História Analogia Entre Nossas Diferenças - Capítulo 1


Escrita por: ~ e ~peartae

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jungkook, V
Tags Autismo, Drama, Feat Wishes Project, Fluffy, Kookv, Peartae, Vkook
Visualizações 881
Palavras 5.483
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, Fluffy, Slash, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá, pessoal, como estão vocês? Faz um bom tempo que não apareço aqui, senti saudade de vocês. :(


Quando eu peguei a planilha de plots do Feat. Wishes para olhar, esse logo atraiu a minha atenção. É um tema delicado, que deve ter toda a atenção do mundo, e também ser respeitado, e embora não tenha _tudo_ o que eu queria escrever e mostrar, porque talvez ficasse muito cansativo, o resultado foi satisfatório, leve e do jeitinho que Taekook é: soft.


Aproveitem a leitura e espero que gostem! ♡

Capítulo 1 - Capítulo Único - Você é muito mais do que meros rabiscos


— O que aconteceu para você me acordar às três da tarde de um sábado chuvoso? — A voz de Jimin soou seca, cortante e um pouco grogue. Estava claro que o rapaz estava dormindo; e Jeongguk havia acordado o amigo num momento sagrado dele. — Sabe que horas eu cheguei em casa? Sabe que horas eu consegui sair daquela boate?


— EuvoufazertrabalhocomKimTaehyung! — disse num sopro só, antes que Jimin começasse a recitar todos os porquês e poréns para Jeongguk jamais ligar para si durante uma tarde de sábado, principalmente quando Seul parecia estar prestes a ser sugada para dentro de um tufão devastador.


— ‘Quê?!


Parou, respirou fundo.


— Sabe o trabalho especial da Sra. Lee?


— Sei.


—… Kim Taehyung é a minha dupla.


E ambos ficaram num silêncio de compreensão, um assimilando de um lado a notícia e outro prestes a roer as unhas de nervosismo.


Kim Taehyung; era uma pessoa conhecida na faculdade.


Kim Taehyung; era uma pessoa peculiar e encantadora aos olhos de Jeon Jeongguk.


Jeongguk lembrava-se da primeira vez que vira o rapaz. Com detalhes vívidos e cheios de admiração.


Era seu primeiro dia de faculdade, e não podia estar mais nervoso e prestes a ter um ataque de ansiedade. Havia chegado atrasado, perdendo a hora ao acordar tão tarde e o ônibus quebrar no meio do caminho — um dia de azar, como pode-se perceber.


Não sabia onde ficava o pavilhão de Artes, mais especificamente onde ficava a sua sala. Mas Jeongguk sempre fora alguém persistente, e após perguntar para algumas pessoas e acabar em lugares sem saída ou em salas de veteranos de outros cursos, chegou onde deveria chegar; no entanto, ainda assim na parte errônea do lugar.


E ele teria dado meia-volta se algo não tivesse chamado a sua atenção.


Naquele dia, não sabia quem era Kim Taehyung — embora, ainda hoje, ainda não saiba quem é o garoto de madeixas castanhas.


O lugar onde estava era aberto, com paredes cheias de pichação. Talvez fosse usado em aulas práticas, onde os alunos podiam ter um contato direto com a natureza visto que não possuía portas além das paredes que ‘protegiam’ alguns dos materiais que estavam ali. Era belo, cheio de vida e cavaletes, além de algumas latas de tinta — mas não foi isso que lhe chamou a atenção, mesmo que aquilo tudo fosse um júbilo às suas íris.


Um cavalete em específico era tomado por um belo quadro em andamento. Linhas retas, círculos, diversas formas geométricas confusas que formavam uma paisagem de verão eterno em tons de laranja e vermelho num degradê suave porém ao mesmo tempo impactante.


Jeongguk não gostava muito desse tipo de arte, toda pomposa e cheia de ‘não-me-toques’, mas aquele quadro era tão único, tão atraente, que foi impossível o Jeon não gostar, não olhar feito um bobo para a pintura até perceber que havia alguém em frente a ela dando-lhe vida.


Um garoto alto e esbelto em roupas elegantes sentava-se perfeitamente reto no banquinho em frente ao cavalete. Ele segurava o pincel numa firmeza tão suave, que Jeongguk mal via os seus movimentos. Cabelos claros, castanhos, e uma suéter em tom caramelo constratava com as calças jeans brancas e seus tênis.


Só fora saber quem era Kim Taehyung semanas depois, quando perguntou, de maneira inocente, quem era o rapaz que sempre via na sala da Sra. Lee, a professora querida de todos.


