História An unexpected love - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo 2


          Julieta narrando:


Corro pelo calçadão sentindo o suor descer pelas minhas costas e o vago dos meus seios,o vento que vem da maré toca meu rosto suado e me faz estremecer. Vejo pessoas abrindo seus quiosque, vendedores que andavam pela praia e calçadão em busca de ganhar seu dia, empresários correndo pra lá e pra cá, o congestionamento matinal na avenida principal de Copacabana. Eu via tudo isso enquanto corria.
Paro num pequeno quiosque, tiro os fones de ouvido e peço um suco de laranja. Me sento e tomo com a respiração meio ofegante, fico olhando as ondas se quebrando e alguns surfistas já chegando para aproveitar as primeiras ondas da manhã.
Ao terminar de tomar o suco,eu pago,e volto a correr até chegar em casa. Vou tirando meu tênis sujo antes mesmo de entrar em casa, Susana tinha pavor de sujeira,ela era literalmente muito chata com isso. Vou pra cozinha ,coloco o pó de café na cafeteira e deixo a sacola com pães e bolo sobre a mesinha de vidro.
Vou tomar banho e retirar todo aquele suor de mim, e assim faço, depois visto uma roupa folgada e vou tomar café da manhã. Todos ainda dormiam, mas por conta de ficar dois anos acordando cinco e meia da manhã pra poder ir pro serviço que ficava longe, eu acabei acostumando com essa rotina. Vejo no relógio que são sete e meia da manhã, precisava acordar esse pessoal. Fui no quarto da Susana e bati na porta, sei que era inconveniente, mas se eu não acordasse ela, Susana não acordaria. Ela já havia quebrado dois celulares quando tocavam pela manhã a acordando,mas ela tinha que estar no escritório exatamente nove da manhã.
Depois fui pro meu quarto,meu e do meu filhote,era pequeno,apertado,mas era nosso cantinho. Havia um guarda-roupa pequeno,um berço que Camilo nem encostava mais e do lado do berço uma cama de casal que era onde nós dormiamos abraçados,tinha o ventilador mas mesmo assim era muito quente. Me deitei na cama próximo dele e encostei minha cabeça no travesseiro o olhando.
Ele dormia como um anjo,e eu admirava ele, relembrando de tudo que já passamos juntos. Eu, naquela sala de cirurgia,o tendo,sentindo dor e olhava ao redor sem ter ninguém comigo,eu chorava,mas quando ele nasceu e o segurei,eu sorri tão sinceramente,pois eu o amava mais que tudo,amava aquele pequeno bebê gorducho e perfeito.

Toquei o nariz dele e me aproximei beijando as bochechas do mesmo.

-- Mamãe, deixa eu dormir mais um pouquinho-- disse manhoso,rindo e se espreguiçando. Ele abre seus olhinhos e me encara.

-- Já vai dar oito horas,mocinho-- digo e ele rola na cama pegando o urso dele,eu começo a fazer cócegas nele e ele ri tentando se safar.-- Bomba de cócegas.

Ele desperta e sai dos meus braços,é tão bom ver a gargalhada gostosa dele,me deixava tão feliz. Ele me abraça e se joga em cima de mim,o abraço e o encho de beijos. Era bastante carinhosa com meu filho, fazia de tudo pra estar presente na vida dele. Meu filho nunca foi uma criança que teve tudo o que quis,é certo que passamos necessidades,mas ele nunca passou fome porque já deixei de comer pra dar pra ele.

-- Vamos acordar a tia Susana?-- digo e ele concorda animado.

Me levanto na pontinha dos pés e vou pro quarto da Susana, abro a porta de uma vez e corremos pra cima dela,nós dois nos jogamos já enchendo ela de cócegas. Ouço meu celular tocando e vou correndo e atender deixando os dois guerreando nas cócegas.
Atendo rápido.

-- Alô?

-- Julieta Sampaio?-- a voz era feminina e séria.

--Sim,eu mesma.

