1. Spirit Fanfics >
  2. Amostra Humana. >
  3. Até Breve.

História Amostra Humana. - Capítulo 37


Escrita por: Korrah

Notas do Autor


No último capítulo:
Após se despedir de Tights e amigos, o grupo se foca na partida para Ludo.


BOA LEITURA

Capítulo 37 - Até Breve.



Pela primeira vez Bulma não contou o tempo.

Isso era um tanto incomum de sua parte, mas o detalhe pareceu pequeno demais para ser considerado importante. Após se despedir da irmã e embarcar em direção ao incerto, não poderia estar mais melancólica e presa em devaneios. Era normal estar insegura, havia coisa demais à sua volta a deixando nervosa e pressionada, mas particularmente não achou que a sensação de vazio interior se estenderia tanto depois da partida. Parecia tolice, afinal, estava em um momento crucial de sua jornada aonde precisaria reunir toda a coragem e força interior que tinha para sobreviver.
Então, mesmo ciente de tudo isso, por que continuava a se sentir no vácuo?

Finalmente a fisgada do adesivo de microfibra unindo o corte em sua pele a fez arquear as sobrancelhas em dor.

Kakaroto colou as bordas em sentidos opostos e esfregou-as com suavidade com os dedos, fazendo-as se camuflar na pele alva da terráquea. Podia-se dizer que Bulma estava passando por um "procedimento" aquele instante. Como debatido antes, por não saber à que distância ficaria do grupo nas colônias em Ludo, Kakaroto achou que seria melhor implantar um chip subcutâneo no pulso da terráquea para sempre terem uma localização precisa dela. Enfim, os restos da pulseira localizadora que construíra para ela tempos atrás foram úteis.

- Esse curativo vai esconder e tratar o corte. - avisou, terminando o trabalho. - Mesmo que coloquem as pulseiras em você, não vão rastrear o chip em seu pulso.

A moça observou a discreta linha avermelhada do corte, saliente na pele. Em algumas horas estaria imperceptível, então não fez questão de dar tanta atenção.

- E quanto ao cabelo? Como e com o que devo cobrir o azul? - perguntou por perguntar, enquanto Kakaroto esterilizava seu equipamento. - Preciso de alguma tintura que dure...

A maneira que o rapaz manipulava energia entre os dedos parar realizar a limpeza em seu material fazia a ação parecer simples, observou Bulma. Mas rapidamente ele fez uma negação.

- A cor do seu cabelo deveria ser a última das suas preocupações.

Isso era verdade. A terráquea balançou as pernas ao alto do balcão, ciente de que não poderia fugir da realidade aquele instante.

- Lemo disse que devo estar preparada para presenciar qualquer tipo coisa, mas eu simplesmente não consigo enxergar todas as dimensões dessas "coisas".
- Você já matou alguém Bulma?

E a pergunta de Kakaroto a pegou de surpresa.
Bem... aí estava algo que ela vinha enxergando e ignorando. Coçou a nuca, desconfortável.

- ... não. - disse baixo. - Já estive em algumas situações onde matar parecia uma boa saída, mas... nunca cheguei a esse extremo. Pelo menos não com minhas próprias mãos.
 

Vegeta já havia cometido assassinato muitas vezes em sua frente quando necessário.
Eram memórias amargas, mas supôs que para ele era melhor dar um fim a problemas do que dar mais oportunidades a inimigos que continuariam o caçando.
Talvez ele estivesse certo, concordou desgostosa.

- E por que não? Sei que já teve vários motivos para isso.
- Porque... não acho que tenho o direito de tirar uma vida. Com motivos ou não. - foi sincera. - Não parece certo.
- Não importa se é certo. - e o rapaz fez uma negação.

Isso a fez exclamar. Kakaroto deveria entender seu posicionamento.
O homem já havia ceifado vidas quando precisou, mas ele mesmo havia deixado a mercenária que os perseguia escapar mais de uma vez. Ela devia usar os "por quê" ali.

- Matar não é algo que faz parte da minha natureza.
- As vezes você tem de tomar atitudes que não quer porque precisa. - e Kakaroto cortou a fala dela de novo - Em Ludo, vai precisar fazer de tudo para sair viva. Você ao menos compreende a dimensão disso?

Bulma suspirou pesarosa, fugindo de uma resposta.
Realmente não queria ter de manchar suas mãos de sangue…

O silêncio que se seguiu não foi amigável. Kakaroto terminou de guardar seu material, o colocando em seu lugar de costume. Ela mordeu o polegar, descendo da bancada pronta para encontrar seu rumo. Agora que não tinha mais Pixel, não poderia sequer procurar consolo na presença de qualquer criatura viva para se distrair.

- Spray de óleo. - mas Kakaroto a deteve no último instante.

Bulma o fitou, agora cheia de interrogações.

- Tem um óleo para motor em spray aqui. É escuro e mancha a pele por dias. - falou - Imagino que vá durar no seu cabelo se evitar molhá-lo.

A garota acenou, entendendo ao que o homem se referia.

- Então passo assim que chegarmos em Gilease.

O destino estava próximo.
Logo, seus belos cabelos azuis se tornariam negros.


(...)



A temperatura úmida e nublada de Gilease pareceu o paraíso para o grupo depois da longa estadia nos dois últimos planetas, gelados e praticamente inóspitos.
O calor - mesmo em pouca quantidade - fez falta.

Bulma conseguiu visualizar o céu cinzento através do retrovisor da nave assim que subiu o loft. Apesar do clima não ser dos melhores, ficou aliviada ao não encontrar neve. Diziam que Ludo era um planeta quente então supôs que os planetas à partir dali também seriam mais temperamentais. Sentou-se na poltrona de co-piloto, observando Vegeta de soslaio. Ele também parecia concentrado na vista, sem demonstrar incômodos com sua presença.
Enfim ela começara a ser aceita em um dos espaços sagrados do príncipe?
Era bom demais para ser verdade.

As sobrancelhas grossas dele sempre estavam cerradas e tensas, há um nível em que o fazia possuir linhas suaves de expressão naquelas áreas. Não sabia se ele fazia ou tinha barba, mas a pele de seu rosto sempre estava lisa e impecável e os olhos negros, super penetrantes, eram impossíveis de serem decifrados. Provavelmente, pensou ela, ele não fazia ideia do quanto era bonito...

"Está se apaixonando por ele.", a voz de Tights veio como uma flecha para assombrá-la. Se remexeu com o coração saltando, deixando os braços repousarem sobre o encosto da poltrona com o incômodo.

- Está estranhamente calada esta manhã. - enfim ele abriu a boca, sem tirar os olhos do visor. - Por acaso está treinando para ser uma boa serva? Soube que arrancam sua língua se falar demais durante as reuniões da religião ludiana.
- Acabou de inventar isso. - e não se convenceu, apoiando uma das mãos no queixo.
- Também gostam de fazer sacrifícios. Especialmente com terráqueos.
 

Quando finalmente foi fitada ela fez questão de rolar os olhos para ele.

- Que piadista incurável você é. Posso saber o que te faz se sentir de tão bom humor hoje?

Sentir energia, obviamente.
Atingir objetivos despertava os melhores lados daquele príncipe obcecado, logo, atípico a seu humor de costume. Mas como ninguém sabia de sua conquista ainda, preferiu continuar guardando para si por ora. É verdade que ainda tinha planos de estudar mais a tal energia oculta de Kakaroto e não queria ser descoberto por ele logo de início.
Enfim, a respondeu:

- Sua partida, é claro. Ter férias de você seria ótimo. - a provocou um pouco. - Ao menos não vou ter alguém me importunando três vezes ao dia sempre que se esquecer como se pousa a nave.

Contudo, ficou nítido que ela não gostou da resposta.

- Eu é quem deveria comemorar. - fungou rancorosa. - As vezes esqueço que consegue ser insuportável.

Minutos antes desfrutava de sua beleza e agora queria esganá-lo. Como poderia cogitar a possibilidade absurda de ter sentimentos por aquele homem? Se ao menos ele fosse um pouco mais gentil…
Ela devia estar sofrendo de Estocolmo, não era possível!

E justamente por não saber que era lida por ele tão facilmente aquele instante, não conseguiu prever os seguintes questionamentos de Vegeta.

- Está desgostosa e cabisbaixa, o que é estranho para quem finalmente está à caminho de realizar sua maior obsessão. - disse, deixando seu lado sarcástico de fora um instante, notando-a aborrecida demais pela simples afronta. - Não me diga que está com medo de Ludo...

E ouvir aquilo foi o suficiente para lascar a parede de gelo que Bulma havia criado por conta própria quando sentiu-se irritada com as implicações. Ele nunca falava nada sobre como ela se sentia, então imaginou que não deveria desperdiçar o momento de curiosidade do homem na pequena demonstração de que prestava atenção nela.

- Acho que um pouco de tudo. Medo de Ludo, saudades e receios sobre a jornada de minha irmã.- foi sincera. - Ninguém fica ansioso ao ser vendido como um escravo. Eu nem consigo prever o que vai acontecer comigo depois daqui…

A morte, a fome, o assedio, a doença, a falha do plano... havia literalmente uma infinidade de desgraças que poderiam arruiná-la. Cerrou um dos punhos, tensa.

- Eu nem sei se esses falsos namekuseijins vão ser de ajuda e cumprirão com sua palavra de me transportar. Tenho certeza que se encostarem em mim, mesmo que por acidente, já saberão minha verdadeira identidade e mudarão os planos por conta.

Era um plano com menos de cinquenta porcento de chances de sucesso. Tights foi clara quanto a isso, ela sabia.

-E mesmo que faça tudo certo até o fim, ainda corro o risco de ser desmembrada por aquelas pulseiras no mínimo deslize...

Sentia que seria destruída e remontada quantas vezes fosse preciso naquela terra amaldiçoada. Mas...

- Eu não pretendo fraquejar agora, antes que duvide. Porém... - coçou a nuca, tensa. - Deus, é óbvio que estou nervosa!

Seu desejo de prosseguir era inacreditável. Saber que havia ido tão longe era uma boa motivação para persistir, mesmo que fosse um erro.

- Eu não duvido. - e foi surpreendida por ele de novo.

A segurança na voz dele a desestabilizou um segundo.
Voltou a pressionar a lateral da poltrona, em nervosismo.

- Quem me dera poder te irritar agora, já provou muitas vezes que é focada ao cumprir seus objetivos. - soou sereno. - Na verdade me surpreende ver que está desesperada...


Algo pareceu se comprimir no peito de Bulma.

Ele estava sendo legal por que a possibilidade de nunca mais se verem existia?

Quase não o reconheceu em meio à palpitação. Ele nunca diria algo assim meses antes.
Por um instante, um desejo bobo de se mostrar próxima a preencheu. Principalmente quando achou que era a hora ideal de falar sobre a incerta vida depois de Ludo, aonde reforçaria que iria continuar a seguir viagem com ele mesmo que recuperasse seu pai.
Afinal, sempre foi o que ele quis ouvir.

- O que...? - mas Vegeta a interrompeu antes que dissesse qualquer palavra, como se algo repentino chamasse toda a sua atenção.

Bulma abriu a boca para questioná-lo, finalmente surpreendida por aquele solavanco súbito, indicando que estavam sendo alvejados por alguma coisa na traseira da nave. Prontamente o alarme do escudo se ativou enquanto as luzes vermelhas do painel de controle aumentaram. Não haviam sofrido danos severos, mas definitivamente estavam sendo atacados.

