História Amputado - Capítulo 6


Escrita por: ~

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Palavras 3.722
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hello, hello!
Sei que estou postando este capítulo meio adiantada, porque atualizei há três dias, mas estou muito ansiosa com este capítulo e quero muito mostrá-lo para vocês.
É aqui que "a história começa", então, peço, por favor, que se atentem aos detalhes porque tudo neste capítulo é importantíssimo para os demais e, consequentemente, o final da história.
► Como atualizei rápido, demorarei um pouco mais com o próximo para que todos consigam acompanhar o ritmo das postagens;
► Ella aparece mais uma vez na história, o link de Suíte permanecerá nas notas finais;
► Assistam o teaser, porque estou realmente apaixonada.
Boa leitura!

Capítulo 6 - Metamorfose


Fanfic / Fanfiction Amputado - Capítulo 6 - Metamorfose

"A alma é uma borboleta: há um instante em que uma voz nos diz que chegou

o momento de uma grande metamorfose."

Rubem Alves.​

 

Os olhos esverdeados se espremem, bem como a testa franze. Posso perceber a ruiva resmungar alguma coisa que não sou capaz de decifrar ao certo. Antes que possa dizer qualquer coisa, percebo meu corpo ser arrastado pela mão até o burburinho.

No instante em que me dou conta do que está prestes a acontecer, as palavras já escapam os lábios exagerados da garçonete. É tarde demais. Nada pode pará-la.

— Com licença. — interrompe a conversa entre o professor e a mãe de Stella, quem não fazemos ideia do nome. Nem sequer me importa, sinceramente.

— Heather, por favor... — tento detê-la, pela última vez.

Em vão.

— A senhora me desculpe, mas, estávamos passando por aqui, quando pude escutar frases bem infelizes vindas da madame. — começa, fazendo-me engolir em seco. — Se você estava se referindo ao Shawn como aberração, saiba que ele é perfeito. A única coisa monstruosa aqui é o seu preconceito.

Golpeia-a impiedosamente com as palavras. Um sorriso nasce meu rosto. Não sei ao certo se o motivo foi a resposta atravessada ou o fato de ter sido chamado de perfeito. Sei que ela não usou a palavra na conotação de um elogio, mas minhas bochechas se esticam de modo involuntário só por existir esta opção.

— Perdoe-me, querida. — o tom da mulher é de desgosto. — Quem é você?

— Um ser humano... um ser humano que respeita outro. Ao contrário de você. — a ruiva respira fundo, passando ambas as mãos no rosto. — Olhe, senhora, não gosto de arrumar confusão, então, direi uma única coisa: tome cuidado para que a sua filha não se torne uma mulher desprezível como você, preconceituosa e retrógrada, diria até vazia. A "sua pequena Stella" pareceu ter adorado o Shawn. Assim como todos quem o conhecem. Dizem que as crianças refletem a imagem dos pais, espero que ela nunca se espelhe em você. Boa noite!

Ela nega com a cabeça, puxando-me novamente pelo braço e, mais uma vez, obtém todo o poder sobre mim. Sou guiado à saída, contudo, antes de irmos de vez, Heather vira o rosto para os dois e finaliza:

— Ralf, faça a coisa certa. — seu timbre é de súplica.

Assim que piso os pés fora da academia, solto uma gargalhada, descrente com o que presenciei. Sem gritar ou estapear a mãe de Stella, a ruiva a destruiu. O semblante desafiador se espatifou no chão, deixando os pedaços em lugares inalcançáveis. Aquela mulher não conseguirá recuperar seus fragmentos. Ainda em meio às risadas, rumo o olhar à moça dos lábios exagerados.

— Não acredito no que acabou de fazer! — disparo, ainda risonho.

— Ainda mantive a classe, era para eu ter enfiado a mão na cara dela. — cospe as palavras em repulsa.

— Acho que o que você falou dói muito mais que um nocaute.

Ela ri, rumando o olhar para o chão. Desvio o meu para o lado. A rua esta noite está vazia. Uma brisa suave balança brevemente as folhas das árvores e movimenta cuidadosamente os meus cabelos. Se não existisse os postes, o pavimento continuaria claro sob a luminosidade da enorme lua no céu.

— Quer dizer que me acha perfeito? — alfineto. A de fios acobreados revira os olhos.

