História Amputado - Capítulo 4


Escrita por: ~

Visualizações 781
Palavras 4.379
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oi, pessoas lindas!
Cá estou eu com mais uma atualização! Desta vez, não demorei. Amém, obrigada, senhor.
Quero agradecer aos mais de 200 favoritos! Isso significa MUITO pra mim. De verdade. Quero agradecer também a cada comentário que tenho recebido, eles têm me deixado ainda mais apaixonada pela história. Obrigada! Sendo assim, dedico cada palavra aqui escrita a vocês que leem o que escrevo ♥
► Não revisei antes de postar, então desculpem os erros;
► Agora temos um Teaser maravilhoso feito pela Anna (@annabelia) — link nas notas finais;
► Recomendo que leiam este escutando Lost Stars - Adam Levine.
Boa leitura!

Capítulo 4 - Chance


Fanfic / Fanfiction Amputado - Capítulo 4 - Chance

"Quem não tiver medo de ser alegre e experimentar uma vez sequer a alegria doida

e profunda terá o melhor de nossa verdade."

Clarice Lispector.

Há três dias, não saio do quarto. Sobre a mesa do computador há uma barra de chocolate pela metade; sob meus orbes, grossas olheiras arroxeadas decoram meu rosto. As palavras de Heather permanecem na minha cabeça. Como um martelo a apertar um prego, elas me diminuem. Talvez a garçonete esteja certa.

Sei que errei em surtar, principalmente em público. Agi como um idiota, ao responder agressivamente quem só queria me ajudar. Tenho muitos defeitos, mas o pior deles é não saber reconhecer as próprias falhas. Analisando as coisas que não faço certo, assumo a mim mesmo que tenho uma bela parcela de culpa na ausência do antebraço. De fato, se o Stew não me empurrasse, eu não cairia, no entanto, se eu ficasse em casa estudando cálculo, ao invés de estar em um racha, não correria o risco.

Meus dias têm se resumido em comer, usar o computador e dormir. Os livros de contabilidade se mantêm fechados, bem como as folhas do caderno perduram em branco. Devido à falta de mensagens da ex-namorada, chego à conclusão de que minha escolha foi certa. Não era amor. Pelo menos, assim, não preciso mentir a dizer que estou bem. Ando cabisbaixo, vazio.

Entretanto, sei que viver nesta inércia agravará minha solidão.

Comer. Computador. Dormir.

Comer.

Vez ou outra, minha mãe abre a porta do quarto e avisa que fez um bolo diferente ou biscoitos caseiros. Enquanto cozinha guloseimas, papai se ocupa com o almoço. Feito por ele de muito bom grado, ontem jantamos steak. Por ser uma preparação cara e de minha preferência, reconheço que ele tenha feito exclusivamente para me deixar mais feliz.

Computador.

Por mais que jogar online seja difícil com uma só mão, aprendi a me virar. O obstáculo me fez gostar mais das redes sociais. Os textos cansativos sobre política dão espaço às inúmeras mensagens de incentivo. Até mesmo a reitora da faculdade postou no mural de meu Facebook um recado motivacional. Ao menos, o acidente me mostrou que muitas pessoas se importam comigo. Até mesmo aquelas com quem mal converso. "Gratidão" e "otimismo" são as palavras que mais escrevem.

Dormir.

Com o celular na mão, sair da cama é como uma espécie de tortura. O cobertor sobre meu corpo junto aos olhos cerrados; preciso de pouco para me entregar ao cansaço. Meu tronco relaxa, tranquiliza-me, acalmando gradativamente a dor. Ao que tudo indica, conforme o tempo passar, melhor eu me sentirei.

Talvez eu deva tentar enxergar o que estou passando por outros olhos. Quiçá os de Heather.

Agora, mais uma vez, o nome da atendente perambula pelos meus pensamentos. Mesmo que eu não tenha o costume de assumir os próprios erros, preciso melhorar este aspecto. Odeio meu jeito prepotente, quero mudá-lo. Começarei por ela.

