História An Extraordinary Love - Capítulo 19


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Categorias Orphan Black, Sense8
Personagens Alison Hendrix, Cosima Niehaus, Detetive Arthur "Art" Bell, Donnie Hendrix, Dra. Delphine Cormier, Felix "Fee" Dawkins, Helena, Paul Dierden, Rachel Duncan, Sarah Manning, Siobhan Sadler "Sra. S"
Tags Cophine, Cormier, Cosima, Delphine, Helena, Orphan Black, Romance, Sexo
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Palavras 6.710
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Fantasia, Ficção, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Boa noite a [email protected] E como é de hábito e nosso compromisso, aqui está mais um capítulo.
Agradecemos demais os comentários e o carinho que temos recebido. Continuem conosco!

Boa leitura!

Capítulo 19 - Puro Êxtase


“(...) então, muitíssimo obrigada... Delphine.”

“(...) Você não precisa me agradecer...Cosima.’’

 

Finalmente tinha acontecido; as barreiras aparentemente mais simples foram ultrapassadas e deixadas para trás! As formalidades foram conscientemente abandonadas, dando lugar a uma calorosa, delicada e perigosa intimidade. O novo jogo tinha sido iniciado e havia começado a quase três horas atrás, quando aquela ligação foi realizada. A expectativa e o prazer que aquela conversa proporcionava a elas era latente e inegável... Estavam em êxtase com a forma gradativa e natural com que aquela desejada intimidade era estabelecida.

Cosima já estava na cozinha, preparando uma massa rápida com camarões e molho de queijos, narrando cada passo do preparo daquele prato para uma Delphine que, por sua vez, anotava mentalmente os detalhes da inusitada receita no intuito de experimentá-la depois. Como por mágica – aham, claro -, seu apetite havia retornado de forma arrebatadora!

- Definitivamente, queijo é uma das melhores invenções humanas! – Cosima riu com leveza enquanto separava os vários tipos que havia recentemente adquirido num mercado próximo.

- Concordo plenamente... Quais você tem ai? – Indagou Delphine, surpreendendo-se com a espontânea naturalidade com que desejava saber absolutamente tudo sobre sua orientanda.

- Vejamos... estou encarando uma lindíssima e convidativa fatia de queijo Brie.

- Brie.... Huum... E como pretende adicioná-lo à sua receita? – ‘’Ann?’’ Cos estranhou aquela pergunta. O intuito era apenas ralar um pouco por sobre o molho que preparava e tava ótimo, não estava? O silêncio de Cos fez com que Delphine percebesse a dúvida dela.  – Cosima, saborear queijos é uma arte que está praticamente no DNA dos franceses. – Gabou-se, fazendo sua orientanda sorrir com o rumo que a coisa do queijo estava tomando.

 – Ou seja... se me permitir, posso dar a você algumas dicas valiosíssimas a respeito. – Del usava seu melhor tom francesa-super-conhecedora-de-queijos e Cosima achou aquela oferta um tanto inusitada, mas ainda assim, adorou a ideia!

- Muito bem, senhorita Cormier... Seja a minha fromager particular! – Divertiu-se Cos, cada vez mais ousada e a vontade. Delphine soltou uma maravilhosa e desconcertante risada, fazendo o estômago da morena se contrair e suas pernas ficarem bambas. Como ela fazia aquilo??

- Cosima, um fromager é a pessoa que entende dos cortes dos queijos... – Comentou entre os divertidos risos, atentando-se para não constranger sua aluna. – Porém, isso não quer dizer que ele também não compreenda de suas variedades e de suas complexas peculiaridades. Sendo assim, eu posso sim, ser sua personal fromager... – Del concluiu, abaixando o tom de voz já cadenciado e um tanto provocante, fazendo Cosima engolir em seco com a possibilidade de tê-la ali, tão perto, mostrando a ela qualquer uma das muitas habilidades que possuía. – Aaah, okay! Primeira lição aprendida com sucesso. – Disse uma Cosima ainda impactada, fantasiando Delphine ali.

- Ótimo! Sigamos, então. Você disse que tem Brie, certo?

- Exato! E ele está aqui, me olhando de cima a baixo... – Cos Brincou. Delphine deixou escapar um imperceptível suspiro, invejando o pedaço de Brie. ‘’Foco, Cormier, foco!’’

- Tire um pequeno pedaço e coloque-o em sua boca, porém, faça-o delicadamente, tomando cuidado para não engoli-lo ou triturá-lo de uma só vez... Você tem que sentir o aroma e o sabor. – Del falou, sugestiva e pausadamente. – É sua primeira vez com essa maravilha divina?

Cosima percebeu que sim. Como ela poderia saber aquilo? Não tinha certeza se queria assumir sua “inexperiência” no assunto queijos, ainda mais diante dela... Uma Deusa francesa que parecia ser expert em absolutamente qualquer assunto. Entretanto, sabia que mentir a respeito disso – ou qualquer outra coisa -  só a colocaria numa situação absurdamente constrangedora, já que, inconscientemente, ela tinha a certeza de que Delphine saberia se ela mentisse ou fingisse ter um conhecimento que de fato não possuía. Então, vamos com verdade!

- Infelizmente, sim! – Confessou um tanto envergonhada.

- Por que, ‘‘infelizmente’’? – Cos entreabriu os lábios, mas nenhum som saiu ali. Delphine continuou. – Preciso confessar uma coisa, Cosima...  Nesse exato momento, eu a invejo, profundamente...! Você está prestes a ter, pela primeira vez, uma deliciosa e inesquecível experiência. – Del prosseguiu, deixando que o tom de sua voz adquirisse um ritmo mais suave, mais persuasivo. Cos permanecia em silêncio, totalmente concentrada em sua orientadora!

