História Andante - Capítulo 4


Escrita por: e UCNAMJOUT

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Deliverydareyou, Guerra, Namjin, Ucnamjout, Youcantnamjout
Visualizações 166
Palavras 4.686
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), LGBT, Luta, Musical (Songfic), Policial, Romance e Novela, Slash, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Disse que ia chegar às 18h, mas não, né? Pois é. Boa noite, meus amores, como vocês tão? Mais um capítulo de Andante, estamos chegando na reta final finalmente, depois de tanta enrolação de vossa autora. Obrigada pelos favoritos, pelos comentários, vocês são incríveis.

Boa leitura.

Capítulo 4 - I Torture You


É minha culpa que tudo está caindo aos pedaços. Eu sei que foi difícil, desculpe pelo que fiz, mas baby, não deixe. Porque então eu não vou ter ninguém. Você me deu amor, mas eu simplesmente joguei fora... eu prometo que vou mudar porque eu preciso que você fique. Estou me sentindo esvaziado. — Lund ft Emily Raymond (Hallowed).

Primeiro sentiu um líquido gelado sendo jogado em seu rosto com um baque forte, logo depois sentiu um tapa forte em sua bochecha direita, o obrigando a abrir os olhos, meio fora de si, e encarar meio embaçado sua frente. Não viu muito, não teria como, mas sabia três coisas primordiais.

1. Não havia morrido.

2. Estava amarrado em uma posição que só dava pra ficar de joelhos enquanto seus braços estavam estendidos para os dois lados, o mantendo aberto para qualquer agressão que com certeza receberia.

3. Seu ombro suturado estava doendo pra porra.

— Acorda! — Ouviu um grito perto de seu rosto e com muito custo, piscou algumas vezes antes de olhar para frente e ver um rosto coberto com pano, só os olhos à mostra, lhe encarando. Estava falando em inglês, então não deveria ser etnicamente árabe. — Você dormiu demais, estava cansado? — Zombou.

— Por que não me mataram? — Questionou com a voz rouca e arrastada, tentando se levantar, mas voltando a cair de joelhos. — Pensei que não tivessem pena de ninguém.

O terrorista riu fraco e ajoelhou de frente para Namjoon, querendo encará-lo de frente.

— Você tá ansioso pra morrer? — Arqueou uma sobrancelha e foi a vez de Namjoon rir fraco. — Não se preocupe, você irá morrer, mas antes vai responder algumas coisinhas pra mim.

— É você quem todos procuram? — Perguntou encarando os olhos ocidentais em um profundo castanho.

— Talvez sim... talvez não... é algo que você nunca vai saber porque morrerá antes. — Pela risca em seus olhos, as leves rugas nas laterais, estava sorrindo. A frieza nas palavras fazia o tenente engolir em seco e realmente temer a morte. — Tenente? Suas faixas são bonitas. — Tocou as golas da farda do homem, sentindo sob seus dedos o relevo daquela costura. — Que homem honrado.

— Onde está o refém? — Foi direto ao ponto, fechando e abrindo os dedos em punho, sentindo um tanto dormente por causa das correntes.

— Ah. — Pareceu se lembrar e logo levantou do chão, pegando o soldado pela farda e o levantando a força, mostrando que ele poderia ficar de pé se quisesse. — Tá falando daquele ali? — Apontou para o lado, onde um homem engravatado estava igualmente acorrentado.

— O senhor está bem? — O tom aliviado do acastanhado fez o terrorista rir, mesmo não entendendo o coreano falado. Lee Moonkyu, o diplomata, assentiu parecendo um tanto fraco. — Ótimo. Fique tranquilo que logo vão achar a gente.

O Lee riu sem humor e não parou de fitar o chão úmido, o porão escuro que se encontravam era seu inferno há três noites. A esperança de sair dali com vida era quase inexistente! Aqueles homens não tinham piedade nem do próprio povo, que dirá deles.

— Quem, tenente? Quem? — Olhou brevemente para o rosto jovem do soldado que sorriu de lado.

— Minha equipe. — Disse confiante e o diplomata voltou a encarar o chão. Namjoon voltou a encarar o rosto do terrorista. — Ele não está ferido.

— É. Eu vejo. — Murmurou debochado, rindo fraco, a voz grave denunciando que ele não era nenhum garoto. — Ele permanecerá assim se cooperar comigo.

— O que você quer?

