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História Amor marginal - Capítulo 7


Escrita por: 0Pantsu0

Capítulo 7 - Heavy metal lover


 

 

Terça. As coisas pareciam estar andando e o vento havia mudado de direção nesses últimos dias. Tivemos, finalmente, uma conversa proveitosa com Double Trouble. Minha saída com Adora no sábado me colocou em contato com o senador Cliff, que nem sabia que estava na cidade. E, bisonhamente, minha saída com Adora foi mais positiva do que pensei, o que foi contra as minhas expectativas. E isso estava me deixando confusa.

Mas agora eu não tinha espaço para confusão ou para Adora. Agora eu tinha que me concentrar em convencer o senador, a cooperar com nosso caso, o que não estava indo tão bem assim.

 

"Não me entenda mal, Catra, mas precisamos mais do que testemunhas. Essa denúncia é séria. Pode comprometer todo o governo."

 

"Senador, vinte testemunhas, senador. Nós já estamos entrando em contato."

 

"Eu entendo, você pode ter cem, mas se não tiver mais do que isso, eu digo que não vamos chegar muito longe. Precisamos... de algo mais concreto."

 

"Senador podemos ver-" Meu fluxo de pensamento foi interrompido pelo celular, que vibrava na mesa. Olhei no visor. Adora. Não, eu não tinha tempo para Adora agora. Desliguei. Retomei. "Desculpe. Nós podemos ver se essas testemunhas tem algo. Vídeo. Áudio. Podemos-" uma segunda vez. Adora. Desliguei. Dei uma pausa. Retomei.

 

"Podemos tentar primeiro chegar em alguém de confiança dele, atingir primeiro aí e depois-"

 

O celular tocou uma terceira vez, e pela terceira vez era Adora.

 

"Eu acho que é importante." Senador Cliff disse, olhando para o aparelho vibrando. "Atenda. Nunca se sabe."

 

Olhei para Hordak que apenas acenou com a cabeça, pedindo para que saísse da sala. Assim o fiz. Atendi o telefone, já estressada, mas fiz o possível para manter a calma. Eu não poderia me exaltar, não quando estava tendo uma reunião tão importante.

 

"Adora eu sei que tivemos um bom momento no sábado, e não é querendo parecer rude, mas já sendo, você está literalmente ligando na hora do meu trabalho. Tipo, na hora que tem lá no meu contrato e..." Eu estava cuspindo um milhão de desculpas, mas logo percebi que no outro lado da linha havia um choro fraco. Alguma coisa estava errada.

 

"Adora?" Perguntei, preocupada.

 

"Catra, por favor, eu estou... ele me agarrou..." Foi o que a loira conseguiu dizer, baixinho, e em meios a choramingos. Dava para sentir sua voz trêmula. E meu sangue começando a ferver.

"Adora, espera, o que aconteceu?" Tentei transparecer calma, por mais que estivesse num vai e vem pelo escritório.

 

Adora demorou a responder e eu comecei a ficar ansiosa. Tinha vontade de gritar, pedir que ela falasse logo, mas me controlei. "Um homem... me agarrou... eu tentei fugir... eu fugi."

 

Eu estava puta. E com a vontade de matar alguém, de uma hora para outra. "Onde você está? Calma, respira, onde você está?"

 

"No supermercado perto do hotel."

 

Esses silêncios entre as falas delas estavam me irritando. Não era para eu me irritar. Ela não era a errada nessa história. "Onde Adora, onde?!" Falei mais alto.

 

Eu a senti engolir o choro quando subi o tom e falou mais rápido. "Uns três quarteirões... Catra."

 

"Fica aí. Fica perto de alguém. Fica na entrada. Eu chego em cinco minutos. Não saia de perto de ninguém."

 

Desliguei o telefone e corri para a sala de reuniões. Não deixei Hordak nem o senador terem tempo de falar alguma coisa, desliguei o projetor e tomei minha bolsa, apressada. "Voltamos às uma e meia. A reunião tá adiada."

 

"Como assim a reunião tá adiada? O que houve? Porque?" Hordak chegou a se levantar, assustado, e o senador estava sem entender. Pudera. Um minuto eu estava apresentando provas para incriminar um pedófilo, no outro estava tomando minhas coisas e saindo desesperada dali.