– Inclusive, ouso comparar a satisfação gastronômica às experiências eróticas e sexuais. – Delphine quase sussurrou as últimas palavras e Cosima fechou os olhos, sentindo um fio de suor escorrer entre seus seios, por sob o top que usava, exatamente ao mesmo tempo em que um arrepio delicioso e atrevido escalava sua coluna, eriçando os pelos de sua nuca. ‘’Timing perfeito’’

– Quero que faça uma coisa para mim, Cosima... – Cos sentiu os joelhos fraquejarem... Aquela mulher era simplesmente demais. Tudo em Delphine era mágico, sensual e incrível demais. – Coloque esse pedaço bem na pontinha de sua língua...com a crosta também. Não desperdice nada. – Cosima obedeceu prontamente, quase como se estivesse enfeitiçada.

 – Deixe-o aí por alguns segundos... permita-se sentir o sabor, a textura e o cheiro. Agora, deixe-o escorregar sobre sua língua, deixe-o dançar, delicada e suavemente e... Feche os olhos e permita que a sensação se potencialize em você... Perceba como o sabor vai tomando conta de toda a extensão de sua boca. Permita-se sentir... Retarde ao máximo a primeira mordida... – ‘’Puta merda’’ Cosima não acreditava no que estava sentindo! Estava loucamente excitada por causa de um simples pedaço de queijo? Sim, absolutamente sim.

Do outro lado daquela ligação, Delphine já estava esparramada em seu sofá, com um braço sob a cabeça e o celular na outra mão... Os olhos também estavam fechados e a expressão, leve e serena, completamente deleitada com a inquietante – e deliciosa - intimidade que surgia entre elas. Definitivamente, ela não pretendia nada daquilo quando decidiu ligar para Cosima... Pelo menos não naquele momento.

‘’Será mesmo, Cormier?’’ Rapidamente espantou o pensamento, uma vez que estava muito mais interessada em sua orientanda, totalmente fascinada com as reações de Cosima às suas nada sutis provocações gastronômicas. Resoluta, prosseguiu.

- Preparada, Srta. Niehaus? – Um atrevido calor invadiu o ventre de Cos, impossibilitando-a de responder qualquer coisa, ou mesmo de raciocinar qualquer coisa! Ela sabia que a resposta para aquela pergunta estava implícita da deliciosa atmosfera daquele silêncio.

- Agora... Morda! – Delphine finalmente sentenciou com uma sensual autoridade. Sentiu sua cabeça girar e um calor se espalhar inteiramente por ela ao ouvir o gemido rouco que Cosima deixou escapar. Aquele som pareceu ativar todos os sentidos de Delphine, ao ponto de fazê-la perceber que se demorasse um pouco mais com aquelas insinuações, aquela intensa e mística conexão poderia ter início novamente, e ela sabia que não poderia mais se permitir àquilo... Não enquanto ela não tivesse certeza de quem realmente era Cosima Niehaus.

- Hummm... Nossa, Delphine! – Foi tudo o que Cosima conseguiu verbalizar enquanto mastigava lentamente aquele pequeno pedaço de paraíso. Delphine riu, provocante e espontânea, demonstrando toda a sua satisfação. Já havia notado antes, mas, a cada momento que passava com sua orientanda, tinha cada vez mais certeza de que Cosima era o tipo de mulher que fazia e se permitia experimentar tudo de forma intensa e apaixonada.

“Seria extraordinário conquistar você, Srta. Niehaus...” Delphine sabia que seduzi-la seria uma experiência inigualável. Essa era a predadora dentro dela atuando, externando seus desejos e anseios, porém, tinha a assustadora clareza de que não era apenas isso. Não era somente o corpo dela que Delphine desejava.... Absolutamente tudo nela ansiava por Cosima.

- Jamais voltarei a comer queijos da mesma forma! – Cos divertiu-se enquanto sorvia as pontas dos dedos, fazendo Delphine engolir em seco com aquela imagem recém formada em sua cabeça. – Amém às francesas!

- Espero que a sua “primeira vez” tenha sido devidamente prazerosa...! – Provocou.

- Será que eu não deixei claro o que senti? – Devolveu a provocação! Cos não deixaria por menos. – Caso não, acho que teríamos que repetir a dose... pessoalmente, é claro... – Ousou! O tom de voz carregado com forçada segurança.

Um silêncio desconfortável se fez entre elas, fazendo com que Cosima parasse sua mão no ar com um novo pedaço de queijo na ponta dos dedos. Teria ido longe demais? Porém, foi invadida por um reconfortante alívio assim que escutou a risada mais provocante e encantadora de toda a galáxia do outro lado da linha.

- Isso é um convite, Srta. Niehaus? – Cosima sobressaltou-se com a objetividade cortante de sua orientadora! Acabou engolindo o pedaço de queijo de vez, se engasgando e tossindo escancaradamente, provocando uma alta e gostosa gargalha em sua professora. – Você está bem? – Del indagou, exagerando na preocupação fingida.

- Desculpa!  – Cos falou entre uma tosse e outra! Os olhos lacrimejavam horrores, tudo por causa do maldito pedaço de queijo parado em sua garganta!

- Dessa vez não foi tão prazeroso, não é? – Delphine simplesmente não conseguia parar de rir.

- Rará, engraçadinha! Foi tão gostoso que até chorei! – Cos rebateu em tom de uma divertida ironia enquanto enxugava uma lágrima que escorria do olho esquerdo, imediatamente a acompanhando em uma deliciosa gargalhada. Como nem tudo na vida são flores, um atrevido e indesejado bip as alertou.

- Droga! Meu celular está descarregando... – Cosima lamentou, visivelmente desgostosa com aquela constatação, o que fez com que Delphine também checasse o seu.