- Porra! - o saiyajin mais velho grunhiu, prendendo-se ao cinto da poltrona antes de tentar ter visão do que poderia estar os atacando pelas câmeras vigias de trás do aeromodelo.

Bulma desconjurou, repetindo os movimentos do saiyajin.
Não fazia sentido, ninguém jamais poderia imaginar que eles estariam à caminho de Ludo!
Em segundos Kakaroto surgiu correndo pelas escadas do loft, se segurando após uma investida de Vegeta de desviar de outro tiro.

- O que está acontecendo agora?! - o traço de impaciência em sua voz era notável.

Pelos deuses, era como se eles nunca pudessem ter paz por muito tempo!
As câmeras vigias conseguiram capturar uma imagem nítida da nave inimiga. O modelo era definitivamente diferente dos demais que já havia os perseguido, mas o piloto…
Logo Vegeta bufou, vendo o rosto da mercenária de olhos puxados que vivia os perseguindo.
- Como essa desgraçada nos achou?!

Enfim Bulma conseguiu visualizar o rosto da mulher que estava sempre em seus encalços. Uma mulher de traços orientais.
Graças a infinidade de espécies espalhadas pelo universo Bulma não desconsiderou a possibilidade de ser apenas uma coincidência, afinal, humanos e saiyajins eram muito similares por exemplo; Contudo, ainda assim o coração não deixou de palpitar ao pensar que podia estar diante de outra terráquea.

-... ela deve ter colocado um rastreador na nave. - foi a coisa mais sensata que Kakaroto conseguiu pensar, logo, esfregando a nuca. - Ah... isso era meio óbvio, devíamos ter sido mais cuidadosos ao lidar com ela.
- Cuidadosos? - e Vegeta repetiu, desviando de mais lasers. - Se você tivesse culhões para se livrar dela isso já estaria resolvido! - e surtou.

É verdade que as oportunidades não haviam faltado.

- Fale por você! - o rapaz rangeu os dentes. - Foi a última pessoa a bater de frente com ela e mesmo assim não conseguiu matá-la.
- A prioridade era outra! - e o fuzilou com o canto dos olhos. - Ou eu a matava ou conseguia um rebocador... no entanto, em seus encontros você apenas fraquejou. Como sempre.

A provocação deixou Kakaroto louco. Principalmente quando Bulma olhou para ele e o fez recordar da conversa que tiveram mais cedo. Cerrou os olhos e se distanciou em negação.

- Certo. Vou dar um fim à isso. - avisou, com a voz rouca.

A moça de cabelos azuis acompanhou o rapaz com os olhos, cheia de interrogações.



Quando a rampa de saída da nave dos saiyajins foragidos se abriu ainda em movimento, Chichi enfim parou de atirar, para ter visão da frente e estar atenta a possíveis emboscadas.
Aquele que chamavam de Kakaroto saltou, indo em sua direção.
E não só isso... a energia culminada em suas mãos indicava que ele tinha planos de parar sua nave de uma vez por todas.

A rajada veio com tudo.
Depressa aumentou sua altitude bruscamente, sentindo a energia raspar a carcaça de seu aeromodelo. Os projetos de Slump eram sempre de qualidade e a nave suportou o impacto bem, mas mesmo assim faíscas escaparam do painel de controle. Aquele saiyajin quase acertou o motor...
Se enfureceu ao supor que não teria chances de lidar com aquele homem macaco numa espaçonave em campo aberto, ele claramente estaria em vantagem. Foi por isso que não hesitou na hora de acelerar, indo de encontro até o teto da nave grande deles.

Isso desestabilizou o voo de Kakaroto, surpreso com a atitude incomum da mercenária.
Vegeta passou a atirar pela traseira, mas ela também era uma boa piloto. Parecia experiente ao lidar com modelos pequenos.

"O que está planejando?!", a mente de Bulma gritou, quando sentiram o peso da nave dela sobre a sua.

Daquele ângulo a visão que ela e Vegeta tinham do teto era limitada, então dependiam muito de Kakaroto. O príncipe acelerou, para impedi-la de acoplar.
E mais um vez, ela os pegou de surpresa.

A última coisa que o casal no painel de controle conseguiu ver foi a mercenária se ejetando de sua nave, e no curto período em que esteve do lado de fora, a comprimiu numa cápsula para guardá-la.

Bulma se ergueu de sua poltrona bruscamente de um segundo para o outro, desconcentrando à Vegeta. A maneira como correu pelas escadarias do loft o deixou intrigado, principalmente porque ela parecia determinada à alcançar aquela estranha mulher.
Bem, a Briefs tinha um motivo em especial.
Aquela cápsula só podia ser uma da corporação cápsula.
Aonde a asiática poderia ter a conseguido se apenas o império tinha as versões originais?



Chichi se equilibrou em um dos puxadores do teto da nave inimiga, concentrada em não cair. Se não conseguisse ativar seu equipamento de voo certamente morreria se caísse daquela altura. A floresta arroxeada lá embaixo não era nem um pouco atrativa. E mesmo concentrada em manter o foco em todas essas coisas simultaneamente, ela ainda era uma mera humana. Simplesmente não conseguiu mais enxergar Kakaroto depois de seu pouso forçado.
De onde ele surgiria? Pelos lados? Pela frente? Por cima?




Bulma conseguiu chegar até a rampa aberta se segurando entre os apoios laterais da mesma. A velocidade e a altura em que estavam a deu calafrios, principalmente quando o vento forte passou a desgovernar seus curtos cabelos azuis. Definitivamente não seria prudente se tentasse escalar até o teto da nave, mas chegou perto de fazer isso só para poder ter contato com a asiática, sem se importar se delataria sua existência.
Era como se aquela faísca puramente instintiva dentro de seu coração estivesse perto de se incendiar, como se dependesse disso para continuar viva, exatamente como havia se sentido antes de encontrar Tights. Definitivamente a sensação queria a dizer algo.



O raciocínio de Chichi foi instantâneo.
Por trás! O saiyajin só poderia aparecer por trás para atacá-la!
Bastou um segundo, Kakaroto já estava lá, pronto para empurrá-la e tirá-la do alcance da nave. Agiu rápida. Virou de frente e se protegeu do impacto, usando parte da força daquele empurrão para se deslocar de propósito. Felizmente, teve tempo de ativar seu equipamento…
E quando Chichi deslizou pela rampa de saída, rolando propositalmente para alçar voo e tomar distância do saiyajin irritado, ela finalmente pode visualizar Bulma pela primeira vez, a pegando de surpresa. Enfim, a identidade do terceiro comparsa dos fugitivos...

O tempo pareceu parar.

Foi um choque. Ambas as mulheres pareceram perplexas com a vista da outra.
Desde o início Bulma só tinha uma questão, mas aquela hora, nem isso conseguiu fazer completamente paralisada. Não imaginou que aquela mulher iria direto para si.
E Chichi, esta estava mais inebriada com uma única observação. O cabelo azul.
A característica distinta que só poderia pertencer à uma pessoa naquela realidade caótica perseguindo à todos os presentes: Uma Briefs.
Seu coração pareceu parar, num misto de apavoramento e tristeza.
A existência daquela garota mudava tudo. Principalmente seu destino.

- Você... - foi tudo o que a asiática conseguiu proferir, trêmula.

Enfim uma abertura.
Kakaroto derrubou Chichi num piscar de olhos, quase como se tivesse se teletransportado. A agarrou, caindo junto dela na imensidão que havia lá embaixo. Bulma precisou se segurar com força para não ir junto.

- Ugh. - Chichi arfou com a colisão, sentindo as costelas doerem.

Enquanto caía, tudo rodava a deixando sem senso de direção.
Não tinha lá muita mobilidade no ar, então precisava dar um jeito de se desvencilhar do homem e se manter consciente. E logo na primeira tentativa, ele parou abruptamente no ar, a fazendo sentir mais dor com o solavanco. Era como se tivesse quebrado ossos!
Depressa tentou dar uma joelhada na virilha do saiyajin, mas ele conseguiu impedir o ataque. A determinação dele a fez crer que não estava tão piedoso aquele dia, como sempre pareceu. Seu semblante misterioso apenas parecia desfocado, sem esboçar qualquer emoção.
Pelo visto estava começando a mostrar sua verdadeira natureza...

- Me solte! - se debateu mesmo repleta de contusões, imobilizada e incapaz de fazer qualquer coisa.

Enfim Kakaroto a encarou de perto.
O que acontecia agora?
Ele quebrava seu equipamento de segurança e a jogava do alto? Não, e pensou além, ela tinha guardado a nave em uma cápsula e certamente daria um jeito de ativá-la antes de chegar ao chão. Provavelmente deveria matá-la antes, para evitar brechas. Poderia partir seu pescoço, apertar seu torso até que tivesse todos os órgãos internos perfurados, talvez simplesmente arrancar seu coração. Haviam muitas opções.

Então por que é que ele não escolheu uma logo?
Se amaldiçoou, bufando frustrado. Chichi sentiu a lufada de ar quente vindo em seu rosto, ao contrário dele, sem tantas opções para fugir.

Ele não era um frouxo, não tinha problemas em matar inimigos quando necessário e aquela mulher já havia causado problemas demais. Ela definitivamente merecia a morte! Movido por isso finalmente decidiu apertar os próprios braços ao redor do corpo imobilizado dela, escolhendo sua segunda alternativa: quebrando seus ossos frágeis. Ao menos a escolha não o obrigaria a afrouxar um dos braços e dá-la oportunidades de escapar. Ela grunhiu quando os primeiros estalos se iniciaram, alterada como uma fera. A pele branca como porcelana começou a ficar avermelhada. Estranho, apesar de dar trabalho não era como se aquela mulher fosse excepcionalmente poderosa como havia pensado; Agora em suas mãos parecia completamente dominada, sem forças para se livrar de seu aperto. E para seu espanto, o que mais parecia incomodá-la em meio à toda ira e hostilidade era a repulsa que sentia por ele, sobressaliente em sua energia. Era até como se o fato de morrer por um saiyajin doesse mais do que qualquer tipo de tortura...

A fitou indiscretamente nos olhos para tentar lê-la em seus minutos finais.

Não era como se seu ódio fosse exclusivamente de Kakaroto, mas sim ao que ele era: um saiyajin. E certamente o rapaz conhecia sua espécie bem o suficiente para entender o quão ruim podiam ser. Ela havia sido maltratada demais por um para odiá-lo daquele jeito?

Em especial, havia um motivo para nunca tê-la matado em seus encontros e não era porque era um covarde, como Vegeta insinuara.

Desde o primeiro encontro, aquela mulher tinha uma energia vital que ele não conseguia distinguir.
No fim talvez fosse por mera curiosidade, mas sempre que os atacava ela nunca transbordava as ambições e fúrias dos outros inimigos que os caçavam. Ele sentia vazio de outros objetivos, quase como se estivesse diante de uma boneca com um único propósito.
Caçá-los era como uma necessidade, mas nunca porque queria simplesmente um prêmio em troca. Havia algo mais, algo profundo que Kakaroto não conseguia decifrar.

"As vezes você tem de tomar atitudes que não quer porque precisa.", e recordou-se das próprias palavras.

Era verdade.
No fundo eles deviam compartilhar do mesmo sentimento, supôs.
Contudo não tinha mais tempo de adiar o fim inevitável da mulher, por mais intrigado que ela o deixasse. Se preparou para acabar seu serviço de uma vez, enfim sentindo um traço de pavor emanando dela tão diante da morte.


