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História Angel - Capítulo 20


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Notas do Autor


JÁ LAVARAM AS MÃOS HOJE?

Pelo amor de deus, gente, se cuidem. Lavem as mãos com frequência, usem álcool em gel, não repitam roupas, desinfetem a tela do celular, NÃO SAIAM DE CASA!

Sério, mesmo que você se ache o fodaralho pica das galáxias que vai se curar, o próprio wolverine, não saia de casa porque você pode ser o transmissor para alguma pessoa que não tenha tanta capacidade de curar quanto você.

Ajude seus familiares e amigos ficando em casa. Ajudem o nosso país e nosso planeta.

Se cuidem, por favor. É só isso o que peço. Sigam as recomendações certinhas.

AGORA VAMOS AO QUE INTERESSA PORQUE VOCÊS ESTÃO EM CASA E EU VIM ALEGRAR ESSA QUARENTENA DE VOCÊS.

Boa leitura <3

Capítulo 20 - Vinte


Se tornar um humano não estava nos planos de Lisa

Tudo bem que muitas das vezes ela questionou como aqueles seres viviam, mas nunca passou de uma mera curiosidade.

Conhecia os padrões humanos. Sabia que eles nasciam, cresciam e se reproduziam. Sabia como era o cotidiano do ser humano médio: estudos, trabalhos, diversão. Entendia que cada pessoa era única e que muitas delas não tinham a mesma reação referente a um mesmo fato.

Ela conhecia a lógica de tudo isso com base em sua visão angelical, mas estava achando muito difícil aplicar essa teoria lógica em meio às inúmeras emoções que seu corpo humano parecia abrigar.

- O que? Lisa se curvou levemente para a frente com a finalidade de olhar melhor a tela do celular entre os dedos da garota japonesa. Seus braços estavam cruzados logo abaixo dos seios e suas sobrancelhas franzidas. – Como você fez isso?

- Alguns anos de prática. – A garota não desviou a atenção enquanto seus polegares batiam freneticamente nos comandos da tela do celular.

- Ela aprendeu a jogar antes mesmo de começar a andar. – Son Chaeyoung comentou com um pequeno sorriso de covinha. – Ela é a melhor gamer da nossa turma. – Chae diminuiu a voz e cobriu a boca pra sussurrar somente para Lisa ouvir: - É um saco.

- Eu ouvi isso, Son Chaeyoung! – E logo a japonesa deu um pulo da cadeira, o que fez tanto Lisa quanto a baixinha saltarem de susto em seus próprios lugares. – Vocês podem me chamar de queen Myoui a partir de agora. – Ela cruzou um tornozelo atrás do outro e fez uma pequena reverência, segurando as barras de uma saia imaginária.

- Viu? – Chaeyoung apontou para Mina enquanto olhava para Lisa. – Um saco. – Alfinetou sem medo, o que resultou em um leve tapa em seu braço esquerdo. – Ai, amor, eu tô brincando.

Do outro lado do espaço, Jennie analisava foto por foto enquanto Seulgi terminava de desligar os equipamentos utilizados na sessão fotográfica. Fazia cerca de uma hora e meia que Park Chaeyoung havia ido embora, mas não antes de conseguir o telefone de uma das modelos que atendia por Sana.

- E então, o que achou? – Seulgi parou ao lado da estilista, colocando as mãos nos bolsos traseiros da própria calça jeans.

- Estão perfeitas como sempre, Seulgi. – Jennie declarou sem desviar o olhar das fotos que passava na tela do laptop. – Quando você acha que consegue me entregar?

- Não te garanto na terça porque posso ter imprevistos, mas na quarta-feira certeza que já terá o trabalho finalizado na sua mesa.

- É sempre tão bom trabalhar com você. – Jennie levou as mãos teatralmente ao peito e olhou para Seulgi que sorria com os olhos quase fechados. – Como está Joohyun? Ela desligou o celular assim que assinou as férias e esqueceu de minha existência.

Seulgi soltou uma discreta gargalhada enquanto fechava a tela do laptop para colocá-lo dentro de sua mochila.