Kim Taehyung dividia opiniões; alguns o achavam um gênio, com certeza o melhor da faculdade de artes. Com boas notas, o rapaz era um tipo de modelo a ser seguido, cultuado, endeusado. Já outros, que ele era apenas um estranho, um alien do qual se mantinham longe, e Jeongguk não pôde se sentir mais irritado e incomodado com essas pessoas.


Fique longe, eles disseram, e mais perto de Taehyung ele queria ficar. O que era estranho, convenhamos. Nunca tinha tido esse tipo de sentimento por alguém — o de querer conhecer, fazer amizade. Jimin, seu melhor amigo de longa-data e que vivia para lhe atazanar, dizia que era por causa da beleza do Kim e Jeongguk queria entrar nas calças do rapaz — o que era e ainda é uma grande mentira, é claro.


Para si, Taehyung era a sua Vênus de Milão, perfeito e glorioso, delicado e impactante. E sequer a doença dele fazia com que a sua admiração sumisse, embora soubesse que ela era um grande desafio a ser batalhado caso quisesse, de fato, um dia ficar perto daquele que povoava a sua mente e admiração singular.


— x —


Jeongguk respirou fundo, como se tirasse energia dos objetos ao seu redor, e sorriu fraco para uma garota que passou por si ao começar a andar. Seus coturnos faziam barulho no chão, e o garoto segurou com força a mochila perto ao corpo ao ver Kim Taehyung sentado e guardando os materiais com uma calma deveras irritante.


Ele sentiu o coração disparar dentro do peito.


Por que a Sra. Lee tinha que fazer justo isso consigo? Gostava da mulher, admirava-a tanto quanto admirava Taehyung e suas obras que estavam por todos o campus, porém ela poderia ter escolhido qualquer outra pessoa para ficar com o Kim, alguém como Jimin, sem papas na língua e prestes a enfrentar o mundo de cabeça erguida.


Sentia-se um cão posto contra a parede, um maricas com toda a certeza. Suas pernas estavam bambas, e talvez a sua pressão estivesse mais baixa do que o normal. Era impressão sua, ou a sala estava mais gelada do que o habitual?


Limpou a garganta; era agora ou nunca.


— Taehyung-ssi?


O garoto de boina garou os seus movimentos, porém não ergueu o olhar para si. Mas Jeongguk sabia que tinha a atenção do garoto.


— Eu… Nós somos uma dupla. Da sra. Lee….


— Lobos são conhecidos por sua lealdade, inteligência e coragem — o outro disse e Jeongguk piscou os olhos em confusão —, mas também conhecidos pela confiança e força que têm. Fiéis, vivem apenas com uma parceira durante toda a sua vida; são admiráveis, você não acha, Jeon Jeongguk?


E a confusão transformou-se em surpresa.


Como assim Taehyung sabia o seu nome?


Olhou para a blusa de botões que trajava para ver se havia uma plaquinha ali; mas não tinha nada.


— Tatuagens são maneiras de se expressar para o mundo. Aquilo que você não consegue dizer mas quer que todos saibam. — Taehyung ainda não havia erguido o olhar, no entanto Jeongguk sentia que, de alguma maneira, ele estava o despindo.


E então um estalo ecoou em sua mente.


Desde os dezesseis anos de idade — de maneira ilegal, é claro —, tatuava-se com os mais variáveis tipos de desenhos. Adorava o barulho da maquininha, a ardência em sua pele, os traços que maculavam o seu corpo. Amava despir-se e ver os planetas, flores, animais e frases que tomavam cada canto da sua tez.


Podiam dizer o que quisessem da sua pessoa — que ele era um gangster, que nunca conseguiria emprego algum, que aquelas coisas manchavam o seu corpo e ele iria se arrepender posteriormente —, mas Jeon Jeongguk amava tatuagens mais do que amava frango frito.


Ele já adorava desenhar desde a infância, mas passara a amar quando conhecera e entendera o que eram aqueles traços que tomavam forma na bela garota que sempre lhe servia mais sorvete quando saía com a sua mãe. E por mais que seus pais fossem contra, que todos entortassem os narizes ao vê-lo passar, era um orgulho e alegria quando um novo desenho somava-se à coleção de traçados que possuía.


E o comentário de Kim Taehyung fora por causa do lobo que estava à mostra por causa da blusa que estava com as mangas arregaçadas.


Um lobo uivando para a lua. Algo simples e corriqueiro de se ver por aí, mas que tinha um grande significado para si.


