História Angels Could be Bad - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Yuri!!! on Ice
Personagens Christophe Giacometti, Emil Nekola, Georgi Popovich, Isabella Yang, Jean-Jacques Leroy, Ji Guang-Hong, Kenjiro Minami, Lee Seung Gil, Leo de la Iglesia, Michele Crispino, Mila Babicheva, Minako, Nikolai Plisetsky, Otabek Altin, Personagens Originais, Phichit Chulanont, Victor Nikiforov, Yuri Katsuki, Yuri Plisetsky
Tags A Última Vez, Drama, Ficção, Jjbella, Lemon, Máfia, Otayuri, Pliroy, Samila, Seungchuchu, Sofrimento, Vidas Passadas, Viktuuri, Yaoi, Yuri, Yuri!! On Ice
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Palavras 5.279
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Bishoujo, Bishounen, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Lemon, Luta, Magia, Misticismo, Musical (Songfic), Orange, Romance e Novela, Sci-Fi, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Sobrenatural, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


ATENÇÃO:
Esse capítulo é um pouco forte, na minha opinião, então quem for sensível a temas como abusos, mortes e coisas do tipo, por favor, vá com calma </3
Boa leitura a todos ♥
Ps: Para fins dramáticos, leiam escutando música clássica. Indico Clair de Lune, Once Upon a December (piano vers.) e The Last Waltz.

LEIAM AS NOTAS FINAIS!!

Capítulo 5 - Um século de memórias: Parte 1


“Tenho que salvar o Beka!” – essas foram as últimas palavras que Viktor ouviu sua criança loira pronunciar, no dia 3 de março de 1917, antes de vislumbrar o jovem esguio e desnudo adentrar novamente o interior do prédio em chamas que era o cabaré, como num ato totalmente suicida.

Estavam tão perto da saída, tão próximos de se livrarem daquele inferno, mas é claro que Yuri Plisetsky, a bailarina esplendorosa daquele espetáculo, em toda sua teimosia e rebeldia, não deixaria Otabek Altin, seu soldadinho de chumbo, encarar as labaredas infernais sozinho. Afinal, era assim que terminava a história do soldadinho de chumbo, certo? Os amantes proibidos derretiam no fogo da lareira e seus corpos deformados se fundiam, se tornavam apenas um, em uma declaração de amor macabra.

Estava prestes a voltar para buscar Yuri quando sentiu uma pressão em seu pulso, virando-se de uma vez e encarando aquela figura assombrosa que tinha o rosto adornado por um sorriso de completo divertimento. E mesmo com seus elegantes cabelos castanhos, parte preso em um coque desajeitado e o resto caindo por suas costas, e aqueles brilhantes olhos de um tom azul claro cintilante, em contraste com o vestido preto como a noite, aquela mulher era o maior pesadelo de todos os michês e prostitutas que moravam naquele cabaré.

— Me solta, Hayley! Eu vou buscar o Yuri! – o platinado vociferou, puxando o braço com força, o que só a fez apertar ainda mais a mão em seu pulso, afundando as unhas pontiagudas no local, causando pequenas feridas.

— Não, você não pode. Ele vai te odiar para o resto da vida se não deixa-lo tentar salvar Otabek e você sabe muito bem disso, Vitya. Além disso, o sr. Katsuki está preocupado com você, ali fora. – apontou com a outra mão para a porta dos fundos, tão próxima deles naquele momento, enquanto o arrastava para perto da mesma.

— Não importa, eu não posso deixar o Yura morrer! Eu não posso! – ele se debatia, como uma criança birrenta contrariando sua mãe, a um ponto de irritar até mesmo aquela mulher, que se divertia tanto com o sofrimento alheio.

Já com a paciência esgotada, a garota, que aparentava ter não mais que dezoito anos, jogou o russo contra a parede, usando sua força totalmente anormal. Com algumas palavras sussurradas a marca em seu pulso esquerdo, um triângulo equilátero perfeito, começou a cintilar, os contornos pretos como os de uma tatuagem se tornando azuis como seus olhos, em uma luminosidade fluorescente. No instante seguinte Viktor não conseguia mexer nem mesmo um músculo sequer do pescoço para baixo.

— Fique quieto e escute bem, seu russo teimoso: eu vou entrar lá e fazer o que posso para salvar Yuri e Otabek. Você vai até o seu Yuuri e vai tirá-lo de perigo, está entendendo? – olhou firmemente nos olhos do platinado, pausando e esperando sua afirmação para continuar – Ótimo. Depois que estiver com Yuuri você precisa voltar para Louise, junto com ele. Se tudo der certo eu os encontrarei lá.

