História An Extraordinary Love - Capítulo 57


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Categorias Orphan Black, Sense8
Personagens Alison Hendrix, Cosima Niehaus, Detetive Arthur "Art" Bell, Donnie Hendrix, Dra. Delphine Cormier, Felix "Fee" Dawkins, Helena, Paul Dierden, Rachel Duncan, Sarah Manning, Siobhan Sadler "Sra. S"
Tags Cophine, Cormier, Cosima, Delphine, Helena, Orphan Black, Romance
Visualizações 483
Palavras 7.768
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, Fantasia, Ficção, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Suspense
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Boa noite a todxs,

Aqui estou com mais um capítulo fresquinho para vocês.
Temos uma outra música hoje e peço novamente que a ouçam enquanto leem o trecho. O link está onde de costume, nas Notas Finais.
Continuo agradecendo imensamente o carinho de vocês. Adoro receber e responder os seus comentários.

Xeros!

Capítulo 57 - Sem Permissão


O tempo pareceu ser paralisado por alguns instantes diante da estarrecedora energia provinda daquela troca de olhares. As demais pessoas não passavam de espectadores anônimos perplexos diante daquela visão. Cosima sentiu todo o seu corpo formigar e a consciência querer lhe abandonar por várias vezes. Cogitou tratar-se de estar diante de uma ilusão, que seu coração ferido estava lhe pregando uma peça de mau gosto (será?).

De certa forma sabia obviamente que não era uma ilusão ou apenas sua imaginação personificada diante dela. Visto que em seu intimo aquela era a visão que mais desejou ter nos últimos tempos. Perdeu as contas de quantas vezes fantasiou com aquele momento, a chegada dela, seu arrependimento... Dela correndo ao seu encontro e dizendo que tudo não passou de uma grande brincadeira infantil. Porém, nada do que pudesse imaginar, poderia prepara-la para o que via diante de si.

Ela estava realmente lá! Buscou sua voz, mas nada em seu corpo parecia querer lhe obedecer, pois estava sucumbindo ao poder emanado dela. Tentou se mover, mas seus músculos lhe contrariavam, e só o que lhe restava era sentir o tremor percorrer seu corpo. Era dor! Mas não uma simples dor física, era algo muito mais intenso e perturbador e isso tinha a ver com o estado deixado por aquela mulher que tanto amou, que tanto lhe machucou e que agora estava diante dela. Buscou forças para raciocinar e percebeu que jamais pensou em ver Delphine daquele jeito. Tão desarmada, tão vulnerável, tão humana! E ficou claro para ela que a dor que sentia parecia machucar muito mais aquela mulher, que outrora sempre fora poderosa e não precisava de ninguém, mas que agora estava completamente entregue e a mercê.

Ousou se permitir sentir pena dela, mas algo bem em seu intimo lhe impediu de ir além. Não sabia ao certo, mas era algo que começou a lhe embrulhar o estômago e fazer sua cabeça latejar. O que sua alma sentia estava começando a afetar seu corpo e podia sentir sob a pele uma agonia crescente.

- Delphine! – Aquela voz pareceu trincar a frágil redoma que as envolvia, e as lembrou de que existiam outras pessoas no mundo, e algumas delas estavam bem ali, surpresas e algumas delas furiosas com aquela pequena “invasão”. - Você não deveria estar aqui! – Shay levantou-se, tocando-lhe o braço. Como se acordada de um encanto, Delphine piscou duas vezes e virou o rosto para olhar a mão que lhe segurava e seguiu seus olhos até alcançar a dureza estampada no rosto daquela mulher. Pensou que seria fácil demais fazê-la em pedaços ali mesmo, só que ela não merecia aquilo, muito pelo contrário. Voltou a sentir as lágrimas retornando e assistiu a surpresa assumir o semblante de Shay.

A mulher mais baixa não conseguiu passar ilesa por aquela experiência. Foi como se ela pudesse ver através dos olhos de Delphine toda a dor que a mulher estava sentido. Pensou em tudo que uma mulher como ela precisou deixar de lado para estar ali. Em todo seu orgulho, pompa e soberba pisoteados. E ela sim sentiu pena da mulher diante de si.

- Essa é “a” Delphine? – Uma voz verdadeiramente carregada de ira também se fez ouvir. Era Sally, mãe de Cosima que colocara-se bem a frente de Cosima, esticando a mão para trás para tentar tocar em sua filha. Numa clara tentativa de proteger sua cria daquela que tão violentamente a havia ferido.

Um burburinho teve início assim que os presentes começaram a perceber o que estava realmente acontecendo ali e descobrirem quem era aquela misteriosa mulher que literalmente havia invadido a comemoração e que certamente não passava despercebido. Mesmo com o corpo encharcado, os cabelos desgrenhados e o rosto contorcido pelo sofrimento, Delphine era uma mulher lindíssima.

- Calma Sally! Shay, tudo bem! – Amanita também se levantou antevendo uma situação que poderia fugir ao controle, já que tinha uma vaga ideia do que a sua Mestra era capaz de fazer embora estivesse quase em choque com a aparência dela. Viu que mais atrás Anne e Ingrid também já estavam a postos para qualquer imprevisto. – Delphine, você não deveria estar aqui. – Disse entredentes, bem próxima a ela e ficando na ponta dos pés. Só então a mulher loira a encarou e franziu a testa buscando o reconhecimento, logo percebeu de quem se tratava. Havia apenas visto uma foto de Amanita em seu arquivo e não lembrava de tê-la visto pessoalmente antes. Tocou a mão da mulher que repousava pouco acima de seu peito e a retirou, forçando gentilmente a passagem por ela e se desvencilhou de Shay.

Só não subiu no palco porque Sally se postou ali com o rosto em riste e o maxilar travado. Delphine a olhou com atenção e de imediato soube quem ela era, pois podia ver várias dos traços de Cosima nela. Compreendeu a atitude daquela mulher e o olhar reprovador dela só potencializou ao extremo a vergonha e o arrependimento que dilaceravam seu coração.

- Me desculpe! – As palavras não saíram com sua voz, apenas foram gesticuladas com seus lábios e dirigidas para Sally. Percebeu então que não devia perdão apenas à Cosima. Uma pessoa como ela era cercada de amor e o seu ato havia, de certa maneira, atingindo outras pessoas. Odiou-se ainda mais.