— Mesmo solitário, um lobo continua sendo forte e confiante. — Taehyung levantou-se, mochila nas costas. Trajava uma blusa sem estampa naquele dia, calças de brim e sandálias. Nada muito pomposo, mas ainda sim elegante. — Eu sei que você é minha dupla, Jeon Jeongguk; vamos nos encontrar para tratarmos sobre nosso trabalho.


E Kim Taehyung saiu dali deixando plantado um confuso Jeon Jeongguk.


— x —


— Afinal, quem não te conhece, Jeongguk? — desdenhou Jimin, um pedaço de bacon entre os dentes. Sua voz saíra abafada e debochada, e Jeongguk rolou os olhos. — Se já não bastasse todas essas tatuagens, você vive de cara fechada para todo mundo. É o típico ‘bad boy’ que todos querem comentar; impossível ele não ter ouvido falar sobre os rumores acerca da sua pessoa, meu bem.


Rolou mais uma vez os olhos.


Como odiava o melhor amigo, ainda mais quando Jimin acionava o seu lado sarcástico. Era um bom amigo, porém um baita de um cuzão.


— Eu só fiquei surpreso.


— Não sinta-se especial, já ouvi falar que ele consegue decorar de tudo um pouco. Agora cala a boca que eu quero assistir o jogo.




Sentado numa cafeteria aos arredores da faculdade, Jeongguk observava Taehyung ajeitar a toalha da mesa com extrema concentração. Eles não conversavam, e o tatuado sentia-se um tanto quanto desconfortável.


O cheiro do café era delicioso, mas diferente do rapaz que costumava ser — tímido e difícil de se entrosar com as pessoas —, queria conversar com Taehyung, mesmo que sobre o trabalho deles. Mas não diziam nada desde que chegaram, e o Kim parecia distraído demais no que fazia — e isso dava uma possibilidade a mais de Jeongguk observar o outro mais de perto.


Talvez Taehyung gostasse de cores neutras e claras, tão diferente do Jeon e suas vestes que tinham como o cinza e o preto os tons principais do seu guarda-roupa. De boinas azul-bebê a camisas que pareciam escorrer como água ao redor do seu torso, Taehyung mesclava conforto e moda em peças que eram encontradas no brechó a última tendência lançada pela Gucci.


Naquele dia em específico ele não tinha boinas, os cabelos castanhos ao vento, e seu moletom rosa-pastel era largo e as mangas cobriam as suas mãos. Parecia irradiar uma aura que atraía a atenção do outros, e Jeongguk não podia estar menos encantando por fitá-lo tão de pertinho assim.


— O sol, em muitas culturas, significa a vida. — A voz rouca lhe assustou, e Jeongguk ergueu o olhar do queixo alheio para fitar Taehyung que mantinha os olhos baixos mas parara de ajeitar a mesa. — Mas, ao mesmo tempo que ele é bem-visto, também traz ruína e destruição se muito forte. Uma balança, pendendo mediante as suas escolhas.


Um curto minuto de silêncio.


— Você acredita que, quando morremos, alguém estará nos esperando para pesar todas as nossas escolhas de vida?


E Jeongguk queria muito olhar naqueles olhos que sabia ser tão denso quanto o cacau.


Mas sabia que isso não ocorreria; nunca ocorre. Não deixava de ser frustrante, porém.


—… Acredito — limpou a garganta, nervosismo gelando as pontas dos seus dedos. — Não que tenha alguém para nos julgar, mas sim nós mesmos. Porque o melhor julgamento acerca de nós é aquele feito por quem mais nos conhece: nós, nosso subconsciente e segredos.


Taehyung apenas fez um som com a garganta em resposta, e Jeongguk sentiu que ganhara pontos com a sua resposta sincera.


Afinal, ser o juiz das suas próprias escolhas requer um largo aprendizado e intimidade que nem todos possuem. Uma coragem que muitos não querem ter.


— A sra. Lee disse que podemos escolher desde pinturas a vídeos para entregar a ela. — Jeongguk murmurou minutos mais tarde, quando seu cappuccino já estava na sua mão e algumas vezes bebericava do doce café. — Você vai querer o quê?


Taehyung ergueu um pouco a cabeça e entortou o rosto, mas não encarou o moreno.


— Podemos retratar algo cotidiano — continuou a dizer. — Eu já vi os seus quadros e, sério, aquelas cores seriam lindas se-


— Você me deixaria fazer o trabalho todo sozinho? — O Kim interrompeu num tom de voz baixo ao que mordia uma parte do seu biscoito de gotas de chocolate.


Jeongguk franziu o cenho.


— ‘Quê?