-- Bom dia,senhorita. Me chamo Cecília Santos,sou secretária pessoal de Aurélio Cavalcante,Estou ligando para marcar a entrevista de emprego para hoje a tarde,seu currículo foi selecionado.

Quase gritei,mas mantive a calma mesmo com meu coração batendo forte.

-- Bom dia.... ah sim,hoje à tarde?Onde?.... é qual horário?-- gaguejei toda enrolada.

-- Mandarei as informações por e-mails,por favor,sem atrasos ou será desclassificada. Tenha um bom dia e lhe vejo pela tarde.

Ela desliga sem obter resposta e dou um berro pulando como uma louca. Meu Deus... iria em uma entrevista! Após meses atrás de emprego.
Susana surge com a cara amassada e com Camilo no colo,ela me olha confusa e meio assustada.

-- Tenho uma entrevista,hoje!-- digo e ela ri me puxando pra um abraço.

--Qual vaga?

-- Babá,dos filhos do juiz,o Aurélio Cavalcante...--digo e vejo a boca de Susana se formar em um "O" enorme,ela me olha perplexa.

-- Não brinca,o juiz Aurélio? Meu Deus... é sério que é ele?

Assinto meio confusa.

-- Faz ideia de quem ele é?--nego e ela coloca Camilo no chão e pega o notebook o ligando e pesquisa o nome do mesmo.

"AURÉLIO CAVALCANTE". A página do Google abriu e mais de milhões de resultados apareceram. Inclusive a foto dele. Jesus,que homem é esse? Ele me dava medo.

-- Ele é um dos juízes mais famosos do país,já participou de congressos no exterior,já julgou Djalma, o traficante mais procurado do Rio de Janeiro,já colocou tanta gente atrás das grades... meu maior medo e sonho ao mesmo tempo é defender alguém em uma audiência em que ele julgue. Nunca ouviu falar dele? Vive passando no jornal,em sites de famosos,conhecido por ser frio,muito sombrio e rigoroso. Coitado de quem é julgado por ele.

Sinto um frio na espinha. Aperto na imagens e surge várias imagens dele,de terno,de toga,com a bandeira de alguns países... e em todas as fotos ele estava com os lábios em linha reta. Era alto,visto ao lado de alguns cara,tinha os cabelos castanho escuro,os olhos azuis e ele tinha um bronzeado típico de carioca,mas não aparentava ser daqui,os olhos dele eram rígidos e firmes. Em nenhuma foto aparecia com mulheres ao seu lado sem ser no tribunal,outras juízas,promotoras,embargadoras,mas ele usava anel no anelar,presumi que ele não gostava de expor sua família, até porque um juiz sempre corre perigo,sua família também e todos ao seu redor,principalmente ele,um homem prepotente e impiedoso. Li um pouco sobre ele e o quanto ele era popular,havia condenado vários traficantes,estupradores,corruptos,e era um dos mais fluentes juízes do Rio de Janeiro. Ele era bonito,mas parecia ser uma pessoa muito rude,seu olhar era duro e sua expressão também. Se esse homem é assim imagina os filhos? Mas tratei de não tomar conclusões precipitadas,vai que ele não era tão ruim assim....


                                  ♡☆♡☆♡


A entrevista ocorreria em um prédio fechado no Leblon,estava marcado pra exatamente duas e meia da tarde, e quando era uma da tarde eu já estava me arrumando. Na verdade,quem me arrumava era Susana. Estava muito nervosa,meu coração batia forte e minha barriga gelava,eu precisava muito desse emprego mas tinha medo de não passar. Me vesti de forma totalmente social,Susana me emprestou uma de suas roupas,um blazer giz e uma saia da mesma forma,o salto era baixo e preto,eu já o tinha guardado fazia um tempo,a camisa de dentro era social branca. Fiz um rabo de cavalo,uma simples maquiagem,peguei meus documentos e fiz mais algumas coisas para parecer mais formal e com mais potencial possível.

-- Você acha que eu estou bem?-- pergunto pra Susana e ela ri orgulhosa.

