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História Andrógino - Capítulo 3


Escrita por: MisterLuffy

Notas do Autor


— Eu pretendia trazer o capítulo na terça ou quarta, mas fiquei ansiosa e postei.
— Peço que não julguem as atitudes dos personagens, tentem entender todos ângulos. Nem tudo que parece ser, é realmente verdade
— Esse é um capítulo com altas turbulências e spoilers, espero que alguém consiga chegar com uma teoria próxima ao plot.
— Boa leitura.

Capítulo 3 - 3- Seus lábios;



"A diferença entre as lembranças falsas e as verdadeiras é a mesma que existe entre as jóias: as falsas sempre parecem mais brilhantes e reais. - Salvador Dalí."


 Dizer que Eren Jaeger havia conseguido dormir seria uma grande calúnia. O cansaço era bem nítido no rosto jovem do de madeixas longas, que ao menos havia conseguido fechar os olhos ou acalmar aquele mar agitado que inundava seu pobre coração, claramente o motivo de tanta inquietude tornava-se culpa de Erwin Smith; o pintor não conseguia esquecer dos hematomas tão agressivos na epiderme pálida e alva, estava tentando reprimir a grande vontade de invadir aquela casa e tirar o Ackerman a força daquela situação. Oque o garantia de que encontraria Levi vivo ao amanhecer? Absolutamente nada, sentia-se culpado de permitir que o dono da loja de chá sofresse de tal forma, oque deveria fazer? Denunciar o alemão por agressão? Ou invadir a casa e o espancar até a morte? 

 Nem ao menos percebeu o dia amanhecendo e só foi desperto de seu choque recente ao ouvir batidas em sua porta, tal fora aberta e a silhueta de Jean apareceu, com sua cara de bunda rotineira.

Você tá acabado, não conseguiu dormir? — O homem resmungou tentando disfarçar a preocupação, desde a infância mantinha essa postura, tentando não demonstrar carinho ou afeto, sendo que na realidade o Kirstein com toda certeza era oque mais sentia sentimentos alheios.

 — É, não se preocupe. — Jaeger respondeu, sentando-se na cama e calçando as pantufas, curiosamente olhou para o relógio em cima da porta e viu que era dez horas, tinha o costume de acordar cedo, nitidamente ficou surpreso e assustado; oque o sentimento de preocupação  era capaz de fazer consigo?

Tsk, não estou preocupado com você. Vou sair um pouco com a Senhora Carla, aproveite e levante sua bunda. 

 Sem ao menos dar a oportunidade de o pintor xingá-lo, Jean retirou-se deixando seu amigo no quarto, tal citado soltou um suspiro e passou a novamente pensar no Ackerman, indagava-se a si mesmo se aquele homem carrancudo estava bem; contudo decidiu por ora focar em qualquer outra coisa, por isso quando viu a velha sair, decidiu arrumar a casa e começar a pintar uma tela nova. Só que no meio desse processo não imaginava visualizar um vulto na janela pertencente a casa ao lado, oque acabou evidentemente despertando tormento e esmero. Não conseguia acalentar seu peito, tampouco enxotar tantas ponderações que ornavam sua mente, queria e necessitava saber se Levi Ackerman estava bem, caso contrário seria uma missão árdua espantar tamanha aflição em sua alma.

 Por isso, nem ao menos atentou-se em vestir alguma camisa — de fato, o pintor devia odiar tais peças — e caminhou com passos largos até a casa vizinha, parando de frente a porta quase sentindo o próprio coração escapar por sua boca. Tinha medo do que poderia acabar vendo na hipótese de aquela porta serr aberta, mas era melhor acabar com a dúvida do que permanecer com ela, era oque a Velha sempre dizia. Movido por uma maré de indecisões, apertou a campainha e passou a olhar ao redor da varanda, surpreendendo-se por visualizar uma câmera ali que claramente deveria estar gravando-o. 

 Oque era apenas minutos, tornaram-se horas para o mais alto, não conseguia conter aquele arquejo ou pensar de forma coerente, somente queria ter a convicção de que o de madeixas curtas estava sã e salvo; completamente bem. Quando a porta foi finalmente aberta, o alívio trouxe uma paz para o espírito de Eren, até porque Levi estava ali em sua frente, — sim, dessa vez não era o desgraçado do alemão — mesmo tendo os hematomas ainda visíveis, ainda achava-o extremamente belo. O mais baixo trajava o tão rotineiro suéter e uma calça moletom, a expressão mórbida ainda permanecia em sua bela face, isso tornava as coisas torturantes para o mais alto que, não sabia oque se passava na mente do outro. Não conseguia lê-lo.