- O meu também está quase descarregando e... Nossa, estamos a mais de três horas conversando. – Surpreendeu-se Delphine, que mal havia notado o tempo passar.

- Caramba! O domingo já praticamente acabou. – Queixou-se Cosima, embora seu pesar fosse muito mais pelo fim daquela conversa. – E eu ainda não fiz nem metade do que pretendia para hoje.

- Mea culpa... Eu assumo! – Disse uma solene Delphine, provocando um alegre sorriso no rosto de Cos.

- Nossa culpa, você quer dizer... – Cos emendou, deixando claro que havia mergulhado naquela conversa tanto quanto ela. Por um segundo, um infinito silêncio morou ali e tudo que se podia ouvir, era o som da respiração de das duas... Cosima adiantou-se.

– Er... Eu gostaria de dizer que... Eu realmente adorei a nossa não tão breve conversa, Delphine... – Cosima simplesmente amava pronunciar aquele nome. Soava doce e... e tão perfeito em seus lábios. Tal sensação era superada apenas pelo prazer de ouvir o seu nome na voz dela. Delphine sentiu o coração aquecer ao ouvir aquilo.

- Eu também apreciei bastante, Cosima. – Cos foi imediatamente invadida por uma lembrança... A de ouvir seu nome dito por ela no box do seu banheiro... sussurrado com absurda adoração e devoção. Era tão doce.

Nenhuma das duas queria tomar a iniciativa de encerrar aquela ligação. Pareciam temer que, uma vez terminada, aquela apaixonante proximidade se perderia... Não, nenhuma das duas desejava aquilo. Não permitiram aquilo... Muito pelo contrário, pareciam querer que ela se acentuasse ainda mais, embora nenhuma das duas aparentasse disposição em assumir isso claramente.

- Cosima... Vou deixar que tenha sua refeição em paz. – Del quebrou o silêncio. – Até porque, eu também estou muito faminta...

Tanto Cosima quanto Delphine sabiam que aquelas palavras também carregavam um outro sentido, porém, não queriam ceder ou admitir aquilo.

- Sim, infelizmente eu preciso mesmo desligar. Tenho um maldito cronograma para concluir e preciso entrega-lo amanhã, impreterivelmente! E ai de mim se não o fizer! Minha orientadora é uma tirana, sabe?!– Provocou, deixando o divertimento e a expectativa explícitos em seu tom de voz.

- Nossa... Que mulher desalmada é essa que te faz trabalhar em pleno domingo? – Entrou na brincadeira, caprichando no tom de ultraje!

- Nem me fale... – Continuou – Ela é extremamente exigente e como eu sou absurdamente perfeccionista, o resultado é quase explosivo. – Delphine fechou os olhos e sorriu, extasiada com a ousadia de sua aluna. – Mesmo assim, preciso confessar uma coisa. – Falou em tom de fofoca – Mesmo carrasca, ela é brilhante e fascinante... Em nada me incomoda trabalhar aos domingos, ou mesmo virar noites em claro... – A loira sentia um arrepio percorrer seu corpo à medida que Cosima continuava... – Já que meu objetivo é  caprichar ao máximo, tão somente para agradá-la e impressioná-la... – Delphine ouvia aquilo derretendo-se em cada palavra.

 – Inclusive... Eu faria qualquer coisa para vê-la novamente em total deleite, somente por ler o que escrevo.

- Huum... Então, ao que parece, ela é uma mulher de sorte por tê-la como orientanda, não é mesmo? – O flerte era cada vez mais escancarado! – Não tanto quanto a sorte que eu tive em tê-la como minha orientadora... – Delphine sentiu seu ventre se contrair.

– Então, Srta. Niehaus... Vá se preparar para sua orientadora. Algo me diz que ela irá adorar cada palavra escrita por você. – Admitiu, levando Cosima ao mais puro êxtase. – Mesmo assim, tente se divertir um pouco, okay?

– Huum... Não sei não, Delphine... Ela não me parece ser do tipo que tolera diversão, a não ser que eu esteja pronta para ela, caso ela precise de mim... – Okay, sem ser capaz de se controlar, a mão que estava por trás de sua cabeça já estava em seus lábios, acariciando-os... ‘’Controle-se, Cormier...’’

 - Se ela achar ruim, mande-a falar comigo, Cosima... – Brincou, porém, o tom de voz carregava algo a mais, fazendo o estômago da morena se contrair.

- Com certeza eu direi isso a ela, Delphine... Tenha um ótimo domingo, o que sobrou dele, na verdade! – Desejou sinceramente, esforçando para não transparecer a expectativa daquela perigosa brincadeira.

- Certamente eu terei, Cosima... Já que até agora, ele tem sido surpreendentemente bom. – Fez questão de suspirar ao final da frase, fazendo Cosima quase suspirar também.

Um novo e significativo silêncio imperava ali. As duas tinham certeza do que estava acontecendo e desejavam aquilo, mas, paradoxalmente, nenhuma das suas queria assumir ou dar o próximo passo. Seria medo?

As despedidas vieram e num ultimo bip, o celular de Cosima apagou, completamente descarregado. Cos respirou fundo, encarando-o com um sorriso bobo que dançava em seus lábios, sendo tomada por um calor acolhedor e uma intensa excitação. O que tinha acontecido ali? Cosima ainda não tinha real dimensão daquilo tudo, apenas adorava a tão ansiada aproximação estabelecida ali. Cos queria conhece-la... desvendá-la, tocá-la... Suspirou.  No segundo seguinte, teve sua atenção roubada pelo cheiro de algo que começava a passar do ponto; era o seu molho.

- Muito bem, Srta. Niehaus!