— Louise te odeia e vai te matar se aparecer na casa dela. – Viktor externou o que era um fato.

— É, eu sei, mas ela não negaria ajuda para dois pobres amantes jogados na porta de seu elegante sobrado parisiense, repletos de machucados causados pela terrível cientista, Hayley Ashford. – a morena entoou, numa voz teatral e dramática, enquanto desfazia sua magia paralisadora e soltava o russo da parede. – Agora vai lá atrás do seu homem.

— Vai mesmo ajudar Yuri? – aquilo não fazia sentido nenhum para Viktor, que já abria a porta dos fundos, com uma expressão totalmente surpresa pela gentileza repentina da cientista, que sequer possuía escrúpulos ou algo do tipo.

Hayley, por sua vez, mostrou um sorriso terno que o michê nunca tinha visto. Era quase como se existisse uma pequena centelha de bondade em meio a toda crueldade que era aquela mulher.

— Não me entenda mal, Nikiforov. Yuri é a única coisa que me agrada em meio a esse prédio caindo aos pedaços, e ainda que isso não seja o suficiente para poupar sua vida, se ela fosse precisa para uma pesquisa, uma mãe de verdade faz tudo pelo bem dos seus filhos. E eu sempre quis ter um filho como Yuri. – respondeu simplesmente, antes de virar as costas para o russo, caminhando por entre as labaredas sem ser afetada, quase como se todo o seu corpo fosse apenas um espectro.

Sem mais opções, Viktor terminou de abrir a porta, saindo de sua prisão temporária, um dos lugares que mais lhe havia feito sofrer. Do lado de fora encontrou um cavalheiro sentado na sarjeta, desmanchando-se em lágrimas silenciosas, o nariz e os olhos vermelhos pelo choro, a face totalmente abatida, enquanto tinha sua cartola em mãos. Seus olhos se arregalaram ao notar a presença do russo ali, levantando-se imediatamente com um sorriso sofrido no rosto.

— Vitya! – exclamou, aproximando-se do platinado e o apertando contra seus braços, terminando de se derramar em lágrimas e soluços de preocupação. – E-eu... Eu achei que estava morto...

— Yuuri... – o russo não conseguiu dizer mais nada, abraçando o corpo do japonês contra si, os olhos lacrimejando novamente. Naquele momento não sabia se o seu choro era por saber que Hayley chegaria tarde demais no porão ou porque se sentia culpado por não ter evitado aquela tragédia, sabendo que poderia tê-lo feito, não fosse por seu egoísmo e sua teimosia em permanecer naquele lugar, por Yuuri e por sua vida normal.

Se ao menos tivesse contado a Yuri o que fazer quando estivesse em perigo...

Em seu momento de sofrimento silencioso, cada um por seus próprios motivos, Yuuri e Viktor, agarrados um ao outro, não notaram quando toda a estrutura do cabaré cedeu, desabando de uma vez. A madeira velha e já carcomida pelos cupins, carecendo de uma reforma há tempos, não havia aguentado às chamas. Todos os escombros teriam soterrado o michê e o milionário, não fosse pelos reflexos rápidos do platinado.

Yuuri se encolheu, o rosto escondido no ombro de Viktor, uma expressão terrível no rosto, aguardando pelo pior, mas o pior nunca veio. O impacto dos escombros nunca os atingira, ou talvez tivesse atingido e eles estavam mortos naquele momento. É, certamente estavam mortos, assim como o amigo Otabek e o outro bailarino, Yuri. Quando abrisse seus olhos, veria o outro lado, o paraíso. Ou talvez o inferno, não tinha certeza exatamente se Deus o perdoaria pelo adultério.

Foi quando sentiu uma brisa gelada no rosto que o japonês arriscou abrir os olhos, com a certeza de que o inferno seria quente e que estava em algum lugar agradável, talvez até mesmo o paraíso. Entretanto, assim que espiou por baixo de seus cílios, a visão que teve o fez arregalar os olhos. Aquilo não era o paraíso, tanto ele como Viktor estavam protegidos por uma espessa camada de gelo que se criara sem explicação alguma. O rosto do russo estava sério e sua mão direita em completo contato com a barreira, dando a entender que ele era o responsável pela proteção.

Como se estivesse há muito sem dormir, o japonês esfregou os olhos, achando ser uma miragem, um mero delírio de sua mente afetada pelas emoções do acidente, mas seu julgamento caiu por terra no momento seguinte, quando Viktor, sem mais precisar do gelo, o dissolveu, libertando-os. Aquilo foi demais para o japonês, que sentiu sua visão escurecer, a pressão caindo, antes de apagar de vez.

