História Amputado - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Palavras 2.609
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hello, hello!
Sei que dei uma atrasada na atualização, mas peço mil desculpas.
O final de ano foi uma correria sem fim. Para terem uma ideia, trabalhei até 28 de Dezembro.
De qualquer modo, cá estou eu com mais um capítulo deste enredo que eu tanto amo.
Chegar a mais de cento e vinte favoritos com um simples prólogo é muito emocionante. Preciso agradecer imensamente a cada favorito e comentário que recebi no capítulo anterior. Isso significa muito para mim. De verdade ♥
► O capítulo não está revisado, então desculpem qualquer erro.
Sem mais, tenham uma boa leitura!

Capítulo 2 - Ausente


Fanfic / Fanfiction Amputado - Capítulo 2 - Ausente

"Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente."

William Shakespeare.

Na brecha entre as minhas pálpebras, eu consigo enxergar um clarão indescritível, riscados verticalmente pelos meus cílios. Obrigo-me a abrir os olhos, entregando-me à luz misteriosa. Não sei ao certo se morri e estou no céu, ou se esta claridade é proveniente do sol. Percorrer minhas íris pelo teto branco alimenta ainda mais a dúvida. No entanto, assim que desço os olhos, consigo perceber que não é um nem outro.

As pessoas aqui usam jalecos azulados, cabelos presos em penteados como um rabo de cavalo ou coque, os trajando farda alva abrigam um estetoscópio ao redor do pescoço e carregam uma prancheta. Sem mais como duvidar, admito a mim mesmo que estou em um hospital. Mesmo sem me lembrar ao certo do porquê.

— Ele acordou! — o tom de voz da minha mãe aparenta ser de comemoração, não tardando a invadir o meu campo de visão limitado. — Venha, James, seu filho abriu os olhos.

Tento me sentar, no entanto, o mínimo movimento é doloroso em demasiado sobre a maca estreita. Não há uma parte de meu corpo que não esteja sensibilizada. Em especial, o lado direito arde como se lhe faltasse uma parte. A fraqueza é impiedosa e ágil. Desisto de me mover e apenas abro um sorriso amargo.

— Vamos embora, mãe.

— Ainda não podemos, Shawn. — desta vez, ela soa temerosa. — Tudo ainda é muito recente.

Seus olhos castanhos como os meus se preenchem de lágrimas de uma forma inexplicável, quando a voz embarga. Para mim, isso não faz o menor sentido. Há poucos segundos, minha mãe aparentava estar feliz.

— O que houve? O que é recente? — com uma das sobrancelhas erguidas, indago em nítida confusão.

— Shawn... — meu pai se pronuncia pela primeira vez.

O incômodo cortante na lateral de meu tronco é como uma espécie de queimação que se espalha da ponta de meus dedos dos pés ao topo de minha cabeça. Todo centímetro de mim é tomado pela dor. A palma de minha mão direita aquece, como se estivesse sob uma chama.

— Pai... pai, afaste-se. — peço quase em timbre de súplicas. — Acho que o senhor apoiou o joelho sobre a minha mão. — explico-me.

O choro extravasa olhar de minha mãe, que outrora o continha, e traça um risco extenso sobre bochecha abatida. Um soluço a escapa, instantes antes de afundar o rosto na curva do pescoço do meu pai, quem não hesita em envolvê-la em seus braços.

— ... era sobre isso que eu queria falar. — continua ele, com a voz trêmula.

— Ora, desembuche. Por que ela está chorando? — descontrolo-me com as ações e frases curtas, sendo ríspido subitamente. — Será que um dos dois pode me explicar o que está acontecendo?

— Shawn, você teve o antebraço direito amputado.

Sem preliminares, eufemismos ou mínima piedade, o meu pai cospe as palavras duras.

Sinto meus dedos se mexerem inquietos, a coceira escorrega pelo pulso a arder, e, o formigamento, perambula pela dimensão do antebraço. As sensações simultâneas somadas aos dizeres me fazem olhar para baixo e, através do vazio sob o lençol claro a partir do braço, constatar o que estava mais claro que a mais cristalina das águas: perdi um membro.