Por fim Chichi usou sua última carta.
Ao invés de tentar se debater mais antes que fosse esmagada, mordeu a lateral do pescoço do saiyajin com toda a força que havia lhe sobrado. Era sua última tentativa de continuar a lutar para sobreviver. Provavelmente havia alguma divindade à favorecendo aquele instante.
Kakaroto a soltou por instinto, vendo que ela arrancaria um pedaço de sua carne se preciso. A imagem dela caindo quase inconsciente se gravou em sua memória. Se afastou alguns metros, vendo-a desaparecer entre as árvores.

Perpassou a mão pela mordida, encontrando vestígios de sangue na ponta dos dedos. Estalou a língua enquanto sentia ardor, sentindo o desenho exato dos dentes dela cravados em sua pele.

Logo, buscou por sua energia, sentindo-a por um fio.
A queda devia ter sido feia. Dificilmente sobreviveria...

"Está se movendo...", mas o rapaz notou surpreso, sentindo o ponto de energia se deslocar muito lentamente.

Devia descer até ela e finalizar o trabalho, para se certificar de que não seria mais incomodado. Era a coisa certa a se fazer, independente das consequências.



Um fio de sangue e saliva escapou dos lábios de Chichi, rastejando entre a mata da floresta.
Ele a feriu bastante, então não teve sucesso ao controlar os propulsores de seu jetpack. Por sorte, a propulsão foi suficiente para diminuir a velocidade de sua queda e no último instante conseguiu ativar um amortecedor dentro de uma cápsula, para absorver o impacto.
Ainda assim, não conseguiu impedir que as galhadas de árvores a arranhassem em sua caída e estava ferida tanto por dentro quanto por fora. Era um milagre estar viva.
Seu ataque foi descuidado, porém continuou a se rastejar determinada. Precisava recuar e se camuflar na mata até ter a chance de ir para um espaço aberto desencapsular sua nave, consciente de quando perdia.
Contudo, o homem macaco já estava pousando ao seu lado outra vez, dando passos curtos e sem pressa até onde estava.

Prontamente a asiática tateou uma das mãos até a coxa, apanhando um punhal. De uma coisa tinha certeza: ganhando ou perdendo ela lutaria por sua vida até o fim. Mas obviamente, assim que a alcançou Kakaroto a desarmou com facilidade. Ela estava lenta e grogue demais para tentar revidar…
Virou-a de barriga para cima usando uma das pernas, notando que mesmo tão vulnerável ela continuava tentando proteger seus pontos mais vitais.
Kakaroto a encarou, vendo que não abaixaria a guarda á custo nenhum.
A rondou, ciente de que poderia acabar com aquilo logo, por mais que seu âmago se contorcesse com a ideia. Sentiu-se ser fitado por aqueles olhos tão negros quanto os seus, sempre vazios.

O homem sabia que havia apenas um caminho que deveria seguir.








A nave do trio estava parada, suspensa no ar ao alto da floresta.
Bulma se esgueirou na rampa, tentando encontrar Kakaroto lá embaixo. A tarefa era impossível, visto à altura em que estava somado a quantidade exorbitante de árvores tapando completamente o solo. Mesmo assim a moça de cabelos azuis não desistiu.
Ouviu os passos de Vegeta, descendo os degraus da escada metalizada do loft.
Contudo, não precisaram esperar mais tempo até que Kakaroto aparecesse. Ele emergiu da mata, subindo até onde estavam.
Bulma engoliu em seco ao vê-lo só.
Deu passos para trás quando ele se aproximou pousando.

- Acabou. - foi tudo o que disse, evitando contato visual.

Um nó se formou na garganta da garota. Isso significava que…
Não conseguiu completar, vendo-o passar em silêncio.

Então jamais teria a oportunidade de ver aquela mulher outra vez. Chateou-se, mesmo que fosse uma inimiga. Deveria ter feito perguntas quando pode... tarde demais.
Vegeta observou Kakaroto passar por eles em silêncio. Fez uma expressão de descontentamento e enfim voltou para o lugar de onde havia vindo, afim de prosseguir com o trajeto.

Bulma observou a rampa se fechar, sendo consumida apenas pelas luzes artificiais do interior da nave. Suspirou e deu meia volta, ciente de que era hora de se preparar para a partida.

Não foi daquele jeito sombrio que idealizou suas últimas horas com Kakaroto e Vegeta...


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------




A roda de transeuntes naquela barraca de vendas estava atrapalhando o fluxo do mercado central em Gilease. O namekuseijin bem trajado conversava com o povo, segurando um frasco ornamentado avermelhado.

- Graças à sua raiz repleta de substâncias antioxidantes, o remédio à base de Iegsu namekuseijin tem propriedades altamente medicinais. - falava do tal remédio milagroso em suas mãos. - Dizem que é conhecido especificamente por ser um dos ingredientes presentes no composto Z, usado nos inacessíveis tanques de regeneração do império. Reconstrói todos os tecidos da pele em questão de segundos!


Bulma observava tudo de longe com uma das sobrancelhas arqueadas, camuflada entre as pessoas. Ao centro da roda havia a figura que era sua passagem para Ludo.
Raiti e Zaacro... aquele charlatão enganando o povo definitivamente era um deles.

Assim que chegaram perto de onde a dupla de golpistas atuava, o trio tratou de se disfarçar. A nave estava encapsulada, os saiyajins muito bem encapuzados e mascarados e Bulma, parecida com qualquer outra pessoa que definitivamente não era ela.
Nunca se imaginou com outra cor de cabelo que não fosse azul, então foi estranho ver suas madeixas negras. Fora isso, a faixa apertando e escondendo seu busto era realmente incômoda e as roupas largas que estava vestindo a faziam se sentir afogada sobre tecidos demais. Era ruim, mas pelo visto, maus dos quais seria obrigada a se acostumar dali para frente.

Por fim, um dos gilesários entre o povo se aproximou irritado do namekuseijin, interrompendo seu discurso decorado.

- Mentiroso! Iegsu é um mero tubérculo, é impossível que tenha propriedades medicinais.

O ponto do ser idoso pareceu fomentar a discórdia do povo, que concordou.
Ainda assim o namekuseijin não perdeu a pose diante da descrença.

- Você, como é seu nome? Aproxime-se... - e convidou o homem para invadir o centro da roda.

E em um segundo a atitude incomum atraiu o público de espectadores mais uma vez, curiosos para ver. O senhor não desfez a expressão de descontentamento:

- Meu nome é Janoo e moro em Gilease há mais de um século. Tenho idade o bastante para saber quando estão tentando me enganar e sei que Iegsu não é um legume de uso medicinal! – insistiu, chacoalhando a tromba pequena que tinha acima da boca.
- Posso lhe garantir que não é o caso do Iegsu orgânico que colhemos em Namekusei senhor. Por acaso já fez o uso de nosso remédio para ter tanta certeza do que diz? – e o ser esverdeado argumentou. - As raízes do legume secretam uma substância antioxidante e serve de matéria prima para vários compostos, como disse.

E logo uma discussão árdua se seguiu entre os dois seres distintos, dividindo as opiniões dos habitantes ouvintes. Simplesmente porque um queria prometer que seu produto não era uma falcatrua e o outro queria provar de qualquer jeito que estavam diante de um farsante.
Bulma soprou a franja, incerta de onde aquilo iria terminar.
Aonde estava o outro comparsa afinal? Jaco havia dito que haviam dois deles...

- Esse golpe é tão velho que estou surpreso que ninguém ainda tenha desconfiado. - e Kakaroto falou, atraindo a atenção da terráquea.
- Como é? - indagou-o, inocente. - O que quer dizer?

O rapaz franziu o cenho, achando-a boba.

- Não é óbvio que este namekuseijin e este gilesário são cúmplices?- foi racional.

A terráquea sentiu-se estúpida por uma fração de segundos.

- Zaacro e Raiti são metamorfos, então não se esqueça de que podem ser quem quiserem. Adivinhe comigo, em algum momento vai ficar nítido para o público que o velho tem algum problema aparente incurável...

E quase divinamente, foi exatamente o que aconteceu á seguir.
O velho tinha um ferimento de anos na barriga, arrancando o asco da plateia. O buraco enxertado era mesmo horrendo...

-... e admiravelmente, apenas uma coisa poderá ajudá-lo a encontrar a cura. - Kakaroto finalizou.

Dito e feito, o namekuseijin respingou o produto do frasco na ferido do senhor até então descrente quanto a eficiência do produto, à vista de todos. Logo veio o silêncio. E depois dele, aos poucos o tecido de pele foi se recompondo e se reconstruindo de maneira fantasiosa sobre a pele do idoso, deixando a população atônita.
Em seguida, tomado pela emoção, o velho pedia para comprar bem mais de um frasco e rapidamente uma fila de pessoas querendo comprar o tal remédio milagroso de Iegsu se formava atrás dele.

Bulma ficou perplexa com a previsão de acontecimentos de Kakaroto. Imaginou que precisão de detalhes sobre o golpe podia dizer muito sobre o passado incerto dele. Haviam pessoas canalhas se aproveitando das mais simples em cada canto da galáxia, concluiu por fim, sentindo-se tola. Raiti e Zaacro deviam fazer mais dinheiro em poucas horas aplicando trapaças do que à maioria de seus clientes que trabalhavam semanas por migalhas. Merda... talvez fossem piores do que havia pensado.

- A roda está se dispersando, então o namekuseijin vai começar a desmontar suas coisas para partir em breve. É hora de se aproximar - Vegeta observou, calado até então.

Kakaroto acenou em concordância, seguido de Bulma. Se camuflaram entre os gilesários outra vez, afim de encurralar o falso namekuseijin quando surgisse a oportunidade.

- Não se esqueça de que é um homem agora. - o saiyajin mais novo recordou a terráquea, como se divertisse com o estado atual dela.

É verdade que estava mais parecida com um garotinho assustado. Soprou a franja outra vez e os seguiu em silêncio.





Quando o grupo finalmente se aproximou, o charlatão terminava de desmontar sua bancada de vendas, separando as peças em categoria para encapsular em seguida. Ele deve ter visto a sombra deles atrás de si, afinal, disse de prontidão assim que estiveram perto o suficiente:

- O produto acabou por hoje, voltem outro dia.

Parecia despreocupado e tranquilo, pacífico como a maioria dos namekuseijins que Kakaroto falara. Talvez fosse do tipo que entrava no papel de seu personagem para valer, supôs Bulma.

- Não estamos aqui para sermos enganados igual a todos aqueles gilesários idiotas. - e Vegeta foi direto, evitando rodeios.

Enfim a criatura parou de encapsular seus itens, olhando-os de soslaio como quem estava confuso.

- Como é? - olhou para trás, desconfiado. - Quem são vocês? O que querem de mim?

Ele soou com tanta naturalidade que por um momento Bulma quase chegou a acreditar que estavam falando com a pessoa errada.

- Nós sabemos o que é, lychee. - Kakaroto foi direto ao ponto. - Estamos aqui porque temos interesse em pagá-lo por um trabalho.

Diante da verdade arrebatadora sobre sua identidade, enfim a expressão desorientada do namekuseijin se transformou em uma séria em questão de segundos para o espanto da terráquea. Ao menos a desconfiança em sua feição se perpetuou, principalmente quando pareceu analisá-los da cabeça aos pés.