— A localização da base de vocês. — Após a fala houve um silêncio naquele lugar que Namjoon não sabia ter mais gente ou o quê, só se sentia observado e ouviu um ou dois estalos de trava de arma sendo desfeita, então deveria ter mais gente. — Vê? Não é muita coisa. Eu quero a localização da base de vocês, o código da ONU dele. — Apontou para o diplomata coreano. — Se vocês cooperarem direitinho posso dar opções de vida principalmente pra você, tenente.

— Não estou interessado. — Foi direto e ouviu o suspiro do homem. — Eu não vou entregar minha base.

— Ah, não vai? — Perguntou irônico e viu o soldado negar prontamente. Afastou-se alguns centímetros e sinalizou para alguém que saiu das sombras e se aproximou deles. — Bate nele, sem matar. — Mandou em árabe e deixou uma última olhada no tenente que o encarou friamente. — Por enquanto.

Com aquilo, saiu das vistas do mais novo que passou a olhar para seu carrasco quase de sua altura, este não tinha o rosto coberto, era clara a etnia local, mas as observações iam esperar, porque um soco foi desferido em seu rosto, acertando diretamente sua bochecha direita. Ficou calado. Outro soco foi desferido, sem nenhum som. Outro soco, dessa vez na altura do maxilar, quase o deslocando. Ainda não disse nada.

Iria aguentar. Sua equipe o acharia, ele sabia que acharia...

2 dias de tortura.

Um chute foi desferido em suas pernas e ele caiu sobre os joelhos já doloridos, recebendo mais dois chutes, um no estômago e um no rosto, que o fez fraquejar e quase cair inteiramente no chão. Sua farda estava resumida a sangue, seu próprio suor... se falar que nunca teve pesadelos onde é preso e torturado, seria uma mentira. Esse é o pesadelo de todo soldado saudável da cabeça! Todos querem viver pra dar honra ao país. Por dois dias Namjoon ganhou uma rotina de surra. Tinha duas refeições por dia – um pão velho – e água, e três séries de surra! Já nem conseguia abrir direito os olhos, as costelas provavelmente... alguma delas estava quebrada!

— Tenente Kim Namjoon... — Aquela voz baixa que passou a odiar cada vez mais, soou. Sabia que ele estava sentado de frente para si, ele sempre assistia suas surras. Cuspiu um pouco de sangue e puxou o ar com força para os pulmões, tentando não asfixiar com seu próprio sangue. — Dois dias e você ainda não lembrou as coordenadas de sua base?

O soldado nada falou, continuou olhando para o chão, sentindo o corpo todo doer e arder. Levou tanto chute nas pernas que ficar sob elas era quase impossível. A dor de seu ombro era a menos importante enquanto estava cuspindo sangue e tinha o rosto quase deformado por inchaços e hematomas. Mesmo que com a visão debilitada, conseguiu ver filetes de sangue saindo por seus lábios e caindo no chão úmido, criando uma pequenina poça. Pensou em Seokjin, em seus irmãos de farda... em seus pais...

“Fazia quase um minuto que o orador da academia militar estava prestando o juramento perante os superiores da academia enquanto todos os demais formandos estavam alinhados, em posição de continência. Estavam lindos. A farda formal com medalhas simbólicas, boina com o broche indicando sua patente militar, as luvas brancas... Namjoon estava segurando o sorriso feliz desde que pisou naquele grande pátio, onde estava sendo a colação de grau dos oficiais do exército sul-coreano.

— Vocês prometem proteger a Coréia do Sul com a vida de vocês? — O general perguntou aos formandos.

— Sim, senhor. — Foi ouvido um coro bonito dos quase trezentos soldados de toda parte da Coréia.

— Bem-vindos ao exército da Coréia do Sul. — Disse e um silêncio pairou sob o local, mesmo com tantos rostos em expectativa. Namjoon finalmente sorriu, não conseguindo conter a satisfação, o orgulho de si mesmo. Chegou até ali... sozinho... — Força e União. — Bateu continência para os subordinados.

— Força e União. — Mais um coro foi ouvido antes da comemoração entre os rapazes e mulheres formandos.

As boinas foram jogadas ao céu naquela famosa passagem de formatura e Namjoon se pegou rindo sozinho, eufórico, pegando a sua que havia caído aos seus pés e quando levantou-se, encarando aquele objeto preto, sorriu ainda mais. Sentia que seus lábios podiam cair de tanto sorrir. Tocou o broche de prata com a ponta dos dedos antes de apertar a boina entre os dedos. Ele conseguiu.

