguém ter uma cor tão clara de íris, uma cor tão calmante, mas era possível ver chamas, fogo, ardência em seus olhos. Aquilo que eu via sempre me deixava tonto, ao mesmo tempo que com o corpo em chamas.

– Se fossem dignos de pena, eu os teria poupado, mas não passam de uns fracotes. Se não são capazes de aguentar, por que estão aqui? – virou-se para mim e sorriu, desafiador – Tu não correrias de mim, não é mesmo, Dégel? – encostou seu ferrão em meu queixo, levantando minha cabeça – Não, certamente não o serias.

E foi-se embora, como se o mundo não estivesse ali, como se tudo fosse frágil e indigno de seus olhos.

E ele sabia o que causava em mim, o maldito.

Não tardou para que eu subisse. Foi pouco tempo após a subida de Escorpião, tempo suficiente para eu me acalmar e organizar minha mente. Kardia já estava passando dos limites, e ele precisava que alguém o colocasse no lugar. E parecia que, de todos ali, ele só levava a mim em consideração, ou pelo menos alguma consideração.

Por sorte, ele praticamente ficava trancafiado em seu templo, e raramente aparecia. Salvas as vezes em que ele era chamado para alguma reunião ou sua presença era exigida de outras maneiras. E essa reclusão era benéfica para todos os outros cavaleiros, que já não eram assim tão calorosos e muito menos amistosos e certamente não viam com bons olhos essas atitudes dele.

Ao subir para seu templo, fui-me anunciando elevando meu cosmo, mostrando que estava interessado em conversar. E como atendendo ao meu silencioso, mas agressivo pedido, a porta foi aberta com não menos agressividade. E lá estava novamente a figura debochada e imponente, me olhando arrogantemente e com o semblante fechado – parecia que minha anunciação não foi assim tão bem recebida.

Esperei me aproximar o máximo dele para que pudéssemos iniciar uma conversa.

“Será que podemos conversar?”

“Desejas tanto assim conversar comigo? Será que ficaste com tanta pena daqueles parvos a este ponto? De vir incomodar um colega em um momento de descanso.”

“Imaginei que meu colega aprovaria uma conversa mais concreta do que meras trocas de palavras no furor do momento”.

“Furor do momento?” – sorriu maldoso – “É, pode ser. Gostei do novo título.” – e dando espaço, passei e sentei-me no local indicado: uma cadeira almofadada, muito elegante e pude constatar depois, muito macia e confortável.

Ele se sentou em uma cadeira similar a minha frente, cruzou as pernas e ficou a me observar, esperando que eu começasse a conversa. As cadeiras ficavam de frente para a lareira, que estava acesa e atrás de nós tinha um tapete grosso, mas aparentemente muito macio, com algumas almofadas espalhadas.

“Por que fazes isso?”

“Faço o quê?” – manteve o sorriso debochado nos lábios.

“Tu sabes a que me refiro”.

“Não, não o sei. Achei que quisesses falar sobre os fracotes de mais cedo, porém me dissestes que queria uma conversa menos abstrata, sem as influências dos ânimos do momento”.

“Ainda é sobre eles.”

“Então te enganas, se achas mesmo que eu estava fora de mim, a ponto de não saber o que fazia.”

“Então o fizeste de cabeça pensada?”

“Não é como se eu tivesse arquitetado fazer aquilo a eles desde o começo, mas eles pediram. Dégel, tente entender: eles são fracotes e estão fazendo corpo mole. Se querem descanso, então que sejam coletores de azeitonas, e não soldados.”

“Não acho necessário tanta agressão, nem tanta violência. Isso beira à burrice.”

“Então tens-me por parvo, pressuponho”

“Não, tenho-te por um endemoniado” – aquilo arrancara de Kardia uma gargalhada. E o nível de deboche apenas aumenta. Porém, agora sinto que não e apenas o deboche aumentando... Ele está me seduzindo. Deliberadamente. – “Achas graça? Não o deverias fazer... Isso é sério!”

“Não, não é, Dégel... Sério é o fato de que uma guerra se aproxima e estamos com guerreiros de baixíssimo nível. Sério é o fato de que temos pouco tempo em nossas vidas e não nos resta nada além tentar extrair das mesmas o máximo de proveito, seja como for.”.

“Então achas que a vida é para isso? Libertinagem?” – levanto-me quando me dou conta de que ele se encontra quase sobre mim, seu halito proximo ao meu rosto, esquentando. Porém ele não desiste e me persegue.

“Não, tens-me errado. Não tenho nenhum tipo de sentimento leviano ou mesmo frívolo. Sou o que penso, e concretizo aquilo que acho correto. Não tenho tempo a perder...”

