1. Spirit Fanfics >
  2. Amor marginal >
  3. Dead star

História Amor marginal - Capítulo 2


Escrita por: 0Pantsu0

Capítulo 2 - Dead star


xxx

 

Sempre depois de um dia ruim, como foi ontem, deve vim um dia bom, para manter a média. Pelo menos isso era o que eu mentalizava.

Eu trancava a porta do 703 quando recebi uma ligação de Netossa, em plena oito e vinte e um da manhã. Atendi enquanto caminhava até o elevador.

 

“Netossa, só há um motivo pra eu atender uma ligação antes das nove da manhã: o mundo tem que estar acabando. E não é isso que tô vendo.”

 

“Bom dia para você também, flor do dia.” A ligação ficou silenciosa por alguns segundos, o que era um sinal claro para Netossa que eu não estava brincando com o que disse antes. “Olha, jogo rápido. Ontem foi uma péssima ideia. Como aconteceu. Eu quero te pedir desculpas por isso. A Spinderella também. Nós pensamos… nós fizemos merda, ok?”

 

O elevador já descia pelo segundo andar. “Netossa, eu não quero parecer rude, mas saiba que eu estou indo pra firma agora. O que segundo a lei, quer dizer que eu já estou trabalhando. Eu tenho certeza que vocês tiveram boas intenções ontem, por mais absurda que fosse a ideia… Agora, o que você realmente quer me falar?”

 

Era mais tranquilo e direto falar com Netossa do que Spinderella. Se fosse a última eu ainda estaria presa na cordialidade do bom dia. “Certo, eu e Spinderella vamos falar com o pessoal que vamos convidar para o casamento. Mas antes a gente tá pensando em fazer uma pequena festinha. Com quem puder vir. Sabe, jogar papo fora com o pessoal, rever os amigos, discutir algumas coisas do casamento mesmo.”

 

Eu já estava dentro do carro, vendo uns papéis que acabei esquecendo de analisar no dia de ontem. “OK, você tá me convidando. Que dia?”

 

“Esse domingo. A gente tá pensando umas seis da noite.” Em um dia de folga. Eu não tinha desculpas.

 

A ligação ficou muda novamente por algum tempo. “Eu devia saber mais de alguma coisa? Eu tenho que trazer algo?” Perguntei, já dando aquela conversa por encerrada. Eu não sou a melhor em entender convenções sociais.

 

“Catra, a gente vai convidar a Adora também.” Eu tentei disfarçar o suspiro, mas não tive muito sucesso. “Olha, não foi certo o que a gente fez ontem, desculpas novamente, mas...”

 

“O que? Ontem são águas passadas, Netossa, já foi, ok? A festa é de vocês, vocês tem o direito de chamar quem quiserem. Você acha que eu vou acabar com o clima da festa? Céus, é sua festa para comemorar o casamento.”

 

“Eu tô falando sério, Catra, se comporte. Lá vão estar meus amigos, os amigos de Spinderella, vão estar nossos amigos. E você não ouse em decepcionar a Spinderella…”

 

“Eu vejo você no domingo, Netossa. Bom dia.”

 

Eu não sei com relação ao dia de hoje, mas domingo definitivamente não seria um dia bom.

________________________________

"Catra, Ethan, minha sala, agora."

 

Muitas coisas passam na sua cabeça quando seu chefe pede pra você ir a sala dele. Demissão, pedido de afastamento, reclamação, favores, desabafar, discussão, promoção. Mas com Hordak sempre só significou uma coisa: trabalho a fazer.

Hordak era um homem de meia idade, já calvo, partindo pros seus cinquenta anos. Usava cavanhaque e pintava o cabelo e o cavanhaque de preto pra esconder o grisalho. Tinha essa aparência de vilão. Adorava se gabar que foi um dos fundadores LQNH. O “H” do nome vem dele. Os outros três já zarparam do barco e apenas Hordak teve a coragem de continuar.

