História Amores Furtados - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Romance Morro Traficante
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Palavras 2.200
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Literatura Feminina, Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Prólogo


Fanfic / Fanfiction Amores Furtados - Capítulo 2 - Prólogo


Capítulo narrado por Marreta

Três anos antes

Seria apenas mais uma tarde ensolarada como qualquer outra por aqui no morro do Chapadão, se não estivéssemos em meio ao fogo cruzado planejado pelo Bope e centenas de homens do exército carregados até os dentes com altas munições.

O helicóptero que sobrevoava a área fazia com que as rajadas de bala caíssem mais do que chuva sob nós. O bagulho era foda, os tiros, os gritos a dor e o desespero de ver seus parceiros, amigos, moradores inocentes caindo bem diante dos seus olhos, e eu ali incapaz de contê-los… Me sentia como um nada, definitivamente o resto de um lixo!

Entre os becos, vielas, e estreitas escadarias marcadas por pichações com a sigla do Comando Vermelho, vagabundo corria enquanto seus fuzis - Alguns com o cartucho de balas esgotado pelo confronto. –chacoalhavam nas costas suadas.

—Porra Marreta onde tu tá?! Vaza daí caralho os verme tá subindo que nem trem bala! Mete o pé! –Segurei firme o rádio enquanto ouvia os suplícios de um fechamento meu, Bira.

—Não fode caralho! Meu tio tá lá embaixo cumprindo a missão dele cuzão! E você tá aí cagando pros vermes... –Bira me interrompeu angustiado, o traço de sua fadiga ecoava além da linha.

—Larga de ser otário! Como é que nóis vai bater de frente com caveirão, helicóptero a porra toda querendo foder com nóis e tu acha mermo que uma .40 vai virar Jesus Cristo e fazer um milagre? –Disparou um grito eufórico.

Na moral: ele tinha razão. Mas minha ideia não era bater de frente com aqueles desgraçados, muito menos dar um de suicida. Meu único objetivo era saber onde estava meu tio. O rádio dele não fazia contato a mais de meia hora, minha mente estava conturbada, não pensava em nada, senão no pior.

Ignorei as chamadas daquele merda, e, mesmo exausto permaneci saltando os degraus da escada de cimento coberto por resto de lodos ocasionados pelas chuvas cotidianas até alcançar a entrada de uma viela que fazia ligação com a rua 16. O peso do cano que manuseava em meus braços, fazia com que eles sofressem arduamente pela fadiga, ainda mais quando empunhava o fuzil para cima como uma forma de prevenção para qualquer cilada que os vermes ou até mesmo essa droga de destino bolasse contra mim.

Enquanto corria contra o temor e o desespero uma bala passou raspando, assoprando por detrás da minha nuca, atingindo em cheio uma parede sem reboco com os tijolos velhos expostos. Os pelos, banhado pelo meu suor da minha pele se arrepiaram por todo meu corpo. Se eu não fosse preto, podia jurar que cheguei a ficar branco de tanto medo.

Deus me livrou, mais uma vez, ele me livrou...

Os impactos das rajadas aéreas atingiam, faziam estrago por cada canto da favela. Nesse momento o único barulho em que podia se ouvir era o dos tiros dos vermes botando o terror, provocando choros, clamores ao mesmo tempo em que tirava a vida de inocentes e a esperança de um futuro para os sobreviventes daquela tarde.

O medo de uma desgraça ter acontecido com meu tio me corroía, causava um devaneio tremendo em meus pensamentos. O alvo ali era ele, sua cabeça valia mais de 50 conto na lista negra dos canas. Com certeza os vermes não iriam descansar até estourar seus miolos na bala, disso ele estava ciente, é o preço a se pagar quando se é dono de um morro como esse. Mas não vou negar que eu também temia morrer ali e deixar desamparada minha família.

Elas só tinham a mim e ao meu tio, se um de nóis rodar como é que minha mãe e irmã vão continuar?

Meus olhos buscavam uma brecha em cada ponto estreito da viela. Entre meio a correria vi alguns soldados da boca, que assim como eu buscavam por alguém, ou tinha a esperança de recuperar uma parte da porrada de droga que estavam distribuída por vários barracos que serviam como bocas ali. Senti meu coração ser apunhalado quando vi dois canas com o cano empunhado para um dos seguranças. Quando assenti a toda adrenalina pude reparar que aquele cara que estava sob a mira do fuzil do verme, não se tratava apenas de um dos soldadinhos de meu tio, como eu. E sim do meu mano, Taquara o moleque que cresceu e sempre fechou comigo por toda a vida.

Ele e outros quatro estavam escorados por debaixo de uma escadinha que dava acesso a laje de um barraco. Não, eles não conseguiam ver que estava sob a marcação daqueles filhos da puta, e caso eu passasse o rádio os canas iriam se dar conta. Ou seja se eu não botasse pra foder naquela porra todos eles iria rodar feio na minha frente.