O russo por sua vez apenas suspirou profundamente, segurando Yuuri nos braços como se este último fosse uma donzela em perigo. Sem muitas opções, começou a carrega-lo para longe dali, com um lugar conhecido por si em mente: a casa de Louise. A França ficava um tanto quanto longe dali, mas daria um jeito, precisava dar. Se quisesse que as coisas ficassem bem para ambos, precisava chegar lá e pedir ajuda de sua velha amiga.

Sabendo que não poderia andar com Yuuri daquela forma, optou por tomar um atalho, pelas florestas, ativando um de seus melhores talentos, tratando-se de sua anormalidade: a invisibilidade. Se ninguém pudesse ver a si e a Yuuri, ninguém os incomodaria em sua longa jornada que tinham pela frente.

Felizmente, poderiam sair sem dar explicações, graças à tragédia do cabaré. Seriam dados como mortos a partir dali, então nada poderia impedi-los de reconstruir suas vidas em outro lugar. Ele não era mais o michê escravo de Lilia, assim como Yuuri não era mais um empresário casado com Lady Chihoko. Ambos eram Viktor e Yuuri, um anormal e um normal que haviam se apaixonado em meio ao caos de suas vidas. E agora, depois de tudo, finalmente estariam juntos. Era o que achava, ao menos.

Evidentemente, haviam muitos problemas a serem resolvidos. O maior deles era certamente o mais assustador: como explicar a Yuuri que seu amado russo era na verdade uma criatura anormal, que possuía poderes e provavelmente viveria para sempre? Ele entenderia? Aceitaria a nova vida que teriam de compartilhar? Ou voltaria para Chihoko e seus dois filhos, Ayumi e Hideki? – todas aquelas perguntas assombravam o platinado, que só pensava em como explicaria tudo, sem fazer com que o japonês temesse sua existência.

E a resposta estava clara em sua mente, com um cintilar insistente, suave, em meio ao caos e à escuridão: Louise Blanc Archambault. Ah sim, aquela mulher, sendo a quase deusa que era, com certeza saberia o que fazer para acalmar Yuuri Katsuki quando tivesse de lhe explicar toda aquela aberração que havia visto. E ainda que soubesse não haver outra alternativa para ambos, Viktor não poderia deixar de se sentir nervoso. Fazia cerca de doze anos que não via a francesa e isso contribuía para que borboletas habitassem seu estômago.

Não era para menos, Louise tinha uma grande influência na vida do platinado. Muitas de suas ações se baseavam nos princípios daquela mulher, tão sábia, tão amável, que havia lhe acolhido em uma época de sua vida. Entretanto, antes de revelar a tão importante história do russo com a dama francesa, se faz necessário contar um pouco da vida que este tinha antes de tudo acontecer, antes até mesmo de se tornar um michê no cabaré em Astana.

Viktor Nikiforov havia nascido no final do século XIX, mais precisamente no natal do ano de 1877. Sendo o filho único de uma família abastada e nobre, o russo era quase um príncipe, vivendo naquela época no Palácio de Inverno¹, localizado em São Petersburgo. Composto por uma enorme construção verde e branca, com todos seus requintes no estilo rococó e os mais variados luxos que somente a realeza poderia ter, o alcácer era uma dádiva apenas para a família do atual czar, Alexander II, passar o inverno, como já dizia o nome. E foi num desses rigorosos invernos que o filho da sobrinha do czar, Evgenia, nasceu, exatamente no dia 25 de dezembro.

Teve uma infância dourada e, fazendo jus ao seu nome, Viktor era uma criança vitoriosa, sortuda. Foi ensinado por tutores sobre todas as regras de etiqueta e comportamento, história mundial, matemática, política e outras ciências mais. Aos sete anos já era fluente em inglês e francês, além de tocar piano com uma genialidade pouco vista em crianças de sua idade. No tempo livre, especialmente durante o inverno, gostava de calçar seus patins e deslizar pelo congelado rio Neva, localizado logo atrás do Palácio de Inverno, por vezes saindo sem avisar e deixando os empregados malucos, já que o russo ostentava o título de duque, ainda que fosse muito jovem para carregar um peso como aquele.

E sua vida teria sido comum, dentro dos parâmetros de um nobre normal, apesar da marca que possuía na parte interna da coxa direita: um triângulo equilátero perfeitamente desenhado. Dessa forma, parece difícil imaginar que tragédia ocorrera para que, de seu alto posto como duque, Viktor Nikiforov passasse a ser apenas um michê em um cabaré decadente no país vizinho ao seu natal, certo? A resposta para esse mistério se encontrava em uma viagem à Inglaterra feita apenas pela sobrinha do czar, seu esposo e seu filho único, no fatídico ano de 1888.