— Completo. — corrige-me. — Perfeito no sentido de estar em perfeito estado, não de não ter defeito.

— Tenho defeitos? Nossa, que elogio. — brinco, roubando uma doce gargalhada dela.

— Todo mundo tem defeito.

— Você não. — sem ser capaz de conter as palavras na boca, disparo.

Os olhos verdes se arregalam, ao mesmo tempo em que solta uma risada grave.

— O que eu mais tenho nesta vida é defeito, Shawn. — ergo uma das sobrancelhas. — Sou intrometida, impulsiva, desorganizada...

— Se você enxerga esse tanto de problema em si mesma, o que vê em mim?

— Esperança.

Meus passos cessam. Todas as ações possíveis se vão, a única atitude que consigo tomar é permitir que um sorriso nasça em meus lábios.

— Vejo uma oportunidade em você. — continua. — Você tem um problema tão pequeno, não pode se odiar por uma coisa tão... superficial. Você é mais que um menino sem braço, Shawn.

Eu queria não me emocionar, contudo, com essas palavras certeiras, é praticamente impossível.

— Por que você é assim? Digo... mente aberta.

— A história da minha família é complicada. Meu avô e a minha avó foram casados por anos, aí, quando a vovó faleceu, ele se casou de novo. Porém, as minhas tias desgostavam da mulher... — assinto, demonstrando interesse. — Para piorar, ocorreu uma gravidez indesejada. Acredito que por ser tardia, a minha tia nasceu com síndrome de down, essa com quem moro junto. Todas as filhas a desprezavam muito, menos a minha mãe.

— E-eu nunca poderia imaginar algo assim.

— O que mais me magoa é pensar que as pessoas são tão preconceituosas que ela nunca namorou ninguém. — seus olhos marejam, o que causa o mesmo efeito em mim. — Shawn, ela é tão linda e inteligente. Você precisa conhecê-la. Como morávamos em Vancouver, vínhamos nos finais de semana para Seattle fazer companhia a ela. Tia Alice é a melhor pessoa quem já conheci.

A lágrima que banhava o tom esverdeado escapole do olhar e trilha para baixo em questão de segundos. Rasga o meu peito vê-la chorar. Porém, depois do tanto de choro meu que ela ajudou, não tem nada mais justo que deixar toda sua mágoa engasgada sair.

— Eu matei os meus pais, Shawn. — balbucia entre os soluços. — Se eu tivesse acendido as velas com cuidado antes de sair, minha casa não teria pego fogo. Mas não. Eu deixei a merda acesa ao lado da cortina e fui encontrar com um garoto. Fui completamente inconsequente.

— Oh, Heather, claro que não. — o desespero toma conta de mim. — Você não tem culpa, foi um acidente.

— Tento me convencer disso todas as noites, Shawn. — murmura com tamanho pesar.

Chuto uma pequena pedrinha para frente, tentando transferir toda a minha incerteza para aquele movimento brusco. Suspiro ao perceber que nada que eu diga conseguirá melhorar a maneira como a ruiva se sente.

— Eu queria muito dizer alguma coisa confortante agora, mas realmente não sei o quê. — confesso, seguido por mais uma arfada tensa.

— Não precisa. Tentar lhe ajudar me conforta, provo a mim mesma que não sou uma pessoa ruim.

Congelo. Não posso deixar que ela pense que é menos do que maravilhosa. Se não fosse pela Heather, eu ainda estaria deitado na minha cama, esperando a morte vir me buscar. Tudo que eu fiz foi por puro incentivo dela.

Estamos na esquina da minha casa, não posso deixar que ela vá embora sem saber o quanto foi importante para mim nos últimos dias. Seguro seu braço, fazendo-a parar e, consequentemente, olhar-me nos olhos. Os orbes verdes transmitem dor. Isso é tudo o que não quero que ela sinta.

— Heather, você é incrível. Não há nada de ruim aí dentro. Eu não teria conseguido nada disso sem você. — meus olhos observam os pequeninos pontos de luz nos dela.

Seus lábios exagerados se comprimem num sorriso contido.

— Quando saí daquela piscina e você disse que estava orgulhosa de mim, eu senti algo que eu não sentia há muito tempo. — empolgo-me no desabafo. — Aquele foi o momento em que me senti vivo. Ele só existiu por sua causa. Eu devo tudo a você. Então, obrigado.