- Ela está bem. Foi para Daegu na semana passada ficar com a família. Ontem foi aniversário de uma tia dela, vai ter uma festa de comemoração amanhã. – Comentou, colocando a mochila lateral atravessada em seu peito. – Ela queria voltar no domingo mesmo, mas só encontrou passagem pra voltar na segunda.

- Agora entendi o porquê das fotos provavelmente não ficarem prontas antes de quarta então. – Jennie brincou, arrancando um sorriso envergonhado da fotógrafa. – Vamos embora, já está ficando muito tarde e ainda tenho que pedir um motorista para as meninas.

Lisa ainda estava com Chaeyoung e Mina, mas agora tinham a companhia de Sana e Momo.

Quando ainda era um ser celeste, Lisa pode observar Son Chaeyoung de longe. Lembrava de sua aura ser verde água, o que demonstrava o forte equilíbrio de pensamentos e emoções que a menina possuía. Era uma boa garota, lembrava-se disso, então foi fácil de permitir que aquela fagulha de amizade acendesse.

Diferente das japonesas.

Lisa nunca havia visto Mina, Sana ou Momo, e aquilo, a princípio, a deixou um pouco insegura. Era a primeira vez que conhecia alguém que não houvesse observado e analisado por sua visão angelical. Era a primeira vez que conversava com alguém sem ter certeza se a pessoa era minimamente confiável, mas aos poucos conseguiu relaxar na companhia das modelos.

- Lisa. – O anjo ouviu a voz da estilista antes de sentir os dedos delicados pousarem em seu pulso. – Eu só vou pegar minhas coisas no meu escritório e já vamos, okay? – Jennie apenas esperou um aceno positivo da garota para então virar para as Japonesas. – Meninas, eu vou ligar para a recepção e pedir um motorista para vocês. Seulgi vai acompanha-las até o saguão.

Com alguns múrmuros de agradecimento, Jennie clicou os saltos em direção ao escritório.

No geral, a estilista não era uma pessoa ruim para seus funcionários. Não gostava de ter um vínculo além do profissional para que isso não lhe impedisse de fazer movimentações necessárias para o crescimento da empresa e era isso que lhe caracterizava como uma chefe fria e calculista, mas não era uma pessoa ruim para os funcionários que lhe davam resultados. Não que lhes desse todas as regalias possíveis, mas o mínimo do que achava ser sua responsabilidade ela fazia.

Jennie estalou o pescoço assim que cruzou sua sala. Conseguia ver, através de sua janela, as luzes que iluminavam a cidade noturna. Estava cansada, o dia havia sido cheio, mas as palavras de Rosé rodopiavam dentro de sua cabeça.

A professora fez questão de explicar que Lisa precisava sair e respirar um pouquinho de novos ares. Jennie não entendeu de imediato. Ao seu ver, Lisa não precisava daquilo, mas com apenas um pouquinho de incentivo, a estilista entendeu o que a amiga queria dizer.

- Jennie? – O tilintar suave veio da porta, a fazendo se sobressaltar levemente e seus braços involuntariamente arrepiarem. – Desculpa. – A risada de Lisa soou divertida enquanto a estilista se virava para ela. – É só que as meninas já foram. Precisa de ajuda pra arrumar alguma coisa?

Jennie demorou alguns segundos para responder. Lisa mantinha os olhos brilhantes na cor âmbar e um sorriso frouxo nos lábios rosados. Percebeu que o anjo estava mais radiante do que quando chegou ali na sessão fotográfica e um “click” pareceu ativar certo entendimento em sua cabeça.

- Na verdade, sim. – Jennie respondeu, se inclinando levemente para pegar o blazer preto pendurado atrás de sua cadeira. – Onde você quer jantar essa noite?

- O quê?

Lisa parou no meio do escritório, sustentando uma careta confusa diante a pergunta da estilista que riu levemente.

- Jantar. Onde você quer jantar? – Jennie recolheu a bolsa sobre a mesa e a pendurou no ombro direito enquanto caminhava para a frente da loira. – Ou não está com fome?

