História Amores Furtados - Versão oficial - Capítulo 10


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Categorias Histórias Originais
Tags Romance Morro Traficante
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Palavras 2.744
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Literatura Feminina, Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 10 - Capítulo 8


Capítulo narrado por Isabela.

Rafael ficou imóvel com os olhos negros direcionados para o horizonte. –E que horizonte, essa com certeza é uma das mais belas paisagens que vi. O contraste de cores entre a classe nobre e a periferia, junto a imensidão oceânica banhando a cidade, enquanto o sol reluzia nas águas azuladas ocasionando ondulações alaranjadas. O Pão de açúcar e o Cristo Redentor dava o toque final como a cereja no bolo para a vista esplêndida.

—Não vai responder?

—Quer ir embora pra quê? Agora você tá aqui, geral vai te acolher de boa.

—Você ainda pergunta?! Eu já disse os motivos. Pra mim já deu, não faço questão e nem quero continuar aqui. Quando eu chegar em Minas juro que deposito o dinheiro na sua conta.

—Cara tu vai embora assim, do nada só por causa daquilo... Se o problema for aquele velho já tá resolvido.

—Só por causa daquilo... – Repeti ironizando a importância que ele deu para o ocorrido. –Resolvido como?

—Dei um jeito nele mais cedo.

—Você o matou?

—Por quê? Tu queria aquele merda vivo? –Perguntou com os olhos concentrados nos meus, buscando alguma resposta através da expressão abismada que fiz.

—Não. Por mim que ele queime no inferno!

Ele matou uma pessoa, sem passar duas vezes... Por mais que a morte daquele desgraçado não me incomode, – pelo contrário me alivia; – saber que Rafael pensou e agiu tão friamente me fez temê-lo.

Está acontecendo tudo tão repentinamente que chega a ser difícil processar, aceitar e lidar com os males que me afligem. Vir para o Rio foi um erro, eu poderia ter ido para a federal próxima a minha cidade natal, próximo aos meus pais e amigos, mas a ambição junto ao desejo de se aventurar com algo que não fosse mais do mesmo me induziu até aqui. Agora estou sofrendo as consequências de minhas tolas atitudes, ontem passei o restante da madrugada no hospital fazendo a droga daquele exame de corpo de delito para denunciar alguém que já havia me corrompido. Por causa daquele nojento serei obrigada a tomar coquetéis para DST's e antidepressivos por muitos dias. Sinto que meu corpo está sujo, que cada parte de mim foi contaminada pelos seus vestígios. Ficar aqui só irar piorar minha superação, eu vou fechar os olhos e antes de ver o que está na minha frente, irei lembrar apenas dele invadindo meu corpo, e por mais que o infeliz esteja morto, uma parte nojenta daquele monstro parece impregnada em mim. Acho que eu nunca vou conseguir me livrar dessa sensação ruim.

Tentava segurar as lágrimas nos meus olhos, mas elas foram mais fortes e saíram.

—Vai, ou não, me emprestar o dinheiro da passagem?

—Na moral, mudar de lugar não resolve teu problema. O que tu tá passando aqui, tu vai passar lá também! –Afirmou desviando os olhos dos meus, parecia que ele estava evitando ver minhas lágrimas rolarem.

—A diferença é que lá eu tenho família, pessoas que se importam de verdade comigo. Coisa que aqui não tem... Eu não tinha nada que ter saído de Sertãozinho!

—Se esse tal de Sertãozinho é tão bom porque que tu largou tudo e veio pra cá caralho?!

Respirei fundo e ignorei seu tom de acusação.

—Consegui uma bolsa de estudos, por isso vim.

Rafael arqueou as sobrancelhas.

—Bolsa de estudos... Pow legal, e tu estuda onde?

—Na UFRJ.

Ele abriu um sorriso sinuoso e me encarou com um ar de surpresa.

—E eu achando que você era só gostosa mermo. Tu deve ser muito inteligente, eu não manjo muito dessas coisas, mar qualquer um sabe que essa faculdade é a melhor aqui do Rio, tem nego se fodendo pra conseguir entrar lá. –Pensou um pouco e disse: -Eu que não vou te dar dinheiro pra tu largar tudo e ficar arrependida depois!

—Eu não vou me arrepender!

—Ah vai sim. Tá na tua cara! –Exclamou convicto.

—Por que se incomoda com o fato de eu estudar ou não? Por que quer tanto que eu fique aqui? Se admira tanto a minha faculdade estuda e faz a prova do ENEM que você vai entrar lá rapidinho!