 

"Oliver Flemming. Esse é o cara que você vai ter que ir atrás." Assim que entramos, ele já foi direto, apontando para uma foto de um homem grisalho e com dentes tortos que estava sendo projetada na lousa.

 

"Devo saber o motivo?" Questionei.

 

"Esse cara… vai fazer a gente chegar nesse cara." Ele passou o slide, mostrando a figura do senador Prime. "Nós vamos derrubar uma bomba e um presidente nesta eleição."

 

Senador Prime era um dos homens de confiança do presidente, quase que o porta voz oficial do governo. Ele também  Era um líder religioso, responsável por uma congregação e uma vertente chamada Mutualismo. "E essa bomba é…"

 

"A fonte que me deu esse nome disse que Oliver está reunindo provas de um esquema de tortura e abuso de mulheres e menores dentro dos cultos e templos do doutor Prime."

 

Ao ouvir aquilo o jovem estagiário Ethan deixou escapar um comentário. "Caralho… isso é grande." E ao ver nossos olhares, o rapaz se encolheu. "Desculpe."

 

Ethan era o mais novo estagiário, mais um daqueles que caíram na toca do coelho da consultoria. Ainda me admira seu cabelo está bem feito e ele não ter olheiras, mas isso estava sendo compensado com seus tiques nervosos.

 

"Não. Você tá certo. Se a gente consegue fazer esse cara cooperar,  se a gente consegue investigar isso e montar um dossiê… nós vamos atingir o governo há menos de um ano das eleições." Hordak tinha um brilho nos olhos. "Nós vamos atingir o presidente há menos de um ano das eleições."

 

O que eu mais gostava em Hordak era, além de ser direto, o fato do seu interesse aumentar conforme o tamanho do desafio. Ele se sentia mais e mais à vontade. Nisso tínhamos algo em comum.

 

"Você vai ter de encontrá-lo do outro lado do país. Seu vôo de ida já tá marcado, tá previsto para as cinco."

 

"OK, mais alguma informação que eu deva saber?"

 

"Ele trabalha numa pequena firma chamada Dalton & Willy."

 

"Então eu tenho um nome, um rosto e um endereço. Me parece razoável." Terminava de escrever num pequeno bloco de notas.

 

Hordak digitava algo no seu notebook. "Uma semana está bom pra você? Próxima quinta você retorna com o feedback."

 

Não. Eu não poderia deixar isso estender por uma semana. Netossa e Spinderella ficariam decepcionadas e a amizade delas é uma das poucas coisas que eu prezo e carrego de vida social. "Eu quero meu vôo de volta para domingo de manhã."

 

Ethan arregalou os olhos ao ouvir aquele prazo, vociferando novamente seus pensamentos. "Esse domingo?! Você quer conseguir um caso em menos de três dias sendo que só tem um nome?"

 

Eu admirava a coragem que ele tinha. "É por isso que estou aqui." Disse.

 

Hordak abriu um sorriso. Ethan se sentindo ainda mais corajoso, continuou a falar. "Mas… eu não sei como você vai conseguir voltar. Nessa semana não tá tendo a Comic Con?  Os vôos e hotéis devem tá lotados."

 

"E é por isso que você está aqui. Você tem até o final do expediente para arranjar o vôo de volta e um hotel." Hordak o interrompeu. Eu nunca vi alguém ficar tão pálido. "Hora de mostrar porque o RH te contratou."

 

Apenas para aumentar a pressão sobre o rapaz, eu lhe fiz um pedido. "Quando for buscar o hotel eu não quero um que tenha lençóis de seda nos colchões. Eu não sei quem inventou essa de seda em lençóis, você dorme e vai escorregando e acorda caindo no chão."

 

Ethan ficou olhando para mim e para Hordak, quase como perguntando se ele realmente tinha que levar aquilo a sério. "Você fala isso como se fosse caso vivido." Foi a única coisa que saiu da boca de Hordak.

