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História Amor marginal - Capítulo 5


Escrita por: 0Pantsu0

Capítulo 5 - Ainda te amo


 

xxx

 

Quando cheguei na recepção da LQNH havia um considerável círculo de pessoas, o que não me surpreendeu, já que o vulgo horário comercial que estava descrito em contrato quase sempre era uma mera formalidade. Coisas de se trabalhar em consultoria. Hordak me acompanhou, alto e imponente, lado a lado, os demais funcionários dando passagem. Durante todo o caminho dos três lances de escada até o térreo, eu pensei e repensei o que eu poderia dizer ou fazer. Qual Adora eu encontraria, o que eu diria para cada uma delas. O dano já estava feito, eu teria que conter os prejuízos. Depois de Adora eu teria que encarar o Hordak e ouvir a história de que a porta de entrada daquele prédio era uma barreira da vida pessoal. Do lado de dentro, ele não queria saber. Do lado de fora, ele não se importava. Mas isso era problema para depois.

Ainda havia um par de pessoas na minha frente, mas não o suficiente para bloquear minha visão de Adora. Ela estava esperando, encostada no balcão, braços cruzados, seus dedos tamborilavam, a cara fechada, visivelmente estressada. Certo. Estávamos lidando com uma Adora estressada. Hordak estava do meu lado. Senti sua mão sobre meu ombro e um olhar que exclamava para que tomasse uma atitude. Suspirei fundo. Dei dois passos para frente, me fazendo presente para os olhos da loira. Eu tinha medo mais do que eu iria falar do que o que Adora poderia dizer.

 

"Hey Adora." Aquele nome rolou pela minha boca de uma forma estranha, como se eu tivesse falando em uma outra língua, tinha gosto de veneno.

 

Ela olhou para mim e naquele momento percebi que havia cometido um erro. Qual deles, era o que estava prestes a descobrir.

 

"O que foi que eu te fiz pra me tratar com tanto desrespeito? E você aprendeu a dizer meu nome, finalmente." Adora tinha uma expressão firme olhando para mim. Eu conseguia ver sua insatisfação. "Anda, Catra, responda!" Ela gritou de repente, me assustando. Os olhares tornaram para mim.

 

Essa maluca veio bater na porta do trabalho para tirar satisfação porque eu não queria ver ela. "Eu não-"

 

"Não é o caralho! Eu já aguentei o teu cinismo durante essa semana, e deixa eu tava dizer uma coisa: eu não sou a culpada dos teus problemas e eu não fiz nada que tivesse lhe dado motivo pra me tratar como se eu fosse a porra de um inseto! Que você pode pisar como bem entender!" Ela colocou o dedo no meu ombro e gritava na minha direção. Não, isso não era nada bom. Eu desviei o olhar e pude ver um celular nos filmando. "Olha pra mim!" Ela tornou a gritar, me assustando mais uma vez.

 

Eu estava sem ação para aquilo. Eu só não estava acreditando que ela estava aqui, dentro da LQNH, se expondo para algumas dezenas de pessoas, como ela estava aos berros. Cobrando algum tipo de postura de mim. Acreditando que entre nós ainda poderia haver algo. Eu esperava uma Adora estressada, furiosa. E bem, ela estava. Eu só não a esperava com um coração partido e exposto.

 

"Adora, podemos, por favor, resolver isso fora do meu trabalho."

 

"Como?! Se essa merda é tudo que você faz! Essa é a sua vida agora!" Ela continuou apontando o dedo no meu ombro, totalmente alheia aos diversos murmúrios e a situação em que estava. O que foi, é porque você se importa com eles? Com que eles vão dizer, com a exposição? Você não se importou nem um pouco no jantar da quarta passada, na loja, na festa, na porra do jantar com os meus amigos! E agora você se importa? Você não quis ir pro apartamento da Spin e da Net por que eu estava lá. O que eu sou pra você? Uma vadia que veio atrás de explicações? Eu era merda da sua melhor amiga, você gostando ou não."