Ele era um soldado. Um soldado de verdade...”

Levantou um pouco o rosto para o terrorista e sorriu de lado, mostrando os lábios sujos de sangue, os olhos quase completamente fechados.

Incorporando-me ao exército sul-coreano prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado. — Sussurrou o juramento feito no dia de sua formatura. O terrorista arqueou o cenho curioso. — Respeitar os superiores hierárqui-...

— Bate nele. — Ordenou ao carrasco que assentiu e deu mais um chute nas pernas do soldado que só grunhiu de dor. O radical islâmico já estava perdendo a paciência. — Sua nação te esqueceu aqui, tenente. Olhe a sua volta, onde estão? Onde estão seus irmãos de farda? — Gritou ao refém que nada disse, apenas sentia dor... — Seu comandante e qualquer político, não se importa com a sua vida. É só mais um. Você vai morrer e logo um outro tenente vai ser levantado no seu lugar. Essa deve ser uma missão confidencial, certo? Então sua morte vai ser dada como... deixa eu escolher um motivo bem idiota para um tenente morrer... — Fingiu pensar, sabendo que a atenção do soldado estava em seu rosto escondido. — Acidente de carro? Que tal?

—... tratar com afeição os irmãos de armas e com bondade os subordinados e, dedicar-me inteiramente ao serviço da pátria, cuja honra-... — Continuou seu juramento, falando entredentes. Não ia deixar aquele homem lhe mexer no psicológico. Não podia.

Precisava ganhar tempo. Ganhando tempo, ia ganhar mais possibilidade de os acharem ali.

— A sua pátria nem lhe reconhece. — Riu zombeteiro na cara do acastanhado que tremia de raiva e frustração. — Nem sabem seu nome e vão continuar não sabendo porque você não é um herói, é só um idiota que acha que está fazendo um grande feito, quando na verdade está dando a vida por pessoas que nunca hesitariam em te matar mil vezes mais, em benefício próprio.

Fechou os olhos com força e grunhiu. Aquilo não era verdade! Não era! Balançou a cabeça negativamente e chiou. Estava ouvindo as mesmas palavras há dois dias, entre socos e ponta-pés. Será que estava mesmo esquecido? E Seokjin? Será que havia sido esquecido também? Não. Min Yoongi disse que estavam ao caminho, não os esqueceriam. Nunca. Eram irmãos, fizeram um juramento...

— ...c-cuja honra, integridade e instituições defenderei-... — Não conseguiu terminar seu juramento. Valia mesmo sacrificar sua vida por pessoas que nem conheciam seu nome?

O ocidental riu nasal assim que viu o soldado hesitar, parecendo estar em conflito interno. Namjoon respirou fundo, tentando clarear a mente no meio de todo aquela guerra interna que o outro estava lhe fazendo enfrentar. Estava sendo machucado por dentro e por fora de um jeito tão cruel que nem seus doze anos de exército protegiam sua mente frágil.

— Namjoon? — Seokjin o chamou com uma vozinha fraca e ouviu um “hm?” em resposta. — Qual sua melhor forma de morrer?

O mais velho parou para pensar. Nunca havia nem se quer se questionado sobre isso. Nunca soube como queria morrer, porque não queria morrer. Continuou massageando os ombros e as costas do melhor amigo, agradecendo mentalmente por estarem sozinhos, sem os olhos atentos da base. Ali ele poderia cuidar de Seokjin com suas próprias mãos, sem ser julgado pelas formas que usava para cuidar do melhor amigo. Poderiam ser eles mesmos sem nenhum julgamento implícito. Dentro da base tinham que se tratar da maneira formal, sempre obedecendo postos e ordens... quase pareciam desconhecidos por vezes.

Mas ali, sentados juntos, um cuidando do outro, era o lembrete que ainda eram os mesmos. Nada havia mudado.

— Como um herói. — Disse depois de um tempo. — Quero morrer sendo um herói para a minha nação.”

— Vale mesmo a pena morrer por quem nem te conhece? — Perguntou debochado para o soldado que abriu um sorriso cansado.

Cuspiu sangue antes de levantar a cabeça, vendo os olhos atentos do terrorista sob si.

— Mas não é isso o que vocês fazem pelo seu deus? — Perguntou zombeteiro e pela primeira vez viu os olhos escuros oscilando em um misto de ódio e desespero.