 

Olhei para os dois antes de fechar a porta. "Porque eu estou dizendo que tá adiada. Voltamos às uma e meia." Espero que eles tenham entendido o recado.

 

Antes de sair, passei na minha mesa. Eu tinha algo importante para fazer agora. Quebrar a cara de um filho da puta.

 

___________________________

 

Não sei quanto tempo passou desde minha saída do trabalho até chegar no supermercado próximo ao hotel. Estacionei o carro de qualquer jeito, ocupando duas vagas, freando bruscamente. Assim que entrei na entrada, além do cheiro de desinfetante, vi Adora sentada em umas cadeiras próximo ao balcão de informações.

 

"Catra!" Ela correu para mim assim que me viu. Usava o mesmo bendito óculo e boné da noite de sábado, quando saímos. Instintivamente ela me abraçou, amedrontada, se agarrando no meu pescoço como se dependesse disso. Estava tremendo, pálida e suando frio. Sua cabeça estava encostada no meu ombro e senti suas lágrimas.

 

"Calma, vamos pro carro. Você me conta lá." Busquei tranquilizá-la, por mais que estivesse enfurecida. Não era para descontar nela. Aos poucos, ela se desvencilhou, sua mão ainda estava sobre meu ombro. Eu a guiei até o carro e tirei novamente aquela palhaçada que ela estava usando para se esconder.

 

"O que aconteceu? Merda, eu não tenho... você quer que eu compre uma água?" Ela acenou que não, respirando fundo. Sua mão estava segurando a minha com tanta força. Quem quer que tenha feito isso vai pagar muito caro.

 

Ela demorou ainda alguns minutos antes de falar. Eu queria deixá-la confortável, mas eu não era boa nisso. Estava um poço de ansiedade. "Ele vem me perseguindo desde que cheguei aqui. Ele me pediu um autógrafo, eu dei. Ele me pediu uma foto e disse que não queria, que eu estava aqui de férias. Então ele passou a me perseguir quase todos os dias. Eu sempre via ele parado em frente ao hotel do lado de uma moto. Eu pensei em relevar, em deixar pra lá, já que ele não estava fazendo nada."

 

"Você não contou para a banda, para Madeline?"

 

"Não, para a banda não. Madeline disse que eu deveria contratar um segurança ou algo assim."

 

"Ela não está errada."

 

Resposta errada Catra. Resposta errada. "Eu não sou a porra do presidente para andar com segurança! Eu estou de férias, Catra! Caralho."

 

"Calma, ok. O que aconteceu, você consegue contar?"

 

"Hoje eu estava voltando depois de ter comprado algumas coisas aqui mesmo. E ele veio me pedir novamente uma foto... Eu disse que não, ele insistiu e... e me agarrou. Me encurralou na parede. Ele estava de carro. Não tinha ninguém na rua. Eu pensei que ele ia me sequestrar, Catra!"

 

OK, agora eu estava assustada. Que tipo de fã é esse que acompanha a banda dela? Mas isso era esperado quando você fazia parte da banda do momento.

 

"Eu tentei gritar e ele colocou a mão na minha boca, me empurrando pro carro, e eu o mordi. Eu consegui me soltar e corri pra cá. Catra. Eu fiquei com muito medo, Catra..." Ela voltou a apertar minha mão. Coloquei a outra mão por cima da dela.

 

"Passou, OK. Vai ficar tudo bem. Vamos voltar pro hotel e vamos tentar se acalmar, então a gente decide o que vai fazer. Você ligou para Madeline?"

 

"Não, a primeira pessoa que liguei foi você." Ela olhou para nossas mãos entrelaçadas. Seus lábios ainda tremeluziam um pouco.

 

"Certo, vamos ligar para ela quando você se acalmar."

 

Adora soava mais tranquilizada, apesar de não soltar minha mão de jeito nenhum. "Eu tenho medo dele está me esperando lá na porta. Dele tentar fazer isso de novo."

 

Não sobre a minha vigília. "Ei, olha pra mim." Ela assim o fez. "Não se preocupe. Eu estou aqui, tudo bem? Ele não vai fazer nada com você."