 

"O que você quer, Adora?" Perguntei, olhando em seus olhos. Ela tinha em seus olhos algo de Greta Garbo que me incomodava, não sabia discernir num bom ou no mal sentido.

 

"Você pode querer me excluir da sua vida, mas eu não quero. Não antes de ter tentado de tudo. É horrível pensar que eu me importo com uma pessoa tão egocêntrica que nem você! Eu quero acertar as coisas, mas eu não posso fazer isso se você não me tratar como gente! Você não pode fazer o que bem entender com alguém e achar que nada vai acontecer!"

 

Eu tinha que retomar o controle daquela situação e rápido. O estrago já estava feito. "Você não estava de todo errada quando disse que parecia uma vadia pedindo explicações." Disse.

 

Ela me deu um tapa.

 

Essa desgraçada. "Você tem muita sorte de estar no meu trabalho, porque se não-"

 

Ela me deu um outro tapa.

 

"Se não o quê?" Disse ela em um tom desafiador.

 

Ela tinha essa atitude. O olhar. O mesmo daquela Adora por quem me apaixonei. E isso era perigoso. Ainda mais tendo a impressão de que Adora também sabia disso. Desse efeito que ela tinha. Ela tinha um sorriso peralta no rosto que não negava isso. Adora não desistia fácil das coisas, ela mesmo tinha dito isso e ela iria se usar de tudo que fosse possível, mesmo que aquilo pudesse a machucar e a comprometer, para conseguir o que queria.

 

Se alguém levasse não só um, mas dois tapas de sua ex, na frente de seus colegas de trabalho, na frente do seu chefe, no seu local de trabalho, provavelmente seria o fim da linha para qualquer tipo de relação saudável. Mas eu não. Eu tenho que admitir. Aquilo me excitava.

E isso era deveras perigoso.

 

"É assim que você pensa em acertar as coisas? Me dando tapas na cara?"

 

"Sim." Foi sua resposta monossilábica e decisiva. Aquele sim queria dizer muitas coisas e minha pergunta também. Era um sim para todas as perguntas que estavam engasgadas. Perguntas como Você quer realmente entrar nesse trem descarrilhado? Você ainda que ter uma relação tão disfuncional assim?, Você está preparada para o quê isso pode levar? e tantas outras. Algumas que eu tinha medo de estar inclusas, outras que eu me sentia confusa. E por mais distorcido que fosse, aquilo me excitava.

 

"Olha, se é um encontro que você quer, você vai ter. Isso vai te sossegar?"

 

"Adora. Me chame de Adora. Não me chame de olha." Ela deu alguns passos para trás, relaxada e triunfante. Conseguiu o que queria.

 

"Certo, Adora."

 

"E eu não quero um encontro. Eu quero que você converse comigo, e não que fique me insultando a cada cinco palavras. Você entendeu?"

 

"Certo, o que você quiser. Agora, por favor..." Fiz um gesto apontando para a porta, indicando que ela saísse. Ela ainda carregava aquele sorriso e expressão cínica. Para mim, ela estava deslumbrante, brilhante. Percebi agora que usava a mesma roupa de quando a encontrei na festa.

 

"Você sabe como me achar." Foi a última coisa que ela disse, antes de sair pela porta como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de armar um barraco por um encontro.

 

Durante todo o tempo em que Adora estava esbravejando comigo eu perdi totalmente a noção de espaço, a noção de que haviam outras pessoas ali, nos observando, me observando. E agora o peso daqueles olhares e daquele silêncio voltaram com toda força. Retomei rapidamente a postura, ajustando o colarinho do blazer e voltando ao meu modo de trabalho. Lembrei do rapaz que estava filmando e fui na direção dele, calmamente. A cada passo eu o sentia encolher.

 

"O celular."

 

"Senhorita Catra." Ele estava trêmulo, mas pouco me importava.

 

"Eu vou ter que repetir?"

 

Timidamente ele retirou o aparelho do bolso e me entregou. Eu liguei a tela, é claro que estava bloqueada. Eu olhei para ele, o rapaz deu um sorriso frouxo, como se pedisse clemência.