Era isso! Sentia a raiva, o ódio, a reprovação em vários olhares sobre si, mas nenhum deles lhe atingia mais do que o ódio que sentia de si mesma. Desejou ser capaz de voltar no tempo e não ter causado tanta mágoa aquela pessoa tão linda diante de si.

Voltou a encará-la e assim que seus olhos se encontraram novamente, pareceu que uma onda de energia varreu aquele ambiente, causando arrepios em todos os presentes, lançando-os numa confusão ao trocarem olhares. A tensão que se instalou ali era palpável e a expectativa do que poderia acontecer fazia todos segurarem suas respirações.

- Cosima... Meu amor... – Aquelas palavras atingiram Cosima com uma violência inimaginável, libertando-a da letargia que a paralisava. Arriou os braços e os ombros, buscando o ar com dificuldade. Lenta e tremulamente levou a mão ao rosto, ajustando os óculos e prendendo alguns cachos rebeldes atrás de suas orelhas.

“Você está mesmo aqui!” Lançou aquela afirmação para que só ela fosse capaz de ouvir, e como se a sua dor fosse momentaneamente anestesiada, Delphine fechou os olhos ao sentir Cosima em sua mente novamente. Parecia receber o alimento que seu corpo tanto precisava para ser pleno mais uma vez.

“Você desejou que eu estivesse...” Respondeu também silenciosamente.

Então Delphine a ouviu. Ela estaria lá fora há muito tempo? Só então cortou o olhar entre elas, mas foi por uma fração de segundos, apenas para constatar que o mundo despencava em chuva, imediatamente voltou a encara-la. Como se tivesse acabado de perceber, se deu conta do estado em que Delphine estava. Ela sabia que as chuvas de final de verão poderão ser terríveis e frias. Só então percebeu que a mulher diante dela tremia por inteira, e chegou a cogitar se seria de frio, devido ao estado em que estava.

Desejou subitamente lançar-se aos braços dela, enxugá-la, abraça-la e aquecê-la. Podia sentir todos os seus músculos vibrarem som aquela vontade avassaladora, mas algo a impediu de fazê-lo. E como se alguém acendesse uma luz num quarto escuro, ela teve um vislumbre real daquela situação. Olhou ao seu redor e se deparou com rostos confusos e apreensivos, parecia que assim como Delphine, todos esperavam que ela dissesse algo.

Sim, ela estava finalmente ali, a sua frente, parecendo estar a sua mercê. Contudo alguma coisa começou a incomodar Cosima e a confusão que estava sua cabeça lançou lhe questionamentos que começaram baixinhos, mas foram ficando cada vez mais altos.

Por que só agora? O que havia mudado? Por que ela a abandonara daquele jeito? A rejeitou. Chutou-a para fora da vida dela e ainda assim não a deixava em paz, lhe cercando de pessoas e mentiras.

Era a mágoa falando mais alto em meio a caos. Então ela ousou balbuciar suas primeiras palavras. Mas saíram quase inaudíveis, obrigando-a a repeti-las, mas ainda assim não se fez entender plenamente e então quase gritou.

- Por quê? – Delphine estremeceu e foi atingida pela mágoa contida naquela pergunta, podendo apenas inclinar levemente a cabeça para o lado e morder o lábio inferior, permitindo que algumas lágrimas fugissem de seus olhos.

Então Cosima riu! Mas não havia um pingo de felicidade naquela risada, muito pelo contrário, Seria deboche? Desdém? Aquilo feriu Delphine mortalmente, mas não a surpreendeu. Havia entrando ali ciente do que poderia encontrar. Sabia que a mulher que tanto amava estava ferida e muito magoada. Respirou fundo.

- Eu... Sinto muito... Muito mesmo! – Delphine conseguiu soltar aquelas palavras em meio ao nó que comprimia sua garganta, mas toda a sua sinceridade chocou-se com a dureza que agora dominava o olhar de Cosima que apenas anuiu negativamente com a cabeça.

Inevitavelmente lembrou-se de cada segundo de sofrimento que experimentou nos últimos meses. Das noites em claro tentando descobrir o que havia feito o que havia de errado com ela para fazer com que fosse chutada daquela maneira.

Sabia, sentia, tinha a certeza em seu intimo que amava e era amada, o que só a deixava ainda mais perdida diante da forma como Delphine a tirou de sua vida. Novamente aquela mesma pergunta torturava sua mente. E o que a estava enlouquecendo é que a única pessoa que poderia lhe explicar aquilo era a mesma que se recusava a fazê-lo.

Foi açoitada pelo terrível gosto da raiva que lhe queimava a garganta e cobrava que ela dissesse exatamente tudo o que estava sentindo. Mas não sabia se seria capaz devido à enxurrada de sentimentos que se digladiavam dentro dela. Então, instintivamente suas mãos tornaram apertar o instrumento que trazia nos braços e que fora momentaneamente esquecido. Quase instantaneamente a sua mente caótica lhe levou até uma canção. Se não conseguiria dizer o que sentira, deixaria que a letra e uma melodia dissessem. Dedilhou os primeiros acordes e percebeu que Delphine recuou dois pequenos passos, como se estivesse se preparando.

“Você vai mesmo precisar!” Pensou consigo mesma e na tomada de um ultimo folego, cantou o que desejava dizer.

Como qualquer pessoa estaria
Eu estou lisonjeada por sua fascinação por mim
Como qualquer mulher de sangue quente
Eu simplesmente quis um objeto para desejar

Mas você
Você não foi autorizada
Você não foi convidada
Uma lamentável desfeita

Incredulidade era o que se compartilhava ali. Ninguém esperava aquela reação de Cosima, exceto talvez a mulher para quem fosse dirigida toda a mágoa doída em cada palavra cantada, ou na intensidade desferida contra as pobres cordas do violão.

Deve ser estranhamente excitante
Assistir o estoico se contorcer
Deve ser de uma certa maneira animador
Assistir o protetor precisando de protetor

Mas você
Você não foi autorizada
Você não foi convidada
Uma lamentável desfeita

Estoicamente Delphine recebia cada mensagem contida na música que Cosima escolhera para lhe ferir. Conseguia compreender como mais ninguém ali o que a mulher diante dela poderia estar passando e sabia que merecia cada tom embargado vindo do fundo da garganta e da alma dela, cada nota errada devido ao peso da emoção que a mulher vivenciava.