- Eu estou, mas pensei que fossemos para casa. –  Lisa sentiu os dedos de Jennie segurarem a palma de sua mão e a puxar gentilmente pela saída da sala com um sorriso ladino no rosto.

- Nós vamos para casa, só não vamos agora.

 

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Jennie nunca pensou que voltaria a sentar em um lugar como aquele depois que assumiu a empresa de sua mãe.

Não que desdenhasse daquele tipo de comércio, só aprendeu da pior maneira que comer ou beber em um food truck do centro poderia resultar em uma péssima capa de revista no dia seguinte. Felizmente sua mãe nunca foi do tipo gritar e berrar, mas a vergonha pessoal de ter sido fotografada levemente bêbada quando ainda estava na faculdade já lhe era o suficiente para não querer repetir a dose.

- Se precisarem de mais alguma coisa é só chamar. – A garçonete instruiu ao colocar a garrafa de cerveja na mesa de madeira.

Estavam em uma rua de paralelepípedos famosa por seus restaurantes e karaokês bem frequentados. A intenção de Jennie era Lisa escolher um dos restaurantes para poderem comer, mas o cheiro da barriga de porco que vinha do trailer não só fisgou o anjo, como a estilista também.

- Estava bom? – Jennie perguntou enquanto preenchia o próprio copo com o líquido dourado.

- Estava uma delícia. – Respondeu o anjo, sentado do outro lado da mesa. – Agora eu consigo entender a expressão comi tanto que fiquei triste.

A declaração da loira fez Jennie rir divertida antes de bebericar a cerveja do copo. Um grupo de jovens barulhentos estavam a duas mesas de distância delas e pela quantidade de garrafas sobre a mesa deles já demonstrava que estavam completamente bêbados.

- Eu posso experimentar? – A voz de Lisa chamou a atenção de Jennie que lhe olhou confusa. – Posso experimentar? – O anjo perguntou novamente, dessa vez apontando para o copo que a estilista segurava.

Jennie torceu o rosto. Seu ímpeto era dizer não. Onde já se viu um anjo tomando bebida alcoólica? Na sua cabeça aquilo não era nada angelical de se fazer e deveria evitar que Lisa se corrompesse.

Ao invés de responder, fez a mesma pergunta.

- Você pode experimentar?  - Jennie indagou e Lisa franziu o cenho. – Digo, isso não é pecado, proibido ou algo do tipo?

O rosto de Lisa se suavizou e então um sorriso largo surgiu em seus lábios carnudos, a deixando ainda mais linda.

- O pecado está em sua cabeça, Jennie Kim. Vamos. – Lisa esticou a mão direita, esperando o copo lhe ser passado.

Jennie ponderou a resposta de Lisa, olhando a mão de dedos longos estendida em sua direção.

- Tudo bem. – A estilista suspirou, lhe entregando o copo de vidro. – Mas boa sorte e vai devagar. Geralmente o gosto não é bom na primeira vez.

Lisa levou o copo até próximo ao rosto e cheirou o líquido. O cheiro era peculiar, não achou ruim, mas também não lhe convenceu de que fosse apreciar o gosto. Seu rosto se contorceu fortemente enquanto se forçava a engolir o líquido amargo e empurrava o copo de volta para Jennie que gargalhava levemente.

- Que coisa horrível. – A voz de Lisa veio rouca, enquanto Jennie bebericava do copo. – como vocês conseguem beber isso?

- Como você não consegue beber isso?! – Jennie perguntou risonha e com uma falsa indignação ao colocar as duas mãos no quadril. O que fez Lisa rir pois achou adorável seu comportamento. – É normal a gente não gostar de primeira e você está muito acostumada com bebidas doces.

Jennie fez um gesto para a garçonete no intuito de pedir a conta enquanto Lisa observava ao redor. Luzes de neon iluminava cada placa dos estabelecimentos, a circulação de pessoas parecia aumentar a cada minuto que passava, muitas delas ainda usando roupas de trabalho como Jennie, que estava sentada impecavelmente ereta na cadeira de madeira enquanto o blazer descansava sobre suas coxas.