Eu atirei o aparelho com força no chão, despedaçando a carcaça. A bateria deslizou pelo chão, parando próximo da porta.

 

Hordak decidiu intervir, depois de toda a cena, aparecendo entre os funcionários. "Se houver alguma filmagem ou um comentário do que acabou de acontecer, é justa causa. Agora voltem para onde vocês não deviam ter saído."

 

Rapidamente as pessoas correram para as escadas, desesperadas e ainda atônitas. Em menos de um minuto só haviam quatro pessoas na recepção. Eu, Hordak, William - que era o recepcionista - e Double Trouble.

 

"Minha sala, agora." Foi a única coisa que Hordak disse antes de tomar o elevador. Ele passou por Double Trouble. "Você também."

 

____________________________

 

"Quantas vezes eu te falei sobre vida pessoal e trabalho?"

 

Não, esse discurso de novo não. Eu passei dois anos ouvindo isso. "Não trazer a vida pessoal para dentro do trabalho, sim eu sei muito bem disso. E eu nunca misturei as duas."

 

"Pelo menos não até hoje. Se isso vazar..."

 

"Não vai vazar. Eu vou tomar todas as providências."

 

"Fazendo o quê? Quebrando o celular de todo mundo?"

 

Eu entendo a frustração de Hordak. Eu estou frustrada. Em cinco anos na LQNH, mesmo em tempos de estagiária, nunca prestei uma queixa com relação a problemas na minha vida pessoal. Mas parece que esses cinco anos vieram cobrar.

Nesse momento a porta se abriu e Double Trouble se fez presente, terminando de beber um café e amassando o copo descartável. Double Trouble gostava de fazer sua presença um evento.

 

"Então você é a garota da Adora. Catra, não é? Catra Cartagena."

 

"Eu não sou garota de ninguém."

 

"Calma, minha flor. Eu sigo Adora Lovejoy e sua banda desde que eles estouraram. É isso que os fãs falam de você. Quer dizer, não de você, mas se referindo a você. Sabia que a She-Ra tem uma demo vazada chamada Catrina? A demo nunca viu a luz do dia, mas no álbum deles tem uma música chamada Cartagena, que indiretamente fala de uma pessoa ao falar sobre a cidade. Os fãs especulam que seja a mesma garota de Catrina. Que coincidência ter uma demo tão parecida com seu nome e uma música que é seu sobrenome."

 

"Double Trouble, onde você quer chegar?"

 

"Adoro pessoas diretas. Sabe eu estava enrolando vocês, pois o meu foco aqui era a She-Ra. Mas Flemming pediu tanto que eu até tentei dar uma chance pra vocês, mas vocês são advogados, vocês conversam com as pessoas como se elas tivessem cometido um crime. Sim, o senador Prime é um filha da puta, mas tem tantos nesse mundo. Vocês não tinham nada a oferecer."

 

"Eu só vou repetir uma vez: onde você quer chegar?"

 

"Sua história com Adora. Por todos as histórias que eu tenho sobre Prime e seus cultos. Pegar ou largar." Ela estendeu sua mão em minha direção.

 

Ela não podia está sugerindo isso. Entregar nas mãos de uma fofoqueira minha história com Adora. Isso era inegociável. Tínhamos tempos e tínhamos outras formas de conseguir chegar em Prime.

 

"Não."

 

"Sim." Foi a resposta automática de Hordak.

 

"Gostei do seu chefe. Garota, eu não faço negócios com qualquer um." Ela olhou para sua mão, ainda estendida.

 

Dei um olhar fulminante para Hordak, que se manteve impassível. "Se uma história de sua vida pode fazer a gente tirar um homem podre e deprimente como é o senador Prime do poder... sim."

 

Suspirei e fiz uma massagem nas minhas têmporas. Eu escolhi essa área porque achava que não precisaria envolver nada da minha vida pessoal. Muito pelo contrário, vida pessoal era um monstro que era castigado com demissão. E agora eu teria que envolver talvez a história mais conturbada que eu tinha por que a TMZ em pessoa queria isso. Apertei sua mão, selando aquele acordo horrível.