Como qualquer território inexplorado
Eu devo parecer extremamente intrigante
Você fala de meu amor como
Se você tivesse experimentado amor como o meu antes

Mas isso não é permitida
Você não foi convidada
Uma lamentável desfeita

Eu não acho que você não valha a pena
Eu preciso de um tempo para pensar

Cosima finalizou a melodia prematura e bruscamente, causando estarrecimento de todos. Todo o seu corpo tremia, sua tez estava avermelhada e veias podiam ser vistas saltando em sua testa. Estava literalmente em seu limite. O maxilar travado, os olhos fechados, os dedos embranquecidos de tanta força desferida contra o instrumento.

De repente, aliado a todo aquele quadro, as luzes de todos os lustres e luminárias começaram a piscar e Delphine sentiu-se a pior das pessoas, pois pode finalmente ver o que havia feito. O mal que causara a Cosima. Nenhum relatório, foto ou vídeo era capaz de narrar o que estava vendo e sentindo. Odiou-se com ainda mais violência e desejou com cada fragmento de seu ser, poder abraça-la e fazê-la esquecer de tudo aquilo. De arrancar aquele sofrimento do coração dela e senti-lo todo para si, tão somente para vê-la novamente feliz.

Nada que ela tivesse ido fazer ali, tinha mais sentido algum. Queria apenas senti-la em seus braços e esquecer tudo e todos. Protegê-la, ama-la, idolatra-la e viver somente para ela.

Impelida por esse desejo avassalador, deu os dois passos que faltavam para que finalmente chegasse ao palco.

- Não! – Todas as luzes piscaram simultaneamente e Delphine paralisou. Cosima havia dito “não”? Torceu com todas as suas ultimas forças que tivesse ouvido errado.

- Cosima, eu... – Sua voz saiu embargada.

- Eu disse NÃO! – Dessa vez ela se fez ouvir para Delphine e mais ninguém ter dúvidas. As luzes piscaram, permanecendo um pouco mais de tempo apagadas e então algumas pessoas ali que sabiam o que acontecia, perceberam que quem estava fazendo aquilo não era a Toda Poderosa Cormier. Era Cosima, sua raiva estava atingindo seus dons de alguma maneira.

Delphine recuou os dois passos que havia avançado sentindo todo o seu mundo ser destruído. Havia desafiado a si mesma e a todas as irmãs da Ordem que lhe imploraram para não. Havia traído a sua própria decisão de se manter afastada para protegê-la. Tudo isso para estar ali, se desnudando para Cosima.

A teria perdido definitivamente? Abriu a boca para novamente dizer algo, mas sua voz não saiu, pois foi duramente interrompida.

- Você não tem permissão de estar aqui! – Havia um tom tão doído naquela frase que causou um medo profundo em Delphine que sentiu o peso do olhar de Cosima sobre ela. – Você não tem esse direito! – Vomitou aquelas palavras sob uma força tremenda que lhe comprimia as entranhas e que parecia querer lhe roubar o ar. Baixou a cabeça, fazendo com que cachos de seu cabelo cobrissem seus olhos. E então, ela cravou o punhal definitivo em Delphine. – Saia! - A loira ouviu perfeitamente o que ela disse, mas relutou em aceitar o que aquilo poderia significar.

- Mas...

- SAIA! – O breu se deu no exato instante em que aquele quase grito se misturou com o estrondo de um trovão que provocou um tremor coletivo em todas as pessoas presentes e totalmente estarrecidas. Seguido ao trovão, o clarão de um relâmpago iluminou o ambiente como um flash de uma máquina fotográfica e revelou que Delphine havia recuado ainda mais e estava com uma expressão de incredulidade no rosto. A escuridão lhes envolveu novamente até que as luzes voltaram a ser acesas uma a uma e quando toda a cafeteria se iluminou, revelou apenas o bater da porta, indicando que aquela mulher havia ido embora.

Como se despertada de um sonho paralisante Cosima percebeu o que havia acontecido ali, e assim que sentiu o peso da dor não mais ser contido em seu peito, chorou como nunca antes em sua vida e foi amparada por sua mãe e Amanita.

 

______

 

A chuva não dava trégua e a água já se acumulava em alguns pontos daquela avenida por onde aquela figura perambulava. As pessoas por quem ela passava a olhavam assustadas. Algumas até tentaram ajuda-la, pois viam que ela parecia estar passando por alguma dificuldade, pois andava por vezes, cambaleando e esbarrando.

Atravessava ruas e avenidas sem nem se dar ao trabalho de olhar para os lados ou esperar a sinalização e mesmo assim, carro algum bateu nela, alguns inclusive desviavam no ultimo instante, e isso nada tinha a ver com a destreza dos motoristas. Até mesmo um motoqueiro derrapou há poucos centímetros de acertá-la. Mas nem aquele tumulto causado por ela, lhe tirava daquele estado letárgico de sobrevida no qual estava mergulhada.

As palavras de Cosima ecoavam em sua mente e ela anda a esmo, sem destino, sem perceber o passar do tempo e quando finalmente deu por si estava no meio de uma praça escura. Procurou se recompor de alguma maneira e à medida que isso acontecia a chuva diminuía e já havia quase cessado por completa quando ela passou por sob uma ponte que era iluminada apenas por pequenos pontos de luz alaranjadas provindas de cachimbos de algumas pessoas que pareciam estar consumindo algum tipo de droga. Delphine não se importou com aquilo, porém, antes que saísse de sob a ponte, sentiu uma mão em seu braço lhe puxando.

Ela olhou para aquele ponto e percebeu as unhas enegrecidas presas a uma mão masculina amarelada. Subiu seus olhos e encontrou um dos olhares mais assustadores que já vira. Contudo, não foi vitima daquele efeito, pois se havia alguém que conhecia a escuridão em suas mais aterradoras entranhas, esse alguém era ela. Apenas limitou-se a puxar seu braço e seguir seu caminho, fosse ele qual fosse. Mas aquele homem não estava disposto a desistir nem tão pouco estava sozinho. Quando Delphine chegou sob a luz de um poste, três outros homens saíram sabe-se lá de onde e impediram que ela continuasse.

