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História Amor Periférico - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo 1


  Parte um: Vem, volta, que eu estou te esperando.

Capítulo 1

 Os olhos se abriram vagarosamente seguindo o ritmo arrastado que a chuva trazia. O quarto estava todo em tom de azul, iluminado fracamente pela grande placa de marketing lá fora. Devia ter fechado a cortina, pensou com uma preguiça que seguia o barulho dos pingos de chuva no teto. Desconfortável contra a cama, se virou de lado para buscar uma melhor posição e nisso deu de cara com uma visão que lhe despertou em um instante. José dormia serenamente ao seu lado, os olhos de cílios grandes brilhavam naquele ângulo, onde metade do rosto se acendia em um azul fosco e a outra metade caía em escuridão no tom de pele negro. Conseguia sentir cada músculo seu relaxar como se tivesse com as veias cheias de nicotina, e se via preso naquela posição, como se uma teia invisível lhe prendesse e lhe obrigasse a olhá-lo. E olhava. Olhava como se fosse a última vez que fosse vê-lo ali tão pacífico, com a personalidade desarmada, a beleza exaltante e delicada, e o cheiro doce de sabonete de ervas lhe convidando à se aproximar. Era a perfeita armadilha, sua mão deslizou do peito rumo ao corpo alheio, trêmula e relutante. Sentiu a saliva bem escassa descer devagar na garganta seca, na cabeça não passava nada, estava dopado pela sensação pulsante que descia o cérebro e alertava o coração. Nessa altura, o som da chuva desapareceu, era tudo tão silencioso, que podia jurar estar escutando as batidas do coração dele, talvez fosse somente o seu, talvez nenhum dos dois. Mas estava ali, tão próximo dessa vez, podia imaginar a sensação que seria de tocá-lo e deslizar a sua pele contra a dele bem devagarzinho, para que a sensação durasse mais, para que pudesse lembrar mais tarde com veemência, para que conseguisse reviver tudo isso facilmente.
Finalizou a ação somente em sua cabeça, a mão parada na metade do caminho lhe havia acovardado a ideia. Agora estava imerso em uma sensação de impotência, de melancolia, um momento perfeito para que voltasse a escutar os pingos gentis contra a telha ao alto. José respirou diferente, as pálpebras exalando a luz azul da janela se moveram lentamente, revelando os olhos que na iluminação fraca eram bastante escuros. Davi voltou rapidamente sua mão para si mesmo e fechou os olhos como uma criança medrosa, um calafrio percorreu as costas e os braços ouriçando seus pelos quando sentiu José se mexendo na cama. Tentava deduzir o que ele estaria fazendo, mas logo descobriu, ao sentir a coberta caindo em cima do seu corpo delicadamente. A movimentação parou, o corpo de José tinha se afastado ainda mais no espaço da cama de casal e Davi conseguia saber disso pois tentou deslizar os dedos disfarçadamente pelo lençol até alcançar uma parte quentinha, onde antes José se deitara. Abriu os olhos novamente, tentando fingir que acordou com a inquietação do rapaz, e estendeu o braço até o ombro dele. José se virou, os olhos estreitos o observando acima das costas viradas.
— O que foi? Te acordei? — José perguntou em uma voz rouca e dormente, enquanto se virava para ficar de frente a frente com ele.
Davi se estremeceu com a sensualidade que escapava da voz dele, tão baixa e grave, que lhe envolvia de forma embriagada. Normalmente não se sentia assim, claro, mas estava mais sensível que qualquer outro dia, pois nesse em especial estava tão próximo de quem gostava, e ambos se deitavam ali de guarda abaixada, como se o mundo barulhento afora tivesse sido afogado pelo barulho frequente da chuva, e pelo vento gelado que espiava o quarto pelas brechas das telhas, dançando pelo ambiente sem um forro para contê-lo. Davi demorou responder o rapaz, que tornou a falar para checar se ele estava acordado.
— Ei, tá acordado? — Sussurrou, contendo a voz para não acordá-lo caso estivesse dormindo.
— Sim... Ia pedir que... — Estava forçando uma voz de sono, pois sua paranoia continuava lhe lembrando que seria horrível caso José descobrisse que já estava acordado bem antes, o observando como um completo maluco, mesmo sendo bem improvável que ele descobrisse. — que... — O resto da frase soou em sua cabeça, impedindo com que soltasse pela boca: "chegasse mais pra cá". Iria soar estranho, então se complicou com as palavras para dizê-lo outra coisa. — fechasse as cortinas.