Levanto-me da cadeira em frente à mesa do computador, minimizando a página da Internet. Meu dedo desliga o monitor, em seguida, quebra um pedaço do chocolate e leva à boca. Encaro o espelho ao lado da porta. Desde que voltei do hospital, olhar meu reflexo incomoda em demasiado. Porém, por incrível que pareça, hoje não me fere tanto assim. Liberto um suspiro forte e ruidoso, como se este gesto tolo me trouxesse coragem. Cerro minha mão em punho, aprisionando a tensão. Às pressas, abro a porta e desço as escadas.

No andar de baixo, ouço o barulho de talheres se chocando na cozinha. Presumo que minha mãe esteja arrumando a mesa para o almoço. Sinto-me culpado por sair a essa hora. Não pretendo demorar na rua, além do mais, preciso aproveitar a explosão súbita de bravura.

— Mamãe, darei uma saída. — informo-a, ao invés de perguntar.

— Agora? — dói por dentro negar algo à minha mãe. Ela sempre faz tudo por mim. — Seu pai está terminando de preparar o macarrão, já arrumei a mesa...

— Na volta, comerei. Serei breve. — esforçar-me-ei para isso. — Obrigado, mãe! Eu amo vocês!

Sem dar tempo de ouvir uma resposta, abro a porta de mal jeito e saio, batendo a madeira ao fechá-la. Nem sequer me preocupei em trocar de roupa. Sei que não estou muito bem vestido, mas bermuda, camisa simples e tênis sempre são adequados. O celular no bolso de trás insiste em vibrar. Desbloqueio a tela, aguardando algum sinal vital de Stewart.

A única conversa que tivemos foi ontem. Duas mensagens trocadas penas. "Desculpe-me pela grosseria, mano. Eu surtei." e "Relaxe, cara. Imagino como deve ser intenso o que está passando.", apenas.

Com o caminho da cafeteria decorado, meus pés se movem rapidamente pelo asfalto. Sou acostumado a andar no meio rua desde que meu avô, um policial aposentado, quando eu era criança, contou-me que a melhor maneira para se andar é na rua e acompanhado, deste modo, se o grupo se dividir, consegue despistar um possível ladrão. Evito as calçadas desde então, para a constante preocupação de minha mãe. Embalado pelos devaneios, chego à loja.

Desta vez, ninguém se prontifica a abrir a porta para mim ou puxar uma cadeira para me sentar, sou só mais um. Talvez mais um que eles não gostariam de receber. Olho para trás do balcão e, mesmo sem avistá-la, aproximo-me. A morena com os cabelos curtinhos me encara rapidamente, retornando o olhar à cliente diante de si. De supetão, a coragem invade meu corpo, e os lábios começam a se mover involuntariamente.

— Srta... — verifico o crachá — Harper — aparentemente, além da beleza, começar com "H" também é um critério da seleção. —, peço desculpas pela maneira grotesca como lhe tratei. Fui um estupido. Desculpe-me.

Formando um silêncio em meio ao atendimento, os olhos escuros migraram para mim. Um sorriso tímido surge em seu rosto, seguido por uma assentida.

— Sem problemas, senhor. — depara-se novamente à madame. — Desculpe-me, pode repetir, por gentileza?

Percorro os olhos pela loja movimentada. Avisto todos os funcionários, menos a moça dos cabelos acobreados e lábios grossos. Sem conseguir pensar em algo melhor, interrompo, mais uma vez, a morena.

— Perdoem-me de novo. — ambos os pares de orbes migram para minha direção. — A Heather está de folga hoje?

— Ela trabalha à tarde, senhor. — a chama de esperança dentro de mim se apaga, como sob um sopro certeiro. — No entanto, não se preocupe, Barakat costuma chegar um pouco mais cedo.

— Voltarei mais tarde. Obrigado, sim? — assim que ela confirma com a cabeça, viro-me para a porta.

Stewart estava certo, a atendente loira é realmente muito bonita. Com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, seu maxilar demarcado fica em evidência, assim como a largura de seus ombros. Aceno à garçonete de fios claros, no momento em que me preparo para sair.

D'outro lado da porta de vidro, o tom alaranjado se faz presente. Ironicamente, o sorriso que surge em meus lábios desaparece dos dela, como se eu o tivesse roubado. Cedo espaço para que ela abra a porta, em um ato respeitoso de cavalheirismo. Todas as palavras que ensaiei dizer a ela se embolam. Não consigo organizá-las de forma compreensível, nem, muito menos, escolhê-las de maneira adequada.