Acabou questionando-se se Erwin entendia Levi.

— Eren? Oque foi? — A voz grossa e ríspida causou arrepios no de madeixas longas, tal abriu a boca, contudo nada saía. Estava totalmente abrandecido, mal conseguia acreditar que todas aquelas sensações ruins eram apenas coisas de sua cabeça, porque apesar de ainda machucado, ele estava bem.

— Eu fiquei preocupado, Levi… — comentou vendo as bochechas do mais baixo ganharem uma coloração rosada, teve de conter a vontade de adorná-lo em um abraço carinhoso; queria tanto protegê-lo da maldade do mundo. O assunto estava na ponta da língua, porém não sabia como abordá-lo. — O-Oque… Hm… Erwin, ele machucou você? Se caso ele fez algo, pode me falar, eu estou aqui para oque precisar e não deixarei aquele desgraçado sair impune dessas maldades. — O tão temido silêncio instalou-se no lugar, Eren tinha medo de que o de madeixas negras ouvisse seu coração acelerado, contudo o mesmo aparentava estar em um transe, já que permanecia com a expressão indecifrável e parado no batente da porta.

— Eren, quero que você vá embora e trate de vestir uma camisa. — ditou ao mesmo instante que pretendia fechar a porta, porém como fizera com o Erwin, o Jaeger colocou o pé e aproveitou para entrar no cômodo, fechando a porta e prendendo o Ackerman na mesma superfície, tal atitude deixou o mesmo surpreso e assustado; não esperava que o mais novo agisse de tal forma.

— Cadê esse desgraçado?! Eu não vou embora e ignorar o fato de que você está sofrendo nas mãos daquele canalha! Oque ainda te prende naquele bastardo? Se for dinheiro, eu tenho o bastante no banco para comprar uma casa nova para você! Não se submeta a uma vida tão desgraçada por medo, Levi. — As orbes cinzas ininteligíveis observavam a raiva que dominava o homem à sua frente, tudo que Eren queria saber era como que diabos Levi submetia-se a viver aquelas coisas, queria uma resposta, uma justificativa, um argumento válido.

 — Ele está no trabalho e não fez nada comigo, Eren. Erwin jamais encostaria um dedo em mim sem meu consentimento, agora por favor, vá embora.

 Fúria. O pintor estava completamente irado e inteiramente revoltado, não conseguia engolir aquelas palavras, como que diabos o Ackerman conseguia proteger um homem tão horrível e abominante? Os sons de passos do de cabelos longos soaram pela entrada, havia afastado-se do de madeixas curtas, na tentativa de não o assustar mais.

  — Porque você não fala a verdade? Eu irei guardar segredo ou se quiser, tentarei te ajudar.  — disse com um fio de voz, era nítido o quanto Eren estava sofrendo por dentro e de fato aquilo comovia Levi, contudo o mesmo soltou um suspiro e foi até a cozinha, sendo seguido pelo mais alto que ainda aguardava uma resposta, contudo recebeu em troca o conhecido mutismo, passou a visualizar o pequeno corpo em frente ao fogão, fritando alguns ovos e bacon.  — Levi...

  — Olha, eu não gosto que se metam em minha vida...  — O mais novo assustou-se quando viu o Ackerman tremer e dar um soco na bancada ao seu lado, realmente, pelo visto estava irritado com aquela pressão sobre si. — Se você não acredita em mim, vá em frente, crie teorias desnecessárias, não sou obrigado a alimentar suas mentiras alienadas e sem cabimentos.  

 Tais palavras poderiam ser igualadas a sensação de ter seu coração sendo pisoteado e recortado em mil pedaços, jamais tinha visto o homem irritado daquela forma, oque acabou causando um sentimento de culpa por estar pressionando tanto o Ackerman, sendo que no final nem amigo era do mesmo; mesmo querendo o ajudar, Levi teria de permitir-se ser ajudado.

  — Me desculpe.  — murmurou soltando um suspiro pesado, contudo ao ver a mão do mais velho — que desferiu um soco na superfície de madeira  — sobressaltou-se e desesperadamente fora até o outro, pegando cautelosamente o palmo do de madeixas curtas, logo analisando aquela epiderme que agora sangrava um pouco; no fundo desejou nunca ser socado por Levi.  — Deixe-me cuidar disso, você tem algum kit?

 — Eren, não precisa, não é nada demais.