Ah, aquela maldita viagem, o ponto sem retorno em sua história, a magnífica e trágica reviravolta. O pequeno duque tinha apenas seus onze anos quando aquilo ocorreu. Sua amada família estava de passagem por Londres durante o outono, como convidados da rainha Vitória, em instalações deveras luxuosas no Palácio de Buckingham, conhecido por sua formidável segurança. Mas ao que parece, aquelas paredes não eram tão seguras assim.

A notícia de que a sobrinha de Alexander II estava de passagem pela capital inglesa se espalhou pelos quatro cantos do mundo, junto de uma foto da família, onde o russo mais novo aparecia vestido formalmente, os cabelos longos soltos, o rosto impecável. Não era incomum que Viktor chamasse atenção por sua aparência quase etérea e andrógena, em verdade, muitos dos empregados que trabalhavam para si comentavam pelos cantos sobre como a criança de Evgenia era talentosa e bonita, o que, obviamente, enchia sua mãe de orgulho do filho único.

Naturalmente, Viktor prendia a atenção de todos para si, desde pessoas boas a também ruins. Em especial, uma mente fria dentre os tantos mortais comuns pensava em como seria lucrativo para si vender aquele garoto de beleza sem igual no mercado negro. Com certeza teria dinheiro o suficiente para sair de sua vida medíocre e comprar um título de nobreza e uma casa boa para morar, se o fizesse. E antes que pensasse em desistir da crueldade que pretendia, seu plano já estava traçado.

Durante a primeira noite da família russa em território inglês uma desgraça ocorreu. Haviam chegado ali pela manhã e passado o dia fora, acompanhados de guardas reais, enquanto passeavam pela capital, despreocupados. Estava sendo particularmente especial para o pequeno duque, já que nunca havia ido à Inglaterra até então, e também por poder passar mais tempo com seus pais. E apesar de entediar-se durante os compromissos de adultos que seus progenitores tinham, teve a chance de praticar seu inglês impecável com os filhos de alguns nobres que havia conhecido.

Mas o ponto alto daquele dia havia sido certamente o jantar com a rainha. Com uma imensa variedade de pratos, de diferentes cores e cozinhas, a família russa havia de fato aproveitado tudo ao máximo que pôde. Viktor, em especial, havia repetido a sobremesa, coisa que não lhe era comum nos jantares em seu país natal. Mas que culpa tinha, se haviam lhe servido um pedaço do paraíso em formato de um doce à base de pão e frutas vermelhas, com uma calda irresistível? Em verdade, poderia comer aquilo para o resto da vida, mas sabia que não seria educado de sua parte repetir pela terceira vez o pospasto.

Se soubesse o que estaria prestes a acontecer, o jovem duque teria repetido talvez cinco ou até seis vezes o doce. A família já estava em seus aposentos, descansando da viagem, quando uma criada de muita confiança da rainha, Cecilia, lhes serviu a ceia, próximo às dez da noite. Com uma reverência educada, deixou o ambiente a moça, de corpo esguio, cabelos negros como o céu noturno e olhos cinzentos apagados, em contraste com seu sorriso terno e acolhedor.

Tocados pela hospitalidade, os visitantes deliciaram-se com as frutas e o vinho de boa qualidade que lhe havia sido servido. Não souberam que ali, naquela bebida, estava a ruína de suas vidas, antes de caírem em um sono profundo demais, do qual não acordariam tão cedo. Foi nessa calmaria que uma sombra escura adentrou o quarto por volta da meia noite. Carregava consigo o cadáver de um menino jovem, da altura do filho da duquesa Evgenia, com o mesmo tom de pele, apesar do rosto diferente.

Com a certeza de que ninguém incomodaria os hóspedes, aquela mesma criada bondosa de mais cedo despiu o corpo adormecido do pequeno duque russo, trocando suas roupas pelas de Oliver, seu próprio sobrinho. Com uma tesoura, cortou algumas mechas dos fios prateados do russo, espalhando-as na cena que montava aos poucos. Sem hesitação alguma, cravou uma faca de metal no coração da duquesa, girando-a, repetindo o processo em seu marido e esfaqueando seus corpos em seguida, estripando-os até que os órgãos saíssem para fora e ficassem desfigurados, deixando o sangue manchar os lençóis alvos da cama.