—Tá me tirando, só pode!

—Ah é esqueci você não estuda porque com certeza deve ser muito mais fácil ganhar dinheiro como um bandido! –Afirmei sem pensar, ele estava me irritando, sonegando me emprestar o dinheiro para eu ir embora. Por que é tão complicado para ele entender que eu não quero mais ficar nesse lugar?

Rafael se levantou abrindo um sorriso cínico e maquiavélico.

—Cala a boca! Tu não sabe nada da minha caminhada! Você ainda tem sorte de ter encontrado um bandido pra te dar uma moral! Quer saber de uma coisa: Foda-se! Quer meter o pé? Vai! Só não vai ser com meu dinheiro, pra mim tu já deu o que tinha que dar!

Meu coração apertou quando ele me disse aquilo num tom de voz alterado. Fiquei com ódio, mas o pior é que ele tinha razão, e mesmo se não tivesse eu não poderia fazer nada para mudar a situação. Droga! Porque é que as coisas chegaram a esse ponto? Perguntei a mim mesma enquanto via ele se afastar e descer os degraus da laje pausadamente. Fiquei parada refletindo, me recordando do abraço dos meus pais e da época em que meu maior problema era um trabalho de escola atrasado.

Levantei-me da laje. Desci cada degrau como se tivesse indo rumo a um abismo, mas a verdade é que nos abismo eu já estava, tudo que eu queria era encontrar uma maneira de escapar dele.

Havia uma cadeira de balanço na varanda, Taquara estava lá balançando o corpo enquanto mexia no celular. Ao me ver ele questionou:

—Porra! Marreta desceu bolado, e agora tu desce chorando... Puta que pariu. Mar fala, pode se abrir aqui pro Taquara! –Ele abriu um sorriso espontâneo a minha direção.

—Ele deve achar que é fácil passar pelo o que passei, estando longe da família e ainda por cima morando de favor na casa de desconhecidos. Não é ofendendo... –Ele me interrompeu.

—Não. Tu tá certa, te entendo.

Prosseguir.

—Por mais que você e a Kel sejam legais comigo, eu sei que estou atrapalhando, já aconteceu uma vez, e eu não quero repetir o mesmo erro. Não vou incomodar vocês... Eu queria ir embora, mas eu pedi dinheiro emprestado pro seu amigo e ele disse que não. Ele quer que eu fique aqui pra sofrer mais! –Ofeguei secando as lágrimas que molharam as maçãs da minha bochecha.

—Não! Quê isso, não que eu queira que tu meta o pé do meu barraco... –ficou claro que era tudo que ele queria –mar ninguém é obrigado a ficar onde não quer. Marreta viaja... Quanto custa tua passagem? Trezentinho dá?

Meu coração vibrou junto a felicidade que se apoderou de mim.

—Claro que dá... É sério isso? Ah meu Deus nem acredito!

Troquei minha tristeza por um largo sorriso. Taquara elevou a mão no bolso da bermuda tectel estampada e tirou três notas de cem da carteira. Me veio uma vontade enorme de gritar e comemorar, mas me contive. Apanhei o dinheiro e o agradeci.

—Obrigada mesmo, nem sei o que dizer... Quer saber : Vou lá na cozinha despedir da Kel!

—Não! Tá maluca, a Kel não pode saber senão ela vai ficar bolada comigo. É melhor tu pegar teus bagulho e vazar logo, antes que a parada lombra pro nosso lado!

—Então tá... Mas, não se esqueça de agradecer ela por mim. Vocês são de mais! E agradece seu amigo também... Às vezes ele até que é legal.

—Pode ficar tranquila que eu vou passar a visão pra geral.

Sorri e fui para o quarto deles a qual passei a noite, apanhei minha mochila ao lado da cama que era tudo que eu tinha. Essas são as voltas da vida, eu cheguei aqui com duas malas e estou voltando apenas com uma mochila. Não resisti a abri e apanhei um de meus cadernos, eu tinha dois trabalhos para entregar e um dever pela metade. Droga! Eu não acredito que depois de horas sem dormir por causa dos estudos pra prestar o vestibular irei largar tudo assim, como se todo meu sacrifício tivesse sido em vão. Mas, é melhor eu não pensar mais sobre isso, vou passar uma borracha nessa página orelhada da minha vida, e vou seguir para as outras que serão bem escritas.

Coloquei a mochila nas costas e segui meu caminho.

[...]