- Saiam da minha frente! – Disse de cabeça baixa e sem convicção nenhuma na voz. Parecia que ela havia desistido se entregado.

- Nós dizemos quando você pode ou não ir! – O mais corpulento deles levou sua mão até o maxilar dela, obrigando-a a erguer a cabeça. – Wow! Olhem só isso rapazes. – Ele esbravejou cuspindo saliva no rosto dela, fazendo com que seu já frágil estomago se revirasse devido ao fedor do hálito dele. – Tiramos a sorte grande! – Ele ria sadicamente. Mas ela não revidou, parecia que não tinha mais forças ou... Vontade!

- Vejamos o resto! – Um homem de cabelos desgrenhados e raspado nas laterais da cabeça se adiantou e puxou o casaco que ela vestia, revelando a leve blusa branca sem mangas que ela usava e que estava grudada em seu corpo por estar molhada. – Que delícia! – E antes mesmo que ela pudesse pensar em alguma reação, sentiu um braço envolver seu pescoço, puxando-a de volta para debaixo da ponte escura. Os viciados que havia lá saíram às pressas, pois sabiam que algo muito ruim estava prestes a acontecer ali já que conheciam aquela gangue e tinham a noção do que eram capazes de fazer com mulheres indefesas.

Delphine foi empurrada e cambaleou, tentando firmar seu corpo sobre as pernas e parou bem no meio deles. Olhou-os um a um no rosto e ao contrário do que eles poderiam esperar, ela não estava com medo deles. Na verdade não havia sinal de emoção alguma em seu rosto, parecia mesmo que ela era mais uma morta-viva. Então um deles ousou, na tentativa de causar o tão ansiado medo e abriu sua calça revelando seu pênis que já estava ereto. Estarrecidos eles a ouviram rir.

- É com isso ai que esperam me machucar? – O desprezo em sua voz causou a ira volátil do homem que teve a sua virilidade menosprezada e num movimento brusco seu punho cortou o ar e causando um som abafado, acertou em cheio o rosto de Delphine com um soco violento, obrigando-a cair no chão.

- Sua vadia! – Ainda caída no meio de uma poça de lama, recebeu um potente chute em sua barriga, o que a empurrou deslizando sobre a água e a lama até chocar-se contra a parede de pedras que sustentava a ponte.

Numa tosse sufocada sentiu um gosto a muito esquecido. E quando tentou se erguer cuspiu aquele líquido viscoso que chegou a sua boca. Era sangue. Seu sangue! Olhou incrédula para ele e quando tentou se levantar sentiu o calor do solado da bota de um dos homens lhe acertar o supercilio direito.

- Você só levantará quando dissermos que pode. Isso se você conseguir ficar de pé depois de acabarmos com você! – Risadas ensandecidas vibraram com aquele comentário e Delphine lutou contra a dor em sua cabeça para manter-se consciente. Foi então que ouviu o que pensou que jamais voltaria a ouvir.

- DELPHINE! – A tão amada e conhecida voz chegou aos seus ouvidos, mas ela custou em acreditar naquilo. Pensou que era um delírio de sua mente machucada, mas estava enganada. – A deixem em paz!

“Não era possível!” Pensou consigo e tentou olhar na direção de onde vinha aquela voz, mas sua visão estava comprometida pelo sangue que jorrava do corte deixado pela ultima agressão que sofrera. Conseguiu apenas ver os saltos da bota feminina e conhecida e quando foi levantando a vista, seu coração foi ganhando vida novamente. Era ela.

- Cosi... – Tentou dizer, mas sua voz mal saiu devido aos ferimentos que sofrera.

- Vejam só rapazes! Ela tem uma amiguinha! – Um dos homens gabou-se e partiu para cima dela. Cosima havia parado entre eles e o corpo caído de Delphine e recuou até que suas pernas a tocaram. A mulher caída tentou erguer a mão para tocá-la e constatar que não era uma ilusão de sua mente machucada. Quanto quase a tocou, à mulher pareceu sumir, mas na verdade foi puxada por um dos agressores que a ergueu do chão sem muito esforço, sacudindo-a como se não fosse nada e com outra mão tentou puxar a blusa dela, chegando a rasga-la, deixando o sutiã dela a mostra. Cosima tentou lutar contra o homem, mas só conseguiu atiça-lo ainda mais e em seu frenesi sádico a esbofeteou! O som estalado da palma da mão do homem contra a face de Cosima ecoou naquele espaço e chegou até os ouvidos de Delphine.

As luzes dos poucos postes acesos estouraram todas as mesmo tempo, causando um sobressalto nos homens, inclusive no que segurava Cosima, que a soltou cambaleante. Um relâmpago ao longe iluminou aquele espaço e quando os quatro olharam para o canto onde o corpo de Delphine jazia, ele estava vazio. Entreolharam-se apreensivos e um novo relâmpago revelou que ela estava de pé em meio a eles que deram saltos para trás assim que a viram.

Nova escuridão!

Cosima buscou se firmar sobre os pés e se apoiou na parede. Buscou focar sua visão para tentar entender o que estava acontecendo ali, mas só conseguia ouvir sons que lhe lembravam de galhos molhados sendo quebrados. E então ouviu o primeiro berro agonizante e aterrador. Engoliu em seco e quando finalmente seus olhos se habituaram a pouca luz, gritos e gemidos de dor invadiram o ambiente. Olhou ao redor e percebeu que três daqueles homens estavam no chão agonizando. Forçou seus olhos e viu que um deles estava com uma das pernas retorcidas. Engoliu em seco em meio ao pavor e então encontrou o quarto deles. Ele estava com os pés há vários centímetros do chão, pois estava sendo suspenso por Delphine, que o segurava pela garganta e em se tratando dos sons que ele emitia, estava sendo sufocado. Ela iria mata-lo bem ali.

- Não Delphine! Ele não merece que faças isso! – Correu até ela e a tocou no braço, puxando-o na tentativa de impedir que ela acabasse com a vida do homem. Algo que parecia ser extremamente fácil para ela.