— Heather. — é tudo o que consigo dizer.

— Amargurado. — ironiza.

— Shawn. — corrijo-a. — Sou o Shawn.

— Shawn. — repete o meu nome, fazendo menção a decorá-lo.

Encontrei alguém mais irônico e sacana que eu. Heather Bara-alguma-coisa me supera nas provocações. Todavia, não estou aqui para julgá-la. Preciso reconhecer os meus erros, ser uma pessoa melhor. Esta é uma das conquistas a fazer.

— Posso ajudá-lo? — indaga, após meu longo silêncio em busca das palavras.

— Não. — replico às pressas. — Quero dizer, sim, mas não com café. Eu não sei como fazer isso...

Pedir desculpas à outra atendente foi simples, ela não olhava em meus olhos. O barulho dos clientes poderia ser um álibi de que aquela conversa nunca existiu, na possibilidade de não ser perdoado. Agora é diferente. Somos só eu e ela. Minha feição serena contra a entediada dela. Sua prepotência versus a minha insegurança.

— Preciso me arrumar para o trabalho, senhor Shawn... — interrompo-a, num ato repentino de destemor.

— ...e eu preciso que me desculpe.

A face desgostosa se racha.

— Como?

— Você acertou, quando disse que eu estava sendo mal-agradecido. — os trincados em seu rosto se rompem, como uma máscara enfraquecida, e caem os estilhaços. A ruiva congela, prestando total atenção no que digo. — Estar vivo é um milagre, deveria estar contente por isso. Porém, Heather, enganou-se quanto a uma coisa...

— Eu? — ergue uma das sobrancelhas acastanhadas.

— Minha amargura tem conserto. — posso ouvir uma risada baixa, quase em tom de sussurro. — Mas preciso de você. Como lhe disse naquele dia, não faz ideia de como é ser deficiente, contudo, sei nada sobre como é ser positivista. Podemos nos unir.

A cara de poucos amigos não a abandona. Pensei ter quebrado gelo entre nós, nada obstante ela não se comove. Sem saber o que fazer, abro um sorriso como última tentativa.

— Quer que eu lhe ensine a ser positivo? É só parar de pensar em si mesmo e olhar o mundo ao seu redor. — não hesita antes de alfinetar.

— Heather, quero que me ensine a enxergar as coisas com os seus olhos.

Uma das sobrancelhas castanhas se eleva. Ela revira os orbes esverdeados, como quem esteja prestes a se arrepender de algo que dirá, e abre um doce sorriso na carranca contraditoriamente angelical.

— Tudo bem. — ela puxa uma caneta do bolso e, com a outra mão, fisga o guardanapo da mesa mais próxima. Seus dedos anotam alguma coisa ali, apoiando o papel na própria pele, estendendo-o de volta na minha direção. — Este é o meu número. Pode me chamar no WhatsApp, quando quiser.

— Ainda não sei digitar com a mão esquerda. — confidencio.

— Mande um áudio. — ela é rápida. — Para eu lhe ajudar, você precisa se esforçar também.

Confirmo com a cabeça.

— Tenho que me arrumar. — seu tom é de lamento.

— E eu almoçar. — assente a moça dos fios acobreados. — Obrigado!

Meus pés me levam para casa. A mente ansiosa recapitula o que Heather me disse. Olhar o mundo em volta. Suspiro. Perambulo meus olhos pelo asfalto recém-colocado, migro-os aos gramados vívidos, observo uma borboleta pousar em uma flor delicada e abro um sorriso nos lábios. Erguendo o olhar para o céu, vejo que não há uma nuvem sequer, só a imensidão azul, despida de branco. Neste instante simplório, sinto-me abraçado.

Heather estava certa. Reparar no entorno me faz mais feliz. Analisando a minha casa, embora não seja a mais moderna ou bonita da rua, ela é bem acolhedora. Minha mãe juntou muitos salários para fazê-la como sempre sonhou. Depois que se casou e eu nasci, as preocupações mudaram. Dar-me um futuro digno sempre foi prioridade deles. Assim como mostrá-los que o investimento no meu futuro é válido será a minha. Mesmo que, por enquanto, tenha fracassado nesta missão.

Dois dias depois.