 

Não tentei correr até chegar no hotel e era mais difícil dirigir com sua mão sendo apertada por outra pessoa. Mas não demorou muito até estarmos paradas em frente à entrada. Não havia uma alma viva na rua naquela hora. A exceção de dois rapazes que estavam do outro lado da rua, encostados num carro hatch branco. Eu mal tinha encostado o carro quando Adora avistou.

 

"É ele, Catra. Ele. Tá com um outro cara agora. O que eles estão pensando em fazer? Catra, por favor..."

 

"Não se desespera." Puxei o freio de mão, enquanto olhava bem para os dois sujeitos. "Quem? Quem foi que te atacou?"

 

"O de moletom azul. Esse de camisa branca... eu nunca vi."

 

O de moletom azul estava encapuzado. Parecia já um homem na faixa de seus trinta anos, barbudo, com algumas rugas nos olhos. Já quem estava do lado dele, o de camisa branca e calça jeans, não devia ter mais que vinte, com o cabelo curto e raspado nos lados. Eles pareciam estar esperando alguém.

 

"Fica aqui no carro, tudo bem? Eu vou resolver isso." Eu olhei para Adora e disse num tom firme e seguro. A loira acenou com a cabeça antes de tornar-se o olhar novamente para os dois.

 

Antes de sair do veículo, eu levantei o tapete que estava do meu lado do carro. Nunca imaginei que teria que usar isso, tanto que deixei engavetado, lá no fundo, da minha mesa no escritório, e deixei por lá perdido. Mas tudo tem uma primeira vez.

Eu puxei o revólver que estava acobertado desci do veículo. Não cheguei a escondê-lo, mas não coloquei de lado, e sim na frente, para que Adora não visse de primeira. Atravessei a rua com passos firmes, sem olhar para os lados. Eu tinha me acalmado no curto caminho até o hotel, mas ao ver aqueles dois desgraçados, serenos e tranquilos, no meio da calçada, enquanto Adora estava amedrontada e acanhada no carro fez minha ira aumentar a cada passo.

 

"Ei, o de moletom azul."

 

"Sim, o que-" Eu puxei-o pelo moletom e dei o atingi com a coronha da arma, com toda força que consegui, na região entre seus olhos. Instintivamente o homem caiu no chão, com o impacto da pancada. O rapaz de branco deu alguns passos para trás, assustado, mas meu assunto primeiro era com esse filho da puta.

Ele cair desnorteado não era o suficiente. Voltei a atingi-lo com mais coronhadas, segurando-o pelos cabelos, e a cada uma delas, seu rosto ficava cada vez mais pintado de vermelho. Eu queria afundar a cara dele na calçada. Adora, nem ninguém, iria reconhecer o rosto desse desgraçado depois de hoje.

O rosto ensanguentado daria um quadro. Quando o homem não esboçava mais nenhuma reação eu me dei por satisfeita. Vasculhei nos bolsos do seu moletom e achei seu documento. Tomei sua identidade.

 

Levantei e apontei a arma para o comparsa. "Não atire." Colocou as mãos para cima e no susto, se desequilibrou.

 

"Me passa tua carteira, agora!" O rapaz mais novo estava tão desnorteado quanto o cara caído. "Anda!"

 

Trêmulo, o rapaz me entregou sua carteira. Dela eu só decidi pegar a identidade, jogando-a novamente em sua direção. "Vocês não me conhecem, mas eu conheço vocês." Disse, mostrando a identidade de ambos. "Se vocês fizerem qualquer coisa com ela vocês vão rezar pra nunca terem me conhecido. Tá me ouvindo?!" Esperei aquela ameaça assentar bem nos ouvidos dele. "Tá me ouvindo?!" Repeti. Ele acenou com a cabeça. "Agora, você leva esse teu amigo desgraçado daqui e nunca mais pensem em chegar perto dela!"

 

Dei alguns passos para trás e esperei o jovem colocar o corpo do comparsa no banco de trás do veículo completamente desajeitado, e fugir dali cantando pneu. Só depois que eles foram que decidi caminhar para meu carro. Eu estava com medo de ter deixado Adora horrorizada com aquilo. Até eu me assustei com o que eu fiz. A vocalista abriu a porta do passageiro. Eu não conseguia ver nela um olhar de repreensão ou estarrecido.

 

"Fique com isso. Esconda em algum lugar. Leve com você." Eu coloquei o revólver na mão dela. A coronha, assim como minha própria mão, estava ensanguentada pelo ocorrido, mas isso não parece tê-la assustado.