 

Zaacro estava acostumado a lidar com aquele tipo de situação, mas nunca estava preparado para o que viria à seguir. Ajeitou a própria postura e terminou de guardar o que precisava calmamente, ciente de que era alvo de olhares.

- Tomem uma distancia segura e me sigam. - avisou assim que terminou.

E sem mais anúncios prévios, o ser misterioso tomou a frente sem parar para se certificar se de fato estava sendo acompanhado. Vegeta foi o primeiro a segui-lo, focando a criatura como se fosse uma presa e Bulma e Kakaroto apenas imitaram seus passos com discrição.

O lychee caminhou sereno entre o povo, atravessando o caminho estreito do comércio repleto de feirantes. Diferente de muitos planetas, Gilease parecia ter mais nativos do que estrangeiros então a terráquea sabia que o disfarce namekuseijin daquele ser não poderia ser alterado repentinamente uma vez que estava em evidência à vista dos outros com suas roupas bufantes e coloração verde. Contudo, não se tranquilizou ao pensar que o mesmo podia valer para ela e os saiyajins, claramente tão diferentes dos demais quanto.
Vegeta desviava da multidão de pessoas, concentrado em não perder seu alvo da mira. Por mais que pudesse sentir energia agora, ainda era um aprendiz da técnica e a aglomeração de pessoas o atrapalhava a se concentrar. É verdade que nunca gostou de multidões, não era à toa que as más línguas da nobreza de Vegeta-sei o nomeavam secretamente de príncipe encarcerado, já que sempre evitava aparições públicas.
No fim das contas ele realmente foi encarcerado em sua vida. Seria uma maldição pela má conduta enquanto foi da realeza?

O questionamento veio em mau momento.
Um homem gilesário esbarrou contra si de repente, trombando em seu antebraço e pegando Bulma e Kakaroto de surpresa. O ser gritou alguma coisa em sua língua e se afastou irritadiço, balbuciando palavras que definitivamente não eram elogios. Vegeta tensionou o maxilar em insatisfação. Mais pareceu que aquele homem havia atravessado seu caminho propositalmente...
A ação não passou despercebida por seus olhos, principalmente quando se deu conta de que havia perdido o falso namekuseijin.

Mas felizmente, por poucos segundos:

- Lá. - Kakaroto apontou para a frente, depois do comércio.

A prova de que o rapaz era mais experiente ao sentir energia feriu um pouco do ego do príncipe deserdado, mas este optou por continuar a seguir o fluxo de acontecimentos.

O ser esverdeado finalmente olhou para trás por um curto período, como se também estivesse de olho em seus passos. O trio tratou de se apressar.
Cruzaram a praça principal do vilarejo, onde o comércio finalmente diminuía. Havia uma fonte seca feita de pedra lascada ao centro do local e residências simplórias amontoadas uma sobre a outra aos redores. As estruturas das casas eram bem diferentes das quais Bulma estava acostumada a ver na Terra. Logo, o lychee estava entrando em uma espécie de beco.

Continuaram a segui-lo, vendo que as passagens estreitas entre as casinhas populares eram bem menos calorosas do que a praça principal, como se tivessem se teletransportado para um mundo completamente diferente e repleto de sombras.
Pareceram cruzar um labirinto enquanto enxergavam apenas a criatura passos á frente, ainda sem perder sua postura serena e despreocupada. E finalmente, ao fim daquela passagem havia um espaço aberto em círculo iluminado pela luz do Sol.

Ao cruzar a última sombra daquele corredor comprimido, o namekuseijin finalmente se modificou revelando sua verdadeira fisionomia. A terráquea quase não conseguiu visualizar a transformação, afinal, viu apenas a figura do lychee na penumbra ganhando formas desproporcionais à anterior. Diferente da aura doce e aparência tranquila de um namekuseijin, o ser em sua forma original parecia ameaçador. Sua pele rosa intensa era similar a de um anfíbio, tinha mais de dois metros de altura, orelhas e barbatanas pontiagudas e olhos amarelos e separados assustadores. Foi como ver um monstro se materializando em sua frente.
E quando prestou mais atenção aos detalhes Bulma notou que havia uma nave suporte de tamanho médio os esperando á frente. O outro lychee estava dentro dela, escorado na lateral de metal da rampa de entrada como se estivesse á espera deles. Ele era relativamente similar ao companheiro, talvez tivesse uma estatura mais baixa e um tom de pele mais puxado para o vermelho.
O cenário isolado e a revelação de aparências dos seres indicava que haviam chegado ao fim da linha.

- Imagino que tenham vindo de longe para chegarem ao nosso encontro. Receberam informações de terceiros para nos achar? - o mais alto finalmente disse alguma coisa, cheio de deduções enquanto se aproximava do parceiro. - Não estou curioso para descobrir seus motivos, mas pelas roupas discretas, suponho que não vieram negociar uma simples falsificação.
- Tem razão. - Kakaroto respondeu. - E foi justamente por isso que nos recomendaram vocês.
- Quanto está disposto à pagar pelo trabalho? - o cortou.

A pergunta ambiciosa fez o rapaz arquear uma sobrancelha.

- Normalmente se é esperado que o negociante dê o trabalho antes do valor.
- Nós gostamos de riquezas. - o lychee sorriu de lado. - Um valor diz muito sobre o nível de uma proposta.

Apesar de incomum era verdade, mas para Kakaroto era impossível dar um preço cabível a uma missão como a que estava prestes à propor.

- Mesmo que custe sua vida? - perguntou em seriedade, querendo ver até que ponto o ser iria.
- Contanto que eu possa comprar uma vida nova...

O saiyajin nasalou com a resposta.
Inacreditável! Jaco não estava brincando quando mencionou que um lychee venderia o outro por um bom preço. Foi o momento para o comparsa do estranho ser se pronunciar, irritado com os devaneios egocêntricos do parceiro.

- Ignore Zaacro, quando a sorte para á nosso favor as vezes ele age como a personificação da ganância. - desdenhou, vendo o companheiro de crime sorrindo como um maluco. - Sou Raiti. Fale sobre o trabalho e estipularemos um preço justo.

"Para nós", a mente dele pareceu ecoar. Eram mesmo canalhas!
Só porque conseguiam desviar e transportar cápsulas ilegais de Ludo não significava que estavam isentos de saírem impunes para sempre e eles sabiam disso, contudo, era bom usufruir da fonte enquanto esta ainda transbordava em fartura...

- Viemos negociar um transporte ilegal de escravo em Ludo. - Kakaroto anunciou, atraindo ainda mais a atenção dos lychees.

De alguma forma, pareceram satisfeitos com o que ouviram um segundo.

- Oh, este tipo de serviço é extremamente caro, já que para resgatar um escravo não existem garantias. - avisou, explicando os termos. - Sem contar que exige a participação extra de alguns de nossos contatos dentro de Ludo, que também não trabalham de graça.
- Eu não estou falando especificamente de um resgate. Queremos colocar uma pessoa dentro das colônias ilegalmente para que se torne escravo sem ser vendido.

Silêncio. A proposta calou as duas criaturas subitamente, como se tivessem acabado de ouvir a coisa mais absurda de suas vidas. Resgatar escravos em Ludo era ainda mais perigoso do que roubar simples cápsulas, mas... levar alguém direto para aquele tormento?
Era uma ideia alucinada até para eles!

- Por acaso são apreciadores de crueldade? - Zaacro não conseguiu pensar em outra coisa. - Quem seria louco o bastante de se sujeitar a escravidão à menos que esteja sendo obrigado á isso?
- Existe um motivo para tal loucura. - Kakaroto manteve-se firme. - Este garoto está indo lá para resgatar alguém que só ele pode encontrar.

Foi a primeira vez que os olhos dos dois lychees se fixaram em Bulma, sem desconfiarem de que era uma garota. E justamente o olhar de Raiti a fez perceber que a fé que tinham nela era baixa.

- Está o mandando para a cova. - Raiti foi claro. - Ninguém entra nas colônias de Ludo e sai vivo.
-Soube que vocês entram e saem de lá transportando cápsulas. - e o rapaz insistiu ao argumentar, fazendo o ser mais baixo bufar. - Por que ele não conseguiria?
- Não é simples como parece, lucramos com as cápsulas e a escravidão como meros distribuidores de uma grande rede. Os escravos refugiados que dão a sorte de ter um resgate pago ficam escondidos na cidade até chegarmos com a condução, sem termos detalhes de como chegaram até ali. - o baixo explicou, dando ênfase a tal "rede" responsável pelas etapas principais do trabalho. De certo, os contatos dentro de Ludo que não eram gratuitos. - Contudo, o que tenta negociar é muito diferente do que andamos fazendo. Quando o alvo está nas colônias, é impossível entrar lá sem que estejam de olho em você…
- Mas é possível sair! - as contradições zangavam Kakaroto, cada vez mais impaciente. - Este trabalho será como qualquer outro resgate, o processo apenas será ao contrário. Se por acaso tem algum guarda nas colônias a serviço dessa "rede de contatos", sabem que a chance de implantar esse garoto com os outros escravos não é inconcebível. Acredite, pretendemos pagar a quantia necessária por isso!

Os lychees se entreolharam, pouco convencidos, mas com novos questionamentos. Principalmente porque sabiam que Kakaroto não estava blefando quanto ao pagamento.

- ...se apenas este garoto pode encontrar alguém importante para ele nas colônias, isso significa que esse escravo que deve ser resgatado não é importante apenas em Ludo. Estou certo? - Zaacro pensou longe, sempre calculista. - Quem diabos são vocês? De onde vem?

Bulma manteve a mesma expressão dura estampada no rosto, mas se desestabilizou com a perspicácia do golpista. O rapaz saiyajin não se abalou:

- Não é minha obrigação dar os detalhes disso. Apenas façam o que pedimos.

Raiti deu de ombros e após lançar mais um olhar para Zaacro, ambos pareceram chegar a um consenso telepaticamente.

- É, talvez o que disse faça sentido. Mesmo árduo o serviço pode ser realizável. - o alto admitiu, cruzando os braços. - ... mas não aceitamos trabalhos problemáticos como esse.

Kakaroto cerrou os punhos, alvo dos olhares dos outros dois companheiros.

- Você disse que um valor diz muito sobre o nível de uma proposta. Até disse que não se importava de morrer, contanto que pudesse comprar outra vida...
- Eu minto bastante. - e respondeu simplesmente, como se divertisse.- Sabemos que o que oferece é arriscado demais e odiamos prejuízos.

Uma veia saltou sobre a testa do homem, furioso por ter sido feito de bobo.
Justo ele que era bom em lidar com tipos como aqueles. Então diante dos perigos nem sempre o maior dos tesouros falava...
A terráquea sentiu-se diminuída, vendo tudo o que Tights havia planejado desmoronando.


- E se já acabaram, é melhor irem embora antes que alguém nos veja. - Raiti disse por fim, pouco interessado em dar mais chances ao grupo de tentarem persuadi-los.

Quando a negociação acabou Kakaroto deu meia volta furioso, sem mais o que dizer. Se aqueles canalhas gananciosos não aceitaram a proposta suicida, quem mais no universo aceitaria? Sabia que usá-los de ponte para Ludo seria irrealizável. Ninguém era maluco o bastante. Prontamente Bulma o seguiu sem pensar, ciente de que não havia nada que pudesse fazer para fazer os lychees mudarem de ideia. O que a restava era apenas tentar implorar para Kakaroto negociar mais uma vez, evitando que o mesmo perdesse seu ânimo.
E Vegeta, este encarou as duas criaturas desdenhosas por mais alguns segundos, que o observaram na mesma intensidade. Aqueles dois definitivamente não transmitiam confiança...
Enfim se retirou, refazendo o caminho até a praça central aonde os companheiros estavam.