— Shawn, não precisa agradecer. — a ruiva desvia o olhar para o chão asfaltado. — O mérito é todo seu.

— Não. — seguro em seu braço, a fim de fazê-la olhar para mim. — Se cheguei até aqui foi por causa do seu incentivo. Você quem me fez enxergar o mundo de uma maneira diferente. Heather, você acreditou em mim, quando nem eu mesmo acreditava...

Os orbes esverdeados vibram com as minhas palavras. É como se ela estivesse petrificada, parada em frente a mim, sem dizer nada. O mais estranho desse olhar que penetra é o fato de conseguir me enxergar no reflexo da pupila. Estou nela. Acredito que ela também esteja em mim. Alguma coisa parece revirar em meu interior, talvez essa seja a tão famosa sensação de borboletas no estômago. Respiro fundo, na tentativa de retomar o controle de meu próprio corpo.

— Obrigado. — é tudo que eu consigo dizer.

Preencho meu pulmão de ar e esvazio-o de forma pesada. Seus olhos insistem em ficar presos aos meus. O castanho no verde. O verde no castanho. Minha mão está trêmula, assim como o restante do corpo. As malditas borboletas batem as asas inquietamente dentro de mim. Nunca tinha sentido algo tão agonizante.

— Shawn, agradeça-me de verdade.

Sem aviso prévio, a distância entre nossos corpos desaparece. Os lábios exagerados encontram os meus. Minha mão invade os fios alaranjados, embrenhando-os em meus dedos e aproximo-nos ainda mais, se é que isso é possível. Em forma de resposta, uma de suas mãos pressiona a minha cintura, enquanto a outra toma um pouco de cabelo para si. Nossos lábios se entreabrem, permitindo a passagem de nossas línguas, e, no momento em que elas se tocam, todas as borboletas me escapam, entorpecendo cada parte do meu corpo ao fugirem.

A mágica faltosa no outro beijo se faz presente agora. Não era o momento. Agora é.

Quem sabe estivesse errado e as borboletas não estavam em meu estômago, eu era a borboleta recém-formada a escapar do casulo, a qual devia amadurecer para conseguir voar. Este é o meu voo. A tão esperada carta de alforria. O meu momento com ela. Somos um só. O ritmo do deslize delicado de nossas bocas é feito pelo pulsar de nossos corações. Quando o ar faz falta, separo nossos lábios e afasto-nos, ofegante.

— Obrigado.

— Obrigada.

As íris verdes são quase imperceptíveis sob a pupila imensamente dilatada. Uno as nossas testas, sentindo, por alguns instantes, o toque sutil de sua respiração contra os meus lábios. Sem mais tardar, colo-os mais uma vez nos dela. Meu coração pulsa desesperado entre os pulmões, o que faz com que o ar saia trôpego.

Finalmente, num ato ágil de bravura, faço o inferior dos lábios exagerados refém de meus dentes e, cuidadosamente, mordisco-o. Céus! Senti vontade de fazer isto desde a primeira vez em que a vi.

Uma de suas mãos esmaga os dedos contra minha camisa, riscando de modo suave a pele abaixo. Engraçado que o mísero deslize da unha em mim é capaz de fazer meu corpo se arrepiar por completo. Acho que, em toda minha vida, nunca me senti assim com um simples beijo.

Com a mesma mão que aperta o tecido, ela me empurra de modo sutil para trás, o que faz com que nossas bocas se separem. Também posso chamar este movimento ágil de tortura. A respiração desesperada foge de minhas narinas, e a única atitude que sou capaz de tomar é sorrir.

— Shawn, Ella está me esperando... Eu preciso ir. — as palavras saem pausadamente, como se ela buscasse fôlego para libertá-las.

— Obrigado. — solto outra risada sem jeito. — Boa noite, Heather.

— Boa noite, ... sr. Esperança.

Aumento a distância entre nossos corpos. Meus pés me guiam para dentro de casa. Antes de entrar, viro-me para a ruiva parada ali, com as mãos cobrindo os lábios, aceno para ela e reprimo o sorriso no rosto. Os fios acobreados voam com a brisa delicado, enquanto assente. Sem mais, entro.