Foi então que a loira virou seu rosto para Cosima que sentiu seu sangue gelar ao deparar-se com a negritude contida nos olhos amados.

“Delphine...” Fechou seus próprios olhos e quando tornou a abri-los se viu em meio a uma escuridão extrema embora conseguisse enxergar bem onde estava e lembrou-se daquele lugar. Já havia estado lá. Virou-se e então a viu. Delphine estava novamente flutuado sobre aquela superfície negra. Correu até ela com certa dificuldade, pois aquele líquido viscoso lhe atrapalhava. Mas finalmente a alcançou e assim que lhe tocou os pés, ela baixou os olhos.

“Cosima? É você mesmo?” A sombra escura se dissipou dos verdes olhos dela e quando se deram conta, estavam de volta àquela ponte se encarando.

- Sim meu amor. Sou eu! Solte-o. – Delphine obedeceu de pronto completamente maravilhada com as palavras que acabara de ouvir. O homem caiu desacordado, mas ainda respirando.

- Voc... Você veio... Por mim... – Delphine disse com estranha dificuldade e então sentiu a consciência lhe abandonado à medida que deixava de sentir seus membros e só não caiu no chão desacordada por que foi amparada por Cosima.

- Delphine!!! – Gritou ela, com sua amada inconsciente em seus braços.

 

______

 

Vozes desconexas começaram a chegar aos seus ouvidos, mas ela não conseguia discernir com clareza o que diziam. Percebeu que estava despertando do que pareceu ser um sono muito longo. Forçou os olhos, mas a claridade que incidia de uma janela logo acima da cabeceira da cama. Toda a luz lhe cegava um pouco, mas aos poucos foi focando sua visão e percebeu que na cabeceira da cama onde estava havia um lindo tecido cor de telha entrelaçado entre os ferros cor de cobre. Teve a impressão de que já havia estado naquele lugar. Olhou com mais atenção e localizou alguns colares longos de contas, cordões e pedras pendurados de um dos lados da cabeceira. Eles eram familiares demais. Então olhou ao redor e percebeu que não estava em um hospital e sim num quarto.

“O quarto dela...” Pensou enquanto baixou a cabeça de volta ao travesseiro e esticou a mão para tocar aquele que estava ao seu lado. O puxou para si e o abraçou assim que sentiu aquele cheiro tão conhecido e querido. Mas onde ela está? Esforçou-se para se levantar a despeito da dor fina em seu rosto e cabeça.

- Ei ei... Finalmente você acordou. Não deves se levantar! – Uma voz feminina ao lado da cama lhe chamou a atenção. Olhou para aquela direção e custou a acreditar no que seus olhos lhe mostravam.

- Shay? – Disse com denotada surpresa na voz. A mulher de pé anuiu com a cabeça enquanto se debruçava sobre ela.

- Deixe-me ver como está isso aqui. – Levou a mão até a testa de Delphine que instintivamente recuou. Não conseguia conectar as ideias para buscar uma explicação para aquela situação. Estava bastante confusa. – Calma, preciso apenas trocar o curativo em sua testa. – Só então ela levou a sua própria mão à testa e percebeu a delicadeza da gaze um pouco acima de seu olho.

- O que...? – Delphine perguntou encarando Shay que apenas ignorou a pergunta, atendo-se a sua tarefa. – Onde está a Cosima? – Mas antes que a mulher pudesse lhe responder, um suspiro visivelmente impressionado foi emitido por ela.

- Nossa! Nunca vi ninguém cicatrizar tão rápido assim. – Ela inspecionava o ferimento que continha quatro pontos dados por ela. – Vejamos esse aqui! – E antes que Delphine pudesse pensar com clareza, teve o lençol que lhe cobria afastado revelando sua nudez. Assustou-se com aquele gesto e viu nos olhos da médica um misto de surpresa e admiração. – Isso é realmente impressionante! – Ela pressionava gentilmente as costelas de Delphine que protestou diante do incomodo que sentiu. Olhou para seu abdômen e percebeu que havia uma grande mancha roxeada que ia do centro de sua barrida até suas costelas direitas.

Só então começou e ter vislumbres do que acontecera no que ela pensava ter sido na noite anterior. O ataque no parque, a sua perda de controle...

- Cosima?! – Afastou a mão de Shay com certa violência levantando-se apenas de calcinha. Sentiu um tremendo desconforto em seu estômago e sua cabeça girou um pouco.

- Eu! – A voz dela lhe alcançou e quando ela se virou, Cosima estava parada na porta do quarto, segurando duas canecas fumegantes. Foi impossível para a morena não varrer o escultural corpo desnudo de sua amada. Aquele que tanto lhe enlouquecia e mexia com suas fantasias. E quase esquecendo que havia uma terceira pessoa ali, mordeu seu lábio inferior o que não passou despercebido por Delphine que soltou um discreto sorriso de canto de boca, mas esse não progrediu, pois cambaleou um pouco.

Num movimento rápido, Cosima depositou as canecas na sua escrivaninha e correu para amparar Delphine. Assim que ela sentiu o toque das mãos do amor de sua vida em sua pele a reação foi instantânea e violenta, levando-a a gemer baixinho e não foi de dor.

- Ela é teimosa mesmo! – Shay disse interrompendo aquele momento. Delphine a olhou por sobre o ombro com aquele olhar que seria capaz de apavorar o mais corajoso dos mortais.

- Você tem que descansar! – Cosima disse já a ajudando a retornar para a cama. Obedeceu de pronto. Bastava-lhe apenas o fato de estar ali com ela, de ver em seus olhos que toda a chama, todo o amor ainda estavam lá. Porém, havia Shay. – Como ela está? – A morena perguntou para a médica.

- Pelo que posso ver muito bem para alguém que levou a surra que você disse. – Ela respondeu já com uma das canecas de café nas mãos. – Aliás, bem até demais. Essa recuperação é praticamente impossível para alguém que se machucou tão violentamente há apenas dois dias.

- Eu tenho uma ótima cicatrização! – Delphine disse recostando-se na cabeceira da cama sem se quer tomar o cuidado de cobrir seus seios nus. Percebia o claro desconforto da mulher com aquilo e a evidente agonia de Cosima. Mas também desejou que o foco em seus machucados mudasse.