— Você vai morrer. — Sussurrou com ódio e o tenente sorriu vitorioso.

“Cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da vida!” Completou mentalmente, não admitindo para si mesmo, mas aquela parte em especial... ele não conseguia pronunciar. Não saía...

5 dias de tortura.

Não sabia muito sobre como poderia estar naquele momento. As surras pararam, mas em compensação não comia e nem bebia água há dois dias. Seu corpo já parecia pesar muito mais do que pesava de verdade. Se antes não conseguia equilíbrio nas pernas e por isso estava jogado no chão, a bochecha direita pressionada no cimento molhado, sem forças o suficiente para levantar. Nunca pensou que ia chegar naquele ponto, naquele estado tão deplorável... preferia ter morrido logo. Um tiro, uma facada, bomba, fogo... qualquer coisa. Ele só não queria estar daquela forma tão deplorável. É o estágio onde ele devia implorar por sua vida? Ele não sabia. Não sabia mais que dia era, se era noite ou dia. Ali era sempre noite.

Piscou os olhos demoradamente e expirou fraco pela boca, sentindo dor até pra puxar e expelir o oxigênio.

Era semana das profissões no colégio e todos os alunos tinham que levar um adulto que tinha algo pra falar sobre o trabalho que desempenhava. A maioria levou o pai ou a mãe, obviamente, e Namjoon foi um deles. Levou seu pai e só de vê-lo fardado, com direito a quepe e luvas brancas, ficou eufórico! Amava ver o pai com aquela roupa, todo sério, sendo o homem mais legal que ele conhecia.

Quando chegou a vez do homem, deu um passo à frente na classe onde não tinha crianças de mais de oito anos de idade. Falou sobre ser marinheiro, sobre servir militarmente a Coréia do Sul, perdendo o foco das palavras toda vez que via Namjoon sinalizar um “fighting” e sorrir tão grande que ele também queria sorrir junto, mas tinha que se concentrar

— Ya, dongsaeng. — Chamou o menininho da frente, que estava concentrado nas palavras do marinheiro, mas olhou pra trás quando foi chamado. Namjoon sorriu. — Ele é meu pai.

— Sério? — Consertou o óculos com a armação muito grande para seu rosto, vendo o garoto mais velho assentindo orgulhoso. — Deve ser muito legal ter um pai marinheiro. De verdade. — Voltou a olhar pra frente. — De verdade!

— Um dia vou ser que nem ele. — Chiou pra si mesmo, não contendo a felicidade dentro de si mesmo.”

Um... — Engoliu em seco, tossindo um pouco pela garganta ardente. — dois... três. Um, dois, três, quatro. — Sussurrou bem baixinho, sem se mover. — A terra onde as flores florescem sob o céu azul, a manhã chegou em uma nova terra próspera. — Cantarolou fraco, com um fio de voz, sentindo um calorzinho atípico envolver seu coração. — Nossa juventude que dedicamos ao nosso país, se este caminho nos guia até a liberdade e paz...

Aquela era a música que sempre cantavam durante a marcha matinal pelo quartel. Lembrava da primeira vez de Seokjin marchando junto da tropa pela primeira vez; sorriu sozinho. Lembrar, pensar em Kim Seokjin fazia seu coração disparar. Ainda bem que falou o que queria antes, se não o fizesse, morreria de arrependimento antes de ser assassinado. O que era pior.

— Ya, tenente. — A voz de Lee Moonkyu o chamou atenção, mas não o olhou. Não tinha forças ou condições para isso. — Ainda acha que sua tropa irá nos buscar? Estamos esquecidos, vamos morrer.

— Eles não me deixariam para trás. — Resmungou, sem ter certeza que o diplomata havia escutado. — Ele não me deixaria pra trás.

— Eles já deixaram. — O homem gritou desesperado. Estavam ali há quase uma semana e nada. Absolutamente nada. — Olhe pra você! Tenente do exército, tantas condecorações pra nada. Eles nos esqueceram.

— A sensatez desse homem é louvável. — Aquela voz... aquela voz que não deixava Namjoon em paz. — O que faremos hoje? Posso continuar a tortura por mais alguns dias, e vocês?

— Por favor, me dê um pouco de água. — O Lee pediu inquieto. Todas as surras e punições estavam recaindo sobre o soldado, ele ainda tinha suas refeições e só levava tapas. — Por favor.