Entre a cruzilhada do beco mirei e disparei na direção de um deles. O corpo trêmulo e compulsivo caiu drasticamente sob meus parceiros.

Eu gritei, passando a visão.

Meus parceiros entenderam bem a da parada. Taquara não esperou, direcionou para cima o fuzil e disparou incessantemente sob a laje, os parceiros ao lado, assim como eu fizeram o mesmo. Claro que a porra dos vermes responderam a mesma altura, dispararam contra nós iniciando um troca-troca neurótico, fazendo com que dois dos que colavam com nóis fossem arrebentados de bala no peito.

Sair correndo dominado pela adrenalina, lutando pela vida enquanto via sendo um alvo fácil dos desgraçados que brotavam mais do que mato atrás de nós. Taquara também corria com o fuzil em mãos bem atrás de mim.

—Caralho Marreta, vamo meter o pé daqui. Sá porra tá lombrada! –Gritou com a voz cansada.

—A intenção é essa mermão. Mas primeiro eu tenho que tá ciente de onde o Chocolate se enfiou. Aquela porra não responde, não passa a visão de nada!

—Ele que não é bobo e nem nada. Deve ter feito que nem os outros donos: vazado daqui a muito tempo! Só tá sobrando nóis de bobeira!

O suor quente escorria através da minha pele, meus batimentos cardíacos se aceleravam gradativamente não só pela adrenalina e cansaço, mas pela pressão de estar na mira do exército, de helicópteros metendo bala, de caveirões nos caçando como um gato a procura de um rato. Estávamos em total desvantagem.

Minhas pernas vez ou outra erravam a troca de passos de tanto cansaço, a tonteira também rodava pela minha cabeça quando novamente ouvir meu rádio apitar.

—Fala!

—Teu tio tá na boca da 26 desesperado. Os cara já fizeram de tudo pra tentar tirar ele de lá, mas o cara parece que tá pirado!

—Valeu. Tô colando lá!

Respirei fundo contendo toda minha ansiedade. Senão fôssemos acertados por uma rajada até lá, no ritmo em que estávamos chegaríamos em uns 10 minutos.

A cada passo sentia calabrear minhas pernas, no lugar das palavras só saíam ofegos acompanhado pelo estufar e murchar de meu peito.

A casa de dois andares entregava a humildade pela exposição dos tijolos e pichações escrotas espalhadas pela porta da entrada, assim como as janelas de madeira semi-rachadas, algumas até faltando pedaços. Os tiros continuavam ecoando por toda área, aquele quarteirão parecia um deserto em ruínas de tão vazio, não havia ninguém ali dentro com exceção do meu tio.

Não foi difícil arrombar a porta escorada por um sofá podre de velho. Assim que adentrei ergui o fuzil, engatilhei e o mirei buscando alguma vacilação.

—Chocolate? –Perguntei cansado.

—Tá fazendo o quê aqui moleque?! –Sua voz ecoou de um cômodo próximo. Incrível que por mais que os anos se passassem ele continuava me tratando da mesma maneira: como moleque.

Taquara e eu atravessamos a sala suja, com móveis caindo aos pedaços –Parecia ter passado um furacão por ali. –e seguimos para um cômodo estreito repleto de sacos transparentes, armas de pequeno porte largada pelo chão e uma pequena balança de precisão.

Meu tio estava eufórico, desconcertado ensacando feito louco várias pedras de crack. Ele estava de costas e sem camisa, sua pele era tão negra que suas tatuagens chegavam a ser imperceptíveis.

—Porra Chocolate! Tu tá maluco caralho, tem verme pra todo lado e tu tá aqui ensacando esses bagulho?! Larga disso vamo sumir na área!

—Não. –Afirmou rude enquanto virava a cabeça de maneira brusca que nem um possuído endemoniado.

—Tu vai vim agora! Se não vier...

—Se não vier o quê moleque? –Seu grito ecoou por cada cômodo do barraco.

—Eu vou meter bala! Que palhaçada é essa?! Se tu for pego tu não vai pro xadrez, tu morre porra!

Tio Chocolate abriu um sorriso sarcástico.

—Se eu não morrer pelos vermes eu rodo na mão do Coroa! Tu sabe que ele não perdoa quem deve, imagina só o que o velho vai dizer quando descobrir que eu perdi mais de uma tonelada de pasta base praqueles filho da puta?! Não garra comigo não moleque, minha morte é certeira!

—Cala a boca otário! –Gritei como um desabafo, eu queria discordar, dizer que ele estava errado, mas não fui capaz. Chocolate era como um pai para mim, ele me ensinou tudo, me ensinou a viver nesse inferno, eu não podia deixar ele morrer assim, sem mover um dedo.