-- Está sim,responda todas as perguntas,seja sincera,mostre o quanto você se dá bem com crianças e o quanto quer trabalhar para o nosso querido meretíssimo.

Abro um sorriso nervoso e me olho no espelho pequeno do quarto dela,estava bem.

--Vamos que te dou uma carona-- ela diz e pego minha bolsa.
Camilo já estava na creche,havia pedido pro Olegário levar ele já que eu tinha entrevista de emprego . Peguei o capacete da biz cor de rosa da louca da Susana e nós descemos trancando tudo.


                            ♡☆♡☆♡


O prédio era enorme,espelhado e negro,as letras eram puxadas e brancas e estavam dizendo "Cavalcante",deduzi que aquilo era um tipo de escritório de advocacia ou algo com prédio jurídico. Minhas mãos suavam,olhava pro arranha-céu em minha frente e sentia um bolo se formar em minha garganta. Estava com medo,eu já sabia que não conseguiria.
Entrei ali determinada,era todo climatizado e em tons marrom,cinza e preto,muito bem mobiliado e andava pessoas pra lá e pra cá. Tudo ali era bem sofisticado,parece que o cara tem dinheiro mesmo,havia lustres,quadros, e várias outras decorações,eu estava muito nervosa pra reparar. Fui direto na recepção.

-- Boa tarde,vim por conta da entrevista de emprego de babá com a senhorita Cecília Santos.

Ela me analisa e com cara de poucos amigos diz:

-- Elevador na esquerda,sétimo andar,segundo corredor à direita na sala de reuniões A-- ela disse com certa arrogância na voz e voltou a prestar atenção em seu serviço.
Respirei fundo e caminhei com as pernas bambas até o elevador entrando junto de mais algumas pessoas e apertando no sétimo andar.
Sai e fui direto no local indicado,era uma grande porta branca,bati antes de entrar e quando entrei me deparei com vários mulheres,muitas mesmo,em torno de vinte ou quinze,negras,brancas,morenas,loiras,ruivas,gordas e magras. Elas estavam todas sentadas na extensão da sala que parecia mais uma sala de espera de hospital,havia algumas poltronas de cor marrom espalhadas pelo carpete cinza e em frente ao amontoado de cadeiras havia um balcão onde estava uma secretaria,também havia uma televisão enorme que exibia o jornal. Respirei fundo e fui até a recepção.

--Boa tarde,me chamo Julieta Sampaio,eu vim pra entrevista de emprego,com quem posso falar?-- digo gentil e ela me lança um sorriso falso.

-- A entrevista está ocorrendo com a senhorita Cecília na sala,todas essas mulheres também estão esperando para serem entrevistadas,então só me dê sua identidade pra eu anotar seu nome e aguarde ser chamada-- ela diz e pego rápido minha identidade entregando pra ela. Ela digita algo no computador e me entrega de volta.
Saio dali e procuro um lugar pra me sentar,olhava aquele tanto de mulheres e via que não havia chances nenhuma de conseguir passar,com certeza havia mulheres ali com experiência mas eu.... era somente uma ninguém.
Demorou muito, cerca de uma hora já havia se passado,eu já havia tomado uns três copos de café que uma moça servia,já era três e meia da tarde,e nada.

-- Julieta Sampaio --uma mulher vestida bem e de cabelos castanhos chamou-me e me prontifiquei.

Deduzi que aquela fosse Cecília, ela era branca e usava um vestido social vermelho, seus cabelos estavam bem amarrados em um coque e ela esbanjava formalidade.
Eu? Mal sabia andar em cima daquele salto de 3 cm. Fui andando com as pernas bambas até ela, meu coração batia forte, sentia vontade de vomitar meu coração.