 

"Talvez." Respondi com um sorriso.

 

O chefe acabou dispensando o garoto, que correu para o telefone e para sua mesa, desesperado. Ele ainda queria falar comigo.

 

"Eu não duvido de sua capacidade…, mas você realmente consegue fazer isso em menos de três dias? Porque esse prazo tão curto?"

 

"Hordak, não se preocupe, ok? Domingo eu vou ter um caso em nossas mãos e vou comemorar o casamento de alguém próximo."

 

Dito e feito.

________________________________

O vôo de volta foi extremamente estressante, a despeito de uma palavra melhor. Criança chorando, pessoas com amontoados e amontoados de malas, caixas e quinquilharias voltando da tal Comic Con. Ainda teve um atraso de uma hora devido a mala despachada de um passageiro que não embarcou. Os passageiros daquele vôo vinham com novas bugigangas e funkos de heróis. Eu vinha com um caso.

 

E um caso grande. Não foi fácil achar Oliver Flemming, que vivia nas entranhas da cidade, mas aquele homem era um pote de ouro no final do arco íris. Era um desses homens por detrás das câmeras. E graças a ele, tínhamos um contato de uma famosa que participou da seita bizarra do senador Prime.

Mal eu estava de volta, mal pisei fora do aeroporto, e meu telefone tocou. Era Netossa. Olhei as horas. Dez para quatro.

 

“Netossa, você sabe que-”

 

“Boa tarde, Catra. Sim, eu sei que você acha uma invasão de privacidade ligar pra você e que você prefere o Telegram. Eu tenho a impressão que você não gosta de atender ligações.”

 

“Demorou… cinco anos? Cinco anos pra você perceber isso.” Falei de forma sarcástica enquanto entrava no Uber.

 

Pude ouvir uma risada do outro da linha. “A gente só quer saber se você vem mesmo.”

 

Naquele momento meu celular vibrou. Era outra ligação, desta vez de Hordak. Não, eu não tinha um minuto de paz. “Me vê um minuto.” Sem esperar nenhuma resposta, coloquei Hordak na linha. “Amanhã eu converso com você. Temos um caso. E eu tenho uma festa pra ir.” Isso era o suficiente e exatamente o que Hordak gostaria de ouvir. Voltei para a linha com Netossa. “Pode me dar uma margem de erro de trinta minutos?”

 

“Então você não vem.”

 

“É claro que eu vou, eu só não vou chegar na hora. Eu não sou uma britânica pra manter o estereótipo de pontualidade. Que horas é mesmo?”

 

“Você é irremediável.” Netossa disse num tom compadecido. “Seis e meia eu espero você aqui, nem um um minuto a mais. Até lá.”

 

Após guardar o celular que pude olhar melhor para os meus arredores e é claro que numa tarde de domingo eu não estava livre de um congestionamento. E eu precisava tanto de um banho, um Advil e um dia inteiro dormindo, nessa ordem e em ordem crescente de importância. Mas claro que não conseguiria o que eu mais queria. Para pior, além do trânsito, o Uber ainda estava escutando a rádio. E claro que a rádio estava passando um Especial She-Ra, sabe-se lá o porque. Isso só poderia ser perseguição.

 

“Com licença, você pode-” O Uber virou-se para mim e vi que ele também usava uma blusa da banda. “Você tem bala de menta?” Troquei a pergunta, já aceitando que eu passaria o resto do percurso tendo que escutar a voz de Adora. Antes eu tivesse apenas que escutar sua voz no dia de hoje.

________________________________

Seis e vinte e seis foi a hora em que cheguei no pomposo apartamento de Spinderella e Netossa. Não haviam muitas pessoas, mas também não sabia iriam ter muitos convidados. É claro que depois de ser recebida pelas anfitriãs e elas logo me oferecerem alguns petiscos, um rosto muito familiar veio me abraçar.