Lenta e delicadamente, ergo meus olhos trêmulos para o pai. Sem precisar dizer uma palavra, ele assente. É como se este simples gesto me dissesse "chore, meu filho". Não me lembro da última vez em que chorei, contudo, agora, dar-me por vencido ao tormento parece extremamente coerente. As lágrimas invadem meus orbes, inundando-os de imediato. A visão embaça, porém, conserta-se, assim que a primeira gota desenha seu trajeto em meu rosto. Não digo nada, permaneço a transbordar o aperto sob meu peito silenciosamente. Embora, por dentro, eu grite por socorro.

Perder uma parte tão importante de si não é como ser deixado pela namorada ou só encontrar um pé do par de meias. Há algo faltoso em mim, uma coisa que até então nunca dei valor. Como na velocidade na qual um bocejo é transmitido, meu pai também embarca nos soluços do choro. Sinto como se eu tivesse renascido. Preciso aprender a escrever novamente; usar um celular; até mesmo coisas tolas, como segurar uma xícara de chá. Era destro, autossuficiente... viril. Agora, estou fadado a precisar de ajuda até para me limpar, quando eu for ao banheiro.

Minhas lágrimas não se referem a dor física, embora incomode, sei que passará. Lamento-me pelo que ficou, por tudo o que perdi. O que me assombra é assumir que aniquilei a própria vida.

— Vamos embora, por favor. — murmuro. — Eu quero acordar na minha cama e descobrir que tudo isto não passa de um pesadelo.

— Não podemos. — a negação faz com que cerre meus olhos, não querendo enxergar o que é nítido. — Você ainda está muito suscetível a infecções, precisa ficar em análise mais alguns dias.

Viro brevemente o meu rosto para o lado, esmagando a bochecha no travesseiro pouco confortável. Espremo minhas pálpebras uma contra a outra, consequentemente, expulso mais umas lágrimas que ali repousavam. Nunca tive crença, entretanto, neste ápice de fragilidade, pedir forças a Deus é de grande consolo.

Em forma de resposta, algo em meu interior sussurra quietamente que, ao invés de triste, devo me sentir aliviado por, ao menos, estar vivo.

Duas semanas depois.

O tempo não ameniza a dor;

envolve-a em seus laços e amadurece

aqueles quem a sentem.

Debruçado sobre o braço esquerdo fletido à janela, assisto a paisagem variar pelo vidro, enquanto o carro se movimenta. O veículo tem cheiro de baunilha. Não me lembrava mais como era extremamente doce o aroma que minha mãe espirrava todos os dias aqui dentro. A estação de músicas countries no rádio, a qual o pai escuta diariamente, dá espaço aos meus ritmos de pop e rock. Talvez ele ache que me deixar escutando músicas de meu agrado faça com que eu me sinta menos pior pela perda. Mesmo que não. O que ameniza é a simplicidade da melodia ser boa.

Cantarolo algumas canções as quais reconheço, durante o percurso. Retorno à postura ereta, no momento em que percebo em qual rua adentramos. Finalmente, posso afirmar que chegamos. Encaro a minha casa com a pintura brevemente descascada e a janela do andar de cima escancarada, como de praxe. Minha mãe diz que deixar as venezianas abertas traz novos ares ao ambiente, mas não acredito nisso. Abro um sorriso largo em meus lábios, ao imaginar a maciez de meu colchão e o cheiro de comida velha no quarto voltarem ao meu alcance.

Meus dedos falham ao fisgar o pino da porta para destrancá-la. Preencho os pulmões de ar e esvazio-os pesadamente, na tentativa de transferir a raiva súbita. Por sorte, meu pai destrava todos os trincos do carro de uma só vez. Escorrego a mão para a maçaneta e puxo-a sem jeito, afastando o metal com o braço arduamente. Sem que eu possa perceber, minha mãe termina de abrir a porta para que eu desça. Reviro os olhos, um tanto impaciente.

— Eu estava conseguindo abri-la. — reprovo o auxílio.

— Desculpe-me.

— Sem problemas. — tento consertar a atitude estupida e desnecessária com quem se prestou de bom grado. — Sei que não fez por mal, mas eu preciso aprender a me virar sozinho.

Ela sorri e assente, esperançosa. Passo uma das pernas para fora, tocando-a no chão e, sem mais tardar, repito os movimentos com a outra. Não tenho muita dificuldade para ficar de pé. Com o traseiro, empurro a porta para trás e escuto o estalo de ser fechada. Um sorriso nasce no canto dos meus lábios. Primeira conquista depois de amputado.