—… Quando ideias não condizem uma com a outra, há atrito. Prefiro fazer sozinho a brigar com alguém; Yoonnie diz que discutir é feio.


Estreitou os olhos, perguntando-se mentalmente quem era ‘Yoonnie’.


— Nem pensar, Taehyung-ssi! — colocou a caneca na mesa, deveras incomodado com a proposta alheia. — Somos uma dupla e seremos uma dupla. O que que tem brigarmos por algo? Discutirmos nossas opiniões? É assim que deve ser feito; é assim que será feito. Vamos conversar, discutir e chegarmos a um consenso juntos. Eu-


— Meu irmão disse para fazermos o trabalho na casa dele, e eu concordo com isso.


E mais uma vez, Taehyung deixou o lugar e um Jeon Jeongguk confuso. Mas, agora, o número de telefone do rapaz estava numa folha de guardanapo.


O que esse homem estava fazendo consigo?


— x —


Taehyung morava num bairro residencial deveras calmo e isolado, o tipo de lugar que você anda às três da manhã na rua sem preocupar-se de ser assaltado ou assassinado. E encontrar a casa dele foi fácil — mediana, em tons claros, era impossível não sorrir com a caixa de correspondências que havia sido pintada à mão e com as palmas impressas nela.


Jeongguk tocou a campainha e aguardou, mas quem o recebeu não foi o Kim e sim um rapaz mais baixo e de expressão séria que o analisou de cima a baixo antes de deixá-lo entrar.


— Você deve ser Jeon Jeongguk. — A voz do estranho, a despeito do seu rosto de poucos amigos, era acolhedora e suave. Ele sorriu, como se soubesse sobre um segredo seu, e logo em seguida apontou na direção dos fundos da casa. — O ateliê dele fica ‘pra lá; diga ao Tae que o almoço está quase pronto.


Piscou sem entender muita coisa, mas seguiu na direção apontada quando o outro ergueu uma sobrancelha na sua direção.


Os fundos da casa possuía um pequeno lago artificial e uma garagem interna que Jeongguk notou ser o ateliê de Taehyung assim que adentrou o lugar. Era arejado, espaçoso e os quadros encostados à parede possuíam os típicos traços do Kim.


Olhou admirado para o lugar, e então encontrou a cabeleira castanha no mar de organização que era o ateliê — tão ou mais organizado do que o quarto de Jimin quando o Park decidia que era hora de dar um basta na sua preguiça em relação a arrumar a cama e tirar o pó da escrivaninha.


— Taehyung-ssi. — Jeongguk mordeu o lábio inferior ao notar que assustara o mais velho, escondendo o sorriso pretensioso que queria se formar.


— Você chegou, Jeon Jeongguk.


— Eu disse que viria. — O moreno deu de ombros. — Nós marcamos, não?


— É socialmente aceito que se chegue atrasado nos lugares pelo menos cinco minutos.


O Jeon aproximou-se de onde Taehyung estava e notou que ele separava os lápis e tintas por cores, da escura para a mais clara, fazendo um lindo degradê que encheu os olhos de Jeongguk.


— Bom… Eu não sou todo mundo. — Um minuto de silêncio. — E o almoço está quase pronto.


— Yoonnie sempre faz comida quando está em casa. — Taehyung enfim acabou de organizar, agora mudando seu foco para o cavalete onde um quadro em branco estava já posto. — Eu gosto da comida dele; tem gosto de lar. A sua comida tem gosto de lar?


Jeongguk riu, porém.


— Eu não sei cozinhar, hyung.


—… Eu não deixei você me chamar de hyung, Jeon Jeongguk.


Vermelho pintou as bochechas do rapaz dois anos mais novo.


— A-ah, desculpe. Eu não- Desculpe.


Taehyung, mesmo que um pouco, ergueu o rosto. Claro que ele não o encarava, mas Jeongguk conseguiu ver parte dos olhos castanhos do outro, estes que eram escondidos parcialmente pela franja alheia que estava longa.


— Não entendo essa necessidade humana de títulos. Eu não chamo meu irmão de hyung, nunca chamei, porque ‘pra mim ele sempre será Yoongi. — O Kim possuía um tom de voz sincero, embora fosse suave como os traços do seu rosto. — Somos meros humanos, não concorda? E mais anos não significa que sou melhor do que você, ou que você é pior do que eu e não saberemos nos respeitar por causa disso. Títulos servem para nada.


Jeongguk piscou os olhos, sem saber o que responder. Ou como responder.