 

"Catra!" Os abraços de Scorpia eram abraços de urso, e ela me levantava com tremenda facilidade. "Faz-"

 

"Não diga que uma semana é muito tempo desde que nos vimos." A interrompi, enquanto me soltava de seus braços.

 

"É muito tempo se foi a primeira vez em um ano que nos vimos."

 

"Onde tá a Entrapta?"

 

Scorpia e Entrapta moravam em um mesmo apartamento, em outra cidade. As duas seguiram caminhos bem distintos: enquanto Scorpia se aventurou na parte de RH de uma empresa de publicidade, Entrapta trabalhava no P&D de uma multinacional de óleo e gás. Ambas conseguiram conciliar suas férias para o mesmo período, e planejaram todo um roteiro de viagens, como bem fizeram questão de explanar em mínimos detalhes no nosso jantar na nessa semana passada.

 

"Ela foi pra aquela Comic Con e ainda tá presa por lá, tentando arranjar vôo. Ela me ligou avisando que só deve voltar depois de amanhã." Então tinha um real possibilidade de eu ter me encontrado com a cientista nos últimos dias. Isso me deu calafrios. "Anda, hora de botar o papo em dia!"

 

"Não foi isso que a gente fez semana passada?"

 

"Um dia não é suficiente pra um ano inteiro de conversas atrasadas. Anda, deixa de ser chata."

 

Scorpia me arrastou para uma mesa e me entregou uma garrafas de Erdinger. Ela não fez questão de trazer copos, pois sabia que eu gostava de beber direto do gargalo. Ela me contou novamente, com ainda mais detalhes, seus planos de viagem. Iriam percorrer a Europa assim que Entrapta voltasse, conhecer o Mont Saint-Michel, fazer um passeio histórico pela Normandia para delírio de Entrapta e conhecer os Alpes suíços. Tudo isso antes de retornarem para o casamento. A conversa estava indo bem, mas Scorpia tinha a grande habilidade de fazer você ir de uma conversa agradável para uma desconfortável em uma frase.

 

"Você soube que a She-Ra tá aqui hoje? Eles vão tocar no casamento." A mente de Scorpia demorou alguns segundos pra conseguir processar que o assunto She-Ra cairia no assunto Adora. "Oh, desculpe, eu sei que você é sensível com esse tema."

 

"Eu não sou sensível."

 

"Você não superou ela ainda, não é?"

 

Ao ouvir aquele comentário eu parei para repensar toda a minha amizade com Scorpia. Era essa a função dos amigos? "Sabe, você tem sorte da gente se conhecer a um bom tempo, caso contrário, a nossa amizade estaria por um fio agora."

 

"Você não seria capaz. Você me adora. Eu sou a única que sabe que você prefere Erdinger."

 

"Porque você era a única que bebia comigo depois das aulas na faculdade!" Disse mais exaltada. A Scorpia era uma das poucas pessoas que conseguia me tirar do sério.

 

"Sério, foi mal. É que ninguém entendeu o que aconteceu com vocês duas. Você quer minha opinião honesta?"

 

Nem eu era o que gostaria de dizer para a primeira afirmação, mas isso ficou apenas comigo. No lugar disso eu disse "Oh, Scorpia, seu comentário expondo o meu relacionamento fracassado com minha ex é algo que eu realmente queria ouvir numa noite de domingo. Vamos, diga."

 

"Você sabia que age como uma idiota às vezes?" Ela disse abrindo mais uma garrafa.

 

"Não vai ser a primeira nem a última pessoa a pensar isso sobre mim. Mas diga, eu estou interessada nessa sua opinião honesta."

 

Ela se ajustou melhor na cadeira. "Eu só estou dizendo que eu não acho que você superou isso tudo. Você tem que aceitar os bons e os maus momentos. Mas parece que você esqueceu os bons e só se lembra dos ruins, e ainda fica jogando sal em cima disso. Você fica estressada toda vida que falam no nome Adora. Isso não parece superar pra mim."