Ver como Namjoon estava deplorável lhe amedrontava. Se um homem treinado para situações extremas, estava caído daquela forma, o que seria de si? O terrorista se aproximou do coreano mais velho e o analisou mais diretamente, levando uma mão até o cabelo preto bagunçado e agarrando os dedos ali, puxando a cabeça para trás com brutalidade.

— Agradeça ao seu colega de quarto ali, por estar faltando recursos pra vocês. — Zombou e o homem ganiu de dor e se segurou para não chorar de medo. — Eu já perdi toda a minha paciência com vocês, estão ocupando espaço e meu tempo.

— Por favor não me mate... — Implorou para o terrorista que riu alto. — Eu entrego o que quer.

— Olha. — Gritou novamente, ainda segurando no cabelo do refém. — Olha isso aqui, tenente. — Disse o posto do mais novo dali com certo deboche. Namjoon respirou fraco antes de se mover e usar os braços para apoiar no chão e tomar uma posição melhor pra olhar o que tava havendo. — Esse homem, sem nenhum arranhão, alimentado, está disposto a entregar tratados de paz do seu país, da sua tão amada pátria Coréia do Sul por um pouco de água. — Debochou olhando para o soldado que negava fraquinho, como se o colega de país pudesse ver. — Por esse lixo de pessoa você apanhou? — Riu mais alto, jogando a cabeça do homem para frente com tanta força que ele caiu sob os joelhos. — Por esse tipo de gente você está disposto a morrer? Ele vai se escolher antes de escolher o país.

— Eu sou um soldado. — Murmurou com um pouco mais de força, a voz saindo entredentes. — Meu dever é proteger os cidadãos antes de mim mesmo.

— Oh, é mesmo? — Questionou curioso, puxando uma faca do cinto que carregava sob a roupa grande, típica islâmica. — Vamos testar sua ordem em serviço então, tenente. — Com a mão esquerda puxou o cabelo do diplomata novamente e a direita posicionou a faca no pescoço do homem, o fazendo tremer por completo.

Namjoon quis morrer trezentas vezes naquele momento. Engoliu a seco ouvindo o compatriota chorar e implorar em coreano para ser salvo, como se alguém fosse o ouvir, ou como se o soldado pudesse magicamente se soltar das correntes e ir fazer algo. Piscou os olhos com mais energia e tentou se levantar, mas seus braços não estavam fortes o suficiente e novamente quase teve o rosto no chão molhado. Via tudo embaçado e turvo, mas ainda podia ouvir muito bem e ouvia a risada do terrorista misturado com o choro copioso do diplomada.

— A localização da sua base, tenente. Não tá ouvindo o cidadão gritar e chamar por você? — Provocou, apertando a lâmina na pele suada do homem mais velho que pareceu entrar em pior crise. — Um cidadão está pedindo sua ajuda! — Gritou e o soldado ficou confuso.

Sua audição zuniu um pouco e todo seu corpo doeu de uma forma que nunca havia doído na vida. Não sabia bem o que fazer, mal tinha seus sentidos. O corpo virara um trapo, mal tinha força para se sustentar nos próprios braços. Um tenente... um quase major do exército sul coreano...

Se sentiu o homem mais fraco da Terra. O ser humano mais impotente do mundo.

— Por favor, não deixa ele me matar. — Lee Moonkyu gritou aflito, sentindo a lâmina cortar um pouco sua pele, a cabeça ainda puxada para trás. O choro engasgava em sua garganta, sua parca vida de cinquenta e quatro anos passando como um filme na memória. — Eu tenho uma filha que ainda está no colegial, o nome de é Hyona. — Balbuciou entre os soluços. — Minha esposa depende de mim. Elas dependem de mim, por favor não me deixe morrer. Eu te imploro. — Gritou em um desespero que jamais sentiu na vida, chorando mais alto conforme a lâmina era pressionada em sua garganta. — Por favor, não me deixe morrer. Me salve.

Namjoon ficou mais perturbado, sua mente dando um eterno looping de imagens onde revivia cada momento no quartel, desde o serviço militar obrigatório até seu levantamento como superior. Lembrou dos três dias e três noites de soju que seu pai pagou para ele e Seokjin assim que ambos voltaram de uma missão na Malásia. Lembrou de quando teve de treinar seu melhor amigo e todas às vezes que o ouviu chorar no banheiro da unidade por estar com alguma dor ou só pela pressão psicológica que sofria todos os dias para se tornar alguém digno de usar a farda. Não pôde fazer nada além de assistir e preparar seus homens para a guerra. Eram irmãos de farda, irmãos de arma e amigos na vida. Entrega-los era como dar seu próprio corpo para a morte certa, porque eles eram sua responsabilidade, eram sua casa.