 — Por favor, Levi, permita-me te ajudar, só nisso… Eu imploro.  — Os globos oculares esverdeados esbanjavam a tristeza, sendo acompanhado pelo tom sôfrego de voz, oque na realidade não era fingido, afinal, sentia-se incapacitado em poder ajudar o cara que tanto gostava. Queria poder pelo menos cuidá-lo alguma vez.

 — Na gaveta do banheiro do meu quarto, fica no final do corredor da entrada. 

Porém, quando o bronzeado adentrou o quarto, não esperava encontrar uma estante com fitas das câmeras da casa dos dias recentes, instantaneamente roubou três fitas e escondeu-as em suas calças, sem ao menos ser pego.


 E&L


Os olhos azuis acinzentados fitavam qualquer lugar, menos a face de Eren que estava tão próxima a si, ao ponto de poder sentir sua respiração  — dessa vez sem mau hálito  —. Era completamente caloroso ter aquelas grandes mãos que haviam atado seu punho com gazes, mas que agora cuidava do corte em sua bochecha e do olho roxo, estranhamente o Jaeger aparentava saber muito bem oque estava fazendo. O mesmo achava fofo o rosado instalado na face delicada do outro, amava todas reações dele com seus toques. Haviam conhecido-se em menos de uma semana, porém sentiam-se bem um na presença do outro, como se conhecem-se a anos e mantivessem muita convivência cotidiana. Óbvio que aquele sentimento estava confuso para ambos, entretanto não podiam negar que os corações acelerados vivenciavam um calor descomunal. Como se completassemO clima era confortável, apesar de tantas perguntas que adornavam ambas mentes.

 Eren percebeu que a pele pálida do moreno era bem macia, além de que o homem sentado na privada em sua frente conseguia ser totalmente cheiroso   — pelo visto Levi deveria amar banhos ou produtos pessoais   — e o controle quase estava indo pelo ralo, afinal, não era fácil visualizar aqueles lábios avermelhados tão beijáveis, queria tanto tomá-los para si. Perguntava a si mesmo se o Ackerman também sentia aquele ar tão rarefeito ou o próprio peito sendo acomodado por uma sensação gostosa, contudo desclassificou tais possibilidades ao acabar o procedimento de limpeza do corte no rosto do outro e ver que o mesmo estava inerte demais em seus próprios pensamentos; acabou soltando um resmungo inaudível, enquanto que pegava um band aid colorido para tapar a abertura.

  — Eren, onde aprendeu a fazer esses curativos?  — perguntou o Ackerman, quebrando o silêncio, logo trazendo uma felicidade descomunal em Eren que, não esperava que o mais velho decidisse falar algo, seu sorriso alargou-se ao mesmo tempo que passava uma pomada no olho roxo.

  — Armin me ensinou, acabei me metendo em uma briga na boate em Hollywood e como ele estava cansado de sempre cuidar dos meus machucados, forçou-se a me ensinar.  — respondeu completamente inerte nas lembranças passada, podia ainda lembrar-se do quanto o loiro reclamava por ter de cuidar novamente do mais alto, mas conseguia ser bem paciente nas pequenas aulas de como cuidar de alguém machucado; já que o Jaeger costuma ser bem lerdo e avoado.

  — Armin?  — Novamente o de madeixas longas notou o mesmo tom que o de pele pálida usou quando perguntou sobre Jean. Não conseguia ao menos distinguir e interpretrar, contudo soltou um suspiro derrotado, ainda concentrado em cuidar dos machucados do homem em sua frente.

 — Ele é o meu assistente desde que virei um pintor renomado, enquanto estou aqui em “férias”, ele está vendendo cópias de meus quadros em leilões.  — explicou vendo o outro fazer uma expressão de dor quando o mais novo depositou a mão em seus pulsos cobertos.  — Posso dar uma olhada?  — Mais uma vez o Ackerman aparentava pensar no que deveria falar, além de ter uma confusão estupefata em seu belo rosto, se ao menos pudesse, Eren passaria horas e horas admirando aquela beleza descomunal.

 — Pode.  — respondeu virando o rosto para a esquerda, passando a olhar a pequena janela do banheiro. Olhando aquele momento, o pintor viu que o vendedor de chá estava cansado, não só as olheiras denunciavam-o, mas também aquela expressão acabada, consumida por desolação e desesperança. Delicadamente puxou a manga do suéter, tendo seu coração despedaçado logo em seguida, eram incontáveis hematomas e cortes naquela área, desesperadamente olhou o outro braço que supostamente estava pior que o primeiro. Mas que diabos estava acontecendo com ele?! Queria gritar, pedir explicação e implorar por resposta, estava quase fazendo isso, porém fora impedido ao ver lágrimas descerem pelo rosto tão lindo de Levi; apesar de estar chorando, não fazia uma expressão sequer, era como se não tivesse nem mais forças para tais feitos.