-- Boa tarde-- digo estendendo minha mão e ela arqueia a sobrancelha e ri amigavelmente mas não aperta minha mão. Qual era o problema das funcionárias desse cara idiota?
Ela me dá espaço e adentro na sala grande e bem típica de escritório. Com um papel de parede cinza,uma mesa de vidro com um computador e uma ficha,alguns livros em prateleiras,quadros...tudo esquisito.
Fiquei olhando tudo ao redor com as borboletas dançando em meu estômago.

--Se sente-- ela pede fazendo o mesmo.

Me sento me desculpando e a encaro mostrando meu nervosismo extremo. Ela pega um gravador e coloca sobre a mesa.

-- Senhorita Julieta Sampaio,certo?-- assinto rápido.-- Sou Cecília,secretaria do senhor Cavalcante,a entrevista será toda gravada e entregue à ele. A primeira entrevista é comigo e a segunda,de selecionadas,é com ele. Farei perguntas simples e você me responderá.

Eu concordo de novo.

-- Você tem vinte anos,é naturalmente paulista,não tem curso superior e nem um curso profissionalizante,cursou somente até a metade do ensino médio e trabalhou como doméstica na casa de Luís Braga.

-- É... isso mesmo... senhora.
Gaguejo,merda!

-- Você mora com quem?

-- Meu filho e minha amiga.

-- Você tem filho? Quantos anos ele tem?

-- Tenho sim, ele tem três anos,praticamente isso.

-- Então é casada?

-- Não,sou mãe solteira-- digo sentindo minha mão tremer.

-- Onde mora seus pais?-- ela pergunta olhando em meus olhos.

-- São Paulo.

-- Por que veio pro Rio de Janeiro?

-- Vim em busca de mais oportunidades-- minto.

-- Já teve passagem pela polícia? Já usou drogas? Já cometeu algum crime?

-- Não

--Se por acaso fosse contratada,com quem ficaria seu filho?

-- Na creche,ele está em uma idade em que começa a se interagir com outras crianças.

-- Tem disponibilidade para dormir na casa junto das crianças ou viajar?

-- Sim.

-- Fale sobre você,em geral.

-- Bom...é... eu me dou bem com crianças,nunca trabalhei com crianças mas eu tenho meu filho e me dou bem com ele,cuidei dele sozinha desde que nasceu e por isso sei como é difícil lidar com crianças,não uso drogas,nem bebo, sou dedicada e respeito acima de tudo, eu pego tudo fácil,tento sempre fazer amizades no trabalho para ter um clima harmônico, e apesar de não ter terminado a escola pra cuidar do meu filho,eu sou inteligente,era uma boa aluna.... e ...

Meu Deus,estava saindo totalmente do ramo da entrevista.

-- Bom... senhorita Sampaio,é só por hoje,agora lhe darei três testes psicológicos e lhe darei os exames pra serem feitos... o senhor Cavalcante é uma pessoa muito rigorosa em relação a saúde e bem estar dos funcionários,caso seja selecionada pra segunda etapa,eu irei entrar em contato.

Eu assinto envergonhada e pego a ficha com os testes fazendo. Demoro mais ou menos quinze minutos pra fazer,quando terminei ela me deu os encaminhamentos e sorriu me desejando um bom resto de tarde.
Saio daquele prédio sabendo que havia sido uma merda,como sempre,eu era muito enrolada e saia muito do assunto. Merda! Estraguei tudo.
Olhei em meu relógio de pulso e eram cinco da tarde,iria buscar meu pequeno na creche.
Pego um ônibus soltando os cabelos e me sento respirando e inspirando lentamente,olhava a praia pela janela e pensava se um dia as coisas iriam melhorar.
Chego na creche e chamo pelo meu pequeno que vem correndo me abraçar. Bem ali meu dia melhorou completamente. Amava os abraços dele.

-- Como foi mamãe?-- disse com sua voz meiga e engolindo as letras.

-- Foi bom-- toco seu nariz sorrindo.

Ele me entrega um desenho da gente e abro um sorriso enchendo ele de beijos. Pego na mãozinha dele e me despeço da mulher que amava meu pequeno, vamos juntos para casa.

Eu precisava de um emprego!



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