— Mas a cortina fica do teu lado. — José soltou uma risada, enquanto observava o semblante de Davi perdido contra o escuro no canto da parede.
Davi agarrou a coberta contra os dedos e puxou-a mais para perto do peito.
José se ergueu de joelhos contra a cama para alcançar a cortina, o corpo foi iluminado pela luz azul, sem camisa, a visão de Davi foi a de um corpo magro, abdômen bem desenhado e de mamilos mais escuros que a cor da pele. Não viu José se deitar pois as cortinas deixaram o quarto em total escuridão, mas sentiu quando ele se deitou e sabia que ainda estavam de frente a frente, pois além de ouvir a respiração dele, a sentia contra seu rosto. Tentou prender a própria respiração, ou respirar de forma mais leve. O porquê? Não sabia ao certo, estava guiado pelo nervosismo, mesmo sabendo que embora estivesse tão próximo de João, tinha em mente que esse era o mais próximo que podia chegar.
— Davi... — A voz do rapaz palpitou seu coração, de repente não mais respirava, mas não por vontade própria, parecia que havia sido atingido por um soco forte no peito. Não queria transformar tudo o que o rapaz falasse em algo meloso, odiava essas sensações extremas que a paixão trazia às pessoas, mas podia jurar que até o som do seu nome fora pronunciado diferente do usual. Saiu dos lábios dele de uma maneira sofrida, prolongada, cheia de sentimento. Um sentimento tal, que não conseguia decifrar. — Valeu por... me deixar ficar aqui.

— Tá parecendo que é a primeira vez que dorme aqui.

— Eu tô falando sério!
— A coisa foi feia? — Davi tentou mudar de assunto. — Lá com tu e a...
— Terminamos de vez.
Davi sentiu a cama mexer de novo, José havia se virado de frente para o teto e com esse movimento uma distância maior se abriu entre os dois, não de espaço, mas de intimidade.
— E como tu tá com isso?
Davi tentou confortá-lo. Mesmo sabendo que fazia bastante tempo que não via o amigo — e nesse tempo muita coisa poderia mudar em alguma pessoa —, tinha em mente que não importava a mudança pela qual ele pudesse ter passado, seria ainda o mesmo garoto sensível e reservado, que odiava falar sobre assuntos que lhe cortassem o coração afora.
— Eu tô de boa, a gente não tava indo bem faz tempo. — Até sua voz tinha se distanciado, parecia ter medo de Davi se aprofundar no questionário.

— Então tá bem... — Davi disse com decepção da voz, sabia que não conseguiria adentrar mais no assunto.
Passaram se alguns segundos após a resposta de Davi, o ambiente foi novamente preenchido com nada mais que o ruído dos trovões lá de fora. De primeira não conseguiu fechar os olhos, nesse momento já haviam se acostumado com a escuridão e enxergavam um pouco melhor a silhueta escura do corpo de José. O rapaz havia se virado de costas e se encolhido contra uma coberta como se aquilo fosse criar uma parede entre ele e Davi.

— Boa noite. — Disse José com uma voz quase inaudível.
Mas Davi não respondeu de volta, insistiu em manter os olhos abertos, observando o cabelo crespo de José ser amassado suavemente contra o travesseiro. Eram dolorosas as memórias que lhe traziam a sensação do toque naquele cabelo, que um dia foi dele e só dele de tocar. Momentos depois a cama se mexeu novamente, era José se voltando para Davi.
— Ela e eu...
Davi se surpreendeu ao ouvir a voz sensual preencher seus ouvidos novamente. Era grossa e cheia de sentimentos, fazia-o sentir o coração derreter e a garganta travar em um nervosismo estranho.
— Não era pra ser, sabe?
— Por que? — Davi perguntou, sua voz escapou rouca e baixa.
— Acho que a gente não se gostava como deveria.
A respiração dos dois de repente era mais alta que a própria conversa, e mesmo não enxergando muita coisa, podia imaginar seus rostos bastante próximos. Davi ficou lá na mesma posição, temendo que se ousasse mover um músculo sequer tudo aquilo desmoronaria, que aquela sensação de conforto fosse ser levada junto com a voz sensual de José.