De todas as certezas que eu já tive, aquele momento não foi só um beijo. Foi o instante em que as correntes invisíveis que me prendiam ao passado se desprenderam. Estou livre de mágoas e rancor, voltei a ter as rédeas de mim mesmo. O maior problema, agora, é tentar ignorar o gosto dos lábios exagerados e não rebobinar o beijo fascinante a cada segundo.

Com a cabeça afundada no travesseiro, obrigo-me a dormir. No entanto, assim que fecho os olhos, enxergo Heather com sua risada doce, a qual faz com que os olhos verdes se espremam. Preciso ter a ciência de que não vou conseguir tirar essa garota da cabeça. Não depois de tudo que aconteceu.

Na manhã seguinte, levanto-me disposto e desço as escadas para tomar café-da-manhã. Como de praxe, minha mãe faz bolo. Devoro as migalhas, ao mesmo tempo em que conto a ela sobre a aula de natação. Abstraio a atitude patética da mãe de Stella e relato apenas as conquistas.

Talvez pela minha tamanha timidez, eu não tenha coragem de mandar nenhuma mensagem à ruiva, nem ido ao café. Sei que é patético, mas nunca fiquei sem reação perto de uma menina. Não que fosse algum tipo de garanhão, longe disso, contudo, eu me virava bem com as meninas do colégio. Como entrei namorando na faculdade, nunca dei muita bola a quem se insinuava. Todavia, com Heather é diferente. Tudo é diferente com ela.

A aula de natação seria amanhã, no entanto, com o mal-entendido de ontem, acredito que o quanto antes eu resolva as coisas melhor. Com isso em mente, saio para conversar com o professor. Passando em frente à cafeteria, certifico-me de que a ruiva não está ali e sigo direto.

O plano de ser invisível teria dado certo, se a voz familiar não chamasse meu nome. Não a voz que eu gostaria de ouvir.

— Shawn?

— Bridget? — não paro de andar para lhe a devida atenção. — Estou meio ocupado. Aconteceu alguma coisa?

— Não, eu só... quis lhe dar um “oi”. — acena ao léu e encaixa as mãos no bolso do short jeans.

— Oi. — retruco, seco. — Tchau.

Dou de ombros e insisto nos passos certos à academia.

— Fico feliz que esteja bem. — posso ouvi-la gritar, conforme me afasto.

Viro brevemente o meu rosto para avistá-la e abro um sorriso falso no rosto. Se estou bem, sem sombra de dúvidas, não devo isso à ela nem às atitudes mesquinhas. Vê-la me causa calafrios e repulsa. Como consegui namorar uma pessoa assim e nunca perceber o caráter duvidoso?

— Obrigado.

Sem olhar para trás, continuo a seguir. Aos poucos, começo a me aproximar, dobro a esquina e, finalmente, chego. É impressionante como, quando estamos ansiosos, as coisas parecem demorar mais que o normal. Cumprimento os funcionários da recepção e procuro, em meio aos professores próximos à piscina, Ralf.

Perto da cantina, vejo ao longe meu mentor conversando com uma moça de físico atlético, provavelmente a dona de todo o estabelecimento. Ao julgar pelas expressões tensas, o assunto não me aparenta ser dos melhores. Achego, silenciosamente, e os dois ficam interrompem o diálogo.

— Bom dia, desculpem-me pela interrupção. — a morena nega com a cabeça.

— Você deve ser o famoso Sean! — dispara, de modo simpático.

— Na verdade, é Shawn, mas, sim, sou eu.

Acredito que minha vergonha esteja estampada em cada célula no meu rosto.

— Eu lhe chamei pelo nome errado ontem a aula inteira e você não disse nada? — ele ri, arrancando uma gargalhada de mim também. — Shawn é um garoto prodígio, Elizabeth.

— Consigo ver. Ele tem um porte bom para o esporte. — seus enormes olhos negros percorrem todo meu corpo vestido. — Já pensou em ser paratetla?

Ergo uma das sobrancelhas.

— Eu mal consigo nadar, senhora. — solto uma risada contido. — Inclusive, Ralf, foi sobre isso que eu vim falar com você.

— Olhe, sobre ontem, saiba que a opinião de senhora Tottenham não representa em nada a opinião de ninguém da empresa... — interrompo-o.

