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História An Angel's Smile - Capítulo 2


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Notas do Autor


"But thanks for your time
Then you can thank me for mine
And after that's said
Forget it"
(Sixto Rodriguez — Forget It)

Capítulo 2 - Por Enquanto


Fanfic / Fanfiction An Angel's Smile - Capítulo 2 - Por Enquanto

Poeira da estrada, barulho do motor ligado e muita trepidação. Esses eram os três principais elementos inerentes à longa viagem que Murillo vivenciara até aqui. Sentado em uma das poltronas do ônibus da viação Rainha dos Prados, o cheiro do amaciante vindo das roupas de uma das ocupantes do expresso ressoava em suas narinas trazendo uma sensação imediata de conforto e nostalgia, talvez essa tenha sido a única percepção positiva sentida por ele nas últimas nove horas desde que partiu da rodoviária da cidade onde morava.

Apesar de todos os infortúnios de ter de se viajar pelas estradas esburacadas do país, a hora da chegada se aproximava. "Finalmente", pensou ele, pois só quem viaja em ônibus pinga-pinga (aquele que pára a cada estaca na beira da estrada para receber novos passageiros em sua tripulação) é que conhece a noção do quão desagradável é essa travessia. O início até que foi tranquilo, mas chegou uma hora em que o cheiro vindo do banheiro do veículo ultrapassou os limites do tolerável, aliado a isso, o fato de que Murillo não consegue dormir enquanto viaja e seu assento era bem no fundo do ônibus. Ao menos teve com quem conversar durante o trajeto. Um senhor simpático conta a ele sobre seus filhos que hoje também estudam na mesma cidade de Murillo.

Murillo tinha 23 anos e era magro, alto e tinha cabelos loiros e olhos claros, também tinha um nariz avantajado com uma aerodinâmica que o permitia respirar mais oxigênio do que a média. Havia se mudado para a cidade grande para estudar ciências da computação, onde se formou e acabou ficando por lá mesmo visto que oportunidades de trabalho são mais frequentes nos grandes centros do que em cidades minúsculas que em geral nem apareciam no mapa, como era o caso do seu destino de hoje. Era alguém que adorava filmes de terror, bandas de rock e escrever poemas. Solteiro, não levava muito jeito com as garotas, apesar de nunca ter se importado muito com isso.

Já era o final da tarde e ao desembarcar na pequena rodoviária de sua cidade-natal, Murillo respira fundo e tenta alcançar todo o ar possível com seus pulmões, é o cheiro do ar fresco, algo que há várias horas já não sentia. De lá é preciso pegar uma carona até a casa de seus pais, já que vivia em uma vila um pouco afastada da cidade. Para sua sorte, havia um cidadão que pilotava uma camionete Toyota Bandeirante parado não muito distante do ponto de chegada do rapaz.

— Vai para a vila, moleque? — Pergunta o motorista.

— Sim, no vicinal 13, próximo do rincão dos banhados. — Responde o garoto.

— Sobe aí na caçamba, te levo pra lá num instante, só espera um pouquinho, a patroa foi no mercado, logo já deve estar de volta. — Diz o condutor da máquina.

E como esperado, não demorou muito para a madame aparecer com duas sacolas de compras, principalmente legumes e verduras, uma em cada mão. Ela coloca as embalagens dentro do compartimento da cabine, sobe no carro. O motorista auxilia o rapaz a colocar suas bagagens na carroceria da condução e então, após Murillo subir na traseira do veículo, ele fecha a tampa, se dirige até o volante e dá a partida no veículo. Bom, ter os cabelos ao ar livre em uma trajetória de estrada de chão batido que fazia tudo balançar era bem menos pior do que passar tantas horas trancado dentro daquele ônibus caindo aos pedaços. E de compensação ainda tinha a vista das paisagens bucólicas do interior onde o próprio cresceu. Galinhas passando pelo meio da estrada, vacas pastando pelos campos e até um cachorro que não pode ver ninguém passar sem fazer um escândalo.

Murillo já se sentia em casa naquele lugar, afinal conhecia os proprietários de todas as residências daquela região por nome e sobrenome. Em lugares pequenos e isolados como a vila onde seus pais viviam, fofocas e histórias eram regra na vizinhança. Após passar por pelo menos quatro fazendas, três pequenos lagos, uma igreja e um cemitério, enfim chega ao seu destino. Antes de partir, ele pergunta ao condutor quanto ele cobraria pelo trajeto e o homem responde o que puder contribuir. O jovem rapaz retira do bolso da calça jeans que vestia um bilhete de 20 reais e entrega ao generoso motorista que agora ele conhecia por Jeremias. Eles se despedem e então ao chegar à casa de sua família, os cachorros correm felizes e passam a rodeá-lo e pular sobre seus joelhos em sinal de felicidade.