- O que quer que eu faça?! - o príncipe viu Kakaroto gesticulando para Bulma, pegando a discussão no meio assim que se aproximou deles. - Fiz o que estava ao meu alcance para colocá-la em Ludo, mas eles tornaram a proposta inflexível. Acho difícil mudarem de ideia.

A resposta negativa fez o peito de Bulma se comprimir mais uma vez. O primeiro grande obstáculo já ceifava todos os seus objetivos. Afrouxou os punhos, até então cerrados em insistência.
De que valia a pena insistir? Ela devia saber que não conseguiria, todos os seus instintos diziam isso...


E justamente isso fez o coração de Vegeta vacilar. A tristeza que Bulma emanou aquele período, como uma bomba de sentimentos negativos.

 

Se soubesse que assimilaria coisas inúteis depois de aprender a sentir energia teria se preparado melhor antes de usar a técnica, afinal, nunca foi um homem empático. Contudo, desde então era como se fosse impregnado pelas coisas que a terráquea exalava, sem chances de fugir dela. Sua dor não era doce como sempre fantasiou e a desilusão mesquinha o fez sentir nós na garganta. Ele sabia o quanto Bulma tinha esperanças de reencontrar o próprio pai e isso também o frustrava.

Logo mentalizou todos os palavrões que conhecia quando se viu decidido à realizar a seguinte ação, porque sabia que estava ficando mole demais:

- Esperem aqui. - disse á contragosto num tom nada amigável, chamando a atenção dos dois companheiros.

Os olhos azuis marejados da garota o fitaram em surpresa com sua fala, intensos demais.
"Sim, mole.", e concluiu antes de se afastar do grupo sem dizer mais nada.
Voltou a se aventurar pelos becos das casas populares de Gilease, afim de reencontrar os dois lychees. Bulma observou o príncipe confusa até que ele desaparecesse e Kakaroto continuou a acompanhá-lo de longe, usando seus sentidos.

- O que ele está fazendo? - a moça sussurrou, consciente de que Vegeta raramente tomava atitudes impensadas.
- Tentando conseguir o sim que não recebi. - e foi respondida pelo rapaz, apesar de ter soado retórica.

Ela engoliu em seco, voltando a ter um pouco de fé. Simplesmente não podia haver um futuro hipotético aonde não partia para Ludo aquele dia. Torceu pelo sucesso de Vegeta silenciosa.






Raiti e Zaacro terminavam de carregar sua nave suporte, prontos para embarcarem na principal que os esperava nas plataformas de pouso. Mas em especial, estavam contentes com os resultados conquistados na negociação falha de seus últimos clientes.
Nem todos traziam benefícios como eles, diga-se de passagem.

No entanto a felicidade não durou nada, afinal, antes que se dessem conta Vegeta já estava atrás deles mais uma vez os tirando das fantasias. Os assustou quando começou a passar instruções imperativamente:

- Vocês vão levar o garoto para as colônias. - disse sério, dando ordens antes de um consenso. - Passado um período de dez dias, vão estar lá para resgatar ele e a pessoa com quem foi se encontrar. Depois os deixarão são e salvos em Gilease e irão embora sem olhar para trás.

Os lychees franziram os cenhos e ouviram as palavras do estrangeiro mascarado em silêncio, mas logo riram entre si quando o mesmo se calou. O saiyajin foi estranhamente paciente quanto aos comportamentos, na expectativa de descobrir o que era tão engraçado.

- Não adianta nos seguir e nos dar ordens estranho, não vai nos fazer mudar de ideia. - Zaacro avisou de prontidão, até sorrir em malícia. - Ou deveríamos chamá-lo de príncipe Vegeta? - revelou.
- Devia ter mais cuidado ao andar distraído por aí, um lychee pode trombar em você.- Raiti debochou.

E em um lapso a imagem do homem gilesiano esbarrando em si de propósito na feira de comércio voltou imediatamente em sua cabeça. Como suspeitou, Vegeta foi sabotado pelas duas criaturas à partir do instante em que se envolveu com eles.
"Nunca confie em lychees."
Toda sua preocupação em ser cuidadoso ao usar um disfarce ia por água abaixo.

- Soube que seu valor é alto o bastante para alimentar um império. - um disse.
- É até maior que a contagem de riquezas de grandes impérios como Nekomajin. - e o outro completou, ambicioso. - Acho que nunca demos sorte de ter um tesouro tão interessante em mãos…

Da forma que diziam, Zaacro e Raiti realmente já contavam com a vitória à seus favores. Eles só não esperavam que o posicionamento vantajoso quanto a identidade do príncipe dos saiyajins não o deixaria surpreso como queriam. Para falar a verdade, a expressão monótona dos olhos descobertos do homem não mudaram um centímetro sequer, os deixando atentos.
Vegeta relaxou os ombros, observando-os individualmente.

- Sim, sou eu. O que pretendiam fazer? Contatar o império assim que eu desse ás costas?

Tornaram-se sérios não gostando do rumo da conversa.
Não estavam contando que ele voltaria repentinamente e sozinho assim que a negociação fosse negada. Sabiam que não poderiam equiparar suas forças a de um saiyajin, então a falta de preocupação vindo do príncipe exilado diante da revelação deles os preocuparam.
Ainda assim, esconderam sua insegurança:

- Você não está em posição de nos subestimar aqui. - o alto iniciou.
- Quem disse? - foi a vez de Vegeta debochar, olhando aos redores como se estivesse à procura de alguém. - Ainda não estou vendo Freeza e seu exército por aqui...
- Mas nós temos as informações que todos procuram: a de que está em Gilease, acompanhado e com planos de resgatar alguém importante em Ludo.

Eram cheios das artimanhas... como os desprezava.

- E que certeza tem de que pretendo deixá-los saírem vivos deste beco? - foi óbvio, mas eles eram muito observadores.
- Se até agora não nos matou é porque definitivamente precisa que estejamos vivos.

Vegeta sorriu de lado, cerrando um dos olhos de maneira pouco confiável.

- Certo. - afirmou, dando um passo para a frente.

Prontamente eles foram para trás. Zaacro olhou para o companheiro de soslaio.
Havia uma faca no compartimento externo da nave suporte. Se ao menos a alcançassem teriam algo para se defender.

- É melhor não se apro... - mas Raiti foi interrompido bruscamente.
- Li livros que diziam que apesar de lychees conseguirem descobrir e reproduzir identidades apenas com um toque, eram incapazes de obter uma leitura consciencial de seu alvo sem uma pesquisa profunda para investigar suas memórias. - falou mais para si mesmo, como se estivesse pensando alto demais. - Então, isso significa que apesar de saberem quem sou, ainda não sabem nada sobre mim.

A verdade traiçoeira os pegou de surpresa. Principalmente quando o príncipe foragido completou os pensamentos com aquela curta e perturbadora frase:

- Que bom, não vou precisar matá-los e colocar tudo a perder agora. - pareceu realmente aliviado.

Era hora dos lychees usarem as cartas que tinham na manga para sair daquela situação.
Não havia nada grandioso que pudessem fazer para impedir serem atacados por Vegeta, afinal, além de um saiyajin ele também era um soldado de elite bem treinado. Então para escapar, o que os restava era fazer o que sabiam de melhor: enganar.

- Eu vou dá-los mais uma chance e repetir só mais uma vez: levem o garoto para as colônias. - Vegeta voltou a dizer.

E enquanto o saiyajin falava, Raiti sinalizou discretamente para Zaacro.
Sem perder a calma, ambos criaram um campo mental discreto para reproduzir uma ilusão de ótica sobre si mesmos. Simplesmente para fazer Vegeta acreditar que estavam parados à sua frente enquanto entravam na nave suporte para fugir na primeira distração.

- Como pode garantir que vamos fazer o que quer só porque está nos ameaçando? - uma das ilusões respondia por Zaacro, a partir de seus pensamentos.

A rampa da nave já estava aberta, mais alguns metros e logo estariam perto do volante. Estavam quase lá…

Teria sido o escape perfeito, mas eles não conseguiriam adivinhar que Vegeta tinha uma habilidade única que o permitia sentir amontoados de energia à sua frente, quase como um inimigo natural de lychees. Foi fácil descobrir o truque.
Por isso, sorriu ao dizer:

- Bem, eu sei que o garoto não precisa de dois de vocês para ser transportado até Ludo.

As duas criaturas congelaram.
Enfim Raiti puxou a faca por impulso enquanto Zaacro tentava impedi-lo, mas num piscar de olhos Vegeta já estava no meio deles, agarrando o braço armado do mais baixo e o quebrando sem dificuldades. A ilusão de ótica se desfez. Eles deviam saber que jamais poderiam feri-lo.
O urro animalesco que Raiti deu se pareceu muito com o de uma fera ferida. O braço virado para uma direção anatomicamente impossível o desesperou, pela primeira vez sem saber o que fazer. E antes que pudesse pensar em uma solução, o saiyajin o socou tão forte que o fez bater ás costas contra a parede lateral da nave. Zaacro tropeçou nas próprias pernas de medo, enquanto Vegeta pulava em seu companheiro para batê-lo mais.

Ele o socou uma vez, depois duas... e quando deu por si Zaacro já não conseguia mais estabelecer uma contagem. Tensionou os dentes em nervosismo, entendendo a mensagem que o saiyajin tentava transmitir: a vida de seu companheiro estava em suas mãos.
Raiti apanhou tanto que um instante apenas ficou amortecido sem conseguir sentir a dor das pancadas por completo, engasgado nos próprios fluidos. Suas trapaças finalmente voltaram contra si e agora iria morrer enquanto seu parceiro medíocre o observava!

Finalmente, quando as luvas brancas do saiyajin ficaram sujas de sangue e o rosto de Raiti parecia se desfigurar sem que precisasse transmutar a própria aparência, Zaacro tomou a decisão final:

- Nós vamos fazer o que quiser desgraçado! - berrou, abandonando a resistência. - Apenas deixe Raiti viver!

E Vegeta parou, enfim conseguindo o que queria.
O companheiro foi solto agonizando, entre tosses e murmúrios incompreensíveis.

- Sábia decisão. - enunciou, arrancando as próprias luvas e as guardando. - Quando vocês partem?

A respiração de Raiti estava descompassada, uma pequena poça de sangue se acumulava a sua volta enquanto continuava completamente aterrorizado. Zaacro se enfureceu ao se sentir humilhado por ser incapaz de ajudá-lo, cerrando os punhos.

- ... ao fim do dia. - a voz saiu rancorosa. - Na plataforma de embarque 70, em uma WAB 23.
- Plataforma 70, WAB 23.- o foragido repetiu, decorando o local e o modelo da nave. - Então está combinado. Melhor não tentar me enganar de novo, não sou piedoso duas vezes... - e deixou a ameaça no ar, fazendo a criatura arrepiar.
- N-não vamos! - gaguejou, grosseiro e covarde.

Vegeta passou pelo corpo quase inconsciente de Raiti, abrindo e fechando os punhos repetidamente, que certamente precisariam de gelo após a atividade violenta intensa. À quanto tempo não brigava corpo à corpo?