 

Pelo contrário. Eu olhei novamente em seus olhos. Muitas pessoas provavelmente cortariam relações com alguém no momento em que lhe entregassem um revólver carregado. Mas não Adora. Se aqueles olhos queriam me dizer qualquer coisa, não era medo, isso era bem claro.

Era excitação. Não só ao encarar o revólver, mas ao me encarar.

Eu tentei relevar essa informação, por mais complicado que fosse.

 

"Vamos, você consegue ir sozinha? Não, deixa eu te levar até seu quarto." Comecei a guiá-la para dentro do hotel, ela segurando a arma como se fosse uma amostra grátis. "Espera, deixa eu guardar isso. É melhor."

 

A cada passo que eu dava em direção ao quarto dela, meu coração se afundava em sentimentos confusos.

 

___________________________

 

O quarto onde Adora estava não era lá muito pomposo nem grande, muito pelo contrário. Um flat. Tinha uma enorme cama de casal, king size, isso era verdade. Uma pequena varanda, uma televisão acoplada em frente a cama. Ao lado da televisão um guarda roupas embutido, desses coloniais. Apesar de não ser pomposo, tinha um aspecto de luxuoso e era bem cuidado. As luzes amareladas ajudavam a passar essa impressão além do chão encerado

Eu estava com muito tempo para admirar todo o espaço, pois estava andando de um lado para o outro, tentando aliviar a tensão dos acontecimentos. Adora estava sentado no pé da cama, me vendo ir e voltar.

 

"Eu já te disse, Catra. Eu estou mais calma. Você já tá me estressando com esse seu vai e vem."

 

Eu parei por alguns segundos antes de voltar para o meu vai e vem. Adora revirou os olhos. Ela já tinha se acalmado faz tempo, depois de dois copos de água e um ansiolítico.

 

"Posso?" Pedi permissão para sentar ao seu lado na cama, que foi concedida. Mesmo me sentando ao seu lado, minha ansiedade ainda não havia passado e comecei a balançar minha perna compulsivamente. "Desculpa."

 

Eu queria tanto um cigarro nessa hora. Eu até tinha no bolso, mas não era o melhor dos momentos. Além do mais eu sabia que Adora detestava o cheiro de fumo.

 

"Debaixo de toda essa armadura de pessoa fria e desinteressada, você ainda se preocupa comigo."

 

"Se você recebesse uma ligação daquelas você também ia ficar uma pilha de nervos."

 

Ela acreditou que estava sendo um incômodo. "Me desculpe. Eu... você foi a primeira pessoa quem eu pensei."

 

"Não tem o que se desculpar. Você não tem nada para se desculpar. Mas não é uma ligação boa de se receber. Quando eu vi já tava no carro."

 

Voltamos a ficar em silêncio. Estava segurando minhas pernas para que elas não se descontrolassem novamente. Adora voltou a brincar com suas mãos, o gesto típico que ela fazia quando estava arrumando coragem para contar algo.

 

"Acho melhor não contar isso para Madeline."

 

O que Adora estava pensando? "Como assim, não contar?"

 

"Ela não precisa saber. É colocar preocupação desnecessária na cabeça dela. E entre a gente. Além do mais, já foi resolvido. Duvido que eles voltem a me importunar depois do que você fez."

 

"Adora, ela está certa. Eu... eu não posso ficar sendo sua salvadora da pátria. E se seus fãs são desse jeito, você tem que contratar um segurança."

 

A loira parecia decidida quanto a isso. "Não e não. Eu não vou contratar segurança nenhum. Que tipo de mensagem eu vou tá passando? Que eu tenho medo dos meus próprios fãs?"

 

"A questão não é essa. E se seus fãs são pirados que nem esse aí, sim, você tem que ter medo."

 

"Não, eu não vou fazer isso. Eu já discuti com a Mads por causa disso. Não."

 

Não dava. Ela era cabeça dura demais. Não adiantava discutir com a loira. Era capaz dela tirar satisfação comigo no meu trabalho de novo e eu não queria arriscar isso.

 

"Ao menos faça algumas aulas de defesa pessoal."

 

A vocalista parou de olhar para mim e olhou para o criado-mudo, ao lado da cama, onde eu tinha deixado a arma repousando.