— Eu queria uma turma especial para mim. Sou deficiente, não iniciante.

Os dois param e entreolham-se. Não sei ao certo o motivo pelo qual o clima pesou, entretanto, a certeza em minhas palavras se mantém. Relaxo os ombros, mostrando minha vulnerabilidade total às opiniões contrárias deles.

— Seria uma honra, Shawn! — a morena dos fios lisos e compridos diz em tom sincero. — Só tem um problema... as turmas aqui na academia têm, no mínimo, dois alunos.

Meus lábios se esticam rapidamente, traçando um desenho largo no rosto. Nada poderia ser mais coerente do que a ideia que vem à minha mente.

— Eu conheço alguém para nadar comigo.

Uma semana depois.

Transformações podem ser pequenas ou grandes;

perceptíveis ou não; mas, cada uma delas,

 em sua dimensão e intensidade, é essencial.

Com o corpo afundado n’água, bato as pernas me mantendo sob o controle da situação. Alice se agarra às arraias, inquieta, e observa a sobrinha sentada com Ella ao seu lado na arquibancada.  Os olhos verdes estão completamente marejados, não sei ao certo por minha causa ou pela tia, mas esta é a sua expressão de orgulho.

Do mesmo modo que na aula em que as crianças acompanharam comigo, começamos a treinar com movimentos circulares nos braços. Giramos até que todos os músculos ali presentes gritassem e, em seguida, ensaiamos o bater das pernas. Sem mais preliminares, começamos a nadar de fato. Desta vez, mesmo com dificuldade, consigo chegar ao outro lado.

— Muito bem, Alice! — parabeniza-a. — Agora voltem, venham os dois! — ordena o professor.

Tia Alice me olha, um tanto exausta, e abre um sorriso nos lábios. Heather estava certa, ela é realmente muito linda. Os olhos verdes são iguais, não há quem negue o parentesco. O sorriso puro demonstra a felicidade de estar em companhia.

Preparados, abandonamos a borda e nadamos de volta ao ponto inicial. Os pulmões clamam silenciosamente por ar. O fôlego faltoso me orgulha, pois é apenas um dos vestígios positivos de meu esforço. Assim que sinto a parede tocar os meus dedos, trago o rosto à superfície.

— Isso é tudo, pessoal! Foi maravilhoso! Consegui cansar bastante vocês.

E como, professor.

— Parabéns, tia Alice! Estou muito orgulhosa de você! — dispara Heather à nossa espera, na escada, com a toalha na mão.

Ajudo a tia galgar os degraus metálicos. Ela se envolve no tecido quentinho e sorri para mim, em forma de agradecimento. Sem tardar, saio d’água. Caminho até a arquibancada, cumprimento Ella com um sorriso sutil e pego minha toalha.  Seco-me devagar, sob a vigia dos olhos esverdeados.

Não sei explicar o que tenho com Heather. Desde o dia em que nos beijamos pela primeira vez, outros dois momentos aconteceram. Todos foram de iniciativa dela. Fico inseguro de agir em falso e ela se incomodar com alguma coisa. Tento sempre me manter são. Por mais difícil que seja.

Quando a ruiva se aproxima demais, a minha vontade é de atacá-la. Cada movimento dos lábios exagerados é uma espécie de tortura perdurar distante. Heather é desprendida, não precisa de rótulos, e eu acabei de sair de um relacionamento razoavelmente longo, então tudo entre nós acontece sem pressa. Nos momentos ditados por ela. Gosto do modo como comanda.

— Shawn Mendes. — a voz da dona da academia dispersa meus devaneios.

Viro-me para encontrar de onde vem o chamado.

— Oi, Elizabeth. — respiro fundo, preciso disso depois do tanto que nadei. — Fiz algo de errado?

— Gosto da sua determinação. — sorrio, sem saber ao certo aonde quer chegar. — Tem certeza que não quer ser paratleta?

— Mas, Eliz... — interrompe-me.

— Sei que precisa treinar bastante, porém vejo grande potencial em você. Basta querer.

Meu corpo congela, bem como o estomago revira. Jamais poderia imaginar que a minha manhã teria emoções tão fortes. Sem fazer nenhum tipo de ação, exceto arregalar os olhos, a resposta vem da ruiva.

— Ele quer.