Não consigo acreditar até o momento que realmente algo tenha acontecido na noite passada. Não, não mesmo. Tudo bem, não sou cristão, uma vez que defendo uma deusa “pagã”, mas a cultura ocidental é uma cultura perversa e não há espaço para aquilo de ontem.

Mas foi intenso demais, e não dá pra negar que ele estava sendo sincero: era visivel que não se tratava de nenhum sentimento leviano, libertino e menos ainda frívolo. Nossas mãos, nossos lábios, nossos corpos, todo o nosso ser se uniu ontem de maneira que nunca havia pensado ser possível. Ele sabia que mexia comigo, mas não imaginava que... Que fosse recíproco. Que em algum momento teríamos a oportunidade de nos entregarmos um ao outro com tamanho abandono.

“Mestre Dégel?”

Saí apressado de meus pensamentos quando ouvi um servo me chamando. Nem mesmo tive tempo de perguntar do que se tratava e logo me foi entregue uma carta com o selo do Grande Mestre e o servo logo partia.

Não gosto do que leio naquela carta e parto em seguida pra minha curta, porém estranha missão. Nunca havia sido requisitado para tal fim, e acho estranho a necessidade de um cavaleiro de ouro para algo tão... Simples. Mas quando chego ao meu destino e inicio minha atividade, percebo que não é exatamente tão simples quanto imaginei...

“Dégel?” – finalmente Kardia abriu os olhos... Aquilo já estava me angustiando.

“Sim, o Grande Mestre pediu-me para vir te ajudar.” – ele começou a se levantar e eu tentei impedir – “Acalme-se. Para uma febre requisitar tamanho frio... Não é algo muito comum... De onde pode vir?”

“De meu coração” – não esperava ouvir aquilo. Na verdade, pouco entendi até ele me explicar – “Desde o princípio, sabia que não teria uma vida longa. Uso uma técnica especial para manter meu coração batendo, mas não consigo controlá-la completamente e está, aos poucos, me matando.”

Não era necessário dizer muito... Ele parecia, pela primeira vez na vida, abatido, um conformismo falso, conseguido a duras penas, seu ego sendo quebrado.

“Diga-me, Dégel... Por que viraste cavaiero?”

“Por causa de um sonho e uma promessa feita aum amigo”.

“Rá, rá, este é um bom motivo. Eu quero usar todo o meu poder o mais rápido possível. Até este momento, desejo sentir toda a dor e calor possíveis... Enquanto eu luto como um cavaleiro.”

Acho que naquele momento entendi. Entendi tudo o que se passava pela cabeça que antes eu considerava doentia, endemoniada. Não imagino como deva ser ter certeza da morte. Tudo bem, todos a temos, mesmo nós como cavaleiros, sabemos que podemos morrer em batalha, mas ele... Ele sabia que ia morrer. Nós ainda tínhamos a possibilidade do, se sobrevivermos... Mas Kardia nem isso.

“Essa febre toda... Foi... Por causa de ontem?” – perguntei, sem saber se realmente o deveria (mais uma vez com esse medo).

“Sim, foi... Eu não devo fazer muito esforço. Como disse, quero sentir toda a dor e calor, lutando como cavaleiro, o esforço físico, por menor que seja, sempre me remeterá a dor e ao calor.” – silêncio se fez entre nós, e ele sorriu pra mim, fechando os olhos, continuando - “Ontem a noite foi a primeira e última vez. Acho melhor tudo morrer no ontem.”

“Entendo perfeitamente bem a tua vontade em não termos mais contato, mas não creia que irei te deixar pra trás, apenas por não poder tocar-te.”

“Não compreendes, Dégel? Eu jamais serei um amante como qualquer outro homem poderá. Nem como o mais medíocre dos medíocres!”

“Compreendo sim a tua dor, mas tu não compreende que eu realmente desistirei de ti. Pior: tu me seduziste, me envolveste. Tu sabias de meu crescente interesse, tiraste proveito, sei o que sentes por mim e realmente crês que eu nada farei? Que eu simplesmente aceitarei um não?”

“Tu podes ter o homem que quiseres em tua cama.”

“Prefiro tê-lo ao meu lado, que todos os homens da Terra aos meus pés.”

Vi seus olhos se arregalarem. Está certo que nunca fomos tão civilizados em uma conversa, mantendo o tom de voz. Talvez seja a sua debilidade que o mantém (obrigatoriamente) calmo. E também tenho que convir que nunca havia sido tão emotivo, tão aberto, tão direto.

“De agora em diante, sou seu. E de mais ninguém”.