Será que havia chateado Taehyung? Era acostumado a chamar todos os rapazes mais velhos do que si de hyung, seja amigos ou o seu irmão. Não era só por respeito, mas porque era uma mania sua, uma constante em sua vida. Era como respirar: saía de maneira involuntária.


— Quer dizer, talvez eu entenda. — Taehyung continuou a dizer. — Gostamos de ser chamados de amigos, irmãos, namorados. São títulos, mesmo que disfarçados. Meu pai é meu pai e minha mãe é minha mãe, e é preciso chamá-los assim para me sentir bem. É um grande paradoxo, compreende?


Não, Jeongguk não compreendia, mas o que responder?


Uma tensão tomava conta do ateliê.


— O almoço está pronto, crianças.


O Jeon nunca suspirou tão aliviado quanto suspirou ao ver o desconhecido de antes.




Min Yoongi era o irmão mais velho de Taehyung, e ele era alguém que Jeongguk havia adorado conhecer — e também invejado, porque Taehyung olhava para ele, sem objetos na frente e de maneira fixa.


Com um bom humor único, o rapaz era um ótimo cozinheiro — afinal, por isso tinha um restaurante cinco estrelas em Gangnam e o sobrenome dele estava na boca do povo — e fez um verdadeiro interrogatório a Jeongguk quando passou a perguntar sobre a sua vida e ambições.


Preocupado, Jeongguk notou a maneira amorosa que ele se dirigia ao seu querido TaeTae. Era delicado também, e o Jeon não pôde deixar de sorrir internamente com o entrosamento dos dois, lembrando-se um pouco da amizade e cumplicidade que possuía com Junghyun, seu próprio irmão.


— Suas tatuagens são legais. — Yoongi comentou quando tirou a mesa com a ajuda dos mais novos. — Curti o sol tatuado no seu pulso.


— Você tem alguma?


O mais velho negou.


Nah, sou covarde demais ‘pra isso. Prefiro apreciar nos outros. — E riu, sendo acompanhado do tatuado.


— Jeon Jeongguk, vamos fazer o trabalho, foi ‘pra isso que você veio aqui.


— Está sentindo no ar esse claro cheiro de ciúmes? — Yoongi riu e Jeongguk piscou os olhos. — Vai lá, Jeongguk-ssi, foi um prazer conhecê-lo.


— x —


Duas semanas já haviam se passado e Taehyung e Jeongguk não haviam entrado num comum acordo do que entregar à Sra. Lee. Enquanto o Kim queria algo clássico, inspirado em Mozart e suas cores, Jeongguk queria algo moderno, simples e prático, sem muitos detalhes, clean.


Eles eram completa e totalmente opostos um do outro. A calma que habitava o rapaz de mechas castanhas era refletida como um mar agitado daquele que possuía o breu no olhar. Taehyung era branco no preto, e Jeongguk preto no branco.


No entanto, apesar das diferenças, conheciam-se, e Jeongguk desbravava cada vez mais aquela personalidade tão ímpar.


Era fato de que Taehyung era peculiar, mas o Jeon havia adorado conhecer suas manias e trejeitos. Como, por exemplo, a forma como os lábios de Taehyung se franzem quando ele está concentrado em algo, ou a incessante mania de molhar os lábios.


Com suas perguntas sem sentido algum — o que sempre deixava Jeongguk alguns segundos confuso antes de respondê-lo —, Taehyung foi desabrochando lenta e de maneira hesitante, como se pisasse em ovos, tomando o devido cuidado para não escorregar e cair da borda do penhasco.


Começando com uma pergunta deveras inocente de quem era Jimin, ambos pararam nas memórias de Jeongguk quando este era criança e como conseguira quebrar o piano de cauda da sua mãe. E ali vira o Kim rir a primeira vez, mesmo que estivesse falando do quanto apanhou até ver estrelas brilhar nas pálpebras dos seus olhos.


E se antes o tatuado já achava Taehyung encantador, agora achava cem mil vezes.


Você está de quatro por ele, cara, dissera Jimin ao vê-lo sorrir com uma simples mensagem do Kim, onde ele dizia que Jeongguk deveria encontrá-lo às sete da manhã de um domingo para pensarem logo no que iriam pintar. E talvez estivesse mesmo.


Era difícil, porém, porque às vezes parecia que Taehyung havia voltado a ser quem era antes e seus muros voltavam. Oscilava; uma hora ele era o velho Kim, noutra o rapaz que separava os seus materiais e cadernos por cor, ajeitando-os sempre, revirando a mochila de Jeongguk e comentando sobre o significado de cada tatuagem que garimpava a sua pele.


Mas, ainda assim, nada mudaria que ele e Taehyung estavam mais unidos do que tudo nestas últimas semanas.