Taquara só não havia me passado as instruções de como chegar lá em baixo, estava me sentindo perdida novamente, ao mesmo tempo em que em dúvida de qual dos becos entrar, eram tantos que mais parecia um labirinto inclinado. Eu também tinha medo daqueles caras subindo e descendo nas motos acelerados com um fuzil enorme pendurado em suas costas. Mesmo com o coração gelado de medo, continuei seguindo. Após quase uma hora caminhado entre becos e vielas, acabei entrando numa rua longa e mais movimentada do que as outras que passei, ali tive a certeza de que agora sim estava caminhado certo para a baixada. Havia alguns comércios, simples, mas todos ocupados. Senti um cheiro gostoso e desviei os olhos buscando a fragrância que me deixava com fome. E foi ali que me deparei com uma placa.

Precisa-se de auxiliar de cozinha.

Não sei por que me empolguei, eu estava indo embora... Dei dois passos para frente, mas acabei retornando. Do nada me passou um filme de todos os meus sonhos e expectativas, das minhas aulas na faculdade e principalmente de como lutei para chegar até aqui. Eu não queria continuar com uma garota traumatizada, –sei que sou muito mais que isso –me sinto na obrigação de superar aquela desgraça por mais que seja difícil.

Ao me adentrar pelo pequeno estabelecimento notei a humildade do pequeno restaurante, ali era simples, sua maior parte era ocupada por cadeiras e mesas de botecos forradas por panos floridos, não notei a presença de nenhum funcionário, por isso me aproximei do balcão e dei um grito para que eu pudesse ser ouvida nos fundos.

Uma mulher de aparentemente quarenta anos saiu ajeitando o coque marcado por alguns fios grisalhos. Seu rosto estava bem maquiado, mas não escondia algumas expressões da idade. Ela usava um vestido azul de algodão alcançando os joelhos, por cima uma avental acinzentado.

—Boa tarde! Estamos aberto, mas não atendemos nesse horário, a menos que seja para tomar uma gelada...

—Não... Não é isso. É que eu vi aquela placa de precisa-se de funcionários e acabei interessada. –Olhei dentro do negro de seus olhos.

—Ah sim. Você está interessada? –Perguntou com espanto. –Já trabalhou na cozinha alguma vez? Ou melhor, você sabe picar uma cebola pelo menos?

—Mas é claro! –Velha abusada. –Nunca trabalhei em restaurante, mas eu cozinho desde os dez anos de idade, então quanto a isso não tenho dificuldades!

—Isso é o que todas dizem... Olha só a cozinha de casa não é como a de um restaurante, aqui não é só por a mão na massa, trabalhamos com tempo cronometrado, temos que nos desdobrar em mais de um.

—Entendi.

Ela respirou fundo me encarando.

—Não costumamos abrir nesse horário, mas tem uma empreiteira ali embaixo que encomendou várias quentinha para o jantar. E bom... Como está só eu e dona Maria... –Ela ergueu as sobrancelhas. –Quer saber, vamos fazer um teste agora, eu gosto de ver funcionário é na correria. Se você não se importar é claro.

Arregalei os olhos e sorri para ela animada.

—Ótimo. É só falar o que tem que ser feito que eu faço!

Ela conferiu se o caixa estava realmente trancado e me acompanhou até a cozinha, onde me emprestou um aventou e uma toca. Nunca havia trabalhado num restaurante, mas não era nada anormal. Ajudei a senhora a picar os legumes, preparar as saladas, temperar e preparar algumas carnes, ao mesmo tempo em que lavava algumas imensas panelas. Depois iniciamos a montagem das quentinhas, montamos umas cinquenta. No final lavamos mais louça e limpamos o restaurante. Dona Alzira me pagou 40 reais pelo teste e eu fiquei imensamente feliz.

Estávamos fechando a loja, eram quase nove horas da noite, fiquei tão empolgada que mal vi o tempo passar.

—Você é muito boa, adorei suas dicas mineiras. Amanhã você pega as 7. Você mora onde mesmo?

—Onde eu moro? Ah meu Deus! Eu não sei. –Afirmei aflita.

—Como assim não sabe onde mora? –Ela sorriu junto a outra cozinheira.

—É difícil explicar. Eu estava indo embora quando vi a vaga... Ai droga! Estou literalmente sem casa.

As senhoras me olharam desconfiadas.

—Você conhece alguém aqui pelo menos? Como veio parar aqui?