Seus olhos marejaram e eu pude ver um misto de dor e alegria.

“Nós temos uma guerra pra lutar...”

“E é graças a ela que nós devemos usar cada segundo que nos resta e tentarmos ser felizes, nem que a nosso modo”.

“Não é justo contigo.”

“Não estamos em posição de exigir qualquer justiça.”

“Não quero. Eu não vou te confinar a minha presença, uma existência moribunda, sem grandes expectativas de sobrevivência, quem dirá de vida!”

“Mentiroso. Eu sei que me queres, mas não tens coragem de assumir.”

“Penses da maneira que melhor quiser, mas eu não estou disposto a nenhum relacionamento”.

“Então eu te espero! Esperar-te-ei até o último dia de minha vida, ou até depois, numa vida futura. Esperar-te-ei até o último dia de existência de minh’alma.”

Tento manter a minha postura, mas me acabo por dentro ao ver que seus olhos estão marejados. Eu vejo neles desejo, vontade, vida, força, liberdade... Tudo isso preso a este corpo frágil, que luta a cada dia para se manter em pé, para continuar existindo.

“Isso não é justo...” – falou com a voz mais ressentida que eu jamais ouvi saindo daqueles lábios. Não resisti e me aproximei, tocando seu rosto – “Isso é muito cruel... Eu quero ser seu, você me quer... E eu simplesmente não posso”.

“Eu te amo” – disse, beijando reverencialmente seus olhos úmidos – “mais do que eu poderia imaginar. Amo-te mais do que tudo o que existe. Não quero uma relação carnal contigo. Eu simplesmente te quero. Prefiro tê-lo ao meu lado e não o ter em minha cama, do que tê-lo em minha cama sem que realmente seja meu, ou ter qualquer outro em meus lençóis sem que eu o queira, sem que seja-o”.

Kardia o abraçou com toda a força que a sua recente fragilidade permitia, aceitando resignado, mais uma vez a esmola que o destino lhe jogava.

“Um dia...” – falour esorpião” – “um dia ainda seremos felizes juntos. Completamente. Isto te prometo, com todo o poder de minha palavra”. – levantou o rosto e vestiu os olhos com todo o orgulho que lhe era característico – “Nem que pra isso, levemos a eternidade.”

“Não me importo” – respondeu Dégel com um sorriso nos lábios – “Eu te espero, já disse. Espero-te, nem que seja para uma proxima vida, nem que seja pela eternidade.”

Kardia se arrepiou inteiro, pois sabia que aquelas palavras eram verdadeiras. Infelizmente, não tinham a certeza de outras vidas, mas uma coisa era certa: se elas existiam, eles se encontrariam. Mais uma vez.

“Então me espere.”

Eu o chamei para vir pra cá, pois desde o início eu sabia... Sabia que não voltaria com vida de lá. E ele também sabia, ou ao menos, havia perceido isso quando o chamei e informei a quem enfrentariamos. Achei que, em seu estado, nada mais do que justo Kardia enfrentar alguém tão grandioso quanto um Deus...

Idiotice a minha... Poseidon não apareceu, mas creio que dei a meu amigo a luta de sua vida. Enfrentar o mais imortante dos juizes do mundo de Hades não é para qualquer um. E ele o venceu. Sim, ele venceu, lutou com todas as suas forças, fez tudo o que sempre quis: lutar além de seu limite.

A mim, restou apenas a lenta e agoniante morte. Meu grande amigo, Unity, não tinha motivos tão torpes quanto eu imaginara. Consigo entender a dor em seu coração ao se ver completamente sozinho, sem mais ninguém, nesse deserto branco, frio, sem vida. Todos que ele amava estavam mortos, ele estava morto, ao menos por dentro.

Eu congelei tudo o que meu cosmo poderia congelar. Devia isso a Kardia, o máximo de mim (afinal, foi o que ele fez). Achei que fosse morrer logo, mas me enganei. Senti Unity chegar até Bluegrade lá desfalecer, sem forças. Foi então que, pela última vez, eu o senti. Ele foi, ele se levantou mais uma vez, extrapolando seus limites. Ele sabe o quão importante é o Oricalco chegar até Athena, e mais, quanto Unity é importante para mim.

Ele sempre me surpreende, sua força de vontade sempre me animou a fazer as coisas, mesmo que eu saísse do sério com ele.

Sinto que aos poucos eu estou perdendo a consciência, mas ainda consigo sentir um pouco ao meu redor. Aos poucos eu o senti morrendo. Ali era, definitivamente, seu jazigo perpétuo. E é o fim.

Eu te esperarei, Kardia.



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