Hyung! — Jeongguk gritou ao correr atrás de um certo Kim. Taehyung não virou-se para ele, porém diminuiu o passo e o Jeon facilmente o alcançou.


— Eu não gosto de ser chamado assim, Jeongguk.


— Eu sei, hyung. — Ele riu e segurou na alça da mochila. — Eu queria te fazer uma pergunta — comentou minutos depois.


—… Hoje não é dia de fazer trabalho.


Eu sei. Mas não ia perguntar isso.


Chegaram ao ponto onde ambos costumavam pegar ônibus juntos.


— O quê? — Taehyung virou um pouco o rosto para si, e o moreno sorriu de canto.


Só mais um pouquinho e ele me olha.


— Quer ir ao cinema comigo? — Foi simples e direto, mas por dentro uma ruína tomava conta de si.


Fora precipitado. Apesar de ter uma amizade com Taehyung, eles ainda não eram íntimos o suficiente. Só estavam convivendo juntos porque tinham um trabalho a fazer, e se não fosse por isso, jamais conversariam!


E se Taehyung não gostasse de meninos também? E se ele achasse estranho? Independente da inteligência do Kim, havia certas coisas que ele não compreendia e Jeongguk não queria obrigá-lo a nada.


Céus, sentia seu estomago doendo.


—… Assistir ao o quê?


Engoliu com dificuldade.


— O-o que você quiser, hyung.


Um sorriso mínimo surgiu nos lábios do mais velho, e Jeongguk sentiu seu coração desacelerar com isso.


Taehyung sorrindo era uma das melhores visões que tinha, sobretudo quando era o motivo deles.


— Eu aceito, Gukkie.




Algo estava errado, Jeongguk sabia disso.


Apesar de desgostar da tecnologia e seus celulares, Taehyung não ficava tanto tempo assim sem respondê-lo, ainda mais durante um fim de semana.


Era estranho, mais estranho do que no dia que o mais velho lhe obrigou a comer nachos mergulhados em cappuccino. (Nojento também.)


E era por isso que estava na casa dele, porque estava preocupado.


O que havia acontecido com o Kim?


Ninguém atendeu quando tocou a campainha, e som algum vinha de dentro da casa. Olhou com atenção as janelas e todas estavam fechadas, mas não deu meia-volta e foi embora.


Não, foi pela lateral da casa e saiu nos fundos dela, onde a cerca dava para o ateliê de Taehyung.


Vai que ele não o ouviu e está ocupado, certo?


Errado.


Assim que abriu a porta do lugar, assustou-se.


O que antes era organizado e colorido, estava desarrumado e quebrado, rasgado, pisoteado. Tinta manchava o chão, e Jeongguk percebeu que havia vidro sobre a madeira, o que o fez tomar cuidado ao embrenhar-se mais no ateliê de Taehyung e ver mais destruição por onde passava.


O que aconteceu aqui?, perguntou-se ao retirar um dos pincéis favoritos do Kim do chão e colocá-lo sobre a mesa.


E então seus olhos foram fisgados pela única obra de arte que salvara-se.


No início, via-se apenas rabiscos e mais rabiscos negros e profundos, tão diferentes dos quadros cheios de cores de Taehyung. Logo em seguida, notava-se a forma do que parecia ser um ser humano encolhido contra a parede e abraçando os joelhos. Era um garotinho, e ele parecia tão, tão indefeso.


Jeongguk sentiu o coração doer e a garganta apertar.


Solidão. O que via ali era solidão, uma pessoa solitária, e os rabiscos eram os males, o sentimento de estar preso, a confusão, a angústia.


Eu uso a arte para me expressar, Taehyung um dia dissera, e Jeongguk não podia estar mais triste com o que via.


— Triste, não? — Uma voz o despertou, e assim que se virou deparou-se com Yoongi encostado à soleira da porta. — Todos esses materiais, todos esses quadros… Tudo jogado no lixo.


— O que aconteceu aqui, hyung?


O outro apenas suspirou, porém.


— Você deve saber o que ele tem. — Sorriu com o curto aceno de concordância. — É difícil no início, sabe? Você acha que não tem nada de errado contigo, e realmente não tem, mas do nada é diferente das outras pessoas.


“Pensa diferente, age diferente, come diferente. E as pessoas te olham torto, não entendem como e porquê alguém tão inteligente pode ser tão… estranho.” Yoongi parou por um momento. “Agora imagina conviver assim desde criança, com seus pais e desconhecidos tentando curar sua ‘doença’, te fazendo de experimento em terapias e remédios.”