- Bom... – Shay disse após quase se engasgar com o líquido quente. – Ela me parece muito bem. Não precisa mais fechar esse curativo na testa... Os pontos serão absorvidos completamente pela pele... – Já fechava sua maleta que continha utensílios médicos. – Mas agora eu preciso ir, já estou atrasada para meu plantão. – Aproximou-se de Cosima perigosamente, obrigando Delphine a apertar o lençol com força, quase o rasgando. Shay abraçou Cosima e depositou um leve beijo na bochecha dela, causando um suspiro de alivio em Delphine. – E você também precisa descansar. Mal dormiu nesses últimos dois dias. São ordens médicas viu? – A loira sorriu ao caminhar em direção à porta, mas ainda virou-se em direção a cama. – Repouso! – Demandou com o dedo em riste e expressão triste. Cosima não a acompanhou, apenas esperou silenciosamente até que a porta de entrada fosse fechada.

Caminhou até sua escrivaninha e pegou a caneca que já não estava mais tão quente. Recostou-se em sua escrivaninha e bebericou olhando para Delphine por sobre a louça.

Ficaram se olhando daquela maneira por longos minutos, tentando decifrar o que se passava uma na mente da outra. Ambas sabia que se desejassem, poderiam estabelecer aquela conexão única, mas parecia que estavam esperando pela outra. Delphine sentiu seu coração querer sair de seu corpo, tamanha era a emoção que sentia e era catalisada pela ansiedade e a urgência. Queria, mas não deveria se permitir estar feliz naquele momento, pois não fazia ideia do que Cosima iria fazer, embora para ela só em estar ali já era motivo para nutrir uma mínima esperançazinha.

- O que aconteceu?

- Como você está?

Disseram simultaneamente denotando que estavam nervosas na mesma intensidade. E até mesmo compartilharam um sutil sorriso. Mas foi Cosima quem continuou.

- Você não se lembra do... Ataque?

- Vagamente! – Levou a mão à cabeça.

- Está com dor? – Cosima exasperou-se já indo até a cama e quase tocando a testa de Delphine.

- Não muita apenas um pouco confusa. – Fez uma careta adorável, daquelas capazes de desestabilizar Cosima que se sentou na beirada da cama e inclinou a cabeça levemente para admirá-la.

- Sim... – Procurou se recompor quando percebeu que estava embasbacada a tempo demais. – Você foi atacada numa das praças mais perigosas da cidade. Onde você estava com a cabeça em ir até lá?

- Cos... Eu não conheço sua cidade, além do fato que... – Baixou os olhos para em seguida ergue-los encarando-a de forma delicada. – De eu estar desnorteada... – Escolheu as palavras com cautela, pois estavam se aproximando daquele delicado assunto.

- Certo... – Esfregou as mãos nas coxas sobre a calça cinza de tecido fino que vestia. – Você estava sendo atacada por uns caras então...

- Você foi atrás de mim! – Afirmou com firmeza e um intenso brilho nos olhos. Cosima a olhou por vários instantes e apenas anuiu com a cabeça. – Você foi me ajudar... – Delphine desviou brevemente o olhar e pareceu estar juntando as peças do quebra-cabeça em sua mente. – E eles te atacaram! – A dureza nas palavras só não era maior que dos olhos dela.

- Isso, e então... – Não concluiu, apenas abriu os braços e depois os deixou arriar. – Delphine fechou os olhos e recostou a cabeça na cabeceira lembrando-se com total clareza de tudo. De como estava entregue e sem vontade alguma de viver e quando viu aqueles homens asquerosos partirem para cima de Cosima, cegou de ira.

- Eu os teria matado sabia? – Abriu os olhos lentamente causando um sobressalto em Cosima com a honestidade naquelas palavras. – Se não fosse por você... Eles estariam mortos agora só por terem pensado em tocar em você... – Ousou mover seu braço para tocá-la, mas o afastamento brusco dela assustou-a.

- Delphine... Por quê? – Voltou a olhá-la.

- Já disse, eu estava desnorteada e não sei ao certo como fui parar lá... - Cosima anuiu negativamente com a cabeça.

- Por que você está aqui? – Lá estava a pergunta! A cobrança! O início ou o fim de tudo. Delphine arregalou os olhos, abriu várias vezes à boca para falar algo, mas recuou todas elas. Não sabia como começar aquela conversa, não conseguia escolher como fazê-lo e isso se devia ao fato de não haver escolha alguma. Havia apenas uma forma de responder aquela pergunta e, buscando toda a sua mais profunda honestidade, respondeu.

- Porque eu te amo! – O poder daquelas palavras atingiu violentamente Cosima que se encolheu por inteira, para em seguida se arrepiar e sentir seu coração disparar. Começou a perceber que aquela onda de mágoa estava querendo retornar, mas decidiu que não daria vazão a ela, pois já o fizera na outra noite e isso quase custou à vida de sua amada. Decidiu que iria ouvi-la! Afinal de contas, ela merecia ao menos isso.

- Então por que demorou tanto? Por que me mandou embora? – Não conseguiu se conter nem por cinco segundos. Havia dor e suplica em seu olhar.

- Cos... – Delphine moveu-se inquieta, tentando buscar uma posição, parando de joelhos bem próxima a ela.

- Delphine, pelas deusas... Cubra-se, por favor! – Cosima tentou desviar os olhos dos espetaculares seios a poucos centímetros dela. A loira franziu a testa e olhou ao redor, procurando alguma roupa para vestir, mas não havia nada ali perto. Voltou a recostasse na cama e usou o lençol para mal se cobrir. Quando Cosima virou-se novamente para ela revirou os olhos e bufou.

“Nem na merda essa mulher consegue não ser sexy?!” Pensou consigo mesma. Delphine analisou a expressão no rosto amado e buscou um ultimo fôlego antes de dar início às suas explicações. As quais não fazia ideia de como Cosima iria receber.

- Cos... Você leu tudo... Você estudou sobre mim... Sobre a Ordem... – tentava sem sucesso estabelecer uma linha de raciocínio lógico. Como iria conseguir explica-la o que tanto precisa? – Viu o que aconteceu com Louis... – A viu estremecer com aquela lembrança. – Teve uma amostra do que eles são capazes... Susan...