  — Ei, não chora.  — rapidamente os dedos limparam aquelas lágrimas e de forma afoita rodeou o mais velho em seus braços, sentindo-o repousar a testa em seu ombro, permitindo-se ser adornado pelo corpo do maior, tal instantaneamente passou a acariciar os cabelos bem macios do outro, ao mesmo tempo que não compreendia o porquê das lágrimas surgirem do nada.  — Eu estou aqui, ok? Tudo vai ficar bem, Levi, nem que seja necessário mover céus e terras, mas você vai ficar bem.  — o de madeixas longas levantou o rosto e passou a fitar a face surpresa do outro que, pela primeira vez sorriu sem os dentes — mesmo em meio às lágrimas  — tombando a cabeça para o lado, tendo algumas madeixas em seus olhos que foram instantaneamente fechados por conta do sorriso.

  — Você não mudou nada, Eren... — disse levando a pequena mão até a bochecha do Jaeger, passando a acariciar sua epiderme bronzeada, só que o mesmo estava inebriado, não tinha conseguido distinguir as reais intenções por trás daquelas palavras, contudo preferiu ignorar.  — Só por favor, me leve para longe daqui, quero ir para um lugar onde eu seja feliz de verdade…  — E mais uma vez os braços largos rodearam o corpo pequeno, o pintor sentia como se o Ackerman pudesse esvair-se a qualquer momento, estranhamente estava temeroso e sentia seu corpo trêmulo, era muito duro para si vê-lo tão destruído; não parecia o mesmo homem com quem passou o dia na loja de chá ou que correu pela rua em meio a chuva. Levi estava completamente quebrado

 — Só deixe-me cuidar de seus pulsos, que irei te levar para longe daqui. 

 Assim o pintor finalizou todos procedimentos de curativos, estava realmente disposto a levá-lo para longe daquela casa e das mãos de Erwin, entretanto sua barriga roncou no momento em que estavam saindo, oque fez com que Levi insistisse para que comesse algo antes de irem, mas o problema era que naquele dia da semana não abria as cafeterias e lanchonetes locais. Depois de alguns ponderamentos, o Jaeger decidiu cozinhar para ambos; já que amava realizar tal tarefa.

 Por isso agora encontrava-se com um avental rosa bem pequeno para o seu tamanho, cozinhando macarrão  — por pedido de Levi  — totalmente entretido em uma conversa decente com o Ackerman. Estavam mantendo um diálogo bem longo, oque realmente agradava o mais novo; queria cada vez permitir-se ser mergulhado nas turbilhões de sensações que aquele homem lhe esbanjava em uma linha tênue. Em meio a conversa descobriu que o mais baixo era realmente fanático por limpeza, além de amar macarrão e chá, ele também era fissurado por doces, porém como tudo acaba, o silêncio pairou no local, dando espaço para o som do cozinhamento da comida.

 — Você está ridículo com esse avental.  — o de madeixas curtas ralhou, no mesmo momento em que debruçou seu corpo sobre a bancada onde na qual encontrava-se em sua frente.  — Eu me pergunto se você necessita de doação de camisa.

  — Primeiro, esse avental é seu e segundo, eu amo ficar sem camisa, ok? Vai me dizer que não gosta de ter essa visão maravilhosa por perto?  — Jaeger rapidamente virou-se, exibindo seu abdômen definido, em troca pôde perceber que o Ackerman tornou-se em um pimentão humano, agora não sabia se era porque o mesmo gostava de ver aquela cena ou estava envergonhado com suas palavras; por fim, preferiu depositar credibilidade na primeira hipótese e voltar a prestar atenção no macarrão quase pronto.

 — Exibido.  — retrucou com um biquinho nos lábios. 

 Depois de alguns minutos, ambos se sentaram juntos à mesa e passaram a almoçar, outrora estavam abordando diversos assuntos, entretanto salivavam maravilhados com aquele simples macarrão; Levi anotou mentalmente de sempre querer comer a comida de Eren. Não sabia que o mais novo teria tanto dom na cozinha, sempre achava que o mesmo vivia de comidas enlatadas.

  — Você já pode falar o quanto está bom!  — exclamou o pintor, quase engolindo o próprio prato, causando nojo no outro que, saboreava aquele macarrão delicioso sem pressa alguma; até porque odiava qualquer respingo de sujeira. No momento só se pode pensar em como o Jaeger parecia um morto a fome.