 

"Me ensine a atirar."

 

Aquela proposta ficou instaurada no ar até ser processada por mim.

 

"O quê?!"

 

"Me ensine a atirar. Você me deu o revólver. Me ensine." Seus olhos brilhavam ao tornar o olhar para mim.

 

Ela estava completamente maluca. "Não."

 

"Porque você me entregou então?" Por que eu sou burra e não pensei cinco minutos na minha frente, era o que queria falar.

 

"Não... quer dizer. Vá para algum profissional. Um professor. Um clube de tiro."

 

"Catra..." Ela se inclinou para o meu lado, completamente alheia de qualquer história traumática que nós tínhamos. Ela sorriu, aquele seu sorriso faceiro, como quem não quer nada. Era uma de suas piores armas, ainda mais com seus cabelos soltos. Era uma de suas piores armas. Mas eu estava calejada. Estava preparada.

 

"Por favor..." Ela olhou nos meus olhos. E eles queriam me passar uma coisa. E eu poderia estar enlouquecendo, poderia estar vendo isso de forma totalmente enviesada, e minha cabeça estava dando voltas, mas meu coração estava convicto.

 

Ela olhou para mim e parecia que ela me amava.

Um olhar e minha armadura se quebrou. Vai se foder Catra.

 

"Apenas se prometer que vai atrás das aulas de defesa pessoal."

 

"Isso é um acordo?" Disse enquanto esticava sua mão em minha direção, esperando que a apertasse.

 

Lentamente eu fui assentando aquela ideia absurda na minha cabeça até me contentar com aquilo. "Feito."

 

De repente, senti uma vibração no meu bolso e olhei rapidamente. Era Hordak ligando. Faltavam pouco mais de vinte minutos para as uma e meia. Ele não queria que eu atendesse, até porque, o que era meu estaria guardado para o fim do dia. Era mais um aviso. Me levantei, anunciando minha saída.

 

"Acho melhor ir andando. Você vai ficar bem?"

 

Adora acenou positivamente e se levantou junto comigo. Mandei uma mensagem para Hordak que estava retornando. Foi quando vi novamente de relance o revólver que havia entregado. A coronha ainda estava com sangue, agora já seco, daquele desgraçado. Talvez de todas as decisões de último momento que tive na vida, entregar aquilo para a Adora com certeza estaria na primeira posição. E pensei que seria a gota d'água para qualquer possibilidade de termos um comeback. Mas eu já devia saber que Adora não era essa pessoa tão boa que todos pintavam.

Pelo menos não comigo. Não estando comigo.

 

"Eu vou esconder. Na minha bolsa. Ela não precisa saber disso também." A vocalista deve ter percebido a minha encarada para a arma.

 

"OK. Eu vou-"

 

"Catra." Ela me interrompeu. Olhei para ela, assustada, ansiosa, confusa, com medo. Esperançosa. Essa sensação era a que mais me assombrava.

 

"Sim?"

 

"Você pode me dar um abraço?" Ela já tinha seus braços abertos. Aquele olhar de antes tinha retornado. Parece que eu voltei não cinco, uns dez anos no passado, quando ela me abraçava depois do treino de basquete na escola e eu ficava na arquibancada a esperando. Não gostava desses sentimentos nostálgicos. Não gostava de reviver nada disso. Mas essas lembranças me puxavam com tanta força que eu estava começando a cansar de lutar contra eles. Eu já estava lutando contra esses sentimentos faz muito tempo.

 

E aquele abraço foi com um gosto amargo. Gosto de cigarro. Era confortável, mas não era reconfortante, apesar de Adora me agarrar como se eu fosse um travesseiro. Porquê? Porque eu era tão fraca para Adora Lovejoy? Aquela garota era uma anestesia, uma droga. Aquela conversa que tive no carro, depois da ida no Suit & Tie estava passando novamente pela minha cabeça. Uma assaltante e uma piloto de fuga juntas. Nada de bom poderia acontecer disso.

Me desvencilhei dela, mesmo ela não querendo. Meu tempo ali acabou.

 

"Obrigada. Por tudo. Por me ajudar."

 

"Adora. Eu realmente-" O celular novamente tocou. Eu não precisava olhar no visor para saber quem era. Adora me olhou compadecida.