Ele entra pelo portão, cumprimenta seus familiares e então leva suas bagagens para seu velho quarto.

— Como foi a viagem, meu filho? — Pergunta a sua mãe ao chegar na porta.

— Ah, cansativa, como sempre, não consegui dormir no ônibus e tinha um cara que roncava com um trator perto de mim, não via a hora de chegar. E aí, como estão as coisas por aqui? — Questiona o menino, ainda arrumando suas coisas.

Sua mãe o olha com uma expressão um pouco aborrecida, apertando os lábios juntos com força e então responde:

— As notícias não são muito boas, mas não vamos falar disso agora. Se ajeite aí, por enquanto, está com fome? Quer comer alguma coisa? — Pergunta a mãe preocupada.

— Está tudo bem, eu fiz um lanche durante uma das paradas do ônibus na estrada, se bem que esses restaurantes em postos de gasolina onde o ônibus sempre pára custam os olhos da cara. Só comi mesmo um pacote de bolachas. — Responde o moleque.

— Vou preparar um pão com salame para você matar a fome, se quiser pode tirar uma soneca, pode descansar agora. — Sugere a matriarca.

— Obrigado, mãe. — Responde Murillo.

E então após o lanche ele decide aceitar a sugestão de sua mãe e dar uma descansada, já que o cérebro não trabalha direito quando a gente não dorme.

O resto do dia foi tranquilo, brincar com os cachorros, que eram dois vira-latas hiperativos, um com pêlos negros e detalhes em branco na face enquanto o outro, já bem mais vivido, tinha pêlos da cor caramelo; andar pelo quintal; visitar um galinheiro no fundo da residência, espalhar farelo de milho moído para alimentar as famintas aves. No final do dia, após a janta, Murillo se senta em uma velha cadeira de balanço que um dia pertenceu ao seu finado avô.

Ouvindo as cantigas cantaroladas pelo coral de grilos no quintal, iluminado pelo luar de um céu estrelado, o personagem já não aguentava de curiosidade, e quis saber um pouco mais sobre as más notícias que sua mãe havia comentado mais cedo:

— Mãe, o que foi que aconteceu? Você disse que algo inesperado havia ocorrido?

Seu pai também estava sentado ali na varanda, é ele quem decide tomar iniciativa:

— Semana passada eu fui ao médico, estava sentindo muita dor para caminhar, tontura. Fiz os exames e apareceu um tumor na imagem, a doutora disse que o caso é grave, já está entrando em metástase e se espalhando. É câncer de próstata, e o tratamento precisaria começar urgentemente para ter uma forma de salvação, além do mais, tem uma cirurgia para fazer. Mas o problema é o custo, ela disse que se for para esperar pelo sistema único posso demorar até anos na fila, o único jeito é o privado, mas nossas economias não são suficientes. Você sabe, a gente não tem parentes ricos, a vizinhança aqui é muito humilde também...

Murillo não segura o sentimento de pessimismo ao ouvir isso da boca de seu pai. De fato, mesmo que eles tentassem vender a casa seria muito difícil encontrar um comprador já que a localização era no meio do nada. Também não tinham para quem apelar, o tratamento era extremamente custoso. Mas de forma alguma ele queria pensar em conformação, deve haver uma solução, há sempre uma solução para tudo, não pode-se entregar as fichas antes do final do jogo. O rapaz estava disposto a lutar com todas as suas forças para tentar salvar a vida de seu pai.

E uma solução chegou tão rápida quanto boletos para pagar. Um dos vizinhos ali do sítio estava caminhando por ali e já avistando a comoção na varanda da casa de Murillo resolveu se aproximar para um papo.

— Como você está grande, rapaz! Quanto tempo não te via! — Diz o velho conhecido.

— Boa noite, seu Vicente. — responde Murillo — Tem razão, já tem algum tempo que me mudei para a cidade grande.

— E como está o trabalho por lá, tudo movimentado? — Pergunta Vicente.

— Ah, você não tem ideia. Dias como esse em que a gente pode parar um pouco para respirar, viver a vida, é que são raros e inestimáveis. No resto, apenas estresse e cabeça quente. Já até tô ficando meio careca, e olha que nem faz tanto tempo assim que me mudei. — Explica Murillo.