 — Tsk, nem está tão bom assim, você parece um morto à fome.  — resmungou, contudo o mais alto até ficaria triste se realmente aquilo fosse verdade, mas não teria como Levi não ter gostado e mesmo assim ter comido mais de três pratos. Eren pegou-se perguntando a si mesmo se ele próprio era realmente o único morto a fome ali.

 Depois de vasilhas limpas e cozinha brilhando,  — já que tiveram de limpar a bagunça juntos  — Levi quase espancou o outro para colocar uma camisa e quando findou-se essa tal batalha árdua e com um Jaeger trajado — o bronzeado fora até a própria casa, onde aproveitou para deixar as fitas — adequadamente, passou a segui-lo para seja lá onde que fosse. O bronzeado estava feliz em poder conversar com o de pele pálida por tanto tempo, fazendo com que os dois esquecessem dos problemas internos e externos; nada mais importava, novamente aquela bolha densa os circundava e estavam inertes demais para se incomodarem com qualquer outra coisa. Era uma luta interna, onde um tentava conhecer o outro a qualquer custo, mesmo sem deixar isso totalmente nítido.

 O de madeixas curtas ao menos nem fazia ideia de para onde o de cabelos longos estava levando-o, contudo sentia-se em paz do seu lado; confiança, o Ackerman depositou toda confiança em Jaeger. O típico céu nublado dava as caras cada vez mais, com suas nuvens carregadas de chuva e um frio circundando juntamente ao ar gélido, Clyde estava completamente normal, isso causava um sentimento bom no peito dos dois homens que, se divertiam e deleitavam-se com a companhia alheia. Os poucos sorrisos  — bem mínimos mesmo  — que Levi dava, acarretava reviravoltas em sua mente absorta. Eren estava ficando louco; o vendedor da loja de chá conseguia ser tão interessante que mal conseguia soltar a respiração que prendia, sem ao menos perceber.

  — Onde vamos? Odeio rodeios.  — O mais baixo estava irritado, já fazia em torno de dez minutos que estavam andando pelos bairros de Clyde, pode até parecer pouco, mas para alguém tão impaciente como Levi, aquilo era nitidamente sufocante para si. 

 — Fique calmo, Levi.  —  prosseguiu com sua voz plenamente mansa, levando seu braço até os ombros do mais velho, tal aceitou relutantemente o contato.  — Veja, já chegamos.

 Estavam de frente a uma casa velha e aparentemente abandonada, construída por tábuas de madeiras antigas, em seu quintal havia uma grande mata, oque denunciava que aquela casa não tinha dono a muito tempo, além de a placa em frente a cerca estava quase apodrecendo. A indignação quase fez com que o Ackerman xingasse o outro, porém fora parado por sua mente, que como um choque paralisou não somente ele, mas o Jaeger também.

  — Eu… Já vi esse lugar antes.  — O pintor acenou a cabeça, concordando com as palavras do homem que foram tiradas de sua boca, as orbes azuis fitavam toda a extensão daquele cenário a sua frente, ao menos queria entender oque se passava em sua mente, Eren estava confuso e não conseguia distinguir os próprios pensamentos e sentimentos. Porque Levi falou oque ele iria acabar dizendo? Como que diabos aquela casa era igual ao seu sonho? E como que o outro também tinha reconhecido a mesma? Então a casa… Existe? Isso torna os sonhos em realidade?  — Porque me trouxe aqui, Eren?

 — E-Eu… Estranhamente achava que aqui seria um jardim de rosas que fui na minha infância, mas pelo visto me confundi.  — explicou sentindo as próprias mãos trêmulas e seu ar falhar, Rua 22, era exatamente isso que estava escrito na placa, realmente, estava no lugar que havia sonhado, porém sentia como se algo estivesse faltando, deveria lembrar-se, mas não conseguia.

 Por estar tão submerso em suas confusões, não reparou no Ackerman que empurrou o portão velho e enferrujado, assim entrando no quintal daquele casebre. 

 — Oque está fazendo?!  — requeriu desesperado, aproximando-se do mais baixo e puxando levemente seu suéter, logo as orbes cinzas assustaram-se com tal ato, resultando em um puxão, fazendo com que a mão do outro soltasse de sua vestes. Pelo visto Levi odiava ser pego de surpresa, ainda mais com uma ação tão repentina e brusca.

 — Estou fazendo oque você exatamente está vendo, ou está cego por acaso?  — ralhou irritado, Eren nem conseguia entender o porquê de estar agindo tão estranho, porém sentia que não havia coisas boas aguardando-lhes naquele lugar. Tinha vontade de fugir daquela situação.