Do outro lado do aposento, tirou Viktor de seu leito confortável com facilidade, substituindo seu corpo pelo do sobrinho, decapitando este último com o auxílio de um cutelo retangular de cozinha, espalhando o líquido vermelho por todo lado. Dando-se por satisfeita e tomando cuidado com as provas que deixaria no local, Cecilia enrolou a cabeça de Oliver em um lençol, junto com a lâmina utilizada no crime. Conhecendo o palácio como ninguém mais, sabia da existência de passagens secretas em cada ambiente, facilitando a fuga em situações de emergência. E foi por uma dessas passagens secretas que ela carregou Viktor adormecido em seus braços, levando-o para longe de seus pais sem que os guardas ou a rainha sequer suspeitassem do crime que havia acontecido ali.

O russo, que ainda sonhava com o summer pudding² que havia comido no jantar, mal fazia ideia de que sua vida estaria mudada para sempre dali em diante. Quando acordou, com a inocência e tranquilidade de uma criança nobre, assustou-se ao se perceber dentro de uma gaiola, nu, sendo exibido a pessoas que nunca havia visto na vida como se fosse algum tipo de ave rara. Seus braços e pernas estavam amarrados, de forma a impossibilita-lo de se mover, assim como havia uma mordaça em sua boca, e mesmo que gritasse, tudo o que poderiam escutar era um som fraco e abafado.

Demorou algum tempo até perceber que aquilo se tratava de um leilão e que a mercadoria em questão era ele próprio. O que havia acontecido com sua família? Onde estava a rainha? Aquele lugar ficava longe do palácio? – perguntas como essas enchiam sua mente, atormentando-o, insistindo em lhe consumir, junto das vozes alheias presentes ali, na mais completa anarquia. Não foi de surpreender quando seus olhos se lacrimejaram, iniciando um choro desesperado. Onde estariam seus pais? Para onde os levaram? Ele estava sozinho?

Estava sozinho.

Sozinho.

Parando para pensar, em que momento ele não estivera sozinho? Com o peso de seu título de nobreza, Viktor teve uma infância cheia de obrigações. Seus amigos eram as crianças do palácio, que o esnobavam constantemente por sua inteligência acima do comum, ou ao menos era o que julgava ser o motivo. Os empregados o achavam bonito e inteligente, o elogiavam e o colocavam em um pedestal, mas aquele pedestal era inalcançável. Ele estava ali apenas para ser admirado, de longe, por espectadores que se encantavam por sua aparência, por sua reputação, por sua nobreza. Nenhum deles gostava de fato do verdadeiro Viktor Nikiforov, em sua essência nua e crua. Se fosse um garoto de rua qualquer, nunca olhariam para si.

Porque estava sozinho.

Totalmente sozinho.

Nem mesmo seus pais gostavam de si. Principalmente eles, para se dizer a verdade. Estavam sempre ocupados por seus afazeres reais quando estavam na Rússia, de forma que sequer reparavam no filho incrível que tinham. Se orgulhavam pelas palavras que escutavam dos tutores, dos criados, mas não havia tempo para reparar de fato no garoto. Não havia tempo para abraços, não havia tempo para carinho, somente para estudo, mérito e aprendizagem. Um dia ele seria um homem e deveria saber viver no mundo, certo? E naquele mundo habitado por criaturas tão cruéis não havia a necessidade de sentimentos.

As írises turquesa do menino solitário se tornaram opacas quando seu choro finalmente findou, sobrando apenas um resquício do soluço que fora. As vozes do leilão agora eram distantes, contribuindo para o vazio de sua mente e sua alma naquele momento. Era como se nada da sua vida tivesse feito sentido até aquele fatídico dia. E ainda que fosse muito iluminado para perceber a realidade, agora que seu brilho próprio havia cessado, conseguia enxergar com clareza o quão idiota havia sido, em acreditar que todos lhe amavam tanto como queria ser amado. Era tudo uma ilusão criada por sua própria força de vontade.

Apesar da origem nobre, a marca do triângulo iguala todos os seus possuidores, não importando o fato de Viktor ter estado no topo do mundo. A repulsa criada pela marca o impedia de ser amado como queria, mas, ao mesmo tempo, seu otimismo não o deixava perceber o que acontecia. E agora estava ali, humilhado, o estômago vazio roncando pelo longo tempo que não comia, o corpo sujo pelos seus próprios dejetos e os cabelos, outrora prateados, cobertos por cinzas negras, assim como parte do rosto.

Chegou a achar que seu sofrimento não mais findaria, quando a gaiola foi aberta por fim, um homem forte o pegando pelo braço e o carregando para longe. Cortaram as amarras que o prendiam, possibilitando-o de se mover, apesar de no momento seguinte suas pernas cederem pelo esgotamento físico do corpo malnutrido. Não fazia ideia do que aconteceria a si a partir dali, nem queria imaginar. Apenas continuaria naquele vazio cômodo que era sua mente no momento.