 

Havia algo naqueles olhos. Não era complacência. Não era melancolia. Mas ao mesmo tempo era. Estava mais para conformidade.

 

"Não, eu sei. Atenda. Você deveria estar no trabalho agora."

 

Eu saí daquele quarto e voltei para o escritório com um aperto no peito.

 

___________________________

 

"Então é esse o rapaz com quem devo falar?"

 

"Sim. Novinho. Ele está com raiva do Prime porque deixou de ser o boy favorito dele. Fez dezoito anos, acabou o amor. O senador sempre anda nessa linha tênue entre pedófilo e fetiche por rapazes novos."
 

"Ele é um pedófilo. Não tem linha tênue nisso."

 

"De qualquer forma, você precisa atacar isso. Essa raivinha que ele tá tendo. Ele é novo, vai cair fácil."

 

"Não me diga como eu devo trabalhar."

 

"Calma, amor. Eu só estou querendo ajudar. Não arranca pedaço."

 

"Você sabe onde ele mora ou algo do tipo?"

 

"Não, mas eu sei que vai ter mais um desses cultos do Prime neste fim de semana. No estado vizinho. Com a presença do próprio. É capaz dele estar lá. Na capital, naquele prédio gigantesco que ele fez."

 

Era quinta-feira, véspera de feriado. Não que isso significasse que estaria de folga amanhã, principalmente com o caso andando. Fiquei encarregada de continuar a ouvir as incontáveis histórias de Double Trouble, até finalmente se cansar de contar sobre elu mesmo e começar a falar de Prime. Eu já tinha tido punições e momentos ruins demais naquela semana. A ligação de Adora. Os acontecimentos que se sucederam depois disso. O revólver. O abraço de Adora. Hordak. Adora.

Agora Double Trouble estava me encarando e eu não sabia o que queria.

 

"O que é?"

 

"Acho que é uma boa hora para você continuar a falar sobre você e Adora."

 

Falando na loira...

 

"Você já ouviu uma boa parte da minha história com ela e ainda não disse o que você vai fazer."

 

"Você já matou. Eu vou pegar o que for conveniente. Eu ainda tô vendo como vou conseguir um maior impacto. Talvez perto do próximo álbum. Talvez quando ela e a modelo se separarem... quando vocês duas voltarem."

 

Eu tentei ignorar o último comentário. Quando vocês duas voltarem. No meu maior pesadelo isso ocorreria.

 

"Você tá quieta. Não vai falar nada?"

 

"É que eu não vou ficar me desgastando. Nunca discorde de um maluco. Conselhos de mamãe."

 

"Você pensa que é um absurdo?"

 

"O quê?"

 

"Você e Adora voltarem? Ela e aquela lá se separarem?"

 

"Você parece não gostar muito de Madeline." Tentei mudar o rumo da conversa para elu e não eu.

 

"Tirando o fato dela ser a pessoa mais sem graça e chata que já conheci... eu gosto dela. Como foi o encontro?"

 

Resolvi falar o que elu queria. "Foi... OK."


"OK? Apenas OK? Eu quero detalhes, amor."

 

"O que você mais quer saber? Nós fomos a um bar com música jazz, nós jantamos, conversamos e eu levei ela de volta. Satisfeito? Ou satisfeita, sei lá."

 

"Então responda minha pergunta direito: agora, você pensa que é um absurdo?"

 

"Não importa o que eu penso. Ela está com Madeline agora."

 

"Então o problema é Madeline?"

 

"Não foi isso que eu quis dizer."

 

"É porque elas duas estão namorando? Esse é o problema?"

 

"Não, não é!" Esbafori. Busquei recuperar a calma. "Não tem como conversar com você. É entrar por um ouvido e sair pelo outro."

 

"É recíproco." Elu carregava um sorrisinho no rosto.

 

"Você é tão pior quanto os meus amigos insistindo nessa conversa. Se você não gosta delas duas juntas então lide com isso. Não me ponha nessa. Eu quero saber de Prime."

 

"Me admira você ter amigos." Silêncio. Mas eu sabia que não por muito tempo. DT já tinha algo engatilhado. "Eu lembro que você falou que depois de brigarem, você e Adora precisavam de um pedido de desculpas, um jantar e uma foda para ficarem OK. O pedido de desculpas já tá encaminhado, o jantar já foi..."