 

******

 

Uma música suave atraiu sua atenção. Cosima olhou ao seu redor e se viu em meio a um imenso salão, ricamente decorado e ostensivo. As paredes daquele lugar eram ornamentadas com figuras florais, dorsais e cantoneiras douradas, emoldurando lindíssimos quadros que estampavam o que ela concluiu tratar-se dos membros de uma mesma família, visto que todos ali possuíam uma marcante característica em comum: O vibrante cabelo vermelho.

Um dos quadros destacou-se em meio aos demais, chamando sua atenção. Era o único que mostrava duas pessoas: Um homem de aparência rígida e imponente, vestindo roupas que ostentavam um luxo impressionante; o vermelho de seus cabelos já aparentava perder espaço para os fios brancos, evidenciando sua idade já um tanto avançada.

Ao lado dele estava uma garotinha; Cosima julgou que ela não teria mais do que 10 anos. Impressionou-se com a beleza da menina, que trazia muitos dos traços do pai, especialmente os compridos e lindos cabelos num vermelho intenso. Observando os demais quadros, percebeu que nenhuma daquelas pessoas tinha os cabelos no mesmo tom dos dela, nem tão pouco possuíam os olhos que emolduravam o marcante e expressivo rosto dela... Eram de um verde esmeralda absolutamente incríveis e muito provavelmente, impossíveis. Cosima jurou ser impossível alguém possuir olhos daquela exata cor e deduziu que eles haviam sido um capricho do artista.

Sem saber explicar o que sentia, Cosima teve a nítida sensação de já ter visto aquela jovem menina em algum lugar, assim como o homem ao seu lado.

Os dois eram realmente impressionantes, um por sua imponência e o outro, por sua surreal beleza. Enquanto admirava aquela belíssima pintura, ouviu vozes exaltadas vindas de algum lugar do outro lado da imensa e adornada porta. Aguçada por sua curiosidade, seguiu o som até a famigerada porta, intuindo entender sobre o que aquela discussão se tratava. Porém, antes de tocar a maçaneta, a porta se abriu violentamente, dando passagem a uma jovem mulher que irrompeu naquele ambiente de forma exasperada e visivelmente colérica. Em seguida, um homem ainda mais exaltado vinha atrás dela.

Nenhum dos dois parecia perceber a presença de Cosima ali, que acabou sendo uma inesperada expectadora daquela discussão, iniciada do lado de fora daquele ambiente. Esforçava-se para compreender o que falavam, identificando o francês como o idioma falado ali, contudo, era rebuscado e carregado demais, indicando tratar-se de um formato mais antigo, até mesmo indicando um dialeto de outro tempo.

Um tanto assustada, Cosima aproximou-se da jovem mulher e assustou-se quando essa, virou-se num súbito em sua direção, possibilitando que Cos a visse bem de perto e com uma nitidez ímpar. Assim que colocou os olhos nela, imediatamente soube que ela era a menina da incrível pintura e que o artista não havia exagerado na cor dos olhos dela. Eram de um verde incrivelmente brilhante e único. Os longos cabelos ruivos estavam presos numa trança perfeita e as feições em seu rosto eram impressionantemente encantadoras. De fato, era uma mulher lindíssima, portadora de uma beleza exótica e incomparável, porém, o maravilhoso rosto estampava um pulsante pesar, consternação e tristeza. Em meio às palavras praticamente gritadas, as lágrimas começaram a cair com certa intensidade.

 O homem, também o mesmo da ostensiva pintura, gritava raivosamente, demonstrando uma ira assustadora. Cosima sentia o evidente temor daquela mulher, mas também podia perceber sua impetuosa força. Em meio a sufocante tensão daquela discussão, Cos esforçava-se para compreender o que diziam, mas só conseguia captar palavras soltas e frases curtas.

 "Heresia!” “Aquela mulher...” “Fique longe dela” Disse ele.

 “...Minha vida...” “Eu a amo” Retrucava ela.

 ‘’Eu a amo’’  Essas palavras pareceram atingir o homem em cheio. Cosima percebeu e até mesmo foi capaz de sentir a atmosfera do ambiente se modificar, se eletrizar, ficando ainda mais tensa. A jovem ruiva havia proferido aquelas últimas palavras com palpável coragem, resoluta e desafiadoramente. Então, um segundo depois, Cosima pressentiu o que estava por vir, assistindo-o partir em direção a ela na clara intenção de machucá-la.

Não poderia permitir aquilo, não sem tentar ajuda-la. Se interpôs entre eles, ficando logo a frente dela, porém, assim como antes, sua presença parecia não ser notada ali e ainda assim, isso não a impediu de estender os braços com as mãos espalmadas, tentando defender-se e defendê-la. À medida que o homem se aproximava ameaçadoramente, Cosima instintivamente recuava, ao ponto de pensar que iria esbarar na mulher atrás dela. Entretanto, algo inusitado e certamente impossível aconteceu:  O corpo de Cosima se fundiu com a ruiva que ela tentava proteger, fazendo com Cos visse o que ela via, sentisse o que ela sentia e então, o violento tapa estrondou em seu rosto, sobressaltando-a e fazendo-a sentar sobre sua cama.

“Puta que pariu! Outro sonho bizarro...” - INFERNO! – Praguejou, o que a fez sentir um leve latejar em seu rosto, fazendo-a levar a mão até a lado esquerdo do rosto, que ardia e incomodava. Ele queimava de uma forma estranha como se...

“Não... Não pode ser...” Correu até o banheiro num súbito, encarando sua imagem refletida no espelho, questionando sua sanidade. Para seu alivio, não havia nada em seu rosto, embora houvesse a clara sensação de um calor ardido, como se o tapa com o qual havia sonhado tivesse realmente acontecido. Que merda era aquela?