Dou um leve disparo em direção à entrada de casa. Neste mísero segundo, qualquer dor que eu possa sentir se esvai. A ansiedade me conquista. É tão bom estar aqui. O odor prazeroso de um bolo a assar invade as minhas narinas. O estômago ronca com o aroma. Preciso deste sabor, ainda estou traumatizado com a comida sem gosto do hospital. Meus dedos circundam o formato cilíndrico da maçaneta antiga e arriscam-se a enroscá-la. Uma sequência de pigarros de garganta me interrompe.

— Shawn...

A voz que me invade é familiar, porém não pode ser quem eu penso que é. Viro-me abruptamente para desvendá-la.

Se havia algum mínimo sorriso desenhando os meus lábios, ele se dissolveu de forma imediata.

— Bridget.

— Acho melhor deixá-los a sós. — diz a mãe, ao se retirar.

Sinto como se seu olhar me penetrasse. Ela varre os olhos em todas as partes de mim, deixando surgir um sorriso amarelo. Uma de suas mãos ruma os cachos volumosos, pegando um para si e enrolando-o em um dos dedos.

— Você está... — interrompo-a.

— Sem um braço. Fico feliz que tenha notado.

O sarcasmo é a minha melhor defesa agora, embora, sinceramente, a minha vontade seja de estrangulá-la agora. Se bem que eu jamais faria isso. Nem sequer levanto a voz para uma mulher, quem dirá agredir. Principalmente, alguma que já tenha me feito tão bem e sido tão especial para mim. No entanto, ao que tudo indica, só eu me sentia assim.

— E-eu pretendia dizer que você estava vivo. — defende-se.

— Se você tivesse voltado para ver como eu estava no dia da corrida, saberia que sim. Ou ligado para o hospital. — minhas palavras lhe servem como um banho de água fria. — Achei que você se importasse comigo.

Suas íris negras rumam o chão. Os braços acastanhados, os quais abrigam uma sacola plástica da mercearia no final da rua, cruzam-se sob peito, e os dedos coçam a pele.

— Eu liguei. Quero dizer... o Stew ligou, quando você estava sendo operado. — seu nome me soa como um baita xingamento. — Disse que, naquele instante, sua mão tinha sido amputada, mas que o seu quadro era bem... delicado.

— Não ouse dizer o nome daquele traíra. — as palavras escapam de meus lábios com certa rispidez. — Isto tudo é culpa dele.

— Ele não tem culpa, você capotou... — torno a interrompê-la.

— Você o defende? Bridget, francamente. — o  tom arrogante cede ao de decepção. — Ele me empurrou. Não uma, mas inúmeras vezes.

Devido à pouca distância entre nós, consigo ouvi-la engolir em seco. Seu olhar permanece perdido, posso notar o medo de me encarar nos olhos. Por mais que eu fixe meus orbes em seu rosto, a namorada — ou ex-namorada, não sei mais ao certo — faz questão de desviar os dela. A de cabelos cacheados morde a parte de dentro da bochecha, escolhendo bem as palavras.

— Vocês deveriam conversar. St... Ele — policia-se — deve ter tido algum motivo louvável para fazer o que fez.

— Não consigo pensar em nenhum motivo digno para quase matar o cara quem chamava de melhor amigo. — esforço-me para conter a nuance dura, mas falho completamente. — Não quero falar sobre ele. O meu problema é com você. Por que não ligou? Ou escreveu? Se eu não chegasse no momento em que estava no mercado, você não viria me ver?

— Eu não estava preparada... ainda não estou. Shawn, agora, você... — ela morde o próprio lábio. — Tudo é complicado.

Por mais que eu possa relutar, as lágrimas invadem os meus olhos.

— O bom de perder o braço foi perceber que o que eu sint... — corrijo-me — sentia por você não era recíproco. — sinto como se um pequeno ser habitasse o meu peito e esmagasse o meu coração com toda a sua força, partindo-o em mil pedaços.

— Ma-mas, Shawn, eu te amo.

— Isso não é amor. — viro-me novamente em direção à porta. — Boa tarde, Bridget. Obrigado pela visita.

Enquanto os meus pés me guiam pelo caminho de cimento entre o gramado verde, posso escutar alguns ruídos de uma respiração. Talvez ela esteja chorando, ou resmungando por ter sido eu quem terminei tudo. Com toda minha sinceridade, não tenho o menor interesse em saber. Continuo caminhando a passos lentos até a entrada, a qual minha mãe deixou entreaberta.