E antes que fosse embora de fato, virou-se ao recordar de algo, para o desgosto das criaturas.

- Por generosidade, sintam-se com sorte de poderem desfrutar desta quantia. - e tirou um saco de prismas leve do cinto, como uma recompensa audaciosa por bom comportamento. - Uma pena, estávamos dispostos à pagar por bem mais. - e ressaltou, se divertindo com a situação.

Ele era assustador.
E justamente por pensarem isso, logo a tonalidade descontraída na voz do saiyajin se substituiu pela seriedade.

- Se alguma coisa acontecer com esse garoto, eu vou acabar com vocês.- a apatia terrificou os lychees. - Não duvidem, vou estar perto o bastante para saber...

A ideia de vê-los fazendo coisas ruins com Bulma para se vingar o deixava realmente furioso. Não sabia o que esperava por ela em Ludo, mas definitivamente não queria adiantar sofrimentos que ele poderia impedir. Precisava aproveitar o curto tempo em que ainda tinha o controle da situação.

- O garoto vai dar mais detalhes de como o acordo vai funcionar. - avisou, enfim indo embora.
- Espere! - mas Zaacro o chamou, interrompendo sua partida.

O príncipe parou, esperando para ouvir o que a criatura rosada o diria.
Ainda tinha coragem de enfrentá-lo depois de tudo o que fez? Precisaria ser mais rígido?

- Ao menos coloque o braço de Raiti de volta no lugar. - porém foi a única coisa que pediu em troca, enquanto tentava apaziguar o companheiro.

Zaacro poderia cuidar dos ferimentos do parceiro de crime facilmente, mas aquela fratura aparente seria um problema.

O saiyajin o fitou com seus olhos negros e traiçoeiros, fazendo-o arrepiar mais uma vez de nervosismo. Percorreu o olhar pela pequena nave deles, vendo a quantidade de produtos fraudulentos no interior dela.

- Tenho certeza de que o Iegsu namekuseijin milagroso que tem irá curá-lo. - e soltou, deixando-os para trás de uma vez.
- Miserável... - ouviu-o sussurrar, quase na forma musical de uma sinfonia agradável.

A mescla de ira e medo transbordando das duas criaturas alimentaram uma alegria rara e genuína em Vegeta, dando-se conta do quanto sentia falta de ser temido daquele jeito.
Se havia uma coisa que aquele homem aprendera desde cedo era que terror e sangue eram os meios mais confiáveis de controlar as pessoas para se ter o que queria. Era extremista de se acreditar, estava ciente.

Mas pense bem, Freeza havia conseguido um império assim.









Bulma estava inquieta e isso não passou despercebido por Kakaroto. Ele levou as mãos aos bolsos ao se aproximar dela, ainda de olho no beco à espera de Vegeta.

-Eu consigo senti-lo não muito longe... sei que está bem.- citou o outro saiyajin, a despertando.

Por vezes Bulma se esquecia de que Kakaroto conseguia rastrear pessoas sentindo energia.

Se questionava a que meios o saiyajin da realeza estaria usando para convencer os lychees a mudarem de ideia sobre Ludo. Certeiramente, algo forte a dizia que provavelmente não com diálogo. Ao menos conseguiria fazê-los mudar de ideia?

Ao notar que a garota não mudou seu estado preocupado um segundo sequer, Kakaroto pendeu a cabeça para à esquerda a fitando.

- Finalmente conseguiu visualizar todas as dimensões de Ludo? - indagou, perante o nervosismo.

E ela mudou sua postura quando o assunto veio à tona mais uma vez, imaginando até então que Kakaroto não o traria de volta a aquela altura. "Você já matou alguém antes Bulma?", a pergunta dele de horas atrás ecoou. Especialmente ao se lembrar de que ele havia matado aquela mercenária que os perseguia ainda aquele dia.

Suspirou baixo:

-A cada hora acontecimentos terríveis que podem ser reais surgem em minha mente. - confessou. - Em Ludo sei que vou ter de fazer o que for preciso para sobreviver, mas sinceramente, a ideia de estar só me apavora.

O rapaz franziu o cenho. Desde o início estar sozinha era a ideia principal, então imaginou que ela estaria menos apreensiva sobre aquilo. E ao perceber o estranhamento, a terráquea logo tratou de se explicar:

- Digo, é um acontecimento profundo e atípico para mim porque vai ser a primeira vez durante toda essa jornada que realmente vou estar só.

Apertou os dedos, sentindo-se ansiosa além do normal.

- Desde o início você sempre esteve comigo então não é como se tivesse precisado pensar demais sobre como sobreviveria sozinha em um lugar desconhecido.
- Até parece. - e logo ele riu nasalado, como se ela estivesse enganada. - Lembra-se do período em que Vegeta estava encarcerado? Não fomos muito confiáveis um para o outro.
- Mas é justamente por essa fase que digo isso. - e Bulma persistiu. - Se eu não tivesse usado nossa relação à meu favor, nunca teríamos chegado até aqui juntos. Tenho certeza de que se tivesse feito tudo ao contrário, provavelmente teria sido descoberta e morrido há tempos sem sua companhia.

Fazia sentido, apesar do argumento fazer o rapaz se sentir perdido. Ela o fez de bobo ao fazê-lo dá-la instruções chaves de que caminhos devia tomar em sua fuga. Contudo, nunca se sentiu dependente dos outros e supôs que com ela não era diferente, então era difícil para si compreendê-la.

Por falar em dimensões, poucas vezes Kakaroto parava para pensar na proporção que Bulma tinha em seu mundo e vice e versa. Nunca teria chegado aonde estava sem ela.

- Estive sozinho parte da minha vida então realmente não a entendo... - foi sincero. – mas devo admitir que a vida em grupo não me faz sentir falta desse passado.
- Temos perspectivas diferentes. Eu não estive verdadeiramente sozinha em nenhum momento, nem mesmo quando estava na Terra.- pontuou. - Acho que é por isso que a experiência me assusta. - e riu tensionada, dando de ombros. – Acho que precisava ser assim....

Ele a fitou em silencio, consciente de como ela deveria estar se sentindo.

Precisava ser assim...

 

Aquela podia ser a última vez que se veriam, era nítido. No entanto, ninguém parecia disposto à tocar no assunto para tratá-lo como um adeus. O rapaz coçou a nuca por mania, pensando de maneira solta e incompleta.

-Ás vezes duvido de meu ceticismo e começo a creditar Popo de que nosso encontro nunca foi acaso... é isso o que quer dizer para mim agora?
- Acho que é. – acenou.

E ele sorriu para ela, numa raridade. Talvez fosse para ser...


Vegeta cruzou a entrada do beco por fim, como se tivesse feito o que precisava fazer.
Não demorou a ser notado pela dupla, principalmente por Bulma que logo o acercou ansiosa e curiosa.

- E então? - foi direta. - Os convenceu ou não? Eles pediram por mais dinheiro? Deram alguma especificação? - apertou uma mão na outra inconscientemente, cheia de expectativas e perguntas. - Ao menos disseram sim?!
- Se me deixar responder... - o homem franziu o cenho, descontente.

Ela se tocou, se calando subitamente.
Não era de pedir preces, mas estava tão ansiosa por um veredito que por um segundo torceu para receber o dom de clarividência de alguma divindade.

- Eles vão levá-la. Estarão á sua espera nas plataformas muito em breve. - disse em conclusão.

Seu coração bateu mais rápido momentaneamente.
Foi um alívio ouvir aquilo e deu um sorriso ameno, agradecida. Bem, ao menos por vinte segundos.

- Espere, o que você fez? - e se desconfiou, arqueando uma das sobrancelhas. - Eles sequer quiseram ouvir Kakaroto e ele é bom em negociar...
- Eu nasci para ser um rei, ter o controle dos eventos é natural para mim. - Vegeta se contentou em dizer apenas isso, convencido. - Deveria estar grata e não questionadora...

Era suspeito, mas não era como se ele estivesse errado. Ele conseguiu o que queriam: o serviço dos lychees. Bulma exibiu dentes e se animou um pouco, mais tranquila.

- Tem razão. O que eu faria sem você? - brincou.

A frase o agradou, por mais sério que tenha continuado.
Uma etapa do plano fora concluída, só os restando esperar.

Kakaroto riu em negação e tomou o rumo á caminho da praça outra vez. Bulma o acompanhou em seguida. Logo foi a vez de Vegeta segui-los, sem se dar conta na hora de que a vida em grupo que desprezou tanto um dia se tornou confortável e comum.

- Aliás, qual é o combinado? - e a voz feminina ainda o encheria de perguntas.





Todavia, esse conforto mudaria bruscamente dali para frente.






O Sol de Gilease se pôs mais rápido do que presumiu.
Como Zaacro havia dito, eles partiriam ao fim do dia.
Ao todo a viagem para Ludo duraria dois dias, então quanto mais rápido quisesse chegar a seu destino mais depressa deveria ir. Bulma suspirou, ao alto daquela escadaria que acabava nas plataformas de pouso. A vista era realmente bonita, podia enxergar o mar depois da plataforma os rodeando. O número de gilesarios e estrangeiros transeuntes era menor por ali, mas não significava que não era movimentado; Haviam dúzias de naves de porte médio e grande por ali, decolando e pousando simultaneamente.

Então era oficial, Bulma estava embarcado para Ludo. Finalmente.
Foi como se uma onda de flashbacks invadisse sua mente, pensando nas inúmeras vezes em que almejou e se desesperou para estar ali. E por mais que seu coração vibrasse de angustia com a ideia de se afastar de seus companheiros de viagem temporariamente, ele vibrava ainda mais quando pensava em seu pai. Salvá-lo era como a parte crucial de seus propósitos... talvez só fosse por isso que tivesse sobrevivido tanto. Não tinha arrependimentos, apesar dos receios.


Era chegada a hora de se despedir, mesmo sentindo o nó amargo na garganta que a sufocou quando se despediu de Tights e seus amigos. Entretanto, estava ciente de que saiyajins eram menos falantes. Queria ser rápida, mesmo se aquela fosse a última vez que os visse para ter a esperança inocente de que se reencontrariam.
Olhou-os de frente, serena:

- Se tudo der certo, nos vemos logo. - respirou fundo enquanto falava, olhando para Kakaroto em seguida. - Por favor, não use meu saco de dormir enquanto eu estiver fora. Minhas coisas estão lá...
- Eu não prometo nada. Ele tem uma boa colcha....

Ele conseguiu arrancar uma risada leve dela. Logo ela estendeu os braços de maneira inquisitiva, como se fosse abraçá-lo em mais uma de suas ações terráqueas grudentas demais para o gosto do rapaz.

- Queria ter tido mais oportunidades de agradecê-lo por me salvar tantas vezes. - e a frase soou dolorida, do tipo que só era dita uma vez na vida.

Kakaroto pareceu pacífico. Talvez estivessem em pé de igualdade naqueles termos que ela mesmo citou. Por fim ele fez uma negação simplória:

- Não seja tola, estamos quites nesse quesito. - disse baixo, deixando-se ser envolvido por ela.

Apesar do misto de sensações tristes e alegres, foi bom para a garota sentir o calor de outro ser vivo. Kakaroto deu alguns tapas ao topo de sua cabeça, como fazia com Pixel constantemente e ficaram daquele jeito alguns segundos.