 

"Podemos marcar amanhã para as oito da noite. Aqui mesmo nessa espelunca. Antes de seu encontro com Adora."

 

"Eu não marquei horário nem encontro nenhum."

 

"Acabou de marcar. Espero você às oito."

 

____________________________

 

A noite de sábado demorou a chegar. Mais do que eu pensei. Eu não consegui dormir, pensando que de alguma forma eu conseguiria atrasar o dia de amanhã. Hordak acabou me liberando mais cedo pela manhã, para contar a melhor história para DT, então eu tive bastante tempo sozinha para pensar. Quando cheguei três e meia na portaria do prédio, o porteiro até se assustou. Pensar em coisas que não sejam do trabalho era algo que estava enferrujada, mas pensar na minha história com Adora era acima de tudo desgastante. Falando em Adora, eu ainda tive que ligar para ela. Não foi difícil conseguir o número dela com Netossa, que não questionou. Provavelmente já sabia da confusão de ontem.

 

"Hoje às nove? Sim, claro, sem problemas."

 

Foi mais tranquilo do que imaginei, afinal, Adora já tinha conseguido o que queria comigo. Ela não iria arriscar nada agora.

Enquanto isso, era a primeira vez em muito tempo em que eu parei para pensar no que vestir. Vista algo além daquelas suas camisas, blazers e calças sociais. Mostre que você dedicou o mínimo, foi o que Netossa mandou como mensagem antes de me fornecer o número adora vocalista. Como? Se as únicas peças que eu tinha eram essas?

Com sorte, eu ainda tinha um vestido vermelho, com um corte repicado no fim, que só usei uma vez há quatro anos, na festa de fim de ano da firma. Eu me esforcei, comprei de uma loja cara, até chegar no momento e perceber que todos estavam usando as mesmas roupas que usavam num dia de trabalho e eu fui a única palhaça a gastar dinheiro. Mas só precisei dessa vez para aprender a lição.

De cinco anos para cá, a peça ficou mais curta, indo até metade das coxas, mas era o que tínhamos para hoje. Eu até teria passado o mínimo de maquiagem, se eu tivesse alguma. E novamente o porteiro se assustou quando passei por ele, arrumada como nunca antes tinha visto. Mas antes de enfrentar Adora, eu teria que enfrentar Double Trouble.

Ao adentrar no prédio da LQNH busquei não me importar com os olhares, apesar de ser difícil. É claro, eu era a garota da Adora, como DT bem pontuou. E não ajudava em nada o fato de ter destruído o celular de um dos rapazes.

Entrei na sala de reuniões faltando cinco para as oito e o fofoqueiro já se encontrava presente, xeretando qualquer coisa no seu smartphone.

 

"Pontual como sempre, Catra." Elu notou meu figurino. "Adora vai ficar bem surpresa com você."

 

"Você tem quarenta minutos." Disse enquanto me sentava à mesa, em frente a elu. Eu estava ali para negócios, não para uma conversa entre amigos.

 

"Relaxa, gata selvagem, nem tudo você tem que levar como trabalho."

 

"Eu estou trabalhando, caso não percebeu."

 

Elu me deu um olhar insatisfeito, e tomou da bolsa que estava ao seu lado, um bloco de anotações e caneta. "Estou a seus ouvidos."

 

Eu não sabia por onde começar, então resolvi estabelecer os fatos. "Adora e eu éramos melhores amigas e namoramos por um período na faculdade até terminarmos em maus termos."

 

Elu não ficou surpreso. "Amor, isso eu sei, não é muito difícil de deduzir. Isso deixa pros fãs teorizarem. Eu quero a história não contada. Você me parece ser alguém inteligente... o que você acha que um fofoqueiro gostaria de saber sobre a história de vocês duas?"

 

Nada. Tudo. No lugar de uma dessas respostas, retruquei. "O que você vai fazer com essa história? Você sabe o que vamos fazer com a suas."