  — Acho melhor não, vamos voltar.  — explicou observando aquela casa de dois andares, porque sentia-se em seu confortável lar? Será que o garoto do rosto borrado estava ali? Oque diabos era aquilo? Tudo era para ser só um maldito sonho…

  — Me poupe Eren, foi você que me trouxe, agora vai vir comigo, seu idiota.  — A pequena mão rodeou o pulso alheio do Jaeger, rapidamente fora arrastado para mata adentro, cada vez mais sentindo aquele pressentimento ilegível. Não conseguia relutar, mesmo sentindo vontade de correr, tinha também o desejo de descobrir o inexplicável; estava com medo do que poderia desvendar;.

 O de epiderme clara subiu na varanda e soltou a mão do outro, passando a tentar adentrar o lugar. A porta estava fechada e as janelas cobertas por tábuas, não tinha como vislumbrar nada de dentro do lugar.

  — Pelo visto não tem como entrar por aqui…  — Os olhos curiosos do de madeixas curtas passaram a fitar os lados, logo alegrando-se com oque havia visto.  — Talvez tenha uma entrada nos fundos. 

 Realmente, havia uma entrada no fundo, só que a mesma fora esquecida ao vislumbrar um cenário não tão esperado por ambos. Havia ali um jardim de rosas, elas estavam vivas e bonitas, o aroma fora espalhado pelo estranho vento que rodeava o lugar, enquanto que o bronzeado fitava toda aquela situação perplexo, então realmente havia um jardim ali, mas como que o mesmo poderia estar tão bem, ao contrário da casa? Será que alguém cuida secretamente daquele lugar?

 — São lindas…  — comentou o Ackerman, andando calmamente até aquele belo floreado, tendo o Jaeger em seu encalço que, também estava extasiado com tamanha beleza; aquilo parecia ser mágico. 

 Sendo levados pelo calor do momento, se sentaram no gramado, bem no meio daquele enorme e vasto campo de rosas vermelhas e brancas, passaram a dialogar, compartilhando a beleza que os olhos humanos mal podiam deleitar-se; mesmo que fosse estranho, permitiram-se aprofundar nas sensações proporcionadas pelo local, mesmo que diversas perguntas ainda rondavam ambas mentes, queriam realmente aproveitar tudo presente ali.

  — Aqui seria um lugar onde eu viria para pintar…  — comentou o de madeixas longas, levando uma de suas mãos e acariciando o rosto pálido do vendedor de chá, tal tinha pela primeira vez seus globos oculares fervendo em completa alegria e inspiração, naquele momento Eren somente podia desejar sempre poder admirar aquela versão viva de Levi.

 — Eu viria aqui para esquecer tudo e todos.  — disse o Ackerman, repousando seu rosto na grande mão do Jaeger, fechando os olhos e então passou a reprofundar em sua mente, deliciando-se daquele ápice que estava presenciando. 

 — Até mesmo de mim?  — O pintor perguntou tendo de engolir seu coração novamente,  — já que o mesmo quase pulava para fora  — tinha um biquinho dramático em seus lábios, oque disfarçava seus surtos internos e seus “minis Eren’s” ansiosos dentro de si. Sorriu largamente ao ver as bochechas pálidas tomarem um tom rubro, realmente amava quando isso acontecia, além de que as orbes azuis fugiam de seus olhos esverdeados.

  A ausência de som retornou, oque fez com que o Jaeger lembrasse que o Ackerman tinha essa necessidade de pensar bem no que falava, porém até poucos instantes atrás havia agido pela primeira vez espontâneo consigo; além de quando estava no trabalho. Não sabia ao certo oque sentia, porém estava feliz por finalmente estar conhecendo o melhor lado do mais baixo.

 — Não.  — sussurrou quase que inaudível, Eren sabia que se não estivesse próximo, não teria escutado essa palavra tão bela e profunda  — por mais que fosse uma simples sílaba, tinha um grande significado para si.

 Perplexo, o pintor ficou perplexo, não esperava que o outro fosse dizer isso, na realidade estava a espera de um vácuo ou xingamento, contudo teve a resposta que havia esperado e tanto almejado; contudo ainda surpreendia-o inevitavelmente. Os lábios do outro nunca ficaram tão chamativos, logo Eren passou a questionar-se se era errado beijá-lo ali, o momento aparentava ser favorável e notavelmente havia um clima entre ambos; necessitava descobrir o gosto dos lábios alheios urgentemente.