Naquele dia, Viktor Nikiforov foi vendido no mercado negro por cerca de cento e cinquenta mil libras em ouro a um jovem casal russo, o homem com seus trinta anos, de cabelos loiros e brilhantes olhos azuis, apesar da expressão severa, chamado Yakov Feltsman, e a mulher, de olhos verdes felinos e madeixas negras, longas e impecáveis, também na faixa dos trinta, de nome Lilia Baranovskaya. Eles eram donos de um cabaré extremamente lucrativo na capital do Cazaquistão, usando-se de trabalho escravo para fazer o local funcionar. E foi lá que Viktor passou os seguintes sete anos de sua vida.

Logo em seu primeiro ano dentro do local – que, salvo o saguão onde ocorriam os shows quase todas as noites, não tinha nada de luxuoso ou requintado como sua casa antiga – teve aulas de dança com Lilia, que o ensinou tudo o que sabia, sendo uma famosa ex-bailarina. Aquelas aulas era o que o mantinha são em meio ao seu mundo virado de ponta cabeça. Ele não era mais um duque, agora era apenas um garoto órfão escravo de um cabaré. Ninguém ali estava disposto a agradá-lo, como faziam no palácio, ainda que obrigados.

E, com o choque de realidades tão diferentes, é óbvio que por vezes chorava, especialmente em seu primeiro ano. Ele não queria ficar ali, só queria sua família e sua antiga vida de volta. Queria tanto que chegava a dar chiliques e gritar com Lilia às vezes, que o repreendia, punindo-o com tapas fortes em seu rosto e em outros lugares de seu corpo.

“O seu eu passado está morto, Vitya, assim como a sua família. Apenas aqueles capazes de renascer quantas vezes forem necessárias se tornam fortes o suficiente e aptos a sobreviverem nesse mundo.” – ela sempre repetia aquilo para o garoto, quase como um mantra. Depois de certo tempo as palavras se enraizaram no platinado, tão fortes que as lembranças de sua vida anterior pareciam muito distantes para serem alcançadas.

Depois do primeiro ano as coisas se tornaram relativamente mais fáceis. Lilia e Yakov sentiam-se felizes com Viktor, já que o garoto era claramente um prodígio, os fazendo lucrar muito alto com os shows na casa noturna. Sem que precisasse fazer muito esforço, o russo acabou se tornando o favorito do corpo de baile, assim como ganhou o melhor aposento daquela espelunca que era o cabaré. Mas quando achou que as coisas estavam estáveis novamente em sua vida, chegou o dia de seu aniversário de dezoito anos, arrastando consigo todas as suas convicções.

Na noite de natal do ano de 1895, Viktor conheceu a Srta. Hayley Ashford, uma cientista que trabalhava com Lilia, utilizando os empregados do cabaré como suas cobaias em experimentos mirabolantes. Era de conhecimento de todos os michês e meretrizes que, ao completar a maioridade, o bailarino em questão tinha de deixar o corpo de baile, passar por um ritual, o qual era secreto, e então teria sua virgindade leiloada, para depois enfim começar a atender clientes regularmente. O russo sabia que isso também aconteceria consigo, mas não fazia ideia de que o rito de passagem seria algo tão cruel como o que experimentou.

Aquela cientista, com cara de boa moça e um sorriso gentil, se transformava em outra quando Lilia a deixava sozinha no sótão com o aniversariante em questão. Sua tagarelice só servia para aumentar o nervosismo de sua próxima vítima, sempre amarrada em uma maca, como um inseto preso na teia de uma aranha. Com Viktor não foi nem um pouco diferente.

“Relaxe, não vai doer pouco.” – as suas palavras, acompanhadas de uma risada macabra, repleta de divertimento, ecoavam nos sonhos do russo até o presente, enquanto ainda se lembrava com clareza da visão da morena com suas inúmeras seringas dolorosas.

E qual era o tão temido rito de passagem? Em palavras simplificadas: aplicação de cera borbulhante nas veias do aniversariante. Claro, aquilo certamente mataria uma pessoa, se não tivesse uma composição diferente da cera comum. Naquele caso, a cera servia para paralisar todas as células do corpo e fazê-las produzir sempre o mesmo código genético, estagnando por completo o envelhecimento, possibilitando que a vítima – porque a aplicação era vista quase como uma tortura – vivesse eternamente jovem.