“Que absurdo, Cosima! Não seja ridícula.” Repreendia-se. Porém, a verdade era que após tudo o que ela vinha experimentando nos últimos dias, aquilo nem parecia tão louco e impossível assim. Riu com explícito nervosismo e, inevitavelmente, lembrou-se da jovem em seu sonho... O rosto dela ainda estava cravado em sua memória, vívido e nítido.  Novamente, algo lhe ocorreu.

Dirigiu-se apressadamente até seu closet, tirando de uma das malas aquela pasta que continha seu livro e alguns outros textos, entre eles, o diário de Melanie Verger. Correu as páginas com demasiado cuidado, dado o estado do antigo material, localizando a página que em seu topo, continha os seguintes dizeres:

Provins, 15 de Abril de 1619”

Estarrecidamente, Cosima lia o relato em questão com certa inquietação e confusão, uma vez que ele narrava exatamente a cena com a qual acabara de sonhar. A jovem Melanie discutia com o seu pai, Armand Verger, o Duque de Provins. A discussão se dava porque, aparentemente, ele havia descoberto o envolvimento de sua filha com uma jovem e revolucionária mulher, filha de sua declarada inimiga.

Cosima ainda tinha certa dificuldade para interpretar o texto na integra, escrito num dialeto ainda parcialmente estranho para ela. Mas, já tinha sido capaz de concluir que a mulher revolucionária citada ali, tão amada por Melanie e aparentemente tão odiada pelo pai dela, era Evelyne Chermont... A mulher cuja a autora daquele diário clamava ser o grande amor de sua vida.

Pelo visto, Cosima acabara de sonhar com Melanie, uma das autoras da principal fonte de pesquisa para seu projeto. Todavia, o que verdadeiramente a incomodava, era fato de ter praticamente vivenciado aquela cena. Cos sentiu o medo, a raiva e a força da jovem ruiva e mais.... Ela pôde sentir o cruel tapa desferido contra ela. Como? Como pôde ser tão real? Inevitavelmente, sua mente vacilou até o dia em que recebeu aquelas relíquias, relembrando as palavras que lhe foram ditas, especialmente a frase que dizia:

“Esse livro é uma herança de família...”

 

******

 

Helena assistia com certa incredulidade sua amiga terminar o almoço com inesperado e inacreditável entusiasmo. Delphine tinha um surpreendente ar de leveza sobre ela, algo que a morena – e nem ninguém - não estava acostumada a ver nela. Era até capaz de ousar dizer que Delphine estava...feliz? Arregalou ainda mais os olhos quando a ouviu cantar uma canção enquanto depositava os utensílios na máquina de lavar louça.

Delphine se divertia com o espanto escancarado na cara de Helena! Tinha acordado com um inusitado bom humor e, apesar de não assumir, sabia exatamente o motivo daquilo. E era claro que o famigerado motivo atendia pelo nome de Cosima Niehaus.

- Estou desconhecendo você, Delphine! – O tom era meramente descontraído, porém, havia receio naquelas palavras. Sua chefe nem se deu ao trabalho de responde-la, apenas voltando a entoar ainda mais alto o refrão de uma de suas músicas favoritas que, por sinal, era de ninguém menos que Nina Simone, Feeling Good.

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin' on by you know how I feel It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

 

- O que deu em você hoje? – Insistiu Helena. Delphine a encarou com surpreendente leveza, respondendo-a com a última frase do refrão da música.

- Estou me sentindo bem! - Piscou um dos olhos enquanto abocanhava algumas uvas de um cacho que acabara de pegar na fruteira.

Apesar de Helena fingir ignorância, ela sabia com exatidão quem era o motivo daquele bom humor repentino de sua chefe. Del estava ainda mais radiante, e aquilo a preocupava demais. Para a morena, Delphine estava caindo na armadilha, cedendo aos encantos de Cosima Niehaus... A mulher pela qual ela ainda nutria muitas desconfianças. Sua urgência em desvendá-la só aumentava, deixando-a cada vez mais apreensiva naqueles dias que antecediam um importante evento... Evento esse que detinha toda a atenção de Helena, que tomava todas as medidas possíveis e impossíveis para garantir a segurança de Delphine.

Tratava-se do baile em homenagem ao Lamartine e que iria acontecer no próximo sábado. Helena sabia que ele certamente estava preparando alguma tramoia, do contrário, não aceitaria tão facilmente um convite até os domínios de Delphine.

Para completar a total desgraça do evento, certamente iria reencontrar com um de seus principais desafetos: Paul Dierden, ex-militar norte-americano, único filho adotivo de Lamartine. Homem quase tão desprezível quanto o pai, todavia, muito lhe satisfazia lembrar do último encontro que tiveram, justamente quando ela o deixou caído sobre uma mesa de bar, com o lindo nariz devidamente quebrado por ela. Sorrindo com a lembrança, acompanhou Delphine enquanto essa, saia para mais um dia de trabalho na Universidade.

- Qual sua agenda para hoje? – Indagou, como era de praxe.

- Basicamente, reuniões de orientação. – Del respondeu com leveza.

- Ah... Agora eu entendi. – Suspirou.

- Entendeu o que? – A loira questionou, curiosa com a indireta de sua amiga.

-Todo esse seu bom humor! – Fechou a cara, estampando a famosa carranca. Delphine estava ao lado dela, encostada na parede do elevador. Notando a pesada nuance no tom de voz de sua protetora, inclinou a cabeça para contemplar o sisudo semblante de Helena. – O que é? – A morena questionou impaciente enquanto era divertidamente encarada por Delphine, que nem se deu ao trabalho de responder, apenas gargalhou divertidamente enquanto saía do elevador no andar térreo de seu luxuoso edifício. Até mesmo o porteiro e o recepcionista foram educadamente cumprimentados, o que causou um evidente estranhamento em ambos, encarando Helena curiosamente, que vinha logo atrás de Delphine. Ela deu de ombros em resposta, expressando que também não estava entendo bulhufas do comportamento de sua chefe.