O dia amanheceu mais cedo, o verão trazia a luz do sol logo as 6:30 da manhã contra as brechas da cortina. O clima de pós chuva trazia cheiro de terra molhada pela janela que alguém havia aberto. O quarto era bem iluminado agora, a luz trazia vida à toda a bagunça: o guarda-roupa pequeno, a mochila jogada no chão, o violão recostado na parede logo ao lado da parte onde a pintura deteriorada mostrava o reboco, o computador velho em cima de uma estante acabada, as roupas jogadas em uma parte do chão, em outra um emaranhado de fios junto de uma caixa de ferramentas e a cama bagunçada com o lençol que José usava outra noite, parte no chão e ninguém ali além de Davi.
Da cozinha vinha um cheiro de pão fresco e café passado à pouco tempo, algumas vozes dançavam entre tons baixos e altos, entre risadas e sussurros e entravam no quarto trazendo junto a sensação de uma manhã de sábado. Estavam juntos na mesa redonda e pequena, José e Bianca, enquanto dona Conceição lavava um punhado de louça.
— Cês dois sempre foram um problema danado pra mim, direto tinha gente na minha porta reclamando de confusão que cês caçava. — Disse Conceição, enquanto enxaguava um copo. Era uma mulher com porte físico forte, usava um vestido largo florido que lhe deixava magra e escondia sua silhueta mais cheia. O cabelo era bem liso e brilhante, amarrado por uma xuxa que expunha as raízes crespas à vista.
José abriu um sorriso acompanhando a gargalhada da mulher.
— A princesa acordou. — Falou Bianca, a irmã mais velha, tomava café em uma caneca larga amarela, enquanto

folheava um livro de capa grossa e verde.
Davi entrou na cozinha com a mão a frente da testa, tampando o sol que atravessava a janela direto em seu rosto.
— Já era hora não é? Tava querendo um cafezinho na cama? — Disse Conceição.
— Bom dia pra vocês também.
José acompanhou o olhar de Davi conforme ele atravessava a cozinha — que não era tão grande, só um espaço apertado apresentando poucos móveis e uma decoração que Conceição mesma que fizera, cheio de bordados e objetos artesanais.
— Eu só queria agradecer de novo por me deixar ficar aqui. — Disse José.
— Que isso garoto, tu é sempre bem vindo aqui! Deixe disso. — Ela se virou para os jovens enquanto limpava as mãos em um pano de prato. Seu rosto era jovial, a pele negra espantava qualquer sinal de velhice que seus quase 48 anos poderiam trazer. — Dorme no quarto do Davi, ele não vai se importar mesmo, não tem uma namoradinha nem nada.
— Mãe? — Davi retrucou.
— Se ele desse uma chance, quem sabe não arrumasse. Conheço uma garota bonita demais pra esse lápis amarelo. — Falou Bianca, ainda olhando para o livro em uma das mãos, e tomando café com a outra.
José virou o rosto pra baixo, escondendo uma risada.
— Não vai trabalhar hoje?
Disse a mãe ao voltar pra a cozinha.
— Minha folga é hoje. — Davi falou com a boca cravada em um pão.
Ela estreitou os olhos para o filho.
— Bom mesmo, não quero que fique faltano o trabalho, a bronca vem toda em mim. Sabe como é o velho daquele bar. Ah eu tava esquecendo... Davi! Mais tarde leve o José na padaria do Eduardo, ele disse que tava precisano de um ajudante por lá.
— Mãe... ele mal chegou.
— Aqui ninguém fica dando mole não, se for ficar aqui, José, tem que corré atrás das coisas.
— Eu vou fazer as unhas na Carla. — Ela tirou um avental que tava usando, revelando um vestido azul florido, curto. Tirou a xuxa do cabelo, soltando o cabelo liso e sem volume e seguiu até a porta. — E não esquece, ein... — Ela inclinou a cabeça para o lado, alternando o dedo apontado entre os três jovens. — lavar a vasilha que sujar.
— Sem problema, Dona Conceição. — José respondeu enquanto olhava para Davi com uma expressão de conforto.
Após Conceição sair, Bianca se ergueu da mesa, os dreads agora na cor rosa escuro, eram mais chamativos, até se destacavam contra a pele negra. Fazia Davi se lembrar que era o único com a pele mais clara dentro da família, a sua pele cor de amêndoas foi uma mistura da sua mãe com o seu pai branco, que havia morrido há pouco tempo. Bianca largou seu prato em cima da mesa e saiu do cômodo em um instante.
— Ei, ei, ei! Vai lavar sua louça não? — Davi gritou.
— Tô atrasada pra um trabalho da faculdade, talvez na próxima. — Gritou já do outro cômodo, com a voz irônica.
Davi respirou fundo, antes de continuar a comer seu pão.
— Muita coisa mudou em dois anos, né? Bianca na faculdade, você trabalhando...
Davi deixou escapar uma risada, ainda de boca cheia.
— Não é nada demais, só fico atrás de um balcão em um bar que ninguém vai, só o mesmo bêbado de sempre.
— Aquele que a esposa deixou ele? O...

— O Alceu, sim.
— Cara... Até hoje?
— Hoje em dia ele deve tá lá por causa de outra mulher, então... é melhor cuidar pra não ficar do memo jeito.
Os dois se entreolharam e riram espontaneamente, como costumavam fazer antes, abrindo espaço em seguida, para um silêncio acolhedor, onde ambos se refugiavam na nostalgia.
 



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