 

Double Trouble me olhava impassível. "Isso eu só vou decidir depois que ouvir. Eu já contei um podre de Prime para seu chefe hoje de tarde, pode ligar para ele se quiser." Pausa. "Agora é com você."

 

Também pausei. Eu tinha ensaiado todo um discurso, uma maneira menos excruciante de falar sobre, mas apenas nesse momento percebi que era a primeira vez que falava sobre assunto para alguém de fora do meu círculo de amigos. Nem para eles eu gostava de tratar sobre isso. Quem dirá para um estranho como Double Trouble. Fiquei calada, da mesma maneira que fiquei durante as três sessões de terapia que paguei para a psicóloga, uns três anos atrás.

 

"Não sabe por onde começar? Certo..." Elu colocou as duas mãos no queixo, olhando para o nada, pensativo. "Como você a via? Assim, eu não acho que as pessoas sejam as mesmas por detrás das câmeras e antes da fama, mas... como era a Adora?"

 

Iria ser mais difícil do que pensava. Eu precisava de alguma âncora, alguma coisa que me fosse um porto seguro. "Você tem um cigarro?" Perguntei. "Acho que consigo falar depois de um."

 

Double Trouble prontamente abriu sua bolsa e me ofereceu um trago junto com um isqueiro. Fazia muito tempo que não fumava, que estava até desacostumada. Elu me ajudou a acender e nas primeiras tragadas, não evitei de tossir. O sabor de fumo e a sensação quente na garganta me eram um combustível. Eu não estava pronta, mas chegou a hora de desenterrar o assunto Adora. Pelo caso, eu me tentava me convencer.

 

"OK. Adora. Adora é alguém que... ela é como um vulcão. Ela é incrível de se admirar de longe, e até certa distância, também é incrível de se ter por perto. Mas quanto mais você se aproxima, mais quente vai ficando, mais danoso... mais perigoso. E eu fui a única que tive a coragem de me aproximar tanto assim dela. Acabei me queimando por causa disso."

 

"Como?"

 

Baforei mais uma vez, pensando numa resposta. "Eu devia saber que nossa relação não iria dar certo quando ela respondeu meu eu te amo com um sorriso. Nada de bom poderia ter vindo dali. Eu já falei isso para ela. Que a balança com ela era desigual." Ah não, eu estava ficando emocional demais com isso. Talvez porque eu nunca tivesse desabafado essas coisas com alguém, e nada melhor que desabafar com a fofoca em pessoa. Dava um ar de perigo, um peso maior nas palavras. "Um segundo ela queria toda minha atenção, e se eu não dava, ela ficava puta. Ela marcava na quarta para sair na sexta, e quando chegava na sexta ela simplesmente esquecia e me deixava esperando porque tinha arranjado coisa melhor para fazer. Quando a gente saía para comer em algum local, nós chegávamos lá, sentávamos, pedíamos, e quando já estávamos comendo e conversando sobre, sei lá... Rudolph, a Rena, aí ela começava a reclamar do lugar, da comida, de mim, de que estava tudo errado. Era como se ela colocasse todas as suas expectativas, boas ou ruins, em mim. Todas essas flutuações... eu sentia. Não era como uma montanha russa, era como andar numa rua toda esburacada. Eu não era seu suporte emocional, eu era as próprias emoções dela."

 

"Vocês duas pareciam um casal bem intenso."

 

"Intenso? Essa é a palavra gourmetizada que dão para disfuncional? Você já assistiu Beleza Americana?" Respondeu positivamente. "Lembra do rapaz que dizia que há tanta beleza no mundo que eu não consigo resistir? Com Adora era assim. Havia tanto dela, tudo girava em torno dela... que era difícil ficar zangada. Até eu me exaurir."

 

Double Trouble demorou até perguntar. "E o que você fez? Quer dizer, quando você se cansou. O que você fez?"