Felix as esperava prostrado ao lado da porta de trás da luxuosa limusine.

- Boa tarde, Felix! – Delphine o cumprimentou com um sorriso tão escandalosamente lindo que o fez cambalear levemente, incrédulo com a gentileza e leveza que fluíam de sua patroa. Ele repetiu o gesto dos dois outros homens, claramente confuso com a atitude da loira, fazendo Helena revirar os olhos enquanto enfiava um lindíssimo Ray Ban marrom, de aros finos e estilo masculino, no rosto carrancudo, porém, absurdamente lindo.

Já a caminho da universidade, Delphine estava nitidamente perdida em seus pensamentos, olhando pela janela do carro e contemplando o dia surpreendentemente ensolarado para o inverno parisiense, rindo de sua nova e um tanto estranha excitação, completamente satisfeita a respeito de sua nova relação com ela... Cosima tentação Niehaus.

Em meio aos muitos pensamentos distantes e um tanto inapropriados, Delphine a viu... Baixou o vidro até a altura de seus olhos, querendo enxergá-la melhor. Por algum motivo louco, sentia seu coração estranhamente descompassado no peito.

Mais uma -  maravilhosa – vez, Cosima vinha com os exagerados fones de ouvido, certamente ouvindo alguma música da qual gostava muito, uma vez que era possível ver o quão entusiasmadamente ela cantava. Nunca, em toda a sua existência, Delphine desejou tanto que o trânsito parasse ali, para que ela pudesse contemplar, observar e absorver aquela imagem. Para a sua sorte, o farol fechou no exato instante em que Cosima fez a menção de retirar o pesado sobretudo, devido ao estranho clima daquele dia.

Parecia que o mundo estava em câmera lenta, totalmente desacelerado. Cos parou próxima a um banco, muito perto do pátio da Universidade. Depositou suas coisas sobre ele e começou a soltar o laço que amarrava o sobretudo, porém, independente das vontades de Delphine, o farol abriu mais rápido do que ela desejaria e o carro deu partida, fazendo-a xingar baixinho enquanto a limusine dobrava a esquina.

- Merde!

- O que foi, Delphine? – Helena redobrou sua atenção.

- Nada... Nada demais, Helena. Foi algo do qual eu me esqueci – Mentiu. – Helena apenas a encarou sem nada dizer. Del resignou-se, forçando-se a ficar tranquila visto que logo estaria com ela, embora não da forma como gostaria, já que todos os seus demais orientandos estarão presentes. Essa constatação a fez pensar seriamente em mudar a sua forma de orientação. Oficialmente, Cosima a estava enlouquecendo!

Pouco mais de cinco minutos depois, já estavam parando em frente ao pavilhão dos edifícios das salas de aula. Delphine e Helena desceram do carro e seguiram em caminhos distintos, uma vez que a segurança tinha uma agenda marcada com a Reitora Duncan, no intuito de ajustar os preparativos para o temido baile.

Ao longe, Helena ainda acompanhou os movimentos de Delphine, que como para enervá-la ainda mais, estava espetacularmente radiante naquela manhã, apesar de estar vestida com roupas nos seus característicos tons sóbrios, ela exalava uma beleza leve, que pouco lembrava a carga sombria que era obrigada a carregar.

Delphine vestia um inesperado jeans de lavagem escura, marcando suas torneadas coxas firmes e sua bunda perfeita. A blusa era preta e sem mangas, num cetim leve e esvoaçante, balançando sutilmente quando ela andava. Calçava botas marrons claro de cano médio e salto fino. Os cabelos, como sempre, eram um show a parte... Estavam soltos e ofensivamente perfeitos em seus cachos dourados que mais pareciam querer desafiar os brilhantes raios de Sol. 

Era impossivelmente impressionante o poder que ela exercia sobre qualquer réles mortal. Era surreal, afrontoso e muito honestamente, quase criminoso! Helena notava os olhares que a devoravam e os comentários feitos por onde quer que ela passasse, ao ponto de fazê-la rir de um rapaz que literalmente chocou-se contra uma das colunas que ladeavam o corredor de acesso ao bloco A, justamente por estar completamente hipnotizado, virando a cabeça para acompanhar o deslumbrante “desfile” que era o andar de Delphine. Chegou a questionar-se se ela tinha a clareza do absurdo fascínio que ela exercia impressionante e naturalmente, ou até mesmo se ela agia daquela forma propositalmente. Ela sim, sabia perfeitamente do que aquela poderosa criatura era capaz de fazer, se assim o desejasse. Ponderou sobre o inverossímil estrago que ela poderia causar até perdê-la de vista. Suspirou, seguindo para a tarefa que a esperava.

 

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- Vejam só! Ela vive! – Festejava um exagerado Marc assim que avistou Cosima se aproximar da cantina que ficava no térreo do bloco A.

Os demais Semideuses já estavam todos lá, sentados no aconchegante sofá que haviam reclamado só para eles. Cosima os contemplou ainda distante e, inevitavelmente, estampou um escancarado sorriso. Gostava sinceramente daqueles malucos! Concentrada no exótico grupo que a esperava, ela mal percebeu a sorrateira figura que se aproximava por trás dela, na clara tentativa de surpreende-la. Sentiu um leve impacto e deu um pequeno gritinho de susto, porém, logo sorriu ao ver Felix abraçando-a pela cintura.

- Bom dia, senhorita! Como estamos? – Perguntou o estiloso rapaz enquanto se aproximavam do grupo, oferecendo a ela um pedaço do bolinho de amêndoas que trazia em mãos. Cos mordeu um pedaço enquanto respondia à pergunta do amigo.

-Estou maravilhosa, Felix! E por falar nisso, vejo que você também, não é mesmo? – O tom de voz era insinuante e divertido enquanto ela alternava o olhar entre Marc e Felix.