Se deparar com a imagem de Kakaroto abraçando Bulma foi incomum para Vegeta, eles não eram do tipo que mantinham contato físico. Que despedida longa…

Finalmente, quando a garota se afastou do rapaz, pareceu enxugar os olhos marejados cheia de inseguranças mas um pouco mais conformada. A tranquilidade que ela sentia perto de Kakaroto fazia o príncipe deserdado se questionar mais coisas do que gostaria, mas optava por ignorar aqueles impulsos estúpidos. Ela conhecia Kakaroto a mais tempo e ele provavelmente não havia a jurado de morte logo que se conheceram... era evidente que tinham muita cumplicidade.
Logo, foi sua vez de ser encarado por Bulma. Durante um curto segundo foi como se ele não estivesse pronto para isso. Desviou os olhos dos dela rápido. Era da elite, se despediu de pessoas a vida inteira como se não fossem nada incluindo seu próprio pai... só porque tinha atração sexual por ela, não significava que com ela deveria ser diferente.
Provavelmente foi por isso que estendeu a mão para ela antes que a mesma tivesse a chance de dizer qualquer coisa. Pelo que havia observado, terráqueos eram acostumados com aquele gesto... Bulma saberia o que fazer.

E a moça observou a ação, como se processasse alguns segundos.

- Bem... - pareceu constrangida. – espero que possamos nos ver de novo. - foi breve ao aceitar o toque.

O que mais supostamente deveria dizer?

Ele estava sem as costumeiras luvas, então pode sentir textura áspera de sua pele. Talvez aquele fosse o resultado de horas de treino incansável...
E não apenas tocou-o como também envolveu sua mão com curiosidade, comparando tamanhos. A dela pareceu muito pequena de um segundo para o outro. Por que a temperatura dele estava tão gelada?

- É melhor ter cuidado com aqueles lychees traiçoeiros, principalmente se vai passar dois dias com eles. – foi a únicacoisa que Vegeta comentou, sempre objetivo. – Não se deixe ser tocada.

 

O que poderia fazer? Era o jeito dele de ser atencioso. Suavizou a própria expressão.
"Vou sentir sua falta", imaginou, tímida e orgulhosa demais para falar tal coisa.

 

Coçou a garganta, soltando-o enfim.

- Vou tentar. Até mais. - abriu um sorriso simples, sentindo amargo na boca.

Foi uma despedida superficial. Não pareceu longa e emotiva quanto à que teve com Kakaroto, mas supôs que ele devia preferir daquele jeito porque não tinham o mesmo nível de intimidade. Como queria poder ter coragem de se despedir de maneira mais apropriada.

E em suma, tão rápida quanto se despediu, esteve pronta para descer a escadaria. Não fazia ideia do que a aguardava á frente, mas sinceramente, estava cansada de esperar.

Olhou para os saiyajins uma última vez, ainda ao alto a acompanhando. Eles a seguiriam por um trajeto diferente, então supôs que também não ficariam ali por muito tempo. Foi positiva, crente de que teriam chances de se verem outra vez.

Enfim partiu rumo ao desconhecido.










A língua e as mercadorias oferecidas perto das plataformas fora de seu conhecimento fizeram Bulma se sentir como um peixe fora d'água. Sempre que passava por uma vaga nova olhava para o numeral pintado ao chão, para descobrir se estava seguindo o caminho certo. Não fazia ideia de como um modelo WAB 23 devia se parecer, então contava com a informação de onde ao lychees haviam pousado.

Foi cuidadosa ao lidar com as pessoas vindo e indo à seu redor, atenta com suas ações. Andou mais alguns metros, até quase chegar ao fim da plataforma.
Finalmente:

- Você é o garoto que vai para Ludo, não? - alguém a indagou, a atraindo.

Era Zaacro, na forma de namekuseijin em que o conheceu. Ele estava sentado sobre a rampa de sua nave principal, parecendo fumar uma erva em um tipo de cachimbo.
A expressão dele não estava amigável como antes.

- Partimos logo. - avisou. - Se acomode na nave e não cause problemas.

Ela confirmou mais uma vez se estava no lugar certo, e ao averiguar convenceu-se de que sim. Ainda assim não abandonou a desconfiança, lembrando-se de que devia ser cuidadosa e evitar ser tocada por eles.
Subiu na rampa, olhando aos redores:

- Onde está seu companheiro? - questionou ainda duvidosa ao se ver só.

Devia falar pouco, visto que não tinha uma voz grossa o bastante para convencer os outros de que realmente era um homem. O lychee bufou, repentinamente irritado:

- Seu amigo não te deu detalhes do que aconteceu? - cerrou um dos punhos, ainda humilhado.

Então eram insignificantes para o foragido louco aquele ponto.
Como poderia fingir que não estava sendo coagido a transportar aquele garoto? Bufou, batendo as cinzas de seu cachimbo na lateral da rampa, alvo do olhar dele.

- Ele nos mataria se não te levássemos. - confessou, pouco orgulhoso. - Raiti ainda está inconsciente.
- Ele fez o que?! - e Bulma paralisou.

Devia suspeitar de que o príncipe partiria para a violência, mas não achou que seria tão extremo. Estava tão desesperado assim para que o plano desse certo?

- Não me faça repetir! - Zaacro continuava rancoroso. - Esse homem deve estar mesmo obcecado por você para ter feito as coisas que fez. Malucos do caralho!

Quem em sã consciência ia para Ludo?
Não sabia se Vegeta havia dito para aquele menino que haviam descoberto sua identidade, mas preferiu não falar nada á respeito. Seria ainda mais humilhante para si, afinal, foi manipulado como uma puta mal paga.

Entretanto, na hora os sentimentos de Bulma oscilaram num misto de incredulidade e humor. Vegeta era mesmo doido... mas fez o que fez por ela. Quase como se adivinhasse, a moça sabia que ele havia feito aquilo porque Ludo era importante para ela. E o que o lychee disse só reforçou ainda mais uma das coisas que Tights a disse dias atrás: a de que Vegeta a seguiria até o inferno se fosse preciso.


Seu peito pareceu ser preenchido por algo agradável que ela não conhecia. E expectante, pela primeira vez Bulma se indagou de que maneira Vegeta poderia enxergá-la. Uma vez ele a disse que não queria criar raízes com ninguém já que não sentia afeição por outros seres vivos... mas então por que parecia ser capaz de fazer qualquer coisa por ela?


Ela havia conquistado seu respeito. Mas seria mesmo só isso?

A garota passou uma mão no rosto, o esfregando confusa. Um riso bobo escapou de seus lábios, enquanto seu coração batia mais rápido do que esperava. Não queria se perder em fantasias.

Até então ela continuava fazendo o que podia para fazer seu possível adeus se parecer com um "até logo", porque não sabia se de fato iria sobreviver para reencontrá-lo. Contudo, por um breve segundo, esteve decidida a seguir seus instintos e fazer o que seu coração mandava no presente, ignorando as próprias incertezas e censuras de que era uma garota fantasiosa.
Afinal de contas era tão óbvio que chegava a ser ridículo, ela estava apaixonada pelo monstro.

Quando deu por si já estava dizendo a Zaacro:

- Você me dá um minuto?- ergueu o dedo indicador - Eu preciso fazer algo antes de partir...

A criatura não pareceu contente com o pedido súbito, mas a lembrança do rosto desfigurado de Raiti o fez lembrar que não podia ser grosseiro demais.

- Rápido! - avisou, como se marcasse o tempo.

A moça desceu a rampa correndo, refazendo todo o trajeto que havia feito.
Não tinha um plano traçado em mente, mas depois de tudo Bulma não queria mais ir embora sem ter uma única chance de mostrar a Vegeta como se sentia. Sabia que era bobo e arriscado, talvez um impulso jovem demais. Mas Deus, ela era jovem!
Estava no auge de sua juventude e todos os dias media quase todas as suas ações com cautela, ao menos uma vez queria mandar toda a sua moderação se foder. Se havia uma possibilidade de morrer em Ludo, que ao menos fosse sem lamentações do que poderia ter feito em vida.






Vegeta continuava ao alto da escadaria. A plataforma que sua nave estava era oposta a dos lychees e Kakaroto foi na frente pegá-la. O rapaz achou que seria melhor se alguém acompanhasse o embarque da garota de longe, caso fossem enganados pelos seres. Recebeu o rastreador de localização dela, ligado diretamente ao chip implantando em seu pulso para ter noção de onde estaria. O sinal ainda estava forte, mas o príncipe deserdado não precisava mais daquele tipo de tecnologia. Ele conseguiria sentir a energia de Bulma mesmo se ela estivesse à quilômetros de distância...

Por fazer, Vegeta segurou seu antebraço para flexionar um de seus pulsos, com o punho ainda latejante graças aos socos que distribuiu. As juntas de seus dedos estavam avermelhadas. Logo abriu a mão, vendo sua própria palma. Insistentemente a lembrança recente invadiu suas memórias. Ainda podia sentir o toque de Bulma ali, impregnado.
Ele sugeriu aquele tipo de despedida formal, porém não fora nem um pouco satisfatório. Diferente de Kakaroto é verdade que não conseguia se imaginar sendo abraçado por ela, mas intimamente queria poder ter tido a sensação. Só a tocou tão proximamente quando estavam no planetoide de gelo, quando ela quase morreu de hipotermia. Não teve tempo de processar o próprio entusiasmo em suas ações na época, afinal a ocasião não o permitiu... mas o alívio que sentiu quando ela abriu os olhos e se aqueceu foram indescritíveis.
E por ser indescritível, tal lembrança o incomodava.
Ele definitivamente precisava encontrar um meio de se desvincular daquela fixação.

 


Continuaria perdido em pensamentos se não percebesse finalmente que a energia dela estava muito próxima. Franziu o cenho e olhou para a multidão abaixo da escadaria, vendo-a entre o povo. Foi difícil reconhecê-la de primeira, já que o cabelo preto a deixava apagada.
Se questionou irritadiço se os lychees tiveram a ousadia de afastá-la da nave deles, mas ela parecia estranhamente eufórica. O homem arqueou uma sobrancelha ao repousar os braços enfim, tentando compreender que tipo de reação era aquela que a garota emanava. Ela começou a escalar os degraus da escadaria em passos rápidos, como quem tinha pressa.

- O que está fazendo aqui? - a questionou á distância, vendo-a se aproximar cada vez mais. - Não me diga que mudou de ideia...

Ela riu baixo em negação, parando apenas quando estava cara á cara com ele.

- E-eu... - se embaralhou ofegante á princípio, mas se controlou. - queria ver seu rosto.

Vegeta cerrou os olhos em confusão, enquanto ela recuperava o fôlego.
A transparência costumeira de Bulma estava difícil de ser decifrada e a risada nervosa que ela deu com o que disse o fez sorrir de lado. Estranhou o pedido incomum.
Seria mais uma de suas ridículas necessidades afetivas terráqueas? Até chegou a imaginá-la se despedindo outra vez, para acrescentar mais um capítulo em seu inferno pessoal.
Aquela garota fazia todo terráqueo parecer carente.

- Para que diabos, mulher? - continuava confuso, mas sem de fato se importar em abaixar o tecido da máscara que cobria parte de seu rosto.

Era perigoso... mas era só por alguns segundos, certo?
Bulma o olhou intensamente quando ele se revelou, engolindo em seco. A maneira como foi observado minuciosamente o fez se sentir estranho.

- Satisfeita? - franziu as sobrancelhas, no automático.

Ela não disse nada.