 

Hora da réplica. "Talvez porque eu já esteja farta desse assunto? E toda vida que vocês, meus amigos…" Fiz questão de destacar esse ponto "...falam comigo, vocês insistem nele? O único momento em que as pessoas não querem falar da Adora comigo é quando estou no meu trabalho."

 

"Você trabalha tipo... umas 20 horas por dia? Se duvidar você tá trabalhando agora e eu nem tô sabendo."

 

"Ao menos lá eu tenho coisas diferentes com que me estressar."

 

"Eu só tô dizendo que você não age como alguém que superou, ok?"

 

A Scorpia tinha uma visão exótica de ver as coisas, eu tinha de admitir. "Então me ilumine: como eu devo agir pra vocês pararem de me importunar com Adora e começarmos a ter produtivas conversas sobre o clima e o futuro do país?"

 

Mas o que gostava mais na Scorpia eram seus inesperados ímpetos de coragem. "Talvez agindo como a pessoa madura que você gosta tanto transparecer?"

 

Era nesses momentos que eu lembrava porque nós ficamos amigas. Essas porradas que Scorpia dava eram uma das coisas que eu mais admirava nela, além do ombro amigo. Quando eu comecei a estagiar eu já estava calejada, nada que alguém me dissesse ia me atingir a esse ponto.

 

"Eu tenho que ir a banheiro, ok?"

 

Me dirigi até o banheiro, ainda me recuperando do baque, sabendo meu caminho por já ter estado algumas vezes nesse apartamento. Era mais um flat, com uma grande varanda, mas é claro que no meio do caminho havia uma Spinderella.

 

"Catra!"

 

E lá estava ela usando um belo vestido, na sua cor rosa de sempre e com os cabelos soltos, o que era raro de se ver. "Tudo bem? Eu nem tive tempo de conversar direito."

 

"Você já vem com a conversa de querer me fazer dama de honra, é claro que eu corri." Eu falei abrindo um sorriso, já ela abriu uma gargalhada. Spinderella costumava ter as ideias mais malucas entre as duas.

 

"Essa história da dama de honra ainda não acabou. Agora… eu só queria saber se tá tudo bem. Eu sei que você é mega ocupada, a Net até pensou em não te chamar hoje por conta disso, mas acho que ia pegar mal não ter pelo menos um convite."

 

“Não, não, tudo bem. Hoje é meu dia de folga.” Ou pelo menos era para ser, mas o conceito dia de folga era estranho e um território quase desconhecido para mim.

 

Depois de marinar a conversa por algum tempo finalmente ela resolveu ir ao ponto. E logo quando eu buscava me livrar do assunto Adora. "Catra, eu sei, eu sei, não precisa atirar pedras em mim, mas… você já falou com a Adora? Me desculpe por ontem, fui eu que tive a ideia, mas… sério…"

 

"Spin…"

 

"Por favor Catra, tente conversar com ela. A Adora… ela preza por você. Ela realmente quer ter você na vida dela de novo. Ela quer se acertar com você."

 

"Eu tenho que ir ao banheiro, Spin. Eu vou pensar nisso ok? Parabéns novamente pelo casamento."

 

As pessoas gostavam de insistir em assuntos que já estavam encerrados. Caso fechado. Quantas vezes eu teria que reafirmar, quantos suspiros, palavras rudes, caras blasé, quantas reviradas de olhar ainda teriam que ser feitas para as pessoas entenderem? Lógico, que o destino ou seja lá quem mova as peças desse mundo não se importa com minhas lamentações, pois eu devia estar a dois passos do banheiro quando a porta se abriu.

E é claro que tinha que ser Adora.