Falta é a sensação de ausência;

saudade é o termo que se refere a uma perda constante,

à dor que sucumbe, porém, algumas vezes, persiste.

A gargalhada em frente à tela de meu celular é alta. Há um bom tempo não ria tanto com alguém quanto me divirto ao conversar com Heather. A garçonete se arrepende amargamente por ter me pedido para lhe enviar áudio. Empolgo-me nos pensamentos e os minutos passam em uma espécie de correria, enquanto pressiono a superfície sensível.

"Seis minutos e vinte e três segundos? Shawn, não escutarei isso. Está louco?", dispara. "Isso não é uma mensagem, é amostra de tortura."

— Eu sei que gosta de ouvir a minha voz. — aperto mais uma vez e envio.

O desenho de microfone fica azul, e comemoro o esforço para me ouvir.

"Você fala como se estivesse imóvel, está inerte porque quer." Ela sempre é sincera, por mais que doa em alguns momentos, isso é confortante. "Preciso sair, Shawn. Faça algo que lhe agrade, procure um amigo."

— Obrigado por me indicar Orphan Black, estou viciado. Sarah é minha nova melhor amiga, não preciso de mais ninguém... até que eu termine a segunda temporada.

"Boa sorte com o Torrent."

Solto mais uma risada ruidosa e repouso o celular ao meu lado. Deitado na cama, assisto a série que passa em meu computador. O tenebroso momento chega mais rápido do que eu esperava: o último episódio. Em questão de segundos, a sensação de tédio me possui.

Abro o meu WhatsApp e desço a lista de conversas. Encontrar um amigo não é tão fácil, não quando as melhores atitudes vêm de pessoas das quais não me lembro nome. Talvez este seja o momento em que eu deva tentar fazer novas amizades. No entanto, antes de abandonar as antigas, preciso dar mais uma chance a elas. Peço a Siri que encontre Stewart.

— Mano, quer vir aqui em casa? — pressiono a tela e começo, organizando os pensamentos. — Pensei em jogarmos Call Of Duty, você pode ser minha arma.

Sob seu nome, a mensagem de que estava gravando um áudio se faz presente.

— Poxa, hoje nem dá. Tenho que fazer uma parada hoje. — responde entre suspiros.

— Se essa "parada" tem a ver com traficar, só lhe aconselho que saia enquanto é tempo. — aconselho, sem o menor remorso. Mesmo depois de tudo, Stew ainda é muito importante para mim. — Essas pessoas são barra pesada, um piso em falso e você está morto.

Envio. Ele visualiza. A resposta não vem. Nego com a cabeça, reprovando completamente a atitude. Coloco o celular no colchão e migro a mão para os cabelos, os quais bagunço.

​Mais tarde, cansado de encarar o teto, contando quantas rachaduras há em sua brancura, bufo. Destravo o telefone e tomo a certeza de que está tarde demais para chamar Heather. É provável que ela acorde cedo, não quero atrapalhá-la. Carregaria a culpa por toda manhã, no caso de um atraso ou problema decorrente da noite mal dormida. Ao menos, se eu puder digitar, amanhã ela poderá lê-la e responder quando quiser. Rumo à quinta conquista. Encaro o ícone verde e toco sobre ele. O teclado se abre. Solto um suspiro forte, tomando coragem. Meu dedo indicador dispara sobre as letras acesas. Sem pensar bem, apenas escrevo lentamente.

— Sei que deve estar dormindo agora — leio num sibilo e retorno para corrigir um erro —, mas quero lhe agradecer mais uma vez. Além disso, estou entediado e preciso de outro conselho... — conserto mais uma letra perdida na frase. — para ser positivo e encontrar outra motivação. Boa noite! — envio, receoso.

Antes que eu possa baixar o aparelho, o celular vibra.

Heather me enviou um áudio.

— Não estou conseguindo dormir, pode falar. — suas palavras saem seguidas por bocejos. — Parabéns por ter conseguido digitar! O que está fazendo?

— Encarando o teto e pensando no que posso fazer para sair da bad.

Ela ri. Ou a sequência de letras aleatórias significam algo que eu desconheça.

— Puxe um assunto, por favor. — peço por gravação.

— Procurou algum amigo ou fez algo diferente de assistir série? — indaga, fazendo meus olhos revirarem.

— Outro assunto, por favor. — quase imploro.