Em contrapartida, havia um cidadão lhe implorando por socorro, um chefe de família que dependia de suas decisões. Se fosse sua vida requerida, ele daria, abriria mão de uma vez, já estava quase morto afinal. Mas Lee Moonkyu não, ele ainda estava bem e ainda tinha coisas para fazer em vida, tinha uma filha para terminar de criar e uma esposa para amar. Não sabia... não sabia o que fazer e não tinha Seokjin para lhe ajudar a descobrir.

“— Você precisa escolher, soldado. — Disse baixo, perto do rosto de Jimin que engoliu seco e desviou o olhar. — Olha pra mim. — Murmurou entredentes e viu os olhos marejados do novato sob seu rosto. — Você está em um cenário de calamidade, houve um desabamento, há duas pessoas para serem salvas dentro dos escombros. — Repetiu e o garoto de apenas vinte anos trancou a respiração, engolindo o choro. — Um é uma criança de dez anos que tem escombros quase caindo em sua cabeça e o outro é um homem de trinta com uma pedra por cima de suas pernas e barriga. Se você mexer na pedra do homem, a estrutura que prende os escombros acima da criança, vai ceder e ela vai morrer esmagada. Se você tentar remover o perigo de desabamento, o outro lado da estrutura vai ceder e outra parte vai desabar em cima do homem, o esmagando. Escolha.

— Tenente. — Seokjin tentou intervir assim que viu o Park completamente vermelho e um tanto trêmulo, engolindo o choro como podia.

Era sua primeira semana como oficial do exército. A pior primeira semana na vida de um oficial! Os testes psicológicos eram mais pesados que o físico e Seokjin sabia disso. Ele passou por isso.

— Não se meta, primeiro sargento. — Nem sequer olhou para o melhor amigo, mas ouviu ele concordar e se afastar. Jimin fungou e Namjoon apertou mais o olhar em direção ao rapaz. — Fraco. — Murmurou chegando mais perto, curvando-se para encarar melhor o rosto do mais novo. — Você vai chorar? Vai correr? Tem duas vidas precisando ser resgatadas e você vai chorar? — Continuou firme, vendo o menor engolir um nó invisível e fungar.

— Não, senhor. — Sussurrou afetado.

— Alto, porra. — Gritou com o subordinado que se tremeu por completo em um susto. — Você vai chorar enquanto duas vidas dependem de você? Enquanto há dois cidadãos implorando por suas vidas? Eles estão morrendo e você vai chorar de medo?

— Não, senhor. — Gritou a plenos pulmões e o acastanhado assentiu devagar, afastando-se um pouco. — Eu posso... pensar?

— Vá perguntar isso para um homem com uma pedra de quase uma tonelada sob seu corpo, o esmagando pouco a pouco. — Colocou as mãos para trás, suspirando ao ver a postura afetadas do mais novo. — Ele deve te dar alguns minutos.

— Senhor...

— Você chorou, o tempo passou, a estrutura cedeu e a criança foi esmagada. O homem morreu de hemorragia interna pela falta do pronto-socorro. — Cortou o soldado que abaixou a cabeça e deixou as lágrimas rolarem por suas bochechas grandes. Namjoon virou um pouco o rosto e continuou encarando aquela criança medrosa. Ele entendia a pressão exercida por aquelas palavras, ele já esteve daquele lado. — Você falhou.

Seokjin encarou aquela cena e sentiu o coração apertar. Jimin só tinha vinte anos, era tão novo... na primeira semana já encarar teste psicológico era pesado. Estavam dentro de uma sala escura de interrogatório, onde o tenente testava um por um dos novos recrutas, pra Seokjin escrever um relatório sobre cada um, onde traçariam perfil e possíveis fraquezas. Pontos que deveriam ser aperfeiçoados com mais afinco. Park Jimin era medroso demais, treinariam isso nele!

Um soldado só podia temer uma coisa: não poder ajudar quem precisa.

Após o teste houve um silêncio na pequena sala e isso só foi quebrado por Namjoon suspirando e se aproximando do menor, tocando amigavelmente seu ombro.