- Vamos? – Jennie perguntou já se levantando.

A lua cheia no céu limpo ajudava na iluminação das ruas. Um vento gélido vez ou outra as cercavam naquela noite de início de outono. Jennie havia estacionado o carro a um quarteirão de distância, motivo pelo qual caminhavam por entre as ruas movimentadas.

Os olhos cor de âmbar de Lisa vagavam pelo caminho enquanto pensava na conversa de deveria ter com Jennie. Sentia que aquele era o momento de expor suas aflições, parecia que a estilista estava aberta a conversar e entende-la.

Parecia que Jennie estava de bom humor, mas tinha medo de ver o sorriso bonito da pequena se transformar naquela típica careta aborrecida que não gostava nenhum pouco de ver.

- Você está cansada? – Jennie lhe arrancou dos próprios pensamentos, a fazendo olhar para o seu lado e encontrar a sombra de um sorriso travesso no rosto da estilista.

- Não..? – Lisa respondeu incerta, fazendo o sorriso de Jennie crescer e lhe puxar pela mão em direção à um local com a faixada mal iluminada.

O anjo se deixou ser levado pela morena, que desceu um pequeno lance de escada para abaixo do nível da rua e dando de frente para uma vitrine com luzes coloridas. O som de uma guitarra era abafado lá dentro e Lisa rapidamente reconheceu o local como sendo um antigo fliperama que Jennie costumava ir quando mais nova.

- Talvez esteja um pouco cheio, mas fica tranquila que ninguém vai reparar muito na gente. – A estilista avisou antes de abrir a porta e o som alto da música quase ensurdecê-las.

Lisa estreitou os olhos em uma careta não só pelo som alto, mas também pela luz forte que recebeu em seus olhos. O local era completamente iluminado com todas as cores possíveis. Havia bastante amarelo, vermelho, verde e rosa neon. Luzes que piscavam fortemente e que por um momento gerou vários pontinhos pretos diante da visão do anjo.

Tinha ciência da mão macia de Jennie que lhe segurava a palma e lhe puxava gentilmente para a lateral do estabelecimento, mas seus olhos corriam soltos para a quantidade de jovens que tinha por ali. Grupos de meninos e meninas que jogavam e gritavam entre si.

Sentiu um aperto na palma de sua mão e olhou para Jennie que segurava dois cartões e um pirulito entre os dedos da mão livre.

- Um cartão é seu e o pirulito também.

Lisa riu.

O primeiro jogo para qual foram foi um de luta. Jennie ainda se relembrava um pouco como mexer nos comandos e foi fácil ganhar de Lisa na primeira partida, mas na segunda o anjo já sabia se defender muito bem.

A estilista fez questão de passar por cada jogo, ignorando por completo as máquinas de pelúcia pois sabia que quando parasse ali seus créditos iriam todos embora. 

Já estavam na parte de trás da loja, onde a música não era tão alta e a luz era mais baixa, quase sendo iluminado apenas pelas luzes dos próprios games. Lisa jogava basquete, enquanto Jennie observava a perfeição que a bola batia na tabela e atravessava a cesta. Ela jamais foi capaz de fazer tantos pontos assim, suas bolas sempre batiam no arco e iam para fora.

- Vou colocar você para jogar contra Jisoo. – Jennie anunciou com um riso curto e Lisa sorriu brilhante. – Você é boa.

- Obrigada. – O placar bateu o limite e então a barulho dos tickets sendo processados cortou a música agitada que preenchia o local. – Cansou?

Jennie olhou verdadeiramente cansada para Lisa que parecia extremamente radiante com o sorriso largo e as mãos no quadril.

- Ainda temos o tiro ao alvo e a máquina de pelúcia. – Falou confiante, mesmo que Lisa visse o cansaço em seu rosto.

- A gente não pode jogar outro dia? – Lisa tentou, se aproximando um pouco e se recostando em uma das máquinas. – Você precisa descansar.