— Com quantos anos você perdeu a virgindade?

Todas as expressões de meu rosto somem. Se ela estivesse à minha frente agora, eu afundaria a cabeça no chão como um avestruz. Minhas bochechas fervem, posso ter a certeza de que estou mais vermelho que um tomate. Toco no espaço de "play" para ter a certeza do quê acabei de ouvir. Confirmo a pergunta descarada e gargalho. Eu recuso a responder isso. Aliás, como ela me pergunta um negócio desses?

— Meu melhor amigo virou traficante. Nem sei mais se é meu amigo, na verdade. — volto ao assunto outrora ignorado. — Aquele da cafeteria, lembra-se? Está metido com coisas perigosas, e meus alertas não surtem efeitos. A minha ex-namorada não sente minha falta, nem se quer perguntou se estou bem... — envio.

— Mentira? Ele me pareceu tão sensato... Nossa! Não se culpe, Shawn, você, pelo menos, tentou alerta-lo. — conforta-me.

Em seguida, chega outra mensagem.

— Se a sua ex não lhe procura, pense que deu sorte de ter se livrado dela. — seu tom sai com empolgação. — Menos uma pessoa vazia ao seu lado. Comemore!

— Não é tão fácil assim... mas prometo me esforçar. — solto um bocejo.

Sob seu nome, aparece que está a gravar um áudio. Aguardo sua chegada, no entanto, não vem. Não sei se ela grava e apaga ou se o áudio ultrapassará os segundos de todos os meus somados.

— É melhor dormirmos, Shawn. — conclui, depois de tantos bocejos libertos, durante a breve conversa. — Encontre-me amanhã antes do trabalho, podemos encontrar alguma coisa que você goste de fazer fora de casa, nem que seja um esporte.

— Heather, as vezes você esquece que eu sou... especial. — opto por um eufemismo, não ser, mais uma vez, "o amargurado".

— Existem inúmeros esportes com inclusão, Shawn. Encontraremos o seu. — é tão estranha a maneira como suas palavras me confortam e incentivam.

Abro um sorriso com o canto dos lábios, encarando o celular e aceno com a cabeça, como se ela pudesse me ver.

— Tudo bem, como quiser. — outro bocejo me escapa. — Onde você mora? — envio.

— Ops! O Dallas acordou, preciso ir. — ergo uma das sobrancelhas. Se eu fosse o namorado dela, ferveria em ciúmes ao saber que minha namorada conversa com um garoto de madrugada. Onde eu estava com a cabeça ao chamá-la neste horário? — Moro no centro com a minha tia, então posso lhe encontrar onde preferir.

— Na própria cafeteria, então. É melhor dormirmos. Obrigado mais uma vez! Desculpe-me pela hora.

Coloco o celular debaixo do travesseiro, sem me lembrar de travá-lo. Penso no tempo que perdurarei acordado em meio à escuridão, mas um bocejo longo me sequestra antes que o período fosse calculado. Embarco em um sono pesado e, paradoxalmente, leve, o qual me embala até a manhã. Os sonhos oscilam. Ora felizes, ora confusos. Em todos eles há um roteiro, como se eu os dirigisse. Sou o personagem e diretor, eu quem dito as regras. Tudo devido às minhas escolhas.

Quando abro os meus olhos novamente, está de manhã. O ponto de interrogação gigante em minha mente faz a cabeça pesar. Passo a mão no rosto e, em seguida, capturo o telefone sob a fronha. Ciente de que estava na hora de ir, levanto-me da cama e sigo ao armário. Poderia pegar a primeira roupa pela frente, no entanto, usar a mesma do dia anterior não é o muito higiênico.

Vestido e de dentes escovados, desço as escadas e vejo minha mãe deitada no sofá. Aproximo-me e, cuidadosamente, acordo-a. Os olhos castanhos se abrem junto a um sorriso. Sei que eu poderia sair sem avisa-la, mas não quero lhe dar nenhuma preocupação a mais.

— Mãe... — murmuro calmamente —, vou dar uma volta, ok? Chegarei para o almoço.

— Tudo bem, meu filho.

Ergo uma das sobrancelhas.

— Não perguntará aonde vou? — ela nega com a cabeça.