— Heather? Você tem ideia que... — ela me interrompe.

— Você conseguirá, Shawn. Eu tenho certeza que sim. — suas palavras roubam um sorriso de meu rosto. — E, caso, em algum momento, você pense que não, estarei aqui para lhe lembrar de que você é capaz.

Ambas as mãos da garçonete de fios alaranjados repousam em meus ombros. Este é um exemplo perfeito dos ínfimos instantes em que a vontade de beijá-la me consome. Contrariando meus instintos, apenas assinto.

— Eu aceito, Elizabeth. — digo, esperançoso. — Darei o meu melhor, mas não crie muitas expectativas. — desabafo, em um ato falho de bravura.

— Já criei. — ela dá uma piscadela para mim e vira-se ao professor. — Ralf, pode pegar pesado com o garoto.

Divirto-me com a atitude. Abraço a tia Alice, em comemoração, em seguida, a Ella e, por último, Heather. Seu cheiro invade as minhas narinas, hipnotizando-me. Meus lábios passeiam pela pele macia de sua bochecha e deixo um beijo na região.

Antes que meu corpo a demonstre meus desejos secretos, trato de me vestir. Acompanho Ella e tia Alice até o ponto de ônibus. Assim que a condução chega, elas se vão, e eu e Heather seguimos em direção à cafeteria. O silencio também nos faz companhia, como de praxe. Contudo, expulso-o rapidamente.

— A sua tia me parece muito legal... — observo. — Ela tem os olhos verdes iguais aos seus.

— Tia Alice é maravilhosa, estava um pouco tímida. Com o tempo, você perceberá como ela é um amor. — é possível notar o tamanho do carinho que Heather sente ao falar da tia.

— Acredito que nas próximas aulas, como estaremos sozinhos, ela se solte. — a ruiva assente. — Ora! Chegamos, garçonete. É melhor entrar antes que se atrase.

— Ok, paratleta. Boa tarde!

Ela se vira para entrar e dá um paro em direção à porta.

— Espere. — a ruiva para. — Você se esqueceu de uma coisa.

Pela primeira vez, seguro-a pelo braço, trazendo-a para mim. Nossos corpos se chocam e as respirações se descontrolam. Nossos olhares se prendem um no do outro. O castanho no verde. O verde no castanho. Sem mais protelar, toco os meus lábios nos exagerados dela.

Como na vez de antes, sinto meu estômago se preencher de borboletas. Minha mão sobe para os fios acobreados e puxa-os de leve. O ritmo de nossas línguas é agitado, sincrônico e único. Somos mais do que uma erupção vulcânica, um fervor louco que se espalha ou roupas no chão.

Nosso encontro é algo inédito, como o momento de sentir que todo o mundo parou, as pessoas são extintas, e só existe nós dois. Nossos corações desesperados. Nossas respirações falhas. Um só sentimento, um até então desconhecido por mim.

Num súbito instante, os lábios exagerados se apossam de meu inferior e rompe-nos, sugando-o cuidadosamente, ao nos afastar de vez. Heather assente, em despedida. Imito seu movimento, mordendo a parte de dentro da bochecha. Ela sorri abobalhada, acena, aparentemente entorpecida, e entra na loja. Ao menos, não sou eu que me sinto assim.

Sigo para casa, com o interior clamando por comida. O cheiro do almoço impregna cada canto da sala. Sentados, os três, na cozinha, iniciamos a refeição. Os assuntos aleatórios do trabalho e algumas cobranças quanto à faculdade se fazem presentes. Ansioso pela reação da família, quando me perguntam sobre os planos para o futuro, disparo:

— Não preciso mais da contabilidade, mãe. Descobri outra forma de ganhar dinheiro, serei paratleta.  


Notas Finais


TEVE BEIJOOOO! TIVERAM TRÊS FUCKING BEIJOS E EU SHIPPO MUITO, SIM! Quem quiser conhecer mais sobre a tia Alice, não se preocupe, ela estará nos demais capítulos, então ainda a veremos muito por aqui. ♥
Mais uma vez, muito obrigada por lerem até aqui!
Com amor,
Lali

► Suíte, por Andressa • https://spiritfanfics.com/historia/suite-8152119
► Teaser da Fanfic • https://www.youtube.com/watch?v=tscRM4-FKDo
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