- Digamos que o meu domingo foi passado em ótima companhia. – Respondeu piscando um dos olhos enquanto a soltava para dar um selinho em Marc.

- Então é oficial? Podemos anunciar o mais novo casal? – Divertiu-se Louis. Todo o grupo ria e se divertia com a expectativa do envolvimento dos dois, deixando-os sem graça e levemente constrangidos. Entretanto, Marc não deixaria por menos! Planejando fugir do foco das atenções, usou de toda a sua malícia.

- Sim, sim! É oficial, mas... Cosima, nos conte aqui... O que foi aquilo na boate, hein? – ‘’Puta merda!’’ Cos ruborizou instantaneamente. A que evento ele estaria se referindo? Sentiu o peso de todos os olhares sobre ela, gaguejando qualquer coisa e sem a menor segurança. – Ér...

- Exatamente! É o top tranding do momento: “O heroico salvamento da pobre donzela indefesa!” – Gesticulava Sophie, muito exageradamente! Cosima respirou visivelmente aliviada. Por um instante, chegou a cogitar que eles poderiam estar se referindo a uma certa cena de sexo quase explícito entre ela e a filhadaputamente sexy orientadora deles, mesmo sabendo que aquilo só havia acontecido na mente delas, ao que tudo indicava.

- Eu... Eu... Sinceramente não sei, gente. – Começou a tentar explicar alguma coisa que fizesse sentido naquela noite. – Eu estava a caminho da mesa e do nada, aqueles caras surgiram. – Cos desabafava, porém, antes de prosseguir, René a interrompeu.

- Vocês sabiam que eles estudam aqui e que fazem parte do time de Rugby da Universidade? – Comentou, visivelmente surpreso.

- Ou seja, dois trogloditas machistas! – Bufou Amélia. Cosima surpreendeu-se com aquela revelação. Naquela noite, ela havia tido uma amostra do quão forte aqueles homens eram, mas, aquela informação potencializava ainda mais a incredulidade do que seus olhos tinham visto... Do que sua professora tinha realmente feito. - Cos, tenho até medo de pensar o que poderia ter lhe acontecido.

- Eu também, Amélia. Eu realmente senti medo e... da mesma forma que eles surgiram do nada, ela também. A sensação que eu tenho é de que ela se materializou bem ali, diante de nós. – Cosima fechou os olhos, sentido a lembrança consumindo-a por inteiro. – E... Não sei bem como explicar, mas... Assim que ela olhou pra mim, eu tive a certeza que tudo ficaria bem. Então... aconteceu o que todos viram. – Cosima gesticulava apressadamente, evidenciando que não queria prosseguir com aquela conversa por muito mais tempo.

- Será que a professora Cormier é mais forte do que aparenta ser? – Sophie questionou enquanto todos já se dirigiam para o elevador.

- O que você quer dizer, Sophie? Que a Toda Poderosa é chamada assim porque de fato, tem superpoderes? – Marc indagou entre as gargalhadas que dava, seguido dos demais. Cosima esboçou um meio sorriso para não parecer louca, mas, de fato, algo de sobrenatural havia acontecido ali. Era completamente irracional e impossível e ela sabia disso, porém, a possibilidade de que alguma coisa estranha acontecia com sua orientadora começou a ganhar força em sua mente.... Ela era mística demais.

Afinal de contas, de que outra maneira uma mulher como Delphine Cormier seria páreo para dois brutamontes anabolizados?

- Merda...! – Esbravejou. O grupo inteiro parou para encará-la. Cos suspirou profunda e estressadamente. – Deixei meu sobretudo na cafeteria! Argh... – Se amaldiçoava mentalmente e, inevitavelmente, lembrou-se de sua mãe, que sempre a recriminava por ser tão desligada, ao ponto de dizer que Cosima só não esquecia a cabeça por ela estar grudada em seu pescoço. – Podem subir, não precisamos chegar todos atrasados, né? – Piscou um dos olhos enquanto já se afastava. Conferiu as horas, verificando que já passava um pouco das 14:00, horário marcado para o início da reunião de orientação. ‘’Inferno’’ Decidiu acelerar o passo.

Encontrou o sobretudo sendo trazido por um dos garçons da cantina, sorrindo educadamente para ela. Cos o pegou, agradecendo e voltando apressadamente para os elevadores. Assim que dobrou o corredor, ouvir o característico sinal de umas das portas que estava prestes a se fechar.

- Segura o elevador! – Cos quase gritou, avistando uma uma mão feminina segurando a porta para ela. Ofegante pela rápida corrida, adentrou ao cubículo de aço e logo pôs-se a agradecer, sendo surpreendentemente interrompida.

- Atrasada, Srta. Niehaus? – Cosima sobressaltou-se com aquela voz e principalmente, com o tom implícito ali. Ergueu o olhar e assim que o fez, deparou-se com um par de penetrantes olhos castanhos, fitando-a com curiosidade e alguma coisa mais.

- Me desculpe, mas... Eu acho que não a conheço. – Cosima inquietou-se com o fato daquela misteriosa mulher saber quem ela era e com a forma que a encarava. Seus olhos eram gulosos e insinuantes.

- Nossa, perdoe-me a falta de modos! Marion Bowles... Professora Marion Bowles! – A mulher estendeu-lhe a mão num cumprimento educado. Por alguma razão, Cosima sentiu-se intimidada pela maneira que a ‘’Professora Marion Bowles’’ a olhava. Cos não era cega, imediatamente percebendo tratar-se de uma mulher extremamente elegante e sensual, com lindíssimos e exóticos traços. O elevador começou a se mover e enquanto isso, Cosima pensava ter ouvido aquele nome em algum lugar antes e então, lembrou-se da boa educação, estendendo a mão no intuito de cumprimentá-la. Assim que se tocaram, a mulher mais velha pareceu aproximar-se mais do que deveria e muito mais do que o necessário, no exato instante que o elevador parou, abrindo as portas e revelando a figura parada diante delas, encarando visivelmente curiosa e bastante surpresa a cena que acontecia ali dentro.