— Fico feliz só pelo fato de querer sair por conta própria. — senti-me na beirada do sofá. — Só quero o melhor para você. Isso que me importa.

Curvo-me para beijar a testa lisa, e, enquanto meu lábio pressiona sua pele, ela fecha os olhos.

— Eu te amo, mãe.

Com seu sibilo de "também te amo", levanto-me e saio. Caminho pelo asfalto mais uma vez e sigo à loja. A rua está vazia, provavelmente por ser manhã de sábado. Um vento sutil passeia pelo meu rosto e chacoalha meus cabelos. Chego à cafeteria e observo o movimento de dentro, antes que eu possa me preparar para esperá-la, lá está Heather.

Sorrio para a moça dos feios ruivos, e os lábios grossos se abrem de volta.

Aproximo-me, e, juntos, seguimos sem um rumo específico. A garçonete afirma que um esporte poderá me animar. Não consigo pensar em uma pessoa sem braço jogando futebol, ou vôlei. É como se cada deficiência combinasse com uma categoria específica. Qual será a minha? É provável que nem exista. Heather diz que sabe exatamente aonde devemos ir.

Sem perguntar muito, acompanho-a e obedeço-a. Ela me leva a uma escola de natação. As gotas de água da piscina respingam para fora, no momento em que converso com o professor. Gentilmente, o homem sugere uma aula experimental. Sob os olhares esperançosos e verdes de Heather, não tenho muito como fugir. Agradeço a atenção do moço e despeço-me. Conversando sobre assuntos aleatórios, retornamos a rua, no entanto, de súbito, as lembranças do dia anterior me invadem.

— O seu namorado ficou chateado pela hora em que lhe chamei? — interrompo o diálogo sobre natação. — Não sabia que estava acompanhada, desculpe-me. No lugar dele, morreria de ciúmes.

— Namorado? — seu semblante é confuso.

— Dallas. — explico-me, recordando-a dos áudios da noite.

Os ruídos de sua gargalhadas são altos. Diria até histéricos. Sem entender o motivo da graça, encaro a ruiva se divertir, como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo.

— Shawn, Dallas é o meu cachorro. — dou risada da minha própria falha. — Um Yorkshire.

Cerro os olhos, possuído pelo vexame e entrego-me às gargalhadas. Balanço a cabeça, reprovando minha atitude tola, e insisto em rir. No entanto, o sorriso em meu rosto desaparece em questão de segundos. Ambos os meus olhos se arregalam, como se, quanto maiores, melhor pudessem enxergar. Tudo o que eu mais quero agora é não enxergar. A abertura em meus lábios é inevitável. Minha falta de ação faz com que Heather olhe na mesma direção em que eu.

Apesar de ela não saber precisamente o que busca, permaneço a encarar os cachos volumosos e impecáveis, aqueles que sempre amei, enrolarem-se nos dedos de Stew, enquanto a outra mão está repousada sobre o bolso traseiro da calça jeans da morena. Os rostos grudados dificultam a distinção de qual boca pertence a quem. No entanto, eu as reconheceria de qualquer lugar.

Meu ex-melhor amigo está aos beijos com a minha ex-namorada em plena manhã, em frente à porta de casa. Não preciso de muito para ter a certeza de que Bridget dormiu ali. Pisco, incrédulo. O que vejo não pode ser real, porém é. Talvez ela prefira as comparações de mulher a animais, ao invés dos meus poemas sem rimas. Parece que eles esmagam o meu coração, esfarelando-o e fazendo-me sangrar por dentro. A dor é cortante, forte e avassaladora. Na mesma intensidade, meus olhos se preenchem de lágrimas.

— Ah, não assistirei a essa cena quieto. — sigo em direção ao casal que se beija, mas minha blusa é puxada para trás. — Heather, solte-me. Isto não tem nada a ver com você.

— Isso tem a ver comigo, sim. — posso ouvi-la bufar. — Você pediu para que eu lhe ajudasse. Meter-se ali não melhorará em nada. — suas mãos agora abrigam meus ombros. — Pelo contrário.

— Não... — protesto mais uma vez. — Faz ideia do tamanho da traição? Há menos de um mês, eles estavam comigo. — permito-me chorar, sem constrangimento em conceber ao meu corpo a pousa às suas súplicas.