Jennie levou uma das mãos aos cabelos, os jogando para o lado e cruzando os braços ao se recostar na mesma máquina que Lisa.

- Eu vou ter o final de semana todo para descansar. Não se preocupe com isso. – A estilista fitou os olhos de Lisa e identificou um certo tom de ouro por ali. – Eu queria poder reconhecer seu humor pela cor dos teus olhos. – Jennie disse sincera enquanto estreitava os olhos para os dos anjos,

- Como assim? – Lisa riu. – Que cor eles estão agora?

- Eles geralmente têm uma tonalidade âmbar. Um castanho puxado para o dourado clarinho. – Jennie se inclinou levemente para frente apenas para poder analisar melhor os olhos de Lisa. – Mas agora eles estão bem dourados, quase ouro, e com uns pontinhos laranja.

O sorriso de Lisa aos poucos foi diminuindo, não pela análise de Jennie, mas sim porque a estilista estava a um palmo de distância de seu rosto e por algum motivo aquilo havia lhe deixado sem jeito.

- Eu acho que essa cor quer dizer que estou feliz então. – O anjo se virou, encostando as costas na máquina e saindo do foco de Jennie, enquanto observava que aquela parte do fliperama era quase deserta. – Eu me sinto bem e feliz.

- Você está falando sério? – Os olhos de Jennie cintilaram por um momento. Saber que Lisa estava feliz lhe deixava imensamente feliz. O anjo balançou a cabeça na afirmativa e um calor gostoso aqueceu seu peito com aquela informação. – Eu queria te pedir um favor. – Lisa estreitou os olhos e virou apenas a cabeça para olhá-la. – Quero que você me diga se algo está te incomodando. Eu sei que eu posso ser insuportavelmente protetora às vezes e autoritária também. Então preciso que você me diga se estou fazendo algo de errado ou algo que te deixe desconfortável. Eu prometi te ajudar na sua adaptação aqui e essa promessa ainda está de pé.

Os lábios de Lisa se separaram levemente com o que ouviu. Se antes achava que era o momento certo de conversar com Jennie, ali ela tinha certeza.

- Tem uma coisa. – Lisa desviou dos olhos da estilista e franziu o cenho. – Eu conversei com Rosie hoje, sobre vocês cuidarem de mim todos os dias e isso me incomodar um pouco.

- Isso te incomoda? – Foi a vez de Jennie franzir o cenho. – Por que?

- Porque, por mais que eu saiba que vocês estejam fazendo isso por gostarem e se preocuparem comigo, eu acho que vocês não deveriam ter essa responsabilidade. Eu preciso ficar um pouco independente de vocês. – Lisa terminou com um pequeno biquinho nos lábios, encostando a cabeça na máquina.

O pescoço de Lisa ficou completamente exposto e Jennie quis tirar uma foto naquele momento. Em vários momentos Jennie se encontrava querendo fotografar Lisa.

- E qual sua ideia? – Jennie voltou a cruzar os braços, analisando as feições do anjo.

- Rosie me colocou para fazer um teste vocacional. – Um riso frouxo escapou de seus lábios. – Entramos em um consenso que arrumar um emprego é o primeiro passo.

- Não precisa disso, Lisa. Você pode trabalhar lá na empresa. – Jennie foi rápida e Lisa contorceu o rosto pois já sabia que aquela sugestão era a primeira que viria.

- Eu agradeço muito, mas eu acho que eu deveria ter um contato fora do que já tenho agora. Novas experiências. – Lisa percebeu que o rosto de Jennie aos poucos foi desmontando, o que fez virar-se para ela novamente e segurar uma de suas mãos. – Não quero que pense que eu estou sendo ingrata ou algo do tipo. Que eu não queira ficar com você. Não é nada disso. Eu só quero me conhecer, achar minha identidade, você entende?

E era aquilo. Lisa fez e falou tudo o que havia debatido com Rosie. Tentou cimentar cada buraco de insegurança de Jennie e expor tudo aquilo que sentia. Agora restava a estilista a compreender sem grandes alardes.