Puta merda! Era ela!

Cosima a fitou com certo choque e nervosismo no olhar, encarando-a atordoada. Pensou ter visto os olhos de Delphine escurecerem um segundo antes de vislumbrarem o aperto de mãos entre ela e a professora Bowles. Num sobressalto, Cosima fez a menção em puxar sua mão, todavia, a morena parecia segurá-la num aperto de aço! ‘’Puta que pariu!’’

Toda àquela tensa e inusitada cena, desenrolou-se nos poucos segundos em que as portas do elevador permaneceram abertas, contudo, como a loira permanecia imóvel do lado de fora, elas começaram a se fechar e, só então, Delphine se moveu. Num movimento calculado e econômico, enfiou sua pasta entre as portas, impedindo que elas se fechassem. Outro segundo depois, adentrou o já pequeno espaço e, conscientemente, meteu-se entre  as mulheres já presentes ali, literalmente obrigando Marion a soltar a mão de Cosima, que visivelmente a agradecia em silêncio. O que é que estava acontecendo ali?

- Boa tarde, Senhoras... – Delphine as cumprimentou de forma fria e dura. Cosima tentou olhá-la nos olhos, porém, seu olhar era fixo e firme, encarando a porta com exagerada concentração.

- Olá, Delphine... Linda tarde, eu diria! – Marion a cumprimentou com gritante insinuação, literal e descaradamente roçando seus seios na lateral do corpo de dela, que precisou de todo o seu autocontrole para não socar Marion ali mesmo. Entretanto, foi surpreendida por uma inesperada satisfação ao perceber que Cosima inclinava-se para olhar a descarada investida da outra mulher. Tinhas os olhos  cerrados e os lábios formavam uma linha fina e rígida. Delphine levantou lindamente uma das sobrancelhas, deliciando-se com a visão de sua orientanda claramente incomodada.

“Com ciúmes, Srta. Niehaus?” Realmente adorou aquilo.

- Como você está, Marion? – Finalmente respondeu, mais cortês do que imaginou que seria. – Falei a seu respeito para a Duncan.

- Eu sei! Finalmente consegui marcar uma hora com ela. Você sempre consegue o que quer, não é?  – Sorriu deliciada enquanto a tocava gentilmente pela cintura.

Cosima soltou um audível suspiro de indignação, revirando os olhos e obrigando Delphine a valer-se de todo o seu poderosíssimo autocontrole para segurar a gargalhada que estava na iminência de vir à tona! Cosima conseguia ficar ainda mais linda com aquele ciumínho ridículo!

- Então me diga, Toda poderosa Cormier... O que posso fazer para agradecer o seu gesto? – Marion despejou todas as suas já descaradas intenções naquela indagação, fazendo Cosima revirar ainda mais os olhos, deparando-se com os de Delphine que a encaravam de lado e de um jeito indescritível. Sentiu seu rosto em chamas... Como Delphine conseguia fazer aquilo com ela!? ‘’Recomponha-se, Niehaus!’’

Delphine só conseguia pensar no quanto sua orientanda ficava adorável com evidente ciúme dela, surpreendendo-se com o quanto estava simplesmente adorando aquilo.

O elevador parou em algum andar no qual Cosima nem se preocupou em checar! Só queria sair daquele ambiente que havia se tornado impossivelmente claustrofóbico.... Ela só queria sumir dali! Assim que fez menção em sair do elevador, foi discretamente impedida. Sentiu algo pressionando a parte anterior de suas coxas e imediatamente olhou para baixo para ver que porcaria era aquela! Imperceptivelmente, Delphine havia esticado o braço direito, obstruindo a passagem de Cosima com sua pasta.

“Mas o que??”

- Pensarei em alguma, Marion. - Respondeu enquanto abria passagem para que sua colega pudesse passar, fazendo a impertinente questão de praticamente imprensar Cosima na parede lateral com aquele gesto.

Cosima entreabriu a boca, mas não foi capaz de dizer nada, sendo completamente invadida pelo cheiro insuportavelmente maravilhoso que exalava daquela mulher, lamentando profundamente quando ela se afastou,  encostando-se do outro lado daquele cubículo.

- Até mais, Srta. Niehaus. Estou ansiosa por tê-la em minhas aulas.

Cos apenas assentiu com a cabeça. “Merda!” Era esse o motivo pelo qual Cosima tinha certeza de já ter ouvido aquele nome antes. Aquela perigosa e inconveniente mulher seria sua professora de Política Ética e Sociedade Contemporânea. Que as Deusas a ajudassem! A morena finalmente deixou o elevador e a atmosfera imediatamente se modificou. Delphine virou-se para encará-la.

 - Vejo que está atrasada, Srta. Niehaus... – ‘’Minha nossa senhora!’’ Cosima tinha a verídica sensação de que só era preciso a afrodisíaca voz de Delphine daquele jeito, tão baixa e provocante, sendo o suficiente para deixa-la inacreditavelmente molhada. Sua orientadora, por sua vez, a olhava com indescritível intensidade.

 - Tanto quanto a ‘’Senhora’’ também está, Professora Cormier... – Cosima rebateu e ergueu levemente o queixo, fazendo com que Delphine fechasse os olhos com força, mordendo o lábio inferior, apertando violentamente a barra de suporte do elevador, soltando-a apenas para partir decidida e resoluta em direção a Cosima, no exato momento em que a porta do elevador se fechou.

           

           

 

 

 

 

             

 

 



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