Bem, Vegeta estava certo sobre uma coisa: humanos tinham necessidades afetivas. Porém, ele jamais seria capaz de prever o que aconteceria à seguir, quando ela se moveu.

Bulma colou seus lábios nos dele, sem incomodar-se em precisar se erguer na ponta dos pés graças ao pequeno degrau os separando. Ele mal teve tempo de executar alguma ação de defesa, distraído com a falta de hostilidade da qual ela veio. Por reflexo ergueu um dos braços para afastá-la, mas no instante final não o fez.
Percebeu que ela estava de olhos fechados, diferente de si. O leve roçar de lábios o intrigou, macios e úmidos. Nunca havia feito aquilo então realmente não compreendia que tipo de gesto era aquele. Mas não era ruim, na verdade era mais agradável do que esperou. Por isso, por alguns segundos, sentiu as pálpebras pesando ao se ver tentado em se deixar ser embalado pelas sensações...

Contudo, tão rápido quanto ela se aproximou, ela se afastou.
Mirou os olhos dele, corando ao notar que ele fazia exatamente a mesma coisa. Por instinto Vegeta a segurou pelo braço a impedindo de ir, mas no fim das contas o silêncio de sua parte apenas o fez soltá-la. O rosto perdido dele quase a fez rir.

- Tchau. - sussurrou acanhada, como se o coração fosse saltar pela boca.

E deu-o as costas depressa, voltando a descer a escadaria apressada. Vegeta provavelmente devia pensar que ela era imprudente, mas estava feliz por ter tido tanta coragem. No mais, não foi como se ele tivesse desaprovado seu comportamento. Que doce loucura cometera!


E o saiyajin apenas a viu se afastar, uma hora desaparecendo. Encostou os dedos nos próprios lábios, absorto pelo acontecido. Fora pego completamente desprevenido.
Que movimento terráqueo seria aquele? Era completamente diferente do que já havia visto.
Podia ter imaginado um milhão de coisas suspeitas a partir daquela ação, mas o que mais o incomodou foi o fato de ter se permitido gostar. Afinal, era correto presumir que o gesto se estendia até a luxúria? Porque, certamente se estivessem em qualquer outra situação ele sabia que não teria deixado-a ir, dominado pelo sentimento lascivo.


No fim seguiu em frente, sem querer se distanciar demais de objetivos. Tudo o que ele precisava fazer era esperar por Kakaroto e cuidar de Bulma de longe…
Mas pareceu difícil quando ela o consumiu de perto, o frustrando.


Por ora a certeza era uma só: Humanos eram estranhos.


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

 



Chichi ergueu o tronco bruscamente, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Por um período escutou apenas sua respiração ofegante, sentindo-se ensopada de suor e sem noção da própria realidade. Demorou a processar que estava em sua nave, se dando conta apenas quando olhou para o visor da mesma e visualizou a negritude do espaço. Logo suspirou em atenuação, passando uma mão pelo cabelo mais tranquila.

É mesmo, estava fora da atmosfera de Gilease.

Levantou-se grogue, prendendo a cama flexível em que dormia á parede de metal. Caminhou em passos lentos em direção à sua poltrona de piloto para ver o status da nave, mas durante o trajeto se distraiu com o próprio reflexo diante de um espelho. Cerrou as pestanas, erguendo os braços com suavidade ao enxergar seu corpo. Não estava cheia de hematomas como esperava depois do encontro fatídico com os três fugitivos do império.
Daquela vez a luta havia sido acirrada e para sua infelicidade, havia saído na pior. Ela foi pega e ferida pelo saiyajin chamado Kakaroto, caído metros de altura até o chão e esteve mais perto da morte do que nunca. A sequência de rememoração de eventos voltou a sufocá-la.

Deveria estar grata por estar viva, sobretudo, não conseguia sentir nenhum orgulho nisso. Simplesmente, porque ele escolheu deixá-la viver. De propósito!




Quando Chichi foi virada de barriga para cima pelo saiyajin perto de sua possível cova, foi fitada pelos olhos dele. Olhos que claramente não transmitiam segurança em suas ações.

Kakaroto sabia que prolongar o sofrimento da mulher com diálogos não era a coisa certa à se fazer, mas...

- A mordida que me deu vai deixar uma cicatriz. - e soltou impulsivo ao tocar no local ensanguentado, resmungando por sentir ardor. - Não ficarei feliz de ter uma marca que me faça lembrar de você.

Alguns saiyajins marcavam seus parceiros daquela forma, então saber que se pareceria com um homem comprometido o deixava irritadiço.

Ela continuou em silencio e o homem se amaldiçoou um instante.
Conversar com ela era como conversar com um animal irracional depois da caçada, quando capturado numa armadilha. Não parecia uma atitude piedosa de sua parte, porque sentia que aquela mulher provavelmente era só mais uma sobrevivente do império...

Desde quando começou a sentir dó de seus inimigos?! Ele só estava diante dela para acabar o que iniciara de uma vez por todas.

Mas logo relaxou os ombros tensos, sem que notasse.

- Não está com medo. - revelou o que vinha o incomodando, sentindo-a emanar o nada de sempre. - Antes de me morder você se apavorou. Mas agora, quando posso te matar à qualquer instante, não parece nem um pouco assustada. Por acaso me acha tão patético assim?

O silêncio foi sepulcral.
Mesmo numa posição hostil aonde poderia estar de frente com seu possível assassino, aquele saiyajin não conseguia soar nada ameaçador para Chichi. Ou seria ela, que já havia passado e visto coisas demais para se assombrar com a morte?

Aquelas poderiam ser suas últimas palavras...

- ...eu não tenho medo de nada. - falou entre dentes, sem esconder sua fúria.

Kakaroto franziu o cenho.

O saiyajin e terráquea se encararam por minutos que pareceram horas.

 

Logo, Kakaroto não resistiu e deu uma risada contida ao chegar a triste conclusão: a de que não estava lidando com um vilão de verdade.


Merda... talvez fosse mesmo um frouxo.

Chichi continuou a se proteger, encarando-o sem perdê-lo de vista por mais que sua visão estivesse ficando cada vez mais escura. Sentiu-se ser rondada outra vez, encurralada.
E quando ele jogou algo perto de seu rosto estremeceu imaginando que era o fim da linha. Tamanho foi seu espanto ao se deparar com uma semente esverdeada.

- É melhor engolir isto se quiser sobreviver. - sua voz saiu séria.

A mulher ficou sem reação, finalmente sem chances de prever o que aconteceria à seguir. O que era aquilo? Algum tipo de remédio? Por que estava a medicando?

- Agradeça minha misericórdia. - avisou, a dando as costas finalmente.


Por que estava a poupando?
Logo, isso a enfureceu.

- Eu não quero sua misericórdia! - a voz ralhou histérica, mesmo que seu pulmão doesse cada vez que respirava. - É melhor me matar de uma vez, eu nunca desistirei de capturá-lo.

Kakaroto fez uma negação como se ela fosse patética e isso a irou ainda mais. Cerrou um dos punhos, sentindo as folhas e o solo arenoso do chão entre a palma de sua mão.

- Não haverá uma próxima vez. Não teste mais minha paciência.

A ameaça enfim pareceu real, independente do quão pacífico ele parecia.
Todos os saiyajins eram iguais, Chichi não estava surpresa.

- Vai se foder. - foi tudo o que disse em negação, se arrastando na direção oposta, ainda crente de que conseguiria desencapsular sua nave.

Não entendia o conceito de desistir, preferia morrer tentado alcançar seus objetivos.
Mas brevemente quanto foi insistente foi interrompida, sendo puxada pelo homem por uma das pernas. Se tivesse forças para se espernear teria chutado sua virilha…
Ele a imobilizou com facilidade e agarrou sua cabeça, a forçando a abrir a boca.
A obrigou a engolir aquela semente.

Kakaroto tapou o nariz dela, até ter certeza de que ela havia engolido o feijão mágico. A asiática estava bem ferida, então queria poupá-la com a certeza de que ao menos conseguiria se virar assim que a desse as costas.

Ouviu-a grunhir como uma fera, possessa. Kakaroto imaginou que talvez não fosse boa ideia continuar mais tempo ali.

- Espero que reconheça esse gesto. - a voz dele saiu convicta, a deixando louca.- Nem todos os saiyajins são iguais.

Porém, antes de ter uma reação raivosa á resposta, a desmaiou com um golpe certeiro a apagando subitamente.




Chichi acordou horas depois, se dando conta de que estava sozinha no meio do nada. Deu um grito de raiva que ecoou por toda a floresta. Não pela derrota, sim por ter sido tratada como se tivessem o controle de até quando sua vida se estenderia. Mais uma vez...
A semente milagrosa que foi forçada a engolir realmente a deixou disposta, e prontamente concentrou toda essa disposição no propósito de alcançar seus alvos. Porém em vão. O tal saiyajin Kakaroto foi mais esperto ao se livrar do localizador dela, a fazendo perdê-los completamente de vista. Foi angustiante.

Sentou-se na poltrona enfim, de volta à estaca zero.
Parecia odiar ainda mais saiyajins, em especial aquele chamado Kakaroto. Queria matá-lo, apenas para provar a si mesma que piedade era para idiotas.


Todavia, frustrou-se rapidamente em seguida quando recordou-se de que agora tinha um novo alvo em mente, alterando completamente seus planos.


Para Chichi, um Briefs sempre seria a prioridade. Para a fortuna de sua jornada, mas também para a ruína. E justamente por isso uma lágrima solitária escorreu de sua face.

 

Nada ia ser como antes.

 


Notas Finais


A sumida voltou com um capítulo novo.

Eu adorei escrever este capítulo apesar das dificuldades. Ñ foi um capítulo de muitas perspectivas pq decidi focar no grupo principal mesmo.
Zaacro e Raiti foram canalhas q gostei de desenvolver, são o tipo de ser q adoram um dinheiro!
Kakaroto e Chichi tiveram mais um encontro fatídico, dessa vez definitivo para guiar a trama para um novo rumo. Gostei da interação deles. De alguma forma, a humanidade de Kakaroto cresce á cada dia... Ele sempre acredita no melhor lado das pessoas e é um bom mediador, é por isso q ele é um personagem tão notável. Ñ sei, mas por mais louco q o encontro tenha soado, eu shipei os dois vai kkkjk.
Tbm ñ posso esquecer de enaltecer o Vegeta, q brilhou esse capítulo. Confesso tava com sdds dessa vibe louca dele. Ele colocando os lychees para mamarem, colocando as necessidades da Bulma acima das dele e acostumado com a vida em grupo. Tão orgulhosa dessa evolução...
Talvez a despedida do trio pudesse ter sido mais emotiva, mas achei melhor assim. Com o adeus transformado em um até breve. Oq explica o título do capítulo!

E finalmente; ñ menos importante: O PRIMEIRO BEIJO DO CASAL ROLOU! ATÉ QUE ENFIM!!!
Eu já venho idealizado essa cena há um tempo e espero q tenha sido atrativa. Desde o início seria algo rápido e impulsivo da parte da Bulma, pq acho q seria a cara dela fazer algo assim. Foi singelo, com um gostinho de primeiro amor kkk. Gostei do resultado.

E se vc leu até aqui, agradeço pela leitura e paciência. Sinta-se livre para comentar!
Revisei o capítulo, mas as vezes alguns erros passam despercebidos, então peço desculpas desde já.

Bjos e até a próxima!


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...