— Shawn, por favor, vamos! — sinto meu tronco ser empurrado para frente. — Não vale a pena assistir à essa tristeza.

— Stew... Shawn, os nomes, realmente, são parecidos. De repente, ela tem fetiche pela letra S. — crio a hipótese ridícula na cabeça. — Na noite da corrida, ele disse alguma coisa sobre apostá-la. É provável que, desde aquela época, eles estivessem se envolvendo.

— Não se preocupe com isso. Deixe o passado no passado, você está melhor sem eles. — tenta me consolar.

— Eu sou tão burro! — dou com a mão esquerda na minha testa e reviro o rosto. — Você viu o beijo... Eles estavam apaixonados. Como nunca percebi os olhares? Talvez o acidente tenha sido calculado para que pudessem ficar juntos. — continuo a especular, em forma de resmungue.

As palavras saem de minha boca embargadas de dor. Não sou capaz de contá-las ou entendê-las, acredito que este seja o motivo pelo qual a feição de Heather é confusa. Os olhos verdes vibram de encontro aos meus, como se se esforçassem para me acompanhar por mais difícil que fosse. Penso em cessar as frases que me escapam, mas, neste instante, os movimentos de minha boca são involuntários. Não paro de tagarelar sobre o quão nervoso estou após ter visto a mulher com quem passei meses ao lado namorando amigo irresponsável que se tornou traficante.

Sem dizer nada, porém com os olhos ainda inquietos, ambas as mãos de Heather seguram em meu maxilar e puxam-me para mais perto de si. Num ato de coragem, seus lábios tocam os meus, e, consequentemente, a sequência até então interminável de palavras se interrompe. A raiva que percorria as minhas veias dá espaço a um misto de curiosidade e surpresa. Não retribuo o beijo, não obstante me mantenho os olhos abertos e o corpo estático. Não há magia, só o toque de lábios embalados pela dança exagerada de meu coração entre os pulmões. 

Talvez seja minha pouca ação que a assuste, mas, em questão de segundos, sua boca se afasta da minha, bem como seus olhos se abrem. Percebo o seu colo se elevar e murchar seguidamente. Suas mãos se apertam, na verdade, praticamente, esmagam-se. Ela engole em seco ao me encarar.

— Desculpe-me. — dispara, quase como um reflexo.

Fui um completo estupido. Na tentativa de consertar as coisas, com a mão esquerda, invado seus fios ruivos, embrenhando-os em meus dedos e aproximo o meu rosto de novo. Consigo sentir sua respiração aquecer meus lábios, contudo, antes que eu pudesse tocá-los nos dela, Heather inclina o rosto, desviando, assim, o olhar.

— Não. — sua voz soa tão baixa que fica quase inaudível.

— O que houve? — mordo meu próprio lábio. — Eu quem devo pedir desculpas...

— Não é isso, Shawn. Não tem clima. — ergo uma das sobrancelhas. — Você está chateado por causa da sua ex-namorada..., não quero ser um prêmio de consolação, só fiz aquilo porque foi a única maneira que consegui pensar para que parasse de falar.

Solto uma gargalhada ruidosa.

— Quer que eu volte a tagarelar, então?

Ela balança a cabeça, chacoalhando os cabelos acobreados, os quais abandono lentamente, e liberta uma risada contida.

— Não seja bobo, Shawn. Se um dia nós nos beijarmos... digo, de verdade — ela sela os lábios em minha bochecha com certa agilidade —, saberá o momento certo. Preciso me arrumar, trabalho mais tarde. Fique bem.

Assisto a ruiva se distanciar brevemente. Se Bridget não tivesse o partido em mil pedaços, eu diria que Heather leva meu coração consigo. Por mais estranho que possa parecer, vê-la sumir em meio às pessoas na calçada é angustiante. Dilacera-me. Não estou apaixonado por ela, nem nada do tipo, mas, sem sombra de dúvidas, sua ausência me deixa vazio.


Notas Finais


Muito obrigada por lerem até aqui!
Tentarei não atrasar muito a próxima atualização.

► Teaser da Fanfic • https://www.youtube.com/watch?v=tscRM4-FKDo
OBS. Para ver o vídeo pelo celular, coloque o aparelho em modo desktop e abra o YouTube pelo navegador, ao invés do aplicativo.

Com amor,
Lali


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