 Com destreza, aproximou seu corpo e aproximou os rostos, causando surpresa no mais velho.

 — Eren? Oque está fazendo?  — perguntou ao ver aquele rosto cada vez mais próximo.

 — Estou com bafo dessa vez?  — indagou com um sorriso bobo. O movimento era lento, para que se caso o Ackerman quisesse fugir, aquela era a chance, porém ao contrário do que esperava, o de madeixas curtas fechou os olhos serenamente.

 E assim ambos lábios se uniram, em um simples selar de lábios e somente essa ação fora capaz de deixá-los daquela forma, os corações batiam loucamente ao mesmo momento que aquele calorzinho os abordava, uma enorme erupção corrompia ambas almas que estavam inteiramente entregados a aquele beijo, o tempo passou a desacelerar e os ventos rondavam pelos quatro cantos da terra, o aroma da flores mesclavam-se com o cheirinho que só Levi tinha, queria mais, Eren queria se aprofundar no Ackerman, desejava e almejava tê-lo por completo, era dependente, totalmente dependente do mais velho; necessitava o ter o quanto antes. O beijo parecia ser o encaixe perfeito e oque outrora era incompleto, tornou-se totalmente íntegro com somente um selinho.

 Mesmo não querendo afastar-se, distanciou os lábios e encostou sua testa na do mais baixo, no mesmo tempo que acariciava sua mão enfaixada, estava perdido naquele rosto extraviado e perfeitamente entregue. Os olhinhos fechados foram abertos e Eren pode compreender finalmente oque sentia;


 Estava completamente e perdidamente apaixonado por Levi Ackerman. 


Aquele olhar tão necessitado, sendo coberto por um azul oceano e um cinza pó, não existia um lugar melhor do que estar tão próximo ao seu amado e nadar em seus olhos.

 — Não, você não está com bafo...  — respondeu com um sorriso largo, tal fora como uma flecha acertando bem no peito do outro, Levi conseguia surpreendê-lo cada vez mais.  — É estranho, eu me pergunto se isso é um sonho, pois recentemente sonhei com um garoto de rosto embaçado, a gente brincava naquele quintal, mas eu ainda era criança… Porém ao mesmo tempo o meu eu de agora estava dentro de um espelho e… Você apareceu. É algo ridículo, mas… Não foi a primeira vez que sonhei com isso e ver essa casa me fez lembrar de tudo… 

 Mais uma vez perplexo, o Jaeger não sabia ao menos oque dizer, só tinha os olhos arregalados e o caos não inundava somente sua face, mas sua mente e seu peito, oque diabos era aquilo tudo? Como que Levi tinha sonhado com aquilo? Oque estava de fato acontecendo?

 Era tanta confusão que Eren rapidamente selou seus lábios nos do mais velho, que gemeu contra a ação, contudo tal som era de dor, oque assustou o mais novo que distanciou-se. Planejava o beijar e dizer que tinha sonhado com os mesmos acontecimentos, contudo havia apertado o pulso alheio sem querer, aquilo trouxe-lhe raiva, pois logo lembrou-se do alemão desgraçado.

 — Eu te machuquei?  — demandou preocupado, passando a acariciar o lugar que havia apertado, recebendo em troca um negar do mais velho.  — Eu tenho raiva desse bastardo Levi, eu não consigo acreditar que ele fez algo tão horrível com você…

 — Eren, não estrague tudo, por favor. Quantas vezes terei de dizer que Erwin nunca encostou um dedo em mim?  — Os sentimentos bons tornaram-se ruins em um piscar de olhos, era muito boba aquela situação, contudo o de madeixas longas não aguentava mais lidar com aquilo.

 — Porque você o protege tanto?! Mas que merda Levi! Isso me dá raiva! Ele está te ameaçando?! Eu faço oque for para te livrar daquele idiota, só me conta a verdade, por favor!  — o de madeixas curtas afastou o mais novo de si, levantou-se em seguida, tendo um Jaeger em seu encalço que implorava para saber a verdade, chegando ao ponto de os dois estarem longe daquela casa e o Ackerman quase socar a cara do mais alto, na tentativa de conter-se, cessou os passos e ficou frente a frente ao pintor.

 — Cala a boca! Porque você quer tanto me fazer acreditar em algo que não é verdade?! Eren! Tudo estava bem, até você tocar nessa porra de assunto, porque não acredita em mim?!  — Levi estava irado, suas mãos tremiam e a ansiedade corroía seu corpo avassaladoramente, querendo fugir daquela situação o quanto antes.