—Marreta, Chocolate tá certo caralho. Já era!

—Não! –Me impus. Os olhos do meu tio vieram de encontro com o meu.

O semblante de acusação e preocupação era demonstrado pelo movimento de seu bigode grosso.

Fomos surpreendidos quando estalos e arranque de fuzis se alastraram por toda volta do barraco.

—Porra! Agora tu vai rodar porque deu essa bobeira de vir atrás de mim. Foge caralho, mete o pé, vaza daqui moleque!

—Tu também porra! Bora meter o pé! –Dei um grito ensurdecedor.

Meu tio respirou fundo fanzido a testa suada. Ele apanhou o fuzil ali jogado expressando má vontade.  Chocolate se culpava por não ter pago a porra do arrego para os vermes, ele já estava cheio disso, cansado dessa vida medíocre de viver rodeado pelos bicos, e pelo perigo. Para ele morrer seria mais conveniente do que aturar Coroa enchendo o saco, olho grande dos alemão e os canas com aporrinhação.

Ele me deu ouvidos ao se dar conta de que

o bagulho estava ficando cada vez mais lombrado.

Com as respirações fadigadas eu, ele e meu parceiro corríamos desesperados, subindo as escadas saltitando os degraus enquanto os vermes miravam com astúcia em nossas canelas. Alcançamos o segundo andar persistindo firmes enquanto meu tio nos guiava para a escada exposta e sem corrimões fora do barraco que nos dava acesso a laje. Os vermes não cessavam, as balas cruzavam por todas direções.

Eram três de nóis contra dez dos vermes.

Eu tentava transmitir todo meu medo para o fuzil que carregava, com ele me sentia seguro, protegido. E sem ele eu me sentia como apenas

mais um preto fodido.

Na laje cheguei com meu coração palpitando, meus batimentos cardíacos eram fortes que eu tinha a sensação de que a qualquer instante meu coração seria dolorosamente arrancado do meu peito. Encarei meu tio e Taquara, ambos estava no mesmo estado em que eu: exaustos.

Nossos corpos encharcados pelo suor ardente foram refrescados pelos movimentos contínuos das hélices do helicóptero que se reclinava a nós. A nave acima da minha cabeça me deixou ainda mais atordoado. Mirei o fuzil, meu braços tremiam enquanto o pente era descarregado na direção deles.

—Mano, nóis cumpriu nossa missão... Acabou pra nóis... –Taquara gritou competindo sua voz rouca com o barulho do ranger das hélices.

Não dava para bater de frente com os desgraçados daqueles vermes. Nos separamos desfocando a mira da nave que botava pressão. Os tiros vindos de cima disparavam com fúria sob nossas cabeças.

Um rugido de dor sobressaiu diante de todos os ruídos.

Era meu tio… Dobrando os joelhos, indo de encontro ao chão com a  mão coberta pelo líquido viscoso avermelhado que a cada segundo atingia uma maior proporção.

—Chocolate! Não…

Meu grito saiu fraco, rouco. Minhas pálpebras brigava com minha dor para que eu não deixasse escapar uma lágrima… Meu mundo estava caindo, meu peito e o corpo todo bambearam quando vi diante dos meus olhos o homem que considerei como pai sofrendo, agonizando ao meu lado…

Vermes desgraçados!

—Na cozinha do barraco ali na frente... Tem um bueiro... –Ele ofegou com dor. –Que liga até no esgoto do morro... Dali tu segue... Agora é tua vez, vê se faz direito mo le que... –Suas últimas palavras saíram pausadamente. Seus joelhos, seu corpo enfraqueceu e desfaleceu, indo de encontro ao chão.

Uma vontade insana de correr contra o tempo só para chegar nele e passar a visão do quanto ele foi importante para mim me impulsionou. Mas fomos cercados pelos canas.

Taquara veio correndo desesperado, com os olhos arregalados quase saltando para fora. Num impulso jogou seu corpo contra o meu. Em segundos estávamos atravessando a porra do telhado que feriu meu abdômen e minha cara.

—Tu pegou a visão porra?! O bueiro caralho! O bueiro!

Dentro do barraco imundo nos levantamos sob os cacos de telha estraçalhados. Era tanta dor que eu mal sentia meu corpo, ainda havia pedaços dos destroços cravados em minha pele, mas sem dúvidas a dor maior era saber que meu tio morreu bem na minha frente…

Taquara estava na mesma situação em que eu: acabado e cansado. Mas nos empenhamos em procurar a cozinha do barraco. O bueiro era estreito e muito fedorento. Tinha que entrar um por um naquela porra. E assim fizemos.

O bueiro era como o portal para uma nova vida.

Que seja o que Deus quiser, Ele com nóis sempre.




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