O mais velho saiu de onde estava encostado e andou com calma até o quadro confuso e cheio de sentimentos.


— Meu TaeTae sempre foi encantador, e eu sempre tive muito orgulho do meu irmãozinho — riu e deslizou os dedos pelos traços. — Lembro que, nas noites de tempestade, ele vinha correndo para o meu quarto, assustado mas sem entender o motivo. Lembro das feiras de ciência e os primeiros lugares que sempre eram dele; da primeira vez que pegou num pincel e desenhou, com detalhes vívidos, um dos quadros de Picasso.


“Vocês chamam de autismo, eu chamo de único. Porque Taehyung é único à sua maneira, mesmo que ela seja diferente.”


— Hyung-


— Foram tempos difíceis. — O mais velho suspirou e virou-se para fitar Jeongguk. — Minha mãe não o aceitava, Taehyung era um ‘peso morto’ para ela que só trazia problemas, mesmo que o Tae não fizesse nada além de ser ele mesmo, recluso e quieto, enchendo minhas paredes de tinta fresca. — Esfregou as mãos pelos cabelos claros. — E quem aguentaria a própria família indo contra você, uma criança que ainda não sabe o que está acontecendo?


“Para Taehyung é normal tudo o que faz e pensa, é normal não conseguir nos compreender. É normal ser como é, e eu concordo com ele. Mas quase ninguém é assim, e o ser humano costuma repudia aquilo que é diferente do ‘normal’. E eu vi meu irmão entrar em depressão a cada cara virada, a cada revirar de olhos, a cada grito da minha mãe, a cada concordar do pai dele. Ele não sabe o que sentir, não compreende, mas seu subconsciente, no fundo, sente por ele.”


— E-ele está bem? — Jeongguk tinha medo da resposta.


— Está confuso. — Yoongi sorriu de canto. — Você o confunde


— Eu?


— Oras, Jeonggukie, não seja tão denso. Você afeta o meu irmão, você o aceita como eu aceito. Olha com admiração para cada coisa que ele faz, e o escuta como se Taehyung estivesse falando que as nuvens são feitas de algodão doce e isso pode ser comprovado. — Tocou o ombro do moreno. — Quase ninguém faz isso com ele, costumam tratá-lo como um doente ou demente. Você o bagunça, e Taehyung precisa extravasar de alguma maneira.


Eles ficaram um tempo quieto, onde o Jeon assimilava tudo o que fora dito.


— Espero que não quebre o coração do meu irmão, Jeongguk.


— Eu não irei, hyung — disse com firmeza.


— x —


Após dois dias, Taehyung voltou, alegre e feliz, o que fez Jeongguk sorrir sem parar para o rapaz mais velho.


Ele não comentou que havia estado na sua casa ou o Kim disse que tivera um surto; ambos apenas deram as mãos e foram para a faculdade juntos.


Hoje, que era uma sexta-feira fria e cheia de ventos — faltando menos de uma semana para entregar o trabalho que ainda não haviam acabado —, ambos seguiam caminho para o refeitório da universidade quando uma risada lhes chamou a atenção.


Um rapaz os olhava com malícia nas íris.


— Bom saber que o estranho agora tem um amigo. — Ele riu mais uma vez, e Jeongguk sentiu o sangue esquentar com isso. — Mas que pena que o outro também é estranho, não?


Taehyung agarrou a sua mão quando pensou em dar um passo e ir de encontro àquele que claramente queria uma briga.


— Jeonggukie, não.


— Oh, vocês estão juntos? — As outras pessoas o acompanharam na risada seca e maligna. — Além de tudo, são boiolas. Sabe o quão nojento isso é?


— Por que você não toma conta da sua vida?


— Por que você não vem aqui e me obriga?


E não precisou de uma segunda provocação para Jeongguk soltar-se do Kim e basicamente agarrar a gola alheia.


— Queria saber quem fica por cima ou por baixo, porque, né-


Mas ele nunca terminou a frase, não com o soco que Jeongguk lhe desferiu.


O moreno não era acostumado a brigar, mas para quem fizera taekwondo na infância e adolescência, era fácil acabar com um palhaço como aquele à sua frente.


No entanto, Jeongguk não continuou ou terminou a briga. Não ao ver Taehyung passar ao seu lado e correr. E embora quisesse muito acabar com a raça de alguém naquele exato momento, o Kim sempre seria uma prioridade na sua vida, portanto largou tudo e foi atrás do hyung.


Taehyung havia ido parar na sala especial da Sra. Lee.


— Tae-


— Me deixa em paz, Jeongguk!