A invenção de Hayley era o que mantinha todos do cabaré sempre bonitos e atraentes, possibilitando lucros infinitamente melhores do que outras casas noturnas concorrentes. Em compensação, a dor da aplicação era tamanha que ao final os bailarinos sempre se encontravam desmaiados na maca, tendo de serem carregados para seus quartos.

Passando aquele ritual macabro da juventude, onde todos eram forçados a se tornarem demônios atraentes para aquele inferno na terra que era o cabaré, vinha a pior parte: o leilão. Não bastando ter sido humilhado e vendido aos onze anos, a situação aconteceria mais uma vez, agora que tinha completado a maioridade.

E então, na noite da sexta-feira, dia 2 de janeiro de 1896, o ex-duque teve sua virgindade vendida por volta dos duzentos e cinquenta mil rublos. Logo após o leilão, teve de se deitar com um velho nojento, que o tratou sem cuidado algum, agredindo-o e machucando-o quando este tentou resistir ao ato. Ao final daquela noitada catastrófica, mais uma vez só havia sobrado um Viktor humilhado e vazio, lágrimas escorrendo de seus olhos, o corpo coberto de hematomas, a face suja pelo líquido viscoso e esbranquiçado do outro, assim como suas costas e seu interior.

Mas dessa vez, além de todo aquele sentimento ruim, ainda se sentia invadido, como se o maldito velho tivesse pegado os poucos cacos que restaram de sua alma já quebrada e os reduzido à pó. Pó este que o vento soprava animadamente para longe da carcaça dolorida e machucada que sobrara.

Renasça. Renasça das cinzas.

Renascer das cinzas foi o que restou para Viktor Nikiforov. Nada iria mudar, se continuasse no chão, chorando por causa do abuso que sofreu. Teria de se reconstruir novamente, se tornar outra pessoa, mais forte, melhorada. E foi o que fez. A partir daquela noite trágica, o russo decidiu que mudaria sua postura e agiria como um conquistador, chamando o máximo de atenção para si. Sabia que, se tivesse sorte em encantar algum cliente rico, este poderia comprar a sua liberdade e tirá-lo de lá. Felizmente, não demorou muito para que esse fato se concretizasse.

Na sexta-feira do dia 16 de agosto do mesmo ano, algo surpreendente aconteceu. Naquele lugar tão decadente que era o cabaré, um homem da alta sociedade estava sentado em uma das mesas vips, os cabelos tom loiro claro penteados para trás, a pele tão clara que atingia um tom rosado, os olhos de um magnífico violeta, raros. Um jovem albino, de nome Louis. Ele observava todos os bailarinos como se procurasse por algo em específico em suas aparências, e quando estes interagiam consigo, os afastava brutalmente, como se temesse pegar uma doença contagiosa.

Aquele comportamento incomum intrigou Viktor, que o observava de longe, com certa curiosidade. Ainda que parecesse ríspido e desagradável, aquele cliente era bonito, sentado em sua cadeira, a bengala apoiada entre as pernas, ao contrário dos tantos velhos a quem estava habituado. Foi por esse critério que aceitou o desafio de conquistar aquele cavalheiro e o levar para o quarto consigo.

Aproximou-se do jovem por trás, pousando as mãos em seus ombros, ciente de que naquela noite era um dos michês mais bonitos presentes. Tinha parte dos cabelos prateados trançados, entremeados por fios de ouro, usando um espartilho branco underbust e uma lingerie rendada, com direito a meias 7/8 e cinta-liga.

— Parece não estar se divertindo, senhor. – sussurrou, próximo ao ouvido do homem, que nem se deu ao trabalho de olhar para Viktor.

— Não lhe interessa. – respondeu em um tom seco, com a voz firme.

O platinado suspirou, caminhando para a frente do cavalheiro e puxando uma cadeira para si, onde sentou-se de frente para o loiro, as pernas cruzadas, encarando-o com seus orbes azuis turquesa, quase como se tentasse arrancar de dentro daquela mente algum segredo.

— Na verdade, me interessa sim. Somos castigados se o cliente não é entretido, meu senhor. – respondeu, com um sorriso de divertimento no rosto. Aquele desafio era um prato cheio para o russo, que estava constantemente entediado naquele lugar.

Louis o analisou com seus olhos críticos, em silêncio, reparando em cada detalhe de Nikiforov, até que algo em específico lhe chamou a atenção: a ponta do que parecia ser uma tatuagem na parte interna de sua coxa, o resto sendo escondido pela meia branca que usava. O cenho se franziu assim que pensou na possibilidade daquele rapaz ser quem procurava.