 

"Eu comecei a não me importar mais. Eu fiz o que estava afim e não fiquei me prendendo mais a Adora. Foi quando eu comecei a exigir mais dela, sabe, ser mais possessiva, mais paranoica, mais ciumenta. Na minha cabeça era uma forma de deixar as coisas no mesmo nível. Se ela pode me fazer de gato e sapato eu tenho motivos para querer as coisas do meu jeito também. Era assim que eu pensava. Foi aí que ela começou a me chamar de egocêntrica e começamos a brigar dia sim, dia não."

 

"Foi por isso que vocês terminaram? As brigas?"

 

Eu contive uma risada. "Não, para nós estava tudo bem, essa era impressão que eu tinha. E ela também. Era uma rotina, nós nos acostumamos. Se tivéssemos uma briga feia bastava compensar com um pedido de desculpas, um jantar em algum restaurante blasé, uma foda e nós estávamos na média. Um dia eu pensava que teríamos uma briga tal que ou a gente se odiaria de vez ou ficaríamos juntas pra sempre. E isso era algo que eu meio que ansiava a cada discussão. É essa. Não, não foi, mas vai ser na próxima. É agora. Não, deixa pra próxima. No final essa briga nunca chegou. Quando terminamos, foi no meio da rua, estava chovendo, ela estava chorando e ela me disse que iria embora no outro dia. Sem brigas."

 

"Então por que vocês duas se separaram? E não me venha com um motivo anticlímax como foi por causa da carreira dela ou foi minha culpa."

 

Eu traguei de forma demorada, sentindo o ardor descer, buscando transformar aquela sensação em impulso, em coragem.

 

"Ela não me amava." Double Trouble deixou de anotar e me olhou pela primeira vez durante toda aquela conversa. "Não do jeito que eu amava ela. Ou do jeito que eu queria que ela amasse, eu nem sei mais, as sessões de terapia só fizeram confundir minha cabeça." Era bom fumar. Te passava um ar de importância e te disfarçava sua própria ignorância perante um assunto. "Para mim, ela era a salvadora da pátria e para ela, eu era um saco de pancadas. Nós éramos destrutivas uma com a outra. E esse não era o problema. O problema foi achar que isso era um problema. É por isso que eu odeio quando ela, cinco anos depois, veio com esse papo de se redimir pelo passado. Não tem o que se redimir."

 

"Você realmente acha que isso não é um problema? Me parece ser o problema."

 

Eu voltei a rir. Cocei minha testa com o polegar, enquanto segurava o cigarro entre o médio e o anelar. "Não, essa é nossa dinâmica e acabou. Eu não mudei, ela não mudou, não vamos mudar, essa semana que voltei a falar com ela prova isso. Nós só temos que aceitar que vai ser assim. Se ela quer algum tipo de amizade saudável, não vai ser comigo. É por isso que quero distância. Isso é saudável para nós duas. Eu não preciso mais estar perto dela. Ainda bem que ela arranjou a Madeline para isso. Aquela garota parece ser doida o suficiente para se queimar."

 

Double Trouble também soltou uma risada enquanto escrevia e arriscava no caderno. Elu tinha um aspecto mais sério, diferente daquela expressão irônica e despojada que costumava levar.

 

"Você não tá falando nada... você não tem nada a dizer quanto a isso? Não precisa esconder o gravador."

 

Elu nem fez questão de hesitar. "Garota esperta. Eu quero ouvir depois com calma para não esquecer algum detalhe. Pensei que não teria problemas."

 

"Não, você vai pegar o que é mais interessante. Você quis enganar, mas o gravador não tá nem ligado. Você já tem a história feita. Você só vai pegar o que lhe convém, e escrever da forma que for mais conveniente para vender pra mídia. É por isso que você anotou."

 

Finalmente tive sua atenção novamente. "Se você algum dia cansar dessa vida na política pode contatar minha agência. Leva jeito."

 

"Você está me convidando para lidar com gente famosa e cheia de estrelismo depois de me cansar de lidar com gente desconhecida e cheia de estrelismo? Não obrigada." Traguei mãos umas duas vezes, notando em como a fumaça se dissipava pelo ar.

 

"Tem louco pra tudo."