- E o que tudo isso tem a ver comigo? Com o fato de você me afastar daquela maneira? Droga Delphine eu te amo com todas as minhas forças! – Lágrimas que caiam aos montes denunciavam que ela estava no limite. A loira engoliu em seco e o tremor em seu queixo e lábios também lhe entregavam. Mas tê-la ouvindo dizendo que a ama serviu como uma injeção absurda de coragem e força.

- Eu te amo muito meu amor... Mas foi justamente por isso que precisei ficar longe de você.

- Que inferno! Por quê? Me explica... Me ajuda! – Suplicava

- Pra salvar sua vida, droga! – Aquela explosão saiu sem que planejasse assustando a ambas. Cosima arregalou os olhos e deixou sei queixo cair, completamente atônita com o que ouvira e com o estado de Delphine. Ela tremia por inteiro, exatamente da mesma forma que estava quando entrou no café há duas noites.

- Como... Assim? – Gaguejou. Delphine procurou buscar uma lógica em suas palavras, mas não havia nenhuma, então decidiu deixar seu coração extravasar.

- Manu! – Cosima arregalou ainda mais os olhos. Jamais esperaria que aquela menina fosse citada naquela conversa, mas antes de questionar qualquer coisa, a loira continuou. – Você sabe que ela é especial não é? – Não esperou pela resposta e prosseguiu. – Que ela tem o raríssimo dom de prever o futuro... – Cosima anuiu hesitante. – Ela... Ela sonhou com... – A voz de Delphine ficou ainda mais embargada, denunciando o seu estado. Era impossível para Cosima não se comover, não ser atingida. – Ela sonhou com a sua... – Respirou ainda mais fundo. – Morte! – Essa ultima palavra saiu quase inaudível, mas foi perfeitamente compreendida pela outra.

- Mas Del... Isso não possível... – Seu ceticismo sempre falando mais alto. Mas dessa vez Delphine não estava disposta a deixar que ele lhe atrapalhasse e num movimento rápido lançou-se contra Cosima que foi pega completamente de surpresa quando sentiu a mão dela em sua nuca e a pressão da testa dela contra a sua.

- Veja você mesma! – E num instante forçou aquela conexão que possuíam.

Então as imagens aterradoras dela mesma caída ao chão, em meio a uma poça de sangue com Delphine sobre ela no mais pleno desespero chegaram a sua mente. Sentiu-se nauseada e recusou-se a ver mais qualquer outra coisa. Com cuidado descolou suas testas e quando olhou para Delphine ela estava com os olhos cerrados, chorando copiosamente.

- Você morrerá por minha causa! – Disse quase cuspindo aquelas palavras. Cosima assustou-se, mas não conseguiu mais se afastar ou suportar e tomada por uma compaixão jamais experimentada, abraçou a mulher diante de si e permitiu que ela apenas chorasse tudo aquilo que precisasse.

Sentir o tremor do corpo poderoso de Delphine em seus braços, tão vulneral e entregue, logo após ter visto o que ela lhe mostrou, a tocou profundamente. Agora as coisas começavam a fazer sentido para ela. Delphine estava sendo honesta. Ela podia sentir isso em cada respiração, cada soluço choroso.

- Você me afastou de você para me proteger?! – Não era uma pergunta. Delphine ergueu seu rosto e se posicionou bem a frente dela, ajoelhada, com o rosto lavado pelas lágrimas e sentindo um calor quase esquecido tomar conta de seu coração, pois o que via nos olhos tão amados não era mais mágoa, ou ira. Era ternura e... Amor!

Com suas forças alimentadas por uma nova onda de esperança, Delphine ergueu sua mão para tocar o rosto amado, mas parou a poucos centímetros, como se temesse algo, se esperasse por algum tipo de permissão. E essa veio com a mão de Cosima segurando a sua e puxando até seu rosto.

Nenhuma palavra seria capaz de explicar o que ambas experimentaram em meio aquele toque tão delicado, tão intimo e repleto de significados. A permissão ansiada por uma, foi concedida pela outra e naquele gesto singelo, as palavras se tornaram desnecessárias, até por que elas só iriam estragar o clima que se estabeleceu ali. E como tantas vezes, voltaram a mergulhar uma na outra, em seus olhares, em suas emoções e o mundo pareceu girar mais lentamente enquanto uma partia em direção a outra. Ávidas pelo reencontro, desesperadas para vencer aquela ultima distância que ainda as separava.

- Cos, você tá ai... Opa! – As duas de sobressaltaram com a entrada abrupta de Amanita. – Gente... Me desculpem. – A mulher ficou extremamente constrangida diante da cena que viu.

- Oi... Nita! – Cosima tentou se recompor tão ou até mais constrangida do que a amiga.

- Olá Amanita! – Não havia vergonha alguma na voz de Delphine, estava mais para um tom a mais de repreensão.

- Trouxemos as coisas da Delphine, como você pediu. – Indicou uma mala que a loira reconheceu sendo a sua e que estava no hotel onde estava hospedada. Pensou em questionar como conseguiram, mas lembrou-se de Anna e Ingrid. Voltou a encarar Cosima e achou encantador o jeito envergonhado dela. Levantou-se da cama com a maior naturalidade do mundo e caminhou até uma boquiaberta Amanita.

- Obrigada! – Pegou sua mala gentilmente. – Cos... Será que eu poderia tomar um banho?

- Cla... Claro! – Gaguejou. – O banheiro fica...

- Sei onde é! – Lhe piscou um olho e Cosima não soube ao certo o que aquilo queria dizer. – Senhoritas... – Puxou sua mala até o banheiro, deixando Amanita e Cosima entregues a seu constrangimento.

 

______

 

- Vejo que as coisas estão começando a se acertar entre vocês... – Amanita provocou a amiga. Ambas estavam na sala enquanto Delphine terminava de se trocar no quarto.

- Mais ou menos Nita... – Respondeu após um esboço de sorriso. – Eu ainda preciso compreender melhor tudo o que está acontecendo.

- O que ela lhe disse? – Cosima olhou fixamente para sua amiga, decidindo se deveria ou não lhe contar o que lhe foi revelado, mas ponderou que não havia ninguém em quem ela confiasse mais que em Amanita.