Ela estava com seu cabelo solto, o que era uma raridade em tempos mais antigos, mas desde que se tornou uma pessoa que os holofotes estão apontados, ela mudou radicalmente sua aparência e forma de se vestir. Usava uma jaqueta preta, mesma cor da saia plissada, e uma camisa branca por baixo. Se eu fosse ser sincera, ela parecia o estereótipo de uma garota do rock, mas um passarinho me contou que isso estaria dentro do conceito do novo álbum que estava sendo especulado. Não que eu tenha pesquisado.

 

“Catra.”

 

A cota Adora já tinha estourado seu limite no dia de hoje. “Com licença.” Educadamente a tirei da minha frente e entrei no banheiro. Espero que o recado tenha sido claro.

Eu molhei meu rosto repetidas vezes, estava um pouco zonza. Pudera, eu não acredito que a pessoa que fez o design do corpo humano o concebeu para aguentar quase vinte horas acordado. Aqueles eram sinais do meu corpo gritando de que eu tinha que descansar e minha desculpa para voltar para casa.

 

O recado não foi claro. Deve ter se passado um minuto, no máximo, e Adora adentrou, diminuindo nossa distância para três passos.

 

“Catra, podemos pelo menos conversar? É tão difícil assim?”

 

“Nós não temos o que conversar”. Ela olhava para mim e estava virada em minha direção. Eu a via pelo reflexo no espelho.

 

“Tem como você ter o mínimo de convivência social comigo?"

 

"Eu estou tendo o mínimo de convivência social com você: fingindo que você não existe."

 

Eu conseguia sentir o olhar furioso dela ao meu lado. "Então tem como você parar de ser uma filha da puta comigo?"

 

Eu deveria ficar surpresa com a ofensa, mas eu já estava acostumada com isso. "Obrigada por lembrar que as nossas conversas se tornaram desse nível pra baixo."

 

"Obrigada por lembrar porque nos separamos." Ela deu um suspiro alto, que ficou ainda maior devido ao eco do banheiro. “Eu não vim aqui pra brigar com você. Eu quero consertar as coisas. Eu não quero que a última coisa que aconteceu entre a gente seja uma briga de cinco anos atrás. Eu sei que você não quer isso também.”

 

Eu não me recordo quando conversar com Adora passou a ser tão sufocante. “Você é muito prepotente em achar que sabe o que eu quero ou não, principalmente depois de cinco anos.”

 

“Eu te conheço há vinte anos, você que não venha com esse papo pra mim.” O velho argumento de usar nosso tempo de amizade. Parece replay das últimas brigas. “Para de olhar pro espelho e olha pra mim. Diga que tá tudo bem isso entre a gente.”

 

Esse era um dos motivos pelo qual eu não queria uma conversa com Adora. Adora era um caos organizado. Você sabia aonde ela iria te levar no final, mas nunca qual caminho ela iria usar. Poderia ser uma reta, poderia ser um caminho que dava voltas e voltas. Você sabia o que ela queria, mas de repente, não sabia mais.

 

“Está melhor do que quando estávamos juntas.” Respondi, sem obedecer aos seus comandos. Eu olhava para a pia, para as paredes, para o espelho, tudo, menos para Adora.

 

“Desde quando você se tornou essa pessoa tão horrível?”

 

“Desde que conheci você.”

 

Eu senti o peso das minhas palavras quando elas falavam tão alto quanto o silêncio que se instaurou. Até eu escutar um choro meio tímido. Tornei a olhar para o espelho e eu a podia ver se esforçando para não chorar, o rosto vermelho. Eu me senti péssima. Fazer Adora chorar devia ser uma das piores coisas que já fiz e uma das imagens que mais me doem de ver, mesmo sendo por um reflexo.

Se Adora fosse um contrato ou um acordo extrajudicial, ele seria um dos mais injustos possíveis. Eu sabia que as coisas com Adora seriam dessa forma quando ela respondeu meu Eu te amo com um sorriso, há sete anos atrás. A balança com ela nunca foi igual, sempre pendeu mais pro lado dela. Nossa relação não eram de iguais. Eu sentia que precisava dar o mundo a ela, enquanto ela só precisava dar um sorriso para agradar uma a outra. Eu precisava de um coração partido enquanto Adora apenas um rosto choroso.