- O que deu no seu teste vocacional? – Jennie perguntou olhando para as mãos juntas, entrelaçando timidamente as pontas dos dedos com as pontas dos dedos de Lisa.

- Médica, psicóloga, professora, bibliotecária e babá. – Jennie riu e aquilo fez Lisa sorrir aliviada. – O que foi?

- Você ficaria muito fofa de babá, mas seria difícil reconhecer quem é a criança. – Lisa ameaçou se afastar, mas Jennie entrelaçou seus dedos com mais firmeza. – Eu estou brincando. Vem, vamos acabar com esses créditos de uma vez para podermos ir pra casa.

O fundo do fliperama era uma parede de tiro ao alvo. As espingardas de brinquedo ficavam sobre o balcão e um grupo de adolescente se amontoavam no lado oposto ao qual Jennie passou o cartão e liberou o acesso das armas.

O brinquedo favorito da estilista era aquele. Gostava tanto que de fato foi ter aulas de tiro por um tempo. Tinha familiaridade com a espingarda, o que facilitou os cinco tiros certeiros nas garrafas que mirava. Por outro lado, Lisa não conseguia uma assertiva sequer. Parecia que sua espingarda estava com defeito porque por mais que ela mirasse no alvo, o tiro sempre acertava longe.

- Difícil aí? – Jennie riu, sentindo uma leve satisfação ao ter sua merecida revanche contra o anjo.

- Acho que essa arma está ruim. – Lisa deixou a espingarda sobre o balcão, mantendo um pequeno bico indignado na boca.

A estilista largou sua espingarda no balcão e pegou a de Lisa, se posicionou corretamente e acertou um dos copos, fazendo o queixo do anjo cair de maneira descrente.

- Vem cá. Eu vou te ensinar. – Jennie soltou a espingarda descarregada e puxou Lisa pela cintura, lhe entregando a que usava antes. – Mire em alguma garrafa. - Lisa se posicionou, sentindo a mão de Jennie ainda segurando sua cintura. – Mirou?

- Sim. – O anjo respondeu e então sentiu Jennie se deslocar para trás de seu corpo.

Jennie retirou os cabelos loiros de Lisa que cobriam a lateral direita de seu pescoço, os jogando delicadamente por sobre o ombro esquerdo do anjo e aspirando o forte cheiro de flores que emanava daquela região.

- Onde estamos mirando? – Jennie perguntou baixo ao repousar o queixo no ombro direito de Lisa.

Lisa sentiu sua boca secar quando a estilista fechou os braços em sua cintura e o calor do corpo dela se chocou com suas costas.

- Na terceira garrafa da primeira prateleira.

Com a resposta, Jennie colou ainda mais o rosto na lateral do pescoço de Lisa e o ar quente de sua respiração batendo ali estava causando um arrepio gostoso que já era conhecido pelo anjo. Lisa gostava daquela sensação, só que ainda não conseguia entender muito bem o porquê daquilo.

- Okay. Quando você aperta o gatilho a pressão do tiro faz com que a espingarda suba e vá para a direção que você não está apoiando. – A boca de Jennie quase tocava na orelha de Lisa que teve que fechar os olhos por alguns segundos a fim de se acostumar com a nova sensação de arrepio forte que percorria seu corpo. – Você vai apertar o gatilho com a direita e aparar com a esquerda. Então.. – A estilista levou suas mãos para os braços de Lisa, guiando a mira da arma um pouquinho mais para baixo e um pouquinho mais para a direita. – Pode atirar.

E então a garrafa foi estilhaçada, mas Jennie não se moveu do lugar.

- Muito bem! – A voz da estilista veio animada e acompanhada de um beijo no pescoço quente que fez Lisa estremecer da cabeça aos pés. – Você quer tentar mais uma vez?

- Acho melhor irmos para a máquina de pelúcia agora. – Lisa foi rápida em largar a espingarda no balcão, ainda sentindo o arrepio forte em seu corpo.

- Tudo bem. Vamos lá.



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