E o seu coração se despedaçou ao ouvir a voz embargada do mais velho e a face banhada em lágrimas. Não pensou muito ao agarrá-lo e abraçá-lo com extrema força.


Nunca haviam ficado assim, tão próximos, mas Jeongguk não comemoraria agora, não com os soluços que deixavam a garganta de Taehyung e como ele agarrava-se a si.


— E-eu não aguento, Gukkie. — Taehyung soluçava mais forte. — Por que as p-pessoas são assim? Elas vivem fazendo chacota de mim, vivem dizendo que sou estranho ou um alien. Y-Yoongi diz que aliens são b-bons, inteligentes, s-superiores.


— E realmente são, Tae. — Segurou o corpo alheio com mais força contra o seu, os lábios apertados na testa dele.


—… Eu só q-queria que me aceitassem, só queria que gostassem de mim como sou.


Jeongguk suspirou e ergueu o rosto alheio e afastou a franja de Taehyung a fim de fitá-lo.


E pela primeira vez olhava aquelas íris de um castanho líquido infantil, olhos largos e cílios espessos.


Gravava todo o rosto em sua cabeça, do nariz reto aos lábios rosados, dos olhos ao queixo simétrico.


Taehyung era um anjo, lindo na sua peculiaridade.


Eu gosto de você, hyung — disse antes que a coragem se esvaísse. — Eu gosto de quando você separa a comida no prato, ou de quando fala palavras estranhas e não sabe o significado. Gosto da sua inteligência, gosto de como resolve todas as questões de matemática pra mim. Eu gosto muito de você.


Apesar de saber por Yoongi o que se passava com Taehyung, ainda sim um frio característico de quando se confessa para alguém e espera-se um fora tomava conta da sua barriga.


O Kim passou tanto tempo sem dizer nada, olhando-o como se Jeongguk tivesse acabado de fazer brotar um terceiro olho em sua testa.


— ‘Gostar’ é um transitivo indireto que pode significar achar agradável, apreciar e amar. — Ele balbuciou num tom de voz minguado. — Você gosta mesmo de mim? E-u não sou como as outras pessoas, eu sou estranho, eu decoro coisas que sequer uso, eu-


— Você é você. — O moreno sentia as bochechas pegando fogo após separar os lábios dos alheios. — E eu gosto de você, independente do que falam. Você é único, e eu adoro isso.


Eles ficaram se encarando, Jeongguk ainda encantado pelos olhos de Taehyung. Pareceu uma eternidade até os centímetros entre seus rostos ser vencidos e os lábios do moreno tocar novamente os do Kim.


Era um selar simples, carregado de sentimentos de ambos os lados, e quando o toque foi aprofundado, Jeongguk sentiu lava derretendo em sua barriga, esquentando as pontas dos seus dedos.


Não tinha uma explosão de sentimentos, não tinha borboletas sobrevoando seu estômago, apenas ele, Taehyung e a maciez da sua boca. A doçura dos seus lábios, a delicadeza dos seus dedos tocando-o de volta.


— Eu também gosto de você, Jeongguk. — Taehyung disse quando encerraram o beijo que pareceu durar uma eternidade. Ele tinha os olhos fechados, o sorriso pequeno refletindo aquele que tomava a boca do Jeon também. — E quando estou contigo não me preocupo com as minhas manias, não me importo com o que as pessoas dizem. A sua simplicidade ao tratar comigo, ao conversar comigo, foi o que me encantou e cativou.


Eles ficaram um bom tempo apenas curtindo um e o outro antes de Jeongguk olhar animado para o rapaz de mechas castanhas à sua frente, o olhar transbordando serenidade.


— Eu já sei o que desenharmos, hyung.




— O que significa a pintura de vocês, garotos? — A Sra. Lee perguntou ao parar ao lado deles, o olhar preso no quadro pregado à parede.


Um lobo tinha a cabeça sendo afagada por um garotinho, ambos de frente um para o outro. Pintados em tons de amarelo, a figura parecia que estava sendo iluminada pelo sol — ou que fosse o próprio sol, irradiando luz para todos os lugares. Era simples, o garoto tinha uma expressão relaxada, um sorriso no seu rosto, enquanto que o lobo mostrava sua alegria ao ser acariciado de maneira tão íntima.


Era encantador, e Jeongguk e Taehyung deram a mão antes de começarem a explicar à professora sobre a arte que refletia tanto de seus corações.


Notas Finais


Oii, aqui é a Let!! Estão curtindo as fanfics?
Agora eu estou - mais ou menos - no horário hehe


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