— Abra as pernas. – disse, em uma ordem ríspida, que fez o platinado sorrir, cantando a vitória antes do tempo.

Obedeceu ao comando, descruzando as pernas e mantendo-as separadas. Sem muita paciência, o jovem albino ajoelhou-se entre as pernas do russo, os dedos longos e gélidos alcançando sua coxa direita, desprendendo a cinta-liga e abaixando a meia até revelar totalmente o triângulo equilátero na perna do michê. Não conteve um sorriso de satisfação, antes de se levantar e estender a mão para Viktor.

— Vamos para um quarto, precisamos conversar. – deu o veredito, ao qual o russo acatou em silêncio, levantando-se e segurando naquela mesma mão gelada que havia lhe tocado segundos antes.

Acreditava que estavam indo ao quarto para transar, mas ao chegar no ambiente, após a porta ser trancada, o russo se surpreendeu mais uma vez com o que aconteceu. A figura de Louis, em todo seu mistério que era, tremulou, mudando de forma aos poucos. Os cabelos loiros cresceram em madeixas lisas, de cachos nas pontas, uma franja reta lhe tapando a testa. As roupas de cavalheiro se foram, dando lugar a um vestido requintado de tons rosados e violetas, como o de uma daquelas inúmeras damas da corte. Seu corpo deveria ter diminuído uns dez ou quinze centímetros, ganhando formas femininas.

O platinado abriu a boca, como se quisesse falar algo, mas as palavras não saíram. Ele estava totalmente chocado com o que havia acontecido, aquilo era totalmente surreal para si. Quer dizer, há segundos atrás aquela belíssima mulher era um homem! – notando o quanto o russo parecia confuso, a dama, que não deveria passar de seus dezessete anos, riu de forma recatada, sentando-se na cama.

— É um prazer conhece-lo, Duque de Oldenburg. Eu sou Louise Blanc Archambault e vim salvá-lo desse inferno. – ela disse com sua voz firme, determinada.

Naquele momento, Viktor só conseguia pensar que, qualquer que fosse o plano daquela menina, ele o acataria sem reclamar. Daria tudo, até mesmo o restante de sua alma, se em troca pudesse se ver livre daquele lugar.


Notas Finais


¹ O Palácio de Inverno é esse aqui: http://tunnel.ru/media/images/2017-11/post/815/zimniy---..jpg
Hoje em dia ele é um museu, que eu quero muito visitar, aliás~
² Summer pudding é um doce típico inglês, feito de fatias de pão entremeadas por frutas vermelhas, com uma calda das frutas também. É muito bonito e parece delicioso: http://www.sanjeevkapoor.com/UploadFiles/RecipeImages/Summer-Pudding.JPG

Bom dia para vocês, meus amados cupcakes ♥
Eu queria primeiramente agradecer os 55 favoritos em menos de cinco capítulos, porque nossa, isso é incrível ♥
Como sendo originalmente uma escritora do Nyah, eu tava acostumada a receber 10 favoritos ao longo de uns quinze capítulos - sim, é flop desse jeito mesmo -, então eu estou super animada e feliz por ter 55 pessoas que gostem do que eu escrevo.
Vou agradecer também pelas mais de 600 visualizações e as 93 bibliotecas, cara, isso é muito surreal!
VOCÊS SÃO OS MELHORES ♥

Deixando de enrolação, vamos falar sobre o capítulo:
Hoje lhes trago a primeira parte do que aconteceu com nosso Viktuuri desde o incêndio no cabaré, junto com a história do Vitya, que eu estava ansiosa pra contar

Tentei resumir ao máximo os acontecimentos, destacando só os importante, porque né, se eu fosse relatar tudo detalhe por detalhe iríamos ter trinta capítulos de passado -q

Ainda tive que dividir esse capítulo em dois, pra não ficar muito grande, sabendo que a história do Viktor me custaria pelo menos um capítulo inteiro, já que eu precisava explicar tudo certinho, pras peças se encaixarem sem deixar buracos :3

E foi isso, aliás, queria dizer que esse é um dos capítulos mais importantes da história e o mais importante até o momento, porque ele é fundamental pro desenvolvimento tanto do Viktor como do Yuuri - e falaremos mais do Yuuri no próximo capítulo, que finaliza as memórias de um século -q

Espero que tenham gostado e juro que não vou demorar pra postar o próximo, até porque eu to muito ansiosa pra terminar o primeiro arco da fanfic, então estou escrevendo como nunca -q

Até depois, meus amores ♥
Críticas, choro, otaberros, ameaças e o que for, só gritar aí na caixinha dos comentários que eu vou responder todo mundo -w-


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