Afasto ligeiramente a madeira, permitindo a minha passagem. Antes de entrar, inclino o rosto para que eu possa vê-la ainda parada em meu jardim. Aceno com um levantar de sobrancelhas e um sorriso que não releva os dentes. Sem mais tardar, entro. Empurro a porta com a mão esquerda e ouço-a bater estrondosamente. Segunda conquista, ou quase.

Rumo à cozinha arrumada, ainda envolto ao cheiro delicioso do bolo recém-saído do forno. Uma lasca já foi tirada e presumo que tenha sido de meu pai. Puxo a cadeira encaixada à mesa para trás com uma boa quantidade de esforço. Não me lembrava desta ser tão pesada. Vou à pia, dedilho as alças das gavetas e envolvo a debaixo, arrastando-a para mim. Pego uma faca e um garfo. Elevo o braço para o armário, pegando o primeiro prato da pilha de louças e, em seguida, retorno à mesa.

Sento, sem dificuldade. Toco a lâmina na massa macia e esfarelo-a sem querer. Cesso os movimentos, retomando-os após uma suspirada a fim da busca pela coragem. Numa escorregada só, fatio o bolo. Observo o pedaço quebradiço. Divirto-me ao recordar que também não era tão bom em cortar as coisas com a mão direita.

— Shawn! — a voz estridente da mãe quase rasga os meus tímpanos. — Por que não me chamou? Mexer com faca é perigoso.

— Já perdi um braço, posso perder mais um dedo. — debocho.

O humor ácido sempre foi o meu vício, no entanto, acredito que, neste instante, meu senso esteja um pouco mais aguçado. Fazer piada de mim mesmo é o único jeito de amenizar o que estou sentindo, apesar de saber que nada consiga diminuir esta sensação. Pelo menos, conseguirei conviver com a perda. Fui capaz de alcançar dois objetivos: fechar a porta do carro e a de casa. Gestos tolos, contudo o bastante para mim.

Minha mãe pega o garfo sobre a mesa e traz a fatia desfigurada para o prato. Sem ousar pedir permissão, ela se senta ao meu lado e faz menção a me servir o bolo na boca.

— Mamãe, a senhora já me ajudou muito no hospital. Eu preciso fazer isso sozinho. — ela concorda com a cabeça e deixa o garfo ao meu alcance. — Não posso depender de vocês para sempre. Eu consigo.

Enrosco os quatro dedos ao redor do tridente metálico e empurro-o sob o bolo fofo. Sem o menor jeito, levanto o talher e, trêmulo, derrubo o conteúdo sobre ele. Respiro fundo. O olhar de minha mãe vigia atentamente cada movimento que eu me ponho a fazer. Insisto em erguer o garfo, e, de novo, o pedaço cai. Solto uma leve risadinha. Espeto as pontas na massa e levo-a até a boca.

Os olhos castanhos se preenchem de lágrimas, e os lábios abrem um sorriso amplo e orgulhoso para mim. Sinto a palma de sua mão aquecer meu antebraço em um apertão doce.

— Parabéns, meu filho!

Com o próprio grafo, parto parcialmente a fatia estraçalhada e espeto outra das pequenas lascas. Mastigo a que está em minha boca e, ao engoli-la, preencho-a mais uma vez. Ouço a campainha tocar. Fico surpreso com a visita, ninguém nunca vem à minha casa. Os meus pais não são muito sociáveis, seus amigos são, em sua maioria, do trabalho, e eles evitam ao máximo encontrá-los fora do escritório.

Minha mãe fica de pé para atender a porta, mas, da própria escada, meu pai acena.

— Podem deixar que eu atendo. — prontifica-se.

A chefe da casa dá com os ombros em semblante de alívio e senta-se na cadeira ao meu lado outra vez. Admiramo-nos, confidentes, e insisto em devorar o que me resta do bolo. A massa macia, o exagero no açúcar, o gostinho de laranja bem suave. Impressionante como em tão pouco tempo consegui sentir falta de coisas tão simples. Interrompendo-nos, meu pai se aproxima da entrada da cozinha.

— Filho, o Stew está aqui. Ele disse que queria lhe ver.


Notas Finais


Muito obrigada por lerem o que eu escrevo.
Atualização vem em breve!

► Teaser da Fanfic • https://www.youtube.com/watch?v=tscRM4-FKDo
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Todo amor,
Lali


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