E nesse vai e vem, Vicente e os pais do garoto passam a conversar sobre de tudo um pouco, até que Vicente relata uma fofoca que mudou o rumo da conversa:

— Lembram da Angélica, a "chinesinha" que morava com os Marianos lá no Faxinal dos Pinheiros? Pois acredite se quiser, casou com um ricaço, tá vivendo como uma lady e tá famosa até no exterior, mas estão dizendo que ela está meio doidinha, semana passada saiu uma notícia aí em que ela queimou aquele quadro famoso, a Monalisa, que valia não sei quantos bilhões de dólares, veja como o mundo dá voltas!

Murillo lembrava de Angélica, lembrava-se muito bem por sinal. Os dois se conheceram ainda crianças, quando ambos tinham 8 anos de idade, na escola primária. Ela tinha feições diferentes dos habitantes do vilarejo, era óbvio que havia sido adotada, já que não havia nenhum asiático morando em um raio de pelo menos 100 quilômetros dali. Boatos correm que na verdade foi abandonada, mas havia muito mistério rodeando a história de como ela havia parado naquele fim de mundo. Por anos, Murillo e Angélica foram amigos próximos, ela vinha até a casa dele brincar de vez em quando, já que ambos eram filhos únicos. Pega-pega, esconde-esconde, amarelinha, ciranda-cirandinha, dentre outras brincadeiras que as crianças da escola costumavam participar. Até hoje Murillo se lembra das cantigas que recitavam durante aquela época:

"Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado..."

Também tinha aquela:

"Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu..."

Bem como as tradicionais: "Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar..." e aquela: "O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão". Os dois colhiam flores juntos, margaridas roubadas do jardim da igreja, em dias de chuva, a estrada virava um lamaceiro e os dois voltavam com as roupas cheias de barro, que demorava um bom tempo para limpar no tanque de pedra nos fundos de onde morava.

O vilarejo onde ambos passaram boa parte da infância ficava na zona rural, cercada por resquícios de mata atlântica e algumas pastagens, era o lugar ideal para alguém se esconder após um crime. Quer dizer, quase ideal, porque se de um lado os policiais não iriam nunca procurar um suspeito por lá, do outro era bom torcer para que os vizinhos não se antenassem nos noticiários policiais, já que ali todo mundo se conhecia e reconhecer um forasteiro naquele lugar era tão simples quanto reconhecer os seus próprios parentes. Nos finais de semana alguns moradores se encontravam para tomar uma cerveja juntos ou até jogar partidas de canastra, valendo dinheiro, é claro. E nesses encontros ficavam atualizados sobre tudo o que ocorria nos arredores da cercania.

Um dia Angélica teve de se mudar para outra cidade para estudar em uma escola melhor enquanto ele ficou ali, tendo de pegar uma condução pública com destino à escola estadual do município todo santo dia. Depois disso, os dois acabaram perdendo o contato. Celular na época era artefato de luxo, ali mal o telefone funcionava, só tinha um orelhão que ficava próximo à esquina da casa de Murillo que vivia quebrado e o sinal também era péssimo.

Mas não foram exatamente as lembranças de Angélica que suscitaram no jovem um pensamento importante sobre ela, mas as circunstâncias relatadas por Vicente. Se ela realmente estava nadando no dinheiro como se falava, então o dinheiro para o tratamento de seu pai seria o troco de pão para ela. Ela não poderia recusar auxílio para um velho amigo de infância, isso se ela for capaz de lembrar dos momentos que haviam passado juntos, já que mais de uma década havia passado desde que ela se ausentou daquela localidade. Mas não custava nada tentar, ela era agora a única solução para o problema de sua família ou pelo menos a solução mais viável.

— Seu Vicente, desculpe perguntar — começa Murillo — mas você saberia dizer onde é que ela está vivendo hoje em dia?

Então Murillo explica o plano que teve aos seus pais e ao vizinho ali presente. Vicente diz apenas o que ouviu falar no noticiário, mas aquilo já era suficiente para o moleque se encher de esperança. Ela pode estar vivendo na metrópole, mas não são muitas as pessoas naquele país com uma fortuna daquele tamanho. Provavelmente a mansão onde ela estaria vivendo agora já seria fonte de lendas urbanas e causos, não deveria ser nada complicado encontrar um taxista ou algum passante que conhecesse a localização da sua velha conhecida.

E foi assim que Murillo resolveu fazer as malas e ir em direção à cidade onde Angélica hoje vivia, após passar apenas três dias em sua região-natal. O assunto era de extrema urgência e qualquer dia perdido poderia ser um dia a menos na vida de seu amado pai. Como estava de férias remuneradas, os dias que passasse em busca da garota não ocasionariam grandes problemas em sua vida profissional.



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