 

“Não fique esperando um pedido de desculpas meu. Eu não vou me desculpar.”

 

O pior de tudo isso é que eu li a porra do contrato e concordei com tudo. Eu sabia que seria assim. Eu que entrei nesse círculo vicioso, nesse pague pra entrar, reze pra sair.

 

“Eu só quero ter você de volta. Eu fiz merda no passado, nós fizemos… eu não sei quando eu vou ter uma chance como essa de novo. A gente pode não voltar a ser o que era antes, eu não me importo, mas eu preciso tentar… Nós precisamos. Nós temos que nos dar uma chance.” Ela falou segurando meu pulso, ainda choramingando.

 

“Não, não precisamos. Você que não quer enxergar isso. Você que não quer aceitar que entre a gente… já foi. Não importa se foi bom ou ruim no final.”

 

Tudo o que Adora fez foi segurar com mais força, agora com suas duas mãos, olhando para o chão. E ali estava uma verdade que eu não queria enxergar. Eu não gostava de ver Adora chorando. Eu não queria vê-la chorando. Mas isso não era algo que eu iria admitir. E Adora sabia disso. Ela sabia como mexer com as pessoas, como tripudiar com elas, e ela não tinha nenhum pudor em esconder isso. Eu não acho que era de propósito, mas sim algo inconsciente. Essa garota matava alguém com a unha.

 

“Pelas duas.” Foi o que eu disse. Adora me olhou incrédula. “Eu vou fazer isso pelas duas. Spinderella e Netossa. Elas não merecem ver uma briga de cão e gato um mês antes do casamento delas. Não é justo com elas.” Eu finalmente olhei em seus olhos, finalmente me virei em sua direção. “Mas depois desse mês dê isso como encerrado.”

 

"Você realmente acredita que as coisas entre a gente vão ficar por encerradas daqui há um mês?"

 

"Eu gosto de ver o copo meio cheio."

 

Adora enxugou suas lágrimas, mas ainda tinha uma das mãos me segurando. Ela se acalmou, sua respiração se tornando mais estável. “Você acha que podemos recomeçar? Não do zero, mas… não sei…”

 

Todo o histórico dizia que não, nós estávamos insistindo em algo que tinha tudo para não dar certo. Não demos certo como amigas, não demos certo como namoradas, não demos certo como ex. A única relação saudável que poderíamos ter é não tendo nenhuma. O mais distante possível uma da outra, sem nenhum rastro de existência. Mas o que nós fazemos ao ver as probabilidades?

Nós rimos dela.

 

“Pare com essa cara de choro.” Abri a torneira e limpei as lágrimas restantes com a água. “Você não vai me apresentar a tão famosa She-Ra para mim?”

 

Ela sorriu para mim, um sorriso tão genuíno. Um sorriso que me fez lembrar a antiga Adora. “Sim, certo. Você vai adorar conhecer a Glimmer e o Bow.” Ela não me puxou, mas foi andando na frente e esperou que eu a acompanhasse.

 

E ao ver aquele sorriso eu tive medo do que eu senti.

Medo de eu ter entrado novamente no furacão que é a vida de Adora.


Notas Finais


hello novamente. resolvi postar logo o primeiro cap. vou tentar manter atualizacoes semanais daqui pra frente. tenho que retomar minha reputacao aqui no site, então, oh shit here we go again. eu sinto que sou horrivel escrevendo em primeira pessoa, mas vamos lá.

não, eles não tão nos eua. é o país fictício de etheria novamente. decidi continuar com os nomes dos personagens originais pra nao me confundir nem confundir ngm. a musica do titulo é dead star - muse. nos vemos aí pela proxima semana.

curta.comente.subscreva.

~spacibo


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...