 — Como que vou acreditar se você está tão machucado assim?! Se não foi o Erwin, vai me dizer que se machucou enquanto dormia por ser sonâmbulo?! Me erra!  — As grandes mãos bagunçavam os próprios cabelos, na tentativa de conter-se, aquilo tudo era demais para si, não conseguia compreender o porquê de tantas mentiras.

 — Eu realmente não sei caralho! Esses machucados surgiram desde quando vi você pela janela assim que chegou na cidade! Seu merda! Erwin não têm nada a ver com isso.  — bradou quase que sem fôlego, o de madeixas curtas sentia seu corpo mole e sua visão embaçar, não entendia como que o mais novo não conseguia acreditar em si, isso tudo era uma merda, uma enorme desgraça.

 — Ah pronto! Agora vai me culpar pelo seu relacionamento frustrado?! Eu não tenho culpa se você não consegue ser feliz com aquele alemão filho de uma puta, além de se sujeitar a viver uma vida tão merda e…

Um estalo alto soou pela rua deserta, tal som veio do tapa, mais precisamente do tapa que Levi desferiu no rosto do mais alto, este estava contérrito e pasmado, sentindo o ardor dominar sua face virada, não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Antes que pudesse falar algo, um carro parou em frente aos dois e quem menos queria ver naquele momento acabou saindo do automóvel. O desgraçado do alemão aproximou-se de Levi, logo segurou seu pulso, fitando mortalmente o Jaeger.

  — Nunca mais abra a porra da boca para falar de Erwin, ele esteve comigo quando nem mesmo meus pais me queriam, não é necessário você cuspir em minha cara o quanto eu sou um desgraçado de merda e que tenho uma vida miserável. Disso tudo eu já sei.  — A voz calma, porém esbanjando ódio causava arrepios ruins no mais novo, queria chorar, gritar e se espernear, havia falado merda por conta da raiva e estava querendo forçar Levi a contar o motivo de seus hematomas; havia forçado a barra demais e estava arrependido.

 — L-Levi, eu… M-Me desculpe!

— Entre no carro.  — mandou o alemão, observando o mais baixo abaixar a cabeça e então adentrar o automóvel silenciosamente, com uma obediência invejável. O loiro aproximou-se do de cabelos morenos e então um sorriso escárnio adornou seus lábios. 

 — Seu desgraçado, oque você está fazendo com ele?! Foi você quem machucou ele?!  — vociferou irritado, mal conseguia olhar para a cara daquele homem sem desejar vê-lo morto, Levi poderia esconder tudo, mas Jaeger não era bobo e não deixaria Erwin passar ileso.

  — Seu idiota, mesmo depois de décadas continua sendo explosivo e vive falando oque dá na telha, tem coisas que não mudam mesmo.  — comentou em meio as risadas, aproximando seus lábios da orelha de Eren  — Se eu fosse você, abaixaria a bola, gosta de me culpar pelos machucados que Levi têm, sendo que o único responsável nessa porra toda é você, seu merda. Melhor ficar longe dele, acredito que não quer vê-lo num leito de uma cama, morrendo, como das últimas vezes.  — Era tanto ódio acumulado que ao menos havia prestado atenção nas palavras sussurradas, estava prestes a desferir um soco bem dado no rosto daquele alemão, contudo quem levou um murro fora ele, que acabou cambaleando e caindo no chão. A última coisa que pôde ver foi Erwin levando Levi embora.

Ao relento, sentindo o sangue descer por seu nariz, o Jaeger permitiu seu corpo deitar-se no chão gélido, ao mesmo momento que o céu aparentava chorar por tudo que ocorrera, em vista de que as gotas passaram a cair sobre sua epiderme. Não conseguia compreender ou ao menos desvendar aquela situação, em tão poucos dias estava cansado e farto de tudo, pela primeira vez havia experimentado os lábios de Levi, entretanto tinha convicção de que também fora a última vez de que aquilo iria ocorrer.

 Queria ajudar o Ackerman, e bem ali estava decidido que iria ver todas as fitas e descobrir quem realmente havia machucado o outro. Essa seria sua última tentativa e investida.


 Pobre Eren, mal sabia que a merda estava prestes a começar.



Notas Finais


— Não me matem por favor! Kkkk, pessoal não esqueça POR FAVOR de favoritar e comentar, isso me motiva muito. Vocês estão gostando? Qual opinião de vcs? Algum feedback? Teoria? Eu aceito qualquer coisa dksklka.
— Obrigada por ler.
— Não foi betado.
— Mais fanfic Ereri em meu perfil.
— Bye bye.


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