 

"E como você pode dizer isso dela? Uma pessoa solitária? Adora tem o pessoal da banda, tem Spin, Net, ela tem Madeline..."

 

DT guardou o bloco de anotações assim como o lápis na bolsa de marca que estava ao seu lado. Elu suspirou, como se ponderasse o que deveria dizer.

 

"Adora sabe disso que você falou. Ela sabe que ela é... complicada. Que ela tem... tanta coisa. É por isso que ela mantém os amigos dela distantes. Para eles não se machucarem. Quanto a Madeline... fisicamente... é, talvez Madeline seja próxima, falo isso por experiência própria de quando encontrei as duas pela primeira vez..., mas tirando isso ela tá tão distante quanto um estranho. Madeline só ver uma imagem do vulcão na internet e fica admirada."

 

Eu estava dividida em acreditar ou não naquelas palavras. Afinal, eu estava falando com um duas caras. Mas eu vi com meus olhos. Adora. Madeline. Os amigos delas. Me deu uma sensação ruim no estômago. Tinha muita coisa passando pela minha cabeça ao mesmo tempo, o cigarro não ajudava, eu tinha que tomar um tempo para pensar ou calar todos esses pensamentos. Lembro porque deixei de fumar: me deixava ansiosa.

 

"Porque Adora quer proteger os amigos dela e não a mim? Alguma ideia?" Desconversei.

 

"Não, eu não tenho uma bola de cristal. Mas você quer um palpite de uma mera stalker de celebridades?" Acenei com a cabeça. "Eu diria que é o mesmo motivo de porque você ser a única a se arriscar a chegar perto dela. Qual é o motivo?"

 

Sim, definitivamente eu não poderia confiar totalmente naquelas palavras. Estavam me levando para um lugar incerto, escuro. Eu não podia confiar no que estava pensando agora. Eu tinha medo de responder essa questão. Diante do meu silêncio, elu continuou.

 

"Enfim, Adora é uma pessoa solitária. Quer dizer, você mesmo disse, ela é um vulcão, ninguém quer chegar perto demais. Ela deve ter uma vida bem... triste. É assim que eu enxergo. Mas..." Elu esticou o, mas enquanto se levantava da cadeira, a bolsa em punho, vindo em minha direção. "...você também é uma pessoa solitária que nem ela. Vocês duas são parecidas nesse sentido. Se apegam a única coisa que fazem bem que é o trabalho. Sabe, eu já tive em um show da She-Ra e também em alguns ensaios deles. Adora realmente se dedica muito a banda."

 

Parou na minha frente e tirou o cigarro da minha boca. Tragou uma vez antes de apagá-lo e jogar no lixo próximo.

 

"Porque você tá me dizendo tudo isso?"

 

Levantou o queixo, passando um ar de superioridade. "Bom, nada melhor que uma pessoa solitária para entender outra pessoa solitária, não é? Duas pessoas sozinhas ficam menos sozinhas quando estão juntas."

 

Elu ficou encarando, com um sorriso de canto que queria dizer mil coisas, mas não queria dizer nada. Nossa conversa não tinha durado nem meia hora e já estava se despedindo.

 

"Eu não quero ser motivo para seu atraso. Você está livre no primeiro horário da segunda?" Perguntou. Acabei novamente que sim. "Ótimo. Eu quero depois saber como foi o encontro."

 

"Não é um encontro. E isso não tava no acordo. "

 

"Eu fiz o acordo, então eu faço as emendas no acordo. Eu quero boas notícias desse não encontro. Os outros podres do Prime estão dependendo disso. E é bom não mentir pra mim, mocinha. Você não quer mentir para um fofoqueiro. Certo?" Estendeu a mão novamente para mim, um gesto de que estava falando sério. Hesitei por alguns segundos, antes de apertar sua mão.

 

"Até segunda, Catra. Bom não encontro."


Notas Finais


A/N: hello, demorou mais dessa vez. sorry.

a musica é ainda te amo - jão. eu nao sou muito fã dele, mas /emoji do palhaço

curte.comente.subscreva.

~spacibo.


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