Relatou de forma breve o que lhe foi revelado acerca da previsão fatal da pequena Pitonisa da Ordem do Labrys e de como Delphine havia decidido se afastar para proteger sua amiga. Olhou-lhe com absurda admiração.

- Ela realmente ama muito você! – O poder contido naquela afirmação foi capaz de estremecer com todas as estruturas de Cosima, que somente pode concordar.

- Agora me sinto nova! – Delphine saiu do quarto e ouviu um “Wow” sonoro e espontâneo das duas mulheres. Vestia uma simples calça preta leve e justa que ia até pouco acima de seus tornozelos. A blusa era branca, de um tecido fino e um pouco transparente e de comprimento curto, revelando, por vezes, parte da barriga dela ainda com tons levemente arroxeados. Calçava despojados sapatos de cadarço e tinha os cabelos molhados. Simples, mas linda como sempre. – Só falta... Comer alguma coisa. – Fez uma cara quase infantil, querendo lançar a mensagem certa.

- Minha nossa! Claro, você não se alimentou direito nesses dois dias por passar mais tempo inconsciente. Venha, vou lhe preparar um café da manhã decente. – Indicou a saída em direção ao café.

- Só um instante. – Delphine gesticulou com a mão e foi até o quarto, mas não se demorou lá. – Podemos ir! – Seguiu sua amada e Amanita pelas escadas e quando chegaram ao café, ainda havia poucos clientes e Scott era quem estava cuidando do Rabbit.

- Bom dia moças... – Sua saudação ficou pelo caminho assim que viu Delphine. Ele, assim como muitos dos outros presentes na noite do ultimo sábado ainda estava tentando digerir tudo o que havia acontecido, embora Cosima tenha lhe dito que as coisas estavam se acertando.

- Delphine, esse é o Scott. – Amanita os apresentou.

- Desculpe por eu ter saído daquela maneira Scott. – E sacou de seu bolso uma nota de cem dólares. – Nem paguei o meu lanche. Pode ficar com o troco! – O rapaz recebeu o pagamento ainda confuso, assim como Cosima e Amanita que trocaram olhares questionadores. – Eu estive aqui no café sábado mais cedo. – Confessou diretamente para Cosima. – Você havia saído. – Baixou a cabeça um pouco envergonhada.

- Bom... Agora vou deixa-las. – Amanita se despediu com um abraço em Cosima e um aceno discreto de cabeça para Delphine.

- O que vai querer comer... Delphine? – Scott perguntou educadamente.

- Shay disse que ela deve comer algo leve, por ainda estar debilitada. – Olhou fixamente para ela franzindo a testa. – Prepare uma vitamina de frutas, ovos mexidos e torradas. – Demandou sob o protesto estampado na careta de Delphine. – Vai ficar gostoso, confie em mim. – Piscou um dos olhos e a loira se derreteu por completo. O rapaz partiu para a cozinha, deixando as duas sozinhas no balcão.

- Tem outra coisa que preciso lhe confessar... – A loira continuou sua fala diante de uma atenta Cosima. – Nesse mesmo dia em que estive aqui em seu café eu... – Analisou o olhar da mulher diante de si. – Fui até o seu apartamento. – Disse baixinho temerosa de qual seria a reação da outra.

Cosima entreabriu a boca algumas vezes, mas ao contrário do que Delphine pudesse presumir, ela não se zangou.

- Hum... De uma certa maneira eu sabia disso. – Delphine arregalou os olhos. – Quando voltei para casa naquela noite eu percebi que havia algo diferente... Senti uma... Energia diferente. Pensei que era bobagem naquele momento, mas agora faz sentido... Mas por que você foi até lá? – Questionou, embora não fosse necessário. Em seu intimo ela sabia exatamente o que a mulher fora fazer em sua casa.

- Eu precisava de você... De algo seu... Seu cheiro, suas coisas... Eu não suportava mais um instante longe de ti! – Usou de toda a sua sinceridade e Cosima sentia cada palavra mexer profundamente com ela. Esticou sua mão e tocou a dela. Novamente aquela impressionante energia se espalhou por seus corpos, só que dessa vez os instintos das necessidades despertadas começaram a se converter em outra coisa ainda mais intensa e intima. Ambas engoliram em seco e se permitiram deixar invadir pelas fantasias geradas pelo desejo crescente que emanava de seus corpos.

- Prontinho! – Scott retornou com o café da manhã de Delphine, mas o rapaz precisou chamar a atenção de Delphine algumas vezes, pois ela tinha o olhar fixo em Cosima.

- Ah sim, obrigada. – Sorriu para o rapaz que novamente ficou embasbacado com a beleza surreal dela. - Até que isso aqui está bom! – Disse após provar o espesso líquido alaranjado contendo mamão, laranja, banana e leite. Só após a primeira mordida na torrada foi que percebeu o quanto estava faminta, ao ponto de pedir para repetir.

 Cosima a assistiu se alimentar em silêncio, lutando para não demonstrar a absurda excitação que começou a dominar seu corpo. Sabia que ainda havia muitas coisas a serem conversadas entre elas, mas a urgência que extava experimentando, demandava que qualquer outra coisa fosse deixada para depois. Tinha ficado longe tempo demais. O ressentimento e a mágoa que ainda deixaram resquícios lhe impeliam a cobrá-la por cada dia, cada hora, cada segundo longe dela.

E como se Delphine estivesse partilhando de cada sensação daquela mulher, a olhou de soslaio fazendo questão de demonstrar para Cosima a mudança na tonalidade de seus olhos. O verde musgo foi preenchido pelo mais puro e visceral desejo, fazendo com que um calafrio percorresse ambos os corpos, eriçando seus pelos. Engoliu o restante de sua vitamina de uma vez só e teve sua mão firmemente tomada por Cosima que a puxou de volta para o apartamento.

- Scott, se alguém me procurar diga que sai. – E subiu as escadas puxando Delphine que não conseguiu segurar a deliciosa gargalhada que a expressão do pobre rapaz lhe provocou.

 

 

 

 

 

           

 

 


Notas Finais


Alanis Morissette - Uninvited: https://www.youtube.com/watch?v=aPxKGkTa12Y


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