— Um soldado não trabalha com probabilidades ou com “preciso pensar”, Park. — O tom compreensivo e amigável havia voltado e o soldado mais novo se sentiu melhor. — Você faz o que dá pra fazer. Se tiver problemas, os resolva da melhor forma possível, não pare pra pensar, só resolva! Se tem um alvo, atire, se precisa salvar uma pessoa, salve. Veja o melhor que pode fazer e o faça.”

— Sul. — Murmurou e o terrorista franziu o cenho confuso com a voz baixa do tenente. — No deserto que marca a entrada de Aleppo, um pouco mais ao sul, é a base.

— Bravo. — O homem largou o diplomata no chão e riu satisfeito, dando passos até onde o tenente estava jogado, miserável. Agachou perto do rosto do homem e lhe tocou o cabelo molhado de suor. — Vê? Agora você é o herói daquela família.

O acastanhado nada disse, apenas olhou odiosamente para o radical, sem ter forças o suficiente pra proferir uma só palavra. Se deixando cair em profunda desgraça depois de trair seus próprios irmãos que deveriam encontrar a morte em breve.

E ele esperava que também a encontrasse o mais rápido possível.

6 dias de tortura.

Ele tinha comido, pelo menos. Bebeu água também. Seu corpo em frangalhos estava sentado no chão enquanto não ouvia nada mais do que seus próprios resmungos. Descobriu que conseguia se desligar totalmente do redor, apenas esperando o momento que o terrorista ocidental entraria e lhe cortaria a cabeça. Era o que ele queria.

— Tenente Kim NamJoon, capitão de operação da unidade alfa, forças especiais do exército sul-coreano. — Murmurou para si mesmo, encarando suas botas. Houve algum barulho oco fora daquele lugar, mas não conseguia identificar, sua audição não estava boa depois dos socos que levou. — Unidade alfa, infantaria dos cavalos brancos.

— Ya. — Ouviu a voz de Lee Moonkyu o chamar, porém continuou sua divagação.

Nada importava mais realmente. Estava evitando pensar, lembrar que naquele momento, seus irmãos já deveriam estar mortos. Seokjin devia estar morto. Riu sozinho; então ele realmente acabou morrendo por sua causa.

— Sangue A+, cidade natal: Ilsan, cidade de operação: Seul. — Continuou, ouvindo o som oco mais perto, cada vez mais perto. — Local da morte: Síria, sem data e hora local.

— Ya. — O diplomata gritou novamente e o tenente finalmente levantou o rosto para encará-lo, exibindo os hematomas num roxo, num verde agonizante. Alguns pontos ainda inchados. — Eles chegaram. Vamos ser salvos.

Ergueu o olhar para a porta fechada, tentando apurar mais a audição e ouvir alguma coisa, mas só conseguia ouvir barulhos ocos e gritos. Tiros, aqueles barulhos eram tiros. Por um momento seu corpo encheu de energia e expectativas... sua unidade tinha o achado? O plano terrorista não havia dado certo? Queria ficar de pé, mas tinha certeza que algo ali estava quebrado, porque não conseguia nem cogitar a ideia de mexer as pernas e não sentir dores terríveis por isso. Seu olhar ficou preso na porta, o coração batendo forte... haveria aquele momento onde Seokjin entraria liderando o pelotão e logo atrás Min Yoongi viria... seus irmãos não o abandonariam. Não o deixariam para trás.

A porta foi aberta e um grupo de quase doze homens encapuzados, porém fardados, entrou empunhando armas de grande porte, apontando para todos os cantos daquele porão vazio, exceto pelos dois reféns.

— Achamos o tenente. — O que parecia o líder disse ao comunicador. — Limpo. — Referiu-se ao lugar. — Reféns a salvo.

Namjoon sentiu o estômago gelar. Não era sua unidade, não eram nem coreanos. Era o exército americano e apenas eles! Sua libertação não teria gosto bom, o gosto seria amargo. Muito amargo.

Ele tinha ganhado o direito de viver novamente, mas seus irmãos não e a culpa era sua.


Notas Finais


O juramento que o Namjoon fez, é o do exército brasileiro à bandeira. Não achei o coreano, então fiz com o nacional, mianheyo. E então? O que acharam? Me contem aqui embaixo que eu amo ver a opinião de vocês. Interajam comigo, garanto que sou legal.
Um beijão, amores, até o próximo. E quem quiser falar comigo no tt: @sarcasmoflet.


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