 

"Eu não vou ter essa conversa com você." A audácia dessa criatura.

 

"Você pode negar o quanto quiser. Vocês duas têm química. Até brigando vocês duas têm química. Quer dizer... eu estava lá na recepção. Ela deu uma de mulher maluca, te deu dois tapas na cara e você sorriu. Você gosta. Dessa dinâmica entre vocês."

 

Era impressão minha ou todo mundo estava enlouquecendo um pouco? Inclusive eu. "Você acha que eu gosto de brigar? De me estressar, gritar, de me machucar, de machucar ela? A troco de alguns dias de paz? Você fala romantizando tudo isso. Eu não quero viver isso de novo. Eu já vi esse filme várias vezes, eu já acreditei que poderia dar certo e quebrei a cara."

 

"Eu não estou romantizando. Eu estou falando o que vejo. E sim. Você gosta. Você não é uma pessoa de passeios na orla da praia. E ela também não. Olha onde você trabalha. Olha onde Adora está. Você fala que vocês duas só fazem mal uma com a outra, mas... pra você, você nunca se importou em ser boa. Já pra Adora... você consegue trazer o pior dela. E pelo jeito ela não se importa. Porque você acha que ela não se importa?"

 

"Eu não sei e não quero saber."

 

"Você acha que ela e Madeline dão certo?"

 

"Eu não sei, eu não quero saber, isso é problema dela."

 

"Você deve saber disso mais do que eu, mas tudo para Adora é um 'sim ou não'. Eu vou mostrar novamente minha carteirinha de fofoqueira. Se ela está na banda, então ela está na banda. Corpo presente. Até a alma. Ela é intensa dessa forma. E ela exige isso dos outros. É por isso que ela é esse vulcão que você tanto fala. E ela tem consciência disso."

 

Conversar com DT era desgastante. Eu saía literalmente cansada depois de uma conversa com elu. "Onde você quer chegar?"

 

"Você realmente acredita que Adora Lovejoy namoraria Madeline Bellamy? Em condições normais de temperatura e pressão?"

 

"Você não precisa amar ninguém pra namorar com alguém. Essa lógica de namorar igual a amar é pra adolescente burro." O fofoqueiro riu enquanto terminava de beber seu café. "Você quer chorar suas mágoas por não gostar delas duas juntas? O que você está sugerindo, que é só publicidade?"

 

"Bom, então Adora pensa como uma adolescente burra. E não, eu não estou dizendo que é publicidade. Longe disso. Adora não comprometeria sua vida por publicidade. Mas também não é porque ela ama." Fiquei esperando sua resposta. "É porque ela quer esquecer. Algo. Alguém. Penso que é por isso."

 

Double Trouble rondava o assunto como uma leoa ao caçar uma presa. Não demoraria muito até dar o bote.

 

"Você parece conhecer Adora mais do que ela mesma. Ou pelo menos você fala com convicção disso." Resolvi cair na isca.

 

"Não, eu não a conheço. Mas você sim. Mais do que ela mesma. Você..." Elu apontou para mim. ".... adora argumentar isso, nesse seu papo de vocês não darem certo. E ela conhece você mais do que você também."

 

Eu continuei em silêncio e elu viu aquilo como uma oportunidade de continuar. "Então já que você conhece ela tanto assim, me diga: quem é que ela ama?"

 

Engoli em seco qualquer palavra que eu tinha. Eu não queria pensar nessa pergunta, mas iria dormir com ela na cabeça. Isso estava me maltratando. Adora martelava minha cabeça. Era o que mais odiava. Mesmo não estando mais juntas, nem como amigas, a mera presença de Adora fazia minha vida girar em torno dela. Tudo.

 

"Você tem medo da resposta dessa pergunta. Não sei se é porque você sabe a resposta ou não."

 

O telefone alarmou. Nosso tempo havia acabado.

 

"Acho que essa é minha deixa." Se levantou e antes de se despedir ainda teve tempo para escorrer o resto do seu veneno. "Pensa no que eu disse. Até mais, garota da Adora."

 


Notas Finais


/quietinha. atualizei e sai correndo próximo capítulo? sei lá.

a música é heavy metal lover - lady gaga.


curta. comente. subscreva.

~spacibo


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