—Eu tenho uns conhecidos... A Kel, o Marreta... –Disse logo o apelido para evitar que ele fosse confundido.

—Hum, amiga do Marreta. Ah sim, aquele menino é um amor né, sou amiga da mãe dele, vi ele crescer... e como ele cresceu. –Olhou com malícia para a velha ao lado e as duas sorriram. –Ele é um homão né, eu sempre gostei de negão, mas ele eu tenho vergonha, e respeito pela mãe que é minha amiga...

Meu Deus! Não acredito que ouvi isso, que velha oferecida.

—Mas já que você é amiga dele, então fica mais fácil. Eu tenho uma vila, nela tem 6 casas para alugar, sendo que no momento só tem duas disponíveis. Eu poderia até descontar o aluguel no seu salário, mas eu realmente preciso de um depósito primeiro. Como garantia.

Estava bom de mais para ser verdade.

—Qual o valor do aluguel?

—250. A quitinete é simples, mas é arrumadinha se quiser...

Pensei por um segundo e me lembrei do dinheiro que Taquara havia me emprestado para eu ir embora. Quer saber acho que vou alugar essa quitinete, isso deve ser um sinal que as coisas estão caminhando para melhorarem.

[...]

Paguei dona Alzira. Ela me acompanhou até um beco amontoado de barracos. Todos eles simples, com poucos cômodos e uma varanda. O quintal era compartilhado para 6 casas o que somava até onde notei mais de dez pessoas, não me sentir inferior por não ter nada, até porque a maioria deles também não tinha quase nada, e quando tinha era móveis e eletrodomésticos humildes.

—Então é isso Isabela. Eu posso descontar o aluguel no seu salário, se tudo der certo. E móveis... Bom, vou ver se tenho algumas coisas para te dar... Mas enquanto isso toma essa manta para você não dormir nesse chão de piso frio. –Ela disse me estendendo um edredom.

Me veio uma vontade imensa de chorar. O gesto simples dessa senhora me fez ter a certeza que ela era uma pessoa maravilhosa, diferente de algumas que conheci até agora.

—Obrigada... A senhora nem sabe o quanto tá me ajudando.

—Quê isso menina, fica tranquila, aqui na vila só tem gente boa! –Sorriu ao dizer.

—Se forem todos como a senhora estou feita! –Disse enquanto a acompanhava até o simples portão de madeira.

Ela sorriu. Nós estávamos prestes a abrir o portão, quando o mesmo foi aberto antes.

Fiquei sem reação, não soube o que dizer quando o vi com uma mulher, ainda mais linda daquele jeito. Loira, olhos verdes, traços finos, corpo definido, parecia até uma modelo. Minha respiração ficou irregular enquanto eu não tirava os olhos do seu braço contornando o ombro dela.

—Marreta! Tudo bem menino, olha só quem encontrei: sua amiga! –Dona Alzira disse me deixando ainda mais envergonhada.

Ele ficou desajeitado, passou os olhos por mim rapidamente, –até porque ele iria me olhar com uma mulher daquela ao lado? –e os desviou para a senhora.

—Fala tia! Como é que a senhora tá?! –Ele mau terminou de finalizar a pergunta quando dona Alzira pulou nele envolvendo-o em um forte abraço. A loira ao lado não gostou, ficou aparentemente enciumada e com cara de deboche. –Isabela... Taquara me passou a visão que tu tinha metido o pé! Deu meia volta no meio do caminho?! –Perguntou me olhando ironicamente.

—Não é da sua conta. Boa noite dona Alzira, até amanhã. –Dei de ombros e fiquei me perguntando como aquele otário tinha coragem de falar comigo com aquela mulher escrota do lado.

—Ei psiu! Presta atenção de como tu fala com meu nego garota! Porque diferente de você ele não é qualquer um! –Disse num tom sarcástico. Eu não a conhecia direito, só sei que não gostei dela. Nosso santo não bateu e pronto.

—Ah mas é sim. Um qualquer um, ao lado de qualquer uma!

Saí dali nervosa sentindo um nó se formando dentro do meu peito. Como assim ele tinha namorada? Pensei que fosse solteiro... De qualquer forma aqueles dois não são da minha conta.

Entrei na quitinete, tranquei todas as janelas e fiz questão de permanecer com a luz acesa. Joguei o edredom que dona Alzira me deu no chão e me deitei sob ele com a expectativa de dormir. Mas aquela posição me trazia lembranças de coisas ruins, por isso dormir sentada encostada na parede sentindo uma aflição horrível me invadir.




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